Mantras, palavras sagradas de poder
Capítulo 1
A FLORESTA DOS RECLUSOS
Era como um sonho. Dentro do largo aposento, e apesar de os raios das velas refletirem-se nos cálices e instrumentos rituais reunidos sobre o altar, brilhando com luz prateada, e apesar de o mandala das divindades, erguido atrás dela, conter todas as colorações imagináveis, a luz que prevalecia era um dourado pálido, cor da esteira de palha de arroz estendida de uma parede à outra, com sua superfície imaculada interrompida apenas por um altar baixo e quadrado, de madeira negra, e pelas fileiras de almofadas cor de bronze, usadas para meditação. As almofadas, no momento, estavam ocupadas. A não ser pelo movimento dos lábios e pela respiração, as figuras envoltas em branco assemelhavam-se a estátuas, tão profunda era a tranqüilidade invocada pelas sílabas em tom grave emanadas de suas bocas e reguladas pelo ritmo majestático do tambor:
LOMAKU SICHILIA JIPIKIA NAN SALABA TATAGEATA NAN. ANG BILAJI BILAJI MAKASA GEYALA SATA SATA SARATÉ SARATÉ TALAYI TALAYI BÍDAMANI SANHANJIANI TALAMACHI SIDA GRIYA TALANG SOHA!
Logo cheguei a saber que nenhum dos devotos, apesar de suas mentes responderem sem falha ao encantamento, conhecia o significado daquelas sílabas, cujo som era mais inspirador do que um solene peã! A linguagem não era a de sua nativa Cantão; nem sequer, apesar de ter sido transmitida a seu professor pelo Mestre dele no Japão, era japonês; nem mesmo o chinês medieval, conquanto o mantra tenha alcançado o Japão vindo da China, mil anos antes; nem era sânscrito — mas talvez o sânscrito modificado através dos séculos por toda uma série de transições. Estranhamente, nada disso importava, pois as sílabas de um mantra, ainda que acaso inteligíveis, não deviam seu poder ao significado, ao nível do pensamento conceituai. Ali estava o início de um mistério ao qual, de então por diante, eu dedicaria toda a minha vida. E agora, após quatro décadas, não posso na verdade dizer que o desvendei!
Quando, na juventude, tomei a primeira resolução de ir à China, uma doença súbita me compeliu a desembarcar em Hong-Kong. Ali, as circunstâncias me levaram a permanecer pôr um ano ou mais, cultivando a amizade de um grupo de chineses conservadores, que apaixonadamente se apegavam à velha sabedoria e às tradições de sua raça. Entre eles havia um médico da velha escola, estudante de rosto pálido, de trinta e poucos anos, que, desprezando as modas ocidentais, usava um severo barrete de cetim preto, encimado por um pingente escarlate, e no verão, uma túnica de fina seda branca que chegava ao tornozelo e tinha a gola erguida. No inverno, essa túnica era substituída por outra de seda mais pesada, de cor sombria e acolchoada com paina de seda, sobre a qual usava com freqüência uma jaqueta manchu, formal, de cetim preto estampado. Tal como proclamava sua aparência, o Dr. Tsai Ta-hai era totalmente um homem de tradição, mas não amante da fossilizada rigidez confuciana — e imbuído pelo espírito humanístico, místico e brincalhão que caracteriza as mais finas formas da poesia e da pintura chinesas. Profundo conhecedor das tradições taoístas e budistas, vivia mergulhado no mistério das miríades de formas mutantes criadas pelo Tao informe, autoperpetuador e imutável, representado com tanta agudeza em velhos poemas e paisagens. Quando nos conhecemos, ele estava entusiasmado com uma forma de budismo esotérico não mais habitual na China, mas que sobrevivera de modo truncado no Japão, de onde havia sido recentemente transmitida para um grupo de devotos em Hong Kong.
Nossa amizade, que seria cimentada mais tarde por um juramento de fraternidade, cresceu magicamente desde a noite de nosso primeiro encontro. Noutro livro, The Wheel of Life [A Roda da Vida] descrevi mais longamente a maneira pela qual estando mal, com febre intermitente, mandei meu empregadinho cantonês de 12 anos procurar um médico; e de como esse rapazinho, nada sabendo a respeito das preferências de um estrangeiro, tivesse corrido até o mais próximo — o Dr. Tsai Ta-hai, naturista chinês que, apesar da surpresa ao ser chamado por um "diabo estrangeiro", acorreu imediatamente, tocando com seus dedos esguios um de meus pulsos de cada vez, descobrindo não só um, mas seis pulsos! Seu método de diagnóstico não era menos estranho para um jovem recém-chegado da Inglaterra; consistia em mergulhar sua mente em tranqüilidade interior e intuir, em silêncio, as perturbações nos ritmos de meu corpo. A receita, que redigiu em bela caligrafia com o conjunto de acessórios de escrita que formava a parte mais essencial de seu equipamento médico portátil, levou-me à compra de muitos pacotinhos de estranhas substâncias, as quais fervidas juntas produziram um líquido ralo, negro e amargo com espantosas propriedades curativas. Descobrindo que eu era budista, ele me interrogou com deliciado espanto. Nunca esquecerei a alegria que iluminou seu rosto ao saber, pela primeira vez em sua vida, que havia deparado com um ocidental ansioso por aprender com os chineses, em vez de estar determinado a impor-lhes sua maneira ocidental de pensar.
Assim que me restabeleci, meu novo amigo me levou a uma reunião numa casa que, tal como proclamava uma tabuleta de laca acima da entrada, era curiosamente denominada "A Floresta dos Reclusos". Era na verdade uma espécie de templo particular, pertencente a uma associação de budistas leigos. Fui informado de que quase todas as cidades da China tinham sua Floresta de Reclusos, mas que aquela era incomum, porque seus membros adotavam uma forma de budismo que, tendo desaparecido da China mil anos antes, havia sobrevivido no Japão como seita Shingon. O mestre-residente, Lai Fa-shih (Mestre-Dharma Lai), depois de passar alguns anos em retiro no Monte Koya, não muito longe de Kioto, tinha voltado do Japão para instruir seus confrades chineses sobre o que sobrara da tradição secreta que havia prevalecido entre seus antepassados na época em que havia florescido a Seita Esotérica (Mi Tsung). A seita Shingon, assim como sua contrapartida tibetana, a Vajrayana ou Mantrayana, protege seus segredos de ioga contra a profanação, restringindo a instrução apenas aos iniciados. Foi por especial cortesia dos amigos de Ta-hai que o jovem inglês Ah Jon, como me chamavam, teve permissão para freqüentar e até participar dos ritos, apesar de não ter, até então, uma iniciação preliminar. A bondade dessas pessoas não tem limites. A Floresta dos Reclusos, elevando-se num pequeno cume perto de Causeway Bay, no que era então uma área rural, tinha aparência comum, mais ocidental do que chinesa, pelo estilo. Muitos de seus quartos, aos quais estavam ligadas largas varandas envidraçadas, eram iguais aos que se encontravam em muitas residências da classe média em Hong Kong naquele período; mas no andar superior ficava a bonita sala que descrevi, sempre perfumada pela queima de sândalo. Atrás do altar, com seus requintados conjuntos de prata, erguiam-se vários painéis pintados, dos quais o que ficava no centro reproduzia nove "Budas e Bodhisattvas meditando", sentados no centro e nas pétalas de um lótus. Estes painéis, e as figuras de outros painéis subsidiários, eram esculpidos em cores claras e brilhantes, de estilo notavelmente semelhante ao dos afrescos encantadores que se vêem nas paredes dos antigos templos- cavernas da China, da índia e do Ceilão. A semelhança não se limitava aos arranjos, à postura e ao Simbolismo, mas era criada principalmente pelas sublimes expressões e pela etérea delicadeza das figuras - as que encimavam nuvens pareciam realmente etéreas e as aladas pareciam voar. Iconograficamente, o painel central parecia uma forma de mandala tibetana. Sentado no centro do lótus ficava o Buda Vairochana; outros quatro Budas em meditação, representando Energias da Sabedoria Compassiva, ocupavam as pétalas correspondentes aos principais pontos da circunferência, e quatro Bodhisattvas ficavam sentados nas demais pétalas. Impressionado pela beleza do arranjo, não tive então nenhuma idéia sobre seu significado esotérico. Voltando a refletir sobre isso agora não tenho dúvidas sobre a ascendência comum às seitas de Shingon, japonesa, e Vajrayana, tibetana, conquanto a primeira preserva apenas uma pequena parte dessa herança.
Recém-chegado, atraído à China pela beleza e pela sabedoria que havia recolhido nas traduções da poesia chinesa de Waley e Obata, e noutras fontes similares, eu estava ansioso por apreciar quaisquer experiências que meus amigos chineses tivessem a oferecer; de modo que adotei facilmente seus rumos, sem criticar qualquer coisa que eles sugerissem, e deixando que a compreensão surgisse mais tarde. Uma ou duas noites por semana, nós nos reuníamos numa varanda fechada, contígua à sala do santuário. Os outros vestiam túnicas chinesas sobre suas calças largas de seda; eu, as roupas que havia trazido da Inglaterra, cujas calças eram lamentavelmente impróprias para sentar de pernas cruzadas numa almofada, pela duração dos ritos. Em breve comecei a ir com um par de calças de seda embrulhadas, de modo que, antes de entrar na sala do santuário, podia trocar de roupa, vestindo como os outros túnicas de tecido branco liso com largas mangas. Um mês depois, avancei mais ainda, chegando lá com roupas chinesas, apesar de, naquela época, um inglês precisar ter verdadeira coragem para usar "roupas nativas" numa colônia inglesa. Isso significava ter claro desprezo por seus compatriotas, despertando também boa quantidade de ironia, educadamente disfarçada, no grande número de chineses que supunham que o progresso consistia em macaquear cegamente as noções ocidentais de maior poderio militar; mas eu me contentava com a aprovação de Ta-hai e de seus amigos.
Satisfeito e sem espírito crítico sobre tudo quanto esses amigos julgavam válido para me ensinar, e pronto a agir como eles com o mínimo espalhafato, procurei ter o comportamento de qualquer outro membro da Floresta dos Reclusos, apesar de os outros serem tão acomodados e de tão bom gênio que me teriam sem dúvida perdoado qualquer relutância. Por exemplo: sabendo que a maioria dos ingleses julgava humilhante inclinar a cabeça até o chão, de boa vontade eles me teriam desculpado por não me prosternar diante de Lai Fa-shih, nosso Mestre-Dharma; ao passo que, ansioso por evitar o que, perante os chineses, pudesse ser considerado impropriedade, insisti em me inclinar diante dele, ainda que, fosse lá pelo que fosse, isso me fizesse corar de modo risível. Esta descrição de minha atitude naquela época tem sua importância em relação ao que tenho a dizer agora sobre mantras, pois é necessário ressaltar que eu aceitava totalmente os elaborados ritos Shingon, impressionado por sua beleza e por confiar em que eles deviam ter um profundo significado simbólico, que se tornaria aparente com o correr do tempo. Isto, julgo eu, é base mais segura para adquirir verdadeiro conhecimento sobre tais assuntos do que a contrária — o preconceito de que, se alguma coisa parece terrível e sem sentido em termos de sua própria cultura, deve necessariamente ser assim. Com paciência, aprendi a entrelaçar meus dedos para formar mudras (gestos rituais) e recitar mantras, embora, naquele momento, eu só os confundisse, em minha ignorância, com encantamentos mágicos. Além de Ta-hai, outros dois, tendo um benevolente interesse pelo jovem neófito inglês, tomaram- me especialmente sob sua guarda — Pun Yin-ta, a quem os associados mais jovens chamavam de Irmão Mais Velho, e um parente dele, que parecia ser geralmente denominado como Quinto Tio. Com a ajuda deles, aprendi o mínimo do aspecto formal dos ritos, a fim de poder participar sem muito embaraço. Ao entrar na sala do santuário, primeiro ficávamos de pé diante de uma janela e executávamos alguns mudras purificadores, cada qual com seu mantra adequado, que tanto ressoava aos meus ouvidos quanto agitava a minha mente. Depois, ante o santuário, inclinávamos a cabeça até o chão, três vezes, antes de sentarmos de pernas cruzadas nas almofadas. Junto do altar baixo sentava-se o principal celebrante (com freqüência era o Quinto Tio), de modo que o incensório e outros instrumentos rituais ficavam confortavelmente ao alcance. De um lado ficavam os músicos que deveriam acompanhar o ritual com clarineta, citara (tocada pelo Irmão Mais Velho), tangendo instrumentos e um tambor. Começando com um cantochão melodioso ligado à queima do incenso e terminando com um mantra final, o rito principal durava mais ou menos uma hora. Algumas passagens da liturgia eram cantadas; outras, inclusive os mantras, salmodiadas ou moduladas, mas de maneira pouco semelhante ao cantochão que forma parte dos rituais católico ou ortodoxo. Os mantras, que em geral eram recitados 3, 7, 21 ou 108 vezes, dependendo, em parte, de sua extensão, eram todos expressos na estranha linguagem nem chinesa nem realmente indiana, da qual dei um exemplo; eram acompanhados de complicados gestos que os outros faziam com graça encantadora, enquanto meus dedos, não tendo a agilidade chinesa, traíam minha timidez. A liturgia era tão bonita que, mesmo não entendendo até então o seu significado, eu aceitava de bom grado o tormento da cãibra nas pernas. A dor me distraía miseravelmente, mas eu permanecia fascinado até o momento em que tinha de lutar para me pôr de pé a fim de cumprir a tríplice prostração final. Eu gostaria de poder oferecer uma narrativa lúcida do significado íntimo desses ritos, que conferiam ao rosto dos outros participantes a expressão de quem vive profundas experiências espirituais. Infelizmente, não freqüentei as reuniões durante o tempo suficiente para alcançar o ponto de compreendê-las intuitivamente; e, conquanto meus amigos fizessem o máximo para explicar o texto da liturgia, meu conhecimento do chinês (ou antes, do dialeto cantonês falado em Hong Kong) era então rudimentar para que eu pudesse fazer muito progresso. O Quinto Tio e os outros procuravam pacientemente me instruir em seu inglês de sotaque tão agradável, mas a matéria era difícil, e muito do que conseguiram transmitir-me eu esqueci depois, devido à minha subseqüente preocupação com as formas do budismo mais puramente chinesas (e, mais tarde, tibetanas). O propósito principal dos ritos era promover a intuição mística de dois campos interpenetrantes da consciência, o relativo e o absoluto; os mantras e os mudras faziam parte dos meios pelos quais os ritos externos criavam uma profunda experiência intuitiva dos mistérios que simbolizavam.
Entretanto, uma vaga noção do poder dos mantras me foi conferida pela recitação, 108 vezes, de uma única sílaba — BRONG. Num certo ponto da liturgia, o tambor voltava a ressoar e, a cada batida, ele emitia um som profundo, BRONG! BRONG! BRONG! Enquanto estes 108 gritos repercutiam, havia uma invasão sobrenatural de tranqüilidade. Minha mente, então já totalmente esquecida das dores nas pernas, elevava-se e entrava num estado de extática serenidade. Essa transição, que minha consciência estava destinada a sofrer, em maior ou menor medida, como resposta a outros mantras, é algo que só se pode compreender através da experiência; nunca pode ser captada em palavras. Naquele momento, a experiência era tão nova e, de certo modo, tão dilacerante, que a volta a um estado normal de consciência trazia consigo algo do terror que alguém sentiria ao recuar da beira de um abismo infinito! Nenhum dos outros mantras que repetimos naquelas sessões produziu o efeito assinalado em mim, de modo que cheguei a atribuir a magia, não ao mantra, mas às batidas do tambor — concepção errônea que só foi esclarecida muitos anos mais tarde.
Sempre que o interroguei sobre o significado, o propósito ou a ação dos mantras, Ta-hai, que mal falava inglês, deixava que o Quinto Tio explicasse. Já havíamos tido uma conversa sobre o assunto, mais ou menos assim:
"Tio, durante o fa (rito), há algumas partes que eu penso serem chamadas de chou (mantras). A maneira de as recitar é tão estranha; a linguagem nem parece chinesa. Não seria japonesa, seria?"
Sorrindo largamente, com os olhos enrugados de bom humor, ele pensava um momento e depois emitia alguma horrível palavra como "Hongcanjapchinsanskese", enquanto todas as pessoas próximas, depois de, por um momento, mostrarem confusão, caíam na risada.
"O que é que isso quer dizer?"
"Ah! Ah! Isso quer dizer que os sons que você ouve são a maneira cantonesa de Hong Kong de pronunciar as palavras chinesas escritas há milhares de anos na forma cantonesa-japonesa do Mestre Lai, de maneira que podemos saber que sons os monges indianos produzem quando usam mantras sânscritos! Talvez os fantasmas dos monges indianos se surpreendessem se viessem aqui e nos ouvissem. Talvez não reconhecessem uma palavra, hein, Ah Jon?"
Acontece que o pequeno gracejo do Tio continha um importante princípio, no qual pensei muito enquanto me preparava para escrever este livro. Mesmo entre pessoas instruídas há muita gente que pensa que, para ser eficaz, o mantra depende das vibrações que desperta e, portanto, de uma enunciação correta. Se assim fosse, na verdade, os mantras sânscritos pronunciados por chineses, tibetanos ou japoneses dificilmente poderiam ser eficazes, pois os sons que emitem quase não são reconhecidos em sânscrito! Assim, SVAHA em sânscrito se torna SOHA em chinês e tibetano, SAWAKA em japonês. De igual modo, AUM se transforma em OM, UM e até em UNG, ONG ou ANG em várias línguas e dialetos e, no entanto, permanece maravilhosamente eficaz quando as condições mentais que governam o uso das sílabas mântricas são observadas com correção. Segue-se daí que é preciso aceitar a afirmativa do Lama Govinda, de que o verdadeiro poder do mantra reside menos no som do que na mente de quem o emprega. Isto, sem dúvida, é verdade total quanto aos mantras usados no decurso da contemplação iogue, ainda que não seja verdade quanto aos mantras usados para certos propósitos diferentes.
Noutra vez em que falei com o Quinto Tio sobre o assunto, fiz uma pergunta que aqueles que tudo ignoram sobre o processo dos mantras costumam fazer com boa dose de ironia. "Tio, como podem palavras que não têm o menor significado até mesmo para a pessoa que as pronuncia ser de qualquer utilidade? Como podem auxiliar o progresso espiritual? É certo que não podemos esperar que forças sobrenaturais respondam apenas às pessoas que a elas se dirijam numa linguagem especial!"
Dessa vez, ele não sorriu. Tentando encontrar um modo de exprimir seu pensamento em inglês, replicou gravemente: "As palavras que têm significado só para o uso comum — não têm muito poder e atrapalham o caminho, como rochedos que viram um barco. As palavras com muito poder não demonstram seu significado real — é melhor esquecer seu significado e manter a mente livre."
Duvido que eu tenha compreendido tudo exatamente, naquele momento, mas agora sei que ele procurou comunicar algo do profundo mistério que existe na essência da questão. Naquele tempo, tive de continuar confiando na sabedoria da crença de meus amigos na eficácia dos mantras. Foi o que fiz, com mais boa vontade ainda, após ter descoberto por acaso que o Quinto Tio, longe de confiar cegamente ou por repetição do que ouvia dizer, era, à sua maneira, um especialista em mantras; com o emprego dos ritos que incluem os mantras, ele havia conseguido uma extraordinária vitória sobre um dos mais formidáveis demônios conhecidos pelo homem! Tal como contei detalhadamente no meu livro anterior, The Wheel of Life [A Roda da Vida] ele se sentia curado, pouco antes, do vício do ópio, ingerido a vida toda em doses maciças e diárias, sem recorrer à ajuda médica ou ao método do abandono gradual. Renunciou à droga, súbita e totalmente, confiando apenas nos recursos de sua própria mente, fortalecida pela realização dos ritos de ioga durante muitas horas, todos os dias, num período de vários meses. Durante esse tempo todo, ele havia permanecido surdo aos apelos de seus lacrimosos parentes, que lhe afirmavam que sua obstinação em recusar tratamento médico lhe custaria a vida. Os terríveis efeitos causados pela súbita abstenção de doses maciças de ópio, longamente usadas, são agora tão conhecidos que a façanha do Quinto Tio será mais entendida agora do que o foi quando saiu meu livro anterior; sobretudo no caso de pessoas idosas nas quais esses efeitos, ainda que mitigados por tratamento clínico, em geral eram fatais. Mais notável é o fato de que, apesar do choque em seu sistema nervoso, resultante de abrupta abstenção após mais de trinta anos de vício, o Tio recuperou totalmente a saúde e, daí por diante, não foi perturbado pelo desejo de voltar a ele.
Certa vez, quando passamos a noite com um grupo de amigos num templo taoísta nas montanhas de Kwangtung, alguém que nada sabia sobre o passado do Tio sugeriu que preenchêssemos as horas de ócio com um pouco de ópio; logo depois nos foi trazida uma bandeja de implementos, e o Tio passou umas duas horas junto à lâmpada, preparando os cachimbos para os outros com as próprias mãos.
Sorria com benignidade, enquanto nuvens de fumaça, outrora sedutoras, elevavam-se acima da esteira; ele estava perfeitamente à vontade, enquanto seus dedos giravam a vasilha de prata, à medida em que as pílulas de ópio eram seguradas acima da lâmpada; tagarelava sobre isso ou aquilo, sereno, imperturbado por algo que, para outros em sua situação, deveria ser uma tentação muito mais cruciante do que a sofrida por um alcoólatra reabilitado, que servisse num bar sem que ninguém o impedisse!
Quando, secretamente envergonhados por termos permitido que ele fosse submetido a tal prova, exprimimos nossa admiração, ele nos respondeu, rindo, que seu santuário particular tinha sido a melhor das clínicas, e o poder dos mantras, o melhor dos remédios!
Voltemos às conversações anteriores sobre os mantras: chegou o momento em que minha mente, educada à maneira ocidental, rejeitou essas palavras sem sentido, imbuídas de poder. Quanto mais eu pensava nessas passagens da liturgia recitadas num sânscrito corrompido, mais chegava a pensar que isso envolvia um grande elemento de auto-sugestão. Então, certa noite, as recitações mântricas no santuário me deixaram num estado estranhamente exaltado, que não podia ser atribuído apenas à magia sensual produzida pela música misteriosa, pelo cantochão sonoro e pelo perfume de sândalo incensado. Como de costume, eu e alguns dos nossos amigos ficamos algum tempo na varanda, proseando calmamente. Ao notar minha expressão exultante, alguém observou de modo aprovador: "Ah Jon está começando a encontrar seu caminho."
Os outros sorriram, mas eu disse: "Estou perplexo. Os ritos têm a intenção de nos ajudar a conseguir um estado de percepção da verdadeira natureza da mente — mente que não é de vocês nem minha, mas a manifestação do ilimitado Tao. Há pouco me parecia assim, porém pode ter sido apenas o efeito de tanta beleza e por eu ter sido dominado pela serenidade das pessoas que me cercam."
Delicadamente, eles me interrogaram mais e, de certo modo, deixei escapar a opinião de que os mantras e mudras nada mais podiam senão acrescentar uma agradável sensação de mistério ao ritual. Diante disso, um homem idoso, cujo nome não recordo (mas tenho clara lembrança de sua túnica de seda branca brilhante, que ainda não tinha adquirido o agradável tom amarelado conferido pelo tempo), disse concisamente em cantonês: "Os jovens devem aprender a andar, antes de dar opiniões sobre como voar."
Essa gélida reprovação, partindo de alguém que, mais de uma vez, havia sugerido a impropriedade de se admitir um não-iniciado nos ritos, tornou impossível o prosseguimento do assunto; mas um homem mais moço, com pena de me ver tão humilhado, fez questão de me alcançar quando eu ia a caminho da primeira parada de ônibus, e me convenceu a ir com ele a uma "queima noturna" (expressão cantonesa que significava fazer ligeira refeição), numa casa de chá próxima. Comendo talharim, ele se tornou eloqüente sobre o assunto "mantras":
"Em geral as pessoas, Ah Jon, usam os mantras como magia para ter sorte, ou afastar doenças, ou outros males. Talvez tenham razão ao agir assim, pois os mantras dão freqüentemente resultado, mas eu lhe peço para não acreditar nisso. Suplico-lhe que acredite que eles são da maior ajuda na alteração dos estados de consciência. O que eles fazem é serenar sua mente para que ela não corra atrás dos pensamentos."
Ele continuou explicando que, sendo vazios de sentido, os mantras não promovem pensamentos conceituais, como as orações, as invocações e coisas semelhantes estão aptas a fazer; e que, como cada mantra possui uma misteriosa correspondência (ele não conseguiu explicar que espécie de correspondência) com as várias potencialidades profundamente embutidas em nossa consciência (talvez quisesse referir-se ao subconsciente, ele poderia nos fazer saltar para um estado que, de outra maneira, seria difícil de alcançar. Não me lembro de suas palavras textuais, mas sei que ele foi o primeiro a exprimir uma idéia que, mais tarde, foi amplamente confirmada pela minha própria experiência. É por isso que recordo a ocasião de maneira tão vivida. Sentado comigo no andar superior de um ônibus que se dirigia para o centro de Hong Kong, ele continuou explicando que era inútil aplicar palavras com significado em qualquer cerimônia religiosa, pois as palavras incitam o pensamento dualístico, que impede a mente de entrar num estado verdadeiramente espiritual. Suas últimas palavras, pronunciadas em voz bastante alta — quando eu me preparava para saltar — foram: "As pessoas que rezam com palavras Não passam de principiantes. Não faça isso!" Alguns passageiros que entendiam inglês olharam para ele como se o considerassem um tanto louco, e eu mesmo fiquei pasmo com sua veemência tão pouco chinesa, mas agora sei que sua mente era bem sadia.
O domínio que o Quinto Tio possuía do idioma inglês, apesar de muito adequado para quase todos os propósitos, era insuficiente para que eu tivesse certeza de como ele considerava os mantras, mas hoje penso que ele também acreditava que o som das sílabas mântricas criava movimentos correspondentes nas profundezas da consciência de quem o usava. Essa ênfase sobre o som foi especialmente perturbadora no seu gracejo com a palavra "Hongcanjapchinsanskese". Penso que ele talvez se referisse a uma espécie de "som ideal" — isto é, a uma imagem mental do som OM, em vez dos sons determinados que os indivíduos emitem. Infelizmente, o Quinto Tio morreu muitos e muitos anos antes que essa questão me ocorresse.
Um mês ou mais após essa memorável viagem de ônibus, recebi a primeira das duas principais iniciações Shingon, mas me beneficiei menos do que havia esperado; o manual esotérico ao qual então tive acesso era, sem dúvida, escrito em chinês, e eu não podia entender muita coisa, mesmo com a ajuda dos meus amigos que falavam inglês. Além do mais, meu estudo do Shingon encerrou-se abruptamente, quando me tomei de súbito entusiasmo, por influência de Ta-hai, por outro ramo do budismo — o Vajrayana. Este novo e fascinante estudo tinha muita relação com os mantras, mas de novo tive muita dificuldade com os textos chineses. Depois de algum tempo, a única consideração que me impediu de voltar à total descrença na eficácia dos mantras foi a fé na sabedoria de Ta-hai e de outros; teria sido presunção de um moço educado numa cultura tão alheia à deles pôr de lado convicções de homens tão sábios.
Entre os mantras Shingon que aprendi, naqueles primeiros tempos, há um assim: ONG KALO KALO SENDARI MATONGI SAWAKA. Não posso lembrar a que propósito ele se presta, mas provou ser particularmente válido para aliviar o medo e a histeria em outras pessoas. Se o efeito dos mantras fosse limitado ao poder de confortar e aliviar, teriam sido, espiritualmente, de significado menor do que o da magia branca; mas sei que meus amigos acreditavam que há mantras e mantras, numa ordem ascendente, desde remédios para curar doenças temporárias até o enevoado ápice, além da visão dos que não são místicos consumados. Naturalmente, os grandes mantras não eram ensinados aos neófitos — não é preciso uma escavadeira para esmagar uma formiga, nem se usa um palito de dentes para arpoar uma baleia!
Pouco antes de partir de Hong Kong rumo à China, um evento de grande significado na minha vida — ao qual, no entanto, não dei muita importância no momento — abriu caminho para alguns preciosos conhecimentos de contemplação iogue, incluindo a prática de mantras e muitas outras coisas, das quais eu só tiraria vantagem mais de vinte anos depois. Foi a minha primeira iniciação na seita Vajrayana, que há muito tempo vem sendo o principal repositório da sabedoria iogue, há quase dois mil anos propalada pela grande universidade monástica da índia, Nalanda. Quando Ta-hai, meio abruptamente, começou a me persuadir de que seria melhor procurar, para além de Shingon, os métodos para alcançar uma rápida realização mística, cessaram meus estudos da doutrina Shingon de dois domínios de consciência interpenetrantes, o Garbhadhatu (Domínio Relativo) e o Vajradhatu (Domínio Absoluto). O entusiasmo de meu amigo pelo que (com razão, acho eu) ele considerava o mais rico e mais largamente variado campo de conhecimento da ioga possuído pelos lamas do Tibete arrebatou-me, apesar de causar espanto e alguma desaprovação entre muitos de meus amigos. Naquele tempo, o Vajrayana era quase desconhecido em Hong Kong e no sudeste da China em geral, mas prevalecera em grande escala no norte, uma vez durante a Dinastia Mongol (1280-1368 d.C), e de novo na Dinastia Ta Ch'ing, estabelecida pelos manchus (1644-1911). Até que ponto os estudos anteriores do meu amigo o tinham levado nessa direção, não sei; o que conduziu o assunto a um ponto culminante foi a chegada a Hong Kong de um famoso lama tibetano, capaz de ensinar diretamente em chinês, em vez de o fazer por intermédio de um intérprete (com freqüência, incompetente). Então, como agora, essa era uma capacidade rara. Cedendo à persuasão de Ta-hai, o lama concordou em permanecer em Hong Kong para instruir um grupo de chineses leigos que, sendo já bem versados na doutrina budista e nas práticas da ioga, em breve poderiam estar preparados para uma iniciação abrangente que lhes permitisse realizar as iogas que ele ensinasse, mesmo após sua partida para Lhasa. Mais uma vez, graças à calorosa proteção de Ta-hai, o jovem inglês Ah Jon foi aceito nesse círculo místico, apesar de pouco qualificado para essa honra.
Tendo obtido a permissão do lama para que eu fosse admitido, Ta-hai exclamou, exaltado, em cantonês: "Os professores trazidos do Monte Koya por Mestre Lai, ainda que excelentes, são menos do que a décima parte do que vamos aprender com este lama tibetano." Mas sobre esse ponto os membros da Floresta de Reclusos ficaram divididos: alguns, ansiosamente interessados pelo curso de estudos do lama; outros, inclusive o Quinto Tio e o Irmão Mais Velho, portavam-se com cautela. O curso prosseguiu, dia e noite, durante semanas. Prejudicado pelos problemas de linguagem e por meu trabalho — eu havia começado a lecionar numa escola nos confins da península de Kowloon — fiz poucos progressos, mas me permitiram receber a iniciação que formava o ponto culminante de nossos estudos. Assim como Ta-hai ficara comovido ao conhecer um budista ocidental (raro espécime na China daquele tempo), assim aconteceu com o lama. Ambos, por sua vez, concederam-me privilégios sem precedentes. O lama, pondo de lado meus modestos protestos com um sorriso, observou que, ainda que eu levasse alguns anos para poder utilizar a iniciação, ele havia "plantado algumas sementes" em minha mente, as quais poderia esperar que florescessem na estação adequada.
A importância dessa iniciação no atual contexto foi que, além de me abrir caminho para estudar a Vajrayana nos anos seguintes, impediu-me de ceder ao crescente ceticismo com relação aos mantras, pois o lama foi muito persuasivo sobre essa matéria. Mesmo assim, apesar de guardar na memória, como era preciso, os mantras sânscrito-tibetanos requeridos pela iniciação, não pude reunir mais do que uma meia-crença em seu poder sobre a mente. Logo após a partida do lama, viajei para o continente chinês, por onde vaguei durante muitos anos, aceitando emprego para lecionar, quando estava em crise aguda de dinheiro, ficando meses, de vez em quando, em mosteiros budistas ou taoístas, e às vezes voltando a Hong Kong para visitar meus amigos queridos.
Infelizmente, há anos que o Quinto Tio, Ta-hai e o Irmão Mais Velho faleceram. É sobretudo a Ta-hai que devo o interesse permanente dos anos posteriores pela contemplação iogue Vajrayana, porém meu débito para com todos é imenso. Seria muito agradável saber que minhas obras sobre budismo chinês e tibetano representam o florescimento, não sem algum mérito, dos ensinamentos devido à imensa bondade demonstrada a Ah Jon, jovem inglês que os procurou de mãos vazias.