Maigret e o Homem Solitário

Georges Simenon · Capítulo 5 de 10

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Maigret e o Homem Solitário

Três

 

ÀS DUAS E MEIA, Maigret bateu à porta do gabinete do j uiz de instrução. No

longo corredor, pessoas aguardavam , em todos os bancos, algum as entre dois agentes, outras algem adas. Reinava um silêncio de convento.

— Entre...

O gabinete do j uiz Cassure se situava na parte dos edifícios ainda não m odernizada; o am biente era o de um rom ance de Balzac. Com o nas velhas escolas, a m esa, pintada de preto, era trabalhada e pastas se em pilhavam no chão, a um canto da sala. O escrivão, apesar de não usar m angas de lustrina, parecia se encontrar ali desde o século passado.

— Sente-se, Maigret...

Cassure ainda não passara dos trinta, e, outrora, seria im possível que j á ocupasse um posto em Paris. Maigret, habitualm ente, desconfiava dos j ovens m agistrados, cheios de teorias m al assim iladas, que faziam questão de aplicar im ediatam ente. Exteriorm ente, Cassure parecia um deles. Um rapagão m agro e ágil, im pecavelm ente vestido, cheirando ainda à escola.

— Im agino que se pediu para falar com igo, é porque tem novidades im portantes.

— Gostaria que o senhor estivesse a par do andam ento do inquérito.

— Em circunstâncias norm ais, a polícia aguarda o últim o m om ento para entrar em contato conosco, a não ser quando da necessidade de um m andado de prisão...

Sorriu, com certo ar de nostalgia.

— O senhor, Maigret, tem a reputação de ir a qualquer lugar, de interrogar as porteiras nos seus cubículos, os artesãos em suas oficinas e as donas de casa em suas cozinhas ou salas de j antar...

— É verdade...

— Isto, nós não podem os fazer. A tradição nos confina em nossos gabinetes, se excetuando os casos especiais, quando ficam os perdidos entre um a série de especialistas e técnicos, de tal m aneira, que tudo não passa de um a form alidade. Soube, pelos j ornais, que nosso m endigo é um tal Vivien, outrora m arceneiro...

— Exatam ente...

— Já fez algum a ideia do m otivo pelo qual abandonou a fam ília e o trabalho para se tornar m endigo?

— Conversei com a esposa e a filha. Nem um a nem a outra puderam responder a esta pergunta. Conheci um outro caso, há anos; em Londres, um banqueiro inglês m uito conhecido agiu exatam ente da m esm a form a.

— E quando aconteceu?

— Em 1945.

— E no que diz respeito à am antes ou a um segundo lar?

— Até agora nada. Meus hom ens passam o pente fino no bairro. O que com plica as buscas é que só podem os interrogar as pessoas de certa idade. Hoj e de m anhã, em vão, questionei vários artesãos, com erciantes e aposentados. Foi no bar onde Vivien costum ava tom ar café todas as m anhãs. Conheciam -no bem , m as desconheciam quase tudo a seu respeito, pois não se relacionava com ninguém .

— É curioso que, vinte anos m ais tarde, alguém resolvesse assassiná-lo...

— Eis a razão porque revolvo desesperadam ente seu passado... A não ser que adm itam os que um louco decidisse subitam ente atacar o prim eiro m endigo encontrado, o que é pouco provável...

— Que tal sua esposa?

— Desagradável. É bem verdade que sua vida não foi fácil. Da noite para o dia, ficou sem recursos, com um a criança de oito anos. Felizm ente, era costureira. Com eçou trabalhando para as vizinhas, aum entando depois a clientela.

— Mudou-se?

— Não. Reside ainda no m esm o prédio, na Rua Caulaincourt, com o no tem po do m arido. Trocou apenas de andar, ocupando um apartam ento m enor e m ais barato. É um a m ulher não só sem idade definida, com o tam bém sem vontade de viver. Tem os olhos fixos, e as pupilas desbotadas de quem sofreu m uito...

— O que sabe a respeito da fuga do m arido?

— Só consegui lhe arrancar algum as palavras. Se souber de algo, não contará a ninguém e nada fará com que m ude de atitude...

— A filha?

— Tem agora vinte e oito anos. Casou com um hom em trabalhador, que não vi. É um pouco m ais loquaz do que a m ãe, m as tam bém fica na defensiva. Seus dois filhos, um casal, estão com seis e quatro anos.

— E suas relações com a m ãe?

— Nem boas, nem m ás. Veem -se quase todos os dom ingos, devido às crianças, m as parece não existir m uito afeto entre elas. Odette, a filha, adm irava m uito o pai, adm iração que ainda persiste, aliás. Acho que esta tarde ou am anhã, irão ao Instituto Médico Legal, identificar o corpo.

— Juntas?

— Duvido. Inform ei-as que poderiam , desde j á, cuidar do enterro. Tem em , m uito, os fotógrafos e j ornalistas... Se o senhor concordar com igo, tratarei de não tornar público este aspecto do caso...

— Claro. Entendo bem estas duas m ulheres. Continua sem a m enor ideia de quem com eteu o crim e?

— Não há, até agora, a m enor pista. Em toda m inha carreira, j am ais vi um hom em tão solitário. Além de habitar, sozinho, um a casa abandonada, sem água nem luz, é praticam ente im possível saber com o passava os seus dias.

— Qual a opinião do m édico-legista? Gozava de boa saúde?

— Excelente. Exteriorm ente, aparentava sessenta e cinco anos, m as contava som ente cinquenta e cinco e todos os seus órgãos se encontravam em perfeito estado...

— Obrigado pelo relato. Se bem entendo, o inquérito poderá dem orar...

— A não ser por um golpe de sorte ou o auxílio do acaso... Se a senhora Vivien abandonasse seu m utism o, creio que nos relataria m uitas coisas.

Maigret retornou ao sua sala e ligou para o Instituto Médico Legal.

— Alô!... Pode-m e inform ar se um a certa senhora Vivien j á reconheceu o corpo do m arido?

— Saiu há cerca de m eia-hora.

— Algum a dúvida quanto à identidade?

— Reconheceu-o im ediatam ente.

— Chorou?

— Não. Perm aneceu certo tem po, im óvel, hirta fitando-o. Perguntou-m e quando poderia tratar do enterro e recom endei que falasse com o senhor. O doutor Lagodinec não necessita m ais do corpo. Fez o que podia...

— Obrigado. Vai receber, certam ente, um a outra visita, a da filha...

— Estarei às ordens!

Maigret abriu a porta da sala dos inspetores e cham ou Torrence.

— Nada de novo?

— Com o o senhor pediu, seis hom ens percorrem o bairro, partindo das ruas Lepic e Caulaincourt e interrogam os com erciantes, os fregueses dos bares e dos cafés e m esm o sim ples passantes m ais idosos que poderiam , eventualm ente, ter conhecido Vivien, antes do seu desaparecim ento...

Nada provava que, ao abandonar a fam ília e a oficina, sem deixar pistas, se transform ara im ediatam ente em m endigo. Talvez m udasse de bairro ou vivesse certo tem po no interior. Dada a im possibilidade de cobrir toda a França, Maigret se lim itava a Montm artre, intuitivam ente, sem saber exatam ente a razão.

Pouco m ais tarde, telefonou para a senhora Vivien, cuj o núm ero constava do catálogo. Já regressara. Atendeu, desconfiada, com o alguém sem pre à espera de m ás notícias.

— Alô!... Quem fala?

— Maigret... Soube que foi reconhecer o corpo... É realm ente seu m arido? Ela deixou escapar um “sim ”, seco. — Mudou m uito nestes vinte anos?

— Com o todos nós.

— Acabei de deixar o gabinete do j uiz. Falei-lhe do enterro. Concorda com a devolução do corpo, para as exéquias; concorda, ainda, que, na m edida do possível, afastem os a im prensa dos acontecim entos.

— Obrigada.

— Im agino que não faz questão de que o transportem para a Rua Caulaincourt?

— Claro!

— Quando realizará o enterro?

— Depois de am anhã. Aguardava notícias suas para cham ar o representante da agência funerária.

— Tem túm ulo reservado em algum dos cem itérios de Paris?

— Não. Meus pais não eram ricos.

— Neste caso, a inum ação terá lugar, provavelm ente no cem itério de Ivry .

— Minha m ãe foi enterrada ali.

— Contatou sua filha?

— Ainda não.

— Peço-lhe que m e inform e a hora da cerim ônia.

— O senhor pretende com parecer? Inexistia, na pergunta, o m enor traço de am abilidade.

— Não se preocupe. Nem notará m inha presença.

— A m enos que os j ornalistas sigam -no...

— Cuidarei para que não aconteça.

— Não posso im pedi-lo, não é?

Sua profunda am argura escapava. Havia vinte anos que se sentia assim . Fazia parte de seu caráter? E quando vivia com seu m arido? Ocorriam a Maigret todas as perguntas possíveis e im agináveis, inclusive as aparentem ente ridículas. Tentava, em vão, reconstituir m entalm ente a personalidade de Marcel Vivien, o solitário dos solitários.

A m aioria das pessoas, por m ais fortes que sej am , precisam de conviver com outros seres hum anos. Ele não. Instalara-se na grande casa abandonada, am eaçada de dem olição, e j untava no quarto obj etos os m ais estranhos e inúteis. Os dem ais m endigos conheciam -no de vista. Alguns lhe dirigiram a palavra, m as Vivien prosseguira seu cam inho, sem responder. No salão de Joseph, ao qual com parecia duas ou três vezes por sem ana, para receber a m oeda de cinco francos, tam bém não falava; olhava fixam ente o espelho à sua frente.

— Vão enterrá-lo depois de am anhã, inform ou Maigret a Torrence. — Prom eti fazer o im possível para que a im prensa fique de fora.

— Há j ornalistas telefonando várias vezes por dia.

— Responda que não há novidades.

— É exatam ente o que venho dizendo, e tam bém os outros inspetores, em m inha ausência. Mas não estão satisfeitos, certos de que lhes ocultam os algo... O que aliás era verdade. Um repórter m ais vivo não poderia descobrir a m esm a coisa que Maigret?

No dia seguinte, os hom ens de Maigret continuaram m ostrando as fotos de Marcel Vivien e fazendo perguntas, sem qualquer resposta positiva. Maigret ligara para Odette Delaveau. Ela tam bém reconhecera o pai.

— A senhora j á sabe a hora do enterro?

— Minha m ãe não lhe disse?

— A últim a vez que falam os, ela ainda não estivera com o funcionário da funerária.

— Am anhã, às nove horas.

— Com cerim ônia religiosa?

— Não. Não passarem os pela igrej a. Só m inha m ãe, m eu m arido e eu acom panharem os o caixão até Ivry ...

Maigret lam entava a prom essa feita de m anter os j ornais afastados. Talvez, com o acontece com frequência, o assassino se encontrasse nas proxim idades do Instituto Médico Legal ou então no cem itério. Conhecera Vivien vinte anos antes? Não havia provas. O m endigo poderia, bem m ais tarde, ter atraído a ira de alguém . Talvez um outro m endigo im aginasse haver dinheiro escondido no quarto? Pouco provável. Jam ais possuem arm a de fogo e m uito m enos um a pistola calibre 32. Mas, quantas coisas aconteceram nestes vinte anos? Maigret, entretanto, retornava ao ponto inicial: o desaparecim ento de Vivien, o dia em que saíra de casa, com o habitualm ente, e nunca chegara à sua oficina, na Rua Lepic.

Um a am ante? Mas, neste caso, por que abandoná-la em seguida, para se transform ar em m endigo? Entre as cartas recebidas pela P.J., após a publicação das fotos e dos artigos, nada havia concernente qualquer m ulher desconhecida na vida de Vivien.

Nessa noite, para evitar que rem oesse o problem a que j á com eçava a aborrecê-lo viu um “bang-bang” na televisão. A senhora Maigret lavou a louça e se sentou a seu lado, evitando perturbá-lo com perguntas.

— Acorde-m e, am anhã, m eia-hora m ais cedo. Ela não indagou a razão. Ele acrescentou: — Vou a um enterro. Entendeu do que se tratava e lhe trouxe a prim eira xícara de café às sete horas.

Pedira a Torrence que viesse apanhá-lo às oito e m eia, num dos pequenos carros da P.J. Este chegou pontualm ente.

— Im agino que passarem os antes pelo Instituto Médico Legal?

— É.

O carro fúnebre se encontrava estacionado ao longo da calçada, além de um outro, da agência funerária, onde estavam as duas m ulheres e o m arido de Odette. Torrence parou, de m odo a não ser visto. Não havia j ornalistas nem fotógrafos. Quatro hom ens trouxeram o caixão, que parecia bem pesado, e alguns m inutos m ais tarde, o cortej o se dirigiu para Ivry. Desde a véspera, o céu se cobrira de nuvens e fazia m enos calor. A m eteorologia anunciava chuva para a região oeste de Paris, no fim da tarde.

Torrence perm anecia longe do carro ocupado pela fam ília. Maigret fum ava seu cachim bo, sem nada dizer, olhando para frente; era im possível adivinhar seus pensam entos. Torrence respeitou o seu m utism o, o que não era fácil, pois consideravam -no o inspetor m ais falador da P.J.

O carro fúnebre percorreu quase a m etade do cem itério, parando finalm ente diante de um túm ulo aberto num a nova quadra, onde havia vários lugares vazios. Maigret e o com panheiro se m antinham a m ais de cem m etros. A senhora Vivien, a filha e Delaveau, se conservavam im óveis à beira da cova, enquanto desciam o caixão. Cada um a das m ulheres segurava um pequeno buquê.

Passaram a pá à costureira para que fosse a prim eira a lançar terra sobre o caixão; m as, surpreendendo Maigret, sacudiu negativam ente a cabeça e se contentou em j ogar as flores. Odette agiu da m esm a form a e, finalm ente, foi Delaveau quem cum priu a tarefa.

Não conhecera Marcel Vivien. Era m uito j ovem . Maigret lhe dava uns trinta anos. Vestia-se de preto, o que no fim das contas deveria ser a roupa com que trabalhava. Não era feio e usava bigodes quase negros, com o os cabelos.

Tudo term inado. A cerim ônia, se cerim ônia houvera, durara apenas alguns m inutos. O carro com a fam ília partiu. Maigret observando as redondezas não notara nenhum a silhueta suspeita. Agora, com o enterro do m endigo, lhe parecia que a verdade recuara ainda m ais. De péssim o hum or, continuava calado, com o a rem oer, incessantem ente, o m esm o problem a. Por que m atar Marcel Vivien, sem m esm o revistar o colchão, onde os pobres costum am esconder seu dinheiro? Contra sua vontade, Maigret retrocedia, sem pre, vinte anos. Eis porque enviara seis inspetores a Montm artre. Teve um a boa surpresa ao chegar a P.J. Um deles esperava-o, excitado.

— O que descobriu?

— Qual a data do desaparecim ento de Vivien?

— Vinte e três de dezem bro...

— E não foi m ais visto?

— Certo...

— Com prou o presente de Natal de sua filha?

— Não m e lem brei de perguntar à esposa.

— O senhor conhece o Cy rano, um a cervej aria perto da Place Blanche?

— Sim .

— Um dos em pregados, hoj e com sessenta anos, a quem m ostrei as fotos, reconheceu Vivien.

— E quando travou conhecim ento com ele?

— Depois do vinte e três de dezem bro. Fim de j aneiro do ano seguinte.

— Com o pode estar tão certo, após tanto tem po?

— Porque só com eçou a trabalhar no Cy rano em j aneiro.

— Viu-o m uitas vezes?

— Um as dez, pelo m enos, em j aneiro e em fevereiro de 1946. E não estava só. Acom panhava-o um a j ovem , m orena, que sem pre lhe segurava a m ão.

— A que horas o casal costum ava aparecer?

— Por volta das onze e m eia, ao fecharem os cinem as.

— O garçom não tem m esm o a m enor dúvida de que é Vivien?

— Afirm a que não, pois só bebia água m ineral, ao passo que sua com panheira pedia sem pre um Cointreau. Era a prim eira vez que trabalhava com o garçom . Antes era cam areiro num grande hotel...

— Nunca os encontrou em algum outro lugar?

— Não. Julien, este é o seu nom e, m orava m uito longe, no Boulevard da Crapelle...

— E quando deixou de avistar o casal?

— Uns dois m eses depois.

— E nunca m ais reviu Vivien?

— Não.

— Nem a m oça?

— Tam bém não.

— Chegou a ouvir Marcel cham á-la pelo nom e?

— Não. Parece que é tudo o que sabe.

Em conclusão, se Julien não se enganasse, Marcel Vivien não abandonara a fam ília para se transform ar em m endigo. Partira por causa de um a m ulher. Contava, certam ente, refazer sua vida. Mas por que não evitara o bairro? A cervej aria ficava a duzentos m etros de sua oficina e a m enos de um quilôm etro do apartam ento que ocupava com a m ulher e a filha. Não tem ia ser reconhecido? Era-lhe indiferente? Avisara a esposa de que passaria a viver com outra? Seria esta a razão da atitude tão feroz da senhora Vivien?

— Volte ao bairro ainda esta tarde e continue a interrogar. Inclusive no Cy rano; há outros em pregados idosos? Talvez o dono...

— O dono tem trinta anos. É o filho do antigo proprietário que foi m orar no cam po.

— Precisam os saber onde.

— Certo, chefe.

— Existe, no bairro, um a quantidade enorm e de pequenos hotéis. Devem ser visitados tam bém . Ainda m ais porque naquela época era quase im possível encontrar um apartam ento...

Maigret bem sabia que acabaria indo ao Cy rano, ele m esm o, e rondando pelos lados de Rochechouart. Alm oçou em casa, m as, antes de pegar um táxi, tom ou um aperitivo na Brasserie Dauphine.

Com o previra, por volta das duas e m eia, Maigret chegou ao Cy rano. Reinava grande anim ação na Place Blanche, devido aos ônibus e aos turistas, que, em grupos com o cachos, m áquinas a tiracolo, fotografavam , todos eles, ou quase, o Moulin Rouge, ao lado da cervej aria. Casa repleta, interna e externam ente; não havia um a única cadeira vazia. Os garçons que corriam por entre as m esas, e eram três, aparentavam ser bastante j ovens; m as, na penum bra do interior, Maigret notou um , j á perto dos sessenta. Entrou, sentou num a banqueta.

— Um chope... Não trouxera Torrence j unto, pois se sentia um tanto perturbado pelo seu crescente interesse a respeito de Marcel Vivien. — Cham a-se Julien? Perguntou ao servirem -no. — Foi com o senhor que um de m eus hom ens falou esta m anhã?

— O senhor é o com issário Maigret?

— Sou.

— É um a grande honra conhecê-lo. Acho que j á contei tudo ao seu inspetor.

— E suas lem branças datam realm ente de 1945?

— Sim . Se eu sou tão categórico, é porque este foi o m eu prim eiro serviço de garçom .

— Fins de dezem bro, início de j aneiro?

— Não posso dizê-lo com exatidão. No fim do ano, por causa das festas, o m ovim ento é grande, e não há tem po para observar os clientes...

Cham aram -no a um a m esa, fizeram o pedido e ele retornou com dois copos de cervej a.

— Desculpe, m as fico sozinho aqui e os outros lá fora. O que dizia eu? Janeiro, sim ... Provavelm ente fevereiro tam bém , pois m e acostum ei a eles, o que deve ter levado algum tem po.

— Não paira então, em seu espírito, a m enor dúvida de que é Marcel Vivien?

— Desconhecia o seu nom e, m as era ele, com toda certeza, que vinha todas as noites, acom panhado por um a linda j ovem .

— Quase sem pre à hora da saída dos cinem as?

— Sim . Isto m e im pressionou, não sei por que.

— Reconheceria a m oça?

— O senhor sabe, as m ulheres, vinte anos depois... Um a ideia súbita assaltou-o... — Mas creio que sim ...

— Por quê?

— Tinha um a m ancha roxa na face...

— Esquerda ou direita?

— Espere... Sentavam -se quase sem pre nesta m esa... Era portanto a face esquerda que eu divisava quando os atendia. Afastou-se novam ente para servir um cliente que pedia um a cachaça.

— Não tornou a vê-la com outro hom em ?

— Não. Não que m e lem bre. Notaria por certo, pois m e acostum ara ao seu rosto e ao seu m odo de vestir.

— Com o assim ?

— Sem pre de preto. Um vestidinho preto e um casaco da m esm a cor, com gola de pele.

— O casal possuía carro?

— Não. Vinham a pé, com o se m orassem perto.

— Pegavam táxi, às vezes? Havia um ponto bem em frente à cervej aria.

— Não que eu visse...

— E, saindo daqui, não se dirigiam para o m etrô?

— Não. Pensei que fossem do bairro. Depois da m eia-noite, é diferente, pois um a clientela internacional invade os cabarés. Mas aqui é com o se estivéssem os na outra m argem . Existe um a grande diferença entre os dois lados do boulevard.

Bateu com a m ão na testa.

— O que lhe disse eu há pouco? Falei em 1945? De tanto responder às perguntas... Foi em 1946, claro. Em 1945 eu ainda trabalhava com o cam areiro no Grand Hotel...

E foi atender outra m esa. Ao voltar, explicou:

— Gosto do bairro. É diferente do resto de Paris. Ainda existem m uitos artesãos com suas oficinas no pátio. Muitos em pregados, tam bém , funcionários, vendedores e vendedoras. Num erosos aposentados m uito ligados a Montm artre, para que se m udem daqui... Posso-lhe ser útil em m ais algum a coisa?

— Julgo que não... Se lhe ocorrer um a lem brança qualquer, faça o favor de telefonar para o Quai des Orfèvres...

— Já vou! Já vou!... Gritou para quatro novos clientes que com eçavam a se im pacientar.

Nuvens se acum ulavam a oeste, enquanto m etade do céu perm anecia m ais ou m enos lim po. De quando em vez soprava um a leve brisa. Maigret bebericava sua cervej a, j urando a si m esm o que seria a única do dia. Preparava-se para pagar a conta, ao ser interpelado por seu vizinho.

— Ouvi bem ? O senhor é o com issário Maigret? Desculpe-m e se falo assim com o senhor...Era im enso, rubicundo, com queixo triplo e um enorm e ventre. — Nasci em Montm artre e m orei aqui a vida inteira. Fui dono de um a vidraçaria no Boulevard Rochechouart. Passei a loj a há três anos, m as guardei m eus hábitos...

Maigret olhava-o curiosam ente, sem entender suas intenções.

— Contra a m inha vontade, escutei parte de seu diálogo com o garçom . Trata-se do m endigo que foi assassinado num a Rua Les Halles? Atentei para as fotos dos j ornais e posso quase j urar que não m e engano.

— Conhece-o?

— Sim .

— Viu-o recentem ente?

— Não. Isto rem onta há uns vinte anos. Reconheci-o m elhor nas fotos sem os bigodes.

— Visitou-o em sua oficina, na Rua Lepic?

— Não. Pelo que dizem os j ornais ele j á não se encontrava m ais lá. Com o Julien, se passou em 1946.

— Em que época?

— A partir de fevereiro. Durante uns seis m eses cruzei regularm ente com ele.

— Morava perto de sua casa?

— Não sei onde habitavam ; m as ele e a am iga alm oçavam sem pre no m esm o restaurante que eu, o La Bonne Fourchette, na Rua Dancourt. É um estabelecim ento pequeno, com m eia dúzia de m esas, e todos acabam por se conhecer.

— E tem certeza, m esm o, de que isto durou seis m eses?

— Deparei com eles em agosto, antes de passar três sem anas na Cote d'Azur...

— E quando voltou?

— Procurei-os, m aquinalm ente. Não os vi. Pedi notícias suas a Boutant, o dono. Respondeu-m e que, subitam ente, deixaram de aparecer.

— Quem sabe, partissem , tam bém , de férias?

— Não. Voltariam no outono. Nunca m ais os encontrei, nem no boulevard, nem nas outras ruas.

O relato do hom em perturbou profundam ente Maigret; parecia agir de boa fé e possuir excelente m em ória. Acrescentando estas recordações às do garçom , concluía que, im ediatam ente após abandonar a esposa e a filha, na Rua Caulaincourt e sua oficina na Rua Lepic, Marcel Vivien vivera com um a j ovem , sem a m enor preocupação de m udar de bairro. Durante dois m eses frequentaram o Cy rano, à saída do cinem a Dancourt, a alguns m etros de distância. Qual seu m eio de subsistência? Vivien teria econom ias? Levara-as, então, sem nada dizer à esposa e a filha? Outra pergunta a fazer a senhora Vivien, pois sua filha talvez de nada soubesse. E ela responderia? Suspirou, pagou a cervej a, agradeceu a Julien e a seu vizinho, o vidraceiro.

— O que lhe contei foi de algum a utilidade?

— Claro.

Seguiu a pé, pelo boulevard, enchendo o cachim bo. Na Rua Dancourt, logo achou o La Bonne Fourchette. A sala era pequena, com a porta aberta, para arej ar um pouco. No balcão, um hom em de certa idade, certam ente o dono, lia o j ornal. Era um restaurante à m oda antiga, com receptáculos nas paredes para os guardanapos dos clientes. Havia ainda um a outra porta, envidraçada, que dava para a cozinha. A tal hora, é lógico, não havia ninguém .

— Desej a tom ar algo? Maigret cam inhou para o balcão.

— Não, obrigado; m as gostaria de lhe fazer algum as perguntas.

— Quem é o senhor?

— Com issário da P.J.

— Sabia que a polícia apareceria, m ais cedo ou m ais tarde.

— Por quê?

— Porque Vivien, o m endigo esquisito, frequentou m eu estabelecim ento durante vários m eses.

— Quando?

— Em 1946.

— Sozinho?

— Não. Sem pre acom panhado por um a m ocinha, bem bonita, que vivia se enroscando nele.

— E com o se lem bra com tanta clareza?

— Os em pregados e os fregueses sorriam , assim que chegavam . Pareciam tão apaixonados... Paravam de com er para se beij ar, diante de todos...

— O fato não lhe causou espécie?

— Olhe, na m inha profissão, vem os de tudo e não nos surpreendem os facilm ente. Ele aparentava quinze anos m ais do que ela; m as há m uitos casais nestas condições...

— Chegou a saber onde m oravam ?

— Não. Aqui pelo bairro, provavelm ente, pois vinham a pé, de braço dado, despreocupadam ente.

— Nunca saíam de táxi?

— Jam ais reparei.

— Jantavam aqui, tam bém ?

— Não. Mas não m e surpreendi; ao m eio-dia, tem os com o clientes os que trabalham nas vizinhanças e que retornam aos seus lares no fim do dia. À noite, os frequentadores são de outro tipo.

— Quando deixaram de vir?

— Meados de agosto... Fechei a casa por quinze dias para levar m inha m ulher ao cam po e pescar um pouco... Voltando não os revi m ais... Escolheram com certeza outro restaurante...

Maigret agradeceu e saiu. Andou vagarosam ente pelo Boulevard Rochechouart, com o os habitantes do bairro. Ele não com preendia. Havia algo errado em toda a história. Marcel Vivien saíra de casa dois dias antes do Natal. Parecia gostar m uito da filha, que contava som ente oito anos e desaparecera em m enos de três dias. Será que só então conhecera a j ovem com quem passara a viver? Deparou com um a cabine telefônica e entrou. Encontrou o núm ero da senhora Vivien, ligou e ouviu sua voz seca.

— Quem é?

— Sou eu, m ais um a vez. O com issário Maigret. Vou fazer apenas um a pergunta, m as é extrem am ente im portante para o andam ento do inquérito. Ao abandoná-la, seu m arido deixou dinheiro em casa?

— Não!

— Não tinha conta bancária ou caderneta de poupança?...

— Um a conta, num banco, pois alguns clientes pagavam com cheque...

— E levou tudo?

— Sim .

— A senhora previa sua partida?

— E com o poderia?

— Suspeitava de sua conduta?

— Não. E não faço questão de saber m ais nada... E desligou.

Agosto de 1946: Marcel Vivien m orava ainda em Montm artre com a am ante. Depois, sua pista se esfum açava. Viaj ara para o interior, para o estrangeiro ou optara, naquela ocasião, pela vida de m endigo? O que acontecera à sua com panheira, que provocava sorrisos ternos nos clientes do La Bonne Fourchette, tão apaixonada se m ostrava.

Maigret teve a sorte de apanhar um ônibus com plataform a. Um dos últim os, pois, aos poucos, desapareciam . Fum ava tranquilam ente seu cachim bo, deixando seu olhar vagar pelo espetáculo, a cada instante diferente, de Paris. Que ilações tirar do pouco que sabia? Conhecia, no fim das contas, o início, a m isteriosa partida de Marcel Vivien, de boa profissão, com esposa e filha que, num clarão, tudo abandonara por causa de um a m ulher. Quanto tem po duraram suas econom ias? E o que fizera, quando term inaram ? Era com o um corte, um a fenda brutal em sua vida. Em 1946, agosto, cliente habitual do Cy rano e do La Bonne Fourchette, em Montm artre.

Depois, um grande vazio, um novo desaparecim ento. Cansara-se da am ante ou ocorrera o contrário? Desaparecia então com pletam ente e descobriam -no m orto, dezenove anos m ais tarde, no quarto de um a casa arruinada. Morava sozinho. Sem am igos. Duas ou três vezes por sem ana ia à escola de cabeleireiros e se entregava às m ãos de um aluno. O hom em que o m atara, não o fizera por acaso, pois, geralm ente, não se passeia com um 32 no bolso. Precisaria procurar o m otivo do crim e no passado, nos últim os m eses de Montm artre, ou na atividade que exerceu nos anos seguintes? Nem m esm o se sabia há quantos anos resolvera habitar perto de Les Halles. E quanto à sua com panheira? Qual o seu nom e? Maigret, instintivam ente, se dirigira para a Travessa do Vieux-Four. Havia um policial na porta da casa em que vivera Marcel Vivien.

Ocupara o local durante um certo tem po, para j untar o m onte de trastes que tom ava o quarto. Sofreria das faculdades m entais? Ainda estaria lúcido? Joseph, o dono da escola, nada notara de anorm al. Mas, na verdade, se habituara m ais a alcoólatras e tipos excêntricos do que a pessoas norm ais.

Maigret subiu. Pela prim eira vez ia só àquela casa som bria, úm ida, sem pre a estalar. Nada procurava, em particular; queria sim plesm ente rever o cenário. No quarto, as únicas im pressões digitais existentes eram as do próprio, o que levava a crer que o assassino usava luvas. No assoalho se divisava m esm o um a lum inária a petróleo, em pedaços. Que pretendera fazer com ela? Sapatos disparatados e de tam anhos diferentes. Um a m ala dilacerada, outrora elegante. Habitara, por acaso, outros quartos do im óvel, abandonando-os à m edida que se entulhavam ? Maigret subiu os degraus, não m uito sólidos, com espaços vazios. No quarto andar, não havia nem portas nem j anelas; no chão, velhas caixas e em brulhos. Desceu, sem pre a revistar, tentando evitar a poeira. Im aginava o velho, voltando à noite, só, cam inhando pelas escadas escuras, riscando um fósforo. A questão, agora, não era saber quem era ele e qual o seu passado longínquo; m as sim , há quanto tem po levava aquela vida?

Saudou o agente, se dirigiu para a Rua dos Prouvaires e entrou na delegacia. Ascan recebeu-o im ediatam ente.

— Parece que preciso do senhor...

— Descobriu m ais algum a coisa, além do que os j ornais relataram ?

— Sim . Mas ainda não quero que se espalhe. Quando deixou seu dom icílio, no dia vinte e três de dezem bro, Vivien não m udou de bairro. Não sei para onde foi, m as encontram o-lo, em j aneiro, na com panhia de um a linda j ovem , num a cervej aria da Praça Blanche, o Cy rano.

— Bem ao lado de sua oficina.

— Sim . Dava a im pressão de não querer se ocultar, chegando às raias da inconsciência... Um m ês m ais tarde, sem pre acom panhado pela m ulher, com eça a alm oçar num restaurante de habitués da Rua Dancourt. Não sai do bairro. Levanta as econom ias depositadas. Talvez eu consiga descobrir seu m ontante. Deixa a esposa e a filha sem recursos e frequenta o m esm o restaurante até m eados de agosto. — Perdem o-lo em seguida de vista para reencontrá-lo só, m endigo em Les Halles. Agora chega sua parte. Les Halles estão sob sua j urisdição. Há num erosos m endigos, antigos detentos e velhas prostitutas ... Entre os seus agentes, alguns devem ser especialistas nesta fauna...

— São quatro, ao todo...

— Pode lhes pedir que façam algum as perguntas por m im ? Meus hom ens não saberiam com quem falar, nem por onde com eçar...

— É fácil. O senhor tem as fotos? Principalm ente as de bigode e barbicha?

— No m om ento, som ente conto com um j ogo. Telefonarei ao m eu escritório para que lhe tragam outros.

— É difícil j urar que consigam , m as farão o possível. O que desej a, exatam ente?

— Saber há quanto tem po Vivien era m endigo. O que pode representar alguns m eses ou quase vinte anos. Os m endigos se conhecem de vista, pelo m enos, e observam com interesse os novatos, m esm o evitando interrogá-los...

— Sim . Seria interessante não nos lim itarm os a Les Halles e verificar os que vivem j unto ao cais.

— É j ustam ente o que pretendo. Perm ite que use o seu telefone? Ligou para a P.J. e cham ou Moers.

— Fala Maigret... Mestral está?... Sim ?... Gostaria que preparasse com urgência quatro ou cinco j ogos de fotografias, principalm ente daquelas com a barbicha e os bigodes. Terá de entregá-las ainda hoj e, na delegacia da Rua dos Prouvaires, pessoalm ente ao Com issário Ascan... Obrigado Moers... Até... E, a Ascan:

— Recebê-las-á, no m áxim o, em um a hora.

— Colocarei m eu pessoal em ação na próxim a noite.

Quando Maigret saiu, a chuva caía, abundante. Grossas gotas ricocheteavam no calçam ento. O céu obscurecera com pletam ente e a sorte bafej ou o com issário, que encontrou um táxi livre.

— Para a P.J., disse.

Sentia-se cansado de pensar sem pre nas m esm as perguntas, sem achar as respostas. Na sala dos inspetores, indagou:

— Quem está livre, am anhã cedo?

Entreolharam -se, todos. Três ergueram a m ão.

— Solicitarão fotos à Identidade Judiciária. Irão em seguida para Montm artre, principalm ente nos arredores do Boulevard Rochechouart e visitarão todos os hotéis. Existem possibilidades de que Marcel Vivien e sua am iga habitassem um deles, durante uns seis m eses. A j ovem m e interessa particularm ente. Falem com os com erciantes do bairro, principalm ente os do setor de alim entos. Boa sorte, m eus filhos... Entrou em sua sala, literalm ente perseguido por Torrence.

— Quais as novas, chefe? Faltou-lhe coragem para recom eçar a história e m urm urou:

— Am anhã. Janvier pode cham ar os seis hom ens de volta.

Cochilou m ais ou m enos m eia hora, em sua poltrona, enquanto a chuva penetrando pela j anela aberta m olhava o assoalho.

* * *