Maigret e o Homem Solitário

Georges Simenon · Capítulo 3 de 10

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Maigret e o Homem Solitário

Um

 

N ÃO PASSAVAM ainda das nove da m anhã e j á fazia calor. Maigret, que

tirara o paletó, exam inava lentam ente a correspondência, olhando de vez em quando pela j anela; as folhagens das árvores do Quai des Orfèvres não se m exiam , o Sena im óvel e liso com o seda. Transcorria o m ês de agosto. Lucas, Lapointe e m ais da m etade dos inspetores estavam de férias. Janvier e Torrence tiraram as suas em j ulho e Maigret esperava passar boa parte de setem bro em sua casa de Meung-sur-Loire, que m ais parecia um presbitério.

Há m ais de um a sem ana, diariam ente, no fim da tarde, um tem poral rápido e violento caía e a chuva ruidosa obrigava as pessoas a correrem rente às casas. O calor m ais intenso chegava ao fim e a tem peratura, pelo resto da noite, se tornava am ena. Paris se esvaziara. Até os ruídos das ruas não eram os m esm os. A estes se entrem eavam súbitos silêncios. O que m ais se via, eram os ônibus de todas as cores e de todas as nacionalidades que paravam invariavelm ente nos m esm os lugares para despej ar seus turistas: Notre-Dam e, o Louvre, a praça de la Concorde, o Arco do Triunfo, o Sacré-Coeur e, inevitavelm ente, a torre Eiffel. Quando se passeava pelas ruas, chegava a ser um a surpresa ouvir falar francês.

O chefão da Polícia Judiciária tam bém se encontrava de férias, o que os liberava do relatório cotidiano. As cartas eram poucas e os delitos m ais frequentes os furtos. A cam painha do telefone sacudiu o com issário do seu torpor. Tirou o aparelho do gancho.

— É o com issário da prim eira circunscrição; quer lhe falar pessoalm ente... Pode atendê-lo?

— Posso, sim .

Maigret conhecia-o bem . Um hom em um tanto vaidoso, que se vestia com elegância e tam bém m uito culto; m ilitara durante vários anos com o advogado antes de ingressar na polícia.

— Alô!... Ascan?...

— Atrapalho?

— Não m esm o...

— Telefono-lhe, pois achei que o caso surgido hoj e de m anhã interessá-lo-ia de perto...

— De que se trata?

— Um assassinato... Mas não um crim e com o os outros... Seria m uito com plicado lhe explicar desta form a... Quando terá um tem po livre?

— Agora.

— Peço desculpas por m arcar o encontro no m inha sala, m as tudo aconteceu num a ruela quase desconhecida, perto Les Halles...

— Chegarei em alguns m inutos.

Resm ungou com o se estivesse aborrecido; m as, na realidade, foi com satisfação que abandonou um pouco a rotina dos últim os dias. Entrou na sala dos inspetores. Norm alm ente, levaria Janvier, m as precisava que um hom em , de inteira confiança, capaz de iniciativas perm anecesse no Quai des Orfèvres durante sua ausência.

— Venha com igo, Torrence... Apanhe um dos carros do pátio...

A delegacia não ficava longe, na Rua dos Prouvaires. Maigret se dirigiu logo ao escritório do com issário Ascan.

— Vai deparar com o espetáculo m ais surpreendente de sua vida. Prefiro nada dizer, ainda. Olá, Torrence! É m elhor deixar o carro... Fica logo ali...

Contornaram Les Halles cuj o cheiro, devido ao calor, era m uito forte; se trabalhava, aqui, apesar do m ês de agosto... Passaram por pequenas ruas, estreitas, ladeadas por loj inhas e casas de côm odos, m ais ou m enos suspeitas. Viam -se alguns m endigos e um a m ulher, com pletam ente em briagada se apoiava nos m uros para não cair.

— Por aqui...

Chegaram à Rua da Grande-Truanderie e Ascan se m eteu por outra, tão estreita, que não perm itia a passagem de um cam inhão.

— A Travessa do Vieux-Four, anunciou.

Nada m ais do que um as dez velhas casas; no m eio, o vazio deixado por um prédio j á dem olido. Os dem ais im óveis teriam o m esm o destino, e se achavam , assim desabitados. Em alguns casos, andaim es foram erguidos para im pedir que as paredes ruíssem . A habitação diante da qual o com issário parou, não possuía m ais j anelas e nem m esm o um a parte de suas m olduras. A porta de entrada fora substituída por tábuas; Ascan retirou duas, despregadas, atrás das quais existia um largo corredor.

— Cuidado com a escada! Faltam três degraus e os outros não são lá essas coisas...

Reinava um odor de podridão e de poeira, se acrescentando, ainda, o proveniente de Les Halles.

Subiram dois andares. Um m enino de seus doze anos, sentado contra a parede rachada, se pôs de pé, num pulo, os olhos brilhando, ao notar a aproxim ação dos três hom ens.

— O senhor é o com issário Maigret, não é?

— Sou.

— Se m e dissessem que um dia, veria o senhor em carne e osso... Colo em um caderno todas as suas fotos publicadas nos j ornais... Ascan explicou:

— É o j ovem Nicolier... Seu nom e é Jean, certo?

— Sim , senhor.

— O pai é açougueiro, na Rua Saint-Denis. Foi o único, no bairro, que não fechou em agosto... Conte-nos, Jean...

— Aconteceu com o j á disse... A m aioria dos m eus colegas viaj ou... Com o não posso brincar sozinho, ando por aí... Procuro locais que não conheço, apesar de ter nascido aqui... Hoj e de m anhã reparei nesta casa... Ao tentar retirar as tábuas que servem de porta descobri que não estavam pregadas... Entrei... Gritei: “Alguém em casa?...”. O eco devolveu m inha voz. Não procurava por nada em especial. Segui adiante, só para ver. Em purrei esta porta toda estragada, à direita, e foi aí que divisei o hom em ... Desci correndo e cheguei, sem fôlego, à delegacia... — Preciso entrar, novam ente, no quarto?

— Creio não ser necessário...

— Fico aqui?

— Sim ...

Maigret abriu a porta, que nem com o lenha prestava, de tão podre. Deteve-se na soleira e percebeu então porque o com issário lhe quisera fazer esta surpresa.

O côm odo era bastante am plo, com as vidraças das duas j anelas substituídas por cartolina ou papelão. O assoalho irregular, com fendas de vários centím etros entre as ripas, estava entulhado; um a m istura inim aginável de obj etos em sua m aioria quebrados e sem a m enor utilidade. O que logo atraía a atenção, num leito de ferro, coberto por velho colchão, era um hom em com pletam ente vestido e evidentem ente m orto. Sangue coagulado cobrira o seu peito, m as o rosto perm anecera sereno. As roupas, de um m endigo, contrastavam com o rosto e as m ãos. Idoso, de longos cabelos prateados com reflexos azulados. Seus olhos, azuis tam bém ; m as sua im obilidade incom odou Maigret, que os fechou. Usava um bigode branco, ligeiram ente retorcido, e um a barbicha, à Richelieu. Além disto, se apresentava escanhoado, e bem . O pasm o tom ou novam ente conta de Maigret, ao verificar o extrem o cuidado que recebiam as m ãos da vítim a.

— Dir-se-ia um velho ator representando o papel de m endigo, m urm urou. — Encontraram seus docum entos?

— Nada. Nem carteira de identidade. Nem cartas. Meus inspetores que trabalham no bairro, vieram dar um a olhada, m as não o reconheceram . Som ente um , acredita tê-lo visto rem exendo as latas de lixo...

O hom em era m uito alto, de um porte excepcional, sua calça, dem asiado curta, m ostrava um buraco no j oelho esquerdo; o paletó, usado, um verdadeiro trapo, se achava no chão, em m eio à poeira.

— O m édico-legista j á veio?

— Ainda não. Mas deve chegar a qualquer m om ento... Desej ei que o senhor o visse antes de tocarem em qualquer coisa...

— Torrence... Telefone do prim eiro café e envie a turm a da Identidade Judiciária o m ais cedo possível... Peça, ainda, que previnam o Ministério Público...

Este rosto, na cam a de ferro retorcido continuava a fasciná-lo. Os bigodes, a barba, aparados com carinho o que, certam ente, fora feito na véspera. Quanto às m ãos tão cuidadas, de unhas pintadas, não se podia im aginá-las revolvendo latas de lixo. No entanto, o hom em fazia-o há m uito tem po. Os m ais disparatados obj etos entulhavam a peça. Quase todos quebrados. Um velho m oedor de café. Vasilhas de esm alte, com grandes rachaduras, baldes am olgados, um lam pião sem pavio nem querosene, sapatos disparatados.

— Preciso fazer um inventário de tudo isto...

Havia um a pia na parede e Maigret, em vão, abriu a torneira. Com o esperava, a água fora cortada. A luz e o gás tam bém , com o em todos os im óveis destinados à dem olição. Durante quanto tem po m orara ali? O bastante para ter colecionado aquelas velharias. Im possível interrogar porteira ou vizinhos, inexistiam . O com issário se dirigiu ao patam ar e cham ou o j ovem Nicolier.

— Quer fazer um favor? Vá até a calçada, e quando os outros chegarem , dentro de alguns m om entos, traga-os até aqui...

— Sim , senhor...

— Não esqueça de cham ar atenção para os degraus que faltam .

Maigret ia e vinha, tocando certos obj etos; descobriu assim um pedaço de vela e um a caixa de fósforos. A vela fora colada no fundo de um a xícara rachada. Pela prim eira vez, em sua vida, assistia a sem elhante espetáculo; e seu assom bro só fazia aum entar.

— Com o m orreu?

— Várias balas no peito e no ventre.

— Grosso calibre?

— Médio... Provavelm ente um 32...

— Algum a coisa nos bolsos do paletó? Im aginava a cara do com issário, tão elegante e delicado, revistando os trapos im undos.

— Um botão, pedaços de barbante, um a fatia de pão duro...

— Dinheiro?

— Duas m oedas de vinte e cinco cêntim os...

— E nas calças?

— Um m olam bo que devia usar com o lenço, algum as “guim bas” num a lata de pastilhas contra a tosse.

— Carteira?

— Não...

Até os m endigos dos cais, que dorm iam sob as pontes, possuíam um docum ento qualquer, nem que fosse um a sim ples carteira de identidade. Torrence, de regresso, se m ostrava tão pasm ado quanto Maigret.

— Já vêm ...

De fato, Moers e os hom ens da Identidade Judiciária seguiam o j ovem Nicolier, pelas escadas; olharam em volta, perplexos.

— Um crim e?

— Sim ... Suicídio não pode ser; não há arm a algum a no local.

— Por onde com eçam os?

— Pelas im pressões digitais; a prim eira coisa a fazer é identificá-lo...

— É pena estragar m ãos tão bem cuidadas... Tiraram as im pressões assim m esm o.

— Fotografia?

— Claro.

— Sabe, é um hom em bonito, e deve ter sido forte à beça.

Ouvia-se agora os passos prudentes do representante do Ministério Público, do j uiz de instrução Cassure e do escrivão. Os três, com grande espanto, fitavam o espetáculo que se lhes oferecia no quarto.

— Quando foi m orto? Perguntou o representante do Ministério Público.

— Logo saberem os. Eis o doutor Lagodinec. Este era j ovem e cheio de entusiasm o. Apertou a m ão de Maigret, saudou os outros e se dirigiu para o leito. Outro destroço hum ano encontrado na rua, num terreno baldio.

— Identificaram -no?

— Não... Olhavam para o chão, com certo receio. Havia m uitas pessoas no côm odo que oscilava, parecendo prestes a desm oronar.

— Correm os o risco de parar no andar de baixo... Observou o j ovem m édico.

Aguardou que term inassem com as fotos; se aproxim ou então do corpo para iniciar o exam e. Desnudaram -lhe o peito e viram os buracos negros causados pelas balas.

— Utilizaram três cartuchos, a m enos de um m etro de distância; o assassino atirou com cuidado e é bem provável que a vítim a dorm isse. De outra form a, as balas não estariam tão bem agrupadas.

— Morte instantânea?

— Sim . O ventrículo esquerdo foi atingido.

— Acha que os proj éteis atravessaram o corpo?

— Saberei quando virá-lo...

Um dos fotógrafos aj udou-o. Só um a bala traspassara o peito do estranho m endigo; encontrá-la-iam , certam ente, no colchão.

— Tem os água por aqui?

— Não, foi cortada.

— E onde se lava tão cuidadosam ente, pois seu corpo está lim po?...

— Pode estabelecer, aproxim adam ente, a hora da m orte?

— Entre dezenove e vinte e três horas. Maior precisão, só após a autópsia... Foi identificado?

— Ainda não. Vam os fornecer o retrato aos j ornais. Aliás, quando terem os as prim eiras fotos?

— Dentro de um a hora, m ais ou m enos... O fotógrafo partiu enquanto os técnicos procuravam im pressões digitais em todos os obj etos.

— Suponho que não precisa m ais de m im ? Murm urou o representante do Ministério Público.

— E de m im tam bém não? Acrescentou o j uiz Cassure. Maigret, distraído, fum ava lentam ente seu cachim bo. Dem orou alguns segundos antes de perceber que falavam com ele.

— Não. Mantê-los-ei inform ados... E, para o m édico-legista: — O senhor j ulga que estivesse bêbado?

— É pouco provável. Mas o conteúdo do estôm ago é quem vai dizer... A prim eira vista, não m e parece que este hom em bebesse.

— Um m endigo que não bebe, sussurrou Ascan. — Coisa rara...

— E se não fosse um m endigo? Redarguiu Torrence. Maigret, por seu turno, nada dizia. Seu olhar parecia, por assim dizer, fotografar os m enores obj etos, os m ais ínfim os detalhes do côm odo.

Ainda não decorrera um quarto de hora, o pessoal da Identidade Judiciária prosseguia em sua tarefa, quando o furgão do Instituto Médico Legal parou na travessa, e o j ovem Nicolier desceu para m ostrar o cam inho aos dois hom ens que conduziam a m aca.

— Sim , podem levá-lo... Viram -no ainda um a vez de frente, o rosto nobre e a barbicha tão bem talhada.

— Esse “cara” é um bocado pesado, disse um dos carregadores. E foi com dificuldades que desceram com o seu fardo, devido aos degraus que faltavam . Maigret cham ou o m enino.

— Diga-m e, rapaz, existe no bairro um a escola de cabeleireiro?

— Sim , senhor Maigret. Na Rua Saint-Denis, a três passos do nosso açougue.

Dez anos antes, Maigret fora cham ado a um desses estabelecim entos, quando procurava um crim inoso. Haveria outros, em Paris, bem m ais luxuosos. Mas, no bairro Les Halles, não encontraria salões de prim eira categoria. E, certam ente, a escola da Rua Saint-Denis, com o outras, recorria a m endigos para as experiências desaj eitadas dos alunos iniciantes. Havia hom ens e m ulheres, sem falar das futuras m anicures. Mas, antes de para lá se dirigir, Maigret necessitava das fotos. Por enquanto, só restava aguardar o resultado das im pressões digitais. Deixou Moers e sua equipe trabalhando, e desceu com Torrence e Ascan. Sentiram -se aliviados ao respirar o ar relativam ente puro da travessa.

— Por que razão acha que o m ataram ?

— Não tenho a m enor ideia.

No fim da abóbada havia um pátio, entulhado de velhas caixas e outros detritos. Ainda assim Maigret descobriu a resposta para um a das perguntas do m édico. Pregada a um a parede havia um a bom ba e, no chão, um balde em relativam ente bom estado. Experim entou a bom ba. Custou um pouco a pegar, m as finalm ente a água com eçou a j orrar. Não seria este o local onde o desconhecido se lavava? Im aginava-o, de torso nu, se enxugando.

Despediu-se do com issário de polícia Ascan e tom ou a direção da Rua da Grande-Truanderie e, em seguida, Les Halles. Fazia cada vez m ais calor, e com o precisasse telefonar, aproveitou para entrar num bar, de aspecto razoável, e pediu um chope, no que foi acom panhado por Torrence.

— Ligue-m e com a Identidade Judiciária! Mandou em seguida cham ar o inspetor Lebel, que se ocupara das im pressões digitais do hom em . — Alô... Lebel?... Teve tem po de consultar os fichários?

— Acabo de voltar. Nada que corresponda às im pressões do desconhecido. Outra anom alia. A m aioria dos m endigos, em um a ocasião ou outra, j á enfrentou a j ustiça.

— Obrigado... E quanto às fotos?

— Em dez m inutos... Dez m inutos, Mestral?

— Digam os quinze...

A P.J. ficava próxim a e em alguns instantes os dois chegavam ao Quai des Orfèvres. Maigret subiu aos laboratórios e teve que aguardar que os retratos secassem . Deixara Torrence na sala dos inspetores. Apanhou, em triplicata, cada um a das fotos, retornou à P.J. e encarregou o inspetor Lourtie de levá-las aos j ornais, principalm ente os vespertinos.

— Bem , Torrence. Ainda falta um a hora para o alm oço, vam os bater de porta em porta. Passou-lhe um j ogo com pleto. — Mostre-as aos donos das loj as e dos bares próxim os a Les Halles. Encontrar-nos-em os perto do carro...

Ele m esm o, a pé, foi para a Rua Saint-Denis. Estreita, perm anecia ruidosa apesar das férias, pois a pequena população do bairro não era a que frequenta norm alm ente as praias. O com issário olhava a num eração. O que lhe indicaram pertencia a um a loj a de sem entes. À esquerda da vitrina, se abria um corredor que conduzia a um pátio. No m eio do cam inho, um a escada, com duas placas esm altadas fixadas à parede, outrora verde, m as agora de um a cor indefinida.

JOSEPH

ESCOLA DE CABELEIREIRO E DE MANICURE

E um a seta indicava a escada, ao lado das palavras: “Na sobreloj a”. Logo abaixo, a outra:

VIÚVA CORDIER

FLORES ARTIFICIAIS

Aqui, tam bém um a flecha apontava para os degraus, inform ando: “Segundo andar”. Maigret enxugou o suor, subiu à sobreloj a, em purrou um a porta e se encontrou num côm odo espaçoso, som brio apesar das duas j anelas. A luz, provinha de dois lustres desbotados que pendiam do teto. Deparou com duas filas de poltronas, aparentem ente um a para os hom ens e outra para as m ulheres. Rapazes e m oças trabalhavam sob a direção de hom ens m ais idosos, e um personagem baixo e m agro, quase calvo, com os bigodes pintados de preto, supervisionava o conj unto.

— Suponho que sej a o dono?

— Sim , sou o senhor Joseph.

Tanto podia ter sessenta com o setenta e cinco anos. Maigret, m aquinalm ente, olhava os hom ens e m ulheres sentados nas cadeiras, certam ente com pradas de segunda m ão. Julgava se encontrar no Exército da Salvação ou sob as pontes, pois em m endigos de am bos os sexos, os aprendizes m anej avam pentes, tesouras e navalhas. Era m ais im pressionante ainda, devido à péssim a claridade. Por causa do calor as duas j anelas se achavam abertas trazendo os ruídos da rua, o que tornava o am biente da escola ainda m ais irreal. Antes que Joseph perdesse a paciência, Maigret tirou as fotos do bolso, passando-as ao hom enzinho.

— O que preciso fazer com elas?

— Olhe-as... Diga-m e depois se o reconhece?

— E ele, o que fez? O senhor é da polícia, não? Mostrava-se visivelm ente desconfiado.

— Com issário Maigret, da Polícia Judiciária. O que pouco im pressionou o senhor Joseph.

— Procura-o?

— Não. Infelizm ente j á o encontram os. Levou três tiros no peito.

— E onde aconteceu?

— Na casa dele... Se assim podem os dizer... O que sabe de sua residência?

— Nada...

— Instalara-se num im óvel em vias de dem olição. Um guri que brincava pelo prédio descobriu-o e avisou a polícia. Conhece-o?

— Sim ... Aqui, cham avam -no de Aristo.

— Vinha com frequência?

— Dependia. Certas ocasiões sum ia durante um m ês inteiro; em seguida, aparecia duas ou três vezes por sem ana.

— Sabe o seu nom e?

— Não.

— E o sobrenom e?

— Não.

— Falava parcim oniosam ente?

— Não falava nada. Sentava-se na prim eira cadeira livre, fechava os olhos e perm itia que agíssem os à vontade. Fui eu quem pediu que deixasse crescer os bigodes e a barbicha. Está novam ente na m oda e os j ovens barbeiros devem saber apará-los, o que é m ais difícil do que se pensa.

— Há quanto tem po?

— Uns três ou quatro m eses.

— Antes, não usava barba?

— Não... Tem m agníficos cabelos, m uito j eitosos.

— Faz tem po que frequenta sua escola?

— Cerca de quatro anos.

— O senhor só atende m endigos...

— Quase exclusivam ente. Sabem que no fim da m anhã ou da tarde, lhes dou sem pre um a m oeda de cinco francos.

— A ele tam bém ?

— Claro.

— Ele conhecia alguns dos seus habitués?

— Jam ais o vi falando com alguém ; e quando lhe dirigiam a palavra fingia não ouvir.

Quase m eio-dia. As tesouras funcionavam m ais rapidam ente. Dentro de m ais alguns m inutos, seria a debandada, com o na escola...

— O senhor m ora por aqui?

— Sim , com a m inha esposa, no prim eiro andar deste im óvel, bem em cim a de suas cabeças.

— Já lhe aconteceu encontrar nosso hom em pelas ruas do bairro?

— Acho que não. De qualquer form a, se aconteceu, o fato não m e im pressionou. Queira m e desculpar, m as está na hora...

Foi apertar um a cam painha e se instalou atrás de um a espécie de balcão, diante do qual um a fila se form ou.

Maigret desceu lentam ente. Após tantos anos de Polícia Judiciária, incluindo o serviço de ruas e estações, j ulgava conhecer toda a fauna de Paris. Ora, não se recordava de ter encontrado um hom em parecido com este tal de Aristo. Cam inhou vagarosam ente para o carro, estacionado na esquina da Rua Ram buteau. Torrence chegou quase ao m esm o tem po, lim pando o suor da testa.

— Algum a novidade?

— Prim eiro a padaria, na Rua do Cy gne, onde com prava pão.

— Diariam ente?

— Quase. E sem pre no fim da m anhã.

— A dona da padaria nada sabe a seu respeito?

— Nada m esm o. Só abria a boca para fazer sua encom enda.

— Nunca com prara outras coisas?

— Ali, não. Na Rua Coquilière adquiria fatias de salam inho, ou pasta de fígado. Na esquina existe um a carrocinha de batatas fritas que, principalm ente à noite, vende salsichas quentes. Às vezes, por volta das três da m adrugada, levava um saco de batatas e um a salsicha... — Mostrei as fotos em dois ou três bares. Viam -no regularm ente, e sem pre pedia um a xícara de café. Não tom ava vinho nem álcool...

O personagem se tornava cada vez m ais estranho. Aristo, para usar a linguagem do senhor Joseph, parecia não ter contato algum com outros seres hum anos. Devia trabalhar, durante a noite, em Les Halles, quando encontrava em prego, descarregando cam inhões de legum es ou frutas.

— Preciso telefonar para o Instituto Médico Legal, lem brou o com issário. Isto lhe perm itiria o segundo chope da m anhã... — O doutor Lagodinec, por favor...

— Espere, vou cham á-lo. Está j ustam ente de saída.

— Alô! Lagodinec? Fala Maigret... Suponho que ainda não iniciou a autópsia...

— Hoj e à tarde...

— Poderia não tocar no rosto? Necessito de outras fotos.

— É fácil. Quando enviará os fotógrafos?

— Am anhã cedo, em com panhia de um aprendiz de cabeleireiro...

— O que pretende?

— Raspar-lhe a barba e os bigodes...

Torrence deixou-o em frente de casa, no Boulevard Richard-Lenoir.

— Continuo, depois do alm oço? Perguntou.

— Sim ...

— Sem pre no m esm o bairro?

— Pelos cais, tam bém . Talvez dorm isse por lá, num a certa época.

A senhora Maigret logo constatou sua inquietação; não o dem onstrou, porém .

— Com fom e?

— Não m uita. Era ele que se sentia im pelido a relatar os acontecim entos da m anhã.

— Acabo de encontrar um dos tipos m ais estranhos que j am ais conheci...

— Um crim inoso?

— Não. Um a vítim a. O hom em m orreu... Instalara-se num a casa vazia, de há m uito destinada à dem olição. Ocupava a única peça m ais ou m enos habitável, e colecionava os obj etos m ais heterogêneos possíveis, que apanhava nas latas de lixo e nos terrenos baldios...

— Um m endigo, em sum a.

— Só que apresentava um aspecto bastante distinto. Contou a história da escola de cabeleireiro, e m ostrou as fotos à sua esposa. — Claro que é difícil j ulgar pelas fotos de um m orto...

— Lá em seu bairro, devem conhecê-lo, não?

— Ninguém sabe seu sobrenom e, nem m esm o seu nom e. Na escola cham avam -no de Aristo... Os retratos serão publicados nos j ornais da tarde. Im agino som ente se os leitores reconhecê-lo-ão...

Com o dissera, com eu com pouco apetite. Detestava não entender as coisas. Ora, nada com preendia no que dizia respeito à sua descoberta m atinal.

Às duas horas, sentado em sua sala, encheu o cachim bo e term inou a leitura da correspondência. Ao lhe m ostrarem os j ornais, constatou que dois publicaram a foto na prim eira página. “Conhecem este hom em ?” perguntava um . O outro anunciava: “Um m orto sem nom e”.

Havia j ornalistas no corredor e Maigret recebeu-os. Quase nada havia a declarar, a não ser que se esforçava na identificação do hom em da Travessa do Vieux-Four.

— E a hipótese de suicídio?

— Não encontram os arm a algum a, não só no quarto, com o em todo o prédio.

— Podem os fotografá-lo?

— O corpo j á foi retirado, é claro.

— Retratos do am biente...

— Se quiserem ... Há um guarda na entrada. Digam que vieram em m eu nom e.

— O senhor parece preocupado.

— Procuro com preender, e espero consegui-lo, cedo ou tarde. Desta vez não escondo o j ogo. Disse-lhes tudo o que sabia. Quanto m ais falarm os, m elhor será...

Por volta das quatro horas, com eçaram os telefonem as. Alguns partiam de engraçadinhos, outros dos am alucados que sem pre surgem em casos sem elhantes. Um a j ovem indagou:

— Ele tem um a verruga na face?

— Não.

— Não se trata, então, de quem eu pensava... Quatro ou cinco pessoas com pareceram à Polícia Judiciária. Maigret recebeu-os pacientem ente, m ostrando as diferentes fotos.

— Reconhecem -no?

— Existe um a certa sem elhança com um de m eus tios que j á sum iu várias vezes... Mas, não... Não é ele... Era alto, não?

— Um m etro e oitenta, m ais ou m enos.

— Meu tio era baixo e m uito m agro...

Pela prim eira vez, durante a sem ana, a tem pestade não se desencadeou e estava terrivelm ente abafado. Pelas cinco horas, Torrence regressou.

— Encontrou algo?

— Quase nada... Sob a Pont-Marie, um velho m endigo se lem brou vagam ente do nosso hom em , m as não sei até onde m erece confiança. Parece que anos atrás o desconhecido dorm ia sob as pontes... Não era m uito sociável. Calculavam que passasse um a parte das noites em Les Halles, m as é tudo que se pode afirm ar...

— Nem nom e, nem sobrenom e, nem apelido...

— Um apelido, sim : o m udo.

— Nada m ais?

— De vez em quando com prava um a vela.

Às seis, obteve, finalm ente, novidades m ais precisas. O doutor Lagodinec, term inada a autópsia, lhe telefonava.

— Envio o relatório com pleto am anhã de m anhã. Mas posso adiantar, grosso m odo, o que sei. Em m inha opinião, o hom em é m enos idoso do que parece. Quanto calcula que tem , Maigret?

— Sessenta e cinco? Setenta anos?

— Pelo estado dos órgãos e das artérias, no m áxim o, cinquenta e cinco.

— Levou, naturalm ente, um a existência difícil... O que encontrou no estôm ago?

— Devo dizer, em prim eiro lugar, que foi m orto entre as duas e as cinco da m adrugada; ou m elhor, antes três do que cinco... Sua últim a refeição, sem i-digerida, se com punha de fritas e salsicha. Deve tê-los ingerido por volta das duas horas, antes de voltar para casa e se deitar.

— E aproveitaram seu sono para...

— Para que? Obj etou o m édico. — Seu visitante talvez fosse alguém em quem confiasse; assim ...

— Não posso im aginá-lo confiando em quem quer que sej a... E quanto a doenças?

— Nenhum a... Nenhum a deform ação, tam bém ... Um hom em bem forte e particularm ente resistente.

— Muito obrigado, doutor. Aguardo seu relatório. Se quiser, aliás, m ando apanhá-lo am anhã...

— Mas não antes das nove, por favor...

— Certo. Às nove, então...

O que m ais im pressionara Maigret fora a idade de Aristo. Aparentava ser m endigo há m uitos anos e estes, geralm ente, são bem m ais velhos. Tendem , tam bém , a se ligar uns com os outros. De um a ponta do cais de Paris, rio acim a, à outra, rio abaixo, se conhecem , ou quase; e um recém -chegado logo instigaria a curiosidade dos veteranos...

— O que m ais descobriu, Torrence?

— Quase nada. Além do velho da Pont-Marie, os outros não se recordam dele. E alguns j á se acham pelas redondezas há m ais de dez anos. Fui à tabacaria m ais próxim a de sua casa; com prava fósforos ali.

— E cigarros?

— Não. Contentava-se com as “guim bas” que recolhia pelas calçadas. O telefone tocou.

— Alô!... Senhor Maigret?... Um a voz de m ulher, e parecia j ovem .

— Sou eu, sim ... Com quem tenho a honra de falar?

— Meu nom e não im porta... O hom em que encontraram hoj e, possuía um a cicatriz no couro cabeludo?

— Confesso que ainda ignoro... Espero que, se existir um a, sej a assinalada no relatório do m édico-legista que receberei am anhã de m anhã...

— Já tem um a ideia de quem se trata?

— Por enquanto, não.

— Ligarei am anhã, durante o dia...

E sem acrescentar m ais nada, desligou. Maigret percebeu então que não precisaria aguardar o relatório para responder à pergunta da m ulher. Discou para a escola de cabeleireiros e cham ou Joseph.

— Fala o com issário Maigret. Há um a pergunta que só m e ocorreu agora. O senhor chegou a pentear Aristo?

— Sim , para m ostrar aos m eus alunos...

— Notou algum a cicatriz no couro cabeludo?

— Sim . Mas não ousei indagar a causa.

— Grande?

— Uns seis centím etros. Com o não houve sutura, a cicatriz ficou bem larga...

— Dava para ver, apesar dos cabelos?

— Não, quando bem penteados. Sua cabeleira era linda, creio que j á lhe disse...

— Obrigado...

Durante alguns instantes um contato fora estabelecido. Em algum lugar de Paris, havia um a j ovem ou um a senhora, que conhecia Aristo, pois estava a par de sua cicatriz. Tom ara o cuidado de desligar antes que Maigret fizesse m ais perguntas. Telefonaria, novam ente, com o prom etera? Maigret ardia de im paciência. Sentia pressa em dar um nom e a este desconhecido e descobrir a razão ao seu m odo de vida. Os singulares obj etos que abarrotavam o quarto da Travessa do Vieux-Four pertenceriam a um louco, a um colecionador? Para que j untar assim , peças que j am ais poderia vender, e que de nada serviam ? Mas Maigret se recusava a adm itir a ideia da loucura.

O telefone soou novam ente. Desde a publicação das fotos, Maigret esperava por isso e era o que desej ava.

— Alô!... O com issário Maigret?...

— Sim ... Com quem tenho a honra?... Com o a interlocutora de há pouco, esta, que não parecia j ovem , tam bém não respondeu; m as, com o por acaso, fez a m esm a pergunta.

— Ele tem um a cicatriz no alto da cabeça?...

— Neste caso, sabe de alguém que se pareça com ele? Silêncio do outro lado. — Por que não responde?

— Tam bém não m e respondeu.

— Ele apresenta, realm ente, um a cicatriz, de seis centím etros, m ais ou m enos, na parte superior do crânio...

— Obrigado...

E desligou, com o a prim eira. Existiam , portanto, duas m ulheres que conheciam Aristo e que não se falavam ; caso contrário, um único telefonem a bastaria. Com o encontrá-las entre cinco m ilhões de habitantes? E por que esta insistência em se m anter incógnitas? Isto irritava Maigret que saiu da Polícia Judiciária, resm ungando. Entretanto, aprendera algum a coisa: seu hom em solitário não fora sem pre tão solitário assim ... Duas m ulheres. Duas m ulheres que guardavam sua lem brança, m as que não desej avam ser interrogadas.

— Por quê?

Refrescara um pouco, apesar da ausência do tem poral. Um a leve brisa com eçava a soprar, im pelindo pequenas nuvens róseas no firm am ento, com o num cenário de ópera. Tom ou um chope. Prom etera ao doutor Pardon não exagerar m ais. Seria, porém dem asiado, ingerir, durante um dia inteiro, três copos de cervej a? Tentava afastar Aristo de seus pensam entos. Im aginava quem descobrira seu estranho refúgio e a razão de tê-lo m orto. Encolheu os om bros, de m au hum or. Estava errado e bem o sabia; com o em todos os inquéritos alm ej ava com preender tudo, im ediatam ente. E, cada vez, resm ungava com o se o destino lhe reservasse algum a inj ustiça. Depois, nos dias que se seguiam , a verdade surgia. E agora, as coisas se passariam tam bém dessa form a?

Tentou assobiar, subindo as escadas do seu prédio.

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