Mais Pesado Que o Céu
Um Pastelão na Minha
BRAGUILHA
Raymon, Washington, Março de 1987.
"Tem um pastelão na minha braguilha".
Kurt a uma multidão de quinze pessoas no primeiro concerto do Nirvana.
A CARREIRA DE KURT COBAIN COMO BANDLEADER quase se
encerrou antes mesmo de começar. Numa noite de chuva no inicio de março de 1987, a banda finalmente saiu de Aberdeen numa camionete-baú cheia de equipamentos com destino ao seu primeiro show. A banda ainda não tinha nome, embora Kurt tivesse passado horas a fio considerando diversas opções, entre quais Poo Poo Box, Designer Drugs, Whisker Biscuit, Spina Biffida, Gut Bomb, Egg Flog, Pukeaharrea, Puking Worms, Fish Food, BAt Guana e Incompotent Fools (internacionalmente grafada errado), além de muitas outras. Em março de 1987 ele ainda tinha de ser fixar em um nome.
Eles se dirigiam para Raymond, meia hora ao sul de Aberdeen,
porém mais parecida com Aberdeen do que a própria Aberdeen: era uma autêntica cidade de madeireiros e bitolados, já que praticamente todo emprego se relacionava com madeira.
Escolher Raymond para seu Show de estréia era com uma
produção da Broadway iniciar sua temporada nos Apalaches — era uma chance para testar coisas com uma platéia tida como não muito perspicaz ou sofisticada.
Ryan Aigner, que por sua natureza sociável se tornara seu
empresário por um breve momento, havia acertado a apresentação. Ele importunou Kurt para que se apresentasse numa festa sem o consentimento prévio de Kurt. Ryan emprestou uma van de transporte de carpetes de seu emprego, colocou os equipamentos dentro e apanhou Kurt, Krist, Buckhard, Shelli e Tracy, que tiveram de se senta entre rolos de carpete. Durante a viagem, Kurt se queixava sem parar de que a banda — que tinha de tocar em outro lugar que não seu minúsculo barraco — merecia algo melhor do que essa apresentação. "Estamos tocando em Raymond", disse ele, pronunciando o nome da cidade com pouco-caso. "Na casa de alguém, ainda por cima. Eles ainda não sabem o que é rádio. Eles vão nos detestar." "A idéia de Kurt observou Ryan, "Era que ou a multidão iria odiá-los, o que eles aceitariam, ou iria adorá-los, o quem também seria legal. Ele estava preparado para qualquer das duas coisas." Este foi um exemplo clássico de um artifício que Kurt aplicaria ao longo de sua carreira: menosprezando o sucesso e, de fato, pintando o pior cenário possível, ele imaginava que poderia se proteger do verdadeiro fracasso. Se o evento real que ele temia fosse um desastre quase total, ele poderia declarar com algum grau de triunfo que ele havia mais uma vez passado a perna no destino. Desta vez, porem, sua previsão se mostraria acurada. A casa estava localizada na estrada Nussbaum, 17, um caminho de cascalho a onze quilômetros de Raymond, no meio de um campo. Quando chegaram, ás nove e meia da noite, Kurt imediatamente ficou receoso, vendo uma platéia de jovens que ele não conhecia. "Quando vi como era a banda", lembra Vail Stephens, que estava na festa, "eu disse: 'Ô-ô'. Eles pareciam muito diferentes da multidão em que estávamos". Foi exatamente o que Kurt havia pensado quando observou as dezenas de adolescentes com camisetas de Led Zeppelin e cabelos cortados rente na frente e comprido na nuca. Em contraste, Krist estava descalço, enquanto Kurt vestia uma camiseta do Munsters e um bracelete tachonado com pinos salientes que podia ter vindo diretamente da King's Road de Londres em 1978.
Entraram numa casa decorada com um pôster do "Che", o encarte
de um disco do Metallica e um pôster do último disco de Def Leppard. Pregados numa viga estavam diversas placas de rua roubadas, entre elas um indicador da rodovia "Mile 69". Uma bateria Tama estava permanentemente montada num canto da pequena sala de estar, assim como uma caixa amplificadora Marshall, e havia um barril de cerveja do lado de fora da cozinha.
Levou algum tempo para a banda montar os instrumentos e,
enquanto isso, seus integrantes não procuraram exatamente se integrar com seus anfitriões. "Ele não disse uma palavra", Disse Kim Maden, referindo-se a Kurt."Tinha o cabelo escorrido, meio gorduroso, que lhe cobria o rosto." Pelo menos, em seu retraimento, Kurt era diferente de Krist, que entrou no banheiro e começou a urinar, apesar do fato de o banheiro já esta ocupado por uma garota. Krist abriu o armário de remédios, descobriu um frasco de sangue falso para Halloween que usou para cobrir seu peito nu, procurou fita isolante para colocar sobre os mamilos e começou a saquear os remédios. Saiu do banheiro, ignorou o barril de cerveja, foi para a geladeira e, encontrando a cerveja Michelob Light, gritou: "Oba, tem cerveja da boa!". Nesse momento, Kurt começara a tocar e Krist teve de correr a apanhar seu baixo porque o primeiro concerto do Nirvana havia começado.
Iniciaram com "Downer", uma das primeiras canções que Kurt
compôs. A música listava queixas clássicas de Cobain contra a condição lamentável da existência humana. "Hand out Lobotomies / To Save Little families" ["Distribuam Lobotomias / Para salvar as pequenas famílias"], cantou Kurt. A letra obscura se perdia inteiramente para a platéia de Raymond, que não conseguia ouvir nada além dos solos da guitarra pesada e do baixo. Kurt acelerou na execução, embora a canção e as demais que se seguiram fossem surpreendentemente profissionais. Em sua primeiríssima apresentação pública, estava tudo ali, cada pedaço do Nirvana que conquistaria o mundo nos anos que viriam; o tom, a atitude, o frenesi, os ritmos ligeiramente desencontrados, os acordes notavelmente melódicos da guitarra, as frases condutoras do baixo que garantiam o balanço do corpo da platéia e, o mais importante, a concentração hipnótica de Kurt. Ele ainda não era um executante plenamente realizado — e, de fato, os que estavam na festa não se lembram de vê-lo erguer nenhuma vez a cabeça ou de que tenha tirado o cabelo do rosto —, mas todos os blocos brutos essenciais da construção estavam presentes. Valia a pena vê-lo, ainda que somente porque ele parecesse tão denso.
Não que a platéia notasse, porque ela estava fazendo o que toda
aglomeração de adolescentes faz numa festa — bebendo e conversando. De longe, o mais notável no show foi que a platéia não aplaudiu quando eles terminaram seu primeiro número.
A única pessoa que pareceu animada foi Krist, que anunciou:
"Parece muito bom daqui", talvez para evitar que o ego suscetível de Kurt se despedaçasse. Ryan, que estava drogado, replicou: "Parece muito melhor do que costuma parecer".
"Acho que vocês deviam comprar um amplificador decente", foi o
único comentário de Kurt após encerrar a primeira canção de sua autoria diante de uma platéia.
"Nós já temos um amplificador decente", afirmou Tony Poukkula,
que morava na casa, "só continua a detonar." Shelli gritou para Krist não tirar a calça — era a única roupa que ele estava vestindo —, enquanto Kurt brincava: "Tem um pastelão na minha braguilha". "Beastie Boys", gritou uma mulher. "Bestiality Boys", respondeu Kurt.
Quando afinavam os instrumentos entre uma música e outra, Kurt
avistou Poukkula, que tinha fama de excelente guitarrista na área, preparando sua Fender e se aproximando da banda. O que Ryan não havia dito a Kurt era que a noite fora descrita para Pokkula como uma Jam Session. A expressão de Kurt era de Horror, já que, mesmo nessa fase inicial de sua carreira, ele não queria dividir o palco. "Seria legal fazer uma Jam", mentiu delicadamente Kurt para Tony, "Mas você se importa se tocarmos nosso show até o fim? Na verdade eu não conheço canções populares e acho legal improvisar, mas só gosto de improvisar quando estou bêbado — desse jeito não me importo." Poukkula foi compreensivo e se sentou. Cabia então a Kurt entreter a platéia e nem Burckhard nem Krist, agora deitados sobre o console de televisão pareciam estar prontos. "Vamos tocar só esta", ordenou Kurt, impaciente. "Vamos só acertar o jeito que vamos tocá-la." E com isso ele começou o solo inicial de guitarra de "Aero Zeppelin", supondo que seus colegas de banda o acompanhassem, o que fizeram. Quando a música prosseguiu, soava tão acabada como soaria um ano depois, quando a gravaram.
Enquanto "Aero Zeppelin" terminava, os nativos começaram a ficar
impacientes.
Novamente não houve aplauso e desta vez Kurt ficou incomodado,
embora, para ser justo, grande parte do incômodo viesse de Krist e Ryan, ambos tão bêbados que mal paravam em pé. A banda tinha conseguido, como o faria em muito de seus primeiros shows, se sobrepor ao volume da platéia durante as canções: não teriam tanta sorte durante os intervalos entre as canções.
"Ei, de quem é toda essa maconha?", gritou Krist. "Acido. Eu quero ácido!", gritou Shelli.
"Você deve apenas beber álcool", disse uma mulher de Raymond. "Tudo o que eu quero é um bom baseado", replicou Krist. "Você vai ver o baseado que eu vou dar para vocês agora mesmo".
ameaçou Ryan.
"Façam alguns covers. Toquem qualquer coisa. Estou cansado de
ver vocês bancando os bobos, retardados desse jeito. Vocês são bobos."
"Vamos tocar "Heartbreaker", gritou Krist, enquanto tocava a frase
de introdução no baixo.
"Vocês estão de porre?", perguntou um sujeito. "Toquem como Zeppelin tocava", gritou outro. "Toquem como Tony Iommi", gritou ainda outro. "Toquem alguma do Black Sabbath", gritou alguém da cozinha. E com isso a coisa quase desandou — Kurt estava cambaleando a
ponto de desmaiar. Krist continuava gritando "toque 'Heartbreaker'", a que Kurt, numa voz que parecia muito nova, gritando de volta: "Eu não sei". Mas mesmo assim eles começaram a canção do Zeppelin e o toque da guitarra de Kurt foi ótimo. A execução parou na metade quando Kurt esqueceu a letra, mas no momento em que ele parou, a platéia o incitou de novo, gritando "solo". Ele fez sua melhor imitação de Jimmy Page em "Heartbreaker" e incluiu trecho de "How Many More Times", mas quando parou nisso ainda não houve aplauso. Sabiamente, Kurt gritou "Mexican Seafood", todo mundo", e começaram a tocar esta música de sua autoria.
Em seguida, tocaram "Pen Cap Chew" e, depois, "Hairspray
Queen". Ao final deste número, Krist estava em pé sobre a televisão, fazendo com a língua uma imitação do Kiss. Enquanto Kurt e Aaron continuavam a tocar, Krist saltou pela janela para fora da casa. Parecendo um garotinho de três anos de idade jogando água com uma mangueira num dia de verão, Voltou para dentro da casa e depois fez tudo isso de novo. "Foi maluquice", lembrou Krist. "Em vez de apenas fazer o show, pensamos, por que não um evento? Foi um evento."
O que aconteceu em seguida garantiu que aquela seria uma festa
para ser lembrada. Shelli e Tracy decidiram se juntar ao estranho show esfregando as mão no peito de Krist e se beijando entre Si. Kurt rapidamente apresentou a canção seguinte: "Esta se chama "Breaking The Law". Eles tocaram a música que mais tarde se chamaria "Spank Thru", uma canção sobre masturbação. A platéia de Raymond pode não ter sido a mais sofisticada, mas começou a ter a sensação de que era alvo de algum tipo de gozação.
Shelli, tentando afanar algumas preciosas Michelob, teve o azar de
ficar com o colar preso na porta da geladeira. Quando Vail Stephens fechou a porta e quebrou seu colar, uma briga começou. "Babaca gordo, escroto", gritou Shelli, enquanto ela e Vail se engalfinhavam na estrada da garagem. "Estávamos sendo chatos de propósito", lembrou Shelli. "Para nós eles era uns caipiras, e não queríamos ser caipiras."
Kurt, vendo seu primeiro show se tornar um caos, pôs a guitarra
de lado e caminhou para fora, igualmente divertido e enojado. Fora da casa, uma jovem atraente se aproximou de Kurt, e enquanto isso acontecia ele deve ter sentido que seus sonhos juvenis de ser um astro do Rock e atrair tietes estavam finalmente se realizando. Mas, em vez de uma fã adoradora, esta mulher de cabeleira loura queria saber a letra de "Hairspray Queen". Aparentemente, achava que a música havia sido composta sobre ela, talvez ali mesmo, tratava-se apenas do primeiro de muitos casos em que as letras de Kurt seriam erroneamente interpretadas. Já nesta primeira apresentação, Kurt não se mostrou gentil a uma platéia que deturpava sua verdadeira intenção. "É, eu vou lhe dizer a letra", ele falou, soando como se tivesse sido insultado. "Diz o seguinte: 'Foda, Boceta, Mineteiro, Olho-do-cu, comer merda, filho-de-uma-puta, lavagem anal, escroto [...]'" A garota desatou a correr.
Kurt foi procurar Krist e o encontrou no teto da van, urinando nos
carros dos outros convidados. Vendo essa demonstração e sempre preocupado inteligentemente com sua autopreservação, Kurt disse a todos que era hora de ir embora. Juntaram seus equipamentos e partiram, receando que sua retirada fosse impedida por punhos e pés de seus anfitriões. Mas a platéia de Raymond, apesar de ser considerada caipira, na verdade se mostrou mais receptiva do que muitas das platéias que pagariam para ver o Nirvana nos vários anos seguintes.
Alguns chegaram a comentar: "Caras, vocês são muito bons".
Ouvir essas palavras foi um elixir para Kurt. Ver seu reflexo numa platéia, mesmo que esta não fosse muito entusiasta, parecia muito mais atraente do que sua própria autocrítica, que era incessantemente brutal. Se a platéia tivesse feito alguma coisa menos do que enforcá-lo no poste de iluminação, teria sido um triunfo. A platéia — distraída que fora por rodeios, brigas de bar e um homem seminu saltando pelas janelas — havia lhe oferecido um pequeno gosto de algo pelo qual ele ansiava mais do que tudo na vida: o ópio da atenção.
Enquanto todos se apertavam na van, houve alguma discussão
sobre quem no grupo estava menos bêbado, e embora Kurt fosse o mais sóbrio ninguém confiava nele para dirigir. Ele se sentou atrás, enquanto Burckhard assumia o volante. "Todos foram para fora assistir á partida", lembra Jeff Franks, que morava na casa.
"Todos se sentaram no banco traseiro da van sobre os rolos de
carpete, com a porta de trás ainda aberta. Conseguimos vê-los baixando a porta enquanto aceleravam jogando cascalhos com os pneus."
Dentro da van não havia janelas e, com a porta deslizante
abaixada, era escuro como breu. Levaria vários meses até que tocassem novamente diante de uma platéia, mas eles já olhavam com expectativas para seu futuro, com uma pequena parte de sua lenda já formada.
NO COLÉGIO, DE NOVO
Olympia, Washington,
Abril de 1987-Maio de 1988
"Droga, estou no colégio de novo! Quero voltar para Aberdeen."
Trecho de uma carta a Dale Crover.
DOIS MESES DEPOIS DO SHOW EM RAYMOND, Kurt fez outra
viagem importante: abandonou Aberdeen de uma vez por todas. Ele havia passado os primeiros vinte anos de sua vida ali, mas, depois de partir, raramente voltaria. Empacotou suas coisas, que na época consistiam em pouco mais do que uma mochila de roupas, um caixote de discos e sua agora vazia gaiola de rato, e as embarcou no carro de Tracy para a viagem de pouco mais de cem quilômetros até Olympia. Embora Olympia fosse apenas um pouco maior do que Aberdeen, era uma cidade universitária, a capital do estado e um dos lugares mais excêntricos a oeste do East Village, com uma estranha mistura de roqueiros Punk, artista, pretensos revolucionários, feministas e tipo simplesmente esquisitos. Os estudantes do Evergreen State College — conhecidos universalmente como "Greeners" — criavam seu próprio currículo. Kurt não pretendia ir para a universidade, mas pelo menos tinha a idade correta para entrar. Ele iria ter uma relação conflitante com o público de arte da cidade — ansiava por sua aceitação, ainda que freqüentemente se sentisse inadequado. Era um tema recorrente em sua vida.
Kurt se mudou para Olympia para morar com Tracy em um
apartamento-escritório em uma velha casa convertida num triplex na rua Pear, 114 1/2, dos serviços públicos. E a localização, a poucas quadras do centro, era ideal para Kurt, que raramente tinha acesso a um automóvel. Durante o primeiro mês procurou emprego sem muito sucesso, enquanto Tracy o sustentava trabalhando na lanchonete da fábrica da Boeing em Seattle. Ela fazia o turno da noite e só voltava para casa as nove da manhã. O emprego garantia uma renda fixa — algo que ambos sabiam não poder esperar de Kurt — e ela podia roubar comida para complementar seu salário.
Devido ao seu horário incomum de trabalho, Tracy começou a
deixar listas de "afazeres" para Kurt, e essa forma de comunicação se tornaria um ritual de seu relacionamento. Uma dessas listas que ela escreveu no final de 1987 dizia; "Kurt: varra a cozinha, atrás da caixa de areia do gato, lata de lixo, debaixo do alimentador do gato. sacuda os carpetes, passe aspirador e limpe o quarto da frente. Por favor, por favor, por favor". O bilhete era assinado com um coração e uma Smiley sorridente. O bilhete de resposta de Kurt; "Por favor, ponha o despertador para as onze que eu lavo os pratos. Tudo Bem?".
A principio, Kurt ajudou com o trabalho doméstico, lavando a
louça e até ocasionalmente esfregando o chão. Embora o apartamento fosse minúsculo, precisava de limpeza constante devido á coleção de bichos de estimação dos dois.
Embora a população efetiva variasse ao longo dos dois anos
seguintes dependendo do tempo de vida de cada um, eles tiveram cinco gatos, quatro ratos, uma cacatua, dois coelhos e as tartarugas de Kurt. O apartamento tinha um cheiro que as visitas freqüentemente comparavam desfavoravelmente a uma Pet Shop, mas era quase um lar. Kurt chamava o coelho de Stew [Guisado].
Ele também pintou o banheiro de vermelho-sangue e escreveu
"Redrum" na parede, uma referência a O iluminado, de Stephen King. Uma vez que Kurt tinha a tendência de escrever nas paredes, ele prudentemente cobriram a maior delas com pôsteres de rock, muitos com o verso para a frente, para que assim ele tivesse mais espaço para criar. Os poucos pôsteres que exibiam a frente tinham alguma alteração em relação ao que eram. Um cartaz enorme dos Beatles agora exibia um Paul McCartney de óculos e usando cabelo afro. Acima da cama havia um pôster do Led Zeppelin ao qual Kurt acrescentara o seguinte; "Otário, meigo, alcoólatra, nojento, lixo, degenerado, piolho, perebas, pus, pneumonia, diarréia, vômito de sangue, urina, músculo intestinal deficiente, artrite, gangrena, doença mental psicótica, incapaz de formar frases, provavelmente ira se virar num caixão na neve." junto a essa ladainha estava o desenho de uma garrafa de vinho fortificante Thunderbird e uma caricatura de Iggy Pop. A geladeira exibia uma colagem de fotos que ele criou com imagens de carne misturada com velhas ilustrações médicas de afecções vaginais. "Ele era fascinado por coisas que fossem grosseiras", lembrou Tracy. E embora o próprio Kurt raramente falasse sobre religião, Tracy disse: "Acho que ele acreditava em Deus, mas mais no diabo do que realmente em Deus", Havia cruzes e outros artefatos religiosos nas paredes.
Kurt gostava de roubar esculturas da Virgem Maria do cemitério e
de pintar lágrimas de sangue sob seus olhos. Tracy havia sido criada como luterana, e a maioria das discussões religiosas entre os dois era sobre se Deus poderia existir num mundo cheio de tanto horror, com Kurt assumido a posição de que Satã era mais forte.
Após dois meses como dono-de-casa, Kurt assumiu um emprego
de vida curta de 4,75 dólares por hora no Lemons Janitorial Service, uma pequena empresa familiar de serviço de faxina. Ele dizia a seus amigos que limava consultórios médicos e odontológicos e usava a oportunidade para roubar remédios. Mas, de acordo com o proprietário do negócio, grande parte da rota em que Kurt trabalhava era de edifícios industriais com poucas chances de roubar alguma coisa. Ele usou parte daquilo que ganhou para comprar um velho Datsun enferrujado. Uma coisa era certa sobre esse serviço de manutenção entre ele e Tracy. Mesmo depois de deixar o emprego, aparentemente ele achou que não precisava mais fazer nenhuma limpeza na vida.
Em Olympia, sua vida artística interior estava se desenvolvendo em
sentidos antes inexistentes. Desempregado, Kurt acionou uma rotina que ele seguiria pelo resto de sua vida. Levantava-se por volta do mio-dia e comia uma espécie de café-almoço. Kraft Macaroni And Cheese era seu prato predileto. Tendo experimentado outras marcas, seu paladar delicado havia decidido que quando se tratava de queijo e massa beneficiados, a Kraft havia conquistado seu papel de líder do mercado. Depois de comer, ele passava o resto do dia fazendo uma dentre três coisas: ver televisão, o que ele fazia sem parar, praticar com sua guitarra, o que ele fazia durante horas, normalmente enquanto via tevê, ou criar algum tipo de projeto de arte, fosse na pintura, colagem ou instalação tridimensional. Esta última atividade nunca era formal — Kurt raramente se identificava como artista —, Embora ele passasse horas dessa maneira.
Ele também escrevia seus diários, embora o diálogo interno que
mantinha não fosse muito tintim por tintim do seu dia, já que isto era um dispositivo terapêutico obsessivo-compulsivo pelo qual ele conseguia soltar seus mais íntimos pensamentos. A escrita era imaginativa e muitas vezes perturbadoras.
Suas canções e seus registros no diário ás vezes se fundiam, mas
ambos eram obcecados pelas funções corporais humanas: parto, urina, defecação e sexualidade eram tópicos em que ele era bem versado. Um pequeno segmento ilustra os temas familiares que ele constantemente revistaria: Chef Boyardee é mais insignificante, mais forte, menos suscetível á doença e mais dominador do que um gorila macho. Ele vem me ver a noite. Abrindo obstinadamente as fechaduras e curvando as grades de minha janela. Custando-me terríveis somas de dinheiro em dispositivos domésticos antifurto. Ele vem me ver em meu quarto. Nu, barbeado e untado. Os pelos pretos do braço eriçam sua pele como frango arrepiado. Parado em uma poça de gordura de pizza. Vomitando farinha. Ele entra em meus pulmões. Eu tusso. Ele ri. Monta em cima de mim. Eu gostaria de chutar seu maldito rabo machista quente e fedorento.
Esses pensamentos íntimos, muitas vezes cheios de violência,
estavam em contraste marcante com o mundo esterno de Kurt. Pela primeira vez em sua vida ele tinha uma namorada firme que o idolatrava e atendia a cada uma de suas necessidades. Às vezes a atenção que Tracy lhe dava beirava o cuidado maternal e, em certo sentido, ele precisava disso. Kurt comentava com seus amigos que ela era "a melhor namorada do mundo".
Como casal, os dois demonstravam sinais de tranqüilidade
doméstica. Iam juntos para a lavanderia e, quando podiam, Compravam pizza para viagem na Fourth Avenue Tavern (Eles moravam vizinhos a um ponto de pizza diferente, mas Kurt insistia que ela não prestava). Kurt gostava de cozinhar e freqüentemente fazia para Tracy o rato que era sua especialidade, "vanilla Chicken", ou fettucine Alfredo.
"Ele comia o tipo de coisa que faria outras pessoas ganharem peso,
mas ele nunca engordava", comenta Tracy. Seu tamanho sempre havia sido motivo de preocupação e ele escrevia para diversos anúncios das ultimas páginas de revistas pedindo formulas para ganhar peso, mas estes surtiam pouco efeito. "Os ossos de seus quadris saltavam para fora e ele tinha joelhos protuberantes", lembra Tracy.
"Não usava short a menos que tivesse fazendo muito calor, por que
ele se retraia por saber que suas pernas eram muito finas." Para um passeio até a praia, Kurt vestiu uma ceroula, uma calça Levi's, uma segunda Levi's sobre a primeira, uma camisa de manga comprida, uma camiseta e dois pulôveres de manga comprida "Ele queria parecer maior", disse Tracy.
A única coisa em sua vida que conseguia fazê-lo sentir-se maior
era sua música, e no verão de 1987 a banda estava se consolidando. Eles ainda não haviam definido um nome permanente, chamado-se de tudo: desde" Throat Oyste" até "Ted, Ed, Fred", em homenagem ao namorado da mãe de Greg Hokanson. Eles tocaram em duas festas no inicio de 1987 e, em abril, chegaram a tocar na emissora de rádio KAOS da universidade em Olympia. Tracy deu uma fita do Show no rádio para Jim May, da Community World Theater (CWT) de Tacoma, e insistiu com Jim para que os programasse. Tracy e Shelli contribuíram para a banda naqueles primeiros tempos em vários sentidos que não podem ser subestimados; elas desempenhavam os papéis informais de assessoras de imprensa, empresárias, promotoras e agentes de merchandising, além de seu trabalho de garantir que seus homens estivessem alimentados, vestidos e ensaiados. Jim May propiciou á banda sua primeira apresentação extra festa, para a qual tocaram sob o nome de Skid Row — na época, Kurt não sabia que uma banda lite-metal de Nova York tinha o mesmo apelido. Não importava: eles mudavam de nome a cada show, do mesmo jeito que uma socialite experimenta chapéus. Essa apresentação, embora não muito depois da festa em Raymond, mostrou a banda crescendo aos trancos e barrancos. Mesmo Tracy que era tendenciosa já que estava apaixonada pelo cantor, ficou impressionada pelo tanto que eles haviam se desenvolvido: "Quando começaram a tocar, minha boca caiu. Eu disse: "Esses caras são bons".
Eles podiam ter um bom som, mas certamente pareciam
estranhos. Para essa apresentação, Kurt havia tentando ser glamuroso. Como fez em diversos shows naquele ano, ele vestia calça brilhante, uma camisa de seda havaiana e sapatos de plataforma de quatro polegadas para parecer mais alto. O músico John Purkey, por acaso, estava na CWT naquela noite e, apesar dos trajes estranhos do grupo, lembra: "[...] fiquei tomado. Ouvi a voz da pessoa cantando e ela me deixou totalmente impressionada. Eu nunca ouvira uma voz como a dele antes. Era uma voz distinta. Havia uma canção, "Love Buzz", que definitivamente pegava".
"Love Buzz" tinha sido um dos elos perdidos de que a banda
precisava, Krist havia descoberto a canção num disco de uma banda holandesa chamada Shocking Blue, e Kurt a adotou imediatamente e fez dela uma marca de seu grupo. Ela começava com uma batida de bateria em meio andamento, mais rapidamente passava para uma frase rodopiante de guitarra. A interpretação da canção mesclava partes iguais de transe psicodélico com uma densidade surda e reduzida da parte do baixo de Krist. Kurt tocaria o solo de guitarra atrás dele, no chão.
Começaram a tocar regularmente no CWT, embora seja exagero
sugerir que tenham formado ali uma audiência. O cinema em si era uma antiga sala de exibição de filmes pornô, e a única fonte de calor era uma estufa com uma turbina movida a gás que girava ruidosamente, mesmo durante as apresentações da banda. Kurt comentou que havia o "cheiro onipresente de urina" no lugar. A maioria da platéia de seus primeiros shows vinha para ver outros grupos — na noite antes de Kurt tocar, a programação era Bleeder, Panic e Lethal Dose. "Jim may programava esses caras quando ninguém mais lhe daria espaço", explicou Buzz Osborne. "Era ali que eles perdiam seus dentes de leite." Kurt, sempre aprendendo com Buzz, percebeu que até uma apresentação diante de seus amigos era uma chance para crescer. "Eu podia contar com eles para tocar a qualquer momento", lembrou May." Kurt nunca recebia dinheiro nenhum, o que também era bom para mim porque eu estava fazendo somente cerca de doze shows por mês, e apenas dois deles davam dinheiro." Kurt havia sabiamente captado sua situação e percebeu que a banda conseguia mais apresentações e mais experiência se eles tocassem de graça. Afinal, para que eles precisavam de dinheiro? Eles tinham Tracy e Shelli.
Shelli havia assumido um emprego ao lado de Tracy na lanchonete
da Boeing. Ela e Krist haviam se mudado para um apartamento em Tacoma, a 48 quilômetros ao norte de Olympia. Com a mudança, a banda em breve se dissolveu. Anteriormente, com Krist e Aaron morando na área de Aberdeen, Kurt tomava o ônibus de volta para os ensaios. Mas com Krist em Tacoma e trabalhando em dois empregos (na Sears e como pintor industrial), o único que parecia ter tempo para a banda era Kurt. Ele escreveu uma carta a Krist para convencê-lo a voltar para o grupo. "Era engraçada: era como um comercial", lembra Krist. "Ela dizia: 'venha, junte-se a banda. Sem compromisso. Nenhuma obrigação (Bem, algumas)'. Ai eu liguei para ele e disse: "Tá bem, vamos fazer de novo". O que fizemos foi montar um espaço para ensaios no porão da nossa casa. Demos um giro por canteiros de construção, apanhamos restos e o construímos com velhos caibros de duas por quatro polegadas e carpetes velhos." Kurt e Krist já eram amigos havia algum tempo, mas esta segunda formação da banda cimentaria mais profundamente sua relação.
Embora nenhum fosse particularmente bom para falar sobre suas
emoções, forjaram um laço fraterno que parecia mais forte do que todos os demais relacionamentos de suas vidas.
Mas mesmo com um local de ensaio em Tacoma, á medida que se
encerrava o ano de 1987 novamente se defrontaram com o problema do baterista, que os atormentaria pelos próximos quatro anos. Burckhard ainda morava em Grays Harbor e, com um novo emprego como gerente assistente no Burger King de Aberdeen, ele não podia mais tocar com eles. Em resposta, Kurt colocou um anúncio de "Procuram-se Músicos" na edição de outubro de 1987 da The Rocket: "Procuram-se Baterista Sério. Atitude ungergrond, Black Flag, Melvins, Zeppelin, Scratch Acid, Ethel Merman. Versátil pra caramba, Kurt". Não encontraram nenhum candidato sério e, assim, em dezembro, Kurt e Krist começaram a praticar com Dale Crover, que estava de volta da Califórnia, e começaram a conversar sobre a produção de uma demo. Durante o ano de 1987, Kurt tinha dezenas de canções estava ansioso para gravá-las. Leu um anúncio do Reciprocal, um estúdio que cobrava apenas vinte dólares por hora para gravação e marcou uma sessão em janeiro com o produtor em ascensão, Jack Endino. Endino não tinha a menor idéia de quem era Kurt e anotou na agenda "Kurt Cobain".
No dia 23 de janeiro de 1988, um amigo de Novoselic levou a
banda e todo seu equipamento até Seattle em um caminhão forrado de sarrafos e aquecido por um fogão a lenha. Parecia um cabana da roça carregada para dentro de uma pick-up, e era isto mesmo o que era. Ao entrar na cidade grande eles pareciam a Família Buscapé, com fumaça de lenha saindo pela traseira da carroceria; o caminhão estava tão carregado que raspava nas saliências da pista.
O Reciprocal era administrado por Chris Hanszek e Endino. As
bandas Mudhoney, Soudgarden e Mother Lobe Bone haviam trabalhado lá e o lugar já era lendário em 1988. O estúdio em si tinha apenas 83 metros quadrados, com uma sala de controle tão minúscula que três pessoas não conseguiam se acomodar dentro dela ao mesmo tempo. "Os carpetes estavam gastos, os lambris das portas estavam todos se soltando e haviam sido pregados de volta algumas vezes, o que demonstrava sua idade", lembra Hanszek. "Dava para ver que o local tinha as marcas de 10 mil músicos que haviam esfregado os cotovelos por ali." No entanto, para Kurt e Krist era exatamente aquilo que eles estavam procurando: Tanto quanto desejavam uma fita demo, procuravam estar na mesma liga que as outras bandas. Rapidamente dispensaram as apresentações e passaram a gravar quase imediatamente. Em menos de seis horas, gravaram e mixaram nove canções e meia. A última música, "Pen Cap Chew", ficou incompleta, já que o rolo de fita acabou durante a gravação e a banda não tinha os trinta dólares adicionais para outro rolo. Endino ficou impressionado com a banda, mas não muito abertamente. Ao fim do dia, Kurt pagou a conta de 152,44 dólares á vista, com dinheiro que ele disse que havia economizado trabalhando em seu emprego de faxineiro.
O furgão foi então recarregado com o equipamento e a banda se
dirigiu para o sul — neste mesmo dia tinha um show programado para o Community World Theater de Tacoma. Durante o percurso de uma hora, ouviram duas vezes a fita Demo. As dez canções eram, pela ordem, "If You Must", "Downer", "Floyd The Barber", "Paper Cuts", "Spank Thru", "Hairspray Queen", "Aero Zeppelin", "Beeswax", "Mexican Seafood" e a metade de "Pen Cap Chew". Quando Chegou a hora de sua apresentação, tocaram as mesmas dez canções, nessa ordem. Foi um dia de triunfos para Kurt — seu primeiro dia como um "verdadeiro" músico. Ele estivera em um estúdio em Seattle e apresentara outro show diante de um público de vinte adoradores. Dave Foster estava em outra banda do programa daquela noite e lembrou da apresentação como particularmente inspirada: "Eles foram sensacionais. Crover estava arrasador, embora fosse muito difícil ouvi-lo mais alto que a turbina a gás, já que era uma noite muito fria".
Nos bastidores, ocorreu um incidente que marcaria a noite de uma
forma que Kurt não poderia ter previsto. Comparado a Krist e Kurt, Crover era veterano, e ele e os Melvins haviam tocado diversas vezes no CWT. Ele perguntou a Kurt quando eles estavam ganhando pela apresentação, e quando Kurt lhe disse que estavam tocando sem receber, Crover protestou. May explicou que havia tentado pagar a banda por suas últimas apresentações — o clube estava finalmente faturando um pouco mais —, mas que Kurt continuou se recusando a receber dinheiro. Crover começou a gritar, até que Kurt finalmente anunciou: "Nós não estamos recebendo dinheiro nenhum".
Crover argumentou que mesmo que o pagamento fosse de irrisórios
vinte dólares, havia um principio em jogo; "Você nunca deveria ter feito isso, Kurt. Esses caras só estão te explorando. Você vai ser sempre explorado. Precisa receber o seu dinheiro". Mas Kurt e Krist percebiam a realidade da situação de May. May finalmente propôs um meio-termo que permitiria a Kurt manter sua integridade e deixar Crover feliz: ele convenceu a banda a aceitar dez dólares para a gasolina. Kurt enfiou a nota no bolso e disse: "Obrigado". Ele saiu do clube naquela noite pela primeira vez na vida como um músico profissional, manuseando a nota durante todo o caminho de volta.
Um mês depois, Kurt comemorava seu aniversário de 21 anos
experimentando finalmente o rito americano de passagem, que significava que ele podia comprar bebidas legalmente. Ele e Tracy se embriagaram — desta primeira vez, Kurt comprou — e comeram pizza. A relação de Kurt com o álcool era um flerte bebe-de-novo/pára-de-novo. Com Tracy, ele estava bebendo menos e tomando menos droga do que nos tempos do barraco em Aberdeen. Nenhum de seus amigos se lembra dele sendo o mais embriagado do grupo — a distinção normalmente cabia a Krist ou a Dylan Carlson, que a essa altura estava morando vizinho a Kurt na rua Pear —, e ás vezes Kurt parecia francamente moderado. Seu outro vizinho, Matthew "Slim" Moon, parara de beber dois anos antes e, com isso, havia exemplos da sobriedade por perto. A pobreza de Kurt em 1988 implicava que ele mal podia comer, por isso um luxo como o álcool era reservado para comemorações ou quando ele podia assaltar a geladeira de alguém.
No momento em que fez 21 anos, Kurt havia temporariamente
parado de fumar era inflexível no sentido de não permitir que pessoas acendessem cigarros perto dele (ele assinou um bilhete para um amigo naquele ano como "o astro esnobe do rock que reclama de fumaça"). Ele achava que fumar prejudicava sua voz para cantar e sua saúde. Kurt sempre foi uma mistura estranha de autopreservação e autodestruição, e ao encontrá-lo numa noite era difícil imaginar que ele era a mesma pessoa que se encontraria duas semanas depois. "Certa vez fomos a uma festa em Tacoma", lembra Tracy, "e na manhã seguinte ele estava me perguntando o que ele havia feito, porque estava muito bêbado. E eu lhe disse que ele havia fumado um cigarro. Ele ficou chocado!"
Sua irmã Kim o visitou na época em que ele completou 21 anos, e
eles se aproximaram de um jeito que durante anos não haviam feito, conversando sobre seu trauma comum de infância. "Ele me encheu de chá gelado Long Island na casa dele", lembra Kim. "Fiquei enjoada, mas foi divertido." Em 1988, Kurt parou de beber antes dos shows — seu foco estava sempre na banda, á exclusão de tudo o mais. Aos 21, ele era tão sério com a música quanto jamais seria. Ele vivia, dormia e respirava a banda.
Mesmo antes de a banda ter um nome permanente, Kurt estava
convencido de que ter um vídeo na MTV era seu passaporte para a fama. Com este objetivo, Kurt convenceu a banda a tocar na Radio Shack de Aberdeen enquanto um amigo gravava a apresentação numa câmera de vídeo de aluguel barato, usando múltiplos efeitos especiais. Quando Kurt assistiu á fita concluída, até ele percebeu que pareciam mais amadores fingindo ser astros do rock do que músicos profissionais.
Logo depois da apresentação na Radio Shack, Crover deixou o
emprego na banda para voltar para a Califórnia com os Melvins. Eles sempre souberam que Crover era apenas uma solução temporária para o seu problema de baterista. O êxodo dos Melvins era indicado daquilo em que muitas bandas do noroeste acreditavam na época: isto acontecera tanto tempo depois de qualquer grupo do noroeste alcançar sucesso — o Heart tinha sido o último grande sucesso — que a mudança para um centro mais populoso parecia ser o único caminho para a fama. Perder Crover aumentou a frustração de Kurt, mas também o ajudou a encontrar uma identidade própria, e seu grupo podia ser concebido como uma coisa diferente de uma cria dos Melvins. Até a metade do ano de 1988, um maior número de pessoas em Olympia conhecia Kurt mais como roadie dos Melvins do que como líder de sua própria banda
Isso estava prestes a mudar. Crover havia recomendado Dave
Foster, um baterista de toque e vida pesados. Embora ter um baterista lá em Grays Harbor continuasse a ser um problema logístico, a essa altura Kurt tinha seu Datsun para ajudar.
Quando o carro andava, o que nem sempre acontecia, ele chegava
a Aberdeen, apanhava Foster, levava-o até Tacoma para ensaiar, e depois refazia o caminho inteiro mais tarde naquela noite, ou pela manhã, fazendo horas extras de direção.
O primeiro show da banda com Foster foi uma festa numa casa de
Olympia apelidada de Caddyshack.* Umas das esquisitices de Olympia era que toda residência de estudantes nos anos 80 tinha algum tipo de apelido - a Caddyshack ficava próxima a um campo de golfe. Diferente do programa de rádio na KAOS e do show do Brown Cow em Gesso, esta foi a primeira apresentação pública de Kurt em Olympia e ela seria parte de uma dolorosa curva de crescimento. Tocar para uma sala de estar cheia de estudantes universitários foi um choque cultural. Kurt havia tentado vestir o papel - ele trajava sua jaqueta jeans rasgada com retalhos de A Última ceia costurados nas costas e um macaco plástico, Chim Chim, do cartum do Speed Racer colado no ombro. Foster vestia uma camiseta, jeans stone-washed e usava bigode. Antes mesmo que a banda tivesse chance de começar, um garoto com um cabelo tipo indígena agarrou o microfone e gritou: "Bateristas de Aberdeen são esquisitos mesmo". Embora fosse Foster quem o garoto estava criticando, o comentário também atingiu Kurt: o que ele mais queria era ser visto como uma pessoa requintada de Olympia, não um caipira de Aberdeen. O preconceito de classe seria algo que ele combateria durante toda a sua vida, porque não importava o quanto se afastasse de Grays Harbor, ele sempre se sentia marcado como um matuto. A maioria dos Greeners era de cidades grandes — como muitos garotos privilegiados da universidade, seu preconceito para com pessoas de comunidades rurais estava em contraste marcante com o libertismo que eles professavam em relação a raças diferentes. A apresentação na Caddyshack acontecia quase exatamente um ano depois da festa em Raymond, e encontrava Kurt num paradigma que ele não esperava: sua banda era avançada demais para Raymond, mas aqui, em Olympia, não era avançada o bastante.
Ele discutiu isso com seus companheiros de banda, esperando
que, se eles parecessem mais sofisticados, seriam levados mais á serio.
Kurt ordenou a Foster que reduzisse sua bateria de doze peças
para seis, e depois partiu para a aparência de Foster: "Você precisa dar um jeito nisso, Dave". Foster replicou, com raiva: "Não é justo fazer gozação comigo como o cara de cabelo curto — eu tenho um emprego. Nós poderíamos pintar o cabelo de verde e ainda pareceríamos caipiras". Apesar do fato de dizer o oposto exato nas entrevistas, Kurt se importava muito com o que as pessoas pensariam dele. Se isso implicasse livrar-se de sua jaqueta Jeans desbotada com o colarinho branco de lã, que agora ficava no armário do seu apartamento, que assim fosse. As roupas de Foster, além do bigode, não eram diferentes das de Kurt dois anos antes, o que pode explicar por que Kurt recebeu a critica em termos tão pessoais. Kurt havia descoberto que o punk rock, além de ser anunciado como um gênero de música libertador, era acompanhado de seus próprios costumes e estilos sociais, e que esses muitas vezes eram mais restritivos que as convenções contra as quais supostamente se rebelavam. Havia um código de vestuário.
Talvez em uma pequena tentativa de deixar para trás seu passado
e as associações que a banda tinha com Aberdeen, Kurt propôs um nome final para o grupo. Foster ouviu pela primeira vez o novo nome quando viu um panfleto na casa de Kurt para o "Nirvana". "O que é isso?", perguntou. "Isso somos nós", replicou Kurt. "Significa conseguir a perfeição" No budismo, nirvana é o lugar alcançado quando a pessoa transcende o ciclo interminável de renascimento e sofrimento humano.
Renunciando ao desejo, seguido o Óctuplo Caminho e mediante a
meditação e a prática espiritual, os crentes trabalhavam para alcançar o nirvana e com isso obtêm a liberdade da dor da vida. Kurt se considerava budista na época, embora sua única prática desta fé fosse ter assistido na televisão a um programa de fim de noite.
Seria sob o nome Nirvana que a banda primeiro ganharia atenção
em Seattle, uma cidade com uma população de meio milhão de pessoas, onde Kurt se convenceu de que sua jaqueta Última Ceia devidamente se encaixaria. Jack Endino havia remixado a sessão do dia 23 de janeiro numa fita cassete que ele passara para alguns de seus amigos. Uma delas foi para Dawn Anderson, que escrevia para a The Rocket e editava o fanzine Backlash: outra foi para Shirley Carlson, que era uma Dj voluntária na KCMU, a emissora de rádio da Universidade de Washington: e uma terceira ele entregou para Jonathan Poneman, co-proprietário da Sub Pop, um selo independente de uma gravadora do noroeste. As três fitas influiriam no futuro do Nirvana. Anderson gostou da fita o bastante para planejar escrever um artigo; Carlson pôs no ar "Floyd The Barber" na KCMU, a primeira audição da música: e Poneman conseguiu o número do telefone de Kurt com Endino. Quando ele ligou, Kurt estava em casa recebendo a visita de Dale Crover.
Era a conversa que Kurt estava esperando durante toda a sua vida.
Mais tarde, ele remodelaria esses acontecimentos para sugerir que a fama chegara sem nenhuma estocada de sua parte, mas isto não podia estar mais longe da verdade. No instante em que recebeu a demo, ele começou a fazer cópias e a enviá-las para gravadores em todo o país, fazendo sondagens para um contrato. Enviou longas cartas manuscritas para todas as gravadoras que ele conseguia imaginar; o fato de que não tivesse pensado na Sub Pop era apenas uma indicação do baixo status da gravadora. Kurt estava mais interessado em ser da SST ou da Touch and Go. Greg Ginn, um dos proprietários da SST e membro da banda Black Flag, lembra de ter recebido aquela primeira fita demo pelo correio: "Minha opinião era que eles não eram assim tão originais, que eram regularmente alternativos. A banda não era ruim, mas também não era sensacional". Embora Kurt tivesse enviado dezenas de demos para a Touch And Go durante o ano de 1988, e chegasse até a chamar essas canções de "As demos da Touch and Go" em seu caderno, a fita despertou tão pequena impressão que ninguém na gravadora se lembra de tê-las recebido.
A fita causou furor maior em Poneman, que a levou a seu sócio
Bruce Pavitt em seu emprego diurno — na Muzak Corporation, a empresa de músicas para elevador. A sala de reprodução de fitas da Muzak era, curiosamente, o emprego diurno predileto de muitos membros da elite do rock de Seattle, e Poneman fez uma audição da fita para os presentes, entre os quais Mark Arm, do Mudhoney. Eles lhe deram o polegar abaixado, com Arm desqualificando o grupo como "similar ao Skin Yard, mas não tão bom". No entanto, Poneman conseguiu marcar o Nirvana no final de uma programação em um pequeno clube de Seattle chamado Vogue, para um dos shows mensais "Sub Pop Sunday" da gravadora. Esses shows com couvert a dois dólares apresentavam três bandas, embora a programação de cerveja fosse uma parte tão grande da atração quanto a música. Poneman perguntou se o Nirvana podia tocar no Vogue no último domingo de abril. Kurt, tentando não aparecer entusiasmado demais, rapidamente disse sim.
O Vogue era um clube minúsculo na First Avenue de Seattle, mais
conhecido por seu bartender travesti. Numa administração anterior, o clube tinha tido uma vida breve como clube New Wave e, antes disso, um bar de motoqueiros gays. Em 1988, a maior atração era a noite da discoteca e a isca da promoção de cerveja era do tipo três garrafas de "Beer Beer" por três dólares.
Nesse sentido, o Vogue refletia a condição geralmente pobre do
cenário de clubes noturnos de Seattle na época, onde havia poucos locais para bandas novas tocarem. Como escreveu Pavitt na The Rocket em dezembro de 1987: "Apesar da desesperada necessidade de um bom clube, Seattle raramente tem visto muitas bandas". O Vogue não tinha um cheiro de urina tão forte quanto o Community World, mas sim um tênue aroma de baunilha, resquício das muitas ampolas de vasodilatadores esmagadas no chão durante a noite de dança.
Apesar disso, Kurt Cobain não via a hora de entrar nesse palco.
Como idosos que têm hora marcada no dentista, a banda se certificou de chegar cedo para este importantíssimo Show — chegando quatro horas antes da hora do show. Sem nada para fazer e conhecendo pouca gente na cidade, ficaram rodando de carro a esmo.
Antes da passagem do som, Kurt vomitou no estacionamento
próximo ao local. "Foi só porque ele estava nervoso", lembra Foster. "Ele não estava bebendo". Antes de serem chamados ao palco, eles tinham de esperar na van — Foster ainda era menor de idade.
Quando chegou a hora de tocar, na descrição de Foster, Kurt ficou
"muito tenso". Quando subiram ao palco, ficaram surpresos de ver uma platéia tão pequena como a de seus habituais shows na CWT. "Raramente havia alguém lá", lembrou a Dj Shirley Carlson. "As poucas pessoas que estavam lá conheciam Tracy ou Kurt das festas, ou tinham ouvido a fita. Nós nem sequer sabíamos quem cantava." Na melhor das hipóteses foi uma apresentação opaca. "Realmente não pisamos na bola", lembra Foster, "Isto é, não tivemos de parar na metade da música. Mas foi muito constrangedor, porque sabíamos que aquilo era para conseguir um contrato de gravação." Eles tocaram catorze músicas sem bis, começando com "Love Buzz", que não era uma música comum na época. Kurt achou prudente colocar o melhor material primeiro, no caso de as pessoas saírem.
Parte da platéia de fato saiu e Carlson foi uma das poucas que
tinha algo de bom a dizer sobre a banda, comparando-a ao Cheap Trick: "Lembro-me de ter pensado que não só Kurt podia cantar e tocar guitarra, embora em conjunto não muito bem, mas ele tinha uma voz nitidamente tipo Robin Zander". A maioria dos membros do Establishment do rock de Seattle considerou a banda uma droga. O fotógrafo Charles Peterson ficou tão desinteressado que não gastou nenhum filme com eles e questionou Poneman sobre a sensatez de contratar o grupo.
Talvez o critico mais duro do desempenho da banda, como sempre,
fosse o próprio Kurt. Quando o fotógrafo Rich Hansen fotografou a banda depois do show, Kurt, agora afagando um drinque, gritou: "Nós fomos um fiasco!". "Eles foram muito autocríticos de sua apresentação", lembra Hansen. "Parece que houve certa discussão em torno de que eles tivessem perdido alguns acordes. Fiquei impressionado por ver como eles eram verdes. Havia neles uma ingenuidade absoluta."
As fotos feitas por Hansen naquela noite fornecem muitas
indicações sobre a aparência de show esquisito do grupo. Krist, com dois metros de altura, parece um gigante ao lado de Kurt e Foster; ele tem costeletas longas e encaracoladas, cabelo a meia altura da cabeça. Foster, com apenas 1,64 metros, chega á altura do peito de Krist e usa o tipo de roupa sobre a qual Kurt devia lhe ter dado uma aula: jeans desbotado, camiseta com um perfil de montanha em Silkscreen e um boné de beisebol virado para trás com um logotipo da cerveja Corona. Ele está olhando para o vazio, talvez lembrando que precisa estar no trabalho até ás sete daquela manhã. Kurt, que Hansen convenceu a sentar-se no joelho de Krist para algumas tomadas, veste jeans, uma camisa cinza virada do avesso e um suéter escuro. O cabelo louro crescido mais de sete centímetros abaixo do ombro. Com a barba de cinco dias por fazer, ele exibe uma surpreendente semelhança com certos retratos de Jesus Cristo. Até a expressão de Kurt em uma das fotos — um olhar dolorido e distante, como se estivesse marcando este momento no tempo — é semelhante á imagem de Cristo em A Ultima Ceia de Leonardo da Vinci.
Na volta para casa, Kurt discutiu o show como o primeiro
verdadeiro revés da banda e jurou que nunca mais ficariam tão embaraçados novamente.
Chegaram a suas casas apenas ás quatro da manhã, e no longo
trajeto Kurt exortou seus parceiros de banda e a si mesmo que praticariam mais, comporiam novas canções e não mais fracassariam. Mas quando Poneman ligou para ele dois dias depois e sugeriu que gravassem um disco juntos, ás próprias lembranças de Kurt sobre o show mudaram de repente. Duas semanas depois, Kurt escreveu uma carta para Dale Crover que tinha como cabeçalho; "Ah, e nosso nome final é Nirvana". O objetivo da carta era gabar-se e, ao mesmo tempo, procurar conselho. Foi uma das muitas cartas que ele escreveu, mas que nunca enviou, e seu conteúdo descreve em detalhe as partes da noite que ele estava escolhendo lembrar e as partes que ele havia escolhido esquecer ou reconstruir segundo seu gosto. Na íntegra, ele escrevia:
Então, nos últimos dois meses, nossa demo foi pirateada, gravada
e discutida entre todos os notáveis do cenário de Seattle. E o cara, Jonathan Poneman (lembra-se do cara que me ligou quando você estava lá no ultimo dia?), o Sr. Dinheirão de Herança, braço direito de Bruce Pavitt e também investigador financeiro da Sub Pop Records, conseguiu um show para nós no Vogue em um Sub Pop Sunday. Grande coisa! Mas eu acho que a badalação e ser regularmente tocado na KCMU provavelmente ajudou. A quantidade de pessoas que vieram nos JULGAR não para estar num bar, ficar bêbado, ver algumas bandas e se divertir, mas apenas observar o evento da mostra. Uma hora. Havia ali um representante de cada banda de Seattle, só assistindo, sentimo-nos com se eles tivessem ficha de notas. E assim, depois da apresentação, Bruce aperta entusiasmado nossa mãos e diz: "Uau, bom trabalho, vamos gravar um disco" e ai os flashes das câmeras espoucam e a garota do Backlash diz: "Puxa, podemos fazer uma entrevista?", sim, claro, porque não? E ai as pessoas dizem bom trabalho, caras, vocês são geniais e agora o que se espera e que sejamos completos socialites, conhecendo gente, apresentado etc.
DROGA, ESTOU NO COLÉGIO DE NOVO! Quero voltar para
Aberdeen. Ora, Olympia é tão chata quanto, e posso dizer orgulhosamente que só estive no Smithfield [Café] cerca de cinco vezes neste ano. E assim, por causa desse evento zoneando, pelo menos conseguimos um contrato para um single com três músicas a ser lançado no final de agosto e um EP em setembro ou outubro. Tentaremos convencê-los a fazer um LP. Agora Jonathan é nosso empresário, consegue shows distantes para nós, no Oregon e um Vancouver. Ele está pagando todos os custos de gravação e distribuição e agora não precisamos ter contas telefônicas absurdas. Dave está se saindo bem. Em algum momento do ano que vem, a Sup Pop fará uma caravana de duas ou três bandas de Seattle para uma turnê. Isso mesmo, veremos. Pelas nossas experiências passadas, você acha que seria prudente exigir recibos para as despesas de gravação e prensagem? Mas chega de discos. Ah, só que uma noite do Mês Passado, Chris e eu tomamos um ácido e estávamos assistindo ao late Show (roubado de Johnny Carson) e Paul Revere e os Raiders estavam lá. Eles estavam tão estúpidos! Dançando de bigodes tentando parecer cômicos e patetas. Aquilo realmente nos encheu o saco e eu perguntei a Chris: Você tem discos do Paul Revere e dos Raiders?
Mesmo nessa primeira fase de sua carreira, Kurt já havia
começado o processo de recontar sua própria história de uma maneira que formava um eu distinto. Ele estava iniciando a criação de seu personagem maior, o mítico "Kurdt Kobain", como passara a grafar seu nome. Ele conjugaria esse fantasma cuidadosamente refinado quando precisasse se distanciar de suas próprias ações ou circunstâncias. Ele exagerava cada aspecto de um show que, por sua própria confissão, fracassara: a platéia era pequena demais para que ali estivesse "um representante de cada banda de Seattle"; os flashes das câmeras eram principalmente metafóricos, já que Hansen apenas tirou umas duas fotos. Ao descrever os chefes da Sub Pop chegando até ele, Kurt até tenta retratar como um participante involuntário de seu próprio sucesso. Mas ele era um ator estreante nesse momento e admite que pretendia "convencer [a Sub Pop] a gravar" um disco inteiro. Vale notar que praticamente todas as expectativas comerciais que Kurt tinha em relação á Sub Pop, pelo menos no curto prazo, não foram realizadas.