Mais Pesado Que o Céu
Um Monstrinho Interior
Los Angeles, Califórnia,
Janeiro de 1992-Agosto de 1992
Há um monstrinho dentro de sua cabeça que diz:
"Você sabe que vai se sentir melhor".
Kurt descrevendo o vicio para sua irmã, em abril de 1992.
FORAM TODOS AQUELE DESENHOS de "bebês golfinhos" que ele
havia feito durante anos que deixaram Kurt em pânico ao ouvir a noticia da gravidez; isto e saber que eles estavam tomando heroína durante o período em que a criança foi concebida, no começo de dezembro. O critico mais severo de Kurt sempre foi sua própria voz interior, e essa gravidez maculada, segundo observam seus amigos, fez com que sentisse uma das mais poderosas vergonhas da sua vida.
Ao longo de toda a podridão que tinha sido sua vida — interna e
externa —, ele havia mantido duas coisas sagradas: um juramento de que nunca se transformaria em seus pais, e uma promessa de que, se algum dia tivesse filhos, daria a eles um mundo melhor do que aquele no qual crescera. No entanto, no começo de janeiro de 1992, Kurt não conseguia parar de pensar em todos os desenhos de "bebês golfinhos" que havia feito e de se perguntar se estava recebendo um deles como retaliação divina.
Concomitantemente, mesmo com seu desespero, Kurt nutria
esperanças e torno da gravidez. Ele realmente amava Courtney e achava que eles teriam um filho com muitos talentos, inclusive inteligência acima da média. Ele acreditava que o afeto que sentia por ela era mais profundo que o amor que ele presenciara entre seus pais. E apesar da piração de Kurt, Courtney parecia surpreendentemente calma, pelo menos pelos padrões Courtney. Ela disse a Kurt que o bebê era um sinal enviado por Deus e estava convencida de que ele não nasceria com nadadeiras, independentemente de quantos desenhos de fetos deformados Kurt tivesse esboçado em sua juventude. Ela disse que seus pesadelos eram apenas temores e que nos sonhos dela mostravam os dois tendo uma criança saudável, linda. Ela sustentava essas convicções ainda que os outros ao redor dela lhe sugerissem o contrário. Um médico especialista em tratamento de drogas que ela consultou prontificou-se a "dar-lhe morfina" se ela aceitasse fazer aborto.
Courtney não engoliu essa e procurou outra opinião. Ela consultou um especialista em defeitos de nascimento de
Beverly Hills que lhe disse que a heroína, quando tomada no primeiro trimestre da gravidez, implicava poucos riscos de defeitos de nascimento. "Ele lhe disse que se ela seguisse um programa de tratamento e gradativamente parasse de tomar a droga, não havia nenhuma razão no mundo para que ela não pudesse ter um bebê saudável", lembra a advogada de Courtney, Rosemary Carroll.
Com as imagens de "bebês golfinhos" desaparecendo da cabeça,
Kurt se juntou a Courtney na certeza de que a gravidez era uma bênção. Quando muito, as atitudes de desaprovação dos demais apenas fortaleceram a resolução de Kurt, do mesmo modo que havia sido no caso de sua união com Courtney. "Sabíamos que realmente não era o melhor momento para ter filho", disse Kurt para Michael Azerrad, "mas havíamos acabado de decidir ter um."
Eles haviam alugado um apartamento de dois quartos em Los
Angeles por 1.100 dólares mensais na Spaulding, 448, norte, entre Melrose e Fairfax. Era um bairro tranqüilo e eles estavam relativamente isolados, porque nenhum dos dois podia dirigir: Kurt deixara de pagar algumas multas de trânsito e havia perdido temporariamente sua habilitação; Courtney jamais aprendera a dirigir um carro. Era a primeira vez que Kurt morava fora do estado de Washington e se viu com saudades da chuva.
Mas logo depois de se mudarem, partiram para os conflitos de um
Holiday Inn. Eles tinham contratado um médico especialista em terapia desintoxicação rápida que recomendou que se hospedassem em um motel — o tratamento seria uma confusão, segundo ele lhe disserta. E foi. Embora Kurt depois tentasse minimizar esse retiro, afirmando que "dormiu durante três dias", outros traçavam um quadro bem mais sinistro da desintoxicação que acarretava horas de febre, diarréia, calafrios e todos os sintomas que normalmente se associam ao pior caso de gripe,
Eles sobreviveram mediante um uso pródigo de pílulas soníferas e
metadona. Embora ambos estivessem se desintoxicando por causa do bebê, Kurt teve de partir após duas semanas para uma excursão no Extremo Oriente. "[Eu] me vi percebendo que não conseguia drogas quando chegássemos ao Japão e á Austrália", escreveu ele em seu diário. Na metade de sua desintoxicação, Kurt teve de participar de um vídeo para "Come As You Are". Ele insistiu para que todas as tomadas do seu rosto parecessem escuras ou distorcidas.
Antes de partir para a excursão, Kurt ligou para sua mãe para dar
a noticia da gravidez. Sua irmã Kim atendeu o telefone, "Nós vamos ter um bebê", declarou ele. "É melhor eu passar você para a mamãe", respondeu Kim. Quando Wendy ouviu a noticia, declarou: "Kurt, você não pode me chocar mais".
Os primeiros concertos na Austrália transcorreram normalmente,
mas no prazo de uma semana Kurt estava sofrendo de dor de estômago, o que forçou o cancelamento de compromissos. Ele foi para uma sala de emergência uma das noites, mais caiu depois de entreouvir uma enfermeira dizer: "Ele não passa de um drogado".
Conforme escreveu e seu diário, "a dor me deixou imóvel, dobrado
no chão do banheiro, vomitando água e sangue. Eu estava literalmente morrendo de fome. Meu peso estava abaixo de 45 quilos". Desesperado por uma solução, procurou um médico australiano especializado em banda de rock.
Na parede do consultório, orgulhosamente exposta, estava uma
foto do médico com Keith Richards. "A conselho dos meus empresários, fui levado a um médico que me deu Physeptone", escreveu Kurt em seu diário. "As pílulas pareciam funcionar melhor do que qualquer outra coisa que eu tentara." Mas, algumas semanas mais tarde, depois que a excursão chegou ao Japão, Kurt notou o rótulo no frasco.
"Dizia: "Physeptone — contém metadona". Viciado novamente.
Sobrevivemos ao Japão, mas aquela altura os opiatos e a excursão haviam começado a cobrar seu preço sobre meu corpo e eu não estava muito melhor de saúde do que eu estava de drogas."
Apesar de seus apuros físico e emocionais, Kurt adorou o Japão,
compartilhando a obsessão do pais pelo Kitsch. "Ele estava em um pais totalmente estrangeiro e ficou fascinado com a cultura", lembra Kaz Utsunomiya, da Virgin Publishing, que estava na excursão. "Ele adorava as caricaturas e a "Hello Kitty." Kurt não entendia por que os Fãs japoneses lhe davam presentes, mas declarou que só aceitaria presentes "Hello Kitty". No dia seguinte, ele era inundado com quinquilharias. Antes de uma apresentação nos arrabaldes de Tóquio, Utsonomiya teve de ajudar Kurt a comprar pijamas novos.
Quando Kurt disse ao vendedor que queria os pijamas para usar
no palco, o sóbrio balconista olhou para o cantor como se ele fosse realmente maluco. Em Osaka, numa rara noite de folga, o Nirvana se reuniu com um de seus parceiros de excursão favoritos, o Shonen Knife, um grupo popular composto por três japonesas. Elas deram a Kurt espadas de brinquedo, um novo macaco Chim-Chim motorizado e o levaram para jantar em um restaurante alemão que ele havia escolhido. Ele ficou desapontado ao saber que o Shonen Knife tinha uma apresentação na noite seguinte, tal como o Nirvana. Excepcionalmente, Kurt encerrou mais cedo o show do Nirvana e anunciou do palco que estava planejando ir ver o Shonen Knife. Afastando-se do local do show, seu táxi foi atacado por garotas japonesas que agarravam, querendo apenas tocar o carro. No show do Shonen Knife, as coisas eram igualmente surrealistas porque, como único rapaz louros de olhos azuis ali, era fácil vê-lo. "Ele ainda estava usando o pijama", lembra Naoko Yamano, do Shonen Knife.
Courtney tinha se juntado á excursão no Japão e eles passaram o
25º aniversário de Kurt voando para Honolulu para dois espetáculos programados.
No avião decidiram se casar no Havaí. Eles tinham fantasiado
sobre um casamento no dia dos Namorados, mas não terminaram seu acordo pré-nupcial a tempo. Kurt tinha sugerido um acordo pré-nupcial depois de forte pressão do empresário John Silva, que jamais havia gostado de Courtney. O acordo cobria principalmente ganhos futuros, porque, na época do casamento, eles ainda eram "pobres fodidos", no termos de Courtney. Quando Kurt fez sua declaração para o imposto de renda em 1991, graças ao modo enigmático como a indústria da musica paga os direitos com tanto atraso e ao enorme percentual retirado pelos empresários e advogados, sua renda total era de apenas 29.541 dólares. Como tivera deduções de 2.541 dólares, restava-lhe uma renda tributável de 27 mil dólares, num ano em que ele tocou diante de centenas de milhares de fãs e vendeu quase 2 milhões de discos.
Courtney estava negociando seu próprio contrato de gravação com
a Dgc, que dava ao Hole um adiantamento de 1 milhão de dólares e uma porcentagem de direitos autorais consideravelmente mais alta que a do Nirvana, uma questão de grande orgulho para ela. COurtney ainda tinha reservas quanto á possibilidade de não ser considerada artista por seus próprios méritos estando casada com alguém tão famoso quanto Kurt. No Japão, ela registrara apressadamente sua melancolia em seu diário: "Minha fama. Ha! Ha!, é uma arma, me poupe, é igual a enjôo matinal.
[...] Poderia ser apenas efeito comercial de vendas em excesso e de
um acidente semi-improvável, semi-forjado, mas estou começando a pensar que não posso cantar, não posso compor, que a estima está na maior baixa de todos os tempos, e isso não é culpa dele. Meu Deus, como poderia ser. [...] Não se atrevam a me desconsiderar só porque me casei com um ASTRO DO ROCK".
Eles se casaram na praia de Waikiki, ao pôr-do-sol de uma
segunda feira, 24 de fevereiro de 1992. A cerimônia foi realizada por um ministro leigo encontrado pela agência de casamentos. Kurt havia tomado heroína, embora tenha contado para Azerrad que "não estava muito alto. Eu só tomei um pouquinho e por isso não enjoei". Courtney usava um vestido de seda que pertencera á atriz Frances Farmer, comprado em um antiquário. Kurt usava um pijama xadrez azul e uma bolsa tecida na Guatemala. Com sua magreza angulosa e seu traje bizarro, mais parecia um paciente de quimioterapia do que um noivo tradicional. No entanto, o casamento não deixava de ter significado para ele e Kurt chorou durante a breve cerimônia.
Uma vez que o casamento foi organizado ás pressas, a maioria dos
convidados, oito no total, era da equipe da banda, Kurt mandou Dylan Carlson tomar um avião para servir de padrinho, embora isso em parte tenha sido desencadeado por Kurt querer que Dylan levasse heroína para ele. Dylan ainda não conhecia Courtney e seu primeiro encontro com ela foi no dia anterior ao casamento. Ele gostou de Courtney e ela gostou dele, embora nenhum dos dois conseguisse superar uma crença de que a outra parte era uma influência negativa sobre Kurt. "Em certos sentidos, ela era muito boa para ele", lembra Dylan, "e em outros, ela era terrível." Dylan levou sua namorada e os dois eram os únicos que não constavam da folha de pagamento do Nirvana.
Mas o mais importante foram os ausentes: Kurt não convidara sua
família (Courtney também não) e a ausência de Krist e Shelli foi muito notada. Na manhã do casamento, Kurt tinha banido Shelli e alguns membros da equipe porque achava que eles estavam fofocando sobre Courtney — o efeito desse decreto também foi o de desconvidar Krist. "Kurt estava mudando", lembra Shelli. Naquele mês, Kurt havia dito a Krist: "Eu não quero nem ver Shelli, porque quando olho para ela, eu me sinto mal pelo que estou fazendo", a análise de Shelli é a seguinte: "Eu acho que olhar para mim era como olhar para a consciência dele".
Shelli e Krist partiram do Havaí no dia seguinte, supondo que a
banda estivesse dissolvida: "Achamos que era o fim", lembra Shelli. Krist só estava triste e se sentindo rejeitado por seu velho amigo: "Kurt estava em seu próprio mundo naquele momento. Depois disso, eu me senti muito estranho com ele. Jamais foi o mesmo. Falamos um pouco sobre o destino da banda, mas realmente não havia nenhum destino da banda depois disso". Quatro meses se passariam até que o Nirvana tocasse novamente em público e quase dois meses até que Krist e Kurt se encontrassem novamente.
Kurt e Courtney estavam em lua-de-mel no Havaí, mas a ilha
ensolarada não era a idéia de paraíso para Kurt. Eles voltaram a Los Angeles, onde seu hábito de tomar drogas era mais fácil de abastecer. Kurt mais tarde desqualificou o seu maior consumo da droga dizendo que era "muito menos turbulento do que todo mundo pensa". Ele contou para Azerrad que decidiu continuar a ser um viciado porque achava que "se eu parasse na época, acabaria tomando de novo pelo menos próximos dois anos o tempo todo. Imaginei que eu só iria me irritar com isso porque ainda não tinha passado pela sensação de drogado total. Eu ainda era saudável". Sua dependência química e psicológica já era grande naquela etapa, e seus comentários eram uma tentativa de minimizar o que havia se tornado um vicio debilitante. Sua própria descrição de si mesmo em seu diário era tudo menos saudável, pelo menos do modo como ele imaginava que os outros o viam: "Eu estou pesando como famélico, pele amarela, tipo zumbi, maligno, viciado em drogas, drogado, causa perdida, á beira da morte, autodestrutivo, porco egoísta, um perdedor que toma pico nos bastidores segundos antes de uma apresentação". Isto era o que ele imaginava que as pessoas pensavam dele: seu próprio diálogo interno era até mais obscuro, resumindo por uma frase que surgia reiteradamente em seus escritos: "Eu me odeio e quero morrer". No inicio de 1992, ele já havia decidido que este seria o titulo de seu próximo disco.
A heroína se tornou, de diversas maneiras o hobby que ele nunca
tivera em criança: ele organizava metodicamente sua caixa de "equipamentos" como um garotinho poderia embaralhar sua coleção de cards de beisebol.
Nessa caixa sagrada ele guardava sua seringa, um fogareiro para
derreter as drogas (a heroína da Costa Oeste tinha a consistência de alcatrão de telhado e precisava ser cozida) e colheres e bolas de algodão usadas na preparação da heroína para injetar. Um submundo desagradável de traficantes e entregas diárias se tornou lugar-comum.
Na primavera de 1992, ele não fez praticamente nada que
envolvesse a banda e se recusou a programar shows para o futuro. A banda recebia ofertas de somas astronômicas para fazer uma excursão pelos principais estádios — Nevermind ainda estava próximo ao topo das paradas — mas Kurt rejeitava todas as propostas.
Embora Courtney tivesse se afastado das drogas durante a
desintoxicação que ambos fizeram em janeiro, com Kurt comprando heroína diariamente e enchendo o apartamento com o cheiro de seu cozimento, ela se viu escorregando ladeira abaixo novamente. A Combinação das fraquezas de ambos ajudava a arrastar cada um deles para uma espiral de abuso e sua dependência emocional mútua tornava quase impossível romper esse ciclo. "Com Kurt e Courtney, era como se eles fossem dois personagens de uma peça e simplesmente trocasse de papeis", observa Jennifer Finch.
"Quando um ficava sóbrio e melhor, o outro escorregava. Mas
Courtney conseguia se controlar mais do que Kurt. No caso dele, era o trem desgovernado que iria se acidentar — todos sabiam disso e só queriam sair da frente."
No começo de março Carolyn Rue, do Hole, visitou o apartamento
deles para se drogar. Quando Carolyn pediu uma seringa extra, Kurt respondeu: "Nós quebramos todas elas". Num esforço para se controlar o vicio dos dois, Courtney muitas vezes destruía todas as seringas da casa, cujo efeito era apenas o de obrigar Kurt a comprar novas quando fosse apanhar sua heroína diária. Mesmo para Carolyn, que enfrentava suas próprias dificuldades, o vicio de Kurt parecia aceleração máxima. "Kurt falava sobre tomar drogas como se essa porra fosse natural", lembra ela. "Mas não era." Mesmo dentro das fronteiras da cultura da droga, o nível de consumo de Kurt parecia aberrante.
A perspectiva do bebê dar a Kurt uma Pequena luz de esperança
no que havia se tornado uma existência cada vez mais vazia. Para assegurar que o feto estava se desenvolvendo corretamente, eles haviam feito vários testes de ultrason para chegar as imagens do bebê no útero. Quando Kurt as viu, ficou visivelmente abalado e chorou aliviado porque a criança estava se desenvolvendo normalmente.
Kurt apanhou uma das imagens e a usou como peça central de
uma pintura em que começara a trabalhar. Quando um segundo teste resultou em um vídeo do ultra-som do feto, ele pediu uma cópia e a assistia obsessivamente em seu videocassete. Segundo Jennifer Finch, "Kurt não parava de dizer. "olha só essa pequena vagem".
Era assim que eles a estavam chamando, "a vagem" [the bean]. Ele
apontava para a mão dela. Ele conhecia cada detalhe isolado daquela imagem gráfica". No inicio da gravidez, depois de ter sido determinado o sexo da criança, eles haviam escolhido um nome: Frances Bean Cobain. O nome do meio era o apelido que lhe deram, enquanto o prenome vinha de Frances McKee, dos Vaselines, ou assim Kurt dizia depois aos repórteres. Mais tarde, a foto do ultra-som foi reproduzida na capa do single "Lithium".
Em março, a preocupação em torno da crescente dependência de
Kurt em relação ás drogas e seu efeito em COurtney levou seus empresários a tentarem uma primeira intervenção formal. Contrataram Bob Timmins, um especialista em dependência de drogas cuja fama se construíra no trabalho com astros de rock.
Courtney lembra que Immins era tão deslumbrado por Kurt que
prestava pouca atenção a ela. "Ele literalmente me ignorava e ficava babando por Kurt", disse ela. Timmins sugeriu que Kurt considerasse sua internação em um programa de tratamento de dependência química. "Meu conselho foi aceito", disse Timmins. "O motivo pelo qual recomendei esse programa especifico era que ele era desenvolvido no hospital Cedars-Sinai, e eu achava que algumas questões médicas se evidenciaram em minha avaliação. Não se tratava de dizer apenas "faça o tratamento, desintoxique-se e vá para as reuniões." Havia muitas questões médicas envolvidas."
No inicio, a permanência de Kurt no Cedars-Sinai ajudou
consideravelmente, e logo ele parecia sóbrio e saudável. Mas, embora concordasse em continuar com a metadona — uma droga que bloqueava a síndrome de abstinência sem produzir euforia —, ele terminava o tratamento cedo e evitava as reuniões dos 12 Passos. "Ele parte de sua personalidade provavelmente atrapalhava o processo de recuperação."
Em abril, Kurt e Courtney viajaram para Seatle, onde procuraram
um casa para comprar. Uma noite foram até a Orpheum Records e provocaram uma cena quando apreenderam todos os discos piratas do Nirvana da loja.
Courtney corretamente declarou que os cds eram ilegais, mas o
balconista protestou que seria demitido se o proprietário desse pela falta dos Cds. Ironicamente, Kurt havia entrado na loja procurando um cd da banda Negativeland, que também tinha sido declarado ilegal depois de um processo judicial. O Balconista perguntou se eles poderiam escrever um bilhete para seu chefe e, por isso, Courtney escreveu: "Eu preciso que você pare de ganhar dinheiro á custa de meu marido para que eu possa alimentar meus filhos. Com amor, Sra. Cobain". Kurt acrescentou: "Macarrão e queijo para todos."
O bilhete era tão estranho que o preocupado balconista perguntou
a Kurt: "Se eu perder meu emprego, posso trabalhar para você?". No dia seguinte, a loja recebeu um telefonema de um homem que perguntava: "Aquele rapaz de cabelo comprido que trabalhava ai ontem á noite ainda esta empregado?".
Enquanto o casal estava em Seatle, os Frandenburg promoveram
para eles uma dupla recepção: chá de panela e chá de bebê. Seria a primeira vez que os tios e tias de Kurt teriam chance de conhecer Courtney, mas vários deles partiram antes que ela chegasse: a festa tinha sido marcada para as duas da tarde, mas os homenageados só apareceram ás sete. Courtney disse aos parentes de Kurt que eles podiam comprar uma mansão vitoriana em Grays Harbor. "Então poderemos ser o rei e a rainha de Aberdeen", brincou ela.
O casamento inicialmente pareceu amadurecer Kurt e Courtney.
Quando estavam longe dos refletores, e longe das drogas, sua relação tinha muitos momentos de ternura. Despojados de sua fama, ambos voltaram a ser assustadas crianças perdidas que haviam sido antes de serem descobertas. Toda noite, antes de irem para a cama, eles rezavam juntos. Depois de se deitarem, um lia livro para o outro. Kurt disse que adorava dormir ouvindo o som da voz de Courtney — era um bem-estar de que sentira falta durante grande parte de sua vida.
Naquele Mês, Courtney voltou as Los ANgeles para tratar de
negócios do Hole, Kurt ficou em Seattle e até chegou a fazer uma breve sessão de um dia de gravação com o Nirvana, no estúdio caseiro de Barret Jones. Eles gravaram "Oh, the Guilt", "Cumudgeon" e "Return of the Rat", a canção final sugerida para o disco de tributo á banda Wipers, de Prtland. No dia seguinte á sessão, Kurt dirigiu seu Valiant até Aberdeen para uma primeira visita a Grays Harbor depois de meses.
Dois dias depois, Kurt voltou de carro para Seattle para buscar sua
irmã e trazê-la para Aberdeen. Ele tinha um subtexto para este longo dia de viagem, um circuito de ida-e-volta de seis horas que não contou para Kim até que passou pelo "Morro do Think of Me", a poucos minutos da casa de Wendy. "Sabe a sua melhor amiga, a Cindy?", perguntou ele. "Ela contou pra mamãe que você e Jennifer estavam tendo um caso."
"Não é um caso", respondeu Kim. "Somos namoradas. Eu sou
Gay." Kurt sabia disso, ou pelo menos desconfiava, mas sua mãe, não. "Mamãe está meio irritada agora", disse ele para a irmã, e pediu que Kim fizesse de conta que a mãe não sabia, Kurt, como Wendy, preferia um estilo não confrontador — Kim, porém, disse ao irmão que não faria tal coisa.
Quando chegaram em Aberdeen, Kurt decidiu que eles precisavam
conferenciar antes de entrar em casa. Ele dirigiu o carro até o parque Sam Benn, onde se sentaram em um balanço, e Kurt decidiu usar este momento para soltar sua própria bomba. "Eu sei que você já experimentou e provavelmente já tomou ácido e cocaína", Disse-lhe ele. "Eu nunca toquei em cocaína", rebateu Kim. "Bem, você ainda vai", respondeu o irmão. A conversa descambou para um debate sobre se Kim, apenas duas semana antes de completar 22 anos, acabaria usando cocaína ou não. "Bem, você usará cocaína", insistiu Kurt. "Mas se você alguma vez tocar em heroína, eu pego um revólver e venho atrás de você e a mato." Não parecia que ele estivesse brincando. "Você não precisa se preocupar com isso." Kim Percebeu que, pelo jeito como Kurt havia construído a advertência, ele estava transmitindo uma Mensagem sobre si mesmo.
Depois do silêncio longo que só é natural entre irmão, Kurt
finalmente anuncio: "Estou de cara limpa há uns oito meses". Eles não especificava do que estava de cara limpa, mas Kim havia ouvido os rumores como todos os demais. Ela também desconfiava que ele estava mentindo sobre os oito meses de cara limpa — na verdade, fazia menos de um mês, e ele ainda estava tomando uma dose diária de metadona.
"Eu não sei muita coisa sobre heroína", disse ela para o irmão.
Kurt suspirou e foi como se um porta tivesse sido aberta, e o irmão que Kim sempre amara surgiu e mais uma vez se abriu com ela. Ele não escondia atrás de seu ego construído ou de mentiras ou fama enquanto lhe dizia sobre a dor que sentia tentando largar a heroína. Ele descreveu isso como semelhante ao vicio de fumar, onde cada tentativa sucessiva da parar fica cada vez mais difícil. "Quanto mais você tenta", explicou ele, "e quanto mais você pára, mais difícil se torna parar na terceira, e n a quarta, e na quinta, e na sesta vez. Há um monstrinho dentro de sua cabeça que diz: "Você sabe que vai se sentir melhor, e você sabe que eu vou me sentir melhor". è como se eu tivesse outra pessoa em minha cabeça que tivesse me dizendo que tudo vai ficar bem se eu simplesmente tomar um pouco."
Kim estava muda. Ela sabia, pela menção que Kurt fazia do quarto
era difícil deixar na "quinta" ou na "sexta" vez, que ele havia sido muito mais longe do que ele imaginava. "Não se preocupe nunca comigo, Kurt, porque eu nunca vou tocar nessa droga", disse ela. "Nem vou chegar perto dela. Você está de cara limpa há oito meses — isso é ótimo. Por favor, continue." Ela estava ficando sem ter o que dizer e se recuperando do choque de "descobrir seu irmão é um drogado", disse ela rememorando, apesar dos rumores, Kim teve dificuldade em admitir que seu irmão, que havia crescido com ela e passado por muitas das mesmas agruras, fosse um viciado.
Kurt trouxe de volta o assunto da sexualidade de Kim e do
preconceito que ele sabia que ela enfrentaria no porto. Tentou convencê-la a deixar de ser Lésbica.
"Não desista totalmente dos homens", insistiu ele. "Eu sei que eles
são uns panacas. Eu nunca namoraria um cara. Eles são uns idiotas." Kim achou muita graça — apesar de não contar seu segredo á família, ela sempre soubera que era gay e sentia pouca vergonha disso. Mesmo com todas as pichações de "O homossexualismo é o máximo" que Kurt havia feito em Aberdeen, ele tinha dificuldade em admitir que sua irmã fosse Gay. à medida que a conversa se atenuou e eles tomavam o rumo de casa, ele lhe deu um longo abraço fraterno e garantiu que sempre a amaria.
No dia 16 de abril de 1992, o Nirvana apareceu pela primeira vez
na capa da Rolling. embora a matéria fosse ostensivamente sobre a banda, até a manchete — "Inside the Heart and mind of Kurt Cobain"] ["Por dentro do coração e da mente de Kurt CObain"] — era evidência de que tudo o que o Nirvana fazia estava centrado em Kurt. Para a foto da capa ele usava uma camiseta que dizia "Corporate Mgazines Still Suck" ["As revistas Corporativas Ainda São um Saco"]. O fato mesmo de que a matéria tenha sido publicada era um testemunho de como os empresários de kurt haviam se empenhado para convencê-lo de que as revistas corporativas não eram um saco.
Kurt Havia recusado uma entrevista que a Rolling Stone tinha
perdido em 1991 e, no inicio de 1992, ele escreveu uma carta para a revista: "neste momento de nossa, hã, carreira, antes do tratamento para perda de cabelo e da falta de crédito, decidi que não tenho vontade nenhuma de dar uma entrevista. [...] Não nos beneficiaríamos de uma entrevista porque o leitor mediano de Rolling Stone é um ex-hippie de meia-idade que se tornou critico, ama o passado como "os dias de gloria" e têm uma abordagem mais cordial, mais suava e mais adulta em relação ao novo conservadorismo liberal. O leitor mediano de Rolling Stone sempre acumulou musgo". Ele não enviou a carta, e duas semanas depois de escrevê-la estava se encontrado com Michael Azerrad, da revista, falando mais uma vez sobre desejava uma camiseta tingida com o sangue de Jerry Garcia.
De início, ele havia dado uma gélida recepção a Azerrad, mas,
quando começou a contar os casos das surras que levara no colégio, Azerrad se levantou e exibiu sua estrutura de 1,65 metro e brincou: "Eu não sei o que é que você está falando". Depois disso, os dois se aproximaram mais e kurt respondeu ás perguntas de Azerrad, conseguindo veicular pela imprensa muitas de suas principais reformulações de vida, inclusive que "Something in the Way" era sobre o tempo em que morou debaixo de uma ponte. Quando indagado sobre a heroína, Kurt respondeu: Eu nem sequer bebo mais porque isso destrói meu estômago. Meu corpo não me permitiria tomar drogas, se quisesse, porque o tempo todo eu sou muito fraco. As drogas são uma perda de tempo. Elas destroem sua memória e seu auto-respeito e tudo o que acompanha sua auto-estima. "Não há nada de bom nelas".
Enquanto ele falava sentado na sala de estar do apartamento da
rua Spaulding, sua adorada "caixa de equipamentos" estava no closet como uma relíquia familiar adornada.
Embora o artigo da Rolling Stone minimizasse as tensões internas
da banda, entre o momento da entrevista e sua publicação o Nirvana deixava temporariamente de existir. Quando a banda assinou seu contrato inicial de edição, Kurt havia aceitado dividir igualitariamente seus direitos autorais de composição com Novoselic e Grohl. Isso era generoso, mas na época ninguém imaginava que o disco venderia milhões de cópias, com o sucesso fenomenal de Nevermind, kurt insistiu que as porcentagens fossem alteradas para que ele ficasse com o grosso da renda — propôs uma divisão de 75/25 sobre a música, ficando com 100% das letras — e queria que o contrato fosse retroativo. "Acho que uma vez que Nevermind estava se esgotando, Kurt começou a perceber que [os contratos de edição] não eram apenas documentos teóricos; que se tratava de dinheiro grosso", observa o advogado ALan Mint. "As cotas sobre a edição significavam problema de estilo de vida."
Krist e Dave se sentiram traídos por Kurt querer que o novo
contrato fosse retroativo, mas acabaram concordando, imaginando que a outra opção seria dissolver a banda. Kurt tinha dito resolutamente a Rosemary Carroll — agora atuando simultaneamente como advogada de Kurt, Courtney e do Nirvana — que dissolveria a banda se não fosse do jeito que ele queria. Embora Grohl e Novoselic culpassem Courtney, Carroll se lembra de Kurt ter sido irredutível na questão. "Seu Foco era de tipo laser", observa ela. "Ele era muito claro e muito persistente e sabia, em nível de centavos, do que é que estava falando. Sabia o que merecia e sabia que merecia todo o dinheiro, {já que} ele compunha todas as letras e musicas." Em última análise, as porcentagens não deixariam uma ferida tão funda quanto a maneira como kurt escolheu lidar com o assunto: como acontecia com a maioria dos conflitos, ele evitou a questão até que ficou furioso. Vários membros da equipe da banda ficaram chocados ao ouvir Kurt falando mal de Krist, que havia sido um dos maiores esteios de sua vida.
Em maio, kurt estava de volta novamente á heroína, depois de ter
conseguido permanecer sóbrio durante menos de seis semanas, seu vicio era de conhecimento comum nos círculos do rock e os rumores acabaram chegando ao Los Angeles Times.
No dia 17 de maio, em um artigo com o cabeçalho "Por que o
Nirvana está perdendo uma temporada excelente de excursão?" Steve Hochman escrevia que "O comportamento retraído [do Nirvana] reacendeu a especulação de que o cantor?Guitarrista Kurt Cobain tem um problema com heroína". A Gold Mountain desmentiu os rumores, divulgando o que se tornaria a negação-padrão, atribuindo a ausência da banda a "problemas estomacais" de Kurt.
O velho amigo de Kurt, Jedde Reed, o visitou naquele mês e, no dia
em que estiveram juntos, Kurt teve de tomar a droga duas vezes. Em ambas, ele entrou no banheiro para não fazê-lo na frente de seu amigo mais velho, ou de Courtney, que estava sofrendo com o enjôo matinal e não queria ver Kurt se drogando.
Mas Kurt não se retraia em relação a discutir seu vício com Jesse e
passaram a maior parte do dia aguardando a entrega de um novo suprimento de heroína. Kurt havia claramente superado o medo de agulhas, medo que Jesse se lembrava de quando era jovens — Kurt até pediu a seu velho amigo que encontrasse para ele alguns esteróides injetáveis ilegais.
Jesse não achou que o apartamento rosa de Aberdeen — havia
grafites nas paredes, a mobília era barata e, no geral, "era um pardieiro", mas um aspecto dele impressionou Jesse: Kurt havia começado a pintar novamente e a sala de estar estava cheia de seus trabalhos. "Ele tinha quase dez metros quadrados de telas", lembra Jesse. "Ele estava falando em abandonar a música e abrir sua própria galeria." A arte que Kurt pintou em 1992 evidenciava grande amadurecimento. Uma das pinturas era uma tela 60 x 91 centímetros cor de laranja brilhante com um dente de cachorro marrom pendurado num cordão no meio do quadro.
Outro quadro apresentava grandes manchas carmesim com flores
prensadas no centro das manchas de tinta. Ainda outro mostrava cruzes de cor vermelho-sangue com imagens brancas fantasmagóricas de alienígenas atrás delas. Uma tela gigantesca apresentava um alienígena pendurado como uma marionete com uma protuberância minúscula de um pênis exposto: um pequeno gato estava num canto olhando para o espectador e, em outro canto, Kurt havia escrito: "abscessos reais, conjuntivite, espinha bífida".
Os cheques dos direitos autorais de Kurt haviam começado a
chegar e o dinheiro para comprar telas e tinta já não era mais problema. Ele contou a Jesse que estava ganhando o equivalente a quatrocentos dólares de heroína por dia, um quantia extravagante que teria matado a maioria dos usuários: parte da razão para essa cifra era que a maioria dos traficantes cobrava mais caro de Kurt, sabendo que ele podia pagar. Jesse descobriu que quando Kurt se aplicava, havia pouco prejuízo para suas funções motoras. "Ele não ficava sonolento. Não havia nenhuma mudança".
Jesse e Kurt passaram a maior parte da tarde assistindo a um
videoteipe mostrando um homem dando um tiro na cabeça. "Ele tinha o vídeo de um senador", lembra Jesse, "explodindo o cérebro diante da câmera. O sujeito tinha uma Magnum 375 de um envelope de papel manilha e detona seu cérebro. Era uma imagem muito nítida. Kurt conseguiu a fita numa loja de rapé."
Na verdade o vídeo era do suicídio de R. Budd Dwyer, funcionário
do estado da Pensilvânia que, ao ser condenado por suborno em janeiro de 1987, convocou uma entrevista coletiva, agradeceu sua esposa e filhos, entregou um envelope ao seu pessoal contendo seu bilhete de suicídio, e disse aos repórteres: "Alguns que ligaram disseram que eu sou Jó dos tempos modernos". Com as câmeras filmando. Dwyer enfiou um revolver em sua boca e puxou o gatilho — o tiro arrancou a parte de trás de sua cabeça e imediatamente o matou. Cópias piratas da cobertura da televisão ao vivo haviam circulado após a morte de Dwyer e kurt tinha comprado uma. Ele assistiu obs excessivamente ao suicídio durante 1992 e 1993 — quase tantas vezes quanto as que assistiu ao ultra-som de sua filha.
Depois que a heroína foi entregue, Jesse acompanhou Kurt em
algumas tarefas de rua. Uma das paradas foi a Circuit City, onde Kurt deixou quase 10 mil dólares ao comprar o mais recente equipamento de vídeo. Jesse partiu naquela noite, para voltar a San Diego, e deu um abraço de despedida no frágil Kurt. Eles continuaram em contato por telefone e, embora nenhum deles soubesse disso na ocasião, seria a última vez que os dois velhos amigos se veriam.
Em junho, o Nirvana iniciou uma excursão de dez shows na
Europa para compensar os cancelados em 1991. No primeiro show, em Belfast, Kurt já estava reclamando de dor de estômago e foi levado ás pressas para o hospital. Lá ele afirmou que a dor fora causada por não tomar pílulas de metadona: em outros incidentes ele afirmaria que a metadona provocava parte de sua dor de estômago. Por ser o primeiro concerto da excursão, havia muitos jornalistas que tinham entrevistas agendadas com Kurt: quando lhes disseram que ele não estava "disponível", os jornalistas farejaram uma matéria.
O editor da banda no Reino Unido, Anton Brookes, viu-se na
posição quase cômica de tentar tirar os repórteres para fora do salão de entrada para que nenhum deles visse Kurt sair do Hotel numa maca. Quando um repórter declarou: "Acabei de ver Kurt em uma ambulância", repentinamente se tornou difícil negar que ele tinha problemas de saúde. "Lembro-me de ter voltado ao escritório e de que a Cnn estava na linha", conta Brookes. "Eu disse: "Ele teve problemas estomacais. Se fosse heroína, eu diria a vocês. Ele está tomando medicamentos." Para passar a perna nos repórteres persistentes, Brookes mostrava os frascos dos remédios de kurt. Depois de uma Hora no hospital, Kurt melhorou e foi tocar no show do dia seguinte sem problemas. Mas a administração havia contratado dois guardas para acompanhar Kurt — e imediatamente ele se livrou deles.
Antes de um show na Espanha, a banda concedeu uma entrevista
a Keith Cameron para a NME. O artigo de Cameron mencionava os rumores de drogas e indagava se era possível ao Nirvana sar "do anonimato para o estrelato e pôr tudo a perder no intervalo de seis meses". Era sua maior condenação na imprensa até então, e parecia encorajar outros jornalista do Reino Unido a introduzir alegações de abuso de heroína em suas matérias, assunto anteriormente considerado tabu. mas, apesar da descrição que Cameron fazia Kurt como "demoníaco", as fotos que acompanhavam o artigo o mostravam com ar de menino, com cabelo curto oxigenado e usando óculos de lentes grossas estilo Buddy Holly. Ele não precisava dos óculos, mas achava que eles o faziam parecer inteligente: ele também usou um par de óculos similar no vídeo "In Bloom". QUando sua tia lhe disse que os óculos o deixavam parecido com o pai Kurt nunca mais os usou.
No dia 3 de julho, ainda na Espanha, Courtney começou a ter
contrações, embora a previsão fosse apesar, embora a previsão fosse apenas para a primeira semana de setembro.
Levaram-na ás pressas para um hospital espanhol onde Kurt não
conseguiu encontrar um médico com conhecimentos suficientes do inglês para compreendê-lo.
Finalmente, pelo telefone, localizaram o médico de Cortney, que
recomendou que eles tomassem o próximo vôo de volta. Assim fizeram e o Nirvana cancelou dois shows na Espanha pela segunda vez.
Quando chegaram á Califórnia, os médicos lhe garantiram que
estava tudo bem com a gravidez, mas, apesar disso, eles voltaram para uma catástrofe: o banheiro do apartamento havia inundado. Kurt tinha guardado guitarras e diários na banheira e estavam todos arruinados.
Desanimados, ele e Courtney resolveram imediatamente se mudar,
embora ela estivesse grávida de oito meses, também havia traficantes de heroína batendo á porta a todo momento, tentação a que Kurt achava difícil resistir. Kurt foi ao escritório da Gold Mountains para insistir com Silva que ele encontrasse um novo lugar para eles morarem.
Apesar de sua crescente riqueza, Kurt ainda não conseguira
consolidar crédito e entregava todos os seus assuntos financeiros aos seus empresários.
Silva os ajudou a encontrar uma casa e eles se mudaram no final
de julho, deixando todo o seu lixo no apartamento da rua Spaulding e a palavra "parricídio" escrita na parede acima da lareira. Sua nova casa no Alta Loma Terrace, 6881, era algo saído diretamente de um filme: tinha sido usado como locação para vários filmes, entre os quais Dead Again, e a versão de Robert Altman para The Long Goodbye. Ela ficava num pequeno penhasco na colinas de Hollywood Norte, com vista para Hollywood Bowl. A única maneira de chegar ao penhasco, que tinha dez apartamentos e quatro casas, era por meio de um elevador coletivo de aparência gótica. Os Cobain alugaram a casa por 1.500 dólares por mês. "Era nojenta, em diversos sentidos", lembra Courtney,"mas era legal. pelo menos, não era apartamento."
Atormentado por sua dor de estômago cada vez pior, Kurt
considerou o suicídio. "Instantaneamente recuperei aquela conhecida náusea de queimação e decidi me matar ou deter a dor", escreveu ele em seu diário. "Comprei um revolver, mas preferi ficar com as drogas." Ele abandonou a metadona e logo voltou para a heroína. Quando nem sequer as drogas pareciam aliviar a dor, ele acabou decidindo tentar de novo o tratamento, depois de pressionado por Courtney e pelos empresários. No dia 4 de agosto, kurt internou-se na unidade de reabilitação de drogas do hospital Cedars-Sinai para sua terceira reabilitação.
Ele havia começando a se consultar com um programa de
desintoxicação intensiva de dois meses. Foram dois meses de "Fome e vômito. Enganchado a uma intravenosa e gemendo alto com a pior dor de estômago que eu jamais havia sofrido". Três dias depois da internação de Kurt, Courtney deu entrada em um ala diferente do mesmo hospital, sob um pseudônimo. De acordo com seus registros médico, que vazaram para o Los Angeles Times, ela estava sendo medicada com Vitaminas pré-natais e metadona. Courtney estava passando por uma gravidez complicada e por um esgotamento emocional — naquela semana ela havia recebido um fax contendo seu perfil a ser publicado na edição do mês seguinte da Vanity Fair.