Maigret e o Homem Solitário

Georges Simenon · Capítulo 6 de 10

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Maigret e o Homem Solitário

Quatro

 

N O DIA SEGUINTE, chegou bem cedo ao escritório. Quando foi a vez dos

inspetores, j á lera toda a correspondência. Acreditava que quanto m ais rápido conduzisse um inquérito, m ais rápido chegaria a bom term o. Os hom ens da prim eira circunscrição trabalharam para ele durante toda a noite; m as não telefonou ao com issário Ascan, um a vez que não queria lhe dar a sensação de que o apressava. Janvier cuidava dos casos correntes, com os poucos inspetores disponíveis. As salas se achavam quase vazias. Não m ais chovia. Num céu azul, havia som ente tênues nuvens brancas que o sol tingia de rosa.

— Vam os lá, Torrence.

Não seguia um plano bem definido, se guiava m ais pelo instinto. Que plano, aliás, estabelecer em sem elhante caso, onde não existia a m enor base sólida, o m ínim o indício m aterial?

— Rua Lepic... Parece que notei um a agência do Crédit Ly onnais em frente à oficina de Vivien...

Chegaram logo, pois, à esta hora, quase não havia tráfego.

— Dê um j eito, estacione por aqui e m e espere. Dirigiu-se a um dos guichês.

— Gostaria de falar com o gerente.

— Da parte de quem ?

— O com issário Maigret...

— O senhor tem sorte. Chegou ontem m esm o das férias... Não aguardou m uito. Conduziram -no a um a sala onde deparou com um hom em de seus quarenta anos, rosto franco, bronzeado, que lhe ofereceu um a cadeira.

— Em que posso aj udá-lo, senhor com issário?

— Se o senhor leu os j ornais destes últim os dias sabe da existência de um caso Vivien. Marcel Vivien possuía um a oficina, era m arceneiro, bem em frente desta agência. Isto há vinte anos. Seus extratos bancários podem ser localizados?

— Vinte anos, não? Quando um a conta é encerrada, isto é, quando um cliente retira todo o seu m ontante, conservam os a ficha por alguns m eses; depois enviam o-la à nossa Sede, no Boulevard dos Italiens...

— E ali, por quanto tem po são estes docum entos guardados?

— Não conheço exatam ente o período, m as não deve ultrapassar os dez anos. Se assim não fosse, im agine o local necessário para arm azenar toda essa papelada.

— Vi, num dos guichês, um hom em de certa idade...

— O senhor Frochot... É o nosso m ais antigo colaborador... Trabalha conosco há quarenta anos e se aposenta no fim do m ês...

— Perm ite que converse com ele? O diretor tocou um a cam painha. A porta se abriu e surgiu um j ovem . — Cham e o senhor Frochot...

O hom em exibia um rosto m alicioso e olhos brilhantes atrás das espessas lentes de seus óculos.

— Sente-se, senhor Frochot. Apresento-lhe o com issário Maigret que lhe desej a fazer algum as perguntas.

— É um a grande honra...

— Tem boa m em ória, senhor Frochot?

— Dizem que sim ...

— O cliente que m e interessa deixou o bairro há vinte anos e creio que encerrou sua conta...

— Marcel Vivien?

— Com o sabe?

— Leio os j ornais, e j á que o senhor veio até aqui...

— Tem razão... Recorda-se aproxim adam ente do valor de sua conta?

— Era m odesta e flutuava conform e os depósitos ... O saldo m édio variava entre dez e quinze m il francos... No fim de cada m ês sacava o necessário para viver, cerca de dois m il francos...

— Quando viu Vivien pela últim a vez?

— Um dia, pela m anhã, logo ao abrir a caixa. Contou-m e que se m udava e, desta form a, retirava todo o saldo. Perguntei pelo novo endereço e m e respondeu que se instalaria em Montparnasse...

— Qual o valor do cheque?

— Uns doze m il e quinhentos francos...

— Aparentava nervosism o?

— Não. Mostrava-se sem pre alegre e tinha um a excelente profissão. Mesm o os antiquários m ais fam osos lhe enviavam peças para conserto...

— Durante quanto tem po m anteve sua oficina na Rua Lepic?

— Pouco m enos de dez anos. Oito ou nove. Um hom em tranquilo; seu endereço oficial era o da Rua Caulaincourt.

— Meus agradecim entos, senhor Frochot... Um instante... Mais um a pergunta... Tornou a encontrá-lo, posteriorm ente, na rua?

— Não. E não entendo por que virou m endigo; pareceu-m e, sem pre, um a pessoa equilibrada.

Maigret retornou à viatura da PJ onde Torrence aguardava-o.

— Resultados positivos, chefe?

— Sim e não. De qualquer form a, o pouco que aprendi não m e serve de m uito.

— E agora? As donas de casa rodeavam as barracas dos fruteiros e verdureiros; as vozes form avam um rum or contínuo.

— Para o Quai!

Nesse exato m om ento, pelo bairro, três inspetores iam de hotel em hotel procurando a pista de Vivien. A operação poderia durar dias e dias, pois os pequenos hotéis são num erosos na região. Por outro lado, com a aj uda do acaso, seria possível a um dos investigadores, acertar na m osca.

Em parte, foi o que aconteceu. Mal se sentou Maigret em sua sala, quando um dos três inspetores, Dupeu, telefonou.

— De onde fala, Dupeu?

— Do Hotel du Morvan, na Rua de Clignancourt. Vivien m orou aqui há tem pos, e o dono se lem bra m uito bem dele. Talvez fosse m elhor interrogá-lo.

— Torrence, lá vam os nós outra vez...

Torrence apreciava o serviço externo; e suas funções de m otorista do chefe lhe agradavam bastante.

— Rua de Clignancourt. Hotel du Morvan.

Encontraram Dupeu fum ando um cigarro na calçada. Um a placa em m arm orite, anunciava, próxim o à porta do hotel:

Q UARTOS POR MÊS, POR SEMANA, POR DIA

Entraram , os três. O dono, um hom em barrigudo, arrastava os pés chatos em chinelos de flanela. Não se barbeara. E, certam ente, nem tom ara banho; a cam isa, aberta, m ostrava um peito peludo. Parecia perpetuam ente cansado e seus olhos lacrim ej avam .

— Então o senhor é o com issário Maigret, disse, estendendo a m ão de um a lim peza duvidosa.

— Inform aram -m e que o senhor, em 1946, j á era o dono do estabelecim ento...

— Muito antes, até...

— E topou com o nom e de Marcel Vivien em seus registros?

— Não conservo m eus registros durante vinte anos.

— Mas se recorda dele?

— Muito bem . Um hom em bonito, agradável.

— Quanto tem po perm aneceu com o hóspede?

— De j aneiro a j unho...

— Tem certeza de que não ficou até agosto?

— Absoluta, pois seu lugar foi ocupado por um a “fofoqueira” que praticam ente expulsei do hotel.

— Vivien não estava só. Sabe o nom e de sua am iga? Deve ter preenchido um a ficha, tam bém .

— Não foi necessário. Ela não dorm ia aqui...

— Quer dizer que não viviam j untos?

— Isto m esm o. Maigret, boquiaberto, parou. Não contava com esta, absolutam ente...

— Ela j am ais vinha ao hotel?

— Às vezes, no fim da m anhã, passava para apanhá-lo. Acordava tarde, pois chegava, sem pre, às duas ou três da m adrugada...

— E desacom panhado?

— Sim . Caso contrário seria obrigado a registrá-la. A Delegacia de Costum es não brinca com estas coisas.

— Ela nunca subia ao seu quarto?

— Frequentem ente, m as sem pre durante o dia, o que eu podia im pedir.

— Sabe o seu nom e?

— Ouvi-o cham á-la de Nina...

— Possuía algum sinal particular?

— Um a pequena m ancha roxa na face.

— Com o se vestia?

— Sem pre de preto. Pelo m enos, cada vez que a vi.

— Vivien trouxe m uitas bagagens?

— Só um a pequena m ala, novinha, do tipo com um , que devia ter com prado na véspera de sua chegada...

Os três hom ens olharam uns para os outros. Haviam descoberto som ente um fato novo: Vivien deixara o Hotel du Morvan em j unho; passara portanto j ulho e parte de agosto em outro local.

Quanto à j ovem , nada se conhecia a seu respeito, nem m esm o seu sobrenom e. Morara em outro hotel, na casa de parentes ou alugara um pequeno apartam ento?

A m anhã transcorreu em idas e vindas. A chuva da véspera não dim inuíra o calor. Ao contrário, estava ainda m ais quente do que nos dias precedentes e m uitos hom ens carregavam seus paletós no braço. Maigret chegara à PJ há uns quinze m inutos, quando o telefone soou. Agora era Lourtie, que tam bém cham ava de Montm artre. A sorte bafej ara os dois.

— Estou na Praça das Abbesses, chefe, telefonando de um bar, em frente ao Hotel Jonard. O dono não parece ter conhecim ento de grandes coisas, m as j ulguei que gostaria, assim m esm o, de interrogá-lo.

— A cam inho, Torrence...

— Para onde, agora?

— Hotel Jonard, Praça das Abbesses...

Apresentava a fachada recoberta de cerâm ica e o vestíbulo cheirava a alho.

— Já relatei o que sabia ao seu inspetor. O hom em não era loquaz. Nem m uito am ável.

— Lem bra-se bem dele?

— Bem é m aneira de dizer. Recordo-m e porque tinha um a am iga engraçadinha...

— Hospedada aqui?

— Não. Nunca passou a noite no hotel. Subia, às vezes, durante o dia.

— Quando se registrou?

— Em j unho, creio.

— E partiu?...

— No decorrer de agosto... Ou m elhor, no fim do m ês... Muito correto, m uito educado, o que é raro entre os hóspedes...

Era desanim ador não obter a m enor inform ação sobre a m oça, além da m ancha roxa na face esquerda.

— Pode regressar ao Quai, disse Maigret a Lourtie. Ele se dirigiu à delegacia da prim eira circunscrição. O com issário Ascan, cuj a porta se achava aberta, veio ao seu encontro.

— Recebeu m eu recado?

— Não. Venho de Montm artre.

— Telefonei para inform ar que conseguim os alguns resultados. Nada sensacional ainda, m as talvez lhe sej a de utilidade. Sente-se, por favor.

Maigret encheu o cachim bo, devagar, e enxugou a testa antes de acendê-lo.

— Meus inspetores apanharam o m endigo m ais velho de Les Halles, um tal de Toto. Sua presença nas redondezas data de uns quinze anos. Mas deti-o, assim m esm o, pois pessoas com o ele nem sem pre são fáceis de encontrar... Um agente foi buscar Toto. Um hom em j á de certa idade, cheirando a vinho, m as lúcido.

— Ainda vou ficar m uito tem po nesta gaiola? Sou um hom em livre, não? Até que m inha ficha é virgem ...

— O com issário Maigret tem algum as perguntas a lhe fazer...

— De onde veio, quando chegou a Les Halles?

— De Toulouse.

— E o que fazia por lá?

— Quase o m esm o que aqui. Apenas, m e criavam m aiores problem as.

— Nunca trabalhou com regularidade? Pensou seriam ente.

— Sem pre carreguei caixas e cestos.

— E quando j ovem ?

— Deixei m eus pais com quatorze anos. Reconduziram -m e três vezes o que não im pediu que fugisse de novo. Precisariam m e am arrar.

— Há quanto tem po está em Paris?

— Quinze anos. Conheci todos os m endigos... Vi m orrerem os m ais velhos e outros chegarem ...

— Conheceu Marcel Vivien?

— Só soube o seu nom e quando este senhor aqui m e disse... Já se achava pelas paragens quando cheguei... Não conversava m uito... Sem pre só... Quando falavam com ele, respondia com m onossílabos, ou nem m esm o isso.

— Onde dorm ia?

— Naquela época, não sei. Encontrei-o algum as vezes no Exército da Salvação... Depois, com entaram que se instalara num prédio a ser dem olido ...

— Nunca o viu em com panhia de um a m ulher? Com eçou a rir, com o se a questão fosse m uito engraçada.

— Não, senhor com issário. Aqui, não é bem esse o gênero... Sobretudo para um hom em que j á foi alguém , eu poderia j urar... Fique sabendo, aliás, que num a determ inada época tivem os um ex-m édico; m as ele bebia m uito e não aguentou a parada...

— E em com panhia de algum desconhecido?

— Não... Aliás, não tinha porque observá-lo ...

— Obrigado... Toto se virou para Ascan.

— Posso ir em bora?

— Sim ...

— A seguinte! Acrescentou.

— Um a m ulher?

— É. Parecia um m onstro. De tão volum osa, m al cabia na cadeira. As pernas inchadas, os punhos tam bém . Ligeiram ente bêbeda, encarava as pessoas com ar de desafio.

— O que têm agora contra Nana?

— Nada, redarguiu o com issário. — Só um as perguntinhas...

— Ganho uns trocados para com prar vinho?

— Certo... Levantou-se estendendo a m ão im unda. Preferia pagam ento adiantado; o com issário lhe entregou cinco francos.

— Rápido, pois sinto sede!

— Disse ao inspetor que a interrogou esta noite que viu alguém entrando na casa da Travessa do Vieux-Four?

— É a “verdade verdadeira”.

— Quando?

— Há uns três ou quatro dias... Nunca sei a data certa... Eu, sabe, estou sem pre na m inha. Só posso dizer que foi na noite anterior àquela em que encontraram o corpo de um m endigo...

— A que horas?

— Por volta das três da m adrugada.

— Que tipo de hom em ?

— De certa idade, m as não um velho. Mantinha-se ereto. Notava-se logo que não era um habitué de Les Halles...

— Por quê?

— Não sei. Isto se nota logo.

— Já o vira antes?

— Sim .

— Quando?

— Naquela m esm a noite, por volta das dez horas. Saiu de Chez Pharam ond, o restaurante e observou a descarga dos legum es, das frutas e dos peixes. Dava na cara que não estava acostum ado... Tudo parecia interessá-lo.

— Marcel Vivien se encontrava ali?

— Aquele do retrato nos j ornais. Acho que sim ...

— Este hom em , que reviu às três horas da m anhã, lhe dirigiu a palavra?

— Não... Não sei... Vão fundir m inha cuca com todas estas perguntas e m orro de sede...

Maigret indicou que j á term inara e deixaram -na sair. Dentro de um a hora, com o litro de vinho que iria com prar, topariam com ela num a calçada, inteiram ente bêbada. Ascan avisou:

— Meus hom ens prosseguem sua busca na próxim a noite, m as j ulguei que estes dois tinham coisas interessantes a contar.

— Sim , replicou Maigret, reacendendo o cachim bo que se apagara. — Sabem os, em prim eiro lugar, que Vivien se achava aqui há m ais de quinze anos. Depois, um hom em , desconhecido no local, surgiu na noite em que foi assassinado... Notou, forçosam ente, sua atividade... Procurava-o? Ignoram os ... Acontece que, pelas três horas da m anhã, foi m ais um a vez visto, desta vez na Travessa do Vieux-Four...

— Se realm ente atirou, é possível que, no intervalo, tenha ido à sua casa apanhar o revólver; é im provável que j antasse no Chez Pharam ond com um a arm a desse calibre no bolso...

— Apenas, perm anecem os na ignorância de quem é, e onde m ora... E pode m uito bem ter vindo do interior...

— Julga que a m ulher inventou a história?

— Duvido... Este tipo de gente não gosta da polícia em suas pegadas... Pode-lhes causar m uitos aborrecim entos...

— Sobram ainda cinco anos entre os pequenos hotéis e Les Halles... É possível que os passasse aqui...

— Toto é o m endigo m ais antigo... Eles não vivem m uito... A escola de cabeleireiros ainda não existia... Quanto aos com erciantes, fazem bons negócios, se aposentam e abandonam a cidade grande... Não vai ser fácil encontrar um rem anescente de 1946...

— Obrigado, suspirou Maigret, se levantando. — São excelentes as inform ações que obtiveram . Gostaria que acontecesse o m esm o em Montm artre.

— Não deram com a sua pista?

— Sim . E não só num hotel, m as em dois. Mas a am ante não dorm ia com ele. Ou m orava num terceiro ou possuía casa própria. Se residisse com os pais, não voltaria para casa todas as noites, de m adrugada. Nem nom e, nem endereço. Só um a pequena m ancha roxa na face esquerda...

— Acabará encontrando...

— Só com um a sorte daquelas... Quanto ao cliente do Chez Pharam ond é im provável que retorne a Les Halles; se é o assassino de Vivien não desej a forçosam ente que o identifiquem ...

— Continuam os as buscas, assim m esm o...

— Obrigado Ascan...

Já no carro, Maigret pediu que o reconduzissem ao Quai des Orfèvres. Após um a curta pausa, recom eçara o forte calor. Maigret tam bém gostaria de carregar seu paletó no braço. Mas só chegando ao sua sala, retirou-o.

— Algo de novo?

— Telefonou um a senhora... A senhora Delaveau... A filha de Vivien.

— Não disse o assunto?

— Não. Mas pode ligar para ela. Ficará em casa esta m anhã... Maigret solicitou que com pletassem a cham ada e ouviu sua voz em m eio a gritos de crianças.

— Alô! Com issário Maigret?

— Sim , senhora. A voz da j ovem perdera a agressividade do prim eiro encontro.

— Não posso calcular se o pouco que tenho a lhe dizer será de algum a valia, m as se passar em casa depois do alm oço, lhe contarei tudo o que sei. Mais tarde, sairei com as crianças. Creio que m e sentirei aliviada após falar com o senhor...

Com eu em casa. Sua esposa lhe serviu coq au vin, um de seus pratos favoritos. Mas a refeição decorreu em silêncio, sem o m enor com entário de sua parte.

— Nervoso? Arriscou ela. — Desde o início deste caso você não está m uito católico. Existe algo que o aborrece...

— Você m e conhece e sabe m uito bem que em todos os inquéritos há sem pre um a encruzilhada em que perco a confiança em m im m esm o. Acontece que, desta vez, vou de encruzilhada em encruzilhada. Quando j ulgo dar um passo à frente, na realidade fiquei onde m e encontrava. Não esqueça de que tento, em grande parte, reconstituir o que aconteceu há vinte anos... Além do m ais, Marcel Vivien, o que foi m orto em Les Halles, em determ inados m om entos m e parece sim pático; j á em outros, chego a odiá-lo...

— Tudo acabará dando certo...

— Vai ser preciso, de um a form a ou de outra. Lem brei-m e, agora, preciso ver o j uiz... Passou pelo Quai e Torrence retom ou seu papel de m otorista.

— Les Halles? Montm artre?

— Montm artre. A casa de Odette Delaveau, na rua Marcadet.

Usava um vestido florido, alegre, que a tornava particularm ente j uvenil.

— Sente-se, por favor. As crianças certam ente dorm iam , pois reinava a quietude e não as via no vestíbulo. Odette Delaveau, aliás, falava à m eia-voz. — Descobriu o endereço da m oça? Perguntou.

Os j ornais, entretanto, não haviam tocado no assunto. Era um aspecto do inquérito que preferira não divulgar de im ediato. Replicou, com falsa inocência:

— Que m oça? Ela sorriu, m aliciosam ente.

— O senhor tem e se com prom eter, não é? Não confia inteiram ente em m im .

— Não respondeu à m inha questão.

— A m oça pela qual m eu pai nos deixou. Na ocasião, eu não sabia. Minha m ãe nada m e contou. Contrariam ente ao que afirm a, ela é m uito cium enta e em várias ocasiões seguiu papai à saída da oficina. Descobriu, portanto, a ligação, antes que m eu pai partisse. Nada dizia, m as com eçou a viver retraída. E nem m ais tarde, quando atingi a idade para com preender as coisas, ela tocou no assunto com igo. Já fazem m uitos anos e ainda m orávam os j untos. Tenho um tio em Meaux, o tio Charles, atacadista de adubos, que nos visitava, quando de passagem por Paris. Ao ficarm os sem dinheiro, sem apoio, foi ele, estou certa, quem auxiliou m am ãe até que encontrasse m eios de subsistência.

Maigret, m aquinalm ente, enchera o cachim bo, m as não o acendera.

— O senhor pode fum ar... Meu m arido fum a a noite inteira, olhando a televisão. Um dia, m e achava em m eu quarto, m as com a porta da sala não m uito bem fechada. O tio Charles chegara e ouvi toda a conversa. Tenho ainda gravadas as palavras de m inha m ãe:

“— No fim das contas, consegui m e livrar. Não suportaria, por m ais tem po, viver com um hom em que tem um a am ante.”.

“— Tem certeza?”.

“— Segui-os várias vezes. Conheço m esm o os seus hábitos e sei onde ela m ora... Nem se deram ao trabalho de m udar de bairro. Marcel “gam ou” por ela. Nunca vi um hom em ficar assim . Fará tudo para não perdê-la...”.

— O senhor ouviu o que m am ãe disse ao tio Charles: “Sei onde ela m ora...”. Foi disto que m e lem brei, de repente; eis a razão de m eu telefonem a.

— Ela não indicou o endereço ao seu tio?

— Não. Falaram de núm eros. Meu tio perguntou se havia pagam entos a fazer, se clientes deviam -nos dinheiro... Suponho que este endereço lhe interessa?

— Muito. Vários de m eus inspetores procuram , em vão, todo este tem po. Nem tem os ideia de seu nom e.

— Posso quase j urar que m inha m ãe sabe. Não lhe diga que fui eu quem o enviou...

— Fique tranquila... E m uito obrigado... Im agino que não se recorda de um hom em alto, m uito m agro, de rosto alongado e olhos azuis?

— Em que época tê-lo-ia encontrado?

— Não sei. Talvez há vinte anos. Talvez nos últim os tem pos.

— Não vej o ninguém que corresponda à esta descrição. É im portante?

— Segundo um a testem unha, seria o assassino de seu pai. Um a som bra perpassou nos olhos da j ovem .

— Não. Não conheço. Apertou-lhe a m ão, quando saiu. — Boa sorte com m inha m ãe...

Mandou que o conduzissem à Rua Caulaincourt e decorreu algum tem po até que abrissem a porta.

— É o senhor! Suspirou a esposa de Vivien, com certo despeito. — Precisará aguardar no vestíbulo, pois estou com um a cliente...

Indicou-lhe um a cadeira, não das m ais confortáveis. Sentou-se, calm am ente, com o chapéu no colo e o cachim bo apagado na m ão direita. Ouvia vozes de m ulher no côm odo vizinho, m as tudo m uito vago; conseguia distinguir som ente um a ou outra palavra. Sua espera durou aproxim adam ente m eia-hora. A freguesa, um a loira, de seios opulentos, com um largo sorriso, olhou-o atentam ente, cam inhando para a porta. Após fechá-la, a senhora Vivien encarou-o.

— Não pretende m e deixar em paz?

— Fique certa de que procuro-a o m enos possível. ..

— Im agino então o que seria, não fosse a am abilidade...

— Respeito seu luto... Ela replicou em tom áspero:

— Não se trata de luto, e só com pareci ao enterro porque o senhor insistiu... Agora que assisti a cerim ônia e ele se encontra sob a terra, está satisfeito? ...

— Guarda-lhe m uito rancor...

— É verdade! Haviam passado para o côm odo contíguo, onde um vestido coberto por alfinetes j azia sobre a m esa.

— Por causa de sua am ante? Ela deu de om bros com o se a pergunta fosse ridícula.

— Ouça, senhor com issário... É m elhor conversarm os francam ente... Durante anos, Marcel foi um hom em extraordinário, trabalhador, excelente m arido. Só saía com igo ou com a filha... Um belo dia, tudo m udou... Perm anecia fora de casa quase todas as noites, e nem se dava ao trabalho de inventar um a desculpa... Sim plesm ente, saía... E regressava m uito depois da m eia-noite...

— Seguiu-o, então?

— O que qualquer m ulher faria, não?

Ela am ara-o? Não se sentia tão seguro assim . Era seu com panheiro, é verdade, e provia o sustento da fam ília. Mas, algum dia, dem onstrara ternura em relação a ele?

— Segui-os, sim . Pois, é claro, ele não saía sozinho. Com portavam -se com o dois j ovens apaixonados, brincando, aproveitando o prazer de se encontrarem j untos... Sua am iga m al chegava aos vinte anos, e ele com trinta e cinco... Nem se dava conta do quanto era ridículo. Segurava-a pela cintura. Às vezes, em plena calçada, ensaiavam um passo de dança, depois se beij avam e riam às gargalhadas. E por quê? Porque faziam -no à luz de um poste... Entrei num cinem a, atrás deles; seu com portam ento era péssim o. Em seguida tom avam um chope num a cervej aria próxim a.

— O Cy rano.

— O senhor j á sabe?

— Isto ocorria em 1946... Janeiro ou fevereiro ...

— Janeiro, sim ... Acabara de m e abandonar... Mas eu j á o seguia enquanto ainda m orava aqui...

— Nunca falou com ele?

— Não... Nada tinha a dizer... Não podia obrigá-lo a voltar, não é? Tornara-se, aliás, um outro hom em cuj a existência eu j am ais ousaria im aginar ...

— Vivia no Hotel du Morvan?

— Com o descobriu?...

— Em j unho se instalou no Hotel Jonard, na Praça das Abbesses...

— Perdera-o de vista, nesta época.

— Mas sua com panheira não dorm ia com ele.

— Possuía um apartam ento no Boulevard Rochechouart, que herdara da m ãe, m orta um ano antes...

— Conhece o seu nom e?

— Sim . Perguntei à porteira. Cham a-se Nina Lassave...

— Viu-a durante os últim os vinte anos?

— Não.

— Nunca se dirigiu ao Boulevard Rochechouart para obter qualquer notícia?

— Menos ainda... Com ecei a trabalhar... Exprim ia-se num tom duro e frio, sem o m enor resquício de em oção.

— Rochechouart, que núm ero?

— Não sei... O im óvel fica próxim o à Praça Pigalle. De um lado há um a farm ácia, do outro um a padaria e confeitaria...

— A transform ação de seu m arido, não a surpreendeu? O fato, pelo m enos, serviu para provar que j á não viviam j untos...

— Por quanto tem po frequentou Les Halles?

— No m ínim o quinze anos, provavelm ente m ais...

— Bem feito... Maigret se conteve para não sorrir. Ela irradiava o m ais profundo ressentim ento.

— Obrigado por m e receber.

— Agora que conhece m eus sentim entos, poderei gozar de algum a tranquilidade?...

— Tudo farei neste sentido... Falou em Nina Lavasse, não? Ela por acaso trabalhava?

— No início de sua “am izade” era vendedora em um a loj a de roupas na Rua Lepic. Mas logo deixou o em prego... Encontrara um a fonte de rendas m ais fácil...

— Obrigado, senhora...

Saudou-a quase cerim oniosam ente e deixou-a rem oendo sua raiva. Encontrou Torrence lendo um vespertino.

— Passe pela Rua Lepic.

— Na altura da oficina?

— Não. Um a loj a de confecções. Creio j á tê-la visto, bem no início da rua...

Tinha um a vitrina estreita. No interior, um a solteirona m agra, do outro lado do balcão, dobrava com binações. Espantou-se ao ver um hom em entrando sozinho em seu estabelecim ento.

— Em que posso aj udá-lo?

— Sou com issário da Polícia Judiciária... Procuro um a m ulher que trabalhou aqui tem pos atrás... Há quantos anos é dona desta loj a?

— Quarenta, senhor...

— Então, por volta de 1945 e 1946, j á se encontrava aqui...

— Nunca tirei três m eses de férias em m inha vida. Antes, contava com o auxílio de m inha irm ã, m as ela faleceu no ano passado.

— Recorda-se de um a certa Nina Lavasse?

— Foi m inha funcionária durante dois anos. Quando se apresentou, não com pletara ainda dezoito anos e era bem bonita...

— Algum a queixa a seu respeito?

— Nos últim os tem pos sua conduta m e aborreceu. Observara um hom em bem m ais velho, a esperar por ela na calçada em frente, quando fechava a casa. Dem orou ainda uns dois m eses até que pedisse as contas.

— Para casar? Perguntou. Soltou um a gargalhada com o se ele contasse algum a piada.

— Viu-a depois?

— Não. Nem sei o que foi feito dela. Tem o que acabasse m al. Mas, repito, quando aqui chegou era tão bonita, tão gentil...

Maigret agradeceu e retom ou seu lugar no carro preto da PJ.

— O senhor se interessa agora por roupa branca de senhoras?

— Conheci finalm ente o nom e da am ante de Vivien... Há vinte anos, trabalhou nesta loj a... Agora, vam os ver onde m orava naquela época. Talvez ainda se encontre por lá, pois herdou o apartam ento da m ãe...

— Endereço?

— Boulevard Rochechouart. Perto de Pigalle. Entre um a farm ácia e um a confeitaria...

— Já sei!... Obteve aqui esta novidade...

— Não. Foi a senhora Vivien quem m e inform ou ... Ou m elhor, não inform ou, cuspiu literalm ente... Nunca vi tanto ódio; seus olhos faíscam quando toca no m arido e na am ante...

A calm a dom inava as ruas e avenidas. Notou inicialm ente a farm ácia, depois a padaria. Entre as duas, um a grande porta pintada de m arrom , na qual havia um a outra, m enor, aberta. Do outro lado do pórtico, um pátio pavim entado e um a tília m agnífica. Maigret bateu no cubículo da portaria. Um a j ovem de avental branco veio atendê-lo.

— Procura alguém ?

— Im agino, pela sua idade, que não se acha aqui há m uito tem po.

— Cinco anos, pelo m enos.

— Tem um a inquilina cham ada Nina Lavasse?

— Nunca ouvi este nom e.

— E o de Vivien?

— O tipo que foi m orto perto de Les Halles? Li nos j ornais dos últim os dias...

— O que foi feito da antiga porteira?

— Retornou à sua cidade natal. O filho tem um a vinha... Perto de Sancerre...

— Com o se cham a?

— Espere... Quase não a via... Michou... Isto m esm o... Um nom e fácil de guardar... Clém entine Michou.

— Obrigado. E para Torrence: — Voltam os ao Quai.

— Sem m esm o um chopezinho?

Tom aram um num bar da Rua Notre-Dam e-de-Lorette. Maigret com eçava a enxergar m ais claro. Agora, de posse da identidade da m oça, não dem oraria a encontrá-la.

— Assim que chegarm os ao escritório, suba até os fichários e verifique se tem os algo sobre Nina Lassave... Se nada encontrar, fale com a Delegacia de Costum es... Nunca se sabe...

Maigret, em sua sala, com eçou por tirar o casaco e encher o cachim bo, de pé, face à j anela. Apesar de tudo, sua satisfação não era total e a senhora Maigret, certam ente, diagnosticaria nervosism o... E era verdade. Conduzira o inquérito da m elhor form a possível, no presente e no passado. Obtivera resultados apreciáveis. Mas sentia que om itira algo. O quê? Não conseguia discernir claram ente o que lhe causava um certo m al-estar.

— Senhorita, gostaria de falar com a gendarm aria de Sancerre... Com o com andante, é claro... Se tiver saído?... Então, com um auxiliar direto...

Com eçou a andar de um lado para o outro. “Em duas sem anas”, dizia para si m esm o, um a vez concluído o caso, descansaria com a esposa em sua casa de cam po de Meung-sur-Loire. Não ficava longe de Sancerre.

— Alô, sim ... O com andante da gendarm aria de Sancerre? Aqui Maigret, com issário da Polícia Judiciária. Desculpe o incôm odo por causa de sim ples inform ações; m as se trata de um assunto que talvez sej a m uito im portante. Há, em sua cidade, um viticultor de nom e Michou...

— Existem dois Michou, e o m ais engraçado é que não são parentes...

— Um deles tem em sua com panhia, há uns cinco anos, a m ãe que foi porteira em Paris durante m uito tem po...

— Clem entine Michou, sim ...

— Continua com o filho?

— Faleceu, no ano passado... Sem pre a m esm a coisa: um passo para frente, dois para trás...

— Quer falar com o filho?

— Não adianta. Som ente ela poderia responder às m inhas perguntas. Um caso j á com vinte anos...

— Posso calcular... O caso Vivien, não é? Com o vai indo?

— Mal... Principalm ente agora... Contava com a senhora Michou e acontece que j á m orreu!... De qualquer form a, obrigado. Que tal o vinho na presente tem porada?

— Se o tem po prossegue assim , será excepcional.

— É o que desej o... Obrigado... Sentou-se. Telefonara de pé, olhando pela j anela. Um rebocador preto e verm elho, puxando quatro chatas, fascinara-o.

— Venho lá de cim a, chefe...

— Nada?

— Nada m esm o! E o pessoal dos Costum es nunca ouviu falar nela... O telefone tocou.

— Trata-se de alguém que não quer se identificar, senhor com issário.

— Atendo assim m esm o... Ouviu um a voz abafada. Seu interlocutor usava obviam ente um lenço, para disfarçar a voz.

— Quer um a boa dica, senhor Maigret?

— A respeito de quê?

— A respeito do caso que o preocupa neste m om ento. Anote com atenção o nom e que vou lhe dar: Mahossier... Só isto... Sua vez de j ogar...

E o hom em desligou.

* * *