Mais Pesado Que o Céu
Outubro de 1989-Maio de 1990
DOCES. CACHORRINHOS. AMOR
Londres, Inglaterra
Outubro de 1989-Maio de 1990
"Numa loja perto de você:
Nirvana. Flores. Perfumes. Doces. Cachorrinhos. Amor."
De um anúncio imaginário para o segundo disco do Nirvana.
NO DIA 20 DE OUTUBRO DE 1989, Kurt chegou a Londres. Ele
tinha três dias de folga antes do primeiro show e teria gostado de visitar o Museu Britânico, mas ainda era tão pobre que teve de contentar-se em ter sua foto tirada na entrada. Seus parceiros de banda exploraram os Pubs britânicos, mas Kurt — que não bebia nem fumava maconha na época por causa de seus problemas estomacais — ficou no hotel com bronquite, um problema recorrente. para tentar se curar, ele batia no peito com o punho, achando que essa violência soltaria seu catarro.
A banda estava excursionado pela Europa com Tad, Outra banda
da Sub pop, liderada por Tad Doyle, um ex-açougueiro de Idaho que pesava mais de 130 quilos. uma vez que as duas bandas tinham em comum um som grave e pesado, e por causa da obesidade quase aberrante de tad, um inteligente promotor de eventos do Reino unido anunciou uma apresentação como "Heavier Than heaven" ["mais Pesado que o Céu"]. O jogo de palavras se tornou oficial da turnê, usado em cartazes e nas chamadas nos jornais. Era um sumário apropriado para o ataque sonoro que ambas as bandas criavam: se apenas o volume não cativasse as pessoas, os temas obscuros de canções como "Downer", do Nirvana, e "Cyanide Bath", do Tad, certamente o fariam. Eles haviam planejado repartir a liderança alternando-se nas aberturas das apresentações, numa demonstração de fraternidade.
Kurt tinha a expectativa de fama e fortuna na Europa: em vez
disso, o que encontrou foi uma turnê de orçamento baixo que exigia que a banda tocasse em 37 shows em 42 dias e em nove paises diferentes, um roteiro que apenas seria possível se viajassem todas as noites. Seu veiculo, alugado pela Sub Pop, era uma reduzida van Fiat de dez assentos, que tinha de carregar o equipamento, o merchandising da turnê, três membros do Nirvana, quatro membros do Tad e dois membros das equipes. Considerando a circunferência de Tad, a altura de Krist e o fato de que o baterista do tad insistia em ficar em pe na van, o carregamento diário podia levar uma hora e parecia algo saído de uma rotina dos irmãos Marx.
Antes da partida, devido a muitos problemas gastrintestinais, Tad
Doyle tinha de passar por uma sessão diária de vômito quase ritualística. Este último mal-estar era tão regular que poderia ter sido adicionado ao programa da excursão: "10h: carregar a van; 10h 10: vômito do Tad".
Kurt ficou fascinado pelo funcionamento interno de Tad. Ele estava
sofrendo de suas próprias dores de estômago, mas vomitava apenas bile ou Sangue.
O vômito de Tad, declararia Kurt, parecia uma obra de arte. "Antes
que Tad entrasse na van, Kurt apanhava a bacia de plástico", lembra Kurt Danielson, do Tad. "Ele ficava lá pacientemente, segurando aquele barril de plástico, com um brilho de prazer nos olhos. ELe olhava para Tad, ansioso, e finalmente Tad vomitava, e o vômito saia num fluxo glorioso, colorido, e Kurt o apanhava por inteiro.
Ninguém mais passou a segurar a bacia — era tarefa de Kurt e era
o seu prazer." Tad também tinha freqüente urgência de ir ao banheiro, o que significava incursões para a margem da estrada, para grande espanto dos motoristas ingleses que passavam por um homem de mais de 130 quilos fazendo as necessidades no canteiro central da rodovia. Em certo sentido, o sistema gastrintestinal de Tad se tornou a musa de Kurt naquele outono: ele compôs a canção "Imodium" sobre o medicamento que Tad tomava para diarréia.
A evacuação continuou como tema quando a banda explorou o
famoso bairro de luzes vermelhas de Hamburgo e seus supermercados pornô. Kurt também era um pouco pornógrafo amador: obcecado com o traseiro feminino, ele fotografara o traseiro de Tracy em diversas ocasiões. Ele achava sexista a pornografia comum, mas era arrebatador pela pornografia divergente, do mesmo modo que um antropólogo procura tribos ainda não descobertas. Ele era particularmente fascinado por revistas que retratavam o que ele chamava de "amor fecal", o fetiche sexual formalmente conhecido como escatofilia. "Kurt era fascinado por qualquer coisa fora do comum: qualquer coisa anômala, psicologicamente estranha ou incomum, física ou socialmente estranha", observa Danielson. "Se envolvesse funções corporais, melhor ainda. Em vez de beber ou fumar maconha, ele ficava alucinado observando as idiossincrasias peculiares da humanidade se desenrolando ao seu redor," Kurt era pobre demais para comprar pornografia, mas Tad comprou uma revista que mostrava Cicciolina, uma estrela da industria do sexo que conquistou fama internacional após ser eleita para o Parlamento italiano. Uma revista ilustrada mostrava Cicciolina saindo de uma limusine e urinando na boca de um homem. Toda manhã, já na van, Tad sacava a revista e anunciava; "A biblioteca está aberta" — depois disso, a cobiçada revista seria passada adiante.
Essas extravagâncias adolescentes eram as únicas diversões numa
programação entorpecente e desmoralizante. "Fomos a Paris, mas não tivemos tempo de ver a torre Eiffel", lembra Chad. A programação, afirmava Kurt, parecia destinada a esgotá-los física e psicologicamente. O ritmo frenético começou a afetar seus shows: ás vezes eles tocavam excepcionalmente bem "como em Norwich, onde uma multidão incontrolável os chamava de volta para bisar), e outras vezes tudo saia errado (como em Berlim, onde Kurt quebrou sua guitarra depois de seis canções).
"Eles eram ora fenomenais, ora meio atrozes", lembra o empresário
da turnê Alex MacLeod. "Mas mesmo quando conhecia suas canções, e muitos shows ficaram lotados — uma novidade para o Nirvana. Mas considerando que os locais eram pequenos, nenhuma das bandas ganhava muito dinheiro.
O que de fato conseguiram foi publicidade da imprensa, e isso,
juntamente co a extensa divulgação do influente Dj John Peel, impeliu Bleach para os dez discos de maior sucesso das paradas de selos independentes do Reino Unido. Quando estava em Berlim, O Nirvana conquistou sua primeira matéria de capa de revista, na The Rocket, de Seattle. Kurt contou ao redator Nils Bernstein, os Pixies e os Vaselines, sua última e maior paixão. Ele também abordou o que descrevia como preconceito dos avançadinhos de Seattle contra o Nirvana: "Eu acho que temos sido rotulados de garotos caipiras e iletrados que comem as primas e não têm a menor idéia do que está rolando. Isso é completamente inverídico".
Embora estivesse tocando finalmente para as platéias
apaixonadas, Kurt foi tomado por uma terrível melancolia. Nas ocasiões em que ele podiam pagar um hotel, geralmente dividia o quarto com Kurt Danielson e os dois ficavam a noite inteira no escuro, olhando para o teto e conversando sobre que diabo os havia levado para o inferno de uma van Fiat. Kurt contava histórias fantásticas da sua infância, do Gordo, da prisão de Aberdeen e de uma estranha religião que Dylan Carlson havia criado, misturando cientologia e satanismo. Mas as histórias mais bizarras que contava eram de sua própria família: casos de Don e Wendy, das armas no rio, de seus amigos de escola paquerando sua mãe. Durante uma noite de inquietura, Kurt confessou que gostaria de estar em casa. "Eu tenho desejado ir embora desde a primeira semana desta excursão", disse ele, deitado na cama do hotel. "Eu poderia, sabe? Eu poderia ir para casa da minha mãe agora mesmo, se quisesse — ela me deixaria. Ela me mandaria o dinheiro." Sua voz vacilava como se ele estivesse dizendo uma mentira elaborada . "Ela me aceitaria, sabe?"
Alguns dias depois, em Roma, Kurt entrou em desespero no palco.
O Tad havia tocado primeiro e incendiara a platéia com a ladainha "Fuck the Pope", sempre popular entre os roqueiros punk na Itália. No momento em que o Nirvana entrou, a platéia lotada estava irritada. Mas os problemas com o sistema de som enfureceram Kurt, e depois de tocar durante quarenta minutos, ele escalou uma pilha de alto-falante de nove metros de altura e gritou para a platéia; "Eu vou me matar". Ninguém ali — nem krist, nem Chad, nem Poneman ou Pavitt (que tinham vindo para a apresentação) — sabia o que fazer. Nem mesmo Kurt, que subitamente se viu diante de uma platéia gritando "pula, pula..." em inglês arrastado. Ele ainda estava dedilhando a guitarra — o resto da banda havia parado para olhar — e parecia incerto sobre o que fazer em seguida. "Ele teria quebrado o pescoço se tivesse saltado e em, algum momento ele percebeu isso", observa Danielson. Kurt acabou descendo, mas sua piração não havia terminado. Nos bastidores, o promotor se queixou de que o microfone tinha sido quebrado, o empresário MacLeod contestou e demonstrou que o microfone funcionava bem — eles mal tinham dinheiro para substitui-lo. Kurt então agarrou o microfone, torceu-o como Roger Daltry e o despedaçou no chão. "Pronto, agora está quebrado", exclamou enquanto saia.
Ele se recuperou suficientemente para tocar em mais cinco shows
na Europa, e a excursão chegou a Londres para outra "Lamefest". Kurt emprenhou todas as suas forças para esse último compromisso, saltando sem parar no palco até que seus joelhos ficassem ensangüentados. Psicologicamente, a excursão terminara para Kurt depois de Roma. Como ele não tinha outro guitarrista para demitir, dessa vez basicamente demitiu sua gravadora. Pavitt e Poneman haviam ido de avião até lá: Kurt não conseguia evitar comparar as condições na Van com o estilo jatinho com que esses dois viajavam. Embora o Nirvana ficasse na Sub Pop por mais um ano, um casamento em deterioração progressiva, Kurt já havia emocionalmente jogado fora sua gravadora.
No momento em que o Nirvana retornou aos Estados unidos no
começo de dezembro, Krist e Shelli tinham anunciado seu noivado, com casamento marcado para a véspera de Ano-Novo em sua casa em Tacoma. Kurt e Tracy compareceram, embora o trajeto de Olympia a Tacoma tenha sido um dos piores trinta minutos de seu relacionamento. Trancy não conseguia testemunhar o casamento de Shelli sem mencionar o tema do envolvimento com Kurt, ainda que ela soubesse que esse era um tópico destinado a magoá-la. Durante a turnê européia, Krist ligava freqüentemente para Shelli: tudo o que Tracy recebia de Kurt era um ocasional cartão-postal, embora um deles disesse "Eu te amo" vinte vezes. Mas, no trajeto até Tacoma, a única maneira pela qual ele se referiu ao casamento foi brincando sobre ela se casar com outro."Eu ainda gostaria de fazer sexo com você, porque eu realmente gosto", disse-lhe ele, achando que estava elogiando.
No casamento, Kurt passou a maior parte da noite sozinho no
telhado saudando o novo ano, completamente bêbado.
Naquele Natal, Kurt e Tracy haviam comemorado quase três anos
juntos. Embora lhe faltasse dinheiro, havia dado de presente a ela The Art of Rock, um livro de mesa de cem dólares. Externamente eles pareciam um casal firme, mas alguma coisa havia mudado em Kurt, e tanto ele com o Tracy sabiam disso. Quando ele regressava da excursões, levava tempo para se tornar mais afetuoso com ela, e o contraste entre o tempo que passavam separados e o tempo que passavam juntos estava testando a paciência de Tracy. Ela sentia que o estava perdendo para o resto do mundo.
E, em certo sentido, ela estava. à medida que as coisas
continuavam a melhorar para o Nirvana, a banda progressivamente lhe fornecia a auto-estima e o apoio financeiro que antes era ela quem lhe dava. No começo de 1990, Kurt tinha atividades relacionadas com a banda que precisavam ser realizadas diariamente, e Tracy não sabia por á prova onde é que ela se situava na comparação. Mas, na verdade, ela também estava se afastando dele. Era uma garota equilibrada e Kurt continuava a ficar cada vez mais excêntrico. Ela se perguntava onde aquilo tudo poderia terminar. Em fevereiro daquele ano, ele escreveu em seu diário — metade fantasia e metade realidade — o que teria preocupado qualquer namorada: "Sou um homem de 23 anos e estou amamentando. Meus seios nunca doeram tanto, nem mesmo depois de receber torções nos peitos de colegas da escola fanfarrões. Faz meses que não me masturbo porque perdi a imaginação. Fecho os olhos e vejo meu pai, garotinhas, pastores alemães, comentaristas de noticia da tevê, mas nenhuma gatinha voluptuosa fazendo beicinho e estremecendo em êxtase. Vejo lagartos e golfinhos". Este e outros registros semelhantes a deixavam preocupada sobre o estado mental de Kurt.
Ele nunca dormira bem, rangendo os dentes á noite e se queixando
de pesadelos recorrentes. "Até onde ele conseguia se lembrar, sempre sonhara com pessoas que tentavam matá-lo, lembra Tracy. "Nos sonhos, ele está tentando afastar as pessoas com um taco de beisebol, ou pessoas com facas estão vindo atrás dele, ou vampiros." Quando ele despertava, ás vezes com lágrimas nos olhos, Tracy o confortava do jeito que uma mãe acalma um menino, abraçando-o e afagando-lhe os cabelos. Ela sempre estria ali para ajudá-lo, dizia-lhe; ela jamais iria partir.
No entanto, ele ficava deitado olhando para o teto, encharcado de
suor. "Ele tinha esses sonhos o tempo todo." Ela receava pelo modo como ele conseguia se acalmar quando estivesse em turnê.
Externamente, durante o dia, ele parecia ótimo — jamais falava
sobre os sonhos ruins, dando antes a aparência de alguém que sonhava apenas com a banda. O Nirvana começou o ano com uma breve sessão de estúdio onde gravaram a canção "Sappy". Já na excursão européia falaram sobre um novo disco para o verão. Pela primeira vez na carreira Kurt ele não era a força solidária pressionando por um novo lançamento — agora, a Sub Pop, a imprensa, a rádio universitária e até um número crescente de fãns estavam lhe pedindo músicas novas. Ele ainda estava compondo num ritmo prodigioso e as canções estavam ficando melhores. Nikki McClube se mudaram para o apartamento vizinho ao dele e costumava ouvi-lo através das paredes, constantemente tocando guitarra. Certa tarde, naquele inverno, ela ouviu uma bela melodia chegando pelo respiradouro da calefação: ele ficava iniciando e parando a canção, como se a estivesse construindo na hora. Naquela noite ela sintonizou o rádio na KAOS e ouviu Kurt tocando ao vivo a canção que estivera ensaiando durante o dia.
No dia 19 de janeiro de 1990 , o Nirvana fez ainda outro show em
Olympia que entraria para os livros de história, embora desta vez por razões diferentes dos demais. O show, no salão de uma fazenda fora da cidade, juntaria o Nirvana, os Melvins e o Beat Happening. Como de costume, Kurt usava sangue falso para traçar marcas de agulha em seus braços. Por não saber direito como deveria ser um drogado, ele rabiscou marcas que lhe deram uma aparência asquerosa, mais como a de um zumbi de um filme de Ed Wood do que a de um viciado em drogas. "Ele estava usando mangas curtas, e ambos os braços, dos pulsos até as mangas, tinham aquelas equimoses", observa Garth Reever. "Parecia que ele tinha uma doença."
Apesar disso, a tentativa de Kurt de fazer uma brincadeira teria
conseqüências não planejadas: sua paródia se perdeu na platéia e começaram a circular rumores de que ele era realmente um drogado. No entanto, o show marcou uma espécie de divisor de águas: embora os Melvins encabeçassem o show, o Nirvana era agora mais popular que seus mentores. Os melvins acabaram sua apresentação com uma versão agitada de "Rockin in the Free World", de Neil Young. Kurt estava na fileira da frente, erguendo o punho com o restante da platéia, embora não tenha de notar que um terço dela havia saído depois da apresentação do Nirvana.
Algo ainda mais chocante aconteceu na noite seguinte, quando os
Melvins e o Nirvana tocaram em Tacoma, em um espaço chamado Legends. O concerto teve os ingressos esgotados e rendeu ao nirvana um dia de pagamento de quinhentos dólares, um dos maiores cheques recebidos até então. Havia umas cem pessoas fazendo mergulho de palco, criando um verdadeiro caos. Uma das mais irritantes foi Matt Lukin, do MudHoney, que usou seu passe para os bastidores para andar no palco e mergulhar de cabeça na platéia. A apresentação do Nirvana teve de ser interrompida três vezes para apartar brigas entre Lukin e os saltadores. "Ele é nosso amigo", ficava dizendo Kurt aos saltadores, ao mesmo tempo preocupado e embaraçado. Ao final da apresentação do Nirvana, que incluía parte de "Sweet Home Alabama" de Lynyrd Skynyrd, havia cinco guardas de segurança postados na frente da banda. Isso não pareceu estranho a Kurt, mas o que certamente o surpreendeu foi ver Mark Arm, do Mudhoney, postado á direita do palco, agitando a cabeça para a frente e para trás durante toda a apresentação do Nirvana.
Mark Arm, cujo nome verdadeiro era Mark McLaughlin, era
comprovadamente o formador de gosto para o Punk rock de Seattle. Enquanto Pavitt e Poneman haviam habilmente capitalizado o grunge, Arm, com sua banda Mudhoney e seu grupo anterior, O Green River, praticamente inventara o estilo musical e até propusera o termo "grunge", escrevendo num fanzine de Seattle no inicio dos anos 80. Arm era brilhante, sarcástico, talentoso, famoso por suas festas: transpirava o tipo de confiança que levava as pessoas a pensarem que ele estava destinado ao estrelato. Em suma, ele era tudo o que um garoto inseguro de Aberdeen jamais imaginaria poder ser. Ter Arm presente em seu concerto, e vê-lo desfrutando-o, era como ter Jacqueline Kennedy Onassis dançando a noite inteira em sua festa de casamento. A adoração que Kurt tinha por Arm era óbvia para todos, mas tinha de ser mais óbvia para Buzz Osborne, que estava observando seu antigo rebanho se afastar.
Kurt havia tentado aprofundar sua amizade com Arm, com pouco
sucesso. Quando se mudou para Seattle, freqüentemente parava no apartamento dele, onde ficava intimidado com a coleção de singles punk rock de Arm — o símbolo último de status no circulo. "Era óbvio que ele idolatrava Mark", lembra Carrie montgomery, namorada de Arm. "Mark não ficou tão impressionada com isso, é claro." Na época, o Mudhoney continuava a ser a prioridade da Sub Pop e os reis do cenário musical do noroeste. Muitas gravadoras importantes estavam interessadas neles, mas o grupo garantia que ficaria com a Sub Pop — isso graças á amizade entre Arm e Pavitt.
Mesmo para o Mudhoney, porém essa amizade foi testada durante
o ano de 1990, quando os problemas financeiros da Sub Pop ameaçavam afundar a gravadora e todas as bandas que estavam com ela. Embora os discos do Tad, do Nirvana e do Mudhoney tivessem sido sólidos em vendas, estas não estavam nem um pouco perto do nível necessário para custear a enorme operação que Pavitt e Poneman haviam montado.
"A Sub Pop até pediu um empréstimo de metade de nosso primeiro
avanço pela Europa", lembra Steve Turner, do Mudhoney. O selo estava tão quebrado que oferecia ás bandas ações em lugar dos direitos devidos. "Dissemos: 'Qual sentido disso?", lembra Matt Lukin. "Vocês vão estar falidos em duas semanas." Era particularmente difícil para Lukin assistir quanto a Sub Pop tratava mal seus amigos no Nirvana. "Eu vi quanto tempo Bruce ficou prometendo lançar outro disco deles e continuar a protelar", lembra Lukin. "Eles foram colocados em banho-maria."
O dinheiro que Kurt havia ganho com a excursão foi gasto
rapidamente. Naquela primavera ele começou novamente a se candidatar a empregos, veiculando anúncios no Daily Olimpian para ocupações como as de limpar apartamentos e lavar canis em clinicas veterinárias: ele chegou a se candidatar para este último cargo, mas foi rejeitado. Ele e Krist decidiram começar seu próprio negócio de faxina, ao qual chamariam "Pine Tree Janitorial". Foi um dos muitos esquemas de Kurt para enriquecimento rápido e ele chegou a ponto de desenhar um folheto para seu novo negócio com ilustrações mostrando os dois arrastando esfregões. O anúncio proclamava: "Deliberadamente limitamos nosso número de escritórios comerciais a fim de fazer pessoalmente a limpeza e não nos afobar". Apesar de espalhar panfletos por toda Olympia, nenhum cliente os contratou.
Quando não era o diretor executivo da Pine Tree Janitorial, Kurt
estava compondo canções e excursionando. Partiram na primeira semana de fevereiro para uma turnê pela Costa Oeste com o Tad, a turnê mais bem-sucedida até então, atraindo platéias grandes e entusiastas em PortLand e San Francisco (uma apresentação no dia dos Namorados anunciava as bandas como ("grandalhões ardentes"). Mesmo na clinica Hollywood as pessoas gritavam para entrar em seu show no Raji's. "Foi a noite em que eles conquistaram Los Angeles", lembra Pleasant Gehman, responsável pela contratação da sala. "As pessoas estavam simplesmente pasmas. O clube comportava apenas duzentas pessoas, mas eu juro que havia quatrocentas lá dentro." Em Los Angeles, hospedaram-se com Jeniffer Finch, da banda L7, que os descreveu como "semelhante ao número do cachorrão e do cachorrinho no circo: Chad era minúsculo, seu cabelo descia até a bunda e seus olhos eram selvagens: Kurt era um pouco mais alto que Chad, mas com o cabelo fibroso e comprido: e depois tinha Krist, que era tão alto que o pescoço doía ao se olhar para ele".
A excursão também assistiu ao reencontro de Kurt com seu velho
amigo Jesse Reed, que agora estava morando nos arredores de San Diego. Encontraram-se no McDonald's de San Ysidro, famigerado por ter sido palco de um sangrento tiroteio e lugar que Kurt insistia que fizesse parte das viagens do grupo. Jesse foi de carro com a banda para Tijuana para um show, e mais tarde naquela noite, dois dias antes do aniversário de 23 anos de Kurt, os dois velhos amigos comemoraram bebendo meio galão de birita e cheirando metanfemina. Apesar dos permanentes problemas estomacais, no inicio de 1990 Kurt começou a beber novamente, e embora seu consumo de álcool ainda fosse esporádico, quando ele bebia era em excesso.
Quando Kurt regressou a Olympia, dispunha de apenas três
semanas antes de sair para mais outra longa excursão, que incluía uma escala em Wisconsin para gravar o reforço a Bleach. Kurt e Tracy tentaram reacender o namoro, mas a tensão era óbvia a todos que os rodeavam. "Eles não mais interagiam muito em público", lembra "Slim" Moon. Kurt se queixou para "Slim" de que Tracy queria fazer sexo com mais freqüência do que ele. Para ela, fazia parte do laço do relacionamento: para ele, significava um envolvimento emocional que não podia mais manter.
Em março daquele ano, Damon Romero passou pelo apartamento
uma noite e Kurt alugou um vídeo, atividade freqüente para uma pessoa caseira como ele. Kurt escolheu o filme mais recente de Alex Cox, intitulado Straight to Hell — estrelado por Joe Strummer e Elvis Costello. Enquanto assistiam, Romero apontou para uma atriz e disse; "Ei, é a garota daquela banda de PortLand". Ele estava apontando para Courtney Love. Apesar das resenhas furiosas que havia recebido da critica, Kurt gostou do filme. "Tinha Kitsch suficiente para Kurt gostar dele", lembra Romero.
No dia 20 de março, a banda entrou furtivamente numa sala de
aula da Evergreen com alguns amigos para filmar o que Kurt imaginava poder ser um vídeo oficial da banda. O plano de Kurt era que a banda tocasse enquanto ao fundo seriam projetadas vinhetas que ele havia gravado da televisão. "Ele tinha horas e horas daquela coisa excêntrica", lembra o diretor Jon Snyder. "Ele havia gravado Star Search com uma velha fórmula Donny e Marie, trechos da ilha da fantasia e todos aqueles comerciais malucos 'Lee Press-On Nail' da madrugada." Para a primeira música, "Shool", a banda tocou enquanto Donny e Marie dançavam atrás deles. Para "Big Cheese", as imagens de fundo vinham de um filme mudo sobre bruxas que Kurt havia encomendado, juntamente com alguns filmes super-8 que ele havia feito em sua infância "O filme tinha bonecas quebradas, bonecas em chamas ou coisa do tipo Toy Story, onde as bonecas são todas montadas de maneira errada", lembra Alex Kostelnik, que operava uma das câmera. Kurt propôs que a gravação continuasse e fosse a Aberdeen para adicionar mais tomadas de seus fantasmas de infância. Como muitas de suas idéias, jamais foi posta em prática.
Uma semana depois, carregaram novamente a Van e voltaram a
excursionar. Tracy estava dormindo quando Kurt saiu, mas ela havia escrito um bilhete no diário dele: "Adeus, Kurdt. Faça uma boa excursão e uma excelente gravação. Fique por lá. Eu vou ver você dentro de sete semanas. Sinto saudade de você. Com amor, Tracy". Era um bilhete carinhoso, mas mesmo em sua afeição era perceptível uma derrota. Agora, até Tracy estava grafando o nome dele como seu alter ego "Kurdt". Ela havia perdido seu Kurt.
Em Chicago, no dia 2 de abril, a banda estreou "In Bloon". Após o
show, dirigiram a noite toda para chegar a Madison, Wisconsin, sede da Smart Studios e do produtor Butch Vig. Tinham apenas uma semana para gravar o disco, mas Kurt lembrou a todos a quantidade de faixas que eles haviam conseguido gravar durante cinco horas para sua primeira demo. A maioria das canções nova ainda estava em embrião, fato cuja importância Kurt tentou reduzir. No entanto, tinham toda a confiança de que Vig — que havia trabalhado com centenas de bandas de rock alternativas — podia transformar suas idéias. De fato, vig impressionou-os; sendo ele próprio um baterista, conseguiu captar o som de bateria que Kurt achava que estava faltando nos outros trabalhos da banda.
Trabalhando num ritmo frenético, gravaram oito músicas, inclusive
uma versão de "Here She Comes Now", do Velvet Underground, gravada para um disco de compilação. Fizeram cinco canções novas e regravaram duas antigas em poucos dias. Kurt, naturalmente, estava desapontado porque não tinham feito mais. Cinco das canções que gravaram no Smart acabariam sendo incluídas no disco Nevermind.
As novas canções traziam Kurt sondando as profundezas
emocionais da própria vida em busca de substância e compondo sobre os personagens a sua volta. "In Bloom" era um retrato levemente disfarçado de Dylan Carlson, enquanto "Pay to Play" zombava da prática dos clubes que cobravam das bandas para que elas tocassem. "Breed" era a canção mais complexa da sessão de gravações; ela começara com o titulo "Imodium", sobre o remédio de Tad para diarréia, embora houvesse pouca coisa na versão gravada no Smart que a vinculasse a Tad: ao contrário, Kurt usara o título para sugerir uma continuidade excessiva de fala. mais elaborada que as ladainhas anteriores de Kurt, a canção terminava com o verso "disse ela", implicando um diálogo capitado ao qual era acrescentada outra camada de narrativa para que fosse decifrada.
Kurt havia proposto um titulo para o disco; Sheep [Ovelhas]. O
nome era sua brincadeira particular com as massas que, segundo estava convencido, ririam comprar seu próximo trabalho. "Porque você não quer: porque todos os demais querem", escreveu ele em um simulacro de anúncio para Sheep. O anúncio dizia "Que as mulheres possam governar o mundo. Abortem Cristo. Assassinem o maior e o menor dos males. Roubem Sheep. Numa loja perto de você. Nirvana. Flores. Perfume. Doces. Cachorrinhos. Amor. Solidariedade Geracional. E Matança de Seus Pais. Sheep".
Por volta da mesma época, ele escreveu ainda outra biografia falsa
da banda, uma biografia que se mostraria curiosamente profética, ainda que tivesse recheada das suas brincadeiras de adolescente. Ele descrevia a banda como "Três vezes ganhadora do Grammy, número 1 das 100 Mais das paradas da Billbored por 36 semanas consecutivas. Duas vezes capa de Bowling Stoned, saudada pelas revistas Thyme e Newsweak como a banda mais original, provocadora e importante de nossa década".
Poucas horas depois de finalizar a mixagem no Smart, estavam de
volta á excursão e Vig enviou as fitas matrizes para a Sub Pop, muito embora a banda tivesse sérias dúvidas sobre se queriam que a gravação fosse lançada pelo selo. Duas semanas depois, em Massachusetts, Kurt ligou para Tracy e seguiu-se uma longa conversa telefônica — uma conversa que ambos sabiam estar próxima, mas que ela havia desejado postergar ou evitar. Ele lhe disse que as coisas não estavam funcionando entre eles e que talvez não devessem mais morar juntos. Não era um rompimento completo; a honestidade não era o modo de Kurt lidar com o conflito. "Ele achava que talvez devêssemos morar separados por algum tempo porque precisávamos de uma casa maior", lembra Tracy. A sugestão de kurt era salpicada por "talvez" e temperada com a afirmação de que "mesmo que não estejamos morando juntos, ainda estaremos saindo". Mas ambos sabiam que era o fim.
No mês seguinte, Kurt dormia com uma jovem durante a excursão.
Foi o único caso de infidelidade que seus parceiros de banda testemunharam. Do jeito que foi, o sexo foi malfeito e Kurt se odiou por ter sido tão fraco. Ele falou a respeito com Tracy quando regressou; tinha havido muitas oportunidades para ele ter sido infiel ao longo dos anos, e a ocasião dessa única infração sugere que ele estava tentando se distanciar emocionalmente, dar a ela um motivo para odiá-lo, o que tornaria mais fácil a separação.
Como em todas as excursões do Nirvana, após cerca de um Mês na
estrada a banda — e Kurt — parecia desmoronar. Num show no Pyramid Club, perto do final de abril, eles tiveram outra rodada de problemas de som. o ânimo de Kurt ficou exaltado quando viu uma única pessoa saltando entre a multidão de curtidores de nova York, mesmo durante as demoradas afinações da banda: não conseguiu acreditar no que via quando percebeu que era Iggy Pop. Mas seu entusiasmo durou apenas um momento antes de se converter em embaraço: Kurt estava vestindo uma camiseta do Iggy Pop. Outras pessoas poderiam ter rido da coincidência, mas, para Kurt, isso confirmava a idolatria ao rock que ele desesperadamente desejava esconder. Ele terminou o show demolindo a bateria de Chad.
Chad tinha de estar muito atento aos humores de Kurt para
discernir quando este poderia ser lançar como um torpedo para dentro da bateria. Era a um só tempo um ato agressivo e de autoflagelação — Kurt passara a ficar insatisfeito com a percussão de Chad. Em Boston, Kurt atirou um balde de água em Chad e errou a orelha do baterista por uma questão de centímetros.
No momento em que a banda chegou de volta ao noroeste no final
de maio, quase não é preciso dizer que Chad estava fora da banda. É claro que nada tinha dito. Mas, cerca de duas semanas depois que a excursão terminara, Channing olhou pela janela de sua casa em Bainbridge Island, viu a van subindo a longa rampa da garagem e, como o personagem predestinado de um conto de Enerst Hemingway, sabia que o fim estava próximo. Ele até ficou surpreso por Kurt ter vindo — era um testemunho do quanto Kurt gostava de Chad, apesar de que logo iria afirmar que Chad "não se encaixava na banda". Muitas vezes, os três haviam dormido na mesma cama, Kurt e Chad ladeando krist, para que pudessem compartilhar do mesmo cobertor. Krist foi quem falou; Kurt quase não disse uma palavra e passou a maior parte da conversa olhando fixo para o chão. Mas, mesmo para Chad, aquilo chegava como um certo alívio. "Eu passara os últimos três anos com esse caras em uma intimidade muito estreita", lembra Chad. "Passamos juntos pelo inferno. Estivemos juntos na merda, em pequenas vans, tocando de graça. Não havia nenhum paizão com dinheiro grosso para nos pagar fiança." Kurt deu um abraço de despedida em Chad. Ele sabia que tinha havido amizade, mas também percebia que ela agora terminava. "Eu sabia que, quando nos despedíssemos, eu não os veria por um longo tempo."