Mais Pesado Que o Céu

Charles R. Cross · Capítulo 2 de 23

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Mais Pesado Que o Céu

Gritando Alto no Começo

Aberdeen, Washington,

Fevereiro de 1967-Dezembro de 1973

"Ele dá a conhecer seus desejos gritando alto no começo, depois

chorando, se a primeira técnica não funcionar".

Trecho de um relato feito pela tia de Kurt Cobain quando ele tinha quinze

meses de vida.

 

KURT DONALD COBAIN nasceu no dia 20 de fevereiro de 1967,

num hospital em uma colina que dá vista para Aberdeen, estado de Washington. Seus pais moravam na vizinha Hoquiam, mas era adequado que Aberdeen ficasse como local de nascimento de kurt — ele passaria três quartos de sua existência no raio de dezesseis quilômetros do hospital e estaria para sempre ligado profundamente a esta paisagem. Quem quer que olhasse do Hospital Comunitário Grays Harbor naquela segunda-feira chuvosa teria visto uma terra de beleza rude, onde florestas, montanhas, rios e um oceano poderoso se cruzavam numa vista magnífica.

Montes arborizados circundavam a interseção de três rios que

desembocavam no oceano pacífico não muito distante dali. No cento de tudo isto estava aberdeen, a maior cidade no condado de Grays Harbor, com uma população de 19 mil habitantes. imediatamente a oeste ficava a menor Hoquiam, onde os pais de kurt, Don e Wendy, moravam em um minúsculo bangalô.

E ao sul, depois do rio Chehalis, ficava Cosmopolis, de onde era a

família de sua mãe, os Fradenburg. Num dia sem chuva — raro na região que recebia uma precipitação de mais de duzentos centímetros cúbicos de água por ano — podia-se ver os quase quinze quilômetros até Montesano, onde crescera Leland Cobain, avô de kurt. Era um mundo bem pequeno, com tão poucos graus de separação que kurt acabaria se tornando o mais famoso produtor de Aberdeen.

A vista do Hospital de três Andares Era dominado pelo sexto porto

de maior movimento na Costa Oeste. Havia tantas peças de madeira flutuando no Chehalis que dava para imaginar utiliza-las para atravessar os mais três quilômetros da foz. A leste ficava o centro de Aberdeen, onde os comerciantes se queixavam de que o barulho constante dos caminhões de madeira espantava os clientes. Era uma cidade que trabalhava e esse trabalho dependia quase totalmente da transformação comercial dos pinheiros das colinas circundantes. Aberdeen abrigava 37 estabelecimentos madeireiros diferentes, desde simples serrarias até usinas de produção e polpa — suas chaminés chegavam a fazer parecer pequeno o prédio mais alto da cidade, que tinha apenas sete andares. logo abaixo do hospital na colina ficava a gigantesca chaminé da Usina Rayonier, a maior torre de todas, que se elevava a mais de 45 metros de altura e vomitava uma interminável nuvem celestial de efluentes de polpa de madeira.

Porém, enquanto Aberdeen zumbia em movimento na época do

nascimento de kurt, sua economia estava lentamente se encolhendo. O condado era um dos poucos no estado com uma população em declínio, já que os desempregados iam tentar a sorte em outros lugares. a indústria madeireira começara a sofrer as conseqüências da competição estrangeira e da superexploração florestal. A paisagem já mostrava sinais claros desse desgaste: havia faixas de floresta derrubadas nos arredores da cidade, agora simplesmente um lembrete dos primeiros colonos que haviam "tentado cortar tudo", como diz o titulo de um livro sobre a historia local. O desemprego cobrava da comunidade um preço social mais pesado, na forma de aumento do alcoolismo, violência domestica e suicídio. havia 27 bares em 1967 e o centro da cidade incluía muitos prédios abandonados, alguns dos quais haviam sido bordéis antes de serem fechados no final dos anos 50. A cidade tinha tamanha má fama pelos prostíbulos que, em 1952, a revista look a chamou de "um dos pontos quentes na batalha americana contra o pecado".

No entanto, o malogro urbano do centro de Aberdeen era

compensado por uma comunidade social de vínculos estreitos onde vizinhos ajudavam vizinhos, pais se envolviam nas escolas e os laços familiares permaneciam fortes entre uma população diversificada de imigrantes. As igrejas somavam maior numero que os bares e eram lugares onde, como muitas cidade pequenas americanas de meados dos anos 60, as crianças de bicicleta tinham rédeas soltas em seus bairros. A cidade inteira se tornaria o quintal de kurt em sua infância.

Como a maioria dos primogênitos, o nascimento de Kurt foi

celebrado tanto por seus pais como por toda a família. Ele tinha seis tias e tios pelo lado da mãe, e dois tios pelo lado do pai e era o primeiro neto de ambas as famílias.

Eram famílias grandes, e, Quando a mãe de kurt foi imprimir os

anúncios do nascimento, gastou cinqüenta deles só para os parentes mais próximos. Uma linha na coluna de nascimentos do Aberdeen Daily Word no dia 23 de fevereiro registrava a chegada de kurt para o resto do mundo: "Para o sr. e sra. Donald Cobain, avenida Aberdeen, 2830, Hoquiam, dia 20 de fevereiro, no Hospital Comunitário,um filho".

Kurt pesava três quilos e quatrocentos gramas ao nascer e seu

cabelo e a cor de pele eram escuros. Dentro de cinco meses, seu cabelo de bebê se tornaria louro e seu tom de pele passaria a ser claro. A família de seu pai tinha raízes francesas e irlandesas — haviam imigrado de Skey Townland em Country Tyrone, Irlanda, em 1875 — e Kurt herdou seu Queixo anguloso desse lado da família, dos Fradenburg do lado de sua mãe — que eram alemães, irlandeses e ingleses —, kurt ganho bochechas rosadas e cachos louros, mas seu traço mais marcante era, de longe, seus notáveis olhos azul-celeste; até as enfermeiras no hospital comentavam sobre a beleza de seus olhos.

Eram os anos 60, uma guerra avançava no Vietnã, mas exceto a

ocasional divulgação de noticias, Aberdeen se parecia mais com os Estados Unidos dos anos 50. No dia em que kurt nasceu, o Aberdeen Daily Word destacava a grande noticia de uma vitória americana na cidade de Quang ngai ao lado de matérias sobre o porte da extração de madeira e anúncios da JcPenney, onde uma venda do dia do aniversario de Washington oferecia camisa de flanela a 2,48 dólares. Quem tem medo de Virgínia Woolf? tinha recebido treze indicações para o Oscar da Academia em Los Angeles naquela tarde, mas o drive-in de Aberdeen estava exibindo Girls on the Beach.

Aos 21 anos de idade, o pai de kurt, Don, trabalhava como

mecânico no posto de serviços da chevron em Hoquiam. Don era bonitão e forte, mas, com seu corte de cabelo curto e penteado para o lado e seus óculos estilo Buddy Holly tinha um certo ar ridículo. Aos 19 anos, Wendy, a mãe de kurt, ao contrario, era uma beleza clássica que parecia e se vestia um pouco como Márcia Brady. O casal havia se conhecido no colegial, onde Wendy tinha o apelido de "Brisa".

No Mês de junho do ano anterior, poucas semanas depois da sua

formatura no colegial, Wendy engravidou, Don pediu emprestado o sedan de seu pai e inventou uma desculpa para que os dois pudessem viajar até Idaho, e se casar sem o consentimento dos pais.

Na época do nascimento de kurt, o jovem casal estava morando em

uma casa minúscula no quintal de outra casa em Hoquiam. Don trabalhava até tarde no posto de serviços enquanto Wendy cuidava do bebê. Kurt dormia num moisés branco de vime com um anteparo amarelo brilhante no alto. O dinheiro era curto, mas, poucas semanas depois do nascimento, eles conseguiram poupar o bastante para deixar a minúscula casa e se mudar para uma maior na avenida Aberdeen, 2830. "O aluguel", contou Don, "era de apenas cinco dólares a mais por mês, mas, naquele tempo, cinco dólares era um bocado de dinheiro."

Se houve um presságio de problemas em casa, este começou em

torno das finanças.

Embora Don tivesse sido designado como o "principal" na chevron

no início de 1968, seu salário era de apenas 6 mil dólares anuais.A maioria de seus vizinho e amigos trabalhava na indústria madeireira, onde os empregos eram fisicamente exigentes — uma pesquisa descrevia a profissão como "mais mortal do que a guerra" — mas com retornos salariais maiores. Os Cobain procuravam a duras penas se manter no orçamento, embora, quando se tratava de kurt, procurassem garantir que ele estivesse bem-vestido e até pagavam profissionais para fazerem fotos dele. Em uma série de retratos desta época, kurt está trajando camisa branca, gravata preta e ternos cinza, parecendo O Pequeno Lorde — ele ainda tinha as bochechas gordas e roliças de bebê.Em outra, ele veste colete e paletó azuis e um chapéu mais adequando a Phillip Marlowe do que a um menino de um ano e meio.

Em maio de 1968, quando Kurt estava com quinze meses de vida,

Mari a irmã de catorze anos de Wendy, escreveu um trabalho sobre seu sobrinho para o seu curso de economia doméstica. "Sua mãe cuida dele a maior parte do tempo", escreveu Mari "[Ela] demonstra seu afeto carregando-o, fazendo-lhe elogios quando ele merece e participando em muitas de suas atividades. Ele responde ao seu pai porque, ao vê-lo, ele sorri e gosta que seu pai o carregue. Ele deu a conhecer seus desejos gritando alto no começo, depois chorando, se a primeira técnica não funcionar. Mari registrou que a brincadeira favorita dele era um adulto se esconder e aparecer repetidamente, seu primeiro dente nasceu aos oitos meses e sua primeira dúzia de palavras foram "coco, momma, dadda, ball, toast, bye-bye, hi, baby, me, love, hot dog e kittie".

Mari listava entre seus brinquedos favoritos uma gaita, um

tambor, uma bola de basquete, carros, caminhões, blocos, uma bancada de pinos de martelar, uma tevê de brinquedo e um telefone. Sobre a rotina diária de kurt. Ela escreveu que "sua reação ao sono é chorar quando é deitado para dormir. Ele está tão interessado na família que não quer deixá-los". Sua tia concluía: "É um bebê feliz, sorridente e sua personalidade está se desenvolvendo desse modo por causa da atenção e do amor que está recebendo".

Wendy era uma mãe cuidadosa, lendo livros sobre aprendizagem,

comprando baralhos pedagógicos e, com a ajuda se seus irmãos e irmãs, garantindo que kurt recebesse assistência adequada, A família ampliada como um todo se reunia na celebração desta criança e kurt prosperava com a atenção.

"Mal consigo expressar em palavras a alegria e a vida que kurt

trouxe para nossa família", lembrou-se Mari. "Ele era este pequeno ser humano muito efervescentes. Tinha carisma já quando bebê. Era engraçado, e era também brilhante". Kurt era tão inteligente que quando sua tia não conseguiu imaginar como baixar sua caminha, ele mesmo o fez, com apenas um ano e meio de idade.

Wendy estava tão apaixonada pelas travessuras de seu filho que

alugou uma câmera super-8 e filmou-o — uma despesa com que a família mal podia arcar. Um desse filmes mostra um garotinho feliz e sorridente cortando o bolo de aniversário de dois anos e parecendo ser o centro do universo de seus pais.

Em seu segundo Natal,Kurt já estava demonstrando interesse pela

música. Os Fradenburg eram uma família Musical — Chuck, o irmão mais velho de Wendy, estava numa banda chamada os Beachcombers; Mari tocava violão e o tio-avô Delbert tinha uma carreira como tenor irlandês,chegando a figura no filme The King of Jazz. Quando os Cobain visitaram Cosmopolis, kurt ficou fascinado pelas jam sessions da família, Suas tias e tios o gravaram cantando "hey jude" dos Beatles, "Motorcycle Song" de arlo guthrie, e o tema do programa da televisão The Monkees. Kurt gostava de compor suas próprias letras desde garotinho.Quando estava com quatro anos, depois de voltar de um passeio até o parque com Mari, sentou-se ao piano e fez uma canção rudimentar sobre a aventura. "Nós fomos ao parque, comemos doce", dizia a letra. "Fiquei simplesmente atônita", lembrou Mari. Eu devia ter ligado o gravador — provavelmente foi sua primeira canção."

Pouco depois de fazer dois anos, kurt criou um amigo imaginário a

quem chamava de Boddah. Seus pais acabaram ficando preocupados com sua ligação com esse amigo fantasma e, por isso, quando foi enviado ao Vietnã disseram a kurt que Boddah também havia sido recrutado. Mas kurt não engoliu totalmente essa história. Aos três anos, ele estava brincando com o gravador de sua tia, que estava ajustado para "ecoar". kurt ouviu o eco e perguntou: "esta voz está falando comigo? Boddah? Boddah?."

Em setembro de 1969, quando kurt tinha dois anos e meio, Don e

Wendy adquiriram sua primeira casa na rua East First, 1210, em Aberdeen. Era um Sobrado de 92 metro quadrados com um jardim e uma garagem.Eles pagaram 7.950 dólares por ele. A residência, datada de 1923, estava situada numa vizinhança ocasionalmente apelidada em tom pejorativo de "apês do crime". Ao norte da casa de cobain ficava o rio Wishkah, que freqüentemente transbordava, e a sudeste ficava a ribanceira de mato que os moradores locais chamavam de "Morro do Think of Me" — na virada do século a ribanceira exibia um anúncio dos cigarros Think of Me.

Era uma casa de classe média num bairro de classe média, que

Kurt mais tarde descreveria como "pobretão posando de classe média". O andar térreo continha a sala de estar, a sala de jantar, a cozinha e o quarto de Wendy e Don. O de cima tinha três cômodos: um pequeno quarto de brinquedos e dois dormitórios, um dos quais se tornou o quarto de kurt. O outro estava destinado á futura irmã de kurt — naquele mês, Wendy descobria que estava grávida de novo.

Kurt tinha três anos quando sua irmã Kimberly Nasceu. Mesmo

quando já era uma garotinha. Ela parecia muito com seu irmão, com os mesmos olhos azuis Hipnóticos e o cabelo louro-claro. Quando Kimberly foi trazida do Hospital para casa, Kurt insistiu em carregá-la para dentro de casa. "ele a amava muito", lembrou-se seu pai "e, no começo, eles foram amados juntos". A diferença de três anos era ideal porque o cuidado com ela se tornou um dos principais assuntos de kurt. Isso marcou o inicio de um traço de personalidade que acompanharia kurt para o resto de sua vida — ele sempre era sensível ás necessidades e sofrimentos dos outros, ás vezes até excessivamente.

Ter dois filhos alterou a dinâmica da família Cobain e o tempo de

lazer que tinham era preenchido por visitas ou pelo interesse de Don por esportes de quadra. Don participava de uma liga de basquete no inverno e jogava numa equipe de beisebol no verão, e grande parte de sua vida social do casal implicava ir a jogos ou eventos pós-jogos. Por meio dos esportes, os Cobain conheceram e ficaram amigos de Rod e Dres Herling. "Eles eram uma boa família e faziam muitas coisas com os filhos", lembrou-se Rod Herling. Comparados com os outros americanos dos anos 60, eram também bastante enquadrados: na época, ninguém em seu círculo social fumava maconha e Don e Wendy raramente bebiam.

Numa noite de verão, os Herling estavam na casa dos Cobain

jogando cartas,quando Don entrou na sala e anunciou: "Achei um rato". Ratos eram comuns em Aberdeen por causa da baixa elevação e da abundância de água.

Don começou a confeccionar uma lança rudimentar prendendo

uma faca de cortar carne a um cabo de vassoura. Isto despertou o Interesse de kurt, então com cinco anos de idade, que seguiu o pai até a lata de lixo na garagem, onde o roedor estava. Don disse a kurt para ficar para trás, mas isto era impossível para uma criança com tamanha curiosidade e o menino continuou a avançar aos poucos até que estava segurando a perna da calça do pai. O plano era Rod Herling erguer a tampa da lata e Don utilizar sua lança para acertar o rato. Herling ergueu a tampa da lata, Don lançou o cabo de vassoura, mas errou o alvo e a lança fincou o assoalho. Enquanto Don tentava em vão arrancar a lança, o rato — num ritmo lento e canhestro — arrastou-se pelo cabo de vassoura acima, disparou pelo ombro de Don e caiu no chão, passando correndo sobre os pés de kurt enquanto saía da garagem. Isto aconteceu numa fração de segundos, mas a combinação do olhar no rosto de Don com o tamanho dos olhos de kurt levaram todos a cair na gargalhada.

Eles riram durante horas com este incidente, que se tornaria uma

peça do folclore da família: "Ei, você se lembra daquela vez que papai tentou espetar o rato?" Ninguém ria mais do que kurt, mas aos cinco anos de idade ele ria a tudo. Era uma risada gostosa, como o som de um bebê sentido cócegas, e isso era um refrão constante.

Em setembro de 1972, Kurt entrou na pré-escola na Escola

Elementar Robert Gray, três quadras ao norte de sua casa, Wendy foi com ele até a escola no primeiro dia, mas depois disso ele ia sozinho: a vizinhança em torno da rua First passou a ser seu território. Ele era bem conhecido de seus professores como um aluno precoce e perguntador, com uma lancheira do Snoopy. Em seu boletim daquele ano, o professor anotava "muito bom aluno". Ele não era tímido. Quando um filhote de urso foi trazido para uma atividade de exposição a classe, kurt foi um dos únicos garotos que posaram com ele para fotos.

O tema em que ele mais se superava era arte. Com a idade de

cinco anos, já estava claro que tinha excepcionais talentos artísticos; estava criando pinturas que pareciam realistas. Tony Hirschman conheceu kurt na pré-escola e ficou impressionado com a habilidade de seu colega de classe; "Ele conseguia desenhar qualquer coisa. Uma vez, estávamos olhando para imagens de lobisomens e ele desenhou um que parecia igual a foto". Uma série de desenhos que kurt fez naquele ano retratava o Aquaman, o Mostro do lago negro, o Mickey e o Pluto.

Todo feriado ou aniversário, A família o presenteava com materiais

de desenho e pintura e seu quarto começou a assumir a aparência de um ateliê de arte.

Kurt Foi incentivado na arte por sua avó paterna, Íris Cobain, Ela

era uma colecionadora de ilustrações que Norman Rockwell havia feito para o Sturday Evenig Post, na forma de pratos de Franklin Mint. Ela própria recriou muitas das imagens de Rockwell no bordado — e sua mais famosa pintura, "Freedon Fron Want" (liberdade de necessidade), que mostrou a essência do jantar americano de Ação de Graças, ficava pendurada na parede do amplo trailer da avó em Montesano. Íris até convenceu Kurt a junta-se a ela em um artesanato favorito: usar palitos de dente para gravar reproduções toscas das imagens de Rockwell nas copas de cogumelos recém-colhidos.

Quando esses cogumelos gigantes secavam, os rabiscos do palito

de dentes permaneciam, como entalhes elaborados de gente de roça. O marido de Íris e avô de kurt, Leland Cobain, não era propriamente um artista — ele operava uma niveladora de asfalto, que havia lhe custado grande parte da audição —, mas ensinava a kurt a trabalhar a madeira. Leland era um personagem ríspido e rabugento e, quando seu neto mostrou a ele uma imagem de Mickey que havia desenhado (Kurt adorava os personagens de Disney), Leland o acusou de tê-lo decalcado. "Eu não decalquei", disse kurt. "Você decalcou, e muito", respondeu leland. Leland deu a kurt um novo pedaço de papel e um lápis e o desafio: "Tome, desenhe outro pra mim e me mostre como você fez". O garoto de seis anos se sentou e, sem nenhum modelo, desenhou uma ilustração quase perfeita do Pato Donald e outra do Pateta. Ele ergueu os olhos do papel com um Sorriso arreganhado, igualmente satisfeito tanto por mostrá-lo a seu avô como pela criação de seu adorado pato.

Sua criação se estendia cada vez mais para a musica. Embora ele

nunca tivesse recebido aulas de piano, conseguia martelar de ouvido uma melodia simples. "Mesmo quando era um garotinho", lembrou sua irmã Kim, "ele se sentava e tocava alguma coisa que ouvira no rádio. Conseguia expressar artisticamente no papel ou em musica tudo o que ele imaginava". Para incentiva-lo, Don e Wendy compraram uma bateria do Mickey, que Kurt martelava vigorosamente todo dia após a escola.

Embora adorasse a bateria de plástico, ele gostava mais da bateria

de verdade da casa do tio Chuck, já que conseguia fazer mais barulho com ela. Ele também gostava de pendurar no ombros a guitarra da sua Tia Mari, ainda que ela fosse tão pesada e fizesse seus joelhos se curvarem. Ele batia nela enquanto inventava canções. Naquele ano comprou seu primeiro disco, um compacto simples meloso de Terry Jacks chamado "Seasons in the Sun".

Kurt adorava examinar os discos de suas tias e tios, Certa

vez,quando tinha seis anos, foi visitar tia Mari e escarafunchar sua coleção de discos procurando um disco dos Beatles — ele estava entre seus favoritos. De repente kurt gritou e correu em pânico até sua tia.Estava trazendo um exemplar de Yesterday and Today dos Beatles, com a infame "capa do açougueiro", uma ilustração mostrando os integrantes da banda com pedaços de carne em cima deles. "Aquilo me fez perceber o quanto ele era impressionável com aquela idade", lembrou-se Mari. Ele também era sensível á tensão cada vez maior que percebia entre seus pais.

Durante os primeiros anos de vida de Kurt, não houve muitas

brigas em casa, mas também não houvera evidência de um grande caso de amor. Como muitos casais que se casavam jovem, Don e Wendy eram duas pessoas esmagadas pela circunstâncias.

Seus filhos se tornaram o centro de suas vidas e o pouco romance

que existira no breve tempo que tiveram antes dos filhos era difícil de reacender. As pressões financeiras assombravam Don; Wendy era consumida pelos cuidados com as crianças.

Passaram a discutir mais e a gritar um com o outro na frente dos

filhos. "Você não faz idéia de como eu dou duro no trabalho", gritava Don para Wendy, que fazia eco á queixa do marido.

No entanto, para Kurt, havia muita alegria em sua primeira

infância. No verão, passavam férias na cabana da família Fradenburg em Washaway Beach, na costa de Washington. No inverno, iam andar de trenó. Raramente nevava em Aberdeen, por isso iam de carro até as pequenas colinas depois da cidade madeireira de Porter e até a montanha Fuzzy Top. Seus passeios de trenó sempre seguiam um padrão similar; estacionavam, tiravam do carro um tobogã para Don e Wendy, um disco prateado para Kim e o pequeno trenó de Kurt, e se preparavam para deslizar montanha abaixo. Kurt agarrava seu trenó, tomava um lugar de partida e se inclinava do jeito que um atleta se preparava o salto em distância. Quando chegava na base da montanha, acenava para os pais, sinal de que sobreviveram á viagem. O resto da família fazia o mesmo e todos caminhavam juntos de volta ao topo. Repetiam o ciclo horas a fio, até que escurecia ou que Kurt tombava exausto. Quando se dirigiam para o carro, Kurt os fazia prometer que voltariam no próximo fim de semana. Mais tarde, Kurt lembraria desses momentos como as lembranças mais caras da sua infância.

Quando Kurt estava com seis anos, a família foi até um estúdio no

centro da cidade para fazer um retrato formal de Natal. Na foto, Wendy está sentada no centro do quadro com um refletor atrás de sua cabeça, criando uma aura; ela está numa enorme cadeira de espaldar alto, trajando um vestido vitoriano longo de faixas brancas e rosa e babados nos punhos. No pescoço traz uma gargantilha negra e seu cabelo louro-morango está caindo sobre os ombros, repartindo ao meio, sem uma única mecha fora do lugar. Com sua postura perfeita, e o modo como seus punhos seguram os braços da cadeira, ela parece uma rainha.

Kim,com três anos, está sentada no colo da mãe. Com um vestido

branco longo e sapatos de couro e verniz preto, ela se apresenta como uma versão em miniatura da mãe. Ela está olhando direto para a câmera e tem o aspecto de uma criança que poderia começar a chorar a qualquer momento.

Don está em pé atrás da cadeira, próximo o bastante para estar no

quadro, embora distraído. Seus ombros estão ligeiramente curvados e ele mostra um ar mais bestificado do que um sorriso legítimo.Está trajando uma camisa púrpura-clara de mangas compridas com um colarinho de quatro polegadas e um colete cinzento — é um traje que Steve Martin ou Dan Aykroid poderiam vestir para seu quadro "Wild and crazy guys" (tipos rústicos e malucos) no Saturday Night Live. Ele tem nos olhos um olhar distante, como se estivesse se perguntando por que tinha sido arrastado para o estúdio fotográfico quando poderia estar jogando bola.

Kurt está em pé mais á esquerda, na frente do pai, a cerca de meio

metro da cadeira. Está vestindo um conjunto de calça e colete listrado em dois tons de azul e uma camisa vermelha de mangas compridas que é um pouco grande para ele, as mangas cobriam-lhe parcialmente as mãos. Como o verdadeiro animador da família, ele não está somente sorrindo, está rindo. Ele parece claramente feliz — um garotinho se divertindo num sábado com a família.

E uma família de feições muito bonita e as aparências externas

sugerem um Pedigree inteiramente americano — cabelo alinhado, dentes brancos e roupa bem passadas, tão estilizadas que poderiam ter saído de uma catálogo de Sears do inicio dos anos 70. Entretanto, um olhar mais atento revela uma dinâmica que mesmo para o fotógrafo deve ter sido dolorosamente óbvia é o retrato de uma família, mas não de um casamento, Don e Wendy não estão se tocando e não há sugestão de afeto entre eles; é como se não estivessem no mesmo quadro. Com kurt postado na frente de Don, e Kim sentada no colo de Wendy, poderíamos facilmente pegar uma tesoura e recortar a foto e a família — bem no meio. Ficaríamos com duas famílias separadas, cada uma com um adulto e uma criança, cada uma com um gênero específico as roupas vitorianas de um lado e os meninos de colarinho largo no outro.

Odeio Mamãe, Odeio Papai

Aberdeen, Washington

Janeiro de 1974-Junho de 1979

"Odeio Mamãe, Odeio Papai".

De um poema na parede do quarto de Kurt.

 

A TENSÃO NA FAMÍLIA AUMENTOU EM 1974, quando don cobain

decidiu mudar de emprego e entrar para o ramo madeireiro. Don não era um homem corpulento e não tinha muito interesse em derrubar árvores de até sessenta metros de altura. Por isso, assumiu um cargo de escritório na Mayr Brothers.

Acabou sabendo que poderia ganhar mais com madeira do que

trabalhando no posto de serviço da Chevron; infelizmente, seu primeiro cargo era no nível de ingresso na empresa, remunerado a 4, 10 dólares por hora,menos até do que ganhava como mecânico.Ele ganhava dinheiro extra fazendo inventário na usina nos fins de semana e freqüentemente levava kurt consigo. "Ele ficava dando voltas no pátio com sua bicicletinha", lembrava-se Don. Mais tarde, Kurt zombaria do trabalho, mas na ocasião ele gostava muito de ser incluído na tarefa. Embora passasse toda a sua vida adulta tentando afirmar o contrário, o reconhecimento e a atenção do pai eram extremamente importante para kurt e ele queria mais, não menos. Mais tarde admitiria que seus primeiros anos dentro da família nuclear eram recordações felizes. "Tive uma infância realmente boa", disse ele á revista Spin em 1992, mas não sem acrescentar: "até os nove anos de idade".

Don e Wendy muitas vezes tinham de pedir dinheiro emprestado

para pagar as contas, uma das principais causas de suas discussões. Leland e Íris deixavam uma nota de vinte dólares na cozinha — brincavam que era uma nota bumerangue, pois todo mês eles a emprestavam para Don comprar mantimentos e, imediatamente depois de devolvê-la para eles, Don a pedia emprestado outra vez. "Ele saia, pagava todas as contas e depois vinha até nossa casa", lembrou-se Leland. "Ele nos pagava nossos vinte dólares e então dizia: Droga, eu ganhei bastante esta semana. ainda me restam 35 ou quarenta centavos". Leland, que jamais gostou de Wendy porque a via agindo como se fosse "Melhor que os cobain", lembrava que a jovem família ia depois para o drive in Blue na rua Boone gastar o troco em hambúrgueres. Embora Don se desse bem com o sogro, Charles Fradenburg — que operava uma niveladora de estrada para o condado —, Leland e Wendy nunca estabeleciam boas relações.

A tensão entre os dois chegou ao máximo quando Leland ajudou a

reformar a casa na rua First. Ele construía pra Don e Wendy uma falsa lareira na sala de estar e instalou novos tampos de balcões, mas no processo ele e Wendy passaram progressivamente a se desentender. Leland finalmente disse ao filho que fizesse Wendy para de importuna-lo ou ele iria embora e deixaria o trabalho pela metade.

"Foi a primeira vez que ouvi Donnie responder para ela", lembrou-

se Leland. "Ela ficava se queixando disto ou daquilo e finalmente ele disse "Mantenha sua maldita boca fechada ou ele pegará as ferramentas e irá para casa". E dessa vez ela fechou a boca."

Como seu pai antes dele, Don era severo com os filhos. Uma das

queixas de Wendy era que o marido esperava que as crianças sempre se comportasse bem — um padrão impossível — e exigia que Kurt agisse como um "homenzinho". As vezes, como toda as crianças, Kurt era um terror. Muitas das suas artes eram insignificantes na época — escrever nas paredes, bater a porta ou provocar a irmã. Esses comportamentos geralmente resultavam numa surra, mas o castigo físico mais comum — e quase diário — era bater com dois dedos na têmpora ou no peito de kurt. Só doía um pouco, mas o dano psicológico era profundo — fazia o filho temer maior dano físico e servia para reforçar o domínio de Don sobre ele. Kurt começou a se abrigar dentro do armário do seu quarto. Os espaços reclusos, confinado, que provocam ataques de pânico no demais, eram exatamente aqueles que ele buscava como refúgio.

E havia coisas das quais valia a pena se esconder: ambos os pais

podiam ser sarcásticos e zombeteiros. Quando kurt era imaturo o bastante para acreditar neles, Don e Wendy o advertiam de que ele ganharia uma pedra de carvão de natal se não fosse bom, particularmente se brigasse com sua irmã. De brincadeira, colocaram pedaços de carvão em sua meia. "Era só uma peça", lembrou-se Don.

"Fazíamos isto todo ano. Ele ganhava presentes e tudo mais —

núncia deixamos de lhe dar presentes". Entretanto, não tinha mais graça para kurt, pelo menos tal como ele contou a história mais tarde em sua vida. Ele afirmou que certo ano haviam lhe prometido uma arma de brinquedo de Starsky e Hutch, um presente que nunca veio. Em vez disso, segundo ele, ganhou apenas um pedaço de carvão embrulhado com capricho.

O relato de kurt era um exagero, mas, em sua imaginação, ele

começara a distorcer sua própria visão sobre a família.

Ocasionalmente, Kim e kurt se davam bem, e ás vezes brincavam

juntos. Embora Kim não tivesse o talento de kurt — ela sempre sentia a rivalidade de ter o resto da família prestando tanta atenção a ele —, desenvolveu a habilidade de imitar vozes. Ela era particularmente boa nas do Mickey e do pato Donald, e kurt se divertia muito com essas imitações. As habilidades vocais de kim suscitavam uma nova fantasia para Wendy. "O grande sonho de minha mãe", declarou Kim, "era que kurt e eu acabássemos indo para a Disneylândia, nós dois trabalhando lá, ele desenhando e eu fazendo vozes".

Março de 1975 foi um mês repleto de alegria para kurt, então com

oito anos de idade: ele Finalmente visitou a Disneylândia e fez sua primeira viagem de avião. Leland tinha se aposentado em 1974 e ele e Íris foram passar o inverno daquele ano no Arizona.Don e Wendy levaram Kurt de carro até seattle, colocaram-no num avião e Leland apanhou o menino em Yuma, antes de irem para sul da Califórnia. No período maluco de dois dias, eles visitaram a Disneylândia, Knotts Berry foram e os estúdios da Universal. Kurt ficou extasiado e insistiu que passassem três vezes pelo "Piratas do Caribe" na Disneylândia. Em Knotts Berry Farm ele desafiou a gigantesca montanha russa, mas quando o passeio começou, seu rosto ficou branco como o de um fantasma. Quando Leland perguntou "Chega?", sua cor voltou e ele fez o passeio ainda outra vez. Na excursão até os estúdios da Universal, Kurt se inclinou para fora do trem diante do tubarão do filme de Spielberg, levando um guarda a gritar para seus avós: "é melhor vocês puxarem de volta esse loirinho ou a cabeça dele será arrancada fora". Kurt desafiou a ordem e tirou uma foto da boca do tubarão quando ele chegou a poucos centímetros de sua máquina fotográfica. Mais tarde naquele dia, no carro que ia pela via expressa, Kurt dormiu no assento traseiro, único motivo pelo qual seus avós conseguiram passar furtivamente pela Magic Mountain sem que ele insistisse para que fossem visitá-la também.

De todos os seus parentes, Kurt era mais intimo da avó Íris; ambos

compartilhavam um interesse pela arte e, as vezes, uma certa tristeza. "Eles se adoravam", lembra Kim. "Acho que intuitivamente ele sabia o inferno pelo qual ela tinha passado". Tanto Íris como Leland foram criados com dificuldade, ambos marcados pela pobreza e pelas mortes prematuras de seus pais no trabalho. O pai de Íris morrera vítima de gases venenosos na fábrica de celulose Rayonier; o pai de Leland, que era xerife de condado, morreu por um disparo acidental de sua arma. Leland tinha quinze anos na época da morte de seu pai. Ele se alistou na Marinha e foi enviado para Guadalcanal, mas depois que agrediu um oficial foi encaminhado ao hospital para uma avaliação psiquiátrica. Casou-se com Íris depois de dar baixa, mas sofreu com problemas de bebida e raiva, particularmente depois que o terceiro filho do casal, Michael, nasceu retardado e morreu em uma instituição com a idade de seis anos. "Na sexta-feira á noite ele recebia o salário e chegava bêbado em casa", contou Don. "Ele batia em minha mãe. Batia em min. Bateu em minha avó e no namorado dela. Eram assim as coisas naquele tempo".

Na época da adolescência de kurt, Leland havia amolecido e sua

arma mais perigosa era a linguagem obscena.

Quando Leland e Íris não estavam disponíveis, um dos vários

irmãos e irmãs Fradenburg tomavam conta de kurt — três tias de kurt moravam num raio de quatro quarteirões da sua casa. Gary, irmão mais novo de Don, também era encarregado de tomar conta de kurt alguma vezes, e certa ocasião marcou a primeira ida de kurt ao hospital. "Quebrei o braço direito dele", relembra gary. "Eu estava deitado de costas e ele estava em meus pés, e eu o estava atirando para o ar com meus pés". Kurt era uma criança muito ativa e, com toda a sua correria para lá e para cá, os parentes se admiravam de que ele não quebrasse também outras partes do corpo.

O braço quebrado de kurt sarou e o ferimento não parecia impedi-

lo de praticar esportes. Don incentivou o filho a jogar beisebol assim que ele começou a andar e lhe fornecia todas as bolas, tacos e luvas de que um menino precisava. Quando garoto, kurt achava os tacos mais úteis como instrumento de percussão, mas, com o tempo, começou a participar de exercícios físicos, começando pelo bairro e, mais tarde, em jogos organizados. Aos sete anos, ele estava em sua primeira equipe da liga Mirim. Seu pai era o treinador. "Ele não era o melhor jogador do time, mas não era ruim". conta Gary cobain. "Ele realmente não queria jogar, pensei. Acho que jogava para agradar ao pai".

O beisebol foi um exemplo da busca de kurt pela aprovação de Don

"Kurt e meu pai se davam bem quando ele era criança", lembrou-se Kim, "mas kurt não era nada parecido ao que papai pretendia que kurt se tornasse".

Don e Wendy estavam enfrentando o conflito entre a criança

idealizada e a criança real. considerando que ambos tinham necessidades insatisfeita trazidas de sua respectivas infâncias, o nascimento de kurt revelou todas as expectativas com Leland, e pensou que a participação dos dois em jogos esportivos propicia esse laço. Embora Kurt gostasse de esportes, particularmente quando seu pai não estava por perto, ele associava intuitivamente o amor de seu pai com esta atividade, algo que o marcaria por toda a vida, sua reação era participar, mas fazê-lo sob protesto.

Quando kurt estava na segunda serie, seus pais e a professora

decidiram que sua incansável energia podia ter uma origem médica mais ampla.O pediatra de kurt foi consultado e o corante alimentar vermelho foi afastado da sua dieta. Quando não houve melhora nenhuma, seus pais limitaram sua ingestão de açúcar. Finalmente o médico receitou Ritalin, que kurt tomou por um período de três meses. "Ele era hiperativo", lembrou kim, "Ficava saltando pelas paredes, principalmente se lhe fosse dado algum açúcar.Outros parentes sugerem que Kurt pode ter sofrido de deficiência de atenção por hiperatividade. Mari se lembrava de uma visita á casa dos Cobain em que encontrou Kurt correndo pelo bairro, batendo num tambor de parada e gritando a plenos pulmões. Mari entrou e perguntou a sua irmã: "Mas que diabos ele está fazendo?" "Não sei" foi a resposta de Wendy. "não sei o que fazer para conseguir que ele pare — já tentei de tudo." Na época, Wendy supunha que era o modo de kurt queimar seu excesso de energia de menino.

A decisão de dar Ritalin a kurt era, já em, 1974, uma decisão

controversa, com algum cientistas argumentando que isto cria uma resposta pavloviana nas crianças e aumenta a probabilidade de comportamento de dependência química mais tarde na vida; outros acreditam que se as crianças não recebem tratamento pra a hiperatividade, podem mais tarde se automedicar com drogas ilegais. Cada membro da família de Cobain tinha uma opinião diferente sobre o diagnóstico de kurt e sobre se o breve curso de tratamento o ajudou ou prejudicou, mas, na opinião do próprio kurt, tal como ele mais tarde contou pra Courtney Love, a droga foi importante.

Courteney, a quem Ritalin também foi receitado na infância, disse

que os dois freqüentemente discutiam esta questão. "Quando você é criança e toma esta droga que o faz sentir desse jeito, para onde mais você vai se voltar quando adulto?", perguntou Courtney "Era uma euforia quando você era criança — essa memória não vai ficar com você?".

Em fevereiro de 1976, apenas uma semana depois do nono

aniversário de kurt, Wendy informou Don de que ela queria o divórcio. Fez o anúncio numa noite de um dia de semana e saiu em disparada com seu camaro, deixando a Don a tarefa de explicar ás crianças, uma coisa na qual ele não se esmerava. Embora os conflitos matrimoniais de Don e Wendy tivessem aumentado durante a última metade de 1974, sua declaração pegou Don de surpresa, tal como pegou o restante da família. Don entrou em estado de rejeição e se recolheu para dentro de si mesmo, comportamento que anos depois seria manifestado pelo filho em tempos de crise.

Wendy sempre fora uma personagem forte e propensa a acessos

ocasionais de raiva, mas mesmo assim Don ficou chocado por ela querer romper a unidade familiar. Sua principal queixa era que o marido estava o tempo todo envolvido com esportes — ele era árbitro e treinador, além de jogar em duas equipes. "Na minha cabeça, não acreditei que isto ia acontecer", lembra Don. "Divórcio não era assim tão comum na época. Eu também não queria que isto acontecesse. Ela simplesmente quis terminar".

No dia 1º de março Don saiu de casa e alugou um quarto em

Hoquiam Esperava que a raiva de Wendy cedesse e o casamento sobrevivesse e, por isso, ele alugou o quarto por uma semana. Para Don, a família representava uma parte enorme de sua identidade e seu papel como pai marcou em sua vida uma das primeiras vezes em que ele se sentia necessário, "Ele ficou arrasado com a idéia do divórcio", lembrou-se Stan Targus, o melhor amigo de Don, particularmente sua irmã Janis e o marido, Clark, que moravam perto dos Cobain. Alguns irmãos de Wendy no fundo se perguntavam como ela sobreviveria financeiramente sem Don.

No dia 29 de março, Don recebeu uma intimação judicial e uma

"Petição de Dissolução de matrimônio". Em seguida, uma enorme quantidade de documentos legais, que Don freqüentemente deixava de responder na vã esperança de que Wendy mudasse de idéia. No dia 9 de julho ele foi julgado á revelia por não atender ás petições de Wendy. Naquele mesmo dia, uma decisão final foi promulgada adjudicando a casa a Wendy. , mas dando a Don uma hipoteca de 6.500 dólares, a serem pagos no momento em que a casa fosse vendida, que Wendy se casasse novamente ou que Kim completasse dezoito anos. Don ficaria com seu furgão Ford 1965 de meia tonelada; Wendy manteria o Camaro 1968 da família. A custódia das crianças foi concedida a Wendy, mas caberia a Don pagar 150 dólares mensais de sustento para cada um dos filhos, além de arcar com suas despesas médicas e dentárias; também se concederam a Don direitos de "visitação razoável". Por se tratar de um tribunal de cidade pequena dos anos 70, essa visitação não era especificada e o arranjo era informal. Don se mudou para o trailer de seus pais em Montesano. Ele continuava esperançoso de que Wendy mudasse de idéia, mesmo depois que os documentos finais foram assinados.

Wendy não faria nada disso. Quando acabava alguma coisa, aquilo

estava mesmo acabando para ela, e assim não poderia ter mais nada com Don. logo se envolveu com Frank Franich, um estivador bonitão que ganhava duas vezes mais que Don.

Franich também era inclinado á violência e á raiva, e para Wendy

não havia nada melhor do que ver essa maldade voltada para Don. Quando uma nova carteira de motorista de Don foi acidentalmente enviada para a casa de Wendy. "alguém" abriu o envelope, esfregou fezes na foto, fechou novamente o envelope e o enviou para Don. Este não era um divórcio — era uma guerra, cheia do ódio, despeito e vingança de uma rixa sangrenta.

Para kurt era um holocausto emocional — nenhum outro evento

isolado em sua vida teve mais efeito na conformação de sua personalidade. Ele internizou o divórcio, como fazem muitas crianças. A profundidade dos conflitos de seus pais lhe fora essencialmente ocultada e ele não conseguia entender o motivo para a separação."Ele achou que era por sua causa e assumiu grande parte da culpa", observou Mari "Foi traumático para Kurt ver tudo em que ele confiava — sua segurança, sua família e seu próprio sustento — desfazer-se diante de seus olhos". Em lugar de expressar exteriormente sua angústia e pesar, Kurt se voltou para dentro "Odeio mamãe, odeio papai. Papai odeia mamãe, mamãe odeia papai. Isto apenas faz você querer fica muito triste". Este era o menino que em criança era tão unido á sua família que lutava contra o sono, como Mari havia escrito em, seu relatório de economia de economia doméstica sete anos antes, porque "ele não que abandoná-los. Agora, sem que tenha feito nada errado, ele tinha sido abandonado. Íris Cobain certa vez descreveu 1976 como "o ano de kurt no purgatório".

Esse ano foi também difícil para Kurt em termos médicos. Mari

lembrou que o viu no hospital durante esse período: ela soubera por sua mãe que ele estava lá em decorrência de não comer o bastante. "Eu me lembro de Kurt no hospital por problemas de desnutrição quando ele estava com dez anos", disse ela. Kurt contou a seus amigos que teve que beber bário e tirar uma radiografia do estômago. É possível que aquilo que se imaginava ser mentira mais tarde em sua vida. Sua mãe tinha sofrido do estômago aos vinte anos de idade, pouco tempo depois do nascimento de Kurt e, quando este começou a ter dores estomacais, supôs-se que sofria da mesma irritação estomacal de Wendy. Por volta da época do divórcio, Kurt também tinha uma contração involuntária nos olhos. A família supôs que isto estivesse associado a tensão, o que provavelmente era verdade.

Enquanto seus pais estavam se divorciando, sua vida de pré-

adolescente contava, com todos os seus desafios internos. Prestes a entrar na quarta série, ele começou a perceber as meninas como seres sexuais e a se preocupar com status social. Naquele mês de julho, sua foto saiu no Aberdeen Daily World, quando seu time de beisebol conquistou o primeiro lugar na Liga Aberdee Timber depois de acumular um registro de catorze vitórias e uma derrota. O outro destaque do verão foi sua adoção de um gatinho preto que estivera vagando pelo bairro. Foi seu primeiro animal de estimação e ele o chamou de Puff.

Três meses depois da conclusão do divórcio, Kurt manifestou

interesse em morar com o pai. Mudou-se para o reboque com Don, Leland e Íris, mas no começo do outono pai e filho alugaram seu próprio trailer de solteiro do outro lado da rua. Kurt visitava Wendy, Kim e Puff nos fins de semana.

Morar com o pai resolveu algumas das necessidades emocionais de

Kurt — uma vez mais ele era o centro das atenções, um filho único. Don se sentia tão mal com o divórcio que supercompensava-o com presentes materiais, comprando para kurt uma minimoto Yamaha Enduro 80, que se tornou uma atração no bairro. Lisa Rock, que morava a poucas quadras de distância, conheceu Kurt naquele outono: "Ele era um menino quieto, muito simpático. Sempre sorrindo. Era um pouco tímido. Havia um campo onde ia andar com sua minimoto e eu ao lado dele com minha bicicleta".

A percepção de Lisa sobre kurt aos nove anos de idade como um

menino "quieto" fazia coro a uma palavra que seria reiteradamente empregada para descrevê-lo na idade adulta. Ele era capaz de ficar sentado em silêncio durante muito tempo sem sentir necessidade de jogar conversa fora. Kurt e Lisa faziam aniversário no mesmo dia e, quando ambos completaram dez anos, comemoraram com uma festa na casa de Lisa. Kurt ficou contente por ser incluído, ainda que se sentisse desajeitado e incomodado com a atenção. Ele fora destemido aos quatro anos de idade: aos dez, era surpreendentemente medroso. Depois do divórcio, ele se mantinha reservado, sempre esperando que a outra pessoa desse o primeiro passo.

Depois do divórcio e com o despertar da puberdade de Kurt, seu

pai assumiu um papel de proporções elevadas.Depois da escola Kurt Ficava no trailer dos avós, mas assim que Don voltava do trabalho, ficavam juntos o resto do dia: e Kurt ficava contente de fazer tudo o que Don quisesse, mesmo que isso significasse jogos esportivos. Depois das partidas de beisebol, os dois ás vezes jantavam na cervejaria local. Era um laço que ambos saborearam, mas nenhum dos dois deixava de sentir a perda da família — era como se um membro do corpo tivesse sido decepado e, embora passassem o dia inteiro sem ele, nunca conseguiam afastá-lo de seus pensamentos. Seu amor recíproco naquele ano foi mais forte do que era antes ou depois, mas pai e filho ainda estavam profundamente solitários. Receoso de que poderia perder o pai, Kurt fez Don prometer que não se casaria novamente. Don deu a seu filho esta garantia e disse que os dois sempre estariam juntos.

Durante o inverno de 1976, Kurt se transferiu para a Beacon

Elementary School em Montesano. As escolas de Montesano eram menores do que as de Aberdeen, e semanas depois da transferência encontrou a popularidade que havia lhe escapado anteriormente e sua intrepidez parecia querer regressar. Apesar de externamente confiante, ele se apegava a uma amargura em relação a suas circunstâncias: "Dava para notar que ele estava atormentado pelo divórcio dos pais", recordou o colega Darrin Neathery.

Quando começou a quinta serie, no outono de 1977, Kurt já fazia

parte integrante de "Monte" o nome que os habitantes usavam para a cidade- todo aluno de pequena escola o conhecia w a maioria gostava dele. "Ele era um menino muito bonito", lembrou John Fields, "Era inteligente e tudo saia bem para ele" Com seus cabelos louros e seus olhos azuis, Kurt se tornou um favorito das meninas, "não era nenhum exagero dizer que ele era um dos meninos mais populares", observou Roni Toyra. "havia um grupo de cerca de quinze meninos que saíram juntos e ele era uma parte importante desse grupo. "Era realmente um gracinha, com seus cabelos louros, os grandes olhos azuis e as sardas no nariz."

Esses atrativos externos escondiam uma luta em busca de

identidade que atingiu um novo patamar em outubro de 1977, quando Don começou a namorar. Kurt detestou a primeira mulher que Don namorou e, por isso, seu pai desistiu dela. Com o narcisismo dos seus dez anos, Kurt não entendia o desejo do pai por companhia adulta ou o motivo por que Don não estava feliz com apenas os dois juntos. No final do outono Don conheceu uma mulher chamada Jenny Westby, Que também estava divorciada e tinha dois filhos: Mindy, um namoro foi um caso de família e o primeiro encontro deles foi uma caminhada com todos os filhos em volta do lago Sylvia. Kurt foi amistoso com Jenny e os filhos dela e Don achou que encontrava seu par. Ele e Jenny se casaram.

No principio Kurt gostou de Jenny — ela lhe dava a tenção

feminina que lhe faltava —, mas seus sentimentos positivos em relação á nova madrasta eram anulados por um conflito interno: se ele tivesse afeição por ela, estaria traindo seu amor pela mãe e por sua família "verdadeira". Como o pai, Kurt tinha se aferrado á esperança de que o divórcio seria apenas um revés temporário, um sonho que passaria. O segundo casamento do pai e o trailer agora intensamente abarrotado destruíram aquela ilusão. Don não era homem de muitas palavras e sua própria história dificultava a expressão de seus sentimentos. "Você me disse que não ia se casar novamente", reclamava Kurt a Don. "Bem, você sabe, Kurt, as coisas mudam", respondia o pai.

Jenny tentou se aproximar dele, sem sucesso. "No começo, ele

tinha muito afeição para com todos", lembrou Jenny. Depois, Kurt constantemente recorria á promessa de Don de não se casar de novo e voltou a se retrair. Don e Jenny tentaram compensá-lo fazendo Kurt o centro das atenções na casa — ele abria os presentes primeiro e era dispensado de tarefas domesticas —, mas esse pequeno sacrifício só serviram para aumentar seu retraimento emocional. Ele desfrutava dos meio-irmãos como ocasionais parceiros para brincadeiras, mas também implicava com eles — era impiedoso com Mindy por ela ser dentuça e imitava cruelmente sua voz na presença dela.

As coisas melhoraram temporariamente quando a família se

mudou para uma casa própria na rua Fleet, 413, em Montesano. Kurt tinha seu próprio quarto, que fora dotado de janelas redondas para parecer um navio.Não muito tempo depois da mudança, jenny deu á luz outro filho, Chad Cobain, em janeiro de 1979. Agora, duas outras crianças, uma madrasta e um bebê estavam competindo pela atenção que outrora fora apenas de Kurt.

Kurt tinha rédea solta nos parques, nas alamedas e nos campos de

Monte. Era uma cidade tão pequena que raramente era preciso transporte: o campo de beisebol ficava a quatro quadras de distância, a escola era logo adiante na rua e todos os seus amigo estavam por perto. Em contraste com Aberdeen, Monte parecia saída de uma peça de Thornton Wilder, uma América mais simples e mais amiga. Toda as noites de quarta-feira eram consideradas "noite da família" na casa dos Cobain.

As atividades incluíram jogos de tabuleiro como gamão ou Banco

Imobiliário, e Kurt ficava mais animado do que ninguém com estas noites.

O dinheiro era curto e, por isso, a maioria das férias resultava em

viagens para acampar, mas kurt era o primeiro a entrar no carro quando estavam se preparando para sair. Sua irmã Kim os acompanhava nas viagens até que Don e Wendy se desentenderam sobre as férias significariam um abatimento no sustento dos filhos; depois disso, Kim passou a ver menos seu pai e irmão. Kurt continuou visitando a mãe nos fins de semana, mas, em vez de reuniões calorosas, estas ocasiões em geral apenas irritavam a velha ferida do divórcio; Wendy e Don dificilmente se entendiam e, com isso, os passeios até Aberdeen significavam ter de assistir a briga dos pais em torno da programação das visitas. Uma outra tristeza se abateu sobre ele certo fim de semana: Puff, seu adorado gato, fugiu e nunca mais foi visto.

Como todas as crianças, Kurt era dominado pela rotina e gostava

da estrutura de coisas como a "noite da família" Mas até este pequeno conforto o deixava em conflito: ele ansiava por proximidade e ao mesmo tempo receava que a proximidade pudesse resultar em abandono mais adiante. Ele alcançara o estágio da puberdade em que a maioria dos adolescentes do sexo masculino começa a se diferencia dos pais e a encontrar sua própria identidade. Entretanto, Kurt ainda lamentava a perda do ninho familiar original e, por isso, libertar-se estava carregando de necessidade e temor. Ele lidava com esses diversos sentimentos contraditórios dissociando-se emocionalmente de Don e Wendy. Dizia a si mesmo e aos amigos que os odiava e, nessa caustidade, conseguia justificar seu próprio distanciamento.

Mas depois de uma tarde com os amigos falando sobre os pais

podres que tinha, ele ainda se veria mais uma vez participando da "noite da família" e seria o único na casa a não querer que as festividades da noitada terminassem.

Os feriados sempre eram um problema. O dia de Ação de Graças e

o Natal de 1978 significavam que Kurt faria uma via-sacra por meia dúzia de casa diferentes. Se os seus sentimentos para com Jenny era uma mistura de afeto, ciúme e traição, para com o namorado de Wendy, Frank Franich, eram de pura raiva. Wendy também começara a pegar peado na bebida e a embriaguez a deixava mais exacerbada. Certa noite, Franich quebrou o braço de Wendy — Kim estava na casa e testemunhou o incidente — e ela foi hospitalizada. Quando se recuperou, recusou-se a dar queixa. Chuck, seu irmão, ameaçou Franich, mas havia pouca coisa que alguém pudesse fazer para mudar o compromisso de Wendy com ele. Na ocasião, muitos achavam que Wendy ficava com Franich por causa do apoio financeiro que ele garantia. Ela havia começado a trabalhar depois do divórcio como balconista da Pearson's, uma loja de departamentos de Aberdeen, mas era o salário de estivador de Franich que lhe propiciava luxos como televisão a cabo. Antes de Franich aparecer, Wendy teve tantas contas atrasadas que sua eletricidade esteve preste a ser cortada.

Kurt tinha onze anos e era baixo e esquelético, mas nunca se

sentia mais importante ou fraco do que quando estava perto de Franich. Ele se sentia desamparado para proteger sua mãe e a tensão de assistir a essas brigas o fez temer pela vida dela e talvez pela sua. Tinha pena da mãe e a odiava por ter de sentir pena dela. Seus pais tinham sido seus deuses quando ele era mais novo — agora eram ídolos derrubados, faltosos deuses e indignos de confiança.

Estes conflitos internos começaram a se evidenciar no

comportamento de Kurt. Ele respondia aos adultos, recusava-se a fazer tarefas domésticas e, apesar de seu porte pequeno, começou a tiranizar outro menino com tamanho poder que a vitima se recusou a ir a aula. Os professores e os pais se envolveram a todos se perguntavam por que um menino tão meigo se tornara tão desagradável. Ao se esgotarem as alternativas, Don e Jenny finalmente levaram Kurt para um aconselhamento. Houve uma tentativa de terapia familiar, mas Don e Wendy jamais conseguiam chegar no mesmo horário. O terapeuta, porém, passou duas sessões conversando com Kurt. Suas conclusões eram que Kurt precisava de uma única família. "Fomos informados de que se Kurt fosse ficar conosco, precisávamos obter custódia legal sobre ele, de forma que soubesse que o estávamos aceitando como parte de nossa família", lembrou Jenny. "Infelizmente, tudo isso iria gerar problemas entre Don e Wendy quando discutissem a questão".

Don e Wendy estavam divorciados havia vários anos, mas a raiva

que um sentia pelo outro continuava e, na verdade, aumentou em razão dos filhos. Tinha sido uma primavera difícil para Wendy — o pai dela, Charles Fradenburg tinha morrido de um enfarte rependido dez dias depois de seu aniversário de 61 anos. A mãe de Wendy, Peggy, sempre fora uma reclusa, e Wendy ficou preocupada que isso aumentasse o isolamento da mãe. O comportamento estranho de peggy pode ter resultado de um horrível incidente da infância: quando ela tinha dez anos, seu pai esfaqueou o próprio abdome na frente da família. James Irving sobreviveu á tentativa de suicídio e foi encaminhado para o mesmo hospital de doenças mentais de Washington que mais tarde aplicaria terapia de choque na atriz Frances Farmer. Dois meses depois, ele morreu de seus ferimentos iniciais — quando o pessoal do hospital não estava observando, ele rasgou as feridas de suas punhaladas. Como muitas das tragédias da família, a doenças mental do bisavô de kurt era discutida apenas em cochichos.

Mas mesmo os grandes empenhos da família Fradenburg

fracassaram em reunir Don e Wendy na aflição compartilhada. Suas discussões sobre kurt terminaram, como todas as conversas que eles tinham, com uma briga. Wendy finalmente assinou um documento que dizia; "Donald Leland Cobain será responsável exclusivamente pelo cuidado, apoio e sustento da referida criança". No dia 18 de junho de 1979, faltando apenas três semanas para se completarem os três anos da data do divórcio de Don e Wendy foi concedida a Don a custódia legal de Kurt.