Mantras, palavras sagradas de poder

John Blofeld · Capítulo 7 de 8

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Mantras, palavras sagradas de poder

Capítulo 6

 

PALAVRAS DE PODER

Nos capítulos anteriores, além de descrever como fui levado a um meio onde as artes mântricas ainda florescem, estendi-me principalmente sobre a função dos mantras, pouco dizendo a respeito de sua natureza. Já esclareci que, entre os tibetanos, sua função primordial está relacionada com a ioga primitiva; e já me referi ao seu uso para obter resultados aparentemente externos à mente de quem os controla, tais como alívio nas doenças, mas sugeri que sua influência em tais casos pode ser mais subjetiva do que a princípio pode parecer. Mencionei, também, apesar de não ter investigado, a afirmativa de muitos tibetanos de que os mantras podem realmente conseguir resultados miraculosos, tais como causar ou evitar tempestades de granizo. No momento, deixarei esta terceira possibilidade e me contentarei com as duas asserções de que os mantras podem ser usados à maneira iogue com efeitos espantosos, e de que algumas vezes parecem operar de modo totalmente objetivo, em parte ou no todo. Surgem agora duas questões:

Qual é a natureza dos mantras e a verdadeira explicação para o seu poder?

Se, como se supõe com freqüência, é apenas a fé na eficácia que lhe confere poder, haverá real necessidade de uma grande linha de mantras?

QUALQUER mantra produziria todos os resultados realizáveis, se um adepto adequadamente treinado estivesse convencido de sua eficácia para todos os propósitos?

A natureza exata dos mantras é matéria tão difícil de esclarecer, que me parece melhor começar revendo o assunto num contexto global, pois há poucas comunidades no mundo nas quais a crença generalizada nos poderes transformadores e criativos da palavra nunca se tenha arraigado. Com relação à poderosa força do shabda (som sagrado), a doutrina hindu, ensinada por algumas seitas até hoje, tem paralelos antigos em conceitos tais como o Logos, a harmonia das esferas e assim por diante. Possivelmente, o dictum pronunciado por Confúcio, há cerca de dois mil e quinhentos anos, sobre o fato de ser a música essencial para a governança do Estado, possui um significado mais transcendental do que em geral se aceita. Há nos escritos dos antigos muitas passagens curiosas que atribuem um estupendo e até um supremo poder criador à divina energia do som. Em escritos ulteriores, tais passagens tornam-se escassas; com exceção de certas seitas tântricas hindus, diminuiu a crença de que uma suprema energia do som produziu a criação do universo; mas há vestígios dessa crença, ou de outras análogas sobre a atribuição de poder criador, transformador ou destruidor de pronunciamentos esotéricos, que sobrevivem abrangendo desde os mantras até palavras de feiticeiros. Narro alguns exemplos ao acaso, tanto passados quanto presentes:

Há uma figura Cabalística da Árvore da Vida que, representando o universo, tem vinte e dois membros, cada um dos quais representa uma letra do alfabeto hebraico, à qual é atribuída uma hierarquia correspondente de ideias. Essa noção dos sons de um alfabeto, que representa magicamente a totalidade da sabedoria, faz lembrar o Mantra da Transmutação da Fala, já descrito. Aprendemos com G.R.S. Mead que a liturgia mitraica continha fórmulas mágicas consideradas como "sons de raiz", que davam origem a certos poderes divinos. 0 termo "sons de raiz" traz logo à mente os bija-mantras, pois "bija" significa "semente". Novalis conta-nos que a fala das noviças de Sais era um canto maravilhoso, cujos tons penetravam o íntimo da natureza, "dilacerando-o"; e cujas vibrações "produziam imagens de todos os fenômenos do mundo". A evocação de imagens é precisamente a função dos mantras usados na ioga contemplativa; e a desintegração de entidades, em resposta a palavras de poder, talvez se fundamente no ponto de vista, que será examinado no capítulo seguinte, de que cada objeto está relacionado com um som sutil que, pronunciado, pode destruir, modificar ou dar vida ao objeto correspondente. Se existem realmente iogues com o poder de desintegrar objetos ao pronunciarem mantras apropriados, o segredo deve estar no exemplo de objetos desintegrados por alguma sutil contrapartida de vibração física. A reversão desse processo mágico seria responsável pelo aparecimento de objetos surgidos do nada. Sinto-me inclinado a mencionar essa possibilidade, apesar de não estar absolutamente convencido de que, mesmo supondo que ocorram realmente milagres, a explicação esteja nessa direção.

A profundidade da passagem inicial do Evangelho de São João, talvez raramente compreendida, não é o testemunho único da existência de uma crença, outrora predominante, de que o universo nasceu do som; até hoje podemos encontrar na índia os que afirmam que o universo surgiu em resposta à criativa sílaba OM, e em tempos antigos houve provavelmente muitas culturas para as quais a influência de crenças similares foi decisiva. Dispersas pelas obras dos gregos gnósticos, há passagens que levam a essa conclusão, e as liturgias das igrejas cristãs contêm o que parecem ser remanescentes claros, apesar de meio superficiais, do conhecimento concernente às sutis qualidades do som. A queda dos muros de Jericó foi por vezes encarada sob esta luz, e não é raro encontrar pessoas que afirmam que "amém" e "aleluia" têm (ou tiveram outrora) um significado mântrico. Certamente, é estranho que essas palavras fossem deixadas sem tradução em contextos em que tudo o mais foi reproduzido em linguagem moderna. Se nenhuma virtude mântrica foi jamais ligada ao som do "amém" (que a Enciclopédia Britânica garante não ser mais do que um termo de concordância, confirmação ou desejo), não haveria razão para não ser traduzido. Ouvi dizer que na liturgia da Igreja Ortodoxa Grega, onde aparece na forma arameen ou ahmeen, seu uso é muito próximo do dos mantras. O caso do "aleluia" é de certo modo similar; pois, ostensivamente, não significa mais do que "Deus seja louvado" (Yaveh, o Senhor); o fato de terem conservado essa palavra na sua forma original sugere que sua virtude é considerada inerente ao som.

Será que o costume hebreu de nunca pronunciar o verdadeiro nome da divindade reflete o medo pelo poder das palavras sagradas? Talvez seja simplesmente respeito, como os chineses evitam palavras que acaso formem parte do nome paterno, mesmo quando sejam usadas comumente com kuang (luz) ou wen (literatura). Por outro lado, pode ser devido à crença de que o verdadeiro nome de Deus é uma palavra de terrível poder que poderia destruir quem a empregasse — conceito que também tem uma contrapartida chinesa, exemplificada pela deliberada pronúncia errada da palavra "four" em cantonês, por ser homônima do termo que significa "morte" — palavra de mau agouro, cuja elocução poderia acarretar conseqüências fatais.

Também ficamos pensando: por que a Igreja Católica prescreve múltiplas repetições do Pai-nosso e da Ave Maria se o fato de se recitar essas orações não tivesse um significado que ultrapasse o sentido? Pois o sentido, longe de ser valorizado pela repetição, é por ela atenuado. Haverá talvez algum sinal de sentimento em relação ao poder do som na tristeza despertada em alguns católicos pelo costume recém-introduzido de se rezar a Missa em vernáculo, em vez de o fazer em latim? Serão consideradas como diminuídas algumas virtudes sacramentais, na esteira dos conhecidos sons latinos? Dentro do rebanho do Islã, será derivado da crença na virtude do som do sagrado nome o costume de o dervixe repetir, horas a fio, o nome de Alá? Deduzir destes exemplos vestígios de um reconhecimento, outrora largamente difundido, do poder mântrico, talvez seja ir longe demais, mas não podemos deixar de fazer essa indagação.

As histórias de feitiçaria e magia dão muito valor às palavras de poder — abracadabra é apenas uma entre uma quantidade infinda de palavras mágicas, às quais são atribuídos efeitos miraculosos. Por terem tais feitiços intenções indignas, o princípio básico não fica alterado. Além do mais, a feitiçaria muitas vezes floresce como remanescente de uma religião outrora respeitável, agora adulterada pela supressão e conseqüente substituição de seus ministros categorizados por camponeses quase analfabetos, em lugares afastados das sedes de cultura e autoridade, de modo que talvez as palavras mágicas tenham origem em palavras sagradas de poder. Nem os mantras nem os feitiços podem ser bons ou maus em si mesmos; como espadas, podem ser postos a serviço de bons ou maus propósitos; a eficácia que possam ter depende de um acompanhamento mental, pois seria ridículo supor que palavras pronunciadas distraidamente sejam mais eficientes do que a tentativa de uma criança para apressar a mudança de uma luz no tráfego para verde, gritando abracadabra. Entretanto, não vale dizer que as palavras não têm importância para os acontecimentos; pois, a não ser que sua pronúncia seja uma fonte ou veículo de poder, para que deveria haver palavras mágicas?

Todos os amigos aos quais escrevi indagando sobre analogias ocidentais com o Budismo e com os mantras hindus citaram a Prece a Jesus dos adeptos mais inclinados à mística dos ramos grego e russo da Igreja Ortodoxa.

Pessoalmente, considero tal oração mais próxima dos mantras do que das fórmulas nien-fu (nembutsu ou japa) anteriormente descritas. No entanto, como é provável que essas fórmulas operem de modo muito semelhante ao dos mantras, e recebam seu poder de uma fonte comum, a Prece a Jesus é de grande interesse neste contexto. Agradeço a dom Sylvester Houédard pelas notas eruditas nas quais se abeberam os comentários seguintes.

A Prece a Jesus é uma fórmula mística que diz: "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de nós" (as palavras "de nós" são às vezes substituídas por "de mim, pecador"). Seja ou não resultado da inspiração sufi, ou possivelmente de influência mais indireta originada em fonte hindu ou budista, ela foi usada no monte Athos dentro de um contexto iogue assim como concentração na respiração e nas batidas cardíacas, fixação do olhar e evocação da luz interior; com freqüência, ela é usada mais simplesmente como um foco de concentração iogue, sendo recitada verbal ou mentalmente sem interrupção. Das muitas referências a essa oração nos escritos místicos cristãos, há uma pelo Pseudo- Crisóstomo que, de imediato, relembra a ioga Yidam. É assim, em parte:

De manhã à noite, repita... (a Prece a Jesus) Enquanto come, bebe e assim por diante Até que ela penetre no coração, Desça às profundezas do coração... O coração para absorver o Senhor, O Senhor para absorver o coração Até que sejam uma unidade. Você é também o templo e o lugar Onde praticar a oração.

Um relatório encantador sobre o uso tradicional dessa oração (sem os acompanhamentos especiais acima mencionados) está contido na autobiografia de um simples místico russo que fez dela o centro de sua vida; este livro foi traduzido para o inglês por R. M. French sob o título de The Way of a Pilgrim . Passaram-se muitos anos desde que o li; mas, se minha memória merece confiança, o peregrino se dispôs a recitar a oração, dia e noite, sem interrupção, de modo que ela continuava em sua mente mesmo quando conversava com outros ou cuidava dos seus afazeres. Sua narrativa sobre os maravilhosos resultados combina exatamente com o que escreveram devotos chineses e japoneses sobre a invocação do Buda Amitabha. A leitura do que ele conta é suficiente para desmoralizar a idéia de que a repetição de uma simples fórmula, dia após dia, ano após ano, é uma prática estéril, ainda menos uma prática aloucada. Percebe-se nela a força latente e a mesma elevação espiritual exaltada que me fizeram ficar alegremente humilde na presença dos santos devotos do Buda Amitabha.

A dom Sylvester devo também a seguinte informação sobre uma fórmula meio parecida, usada pelos sufis em busca de comunhão mística com Deus. É conhecida como Ismu'z Zat (Nome da Essência Divina) e uma versão dela diz: "Hu El-Haiy El-Quaiyum" (Ele, o Vivo, o Auto-Subsistente). Ao passo que isso faz lembrar as fórmulas nien-fu, há também sufis que recitam a sílaba "Hu" ou "Huwa" apenas, mental ou oralmente, sem interrupção, prática tão próxima da recitação da sílaba mântrica OM que ficamos a pensar se é correto traçar uma linha divisória entre nien-fu e a prática mântrica.

Recentemente, o maior interesse pelo uso de mantras hindus e budistas fez com que o termo sânscrito "mantra" tenha passado para as línguas modernas, mas tem sido empregado de forma um tanto incorreta. Para falar adequadamente, os mantras, em contradição com outras invocações consideradas sagradas (que podem, no entanto, como tal, ser consideradas por agirem mantricamente), são arranjos de sílabas sagradas, variando de uma até vários milhares de sílabas, cuja eficácia não depende em absoluto de seu significado verbal, ainda que alguma espécie de sentido possa ser extraída delas. OM MANI PADME HUM é um bom exemplo de mantra, do qual apenas a primeira e a última sílabas têm realmente um sentido verbal, embora não dê mais do que uma vaga sugestão .de sua verdadeira importância.

Mesmo naquelas partes do mundo budista onde a influência Vajrayana tem sido virtualmente nula, formas de práticas quase mântricas são muito usadas, com mais freqüência do que supõem muitos ocidentais convertidos ao budismo. De fato, até mesmo a seita Ch'an (Zen), que sempre é citada pelos escritores ocidentais como rigidamente oposta a ritos, recitações e outras práticas litúrgicas, faz uso dos mantras; por exemplo, os monges de Ch'an recitam diariamente o Menor Coração Sutra, obra de imensa profundeza, que termina com as palavras GATÉ GATÉ PARAGATÉ PÀRASAMGATÉ BODHI SVAHA. Isto é descrito nesse sutra como "o mantra inigualável, o aliviador de todo sofrimento" e, apesar de ter um sentido mais ou menos inteligível (Longe, longe, para bem longe, bem longe — Iluminação!), é usado sem referência ao seu sentido, sendo de fato uma invocação de Prajnaparamita, corporificação da sabedoria transcendental. Similarmente, tem sentido apenas superficial a referência aos budistas Theravadin do sudoeste da Ásia, como se eles não dessem valor aos mantras. 0 Sutra Mangala, cantado em casamentos, inaugurações e em outras ocasiões festivas, é um entre vários textos cuja recitação é considerada auspiciosa, produtora de boa sorte. Estes e os Parittas são recitados para afastar doenças e, sem serem exatamente mantras, são muito estimados por seu efeito mântrico. Assim, de certo modo diariamente é recitada a fórmula para buscar refúgio na Tríplice Jóia, invariavelmente cantada três vezes. A ênfase na múltipla recitação de fórmulas sagradas indica que alguma virtude, além do sentido comunicado, é-lhes inerente, que elas são portadoras de bênção ou afastam popularmente o mal; noutras palavras, que elas têm as exatas qualidades que são atribuídas aos mantras. O fato de que essa atribuição de poder semelhante aos mantras não é (ou anteriormente não era) de todo inconsciente, apóia no uso que os Thai Theravadins fazem do termo suat mon (que significa literalmente "recitando mantras"), quando se referem a essa prática, pois "mon" é a contração da palavra "mantra". O uso de mantras, ou de outras fórmulas verbais consideradas como imbuídas de poder, é uma característica daqueles tipos de prática religiosa essencialmente místicos.

Das três categorias em que divido os mantras — isto é, os subjetivos, os aparentemente objetivos e os realmente objetivos em sua maneira de operar —, é certo que a primeira e provavelmente a segunda realmente operem por meio de processos criativos, transformadores e destruidores, que acontecem dentro da mente de quem os opera. Apenas os que ficam na terceira categoria têm uma semelhança mais do que superficial com as magias. Dos outros dois, a primeira categoria é superiormente importante. Hoje em dia, pelo menos, o ensinamento dos lamas sobre o assunto dos mantras é quase totalmente relativo ao seu uso na ioga contemplativa; eles tendem a abandonar outros usos por serem pouco importantes, não merecendo atenção continuada — não porque a crença no que poderíamos chamar de fenômenos sobrenaturais tenha diminuído, mas simplesmente em razão de sua preocupação única com o rápido desenvolvimento espiritual de seus discípulos. No nível popular, entretanto, os tibetanos têm enorme interesse pelo que são, ou parecem ser, efeitos objetivos realizáveis por mantras provavelmente considerados mais ou menos idênticos às palavras mágicas. Muito se ouve falar de mantras que são usados para afastar perigos e infortúnios, mas poucas pessoas parecem ter pensado na questão de saber se quem lida com mantras atinge a invulnerabilidade a certas doenças por ter entrado numa transformação interior ou se, na verdade, pode causar transformações em objetos externos ou em circunstâncias.

Não devemos tratar com escárnio essas crenças populares. Há provas mais do que suficientes para indicar que alguns dos efeitos "externos" atribuídos aos mantras realmente ocorrem. Os fatos aí estão mas, não obstante qualquer posição que se tome com relação a eles, certos aspectos permanecem obscuros. Por exemplo: não se pode duvidar de que os mantras são às vezes suficientes para a cura de doenças, seja do adepto ou de outra pessoa. Sei disso por experiência própria, pois obtive e testemunhei, se não curas, pelo menos alívio de doenças efetuado pelos mantras. No entanto, há lamas altamente conhecidos por sua habilidade iogue que sofrem penosamente de doenças periódicas como asma, que eu acredito seja de caráter "psicossomático", a ponto de ser suscetível de um tratamento subjetivo. Por que eles não se curam pela ioga? Será porque não podem ou porque são impedidos de o fazer devido a seu íntimo conhecimento sobre a ação da lei kármica, pela convicção de que o sofrimento é justo, e afastá-lo numa forma seria simplesmente adiá-lo para outra?

Sobre os mantras usados para tratar de grande variedade de doenças, os das Vinte e Uma Taras oferecem um exemplo abrangente. Já ouvi relatos devidamente documentados para que se possa duvidar de todos. Todavia acho difícil aceitar que os mantras possam causar incêndios, inundações ou amainar tempestades; ou forçar soldados — possivelmente demônios — a abandonar seus bárbaros desígnios. Entretanto, encontrei por acaso alguns artigos científicos que podem ser relevantes sobre o assunto. Segundo algumas autoridades, toda doença é fundamentalmente psicossomática; se é assim, então as curas mântricas causam menos surpresa. Além disso, existe o conceito da "tendência para acidentes", que relata desagradáveis circunstâncias externas ligadas a estados de espírito. Quando soubermos mais sobre o indivíduo propenso a acidentes, poderemos começar a vislumbrar os princípios baseados na operação dos mantras das Vinte e Uma Taras. Por enquanto, devemos buscar alguma espécie de explicação, que não seja total nem particularizada, sobre a concepção mística da mente, como fundamento, recipiente e essência de todos os fenômenos. Quando se aceita este ponto de vista, os mais espetaculares mistérios deixam de assombrar — ou, talvez, os mais triviais objetos e circunstâncias são revelados como mistérios da mais elevada ordem, resultando daí que nada quanto a mente possa conceber pareça totalmente improvável.

Ao ler sobre tibetanos e ao conversar com eles, chegamos a encontrar referências ao que comumente é considerado como poderes supranormais. Há muito aceitei o fato de que tais poderes podem ser desenvolvidos; pois pelo fato de raramente ou nunca serem exibidos com propósito de demonstrar sua existência, não se pode deixar de topar com tais exemplos quando se vive entre pessoas com elevado treino ióguico. O exemplo mais difundido, freqüentemente testemunhado, é o poder da telepatia; sem desejar fazê-lo em especial, muitos lamas bem-dotados demonstram, com seus discípulos, uma desconcertante capacidade para ler pensamentos ainda não-verbalizados, inclusive pensamentos que alguém nem sonharia em tornar audíveis, mesmo que tivesse tal oportunidade! Isso não deveria parecer estranho. Se a dedicação a toda uma vida de árdua prática iogue deixasse de produzir frutos notáveis, os tibetanos — povo muito prático — teriam abandonado suas práticas ascéticas, há séculos. Em assuntos desta ordem, é claramente difícil apontar com exatidão o significado dos mantras, pois eles constituem apenas um dos muitos fatores envolvidos no treino da ioga, e não podem ser divorciados dos processos psíquicos que acompanham sua recitação.

Por mais longe que alguém vá, tentando explicar tais assuntos em termos subjetivos, fica-se com um sólido saldo de efeitos mântricos que dessa maneira não podem ser explicados; ou nos devemos recusar a dar crédito ao fato de que eles às vezes ocorrem, ou então aceitá-los como miraculosos. De um ponto de vista não-iogue, este é o aspecto mais intrigante de todo este assunto. Nas obras de alguns dos primeiros missionários cristãos que escreveram relatos sobre a região do Himalaia e sobre o próprio Tibete, podem-se achar descrições de tais ocorrências extraordinárias, como o desaparecimento, a transformação ou a multiplicação de objetos materiais em resposta a pronunciamentos mântricos; e eu dei com um relato semelhante, escrito não há muito tempo por um membro da seita dos Adventistas do Sétimo Dia (ou Testemunhas de Jeová — não posso lembrar qual). Além do mais, há inúmeros relatos tibetanos sobre lamas capazes de façanhas como criar réplicas animadas de seus próprios corpos a fim de aparecer simultaneamente em duas localidades distantes. Nem devemos subestimar aquelas passagens da biografia do grande poeta-sábio Milarepa, que descreve miraculosas ocorrências durante o período anterior à sua regeneração, tais como produzir uma tempestade de granizo, que destruiu os perseguidores de sua família. Na verdade, conheci muitas pessoas, nem todas do Tibete, que afirmam ter testemunhado o acúmulo ou a dispersão de nuvens de chuva mediante habilidades mântricas; uma dessas pessoas foi o Residente Indiano em Sikkhim, alguns anos atrás; homem muito conhecido por sua sagacidade e erudição. Ele não é absolutamente da espécie de pessoa que inventa ou modifica histórias de milagres apenas pelo gosto de impressionar o auditório. Nunca ouvi os meus lamas desprezarem tais ocorrências como indignas de crédito; julgo que sua relutância em discuti-las comigo se devia ao sentimento de que minha curiosidade era um tanto repreensível, como a de um visitante ao qual fossem oferecidas pérolas e jade, mas insistisse com seus hospedeiros para que lhe mostrassem alguns brinquedos engenhosos e divertidos. Pondo de lado, delicadamente, minhas perguntas, eles me deixavam perplexo.

Se os meus lamas, de sabedoria inatacável, acreditavam quase certamente que os objetos externos podem sofrer a ação e até serem transformados pelo poder mântrico, penso que deve haver alguma base para essa crença. Teoricamente, é claro, isso implica em admitir que um iogue consumado, perseguido por um tigre, faria com que a fera diminuísse até ficar do tamanho de um gatinho ou desaparecesse de todo! Bem, minha credulidade não vai tão longe; no entanto, já tenho testemunhado algo (admito, muito menos sensacional) parecido com tal façanha; vi certa vez um cão furioso, ladrando, virar-se de súbito e retirar-se, com a cauda entre as pernas, em resposta a um mantra suavemente entoado, sem qualquer acompanhamento de natureza agressiva no som e no gesto! Deste modo, sinto-me tentado a aceitar um princípio, rejeitando suas conseqüências. Talvez eu não devesse rejeitá-las; minha firme convicção de que o universo é uma criação mental deveria logicamente acarretar o reconhecimento de que nada, em todo o campo dos fenômenos objetivos, é na verdade impossível para um adepto capacitado em manipular criações mentais. Entretanto, o máximo que posso fazer nesse sentido é não trancar minha mente com firmeza contra certas possibilidades só porque me impressionaram de modo bizarro.

Era natural que os meus lamas desencorajassem a simples curiosidade ou o interesse acadêmico por esses assuntos; eles achavam que um estudioso de ioga devia ficar totalmente ocupado com o uso prático do que tivesse aprendido. Isto me obrigou a depender da observação casual ou até da simples especulação. No capítulo seguinte, ofereço — de modo muito tentador — as sugestões de que façanhas mântricas realmente extraordinárias podem requerer um domínio das leis do shabda (som sagrado); e que, possivelmente, muitos lamas não têm total conhecimento dessas leis ou, ainda, não estão preparados para discuti-las; a primeira possibilidade explicaria por que hoje a invocação de objetos surgidos do nada, ou desaparecidos, seja, ainda que teoricamente possível, vista com raridade.

Com relação aos efeitos subjetivos e facilmente demonstráveis dos mantras usados na ioga contemplativa, não há lugar para dúvidas. Basta aprender a ioga de modo correto para descobrir o poder dos mantras, cada qual por si mesmo. Aqui, a única dificuldade estaria em persuadir os meditadores de outras crenças a aceitar as imagens de aparência exótica como verdadeiras encarnações de princípios ou fenômenos psíquicos da mais elevada santidade. Não posso dar ênfase maior do que afirmando que a suprema experiência mística é a mesma para todas as crenças, sejam elas inicialmente concebidas como União com Deus Pai ou como realização de união com a Fonte, que nunca foi interrompida desde o princípio, mas apenas perdida de vista. Qualquer que seja a fé, seus adeptos com certeza perceberão isso por si mesmos quando alcançarem um estágio elevado; mas, no começo e durante todo o tempo em que persistam as imagens de qualquer espécie, os diferentes conceitos que as pessoas tiverem do Sublime continuarão a colorir, não só as suas crenças pessoais, mas também suas experiências psíquicas. Lembro-me de certa correspondência que tive há pouco tempo com uma senhora européia, que me escreveu contando como, durante experimentos com LSD visando a objetivos religiosos, havia desfrutado a comunhão com o Buda Amitabha e com seu guru tibetano. Sem ter a pretensão de questionar tais asserções, sugeri que sua experiência, apesar de ser de ordem espiritual, deveria ter recebido seu conteúdo específico e seu colorido da meditação sobre essas duas criaturas. Em muitos casos de experiências místicas iniciais, sejam alcançadas através da prática iogue ou induzidas por drogas ou por outros meios, não se pode ter certeza quanto a ser o conteúdo independente de crenças preconcebidas e imagens anteriormente conhecidas; só no estágio em que a imagem for transcendida é que a certeza é alcançada.

Contudo, a universalidade do conteúdo da experiência mística realmente profunda, independentemente de treino e crença, tornou-se clara para mim durante o estágio inicial de minha prática. Enquanto estava na China, encontrei duas formas principais de comportamento iogue: um, concebido em termos de crença religiosa bem definida (em geral no Amitabha ou Kuan Yin), o outro, em termos de abstrações de estilo zen, tais como a Mente Única, o Grande Vazio (ou Vazio-não-Vazio), a Fonte Suprema (Tao) e assim por diante. Os adeptos do primeiro, que é chamado o outro-poder iogue, em geral sabiam desde o começo, ou então chegavam a reconhecer que a meditação de Budas e Bodhisattvas invocados por mantras ou por práticas nien-fu são apenas materializações de forças benéficas que emergem da Fonte Suprema, e para ela retornam, e que residem na consciência do próprio indivíduo. A única diferença verdadeira entre eles e os adeptos do autopoder iogue (tais como os adeptos do Zen) é que estes preferem alcançar a mesma meta sem a ajuda de materializações psíquicas.

O reconhecimento da validade e da subjacente identidade destes dois caminhos deverá estender-se além da comunidade budista. A união mística com Deus, buscada pelos cristãos, usa o que os budistas chamam de outro-poder iogue, ao passo que os budistas Mahayana inclinam-se para as duas espécies, mas com ênfase individual numa ou noutra. Os mestres chineses e tibetanos têm sabedoria demais para insistir em que qualquer dos principais atalhos iogues seja intrinsecamente superior ao outro; muita coisa depende do temperamento e das inclinações do discípulo. Pessoalmente, dou ênfase ao outro-poder iogue na minha prática (a não ser que se considere que a ioga contemplativa contém elementos de ambos), simplesmente porque o uso de mantras e de subsídios similares leva a resultados raramente alcançáveis só pelo auto-poder iogue. Este, indubitavelmente, é o principal propósito dos mantras, e aqui, pelo menos, "mágica" nenhuma é utilizada. Eles servem ao propósito até que o adepto se aproxime do ápice no caminho, onde todas as práticas estabelecidas são descartadas, ou caem por si mesmas.