Maigret e o Homem Solitário
Sete
O ADVOGADO consultou seu relógio que, com o o de Maigret, deveria m arcar
seis e dez. Era j ovem , ainda, e se esforçava em parecer im portante. Levantou-se com agilidade.
— Term inou com o m eu cliente, com issário?
— Não sei.
— Vej o-m e obrigado a sair, pois tenho um encontro, dentro de vinte m inutos em m eu escritório, e não posso faltar. O com issário esboçou um gesto vago, significando:
— O problem a é seu. Loiseau se virou para Mahossier.
— Um bom conselho. Se lhe fizerem m ais perguntas, não responda. Pela lei, ninguém pode obrigá-lo a falar.
Mahossier perm aneceu im óvel. Tornara-se m ais grave, m enos agressivo. Dava a im pressão de que com eçava a entender a seriedade da situação; com preendia tam bém que seu advogado se valia das circunstâncias para ganhar prestígio. Loiseau partiu com o m esm o ar de superioridade com que chegara. Com o quem não quer nada. Maigret m urm urou:
— Um bom conselho. Se levarem -no a j úri, m ude de advogado. Este só conseguirá indispor os m agistrados e os j urados...
E acrescentou:
— É seu direito, na verdade, nada dizer. Isto, porém , poderia ser considerado com o um indício, ou m elhor, um a prova de culpa. Não lhe farei m ais perguntas, m as se o desej ar, pode m e interrom per.
Observava atentam ente Mahossier. Sua hostilidade, em relação a La Baule e ao início do interrogatório, dim inuíra bastante. Lem brava agora um a criança que continua de cara feia, apesar de saber que não tem razão.
— O com issário Piedboeuf foi um excelente policial, que não se j ulgava infalível e a quem só a verdade interessava. Aliás, Nina Lassave tinha um a m ancha roxa na face esquerda, não?
— É um a arm adilha?
— Nada disto. O inquérito conduzido pelo m eu colega prova que o senhor foi am ante da j ovem .
— A porteira m orreu.
— Mas os depoim entos continuam válidos. Eis o resum o de um a acareação entre vocês dois. Desafiando-a, o senhor perguntou:
“— Com o soube m eu nom e?”
O senhor tinha certeza de que ela não conseguiria responder. No entanto, vej a com o replicou:
“— Certo dia, m e encontrava em m eu cubículo com um a am iga que de vez em quando lancha com igo, e lhe posso fornecer seu nom e e endereço, quando este hom em passou (ela apontou para o senhor) e vim o-lo claram ente através a porta envidraçada. Ela ficou surpresa. — Ora! Mas é o m eu pintor... Foi ele quem pintou m inha cozinha e atapetou a sala de j antar. Cham a-se Louis Mahossier e é em pregado de um a firm a lá pelos lados de Batgnolles...”
— Esta am iga, Lucile Grosset ouviu e confirm ou o diálogo. Assim , foi graças a ela que o localizaram tão rapidam ente. No dia em que, por volta das quatro horas, Nina foi estrangulada, o senhor trabalhava na Rua Baliu, o apartam ento da viúva Grosset. Com o ela fora às com pras, o senhor velozm ente saiu e...
Mahossier olhava-o, franzindo as sobrancelhas. Parecia não entender algo.
— Posso ainda citar o testem unho da porteira. O carteiro trouxera um a carta expressa para um inquilino do terceiro andar. Ela, ao descer, cruzou com o senhor que se dirigia ao apartam ento de Nina. Continua negando?
Não houve resposta. A m edida que Maigret falava, se tornava m ais calm o, m as sem pre alerta.
— Dois hom ens enfeitiçados. Não sei qual o seu dom para desencadear tais paixões, m as por ela Marcel Vivien abandonara a m ulher e a filha. Ela, entretanto, nem desej ava viver com ele. Nunca passou um a noite inteira em sua com panhia. Na sua tam bém não, se diga de passagem . Talvez resquícios de educação...
Maigret falava com voz um pouco abafada. De vez em quando virava, m aquinalm ente, as folhas da pasta que tinha diante de si.
— Voltando à tarde do crim e; Marcel Vivien possuía realm ente um álibi, m as com algum as falhas ... Mahossier redobrou a atenção. — Esta m anhã deparei com um a anotação feita pelo m eu colega Piedboeuf na m argem de um a das páginas. Leio-a para o senhor:
“Um antigo frequentador do bar do Boulevard da Chapelle se apresentou espontaneam ente e, com o de hábito, um tanto bêbado. Cham a-se Arthur Gilson, vulgo “Perna-de-Pau”; um defeito obriga-o a andar com o se usasse um a perna artificial. Afirm a que no decorrer desta m esm a tarde, ao redor das três e m eia, Marcel Vivien entrou no bar e tom ou dois conhaques, um após o outro. Fato surpreendente pois o m arceneiro, habitualm ente, só ingeria café. Segundo ele, Vivien se dirigira em seguida para o Boulevard Rochechouart”.
Maigret se calou fitando insistentem ente Mahossier.
— Devo dizer-lhe que nenhum dos presentes naquele m om ento no bar confirm ou a história. Ou m elhor, o dono adm itiu que a cena ocorrera, m as no dia seguinte ao assassinato. Dos dois, um está certo e o outro errado. Meu colega parece ter acreditado no dono... Mahossier não se conteve e perguntou:
— E o senhor?
— Sinto-m e inclinado a crer no “Perna-de-Pau”. Em bora velho, era lúcido. Já m orreu. Só tem os a anotação do com issário Piedboeuf... Vivien se tornara am ante de Nina há seis m eses. Após cortar todos os laços com a fam ília, considerava-a com o propriedade sua... Ela encontrou o senhor e se entregou, em bora m antendo relações íntim as com Vivien... Este, raram ente visitava-a durante o dia. Saíam à noite, j antavam j untos...
A fisionom ia de Mahossier endureceu novam ente.
— Durante o inquérito a porteira não se recordou de tê-lo visto entrar ou sair. Perguntaram -lhe o que fazia durante o dia; respondeu que tricotava perto da j anela, ouvindo rádio. Ora, dali, dificilm ente controlaria as pessoas que passavam ...
— E onde pretende chegar?
— A suspeita de que Vivien assassinou a am ante, que tam bém era sua. Provavelm ente notou-o deixando o prédio... Mas isto nunca saberem os. Dom inaram -no, entretanto, a fúria e a dor. Talvez viesse ao Boulevard Rochechouart sem a intenção de m atá-la, pois não carregava arm a algum a. Talvez desej asse surpreendê-los j untos. Deparou com ela, nua, sobre o leito. Ora, se não aguardava a visita dele, Mahossier, por que estaria assim ? Pensava em tudo que fizera por ela. Sentia vergonha em ter abandonado a m ulher e a filha sem recursos. E agora ela enganava-o com qualquer um . É im possível descobrir o que se passou entre eles. De qualquer form a, Nina Lassave não conseguiu acalm á-lo. Não o tem ia, tam bém , com o prova a posição em que foi encontrada... Acontece, porém , que o descontrole levou-o a estrangulá-la... Era um ponto final em sua vida... Im possível retornar à Rua Caulaincourt ou à oficina da Rua Lepic... Nada m ais o interessava... Talvez nem se preocupasse m uito se acusassem o senhor do assassínio que com etera...
— Foi m ais ou m enos o que aconteceu, não só naquela época, m as tam bém agora, com o senhor, com issário. E eu sem pre neguei o fato.
— Quando descobriu sua m orte?
— Um quarto de hora m ais tarde. Vi Marcel Vivien saindo às pressas e se afastando em direção à Praça Blanche. Quis perguntar a Nina o que acontecera. Entrei, e, subindo as escadas, cruzei com a porteira. Chegando ao apartam ento, deparei com a porta entreaberta, o que estranhei... Logo depois dei com o corpo... Apaguei então m inhas im pressões digitais, lim pando tudo em que tocara, m esm o nos dias anteriores... E com isto, devo ter elim inado tam bém as de Vivien...
— Por que não o acusou?
— Porque decidira fazer j ustiça pelas m inhas próprias m ãos...
O pobre Torrence se esforçava para acom panhar o ritm o rápido do diálogo em que se transform ara o solilóquio de Maigret. O com issário encontrara a fenda e Mahossier perdera toda a aspereza.
— Sua paixão era tão grande assim ?
— Foi a única m ulher que realm ente am ei...
— E sua esposa?
— Gosto dela e acho que é recíproco; m as, de am bas as partes, não é aquela paixão...
— Já se passaram vinte anos, Mahossier.
— Eu sei. Mas ainda penso nela todos os dias.
— E não j ulga que com Vivien fosse idêntico? Um am or, tão grande com o o seu, levou-o ao crim e. E nem tentou refazer sua vida. Preferiu afundar im ediatam ente... Foi um m endigo quem encontrou, por acaso, vinte anos m ais tarde...
* * *