Maigret e o Homem Solitário
Cinco
— Torrence! Traga-m e a lista telefônica da sala dos inspetores...
Maigret procurou Mahossier. Não im aginara encontrar onze pessoas com o m esm o nom e, só em Paris. Qual deles quiseram designar? Maigret com eçou as ligações, após prevenir o telefonista de que necessitaria de várias ligações. Na prim eira cham ada, a um Mahossier cuj o nom e não vinha acom panhado da profissão, não houve resposta; o m esm o aconteceu com o segundo. Depois, foi um florista de Passy .
— Seu m arido está?
— Já não tenho m arido. Divorciei-m e há cinco anos.
Em seguida, outro núm ero m udo. A m aioria dos parisienses se encontrava de férias. Falou após com um a escola de datilografia e taquigrafia, no Boulevard Voltaire. Novo cham ado m udo. O quarto. Houve sete, ao todo. Torrence de pé próxim o à j anela, se adm irava com a paciência do com issário. Ligou para o núm ero seguinte, pertencente a um m édico da Praça dos Vosges. Atenderam , no subsequente, de um a com panhia especializada em pintura de paredes, na Avenida Trudaine.
— Alô! Com quem desej a falar?
— O senhor Mahossier, por favor.
— O senhor Mahossier viaj ou ontem para La Baule.
— Por quanto tem po?
— Pelo m enos três sem anas. Talvez quatro. Quem está no aparelho?
— Este núm ero é da sua residência?
— Não. Dos escritórios e das oficinas. O senhor e a senhora Mahossier m oram na Rua de Turbigo.
— Possuem um a casa de cam po em La Baule?
— Sim . Os “Pins Parasols”. Já há dez anos que passam as férias ali.
A Avenida Trudaine trazia-o de volta a Montm artre. E a Rua de Turbigo se situava nas proxim idades de Les Halles. Com eçou a andar de um lado para o outro. Mesm o diante de Torrence, receava parecer ridículo. Não teria dispensado dem asiada atenção a um sim ples telefonem a anônim o?
— Ligue para a Air-Inter. Pergunte se há um voo am anhã de m anhã para La Baule e se dá para voltar no m esm o dia. Torrence ligou da sala ao lado. Retornou alguns m inutos m ais tarde.
— Um aparelho sai de Paris às dez e dez. Outro, de La Baule, às dezoito e trinta. Reservo um lugar?
— Por favor...
Mahossier... Mahossier... Maigret repetia o nom e, num esforço quase doloroso de m em ória. Conhecia-o. Em todo caso ouvira-o ou lera-o em algum a vitrina. Subiu a sala do j uiz.
— O que há de novo, senhor Maigret? Perguntou am avelm ente o j uiz Cassure.
— Pouca coisa; só que agora conheço o nom e e o antigo endereço da j ovem pela qual Vivien abandonou a m ulher e a filha.
— O que foi feito dela?
— A porteira do prédio é nova. A antiga faleceu em Sancerre onde m orava desde a aposentadoria. Os inquilinos, todos eles, têm m enos de quarenta anos.
Hesitou um instante e tom ou coragem .
— Acabo de receber um telefonem a anônim o...
— Algum doido?
— Não sei. Mas devem os tentar. Falaram num certo Mahossier. Há onze no catálogo. Sete estão de férias. Entre os outros quatro, só encontrei, com o possível suspeito, um em preiteiro...
— Vai visitá-lo?
— Com a sua perm issão, pois ainda ontem foi, com a esposa, para La Baule, onde tem um a casa, e volta som ente dentro de três sem anas. Nada prova sua relação com nosso caso, m as, não sei por que, som ente ficarei tranquilo depois de vê-lo e lhe falar.
— Desej a, então, dar um pulo a La Baule?
— Um avião da Air-Inter parte pela m anhã, retornando no fim da tarde.
— É o senhor quem dirige o inquérito...
— Obrigado. Talvez sej a m elhor levar um a carta rogatória, para o caso de surgir algum problem a... O j uiz Cassure preparou-a logo.
— Boa sorte, Maigret.
Chegou cedo em casa. Jantou frios, queij o e salada. Passou o resto da noite vendo televisão. De vez em quando dizia baixinho, com o num encantam ento:
— Mahossier... Mahossier... Mas nenhum a lem brança concreta surgia em sua m ente. — A propósito, disse à esposa, — Am anhã não venho alm oçar.
— Muito trabalho?
— Não particularm ente. Preciso ir a La Baule.
— La Baule?
— É. Necessito ver alguém . Farei o traj eto de avião. Chegarei em casa por volta das vinte e trinta.
Sabia, por experiência, que m uitos crim inosos foram detidos graças a um telefonem a anônim o ou a um delator. Quando se levantou, o sol j á ia alto, sem pre brilhante, sem a m enor brisa. Isto deixou-o satisfeito pois não apreciava particularm ente o avião, que lhe causava, sem pre, um sentim ento de claustrofobia.
— Até logo!
— Talvez tenha tem po de tom ar um banho de m ar, brincou a senhora Maigret. Referia-se som ente ao banho, pois Maigret não sabia nadar. Eis porque j am ais passavam suas férias à beira-m ar.
O avião, um pequeno bim otor, com capacidade para oito passageiros, parecia um brinquedo perto dos enorm es j atos transcontinentais. Maigret olhou-os vagam ente. Havia duas crianças que perm aneciam em seus lugares e falavam o tem po todo. Tentou, sem êxito, cochilar. Finalm ente, após duas horas de voo, o aparelho aterrissou no aeroporto de La Baule. Há j á bastante tem po, se vislum brava, do alto, o m ar cintilando e, ao largo, um navio dava a im pressão de seguir a linha do horizonte. Achou logo um táxi.
— Conhece um local denom inado os “Pins Parasols”?
— Sabe o endereço?
— Não.
— E o nom e dos proprietários?
— Mahossier... Louis Mahossier...
— Aguarde um instante. O m otorista foi a um bar, onde consultou o catálogo telefônico da região. — Pronto! Anunciou.
— É longe daqui?
— Atrás do hotel Herm itage...
A m udança era total. Ali, os hom ens usavam berm udas, e cam isa aberta, lhe desnudando o peito. Em toda a extensão da praia, alguns quilôm etros, havia várias fileiras de barracas e m ilhares de pessoas, um as se torravam ao sol, ao passo que outras se banhavam . A casa era im ponente, num cam inho arborizado, bem afastado da estrada. Maigret, em vão, procurou um a cam painha. A porta, pintada de branco, se achava entreaberta. No terraço, um a m esa e cadeiras de j ardim . Em purrou a porta e gritou:
— Olá!
Não responderam de im ediato. No terceiro cham ado, um a em pregada, bastante j ovem , surgiu da penum bra do corredor.
— Quem é?
— Gostaria de falar com o senhor Mahossier.
— Agora os patrões estão na praia. Se quiser voltar à tarde...
— Prefiro encontrá-los logo.
— Conhece-os?
— Não.
— No fim da prim eira rua à esquerda, um a escada desce até a praia. A barraca deles é a quarta... Tem o núm ero vinte e quatro im presso na lona...
— Não quer vir com igo?
— Não posso deixar a casa sozinha.
— Qual a idade do senhor Mahossier?
— Não sei ao certo. Trabalho para eles som ente durante as férias. Talvez uns cinquenta anos...
— Que tal sua aparência?
— Bem conservado, bonito m esm o; alto, m agro, cabelos cinzentos...
— E a senhora Mahossier?
— É m uito m ais j ovem . Não passa dos quarenta.
— Qual é m esm o, o núm ero da barraca?
— Vinte e quatro...
Fam ílias passavam , de roupa de banho; algum as pessoas j á tinham a pele em carne viva, devido ao sol. Encontrou a descida, e abriu cam inho entre os corpos deitados na areia. Sem dificuldades deparou com a barraca, alaranj ada, núm ero vinte e quatro. Um a m ulher, cuj o rosto não se via, estava deitada de bruços; suas costas, cobertas de óleo, brilhavam ao sol. Olhou à sua volta, procurando um hom em suscetível de ser Louis Mahossier. Perto do local onde o m ar, preguiçosam ente, acariciava a areia, uns vinte hom ens, enfileirados, faziam ginástica, sob as ordens de um m onitor. Havia um , m aior e m ais m agro do que os outros. Mahossier? Maigret não podia interrom per a aula. Perm aneceu de pé, a um m etro da m ulher da barraca vinte e quatro. Sentira sua presença? Aj eitou a parte superior de seu m aio de duas peças, pouco m aior do que um biquíni, e virou de lado. Pareceu surpresa ao notar, perto dela, um hom em de terno e gravata. Maigret era, com toda certeza, o único nestes traj es, em toda a praia.
— Procura algum a coisa? Acabou perguntando. Seu rosto tam bém estava coberto de óleo ou de pom ada. Era gorduchinha e aparentava bom hum or.
— Senhora Mahossier?
— Sim . Com o sabe?
— Sua em pregada m e inform ou o núm ero de sua barraca. Gostaria de conversar com seu m arido ...
— Terá de esperar... Que horas são?
— Quase m eio-dia e trinta...
— A aula de ginástica acaba dentro de alguns m inutos...
— É o m ais alto de todos, não?
— Sim . O terceiro à direita... Apesar de m agro e sem um a gram a de gordura, quando estam os aqui não perde um a aula. Olhava-o com curiosidade, sem coragem de fazer perguntas m ais diretas. — O senhor chegou hoj e de m anhã?
— Sim .
— De carro?
— Não. De avião.
— Tam bém viaj aríam os assim se, aqui, não necessitássem os do carro. Hospedou-se no Herm itage?
— Não m e registrei em hotel algum . Volto hoj e à tarde. Os exercícios de educação física findaram e o alto e m agro cam inhava em direção à sua barraca. Franziu as sobrancelhas quando reparou em Maigret conversando com a esposa.
— Eis alguém que veio de Paris especialm ente para vê-lo. Chegou de avião esta m anhã e retorna à tardinha. Mahossier dem onstrava visível descontentam ento.
— Senhor?...
— Maigret, da Polícia Judiciária.
— E quer falar com igo?
— Sim . Apenas algum as perguntas...
Ele correspondia a descrição fornecida: o hom em que saíra de Chez Pharam ond e observara Vivien descarregando legum es. Fora tam bém notado na Travessa do Vieux-Four, entrando no im óvel prestes a ser dem olido, onde o m endigo buscara refúgio.
— O senhor é em preiteiro, especializado em pinturas de paredes, não?
— Isto m esm o... Um início de diálogo bastante estranho, devido ao am biente, ao barulho da praia, os gritos das crianças e, finalm ente, pelo fato de seu interlocutor estar de calção.
— Há m uito tem po?
— Uns quinze anos.
— E antes?
— Era em pregado.
— E sem pre em Montm artre?
— Qual o m otivo destas perguntas, com issário? Estou de férias. Não entendo com que direito o senhor vem m e aborrecer. Maigret lhe m ostrou o docum ento preparado pelo j uiz Cassure, lendo o texto cuidadosam ente.
— E por que tudo isto?
— Há alguns dias o senhor j antou em Les Halles, m ais precisam ente no restaurante Chez Pharam ond... Ele encarou a esposa, com o a lhe pedir que o aj udasse a refrescar a m em ória.
— Foi na noite em que m am ãe ficou lá em casa. Com o você a detesta, resolveu ficar pela cidade ...
— Que fez depois?
— Cam inhei, e voltei para casa... Maigret percebeu um certo rubor nas faces da m ulher. Abriu a boca para interferir, m as preferiu perm anecer calada.
— Na verdade, subiu ao seu apartam ento por alguns instantes... E, olhando fixam ente o hom em , lançou de repente: — Qual o calibre de seu revólver?
— Não possuo arm a.
— Cuidado, senhor Mahossier. Devo preveni-lo de que qualquer m entira pode se virar contra o senhor. Se não m e responder francam ente, pedirei ao j uiz um m andado para revistar seus escritórios e sua residência. A m ulher fitava o m arido, espantada. Mahossier, com o olhar feroz, parecia prestes a se lançar sobre o com issário.
— Tenho um a velha autom ática, agora provavelm ente enferruj ada, e nem m e lem bro onde a guardei.
— Calibre trinta e dois?
— Suponho que sim . Não entendo de arm as.
— É pena que não se recorde onde a colocou. Poderia pedir a um de seus funcionários que m e fosse entregue.
— Mas, bolas, qual a razão de tudo isto?
— Coisa séria, senhor Mahossier; se trata de um crim e. Quando descobrir sua arm a, saberei em algum as horas, graças ao serviço de balística, se existe algo contra o senhor ou não.
— Faça o que quiser. Não responderei m ais as suas ridículas perguntas.
Apertou a m ão de um hom em gordo, de calção, que passava e que foi se deitar um pouco adiante.
— Conheceu, há vinte anos, um a j ovem cham ada Nina Lassave, não é? E, por seu interm édio, travou conhecim ento com Marcel Vivien...
— O m endigo de Les Halles?
— Naquela ocasião não era m endigo, m as sim m arceneiro na Rua Lepic...
— E j ulga que eu saiba algum a coisa?
— Sim .
— Lam ento decepcioná-lo m as estas pessoas não fazem partes de m inhas relações.
— O Boulevard Rochechouart não lhe diz nada?
Pela prim eira vez Maigret realizava um interrogatório na praia. A esposa de Mahossier, apoiada no cotovelo esquerdo, acom panhava a conversa com visível interesse.
— Com o qualquer parisiense, conheço o Boulevard Rochechouart, é claro.
— Onde residia em 1946?
— Já faz m uito tem po; eu m udava frequentem ente de endereço, habitava pequenos hotéis.
— De Montm artre?
— É verdade. Meu patrão concentrara seus negócios neste bairro.
— Hotel du Morvan?
— Não m e lem bro.
— Hotel Jonard, na Praça das Abbesses?
— Talvez.
— Durante algum tem po, naquele verão, fez suas refeições no La Fourchette, situado na Rua Dancourt? O pai Boutant ainda vive e poderá reconhecê-lo, pois goza de excelente m em ória.
— O que o senhor fala é grego para m im ...
— Desconhece a existência deste restaurante?
— Possivelm ente, alm ocei ou j antei ali, um a ou outra vez. Restam -lhe ainda m uitas questões?
— Não. Suas respostas são bem evasivas. Pode-m e inform ar, pelo m enos, em que ano casou?
— Em 1955.
— Rom pera, então, com Nina?
— O senhor delira, com issário.
— Recobrou a m em ória quanto ao revólver? Ou continua a ignorar seu destino?
— Nem m esm o sei se ainda o tenho.
— Com prou-o quando?
— Ganhei-o de um dos m eus operários. Com dois filhos em casa, não queria um a arm a à solta.
— E este hom em prossegue trabalhando?
— Sim .
— Seu nom e?
— Oscar Raison. Encontrá-lo-á na Avenida Trudaine. É um dos m eus prim eiros funcionários. Agora, espero que nada m ais tenha a perguntar...
— Agradeço sua boa vontade. Desculpe, m inha senhora, se estraguei seu banho de sol...
Ela não respondeu, m as olhou o m arido com ar interrogador. Maigret encontrou, num a rua transversal, um pequeno restaurante italiano e sentiu um a vontade louca de com er um a pizza. Enquanto aguardava, pediu frutos do m ar e um a garrafa de m oscatel, pois não havia m eias-garrafas. Sua expressão era séria e calm a. Parecia-lhe que não perdera a viagem . Após o café, foi para Saint-Nazaire, onde j ulgava existir um posto da Polícia Judiciária. Dirigiu-se à prefeitura, de onde o enviaram a Nantes. Três inspetores se achavam num local bastante exíguo. Foi reconhecido e o trio pareceu surpreso ao vê-lo.
— La Baule pertence à sua j urisdição?
— Sim . Mas raram ente nos cham am , pois nada acontece. É um a praia fam iliar...
— Gostaria que vigiassem , dia e noite, um hom em que ali passa suas férias. É possível?
— Tudo é possível, evidentem ente. Mas não som os num erosos... Maigret lhes m ostrou a carta rogatória. — Farem os o que quiser, chefe... Descreveu Louis Mahossier, a esposa e lhes forneceu o endereço.
— Se um dos dois deixar La Baule, peço que m e telefonem im ediatam ente, m esm o para m inha casa, se for necessário... Deixou-lhes seu núm ero. — E quero saber, é claro, que direção tom aram .
— Certo, senhor com issário. Não aceita um copinho de m oscatel?
— Acabei de beber. E o m édico m e recom endou m oderação...
Deixou-os e voltou de táxi para La Baule. Alguns hom ens, sobre o aterro, vestidos com o ele, levavam o paletó no braço. Ele im itou-os. De Orly rum ou diretam ente para casa. Sua esposa, que o aguardava, desandou a rir.
— O que aconteceria se você passasse um a sem ana na praia?
— O que quer dizer?
— Só ficou um dia, e se queim ou desse j eito... Vá se olhar no espelho...
Era verdade. Seu rosto se apresentava com o um pim então. E tinha pressa em tirar os sapatos cheios de areia. Não resistira ao desej o infantil de cam inhar ao longo da praia, próxim o à água. Andara assim um as duas horas, num universo colorido e barulhento, evitando com o podia as bolas das crianças.
— Você j antou?
— Belisquei, no avião. Preciso telefonar à PJ. Na sala dos inspetores, atendeu Janvier. Adm irado, perguntou: — Ainda no escritório?
— Um assalto a um a agência dos correios deu-nos m uito trabalho. Apanham os os dois principais autores e recuperam os o dinheiro. Um terceiro hom em , o que perm anecia de vigia, escapou. E o senhor, chefe?
— Só dentro de alguns dias concluirei se m inha viagem foi ou não proveitosa. Enquanto isso, você tem dois inspetores, a partir desta noite para um trabalho de vigia?
— Vam os dar um j eito. Mas a equipe está reduzida ao m ínim o.
— Tom e nota... Avenida Trudaine, perto do liceu Rollin. Os canteiros de obras e as oficinas do em preiteiro Louis Mahossier. Não tenho a m enor ideia do que pode acontecer, m as ficarei m ais tranquilo se m antiver o local sob vigilância. O segundo hom em deve controlar o dom icilio do m esm o, na Rua de Turbigo... O apartam ento não está vazio... Um a velha cozinheira vem frequentem ente...
— Certo... E se Mahossier aparecer num desses lugares?
— Sigam -no e anotem seus m enores gestos e ações...
Maigret dorm iu m al; com eçou a transpirar o que fez arder seu rosto. Guardava nos ouvidos o ruído do m ar e o colorido da praia parecia im presso em sua retina. Acordou cedo no dia seguinte e foi de táxi para a Rua de Turbigo. Tratava-se de um daqueles antigos prédios do Marais que, restaurado exteriorm ente, retom ara seu aspecto de rico hotel particular.
— Desculpe, m inha senhora, o apartam ento do senhor Mahossier, por favor...
— Viaj ou... Foi com a esposa para La Baule onde têm um a casa de...
— Já sei. Mas tam bém sei que a senhorita Berthe, a cozinheira, se encontra lá em cim a...
— Com o quiser... Prim eiro andar, à direita... Na realidade, tanto faz direita ou esquerda, pois ocupam todo o andar...
Não havia elevador, m as a escada era larga e pouco íngrem e. Tocou a cam painha em um a porta de m adeira antiga, envernizada; dem oraram a atender. Finalm ente, ouviu leves passos no apartam ento e a porta se abriu.
— O senhor e a senhora Mahossier estão...
— Em La Baule, obrigado. Vim para vê-la.
— A m im ?
— É a senhorita Berthe, a cozinheira, não?
— Entre. Não fique aí fora. Conduziu-o a um salão, espaçoso, ilum inado por três grandes j anelas e m obiliado m ais ou m enos ao estilo do im óvel. — Sente-se. Vende aspiradores?
— Não. Pertenço à Polícia Judiciária. Exam inou-o da cabeça aos pés, sem pudor. Aparentava ser um a m ulher franca e desinibida.
— O senhor não é o com issário Maigret?
— Sou.
— Trata então daquele m endigo cuj o nom e esqueci?... Já não m e lem bro m ais dos nom es...
— Vivien...
— Sim . Que ideia, m atar um m endigo, não acha? A não ser que sej a um daqueles falsos m endigos, que escondem um tesouro no colchão.
— Não é este o caso. Vi seu patrão ontem , em La Baule.
— Ah!
— Conheceu-o antes do casam ento?
— Quando ficou noivo da senhorita Cassegrain. Continuei a trabalhar para ela. O senhor Cassegrain é tabelião, na Avenida Villiers. Tem a esposa quase sem pre doente. Havia um a arrum adeira que cuidava dela e cozinhava. Foi o senhor Cassegrain quem insistiu para que acom panhasse sua filha, quando ela casou.
— Há quantos anos?
— Uns quinze. A diferença é que aqui não tem os arrum adeira e eu faço tudo... Ora, não é bem assim ... A patroa m e aj uda e ela entende de cozinha tão bem quanto eu...
— Saem com frequência?
— Raram ente. Quando m uito vão ao cinem a ou a um teatro. Recebem som ente alguns am igos, sem pre os m esm os.
— Dão-se bem ?
— Não brigam por qualquer m otivo, se é isto que quer saber.
— Acredita que ainda se am am ? Sua resposta foi o silêncio. O senhor Mahossier tem um a am ante?
— Ignoro. Mas não seria a m im que ele contaria.
— Acontece que se ausente à noite, sozinho, e regresse tarde?
— Nunca... Ou m elhor, aconteceu na sem ana passada... Por volta das onze horas, quando a patroa levara a m ãe, que j antara aqui, em bora. Entrou com o um furacão e foi até o quarto. Depois, saiu tão rapidam ente quanto entrara... Quando a patroa voltou, resolveu não esperá-lo e se deitou. Não sei se ouviu quando retornou, pois fê-lo silenciosam ente ... O que sei, é que eram m ais de três horas da m anhã...
— Há m uito tem po que dorm em em quartos separados?
— Desde os prim eiros m eses do casam ento. O patrão levanta de m adrugada para chegar cedo às obras. Assim , não acorda a patroa que gosta de ficar na cam a até bem tarde... Bastava observá-la falando para constatar que não gostava de Mahossier; m as dem onstrava pela patroa verdadeira adoração.
— Que idade tinha, ao casar?
— Só vinte anos e um m ês...
— Sabe onde se encontraram ?
— Não. Quando solteira ela saía m uito, o senhor conhece a j uventude, não?
— Ela é feliz? Outro silêncio, eloquente. — Decepcionou-se com o casam ento?
— Não é do tipo de m ulher que se lam ente ou finge m elancolia. Encara os fatos com naturalidade...
Maigret percebeu um retrato do casal sobre o piano. Louis Mahossier usava um bigode que j á raspara. Quanto à m ulher, tinha os cabelos louros, encaracolados. A cozinheira, que seguia o olhar de Maigret, indagou de repente:
— O que fez ele?
— Por que a pergunta? Talvez nada tenha feito...
— De outra form a o senhor não se acharia aqui. Quando um hom em com o o com issário Maigret se desloca...
— Quer m e levar ao seu quarto?
— Se ele souber, ficará furioso. Azar! Não tenho m edo dele. Atravessaram a sala de j antar e um corredor. — Aqui, disse abrindo a porta, — É o quarto da patroa...
Um aposento alegre, em tons de cinza pálido m esclado ao azul. O tapete, branco, m acio, fazendo com que os pés afundassem . Ao lado, o quarto de Mahossier; m ais sóbrio, evidentem ente, m as de bom gosto.
— Quem escolheu os m óveis e a decoração?
— A patroa. Fez cursos de história da arte, no Louvre, e frequentou tam bém a escola de artes decorativas.
— Toca piano?
— Quando sozinha. Predom inavam agora, o bege e o m arrom .
— Diga-m e, Mahossier tem um revólver?
— Sim . Vi-o há uns quinze dias.
— Um a arm a com tam bor?
— O senhor quer dizer um a espécie de cilindro onde as balas são colocadas?
— É.
— Não. É achatado.
— Um a autom ática!
— Vou m ostrá-la ao senhor. Foi até à m esa de cabeceira e abriu a gaveta superior. Seu rosto exprim iu assom bro. — Sum iu!
— Não a levaria para a praia?
— Claro que não. Eu fiz as m alas.
— Talvez m udasse de lugar?
Ela abriu as outras gavetas que continham chaves, um canivete e carteiras de sócio de num erosos clubes.
— Desde que trabalho aqui, o revólver sem pre ficou nesta gaveta.
— Viu-o há quinze dias, não foi? Havia cartuchos j unto?
— Um a caixa cheinha. Desapareceu tam bém . Procurou nos arm ários, na côm oda e até no banheiro. Fitou novam ente Maigret, desta vez com o rosto sério, um pouco pálido. — Com eço a adivinhar o porquê de sua presença aqui...
— Isto surpreende-a?
— Um pouco. Mas não m uito. O m otivo que vou apresentar pode parecer ridículo. Mas ele não gosta de anim ais. Não quer gato nem cachorro em casa. A patroa possuía um cachorro que lhe fazia com panhia e ele obrigou-a a despachá-lo...
— Acho m elhor que não saia de Paris nos próxim os dias. É possível que venha a precisar da senhora.
— Às suas ordens. E, enquanto atravessavam o salão: — Viu a patroa, em La Baule? Aposto que se banhava ao sol!
— Exatam ente.
— Na praia, é assim que passa seus dias. Quando criança j á ia para La Baule com os pais...
— Eles não querem filhos?
— Não m e falaram a respeito, m as creio que não fazem m uita questão.
— Agradeço-lhe m uito, senhorita Berthe. Aj udou-m e bastante...
— É de m eu interesse... Maigret nada acrescentou. — O m eu patrão num a situação daquelas!...
Um taxi levou-o ao Quai des Orfèvres. Torrence lhe anunciou que telefonaram de Nantes inform ando não haver novidades nos Pins Parasols. Perguntavam ainda se a vigilância deveria prosseguir.
— Ligue e diga que sim .
— Colocou os hom ens onde ordenei? Inquiriu a Janvier que se encontrava em seu posto.
Era o único a quem tratava por você regularm ente. Às vezes ocorria o m esm o com o j ovem Lapointe, o últim o a entrar para o grupo. Quanto aos outros, o tratam ento era m ais cerim onioso, a não ser que estivesse distraído ou no calor de um a ação.
— Quem foi para a Rua de Turbigo? Deve se ocultar m uito bem , pois acabo de chegar de lá e não notei ninguém . É bem verdade que há um bar em frente...
— Baron, na Rua de Turbigo... Neveu em Montm artre... Maigret foi para o corredor dos j uízes e bateu à porta do j uiz Cassure. Recebeu um “sim ” e entrou.
— Novidades?
— De certa form a... Creio m esm o que seria interessante um a autorização para que seguíssem os oficialm ente, determ inada pessoa.
— Ora, ora, m e fale a respeito... E Maigret, sentando num a desconfortável cadeira, lhe contou suas peregrinações dos dois últim os dias.
— Não posso ainda provar que sej a o assassino de Vivien; m as existem provas suficientes que j ustifiquem um interrogatório m ais sério e não num a praia...
— Tam bém acho... E com o agirá? Enviará dois de seus hom ens buscá-lo ou encarregará a gendarm aria local?
— Mandarei m eus inspetores, se encontrar alguém disponível... Trabalham os agora com efetivos tão reduzidos, que se os bandidos soubessem , não deixariam de aproveitar...
— Assino agora o m andado... Preencheu um form ulário que Maigret conhecia m uito bem . — O nom e?
— Louis.
— Mahossier com “h”? Não sei por que, tenho vontade de escrever com “r”...
— Obrigado, senhor j uiz...
— Já foi até a Avenida Trudaine?
— Não. Hoj e de m anhã, talvez...
E saiu à procura de Janvier.
— Preciso, de qualquer m aneira, de dois hom ens. O coitado não sabia com o “se virar”.
— Por m uito tem po?
— O tem po de apanhar alguém em La Baule. Olhou Maigret, no fundo dos olhos, e eles se entenderam .
— Leve então Véran e Loubet. Maigret conduziu-os ao sua sala, instruindo-os; lhes entregou em seguida o m andado.
— Há um avião dentro de um a hora... Peguem -no, m as prefiro que voltem de trem .
— Passam os-lhe as algem as?
— Se tentar escapar, sim . De outra form a, acho que é inútil. Cham ou Torrence. — Venha, m otorista... Esta fora, de fato, sua função nos últim os dias. — Avenida Trudaine... Em frente ao liceu Rollin...
— Vai prendê-lo?
— Vigiá-lo e detê-lo para interrogatório. Depois, verem os...
Um grande pátio, cheio de escadas e um a espécie de garagem repleta de enorm es latões de tinta. Num a placa esm altada se lia “escritório” e Maigret seguiu a seta. Um a única peça, bastante espaçosa, onde um hom enzinho, de fisionom ia fechada, se debruçava sobre faturas.
— Com issário Maigret...
— E desej a falar com igo?
— O seu nom e, por favor?
— Vannier... Gérard Vannier e não im agino por que a polícia...
— Não se trata do senhor.
— De um de nossos operários, então? Encontram -se agora trabalhando nas diferentes obras. São pessoas sérias, nossos funcionários há anos...
— A sala à esquerda é a do patrão?
— Sim . Mas não fica m uito tem po por aqui. Visita sem pre nossas construções.
— Os negócios andam bem ?
— Não nos podem os queixar.
— O senhor é sócio?
— Não, infelizm ente. Apenas o contador.
— Quando foi fundada a firm a?
— Não sei. Apenas que, em 1947, o dono foi à falência. Mas, na verdade, passava quase todo o tem po nos bares e havia m uito desperdício de dinheiro ... O senhor Mahossier assum iu a direção e m udou todo o pessoal...
— E o senhor?...
— Inicialm ente um contador, duas noites por sem ana, cuidava dos livros. Porém , com o increm ento das atividades, m e contratou por tem po integral, no final de 1948.
— Trabalha m uito?
— Tudo passa por suas m ãos. Mal tem tem po de alm oçar.
— Qual sua atitude em relação aos em pregados?
— Trata-os com am izade, m as existe um lim ite que não pode ser ultrapassado, e eles sabem disto m uito bem .
— Quantos operários?
— Por enquanto, oito, se contarm os o aprendiz...
— Já viu um revolver no escritório?
— Um revolver? Não. Para que serviria? O dinheiro quase sem pre nos chega em cheques e são im ediatam ente depositados no banco que fica na esquina da avenida.
— Com licença! O hom em ficou indignadíssim o quando Maigret penetrou na sala de Mahossier e abriu todas as gavetas. Não encontrou a arm a.
— O que o trouxe até aqui?
— Minha investigação...
— Quando o senhor Mahossier souber disto...
— Falei com ele ontem .
— Foi até La Baule?
— Sim . E am anhã de m anhã, o m ais tardar, chegará a Paris.
— Mas ele só regressaria dentro de três sem anas ou um m ês.
— Consegui que m udasse de opinião...
— E ele não protestou? O pequeno Vannier se m ostrava colérico, nervoso, com o um galo de briga. — Gostaria de saber que história é esta...
— Não tardará m uito...
— Abrir gavetas com o em sua casa... Fazer perguntas im becis... E im aginar que pode obrigar o patrão o voltar de La Baule... Maigret saiu, sem nada dizer, deixando Vannier entregue às suas queixas.
* * *