Mais Pesado Que o Céu

Charles R. Cross · Capítulo 10 de 23

Páginas do PDF

Mais Pesado Que o Céu

Te Amo Tanto

Olympia, Washington

Maio de 1990-Dezembro de 1990

"Love you so Much it Makes me Sick."

[Te amo tanto que fico enjoado.]

De "Aneurysm", 1990.

 

NA MESMA SEMANA EM QUE DEMITIU CHAD, Kurt rompeu com

Tracy. Também era uma espécie de demissão e ele lidava muito mal com separações desse tipo. O decreto de Kurt para Tracy era que não deviam morar juntos: ao dizer isto, contudo, ele não tinha nem dinheiro nem, em sua letargia, capacidade para se mudar. E uma vez que Tracy gastava todo o dinheiro para pagar as contas, também ela não tinha como se mudar. Continuaram a dividir o apartamento até julho, quando ela encontrou um novo lugar para morar em Tacoma. Durante esses três meses, eles viveram em universos alternados, no mesmo espaço físico, mas separados por quilômetros de distância emocional.

O mundo dele também era um mundo de traição, porque, embora

tivesse informado Tracy sobre sua infidelidade no Texas, Kurt deixara de contar a ela a maior traição, a de que estava apaixonado por outra mulher. O novo objeto de seus era Tobi Vail, uma musa de vinte anos de idade de Olympia. Kurt conhecia Tobi havia dois anos, mas foi apenas no inicio de 1990 que ele teve a chance de passar uma noite inteira com ela. No dia seguinte, contou a Dylan que encontrara a primeira mulher que o deixou tão nervoso que ele vomitou. Kurt fala dessa experiência na canção "Aneurysm", onde diz: "Te amo tanto que fico enjoado".

Embora ela fosse três anos mais nova, seu nível educacional era

mais alto que o dele, e ele ficava horas ouvindo Tobi e sua amiga Kathleen Hanna tagarelando sobre sexismo e seus planos para fundar uma banda chamada Bikini kill. Tobi tinha seu próprio fanzine e em suas páginas ela havia cunhado a expressão "Riot Grrrl" para descrever o Modelo 1990 do feminismo punk. Ela era basicamente baterista, mas sabia tocar guitarra: tinha uma extensa coleção de discos punk Rock: e era, segundo Kurt imaginava, sua contraparte feminina. "Você nunca encontra uma garota que conheça tanto sobre música", observa "Slim" Moon. No entanto, a despeito de seus interesse musicais comuns, Kurt se apaixonara por alguém que jamais poderia amá-lo do jeito que Tracy o amara e que, o mais importante, nunca precisava dele. Tobi tinha uma visão de relacionamento mais casual do que Kurt: ela não estava procurando um marido, nem estava disposta a ser mãe dele. "Namorados eram mais como acessórios da moda para Tobi", observa Alice Wheeler. O que kurt estava procurando num relacionamento era o tipo de intimidade familiar que lhe faltara desde a primeira infância, mas Tobi, como sexista, rejeitava a relação tradicional que ele procurava.

Mesmo a palavra "namorada" significava uma coisa diferente na

comunidade Punk Rock de Olympia, onde poucos admitiriam fazer parte de um casal. Era como se agir no sentido de um namoro firme fosse adotar os padrões tradicionais de uma sociedade de que todos vinham para Olympia para se livrar. "Ninguém namorava em Olympia", observa Dylan. Por esses padrões, o relacionamento de Kurt e Tracy era totalmente antiquado; sua união com Tobi não se conformaria a esses papéis estereotipados.

O relacionamento dos dois começara em sigilo — ele ainda estava

morando com Tracy quando dormiu com ela pela primeira vez. Mas, mesmo depois que Tracy se mudou, o namoro não pareceu ir além das discussões na cafeteria e o ocasional sexo tarde da noite. Ele pensava nela o tempo todo, obsessivamente, e saia pouco, receando que ela pudesse ligar. Tobi raramente ligava. A relação envolvia principalmente ir a concertos, trabalhar no fanzine ou conversar sobre política.

Ele começou a interpretar as opiniões dela sobre o punk rock

através de sua própria lente, o que o inspirou a redigir listas de coisas nas quais acreditava, coisas que ele odiava e discos que deveria ouvir. Um slogan que ele repetia sempre era: "o punk rock é liberdade". passou a afirmar isto enfaticamente em toda entrevista, embora nunca explicasse do que estava procurando liberdade: isso tornou-se um mantra para resolver qualquer contradição em sua vida. Tobi achou que soava sensacional.

No entanto, apesar da união intelectual, muitos em Olympia

jamais souberam que eles eram um casal. "O tempo todo ele rompeu com Tracy porque, em certo sentido, isto a colocava no lugar. Eu não acho ela realmente pretendia ficar com ele por muito tempo." Tobi, segundo kurt descobriu, era alérgica a gatos e, por isso, sua fazenda de bichos normalmente estava fora dos limites. A essa altura, também era uma sujeira: quando Tracy saiu, o apartamento todo assumiu o aspecto de um depósito de lixo, com pratos sujos empilhados, o chão forrado de roupas e as bonecas mutiladas de Kurt vigiando o cenário com seus olhos enlouquecidos e quebrados.

Um ano antes, Kurt se queixara de que as feministas lhe eram

ameaçadora. Mas depois que Kurt começou a dormir com Tobi, o feminismo Riot Grrrl era mais fácil de engolir e ele logo aderiu a ele como se fosse uma religião recém-descoberta. o mesmo homem que lia pornografia da Cicciolina agora empregava palavras como "misoginia" e falava sobre a política de opressão. Em seu caderno Kurt escreveu duas regras de rock que eram citações de Tobi: "1- aprender a não tocar seu instrumento; 2- não machucar as garotas quando você dançar (ou em nenhum outro momento)". O "aprender a não tocar" era um dos muitos ensinamentos de Calvin Johnson, que afirmava que a atividade musical era sempre secundária á emoção.

Kurt havia encontrado Tobi pela primeira vez ao tocar com o go

Team, uma banda de Olympia que girava em torno de Calvin, se bem que a maior parte do cenário musical girava em torno de Calvin. Com seu cabelo curto de menino e propensão a usar camisetas brancas, Johnson parecia um recruta da Marinha desgarrado. Mas quando se tratava de punk Rock, ele tinha o comportamento, se não a aparência, de um ditador, criando políticas como um déspota recém-coroado elabora uma constituição. Ele era líder do Beat Happening, co-proprietário da K Records, Dj na KAOS e promotor de shows de rock locais. Ele pregava uma ética do rock independente, de baixa fidelidade, e governava Olympia do jeito que buzz Osborne comandara Grays Harbor. "Calvin era muito não-rock", lembra John Goodmanson." A piada era que se você tinha um baixista em sua banda, você não podia estar na k." os seguidores de Calvin tinham até um nome: "calvinistas". Tobi não era apenas uma calvinista, ela já tinha sido namorada de Johnson.

Cada passo do relacionamento de kurt e Tobi apresentava desafios

a sua auto-estima. Era muito difícil para Kurt se encaixar no cenário cosmopolita de Seattle, mas mesmo na minúscula Olympia ele se sentia como se fosse um participante de uma versão punk Rock de Jeopardy!, em que uma única resposta errada o mandaria de volta a Aberdeen. Para um garoto que cresceu vestindo camisetas do Sammy Hagar, ele descobriu que tinha de usar constantemente seu eu "kurdt" como disfarce para proteger seu passado real. Ele chegava a confessar em um raro momento de auto-revelação em seu diário: "Tudo que eu faço é uma tentativa abertamente consciente e neurótica de provar aos outros que sou pelo menos mais inteligente e legal do que eles pensam". Quando lhe pediram para nomear que influências tinha tido durante entrevistas á imprensa em 1990, ele fez uma lista de músicas inteiramente diferente da que havia feito um ano antes: passara a compreender que no mundo elitista do punk rock, quanto mais obscura e impopular fosse uma banda, mais avançado era declinar o nome dela. Os amigos começaram a notar mais o eu dividido: quando estava junto de tobi, Kurt podia criticar uma banda que, mais cedo, no mesmo dia, ele defendera.

Naquele verão, tanto Krist como Kurt estavam fastidiosamente

reproduzindo fitas das demos do Smart Studios, mas não estavam gastando selos enviando-as á Toch and go; eles as enviavam para a Columbia Records e para a Warner Brothers.

Depois de todos os problemas com a Sub Pop, Kurt e Krist haviam

se empenhada em assinar com uma gravadora maior, no mínimo para conseguir uma distribuição decente. Para Tobi, isto era um anátema.

Ela proclamava que sua banda jamais estaria numa grande

gravadora. Influenciado pela posição de Tobi, Kurt moderou suas aspirações de uma grande gravadora dizendo aos entrevistadores que o Nirvana assinaria com uma grande, receberia o cheque do adiantamento, rescindiria e depois lançaria um disco pela K. Era uma fantasia magnificente, assim como as muitas idéias grandiosas que flutuavam por sua cabeça, mas ele não tinha nenhuma intenção de agir de modo tão tolo que ameaçasse sua chance de fama e fortuna.

Desde a breve contratação de Tam Orhmund, o Nirvana havia

empresariado a si mesmo usando Michelle vlasimsky como contato, com Krist controlando a maioria dos arranjos financeiros. "Eu era o único membro do nirvana que tinha diploma do colegial", explica Krist. Em maio de 1990, a Sub Pop enviou para a banda uma nova proposta de contrato - tinha trinta páginas e concedia diversos direitos inequívocos á gravadora. Kurt sabia que não queria assinar o documento. Ele e Krist recorreram a Susan Silver, a respeitada empresária do Soundgarden. Ela deu uma olhada no contrato e disse que eles precisavam de um advogado.

Silver ficou surpresa como eles estavam inflexíveis em não querer

estar mais na Sub Pop. Eles se queixavam de que Bleach não havia recebido promoção nenhuma e de que a gravadora jamais lhe prestara contas de quantas cópias haviam sido vendidas. Kurt declarou que desejava um contrato de grande escala com uma gravadora importante, com a autoridade de uma grande empresa respaldando-o, muito embora a banda ainda estivesse sem baterista. Semelhante afirmação seria motivo para enforcamento público no tribunal de Calvin, mas contrastava com a maioria da bandas de Seattle. Ela também contradizia o que Kurt havia dito á imprensa apenas três semanas antes. No dia 27 de abril, quando a emissora de rádio WOZQ lhe perguntou se a banda consideraria assinar com uma grande gravadora, ele replicou: "Não temos nenhum interesse numa grande gravadora. Seria ótimo ter uma distribuição melhor, mas tudo o mais que acompanha as grandes gravadoras é apenas um monte de besteira." No entanto, no período transcorrido após essa entrevista, sua separação de Tracy o havia privado de sua benfeitoria. Ele agora declarava que desejava um "contrato de um milhão de dólares", mas, talvez numa aceitação da influência de Tobi, ele proclamou que, mesmo quando o Nirvana conseguisse seu contrato gigante, eles "ainda excursionariam numa Van", Kurt havia ouvido falar de Peter Paterno, um dos advogados mais sérios do ramo, e perguntou a Susan se ela poderia recomendá-los a ele. "Estou viajando para Los Angeles amanhã", disse ela. "Se vocês aparecerem enquanto eu estiver lá, levo vocês para conhecê-lo." Krist respondeu: "Partiremos de carro hoje á noite e vemos você em dois dias".

Dois dias depois, encontraram Susan em Los Angeles. Elas os

apresentou a Don Muller, um famoso procurador, e quando Paterno não foi capaz de arranjar tempo em sua agenda, ela os colocou em contato com o advogado Alan Mintz. Este os achou "ingênuos, porém ambiciosos". A especialidade de Mintz era bandas novas, mas descobriu que, mesmo como artista novos, "eles estavam definitivamente entre os mais desmazelados que já passaram pela porta".

A Sub Pop também estava conversando com advogados,

procurando utilizar a crescente reputação do Nirvana para conseguir que uma gravadora importante investisse neles. Mintz mencionou isto para a banda, sugerindo que eles poderiam obter a distribuição que desejavam na Sub Pop. Kurt se inclinou para a frente e replicou com decisão: "Me tira dessa gravadora!". Declarou ainda que desejava vender muitos discos. Impressionado com a fita deles, Mintz começou a trabalhar para encontrar um contrato para eles naquele mesmo dia.

Não foi uma tarefa difícil. Já em meados de 1990, a posição do

Nirvana como espetáculo dinâmico ao vivo, e o sucesso florescente de Bleach na rádio universitária, tinham despertado o interesse de agentes de "artistas e repertórios (A&R)", funcionários contratados por gravadoras para contratar bandas.

O primeiro agente A&R interessado foi Bret Hartman, da Mca, que

no inicio de 1990 havia realizado discussões sobre o contrato da banda com Poneman e Pavitt. Hartman percebeu que seu interesse não estava sendo passado para a banda, por isso, conseguiu o telefone da casa de Kurt e começou a deixar recados na secretária eletrônica.

Quando regressaram de Los Angeles para Seattle, Krist e Kurt

voltaram para o estúdio no dia 11 de julho para gravar o single "Sliver", a ser lançado em antecipação a outra excursão pelo Reino Unido. Eles haviam contratado Dan Peters, baterista do Mudhoney, para a gravação, embora ainda estivessem testando bateristas. Esta seria sua ultima sessão de estúdio malfeita, gravada enquanto a banda Tad estava numa pausa para o Jantar. O titulo era mais uma composição de Cobain sem nenhuma relação com a letra, mas, dessa vez, o nome era a única coisa vaga na canção: ela era direta e um feito criativo. Para o tema, Kurt havia garimpado o que ele conhecia melhor — sua família. Como Richard Pryor, que enfrentara dificuldades em sua carreira de comediante até que começou a contar piadas sobre ter sido criado num prostíbulo, Kurt havia finalmente descoberto sua expressão única, que evoluía quando ele escrevia sobre sua família. Ele havia encontrado seu dom de compositor, quase por acidente.

"Sliver" conta a história de um rapaz abandonado pelos pais e que

não quer ser deixado co os avós. Ele implora para que sua avó o leve para casa, mas em vão.

Ele come purê de batatas no jantar. Tem problemas para digerir a

carne. Monta em sua moto e dá uma topada com o dedão do pé. Tenta assistir á televisão, mas cai no sono. "Vovó, me leva para casa/Eu quero ficar sozinho", era o estribilho singelo. A canção termina quando o menino acorda nos braços de sua mãe.

"Provavelmente é a canção mais direta que já gravamos", explicou

Kurt a Melody Maker. Também foi uma das primeiras canções do Nirvana a utilizar dinâmica contrastante, que se tornaria marca registrada da banda; os versos eram tranqüilos e lentos, mas o estribilho surgia numa parede trovejante de sons.

Após seu lançamento, Kurt foi indagado sobre seu significado e

teve a audácia de afirmar que ela não era autobiográfica. Mas ninguém, certamente não alguém que o conhecesse, acreditou nisso: "Era sobre ser um garotinho e desejar estar em casa com a mamãe, sem querer ser pajeado pelos avós", explica sua irmã Kim.

Em agosto, o Nirvana foi para a estrada para uma breve turnê pela

Costa Oeste, fazendo o show de abertura para o Sonic Youth e tendo Dale Crover como baterista temporário. A excursão foi uma chance para Kurt conhecer Thurston Moore e Kim Gordon, do Sonic Youth, a quem considerava quase como reis. Sua auto-estima melhorou quando descobriu que eles o tratavam como igual. As duas bandas imediatamente se tornaram amigas e, o melhor de tudo, Moore e Gordon ofereceram um conselho empresarial, sugerindo que o Nirvana considerasse a empresa que geria seus negócios, a Gold Mountain.

Certamente eles precisavam de ajuda. A despeito da fama que a

excursão proporcionava, eram muito mal pagos, seguindo atrás do enorme ônibus do Sonic Youth em sua absurda e pequena van Dodge, parecendo mais fãs atrás de astros do que astros eles mesmos. No show de los Angeles, Bret Hartman da MCA e seu chefe Paul Atkinson foram aos bastidores visitar a banda após a apresentação e encontraram Kurt e Krist juntando os equipamentos - eles eram pobres demais para pagar ajudantes da excursão. Atkinson convidou a banda para visitar a MCA, mas Krist disse que tinha de voltar por causa do seu emprego. A conversa foi interrompida quando Krist explicou que tinha de vender camiseta — eles precisavam do dinheiro da gasolina para sair da cidade.

Quando a excursão chegou ao noroeste, o interesse pelos rapazes

da cidade era maior do que pelo Sonic Youth. Em portland e Seattle, eles eram astros prosperando: após cada show, um número crescente de fãs os elogiava. No entanto, a personalidade de Kurt não parecia mudar com a atenção, Observa Sally Barry, que estava em uma banda de abertura nessa excursão. "Ele foi a primeira pessoa que vi se enfiando na multidão com sua guitarra sem dar a mínima", lembra ela.

"Em outras pessoas, você podia notar pensamento consciente

disso. Mas, com Kurt, isso era instantâneo e Honesto." Quase todo show terminava com Kurt saltando para a platéia ou com a platéia saltando sobre ele. Nessa excursão, Kurt poupou seu baterista, já que Crover anunciara que daria uma surra em Kurt e o deixaria em risco de vida se sua bateria fosse danificada.

Crover tinha de regressar para os Melvins e o Nirvana contratou

Dan Peters como seu novo baterista e começou a planejar uma excursão pelo Reino Unido. Mas, quando Peters fez a percussão para a num concerto no dia 22 de setembro, na platéia estava outro candidato que Kurt e Krist haviam chamado para teste. A apresentação, na qual Peters tocara bem, foi seu primeiro e único show com o Nirvana.

O baterista recém-chegado era Dave Grohl, de 21 anos de idade.

Procedente da Virginia, Grohl havia tocado com as bandas Scream e Dain Bramage. O trocadilho deste último nome provavelmente foi o bastante para ele cair nas boas graças de Kurt, já que isso evidenciava, no mínimo, que Grohl tinha o mesmo senso de humor que ele, Foi Buzz quem havia colocado Grohl em contato com o Nirvana, voltando ao seu papel de mentor, e este pode ter sido o melhor presente que receberam dele. no instante em que Kurt e Krist ensaiaram com Grohl, souberam que tinham seu baterista final.

Apenas vinte dias depois, Dave Grohl estava tocando em seu

primeiro show com o Nirvana, mal sabendo os títulos das canções, muito menos as partes da bateria.

Mas com Grohl isto quase não importava: como Krist e Kurt

descobriam, ele era um animal atrás da bateria. Kurt sofrera com bateristas no passado, decorrendo seu perfeccionismo do próprio domínio do Instrumento. Muitas vezes, quando passavam o som, Kurt ia regularmente para a bateria e tocava algumas canções para checar o retorno. Mas Grohl era o tipo de baterista que deixava Kurt contente por ter escolhido a guitarra.

O primeiro show de Grohl foi no clube North Shore Surf de

Olympia. A noite marcou umas uma das piores confusões técnicas de toda a história do Nirvana — um defeito na parte elétrica fez a energia cair diversas vezes, e a banda teve de desligar metade de seus amplificadores para evitar outros Blackouts. A única iluminação disponível vinha de lanternas na platéia, criando um efeito sinistro como alguma coisa saída de um file independente barato. Com uma bateria minúscula, Grohl se mostrou muito forte: ele tocava os tambores com tanta força que destruiu as cordas de ressonância.

Uma semana depois, a banda excursionava pela Inglaterra para

promover o single "Sliver" que, como de costume, só saiu quando a excursão estava encerrada. No entanto, eles tocaram para platéias apaixonadas, sendo sua fama na Inglaterra, na época, muito maior do que seus grupos favoritos. No dia seguinte, ligou para o empresário dos Pixies, Ken Goes, e perguntou se ele poderia ser empresário do Nirvana. Goes não conhecia Kurt, mas concordou em marcar um encontro.

Quando se encontraram no sagão de um hotel, Goes descobriu que

Kurt estava mais interessado em conversar sobre os Pixies do que em mover seu próprio grupo. "Ele não era o fã mediano, como o tipo que sempre vemos ao lado das portas do palco", lembra Goes. "De fato, ele não era bem um fã, ele era um estudioso da banda. Obviamente, tinha um enorme respeito por aquilo que eles estavam fazendo. Ele ficou falando muito tempo a respeito" Durante a conversa, surgiu um tumulto quando Charles Thompson, o vocalista dos Pixies, entrou no hotel. Goes se ofereceu para apresentar Kurt a seu ídolo, mas Kurt congelou diante da sugestão.

"Acho que não" disse Kurt, recuando ligeiramente. "Eu, hã, não

posso". E com isso Kurt bateu em retirada, procedendo como se nem fosse digno de estar na presença de tamanho talento. Quando o Nirvana voltou da Inglaterra, Dave Grohl decidiu mudar-se para o apartamento da rua Pear — ele vinha se hospedando com Krist e Shelli.

Naquela mesma semana, a MCA enviou passagens de avião para

Kurt e Krist irem a Los Angeles conhecer os escritórios. A gravadora não era a primeira escolha da banda — fazia muito tempo que a MCA tivera um sucesso, as pessoas brincavam que as iniciais da empresa significavam Music Cemetery America [Cemitério Americano da Musica] —, mas eles não podiam recusar passagens gratuitas. A gravadora os hospedou no Hotel Sheraton Universal e, depois que chegaram, Bret Hartman foi perguntar a eles se as acomodações eram satisfatórias. Ele encontrou o frigobar entreaberto e Kurt e Krist sentados no chão cercados por garrafinhas de bebida.

"Quem pôs essa coisa no nosso quarto?", perguntou Kurt. A

despeito do fato de que a banda havia excursionado cinco vezes pelo Estados Unidos e duas vezes pela Europa, Kurt jamais havia visto um frigobar. Quando Harman explicou que ele poderia pegar o que quisesse na geladeira e que a MCA pagaria, Kurt olhou para ele, incrédulo. "Percebi", lembra Hartman, "que esses caras talvez não fossem tão experientes quanto eu imaginava."

Eles não conheciam frigobares, mas sabiam que estava sendo

menosprezados no dia seguinte quando visitaram a MCA Hartman e Atkinson tinham feito circular cópias de Bleach, acompanhadas de um memorando insistindo para que o pessoal fosse afetuoso e gentil. No entanto, quando escoltaram a banda pelo prédio, parecia que todos os mandachuvas estavam em horário de almoço. Angee Jenkins, que gerenciava o departamento de publicidade, falou com eles rapidamente e os encorajou, tal como os rapazes da correspondência, que se incluíam entre o punhado de empregados da MCA que havia ouvido Bleach. O cúmulo foi quando o grupo foi conduzido ao escritório de Richard Palmese, que lhes deu um breve aperto de mãos antes de murmurar: "´R realmente sensacional conhecer vocês, rapazes. Eu gosto muito de sua música, mas tenho um compromisso de almoço em cinco minutos. Vou ter de pedir licença". Kurt nem mesmo sabia quem ele estava conhecendo, por isso virou-se para Atkinson e perguntou: "Quem é aquele sujeito?". "Aquele é o presidente da MCA", respondeu atKinson com uma careta. E, com isso, a MCA estava fora do páreo. De volta a Los Angeles, Kurt e Krist entraram em contato com o Sonic Youth, que novamente insistiu na Gold Mountain Management e lhe disse que eles deviam assinar contrato com a gravadora deles, a DGC, que fazia parte da Geffen Record, uma das poucas gravadoras que até então não haviam manifestado interesse.

No momento em que Kurt voltou ao noroeste, Grohl havia se

mudado para sua casa e sua presença melhorou temporariamente o humor de Kurt.

Morar sozinho nunca foi bom para a saúde mental de Kurt, e seu

isolamento atingiu um pico durante o verão de 1990. Ele carregava todos os sinais de uma criança que havia sofrido um trauma grave: parava de conversar exceto quando falava com ele, e diariamente passava horas sem fazer nada além de alisar uma mecha de barba, olhando fixo para o vazio. Ele e Tobi não estavam se vendo muito e, quando se encontravam, ele parecia incapaz de avançar a relação para o próximo nível. Amargurado, ele observava em seu diário: "A única diferença entre 'amigos que transam de vez em quando' e 'namorados/namorada' são os títulos oficiais dados".

Quando Grohl foi morar com ele, as coisas melhoraram

provisoriamente — ele era tão extrovertido quanto Kurt era retraído. "A casa", lembra Nikki McClure, "tornou-se a meninolândia. Agora Kurt tinha alguém com quem vadiar o tempo todo. Havia ali uma certa coisa de marido e mulher." Uma vez que Kurt era praticamente incapaz de arrumar coisa alguma, Grohl fazia coisa do tipo lavar as roupas de Kurt para ele. Poucos teriam conseguido lidar com o estado do apartamento, mas Grohl havia passado os últimos anos na estrada. "Dave foi criado por lobos numa van", explica Jennifer Finch. Ele ensinou Kurt a fazer tatuagens caseiras usando uma agulha e um pouco de nanquim. Kurt decidiu marcar seu braço com o logotipo da K Records — um "k" dentro de um escudo. Sendo novato, Kurt teve de se espetar várias vezes com uma agulha e despejar a tinta na ferida.

A tatuagem foi ainda outra tentativa para impressionar Tobi — e

Calvin. A tatuagem declarando seu amor pelos Vaselines. Curiosamente, os Vaselines não eram da K, embora seus discos fossem distribuídos pelo selo. "Quem sabe o que ele estava pensando com aquela tatuagem com os dizeres: 'k Distribution'."

Uma idéia melhor teria sido traçar "Vaselines" em seu braço. Desde

que Kurt adicionou a música "molly's Lips" ao repertório do Nirvana, ele vinha elogiando o grupo. Era a banda perfeita para Kurt Eram infantis, amadores e desconhecidos fora do Reino unido e de uma pequena seita nos Estados Unidos. Logo depois de ouvir os Vaselines, Kurt iniciou uma de suas muitas campanhas de redação de múltiplos rascunhos de carta em seu diário, tentando fazer amizade com Eugene Kelly, membro da banda. Essa cartas eram sempre prolixas (em uma delas, Kurt mencionava seu "ridículo horário de dormir, no qual me recolho nas primeiras horas da manhã e evito com sucesso qualquer traço de luz do dia") e invariavelmente terminavam com alguns comentário elogioso sobre o quanto os Vaselines eram brilhantes: "Sem tentar ser embaraçosamente inexperiente, devo dizer que as canções que você e Frances compuseram estão entre as mais belas já compostas".

Grohl tinha o mesmo gosto musical de Kurt, mas não sua obsessão

em procurar o favor das lendas. Ele estava muito mais interessado em garotas e elas estavam interessadas nele. Começou a namorar kathleen Hanna, do Bikini Kill — Dave e Kurt praticavam então a versão de Olympia do namoro duplo com Kathleen e Tobi: bebiam cerveja e elaboravam listas dos discos mais importantes de punk rock. A maioria das diversões de Dave e Kurt era adolescente, mas com Tobi e Kathleen por perto, ambos eram mais sociáveis.

A situação tornou Kurt mais atraente para Tobi, já que a

perspectiva de sair como uma gangue era menos séria do que os encontros individais. "Tobi e Kathleen chegavam a dizer literalmente: Vamos sair com o Nirvana", lembra o vizinho Ian Dickson. Durante certa turbulenta de festa na casa de Kurt, Kathleen pintou com spray na parede do quarto: "Kurt smells like teen Spirit" ["Kurt tem cheiro de espírito adolescente"]. Ela estava se referindo a um desodorante para garotas adolescentes e, por isso, seu grafite não deixava de ter implicações: Tobi usava Teen Spirit e, ao escrever isto na parede, kathleen estava zombando de Kurt por dormir com Tobi, sugerindo que ele estava marcado pelo seu cheiro, no entanto, apesar de uma noite ocasional de folias, Kurt estava solitário e desencantado — passou algumas noites observando secretamente da rua a janela de Tobi, como um tímido Cyrano. Pela primeira vez em anos, ele estava se sentindo menos esperançoso em relação a sua carreira ainda, ainda que as gravadoras os continuassem chamando. Estranhamente, após anos de expectativa, quando se aproximou de fato o momento de assinar um contrato, ficou cheio de insegurança.

Ele sentia falta da intimidade que tinha com Tracy e de seus

amigos. Poucas semanas depois de tracy ter se mudado, Kurt havia finalmente confessado que vinha dormindo o tempo todo com Tobi e Tracy ficou furiosa. "Se você mentiu sobre iso, você mentiria sobre qualquer coisa", gritou Tracy, e uma parte dele acreditava nela.

Por muito pouco tempo, ele considerou comprar uma casa em

Olympia. Na verdade, ele não poderia concretizar nenhum tipo de compra até que recebesse um cheque de adiantamento, mas estava tão confiante de que conseguiria um grande contrato que pagou para obter uma lista de imóveis disponível. Andou de carro com seu amigo Mikey Nelson, do Fitz of Depression, examinando edifícios comerciais dilapidados, planejando construir um estúdio de gravação na frente e morar nos fundos."Ele parecia estar interessado apenas nas casas que pareciam empresas", disse Nelson. "Ele não queria morar numa casa normal." Mas essa idéia, e todas as outras fantasias que ele fazia para o futuro, voaram pela janela durante a primeira semana de novembro, quando Tobi rompeu com ele.

Ele ficou arrasado: quando ela lhe deu a noticia, mal conseguiu

ficar em pé. Nunca havia levado um fora de namorada e sentiu-se péssimo com aquilo. Ele e Tobi haviam saído durante menos de seis meses. Tinham sido encontros casuais, sexo casual e namoro casual, mas o tempo todo ele esperava que uma intimidade mais profunda estivesse se aproximando. Ele regrediu ao velho padrão de internalizar seu abandono e seu autodesprezo. Tobi não o deixara porque ela era jovem, e sim, segundo Kurt imaginou, porque ele não a merecia. Ele ficou tão nauseado que, uma semana depois, ajudando "Slim" a fazer sua mudança, ele teve de parar o carro para vomitar.

Na esteira do rompimento, Kurt se tornou mais taciturno do que

nunca. Encheu um caderno inteiro com disparates que lhe passavam pela cabeça, muitos deles violentos e angustiados. Ele usava a escrita, a música e a arte para expressar seu desespero, e com sua dor compunha canções. Algumas delas eram canções loucas e iradas, mas representavam ainda outro nível de sua arte, já que a raiva não era mais clichê e agora tinha uma autenticidade que faltava a seu trabalho anterior. Essas novas canções eram cheias de remorso, súplica, raiva e extremo desespero. Nos quatro meses que se seguiram ao rompimento, Kurt escreveu meia dúzia de suas canções mais memoráveis, todas elas sobre Tobi Vail.

A primeira foi "Aneurysm", que compôs na esperança de

reconquistá-la. Mas logo desistiu e preferiu usar as canções, como inúmeros compositores haviam feito antes, para expressar seu nível profundo de mágoa. Uma canção era chamada "Formula", mas acabou sendo rebatizada de "Drain You". "One baby to another said, I'm lucky to have met you'" ["Um bebê disse ao outro: 'Tenho sorte de ter te encontrado']", dizia a letra, citando palavras que Tobi lhe avia dito. "It is now my duty to completely drain you" ["Meu dever agora é drenar você totalmente"] era o estribilho — a um só tempo, um reconhecimento do poder que ela tinha sobre ele e uma acusação.

Havia outras canções inspiradas por Tobi, ás vezes não muito

claramente ligadas, mas todas assombradas por seu fantasma. '"Lounge Act' é sobre Tobi'", observa Krist. Um verso na canção se refere á tatuagem de Kurt: "Vou deter a mim mesmo, usarei um escudo." Outra resume como a relação foi mais de aprendizagem do que de amor: "We've made a pact to learn from whoever we want wthout new rules" ["fizemos um pacto para aprender com quem quer que quiséssemos sem novas regras"]. Em uma letra anterior, não gravada, de "Lounge Act, Kurt se dirigia mais diretamente a sua ex-amante; "I hate you because you are so much like me" ["Eu te odeio porque você é muito parecida comigo"]. "Lithium" foi composta antes de Tobi, mas com o tempo a letra mudou e no final a retratava.

Mais tarde, Kurt contou a Chris Morris, da revista Musician, que a

canção incluía "Parte das minhas experiências pessoais, como terminar com namoradas e ter relacionamentos ruins, sentir aquele vazio de morte que a pessoa na canção está sentindo — muito solitária, doente".

Embora Kurt nunca o mencionasse especificamente, sua canção

mais famosa, "Smells Like teen Spirit", não pode ter sido sobre ninguém mais, com a letra que dizia; "She's over-bored and self-assured" ["Ela é superentediada e autoconfiante"]. "Teen Spirit" era uma canção influenciada por muitas coisas — sua raiva dos pais, seu tédio, seu eterno cinismo —, embora vários versos isolados ecoem a presença de Tobi. Ele compôs a canção logo após a separação, e a primeira versão incluía um verso eliminado da versão final; "Who will be the king and queen of the outcast teens?" ["Quem será o rei e a rainha dos adolescentes abandonados?"]. A resposta, em algum momento da sua imaginação, tinha sido Kurt Cobain e Tobi Vail. Suas canções eram o aspecto mais produtivo da separação; seus escritos e trabalhos artísticos mostravam um resultado mais enraivecido e patológico.

Um desenho mostra um alienígena com a pele sendo lentamente

arrancada: outro, uma mulher com um chapéu da Ku klux Klan ergue a saia e exibe a vagina; outro desenho retrata um homem esfaqueando uma mulher com seu pênis; e outro, ainda, mostra um homem e uma mulher fazendo sexo, tendo abaixo a legenda: "Estupra, estupra". Havia dezenas dessas representações e páginas e páginas de histórias com finais trágicos e imagens perturbadoras.

Não é rara a seguinte ladainha:

Quando eu crescer, quero ser bicha, negro, cadela, puta, judeu,

chicano, chucrute, carcamano, maricas, hippie branquelo, ganancioso, acumulador, saudável, suado, peludo, másculo, new waver excêntrico, direitista, esquerdista, milico condecorado, cagão, campeão, estúpido, físico nuclear, conselheiro do AA, psiquiatra, jornalista, punho fedido, romancista, gay, preto, aleijado, drogado, HIV positivo, hermafrodita, filhote de golfinho, obeso, anoréxico, rei, rainha, agiota, corretor de ações, maconheiro, jornalista (tudo é inflado, menos é mais. Deus é gay, fisgar uma presa), jornalista de rock, zangado, rabugento, de meia-idade, amargo, pequeno, magricelo, dogmático, velho, agente contratador e ditador de um fanzine que extrai o pequeno percentual até do menor percentual. Mantê-los dividido, formar guetos, unidos ficaremos, não respeitar as sensibilidades dos outros. Mate-se mate mate mate mate mate mate mate estupro estupro estupro estupro é bom, estupro é bom, estupro mate estupro ganância ganância bom ganância bom estupro sim mate.

A maior parte da raiva, porém, era voltada para dentro. Se havia

um tema central nesta escrita naquele outono, era o auto-desprezo. Ele se imaginava como "mau", "defeituoso", "Doente". Uma página relatava um conto maluco — completamente fantasioso — de como ele gostava de chutar as pernas de mulheres idosas porque "esses tornozelos têm uma garrafa plástica cheia de urina afivelada nelas e um tubo que vai para dentro da velha vagina musculosa esgotada; a nódoa amarela sai voando para toda parte". Em seguida, ele procurava "bichas de cinqüenta anos de idade que possuem o mesmo mau funcionamento, mas em uma cavidade diferente [...] eu chuto sua cueca de borracha e a coisa marrom vaza para a calça bege". Mas esta história perturbadora acabava fazendo a violência voltar para o narrador; "Então, as pessoas sem nenhum fetiche especifico me chutam o corpo inteiro e a cabeça e observam a merda vermelha esborrifar e correr e ensopar meus jeans azul e camisa branca". O conto terminava com ele escrevendo repetidamente "Eu sou mau", e então, vinte vezes em grandes caracteres, do tamanho das letras que ele usava para pichar nas paredes de Aberdeen, "EU, EU, EU", até que finalmente ficava sem espaço, tendo enchido cada centímetro da página. Escreveu isso com tanta força que a caneta atravessou o papel. Ele não fazia nenhum esforço para ocultar essas histórias, muito pelo contrário, seus diários jaziam abertos pelo apartamento. Jennifer Finch começou a namorar Grohl e leu alguns dos escritos deixados na mesa da cozinha, e percebeu o tormento de Kurt. "Fiquei preocupada com Kurt", lembra ela. "Ele estava fora de controle."

O ódio que ele tinha pelos outros era leve comprado á violência que

traçava contra si mesmo. O suicídio surgia repetidamente como tópico. Uma invectiva detalhada como ele era capaz de se transformar em "Helen Keller, perfurando minhas orelhas com uma faca, depois cortando fora minha laringe". Ele reiteradamente fantasiava o céu e o inferno , tanto abraçando a idéia de espiritualidade como uma fuga após a morte, mas com igual freqüência a rejeitando com toda a convicção. "Se você quiser saber como é a vida após a morte", especulava ele, "vista um pára-quedas, suba num avião, injete uma boa quantidade de heroína nas veias e imediatamente uma dose de óxido nitroso, e depois salte ou ateie fogo a si mesmo."

Na segunda semana de novembro de 1990, um novo personagem

começara a nascer na escrita de seus diários, e essa figura logo passaria a entrar em quase toda imagem, canção ou história. Ele intencionalmente grafava o nome errado, e, ao assim fazer, estava lhe garantindo uma vida própria. Estranhamente, deu a ela uma personalidade feminina, mas já que ela se tornou seu grande amor naquele outono — e até o fazia vomitar, tal como Tobi —, havia justiça nessa opção pelo gênero. Ele a chamou de "heroína".