Mais Pesado Que o Céu

Charles R. Cross · Capítulo 3 de 23

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Mais Pesado Que o Céu

Julho de 1979-Março de 1982

ALMÔNDEGA DO MÊS

Montesano, Washington

Julho de 1979-Março de 1982

Sua comida e Bebida favorita são pizza e a coca-cola.

Seu dito predileto é "desculpe-se".

De um perfil no Puppy Press

 

EM SETEMBRO DE 1979, Kurt começou a sétima série no colégio

Montesano. Foi um marco importante e a escola começou a assumir um papel maior em sua vida. Ele começara a ter aulas de música na quinta série e, na sétima, estava tocando bateria com a banda da escola, um feito que ele procurava desdenhar diante de seus amigos embora o saboreasse. A maior parte do que estudava e praticava era de banda marcial ou bateria para pequenos conjuntos, aprendendo a tocar tambor e surdo para canções como "Louie, Louie" e "Tequila". A banda de Monte raramente desfilava — quase sempre tocava em reuniões sociais ou jogos de basquete —, mas Kurt era presença constante em todo os eventos em que ela se apresentasse.

O regente da banda, Tim Nelson, lembra-se dele como um "aluno

de música regular, comum. Ele não era extraordinário, mas também não era sofrível". Kurt foi retratado naquele ano no anuário "Sylvan" de Montesano tocando tambor numa convenção. tinha cabelo comprido até os ombros e parecia um pouco com Brad Pitt mais jovem. Suas roupas tendiam para as de um aluno de escola preparatória para a universidade — o traje típico incluía jeans boca-de-sino, uma camisa de manga comprida listrada e tênis Nike. Ele se vestia como qualquer outro menino de doze anos, embora fosse ligeiramente baixo e pequeno para sua idade.

Sendo um dos meninos mais populares da escola, foi escolhido

para ter seu perfil descrito na edição de 26 de outubro de 1979 do jornal estudantil mimeografado, o Puppy Press. O artigo tinha como cabeçalho "Meatball of The Month" ["Almôndega do Mês"] e dizia: Kurt está na sétima série de nossa escola. Tem cabelos louros e olhos azuis. Ele acha que a escola é legal. A aula favorita de Kurt é a de banda e seu professor predileto é o senhor Hepp. Sua comida e bebida favorita são pizza e a coca-cola.

Seu dito favorito e "desculpe-se [excuse you]". Sua canção favorita

é "Don't Bring Me Down", do E.L.O., e seu grupo de rock favorito, o Meatloaf. Seu programa de tevê favorito é táxi e seu ator favorito, Burt Reynolds.

O "excuse you" era a versão de Kurt para o "excuse me" de Steve

Martin. Isto condizia com seu senso de humor torto e sarcástico, que implicava a transposição de frases ou a formulação de perguntas retóricas absurdas- imagine-se um Andy Rooney adolescente. Exemplo típico dessas brincadeiras foi quando ele gritou para um Bombeiro; "Como é que você pode estragar um incêndio tão perfeito fazendo fumaça?". Sendo um menino pequeno, seu método de sobrevivência dentro da cultura masculina adolescente era sair dos conflitos com piadas e menosprezar os atormentadores com seu intelecto superior.

Kurt via televisão sem parar. Esta era uma briga constante com

Don e Jenny; eles queriam limitar suas horas diante da tela, mas ele suplicava e gritava para ver mais. Quando lhe era recusada essa liberdade, ele simplesmente visitava seu melhor amigo, Rod Marsh, que morava a uma quadra de distância, e via televisão lá. Embora Saturday Night Live passasse depois da sua hora de dormir, ele raramente perdia o programa da semana e, na segunda-feira seguinte, imitava na escola os melhores esquetes. Fazia também uma personificação perversa de Latka, o personagem de Andy Kaufman em Táxi.

No verão anterior, Kurt havia saído da liga Mirim, mas quando

chegou o inverno ele entrou para a equipe júnior de luta romana do colégio, o que agradou seu pai. Don assistia a todas as lutas e constantemente perguntava a kurt como ele estava saindo. O treinador era Kinichi Kanno, o professor de arte de Monte, e Kurt entrou para a equipe tanto para passar mais tempo com Kanno como para lutar. Em Kanno, Kurt encontrava um modelo de papel masculino que incentivava sua criatividade e tornou-se o aluno predileto do professor. Um dos desenhos de Kurt foi reproduzido na capa do Puppy Press naquele Halloween, mostrava um buldogue, o mascote de Montesano esvaziando um saco de doce-ou-travessura sobre uma casa de cachorro. Num toque típico dos Cobain, ele escondia uma lata de cerveja entre os doces. Para um cartão de Natal daquele ano, Kurt desenhou um retrato a bico-de-penas de um menininho que estava tentando pescar mas que havia prendido o anzol em suas costas — era tão bom quanto az maioria dos cartões da Hallmark.

Conforme rememora a colega de classe Nikki Clark, o trabalho de

Kurt era "sempre muito bom. Kanno nunca precisava ajudá-lo, já que ele parecia ser um aluno avançado". Mesmo quando não estava na aula de arte, lembra Clark, Kurt nunca estava longe de uma caneta: "Ele não parava de rabiscar nas aulas".

Seus rabiscos eram principalmente de carros, caminhões e

guitarras, mas ele também começou a elaborar sua própria pornografia crua. "Uma vez ele me mostrou um esboço que ele havia desenhado", conta o colega de classe Bill Burghardt, "e era uma imagem totalmente realista de uma vagina. Eu lhe perguntei: "O que é isto", e ele riu". Na época, Kurt ainda não tinha visto uma vagina de perto, exceto em livros ou em revistas para adultos que os meninos trocavam entre si.

Outra especialidade sua era Satã, uma figura que ele rascunhava

em seu caderno todas as aulas.

Roni Toyra foi namorada de Kurt na sétima série, mas foi uma

primeira paixão inocente que não chegou a ficar séria. Ele lhe deu uma amostra de sua arte para selar a união. "Havia meninos na escola que eram claramente perturbados ou párias, mas ele não era um deles", disse ela. "Acho que a única coisa diferente era que ele parecia mais quieto do que a maioria dos meninos. Não era anti-social, era apenas quieto".

Em casa, ele era tudo menos quieto, queixando-se ferozmente

sobre o que ele considerava tratamento injusto por parte de Don ou Jenny. São poucos os segundos casamento, em que os cônjuges já têm filhos, que se ajustam perfeitamente, mas este estava sempre em terreno delicado e questões de favoritismo e justiça assombravam a família. As queixas de Kurt normalmente resultavam em discussões entre Don e Jenny ou aumentavam entre seus pais o rancor, que continuava a fermentar em torno de questões de visitação e sustento dos filhos. Don se queixava de que Wendy mandava Kim telefonar quando o seu cheque da pensão estava com um dia de atraso. Por volta do final da sétima série, a enfermeira da escola ligou e disse que as medidas de Kurt estavam no que eles consideravam limite para escoliose ou curvatura da coluna vertebral. Don e Jenny levaram Kurt a um médico e, após um exame completo, o médico concluiu que Kurt não sofria da síndrome — ele simplesmente tinha braços mais compridos do que a maioria dos meninos do seu tamanho, o que fazia as medidas originais parecerem desviadas.

Mas isto não tranqüilizou Wendy. Através do sistema de

comunicação da família — que se assemelhava a uma versão piorada do jogo do telefone sem fio das crianças —, ela ficara sabendo que Kurt tinha escoliose. Ficou chocada por Don não estar alarmado e Kurt não estar com o corpo inteiro engessado. Kurt decidiu acreditar no diagnóstico de sua mãe e, anos mais tarde, afirmou que teve "uma pequena escoliose no começo do colegial". Embora sua declaração esteja em conflito com os fatos, Kurt a usou como mais um exemplo de como seu pai fracassara com ele.

Como muitos filhos do divórcio, Kurt tornou-se mestre em jogar

um pai contra outro. Em 1980, Wendy estava trabalhando em Monte no gabinete do Juiz de Paz do condado e Kurt freqüentemente a visitava depois da escola, quando nada, para relatar alguma nova tortura que lhe era imposta por Don ou Jenny. Quando as coisas pioraram para Kurt em Monte, ele esperou que Wendy o aceitasse de volta.

Mas, na época, sua mãe estava com seus próprios problemas com

Frank Franich. Ela disse a Kim que receava que se Kurt presenciasse a situação anormal em sua casa ele se tornaria Gay. Anos depois, quando Kurt trouxe o assunto á baila com Wendy e Kim, sua mãe lhe disse: "Kurt, você nem imagina como era. Você teria acabado no reformatório ou na prisão". Uma das repetidas queixas de Kurt para Wendy era que os filhos de Jenny eram favorecidos na casa. Quando o ex-marido de Jenny dava presentes para Mindy e James, Kurt sentia ciúme. Kurt imaginava que toda disciplina lhe era imposta porque ele não era filho biológico de Jenny. Dizia a seus amigos que odiava Jenny, queixava-se de sua comida e afirmava que ela racionava a quantidade de refrigerante que lhe era permitido tomar. Ele afirmava que Jenny conseguia "ouvir uma lata de Pepsi sendo aberta a três cômodos de distância" e no almoço lhe era permitidos "apenas duas fatias de presunto Garl Budding por sanduíche e dois Biscoitos da Vovó".

Leland Cobain fez um sermão a Don sobre o que ele também

considerava um preconceito contra Kurt: "Havendo frutas na mesa, Mindy ou James podiam apanhar uma maçã e simplesmente começar a comê-la. Kurt ia fazer o mesmo e Donnie ralhava com ele por causa disso". Leland imagina que Don tinha tanto medo que Jenny o abandonasse, como Wendy o fez, que ele ficava do lado de Jenny e dos filhos dela. Don admite que a disciplina era um problema maior com Kurt do que com os filhos de Jenny, mas argumenta que isto se devia á personalidade de Kurt e não a favoritismo. Mas Don realmente receava que Jenny o abandonasse se Kurt se tornasse encrenqueiro demais: "Eu receava que aquilo chegaria a ponto do ou ele vai embora ou ela vai embora, e eu não queria perdê-la".

O relacionamento de Kurt com seus irmãos e meio-irmãos se

tornou mais equilibrado quando ele ficou mais velho. Adorava seu meio-irmão Chad porque gostava de bebês. Batia em Mindy, mas ocasionalmente, quando não havia aula, passava o dia brincando com ela. Entretanto, quando os colegas de Kurt mencionava sua família — vários de seus amigos achavam Mindy graciosa —, ele se apressava a corrigi-los se a chamassem de sua "irmã". Ele descrevia Mindy para seus amigos como "minha irmã, não — a filha da nova mulher do meu pai", dizendo essas palavras como se Mindy fosse alguma tortura que o obrigassem a suportar.

Ele e James se davam melhor, talvez porque Kurt nunca fosse

encoberto pela sombra do menino mais novo. Quando outro menino batia em James, que era o rebatedor em um dos times de beisebol de Kurt, ele interferia e ameaçava o agressor. Eles também compartilhavam o mesmo interesse por filmes. No verão, a família ia a um drive-in com duas telas, Don e Jenny iam cada um com um carro, depois deixavam um deles estacionado com os meninos defronte a um filme de censura livre, enquanto assistiam a uma fita mais adulta na outra tela. Kurt ensinou James que, em lugar de se sentar para ver outra comédia de Don Knotts, eles podiam ir até o banheiro e ver uma coisa mais adulta — como Heavy Metal, que Kurt adorava — ficando em pé do lado de fora do terreno. Kurt gostava de contar filmes que ele já havia assistido para seu meio-irmão mais novo. Assistira a Contatos imediatos do terceiro grau no ano anterior e era capaz de recitar todos os diálogos do filme. "Ele costumava brincar com seu purê de batatas no jantar e lhe dar a forma da montanha do filme", lembra James.

Em 1981, aos catorze anos de idade, Kurt começou a fazer seus

próprios filmes curtos, usando a câmera super-8 de seus pais. Uma de suas primeiras produções foi uma elaborada imitação de Guerra dos Mundos de Orson Welles, que mostrava alienígenas — Interpretados por figuras que Kurt modelou com argila — aterrisando no quintal dos Cobain. Ele mostrou o filme dos alienígenas a James numa tentativa infrutífera de convencer o menino mais novo de que a casa deles tinha sido invadida. Outro filme que fez em 1982 mostra um lado bem mais obscuro de sua psique: ele o intitulou Kurt comete suicídio sangrento e, no filme, Kurt, representando diante de uma câmera conduzida por James, finge talhar os pulsos com a borda de uma lata de refrigerantes cortada pela metade. O filme tem efeitos especiais, sangue falso, e Kurt interpreta dramaticamente a cena final de sua própria morte de um modo que ele deve ter visto em filmes mudos.

Esse filme horripilante simplesmente adicionou munição ás

preocupações que seus pais já tinham sobre as trevas que viam dentro dele. "Havia alguma coisa errada", afirma Jenny, "alguma coisa errada com seu processo de pensamento já desde o início, alguma coisa desequilibrada". Ele conseguia discutir calmamente os tipos de acontecimentos que produziam pesadelos na maioria dos jovens: assassinato, estupro, suicídio. Kurt não foi o único adolescente na história a falar em auto-imolação, mas seus amigos achavam bizarra a maneira descuidada com que brincava com isso. Um dia, ele e John Fields estavam indo da escola para casa quando Fields lhe disse que ele deveria ser um artista, mas Kurt anunciou despreocupadamente que tinha outros planos: "Vou ser um superastro da música, me matar e me apagar numa chama de glória", disse ele, "Kurt esta é a coisa mais estúpida que já ouvi — não fale assim", replicou Fields. Mas Kurt continuou, inflexível: "Não, eu quero ser rico e famoso e me matar como Jimi Hendrix".

Nenhum menino sabia na época que a morte de Hendrix não fora

suicídio. Fields não foi o único amigo de Kurt em Monte que contou essa historia — meia dúzia de outros conhecidos contam versões semelhantes da mesma conversa, sempre com o mesmo final sinistro.

Kurt falar com indiferença sobre o suicídio, aos catorze anos, não

surpreendia ninguém na família. Dois anos antes, o tio-avô de Kurt, Burle Cobain, 66 anos, e irmão mais velho de leland, havia usado uma pistola calibre 38 de cano curto para se balear no estômago e na cabeça. Fora Leland quem encontrava o corpo.

Houve alegações de que Burle estava prestes a ser acusado de

agressão sexual.

Burle não era tão próximo da família como outros tios, mas Kurt

falava incessantemente a respeito disso com seus amigos. Ele brincava que seu tio havia "se matado por causa da morte de Jim Morrison", embora Morrison tivesse morrido uma década antes. o que para Kurt era uma piada, para Leland foi um golpe devastador. Um ano antes do suicídio de Burle, em 1978, Ernest, outro irmão de Leland, havia morrido de uma derrame cerebral. Embora a morte de Ernest aos 57 anos de idade não fosse taxada oficialmente de suicídio, ocorrera depois de ele ter sido advertido de que morreria se continuasse bebendo. Ele insistiu e acabou caindo numa escada, provocando o aneurisma que o matou.

Não foram estas as únicas mortes que afetaram Kurt. Quando ele

estava na oitava série, um menino de Montesano se enforcou do lado de fora de uma das escolas elementares. Kurt conhecia o menino; era irmão de Bill Burghradt. Kurt, Burgahardt e Rod Marsh encontraram o corpo pendurado em a uma árvore enquanto caminhavam para a escola e ficaram olhando para ele durante meia hora até que os funcionários da escola finalmente os afastaram dali. "Foi a coisa mais grotesca que já vi em minha vida", lembra Marsh. A partir da historia da própria família e desse incidente, o suicídio se tornou um conceito e uma palavra que não mais seria indecente para Kurt. Em vez disso simplesmente fazia parte de seu ambiente, tal como o alcoolismo, a pobreza ou as drogas. Kurt disse a Marsh que tinha "genes de suicida".

Kurt começou a experimentar drogas na oitava série, quando

passou a fumar maconha e tomar LSD. Ele fumava baseados nas festas, depois com os amigos e, por fim, sozinho e diariamente. Quando chegou á nona série, era um retomado maconheiro. A maconha era barata e abundante em Monte — a maioria cultivada em casa —, e ajudava Kurt a esquecer sua vida doméstica. O que começou como um ritual social se tornou seu anestésico favorito.

Na época em que começou a tomar drogas, também passou a

matar aulas regularmente. Quando gazeteava com seus amigos, compravam erva ou roubavam bebida da despensa dos pais de alguém. Mas Kurt começou a cabular as aulas sozinho ou a ir para a escola e sair após o intervalo. Ele encontrava menos seus amigo e parecia alienados de tudo que não fosse sua própria raiva. Trevor Briggs deparou com Kurt sozinho em um parque de Monte em 1980, na véspera do Ano-Novo, sentado num balanço e assobiando ao balançar-se. Trevor convidou Kurt para ir até a casa de seus pais e os dois se chaparam assistindo ao programa de Dick Clark na televisão. O ano terminou com ambos vomitando devido a uma quantidade excessiva de maconha cultivada em casa.

O que dois anos antes parecera um local bucólico para ir a escola

logo se tornou a própria modalidade de prisão de Kurt. Em conversas com seus amigos, ele agora colocava Monte e seus pais na mesma critica severa. Tendo acabado de ler O sol é para todos de Harper lee, declarou que o livro era uma descrição perfeita da cidade. No começo de 1981, um Kurt diferente havia começado a surgir, como mais comumente era o caso; ele passava cada vez mais tempo em isolamento. Na casa da rua Fleet, ele havia se mudado para um quarto de porão reformado. Kurt dizia a seus amigos que considerava a mudança um banimento. Em seu quarto de porão, Kurt passava o tempo com um fliperama que havia ganho de Natal, um aparelho estereofônico que Don e Jenny lhe haviam dado e uma pilha de discos. A discoteca incluía Elton John, Grand Funk Railroad e Boston. O disco favorito de Kurt naquele ano foi Evolution, da Banda Journey.

Seus conflitos com Dom e Jenny haviam chegado a um ponto

decisivo. Todas as tentativas do casal de envolvê-lo com a família fracassaram. Ele começara a boicotar a "noite da família" e, sentido-se internamente abandonado, decidiu abandonar externamente a família. "tínhamos tarefas domésticas para ele, só coisas banais, mas ele não as fazia", lembra Don. "Começamos a tentar suborná-lo com uma mesada, a qual seria cortada caso ele não fizesse determinadas tarefas. Ele se recusava a fazer qualquer coisa. Acabou que ficou nos devendo dinheiro".

Tornava-se violento, batia portas e descia como um louco pelas

escadas. Ele também parecia ter menos amigos. "Notei que alguns de seus amigos estavam desaparecendo", disse Jenny. "Kurt passava mais tempo em casa, mas nem assim ficava conosco. Parecia se tornar bem mais introvertido. Ficava quieto e taciturno." Rod Marsh lembra que Kurt matou o gato de um vizinho naquele ano. Neste incidente de sadismo adolescente — que estaria em contraste chocante com sua vida adulta —, Kurt prendeu o animal ainda vivo na lareira da casa de seus pais e riu quando ele morreu e exalou mau cheiro casa.

Em setembro de 1981, Kurt começou seu ano de calouro no

Colégio Montesano. Naquele outono, em uma tentativa para se ajustar, apresentou-se para o time de futebol. Ele entrou na primeira seleção, a despeito de sua baixa estatura — mais do que qualquer outra coisa, um indicador de como Montesano era uma escola minúscula. Praticou durante duas semanas mas depois desistiu, queixando-se de que era trabalho demais. Naquele ano entrou também para a equipe de atletismo.

Lançou o disco — um feito surpreendente, considerando seu físico

— e correu os 200 metros rasos. Não era, de forma alguma, o melhor atleta da equipe — ele perdia muitos exercícios —, mas era um dos meninos mais rápidos. Estava na foto da equipe para o livro do ano, os olhos compridos contra a luz do sol.

Em fevereiro daquele ano, num momento de inspiração, o tio

Chuck disse a Kurt que ele poderia ganhar uma bicicleta ou uma guitarra elétrica em seu aniversário de catorze anos. Para um menino que desenhava retratos de astros do rock em seu caderno, nem era preciso escolher. Kurt já havia destruído uma cítara havaiana de Don — ele a desmontava para estudar os mecanismos internos. A guitarra que Chuck comprou para ele não era muito melhor: um modelo japonês barato, de segunda mão. Ela quebrava bastante, mas, para Kurt, era o ar que ele respirava.

Sem saber como encordoá-la, ligou para tia Mari e lhe perguntou

se ela era encordoada em ordem alfabética. Quando a fez funcionar, ficou tocando sem parar e levou-a á escola para mostrar aos colegas. "Todos lhe perguntavam sobre ela", lembra trevor Briggs. "Eu o vi com ela na rua e ele me disse: 'Não me peça para tocar nada; ela está quebrada'". — Isso não importava — tratava-se menos de um instrumento do que de uma identidade.

O atletismo também fazia parte de sua identidade; ele continuara

com a luta romana, passando, quando calouro, para a equipe da universidade. O Montesano Bulldogs conquistou o campeonato da liga naquele ano, com um registro de doze vitórias e três derrotas, embora Kurt não desempenhasse um papel nesse esforço.

Ele passaria a evitar mais exercícios e partidas e, na equipe da

universidade, seu tamanho era uma enorme desvantagem. A atitude na equipe de dois anos antes era que a luta era uma maneira divertida de agir com violência; a equipe da universidade, por sua vez, era totalmente séria e as práticas exigiam que ele lutasse com meninos que de pronto o imobilizavam no chão. Ao final da temporada, Kurt posou para o retrato da equipe usando meiões listrados — entre os mastodontes do time, ele parecia mais o treinador do que um membro da equipe. Foi na esteira de luta da universidade que Kurt preparou uma de suas maiores batalhas com o pai. No dia de uma partida do campeonato, como disse Kurt, subiu ao ringue com a intenção de enviar uma mensagem para Don nas arquibancadas.

Conforme Kurt mais tarde o descreveu para Michael Azerrad,

"esperei até que o apito soasse, olhando diretamente para o rosto [de Don] e ai instantaneamente me calei — juntei os braços e deixei o cara me imobilizar". Kurt afirmou que fez isso quatro vezes seguidas, sendo instantaneamente imobilizado em cada uma delas, e Don acabou se afastando desgostoso. Don Cobain garante que a história é falsa; os colegas de Kurt não lembram disso e afirmam que aquele que perdesse intencionalmente teria sido afastado, se não agredido, por seus colegas de equipe. Mas Leland Cobain se lembra que Don lhe contou a historia após a luta, dizendo: "Aquele merdinha simplesmente ali deitado. Não reagiu". Kurt era mestre em exagerar uma lorota de modo a contar uma verdade emocional em lugar de uma verdade objetiva. O que provavelmente aconteceu foi que Kurt teve uma luta contra um oponente melhor e resolveu não reagir, o que foi o bastante para enfurecer o pai perfeccionista. Mas o modo de Kurt contar o caso e sua descrição do olhar trocado entre ele e o pai é prova do quanto o relacionamento entre os dois havia se deteriorado nos seis anos após o divorcio. Outrora, eles haviam passado cada hora de folga juntos e , no dia em que Don comprou a minimoto, Kurt jamais avia amado ninguém mais do que ao pai. Logo adiante na rua do Colégio Montesano ficava um restaurante onde costumavam ir juntos — apenas os dois, uma entidade singular, uma família — e jantar em silêncio, unidos em sua solidão; um garotinho que não desejava mais do que passar o resto da vida com o pai, em um pai que apenas queria alguém que o amasse com um amor que não desaparecesse.

Mas, seis anos depois, pai e filho estavam travados em uma luta

romana de vontades e, como todas as grandes tragédias, nenhum dos combatentes achava que podia se dar ao luxo de perder. Kurt precisava desesperadamente de um pai e Don precisava ser querido por seu filho, mas nenhum dos dois admitia isso.

Era uma tragédia de proporções Shakespearianas; não importa o

quanto Kurt se afastasse do tablado da luta: pelo canto do olho, estava sempre olhando diretamente para seu pai, ou — para ser mais exato, já que o relacionamento com o pai estava praticamente morto para ele depois desse ponto — olhando para o fantasma de seu pai. Quase uma década depois de sua derrota de calouro na luta romana, Kurt dispararia uma letra amarga em uma canção intituladas "Serve the Servants", sendo as palavras ainda outro golpe em seu interminável round com seu maior oponente: "Tentei muito ter um pai, mas, em vez disso, eu tinha um papai".