Maigret e o Homem Solitário
Dois
N A MANHÃ SEGUINTE, Maigret perdera seu m au hum or; foi a pé até o Quai
des Orfèvres. Os cam inhões da lim peza urbana percorriam as ruas quase desertas, deixando um rastro de chão m olhado; um a ligeira brum a escapava do Sena. Subia as escadas da Polícia Judiciária quando viu um fotógrafo, carregado de m áquinas, esperando-o. Figura habitual. Participava de todos os casos. Trabalhava para um a agência e poderia aguardar horas a fio que acontecesse algo. Ruivo. Parecia m ais um adolescente. Quando despachavam -no por um a porta, regressava por outra ou por um a j anela. Seus colegas cham avam -no de “Coco”. Seu nom e era Marcel Caune. Fotografou, ao acaso, Maigret subindo. Tratava-se talvez, do ducentésim o retrato do com issário.
— O senhor convocou testem unhas?
— Não.
— Alguém o aguarda no corredor.
— Boa notícia. De fato, sentado sobre o banco, havia um hom em . Bastante idoso, m as de postura ainda correta; se ergueu com vivacidade.
— Poderia lhe dizer algum as palavras, senhor com issário?
— Relativas ao caso Les Halles?
— Sim ... O crim e da Travessa do Vieux-Four...
— Atendo-o num m inuto...
Conform e um antigo hábito seu, se dirigiu, prim eiro, à sala dos inspetores. Em m angas de cam isa, todos, e a j anela escancarada. Torrence lia um j ornal com a seguinte m anchete:
O COMISSÁRIO MAIG RET SEG UE UMA PISTA
Mas, na realidade, não havia pista algum a.
— Nada de novo, crianças?
— Cartas anônim as, com o sem pre. E daquelas doidas, tam bém ... Do sua sala, Maigret telefonou para a escola de cabeleireiros.
— Senhor Joseph?... Preciso de um favor seu... Poderia m andar um de seus aprendizes ao Instituto Médico Legal, raspar os bigodes e a barbicha do Aristo?... Pagarei o serviço, é claro...
— Prefiro ir eu m esm o. É um a tarefa delicada. Ligou, depois, para a Identidade Judiciária e falou com Moers.
— Mestral se encontra aí?
— Acaba de chegar.
— Quer fazer a gentileza de enviá-lo ao Instituto Médico Legal? Um barbeiro raspará o rosto do nosso desconhecido. Assim que term inar, gostaria de algum as boas fotos, sob diversos ângulos. É urgente... Mal desligou e o telefone tocou.
— Alô!... Com issário Maigret?... Pensou reconhecer a voz.
— Telefonei ontem , a respeito do crim e Les Halles... A voz j ovem . Não a outra.
— Suponho que desej a repetir a pergunta?
— Sim .
— A senhora não é a única.
— Ah!
— Um a outra m ulher ligou e usou as m esm as palavras...
— E o que lhe respondeu?
— Dir-lhe-ei se vier até aqui ou se m e der seu nom e e endereço...
— Não faço questão...
— Com o quiser... E, desta vez, foi Maigret quem desligou, resm ungando: — Filha da p...!
Pelo m enos três pessoas, em sum a, conheciam a identidade de Aristo: as duas m ulheres que telefonaram com respeito à cicatriz, e o assassino, é claro. Maigret abriu a porta. Seu visitante, baixo e m agro, se levantou rapidam ente e cam inhou em sua direção.
— Tem i que o senhor não m e recebesse.
Havia, em seu m odo de andar, em sua atitude, em sua fala, algo que im pressionou o com issário; m as não atinou o quê.
— Meu nom e é Em ile Hugon e resido na Rua Lepic, no m esm o apartam ento que m eus pais habitavam quando nasci...
— Sente-se.
— Com este rosto, ninguém diz que tenho oitenta e cinco anos... Parecia m uito orgulhoso de sua excelente aparência. — Vim de Montm artre a pé; e cam inho diariam ente pelo m enos, durante duas horas...
Maigret percebeu que seria inútil lhe fazer m uitas perguntas.
— No bairro, m e conhecem com o Coronel. Fique sabendo que j am ais cheguei a coronel, só capitão... Quando a guerra de 1914 rebentou, cursava a escola de suboficiais... Lutei em Verdun e no Chem in des Dam es... De Verdun consegui sair ileso... Mas no Chem in des Dam es recebi estilhaços de obus na perna, e m anco até hoj e. Durante a segunda grande guerra, j á ultrapassara a idade e não m e aceitaram ...
A satisfação personificada, e o com issário se arm ava de paciência, augurando que o Coronel não lhe contasse toda sua vida em detalhes. Em vez disto, perguntou bruscam ente:
— Já o identificou?
— Ainda não...
— A não ser que m uito m e engane, o que m e causaria espécie, se cham a Marcel Vivien...
— Conhece-o pessoalm ente?
— Possuía um a oficina no pátio, bem em baixo de m eu apartam ento. Quando eu saía, costum ava passar por lá e lhe desej ar bom -dia...
— Quando ocorreu isto?
— Logo após a segunda guerra, em 1945...
— Qual a idade dele?
— Trinta e cinco anos, m ais ou m enos... Rapaz alto e forte, com o rosto inteligente e franco...
— Sua profissão?
— Marceneiro... Além do m ais, concluíra cursos de arte decorativa... Sua especialidade, a restauração de m óveis antigos. Vi alguns, esplêndidos, tudo em m archetaria...
— Habitava o m esm o prédio que o senhor?
— Não. No im óvel tinha som ente a oficina. Vinha de m anhã e partia ao entardecer.
— Assem elhava-se m esm o ao retrato publicado nos j ornais?
— Juraria que sim ; porém sem a barba e os bigodes...
— Casado?
— Claro... Um a senhora da m esm a idade do que ele vinha buscá-lo no fim do dia... Tinha um a m enina de oito anos que, m uitas vezes, saindo da escola, passava e lhe dava um beij o.
— E quando perdeu-o de vista?
— No final de 45 ou no início de 46. Um belo dia, não apareceu. No dia seguinte, tam bém não, nem nos outros... Depois, surgiu sua senhora, com a chave... Entrou na oficina e lá perm aneceu m uito tem po, com o a fazer um inventário...
— Tornou a vê-la?
— Ainda m ora no m esm o bairro. Faz frequentem ente suas com pras nas barracas da Rua Lepic... Durante vários anos ainda encontrei sua filha na rua... Ficou um a m oça e acho que se casou...
— O que aconteceu aos m óveis da oficina?
— Um cam inhão de m udanças apanhou-os. Um serralheiro se instalou no local...
Mostrou as diferentes fotos do hom em da Travessa do Vieux-Four. O Coronel exam inou-a cuidadosam ente.
— Continuo com a m esm a opinião. Tenho quase certeza de que é ele. Há m uito que m e aposentei. No verão, m e sento no banco de um parque e olho as pessoas passarem ... Tento adivinhar sua profissão, seu m odo de vida... Isto m e habituou a observar...
— Que o senhor saiba, foi vítim a de algum acidente?
— Não tinha carro...
— Existem outros tipos de acidente... Nunca foi ferido na cabeça? O Coronel deu um tapa na testa.
— Mas é claro... Em pleno verão... Fazia m uito calor, com o agora... Trabalhava no pátio, reparando um a cadeira... Via-o, pela j anela, quando o vaso de gerânios se espatifou sobre sua cabeça... Fora a senhorita Blanche, inquilina do terceiro andar, que o em purrara por descuido, ao regar as flores... Nada de hospital nem de m édico... Desinfetou sozinho a ferida e foi à farm ácia, em frente, onde lhe fizeram um curativo...
— A cicatriz se tornou visível?
— Seus cabelos, longos e grossos, ocultavam -na. ..
— Não se recorda de m ais nada? Não tornou a revê-lo no bairro?
— Não...
— Mas a esposa e a filha continuaram por lá? Não se m udaram j untos, então?
— É verdade.
— Bebia?
— Claro que não... Todas as m anhãs, por volta das dez horas, fechava a oficina por uns m inutos e tom ava um cafezinho no bar ao lado...
— Ainda habitam o im óvel alguns inquilinos daquela época?
— Deixe-m e ver... A porteira... Sim , ainda é a m esm a... Seu m arido, que era policial, m orreu ... Ela envelheceu m uito... A senhorita Blanche, de quem j á falei, tam bém vive; m as perm anece o tem po todo em sua poltrona, e dizem que não está m uito lúcida... Nos outros andares... Ah! Os Trébuchet, no terceiro... Ele pertencia aos quadros da m unicipalidade... Aposentado, com o eu... Todos m ais idosos, é lógico.
— Julga que reconheceriam Marcel Vivien?
— Talvez. Mas as j anelas dos Trébuchet dão para a rua... Observavam , portanto, m enos do que eu o que se passava no pátio...
— Obrigado por ter vindo, senhor Hugon... Creio que seu depoim ento nos será de grande valia... Peço-lhe que acom panhe este inspetor até outra sala, onde fará a gentileza de repetir o que acaba de m e relatar...
— Serei cham ado com o testem unha, no tribunal? Dom inava-o, j á, um a grande excitação.
— Calm a! Precisam os, prim eiro, apanhar o assassino e estabelecer, em definitivo, a identidade da vítim a.
Maigret abriu a porta da sala dos inspetores e escolheu Lourtie, o m ais rápido com a m áquina de escrever. Explicou-lhe o que desej ava e o inspetor se ocupou do Coronel. Haviam , aparentem ente, deparado com um a boa pista. Maigret aguardava os retratos antes de ir à Rua Lepic. Sabia que Mestral trabalhava ligeiro e, abrindo a correspondência, tentou aplacar a im paciência. Às dez e m eia, chegou, finalm ente, com um a série de provas.
— Ele rem oçou, o senhor não acha?
— Sim ... Mas parece entretanto que não era m uito velho... O m édico-legista lhe dá quarenta e cinco anos, no m áxim o... Quantas cópias tirou?
— Tem os aqui cinco de cada pose, se puderm os falar de pose no caso de um m orto... O barbeiro, aliás, ficou tão im pressionado, que pensei que fosse cair duro...
— Obrigado... Pode preparar outras m ais para todos os j ornais. Maigret enfiou duas cópias de cada retrato no bolso e deu um a outra para Coco, o fotógrafo m ais obstinado de Paris.
— Olhe... Realizam os um a parte de seu trabalho. .. É o nosso hom em , depois de escanhoado... Sua agência pode reproduzi-la e enviá-la aos j ornais que preferir.
Leduc, um dos inspetores novatos recebeu, tam bém , duas.
— Leve isto aos principais vespertinos... Estam os em cim a da hora, pois, na realidade, são im pressos logo após o alm oço... Tom e o cuidado de entregá-las pessoalm ente ao redator-chefe ou ao secretário da redação...
Dirigiu-se finalm ente para a sala onde Lourtie transcrevia, à m áquina, o testem unho do Coronel. Este, com o anteriorm ente, se ergueu de um salto.
— Pode perm anecer sentado... Quero apenas que vej a algo... E lhe estendeu as novas fotos. Assim que as viu, o rosto do Coronel se ilum inou.
— É ele. Agora tenho certeza. É claro que envelheceu, m as é Vivien... Indicou a Lourtie que prosseguisse e retornou à sala dos inspetores.
— Apanhe o seu chapéu, Torrence...
— Vam os pra longe?
— Até Montm artre. Rua Lepic, m ais exatam ente ... Mostrou os retratos ao inspetor.
— Fizeram -lhe a barba?
— Hoj e de m anhã. Acabo de receber um antigo capitão, agora com oitenta e cinco anos, que afirm a reconhecê-lo, em bora não o vej a há uns vinte anos...
— Quem é?
— Talvez um ebanista que possuía um a oficina na Rua Lepic, e que sum iu da noite para o dia.
— Há vinte anos atrás?!
— É isso.
— Tinha fam ília?
— Aparentem ente esposa e filha...
— Desapareceram , tam bém ?
— Não. Perm aneceram no bairro ainda por algum tem po.
Utilizaram um a das num erosas viaturas pretas da P.J., seguindo para a Rua Lepic atravancada por barracas de feira. O 65-b ficava no alto da rua, à esquerda.
— Estacione por aí e venha se encontrar com igo. Estarei certam ente com a porteira.
Esta, ainda j ovem e sim pática, observou o com issário através a porta envidraçada de seu cubículo. Maigret bateu. Ela abriu.
— O senhor desej a?
— Com issário Maigret da Polícia Judiciária...
— Trata-se de algum dos m eus inquilinos? Perguntou espantada.
— Alguém que, outrora, foi seu inquilino...
— Não m e enganei, então...
— O que quer dizer?
— Ontem , quando vi o j ornal, pensei logo no senhor Vivien... Falei até com a dona do arm azém , m as acrescentei:
“— Não pode ser ele... Um rapaz tão legal, tão trabalhador... Jam ais im aginei que se transform asse num m endigo...”. Maigret lhe m ostrava as novas fotos, quando Torrence entrou.
— Um dos m eus inspetores... Olhe bem estas provas...
— Oh! Nem é preciso... É ele... O que atrapalhava um pouco, ontem , eram os bigodes e a barbicha... Rasparam -lhe a barba... Com pletou, sem deixar de contem plar as fotografias: — Estou abobalhada...
— A senhora se recorda da form a com o deixou o local? Despediu-se dos vizinhos? Entregou aos clientes os m óveis nos quais trabalhava?
— Nada disso... Um belo dia, sim plesm ente, não apareceu m ais; e nunca m ais foi visto no bairro...
— Avisaram a polícia?
— Não sei, talvez a m ulher... Vinha raram ente vê-lo durante o dia... De vez em quando passava e lhe dava um abraço... Moravam perto, na Rua Caulaincourt; o núm ero, não sei, m as ficava próxim o a um a tinturaria...
— Reviu a esposa, m ais tarde?
— Frequentem ente, perto das barracas... Continuou fazendo com pras na Rua Lepic... O cabelo encaneceu e em agreceu m uito; naquela época era bem gorduchinha...
— Falou com ela?
— Cruzam os um a com a outra por duas ou três vezes; m as parece que não m e reconheceu.
— Recentem ente?
— Não. Há vários m eses... Talvez um ano...
— E a filha? Deve contar agora vinte e oito anos...
— Falaram -m e, não sei m ais quem , que se casara e tivera filhos.
— Vive em Montm artre?
— Aparentem ente. Mas não sei onde.
— Posso dar um a olhada na oficina?
— Siga o corredor e abra a porta do pátio. Encontrará o senhor Benoit, o serralheiro, trabalhando.
Deparou com um hom em de uns trinta anos, extrem am ente sim pático.
— Em que lhe posso ser útil? Maigret exibiu sua identidade. — Suponho que se trata do hom em assassinado com três tiros no peito?... Com entavam o caso hoj e cedo, no bar onde tom o um trago todas as m anhãs.
— Conheceu-o?
— Claro que não. Quando saiu daqui eu era um a criança com apenas dez anos... Um tapeceiro e decorador ocupou o lugar, durante uns quinze anos. Mas, não sendo m uito j ovem , decidiu term inar seus dias no cam po. Foi então que aluguei o local...
— Houve alguém que pedisse inform ações sobre Marcel Vivien?
— Ninguém ... Mas desde ontem os velhos da rua não cessam de falar... Hoj e, na hora do café, não se tocava em outra coisa. Todos os que dele se recordam não entendem porque se transform ou em m endigo... Dizem que era um hom em bonito, alto e forte, com um a boa profissão, ganhando m uito bem ... No entanto, sum iu do dia para a noite sem avisar a ninguém ...
— Nem m esm o à sua esposa?
— Parece que não... Ignoro se é verdade... Repito som ente o que ouvi... Corre o boato de que decorreram vários dias, um a sem ana talvez, após o seu desaparecim ento, antes que ela aparecesse para saber o que acontecera... Eis o que sei; m as se desej ar ouvir m ais a respeito, basta ir ao bar, aqui ao lado...
— Obrigado.
Retornou à Rua Lepic, em com panhia de Torrence. A identidade do m orto Les Halles, se delineava. Entraram os dois no café vizinho. Notaram , de im ediato que, a freguesia j unto ao balcão, um balcão à m oda antiga, era com posta por habitués.
— O que lhes posso servir?
— Um chope.
— Para m im tam bém , com pletou Torrence. Reinava um odor agradável de frutas e legum es, proveniente das barracas alinhadas ao longo da calçada. Foram servidos pelo dono.
— O senhor não é o com issário Maigret?
— Sou.
— Acredito que veio por causa do hom em cuj a foto os j ornais de ontem à tarde publicaram ?...
Agora, todos os olhavam . O problem a se resum ia em quem falaria em prim eiro lugar... E foi um hom em forte, com enorm es braços, de avental branco m anchado de sangue, um açougueiro.
— Quem sabe se ele não se “m andou” com um a m ocinha e quando esta o deixou, lhe faltou coragem para enfrentar a m ulher? Tive um em pregado durante quase dez anos. O suj eito m ais pacato do m undo. Ora, um dia ele desaparece, sem m ais nem m enos. Partira com um a j ovem de dezoito anos. E ele, com quarenta e cinco. Dois anos m ais tarde encontraram sua pista no serviço de assistência aos desem pregados, em Estrasburgo...
Os dem ais aprovaram com a cabeça. Era um bar típico dos bairros populosos. A m aioria dos presentes se com punha de artesãos, pequenos com erciantes, aposentados que tom avam um trago no m eio da m anhã.
— Alguém o viu, após o sucedido? Olharam -se, uns aos outros. Um m agricela, de avental de couro, expressou a opinião geral.
— Ele não seria tão idiota para voltar ao bairro.
— Conheceu sua esposa?
— Não. Nem m esm o onde residia. Encontrava-o som ente aqui, quando vinha para o café. Não era dos m ais conversadores...
— Era orgulhoso, então?
— Orgulhoso não, apenas não sentia vontade de falar.
Maigret bebericava o seu chope. O prim eiro do dia. Contava-os. Quando encontrasse o doutor Pardon, lhe citaria as cifras, com certa vaidade. Era bem verdade que, quanto ao fum o, os resultados surgiam m enos brilhantes. Continuava a fum ar o seu cachim bo durante o dia inteiro. Não podiam suprim ir todos os seus prazeres só porque atingia os cinquenta e cinco anos.
— Penso tê-lo encontrado, certa vez, na Rua da Cossonnerie. Mas de cabelos inteiram ente brancos e m altrapilho com o um m endigo. Julguei que m e enganara e continuei andando. Um velhinho, que tom ava um aperitivo fora de m oda há uns quarenta anos, assim falara.
— Há quanto tem po?
— Talvez uns três m eses... Mais, pois a prim avera, atrasada, ainda não com eçara...
— Obrigado, senhores.
— De nada. Às suas ordens. Espero que consiga agarrar o crápula que atirou no pobre coitado.
Cam inharam em direção à Rua Caulaincourt. Bateriam em todas as portas, interrogariam todas as porteiras, para descobrir a esposa de Vivien, se é que ainda m orava no bairro? Faltou a Maigret, devido ao calor, a coragem suficiente; se dirigiu para a delegacia de polícia da Rua Lam bert. Conhecera, outrora, um hom em que se esfum açara nas m esm as condições que o ebanista; ignorava, entretanto, se os m otivos eram idênticos. Tratava-se de um rico industrial parisiense, aparentem ente sem problem as. Um cinquentão, com esposa e dois filhos dos quais um , com vinte e um anos, cursava a universidade. Quanto à filha, três anos m ais j ovem nada corria de desabonador a seu respeito. Certa m anhã, na hora habitual, saíra para a fábrica, em Levallois. Ele m esm o dirigia. Entretanto, ficaram sem notícias suas durantes vários anos. Seu carro foi encontrado perto da Rua do Tem ple. Não se tinha conhecim ento de que possuísse am antes. Seu m édico atestou de que não sofria de m oléstia grave podendo ainda viver longo tem po. A polícia procurou-o por toda a parte, m enos, evidentem ente, onde se achava. De fato, resolvera, de um dia para o outro, se transform ar em m endigo. Vendera suas roupas a um com erciante da Rua dos Blancs-Manteaux, e vestira verdadeiros trapos. Desde então, deixara de se barbear.
Três anos depois, um de seus antigos fornecedores reconheceu-o em Nice, apesar do rosto escondido por espessa barba. Vendia j ornais nos terraços dos cafés. O hom em , j ulgando agir corretam ente, avisou a polícia e a esposa. Mas, ao iniciarem a busca pela cidade, não m ais o encontraram . Maigret pensava m uito nele.
— A senhora deveria ordenar que cessassem as investigações... Tem agora a prova de que não m orreu e leva esta vida por vontade própria...
— Não pretende insinuar que virou m endigo propositalm ente?...
Ela não com preendera. Mas Maigret guardara sua carteira de identidade e assim foi possível prevenir a fam ília, quinze anos m ais tarde, quando ele faleceu, na parte velha de Marselha, ainda existente naquela época.
— Bom dia, Dubois, disse Maigret para o sargento atrás de um a escrivaninha. Por m ilagre, ou talvez por causa da estação, a delegacia se encontrava vazia.
— O chefe acaba de sair, m as volta logo.
— Não preciso falar com ele. Gostaria sim plesm ente que o senhor consultasse os arquivos e m e inform asse se um a certa senhora Vivien, a senhora Marcel Vivien ainda m ora no bairro...
— Tem algum a ideia de seu últim o dom icílio?
— Rua Caulaincourt, m as ignoro o núm ero.
— É recente?
— Não. Tem uns vinte anos... O policial abriu vários livros pretos, enorm es, percorrendo com o indicador algum as páginas. Um quarto de hora m ais tarde, encontrou.
— Seu nom e é Gabrielle?
— Isto m esm o.
— Os registros indicam Rua Caulaincourt, núm ero sessenta e sete.
— Muito obrigado, Dubois. Conseguim os econom izar pelo m enos um a hora, batendo de porta em porta, pois a rua é com prida.
Os dois foram de carro, em bora houvesse apenas trezentos m etros a percorrer. O sessenta e sete se situava m ais ou m enos na altura da Praça Constantin-Pecquer.
— Devo acom panhá-lo?
— Talvez sej a m elhor que eu vá só. Juntos, poderem os assustá-la.
— Espero-o, então, no Chez Manière...
A fam osa cervej aria ficava a dois passos. Maigret bateu na porta do cubículo da porteira, onde via um a j ovem arrum ando frutas num a travessa.
— Entre... Ele em purrou a porta. — Em que posso lhe ser útil?
— Preciso de um a inform ação. A senhora Vivien ainda m ora aqui?
— No quarto andar.
— O m esm o apartam ento que ocupava com o m arido?
— Eu ainda não trabalhava aqui. Era m uito j ovem . Creio que trocou de andar, para um apartam ento m enor: duas peças e um a cozinha nos fundos...
— Está em casa?
— Com toda certeza. Só sai de m anhã cedo, para as com pras. E olhe lá! Assim m esm o, nem todos os dias. Havia um pequeno elevador, para o qual Maigret se dirigiu. A porteira alcançou-o, dizendo: — É a porta da esquerda...
— Obrigado...
Maigret se achava m ais im paciente do que nunca. Considerava-se no bom cam inho e, dentro de alguns m inutos, assim j ulgava, conheceria toda a verdade a respeito do hom em da Travessa do Vieux-Four. Apertou a cam painha e ouviu seu eco do outro lado. A porta se abriu m ostrando um a m ulher de certa idade, a fisionom ia severa, que o fitou, franzindo as sobrancelhas.
— A senhora Vivien?
— O que desej a? É j ornalista?
— Não. Sou o com issário Maigret, da P.J., e penso que m e telefonou ontem . Não houve resposta, nem um convite para que entrasse. Encaravam -se, sem tom ar um a decisão, e foi o com issário quem , finalm ente em purrou a porta e penetrou no vestíbulo.
— Nada tenho a declarar, exclam ou, com o a encerrar o assunto, em definitivo.
— Peço-lhe som ente que responda algum as perguntas.
Um a porta entreaberta, m ostrava um salão que m ais parecia um a oficina de m odista. A m áquina de costura, colocada sobre um a pequena m esa; um a outra, bem m aior, estava coberta de vestidos inacabados.
— A senhora agora é costureira?
— Cada um ganha a vida com o pode.
As cadeiras estavam tão apinhadas quanto a m esa e Maigret perm aneceu de pé. Sua interlocutora, tam bém . O que m ais im pressionava era a dureza do seu rosto, a rigidez do seu corpo. Sentia-se que sofrerá m uito, se tornando introvertida, reservada. Devia ter sido bonita, quando bem arrum ada; m as agora, não m ais ligava para o seu aspecto.
— Duas pessoas, m ulheres, m e telefonaram ontem , fazendo a m esm a pergunta; e am bas desligaram , logo, com o se não desej assem ser identificadas... Suponho que a segunda sej a sua filha... Não houve resposta. — Casou-se? Tem filhos?
— O que tem o senhor com isto? Não nos pode deixar em paz? Se continuar, aparecerão os j ornalistas, os fotógrafos...
— Prom eto-lhe não indicar seu endereço... Ela deu de om bros, resignada. — Seu m arido foi identificado por várias pessoas. Não existe, portanto, dúvida algum a. Chegou a conhecer o seu m odo de vida?
— Não.
— O que lhe disse quando partiu, há vinte anos atrás?
— Nada.
— Houve algum a m odificação em sua atitude, nos últim os tem pos? Ela estrem ecera? Ou fora som ente um a im pressão?
— Continuou sem pre o m esm o.
— Seu relacionam ento com ele era bom ?
— Era a sua esposa.
— Marido e m ulher, com frequência, brigam m uito, e a vida do casal se torna difícil.
— O que não acontecia conosco!
— Ele saía, à noite, sozinho?
— Não. E quando saía eu acom panhava-o.
— Onde iam , por exem plo?
— Ao cinem a. Ou passeávam os pelo bairro.
— Nos dias que precederam sua partida, lhe pareceu preocupado?
— Não. Maigret calculou que, se utilizava na m aioria das vezes, m onossílabos, era porque m entia.
— Am igos seus vinham visitá-los?
— Não.
— Fam ília?
— Nem eu nem ele tínham os parentes em Paris.
— Onde o encontrou?
— Na loj a em que eu trabalhava. Possuía a tez pálida, apagada dos que vivem sem pre trancados; seu corpo perdera toda a leveza. — É tudo.
— Tem um a foto dele?
— Não.
— Vej o um a sobre a lareira. Um Marcel Vivien j ovem , de bom hum or, quase brincalhão.
— Esta não sai daí!
— Devolvo-lhe assim que a reproduzirm os.
— Digo que não... O senhor não m e vai privar da única coisa que m e resta... Ela cam inhou em direção à porta.
— Posso obter o endereço de sua filha?
— Onde encontrou o m eu?
— Na delegacia. Esteve a ponto de dizer que procurasse o da filha da m esm a form a, m as encolheu os om bros pela segunda vez.
— Contava apenas oito anos quando ele se foi...
— Casou-se, não? Havia ainda, sobre a lareira, o retrato de duas crianças, entre seis e quatro anos.
— Sim , sim , se casou. Cham a-se agora Odette Delaveau, e m ora na Rua Marcadet, doze. Gostaria, agora, que m e deixasse em paz. Aguardo um a cliente que vem experim entar um vestido, de tarde, e não term inei...
— Obrigado, proferiu Maigret com certa ironia.
— De nada.
Restavam outras perguntas, m as sentia que seria inútil. Necessitava de m ais tem po para dom á-la, se tal ocorresse algum dia... Encontrou Torrence no Chez Manière.
— Um chopinho? Perguntou o inspetor. E Maigret caiu em tentação. Era o segundo.
— Que tal a m ulher?
— Durona.
Aborrecia-o sua insistência em ficar calada; m as, no fundo, com preendia-a. Reclam aria o corpo do m arido para realizar um enterro decente? Pensara no assunto antes que Maigret a descobrisse, na Rua Caulaincourt? Torrence adivinhara seu pensam ento, pois resm ungou:
— De qualquer form a, será preciso enterrá-lo. ..
— É...
— Com a presença de repórteres e j ornalistas...
— Leve-m e à Rua Marcade, doze.
— Fica pertinho daqui.
— Eu sei. Em Montm artre, tudo é pertinho...
Tratava-se tam bém de um dos bairros de Paris onde as pessoas residiam m aior núm ero de anos no m esm o local. Alguns m esm o j am ais iam até o centro da cidade.
— Vam os à casa da filha?
— Sim .
O im óvel era idêntico ao da Rua Caulaincourt, de construção m ais recente, porém , e com um elevador m ais espaçoso.
— O senhor sobe sozinho?
— Sim . A j ulgar pela recepção da m ãe, não creio que dem ore m uito... Inform ou-se com a porteira, bastante idosa.
— Segunda porta à direita... Chegou com as crianças há uns quinze m inutos.
— O m arido alm oça em casa?
— Não. Nem teria tem po. Ocupa um cargo im portante. É chefe de seção num a grande loj a.
Maigret se encam inhou ao segundo pavim ento, tocou na porta indicada através da qual ouvia vozes de crianças. O andar era claro e, naquele m om ento, o sol inundava-o. A m oça que abriu a porta encarou-o, desconfiada.
— O senhor não é o com issário Maigret?
— Sou.
— Quem lhe forneceu m eu endereço?
— Sua m ãe. Venho de lá.
— Ela concordou em recebê-lo?
— Sim ... Não tem culpa algum a, não é?
— Claro que não, m as detesta reviver o passado.
— No entanto, ainda conserva um retrato de seu pai. As duas crianças, aj oelhadas, brincavam com um trem elétrico. — Não entendo por que desligou, quando eu tinha tantas perguntas a fazer.
— Não pretendo que apontem para m im na rua.
— E o que pensam as pessoas?
— Que m eu pai faleceu há vinte anos e que m inha m ãe é viúva.
— Mas suponho que identificará o corpo e solicitará licença para realizar um enterro decente.
— Nem pensei nisto.
— Vocês duas perm itiriam que fosse inum ado num a vala com um ?
— Repito que não pensei no assunto.
— Lem bra-se bem de seu pai?
— Muito bem . Não se esqueça de que eu j á tinha oito anos quando ele partiu.
— Que tipo de hom em era ele?
— Bonito, m uito forte, quase sem pre alegre; levava-m e frequentem ente a passear. Com prava sorvetes e fazia todas as m inhas vontades.
— Sua m ãe, não?
— Mam ãe era m ais severa. Ficava sem pre com m edo que eu m e suj asse...
— Com o soube que seu pai não voltaria? Enviou algum a carta?
— Se o fez, m am ãe j am ais m e contou... Não creio que tenha escrito... De nada sabíam os... Mam ãe passava o dia inteiro na expectativa e, diariam ente, com parecia à oficina, na Rua Lepic para verificar se retornara...
— Nos últim os tem pos, chegou a notar qualquer coisa?
— Não. Mam ãe nada lhe disse?
— Obtive com o respostas apenas alguns m onossílabos. Julga que tenha algo a relatar?
— Não sei. Nunca lhe perguntei. Mas tenho a im pressão de que sem pre m e ocultou um fato qualquer...
— Agora que não é m ais um a criança, lhe posso perguntar se ouviu falar de um a am ante de seu pai... Ela corou.
— É engraçado. Tam bém pensei nisto... Mas, levando em conta seu caráter, é pouco provável. Não nos abandonaria por um a m ulher, ou então, agiria abertam ente...
— Possuía am igos?
— Não que eu conhecesse. Jam ais aparecia alguém lá em casa. E não era do tipo que sai à noite para j ogar cartas num café...
— Sua m ãe e ele discutiam ?
— Nunca reparei.
— Tem algum a ideia da razão pela qual virou m endigo?
— Nenhum a. E até ontem nem poderia acreditar no fato.
— Era católico?
— Não. Não possuía religião e nem m e inculcou qualquer sentim ento religioso. Mas não era contra. Indiferente, é só.
— A senhora tam bém ?
— Sim .
— E sua m ãe?
— Na sua m ocidade, foi bastante m ística, m as isto dim inuiu com o passar do tem po. Casaram -se na igrej a m ais por tradição...
— Visita constantem ente sua m ãe?
— Não. É ela quem aqui vem , quase todos os dom ingos, ver as crianças.
— Traz-lhes balas?
— Não é de seu tem peram ento.
— Brinca com elas?
— Não. Perm anece sentada num a cadeira, rígida, pois não aceita um a poltrona e fica a olhá-las enquanto brincam . Às vezes, m eu m arido e eu aproveitam os para ir ao cinem a...
— Obrigado. Não tem m ais nada a dizer?
— Não. Gostaria de evitar os j ornalistas e os fotógrafos.
— Farei o possível, m as quando sua m ãe for reconhecer o corpo, será difícil im pedir os j ornais de tocar no assunto.
— Tente, por favor! Abria a porta, quando ela acrescentou: — Podem os vê-lo?
— Sim ...
— Gostaria m uito...
Ela, ao contrário da m ãe, perdera a frieza. Fora, sem dúvida, o tipo da filha que adora o pai.
* * *