Mantras, palavras sagradas de poder
Capítulo 3
O INÍCIO DA COMPREENSÃO
Mais uma vez, abria-se a cortina para uma cena desconhecida. Os grandes templos que eu visitara na China ficavam mil milhas a leste. Ali, ao pé do Himalaia, erguiam- se montanhas que cortavam transversalmente a fronteira indo-tibetana, havia muitos adeptos de ioga, mas nada das maravilhas arquitetônicas, sobreviventes de eras passadas. Após alguns dias de caminhada através das montanhas, encontrei um templo rústico, construído com materiais de fácil aquisição. Quadrangular e artisticamente despretensioso, apenas uma entrada pintada e um telhado piramidal proclamavam seu propósito sagrado. No interior, sombrio, uns poucos lamas, com túnicas de um castanho sujo, estavam sentados de pernas cruzadas em suas almofadas, no chão, diante de um altar guarnecido com lamparinas e vasilhas de prata para oferendas, e aquelas curiosas figuras chamadas torma, feitas com massa de farinha amanteigada. Pesadas nuvens de incenso pairavam no ar. No lugar em que deveria haver, em templo mais rico, uma esplêndida imagem, estava pendurado um esfarrapado thanka (pergaminho de parede) representando uma divindade feminina de aspecto feroz, com um pé levantado e pousado sobre o joelho, o outro pisando um disco solar apoiado por um cadáver que jazia de costas sobre o desenho de uma lua a cobrir um lótus gigantesco. O diadema que cingia seu cabelo cor de fogo era composto de esqueletos humanos; um colar de cabeças cortadas adornava sua carne nua, de violenta cor escarlate. Apesar da estranheza desses atributos, não senti receio algum, pois a expressão dos lamas era suave e delicada; por bizarros que fossem os símbolos sobre os quais meditavam, dificilmente se poderia duvidar de que fossem homens de bondosa disposição e de pensamentos sadios. Junto com o fantástico tilintar de sinos vajra e a batida dos tambores de mão giratórios, tocados por bolinhas presas a tiras de couro, os lamas estavam produzindo uma inundação de sons que mais pareciam brotar de seus ventres que de seus órgãos vocais. Mais do que nunca, até então, reconheci o poder dos mantras em transportar a mente a um estado de tranqüila bem-aventurança. Também me regozijei com o pensamento de que aquela cena era em tudo semelhante à que devia ter surpreendido viajantes como eu, que passaram por aquela região mil ou mais anos antes.
Antes de deixar a China, as sementes plantadas em minha mente pelo lama tibetano de Hong Kong haviam sido regadas de vez em quando, pois eu me havia hospedado com freqüência em mosteiros de estilo tibetano, nas províncias mais remotas; mas somente em 1948, ano em que, com tristeza, eu disse adeus à terra que tanto amava, estabeleci contato com os lamas tibetanos e comecei a adquirir uma visão real sobre o mundo mágico da Vajrayana. Durante a década seguinte, fiz várias e prolongadas visitas aos montes do Himalaia — ao belo Gangtok e ao mosteiro da montanha de Tashiding, cercado por uma torrente, em Sikkim, e àquelas cidades montanhesas nas fronteiras da índia, para as quais tantos lamas eminentes haviam fugido após o avanço chinês sobre Lhasa.
Os tibetanos são, de muitas maneiras, um povo materialista; noutras, são como seres de outra era, tão rica é sua satisfação pelas coisas simples, tão espontâneo seu riso e tão permanente sua alegria e fé em Cho — o Dharma Sagrado. Como exilados empobrecidos, estavam quase sempre malvestidos, sem os acessórios coloridos que haviam emprestado esplendor a seus antigos rituais, porém seus ritos permaneciam inspiradores —o rufar dos tambores e o estrépito dos címbalos, o poder elementar da melodia sagrada, os ritmos impressionantes dos cânticos e as expressões extasiadas que se viam no rosto dos celebrantes. Era fácil ver que suas mentes se haviam elevado até o reino intemporal de alegria e mistério. Em breve, atingi visão nova sobre a natureza dos mantras; como manifestações do shabda (som sagrado) eles têm qualidades em comum com a música religiosa tibetana, onde por sua vez ecoam a voz dos ventos em lugares elevados, o bramido das torrentes montanhosas e o estalar dos trovões. Alguns dos tesouros da mente que podem ser descobertos na região do Himalaia, inspiradora de terror, foram descritos em três dos meus livros anteriores [The Wheel of Life, The Way of Power e Beyond the Gods), neste, descreverei em particular o que é pertinente aos mantras. Por acaso, mais do que por escolha, os ensinamentos e iniciações que recebi foram transmitidos sobretudo por Nyingmapas, isto é, adeptos de uma antiga seita que floresce nas fronteiras a leste — Kham e Amdo (Ch'inghai) e no minúsculo reino de Sikkim. Há budistas que consideram erro o fato de esta seita ter perdido muito de suas características monásticas, pois é verdade que os lamas Nyingmapas são, com freqüência, leigos casados e não monges. E isso porque a seita fugiu à "reforma" que foi capaz de preservar sem interrupção certas tradições secretas, vindas de remota antigüidade. Não existindo contrapartida budista nos antagonismos e rivalidades que tão tragicamente despedaçaram a Cristandade, onde as seitas tibetanas divergem é em relação ao método e não à doutrina; portanto., os lamas Nyingmapa ensinam a contemplação e os exercícios de ioga, enquanto os lamas Gelugpa exigem dos neófitos um longo estudo preliminar da doutrina, sendo a prática iogue muitas vezes adiada até a idade madura. Qual seja o sistema mais sensato, é questão de opinião; mas meu encontro com os mestres Nyingmapa foi sem dúvida uma vantagem, por me terem ministrado de boa vontade o ensino da ioga.
Os tibetanos absolutamente não são grandes mestres nas artes secretas da ioga. Ao contrário, o budismo prevalece entre eles, tanto no nível popular como no mais elevado, e grande parte do que ali presenciei no começo me lembrava igual situação na China, onde pouca distinção se fazia entre mantras e feitiçaria. Por exemplo: sempre que eu ia àquelas montanhas, tinha provas da prodigiosa fé na eficácia do mantra OM MANI PADME HUM como encantamento protetor; estava inscrito em rochedos na estrada e sobre muros erigidos especialmente para exibi-lo, muitas vezes com as sílabas pintadas em sua apropriada colocação iogue. Em toda parte viam-se pessoas que giravam moinhos de rezas contendo rolos de seda ou de papel nos quais o mantra fora escrito cem ou mil vezes; ouvi falar de moinhos de rezas movidos por rios turbulentos e vi potentes tambores metálicos de rezas colocados junto aos portões dos templos, onde todo peregrino que passasse podia fazê-los ressoar. Enquanto giram seus moinhos de rezas, os devotos entoam as sílabas mântricas e as visualizam, de modo que as três faculdades humanas do corpo, da fala e da mente ficam todas entrosadas por OM MANI PADME HUM! Os passageiros dos ônibus de longa distância, os trabalhadores do campo e os refugiados em farrapos olhando cobiçosamente as vitrinas das lojas recitam esse mantra durante horas a fio.
Conhecido como o Mani, é o mantra do Bodhisattva Avalokiteshvara da Suprema Compaixão, que toma a forma do Senhor Chenserig na Mongólia e no Tibete, e da bela Kuan Yin (Kannon) na China (e no Japão). O Avalokiteshvara é conhecido pelos sábios não tanto como deus ou deusa, mas como a encarnação mental de uma força abstrata demais para ser descrita de outra forma que não acrescenta nem diminui a força do mantra. Aquilo que para os não-instruídos é uma divindade adorada revela-se igualmente, para todos, uma fonte poderosa de inspiração; pois Avalokiteshvara, quer seja considerado como um ser de existência própria ou como uma criação mental dos devotos, personifica a tremenda força da compaixão, que se distribuí imparcialmente entre todos os seres sensíveis. Também não é significativa a diferença de sexo nas duas manifestações, pois os atributos sexuais dos Bodhisattvas são uma questão exclusivamente convencional. Parece ser mais apropriada para personificar o espírito da compaixão a forma feminina, mas a encarnação masculina, Chenresig, apresenta-se como um ser de aparência não menos delicada, cujo sexo só é óbvio para os que conhecem as convenções iconográficas indo-tibetanas.
Entre as numerosas narrativas associadas com o Mani, a minha predileta é incidentalmente chinesa, mas muito semelhante às que são conhecidas entre os tibetanos.
Um guerreiro mesquinho, conhecido por sua implacável crueldade, presenciando a fuga de suas tropas que deixavam o campo em carreira impetuosa, teve também de fugir para não cair nas garras de seu rival. Depois de tirar o uniforme e envergar a roupa azul de um camponês grosseiramente tecida em casa, correu como louco para as montanhas. Faminto e cansado, seguiu adiante, tão depressa quanto seu esgotado cavalo pôde levá-lo. Ao chegar a segunda noite, sentiu-se bastante a salvo para passá-la num eremitério próximo da estrada. Descobrindo que os únicos habitantes eram um idoso lama mongólico e um rapazinho que ali trabalhava, agiu com brutal truculência, forçando-os a encher suas sacolas vazias com todas as coisas portáteis de valor que o eremitério continha. Roubar seus hospedeiros era, afinal, sua forma habitual de pagar a hospitalidade, pois a única função dos civis era permitir que os heróis vivessem bem. Como as celas dos monges eram pequenas e sem conforto, ordenou que colocassem um divã na sala do santuário e ali, sem ficar perturbado pela luz de duas velas votivas que iluminavam uma estátua do Compassivo Kuan Yin, mergulhou num sono espasmódico. Com pena de seu grosseiro perseguidor, o velho lama se esgueirou até o divã e, sentado de pernas cruzadas sobre as lajes, num local sombrio, começou a repetir o mantra OM MANI PADME HUM, num murmúrio que durou a noite toda; a não ser quando via o guerreiro agitar-se no sono, então verbalizava as sílabas silenciosamente, temendo perturbar o adormecido. Não havia ressentimento no coração do velho, nenhum lamento pela perda dos valores, sem importância para ele, apenas o compassivo desejo de salvar o hóspede das conseqüências de sua loucura.
Durante a noite inteira, o guerreiro sonhou. Quadros e mais quadros surgiram em sua mente, de alegrias sentidas em vidas anteriores; neles, sempre havia alguém que o havia tratado com amor — a mãe, a irmã, algum amigo querido e assim por diante — mas todos esses episódios eram seguidos por outros, dilacerantes, nos quais ele via uma das pessoas queridas na aparência de uma de suas incontáveis vítimas; muitas e muitas vezes teve de suportar a dor de reviver seus atos de tortura, assassinato ou decapitação de alguém que reconhecia ser um generoso benfeitor em vida anterior. Era insuportável, era horrível, ver-se como um feliz garoto sendo acarinhado por sua mãe que o adorava e depois como o brutal violador e executante da mesma pessoa amada noutra aparência facilmente reconhecível; fossem quais fossem as lágrimas e lamentações, ele não podia suster sua mão.
Despertou com a primeira luz da madrugada, o corpo banhado em suor, a mente enevoada pelo desprezo de si mesmo. De joelhos, caiu ante a imagem do Compassivo Kuan Yin e bateu sua cabeça nas lajes, num frenesi de remorso. Entretanto, seguindo as instruções dadas na noite anterior, o rapazinho havia tirado o cavalo do estábulo e colocado nele os alforjes com os valores roubados. Tendo feito isso, ajudou o velho lama a levar para o hóspede uma refeição com chá quente, oferecendo-lhe o parco alimento de que dispunham naquele pobre lugar. Depois, com grande espanto do rapazinho, o guerreiro, antes tão truculento, inclinou-se até o chão ante o lama e implorou para ser aceito como discípulo.
"Não", foi a resposta. "A vida monástica não é para você. Continue o seu caminho. Se em qualquer tempo sua sorte melhorar, use seu poder e sua riqueza para o bem-estar dos oprimidos, lembrando que qualquer um deles pode ter sido seu pai, sua mãe ou seu amigo numa das vidas anteriores, pois as vidas de todos os seres sensíveis se interligam no passado durante eras inumeráveis."
Pasmo diante dessa íntima conexão entre aquelas palavras e seu pesadelo recente, o guerreiro implorou ao lama que lhe desse algo a que se apegasse nos anos futuros, ao que o velho respondeu:
"Nada há no universo mais forte que o poder da compaixão. Apegue-se apenas a isso. Se os seus esforços, alguma vez, falharem, devido à carga do karma criminoso, que as palavras do mantra de Kuan Yin, OM MANI PADME HUM sejam o sinete do seu pacto para nunca mais ceder à crueldade e à avareza."
Assim o guerreiro, depois de devolver o roubo, partiu envergonhado. Dizem que, anos depois, alguns de seus antigos subordinados o encontraram ganhando seu arroz como arrieiro, empregado numa comunidade de monges em remoto mosteiro do cume oriental do Wu T'ai.
Os não-iniciados usam o Mani muitas vezes como feitiço protetor contra toda espécie de má sorte, seja do próprio indivíduo ou de outrem. Ele é pronunciado em momentos de perigo, entoado suavemente quando se conforta alguém em aflição e recitado mentalmente ou alto, em repetição infindável, pelos que buscam nascimento na Terra da Pureza. Inúmeros tibetanos morrem tendo nos lábios o Mani. Há também muitas aplicações especiais do mantra. Há pouco tempo o sr. Lu k'uan-yü escreveu-me sobre sua aplicação curativa no tratamento das alucinações correntes e doenças psíquicas similares. 0 paciente deve se sentar diariamente diante de uma vasilha de água e, invocando Avalokiteshvara de todo o coração, olhar para a tigela durante algum tempo, enquanto recita o Mani. Quando se vê um lótus emergindo da água, a cura é garantida. Eu mesmo pude me curar, no espaço de uma noite, de uma doença que me atacou durante uma semana, em viagem a cavalo através das montanhas no norte da China. Tendo caído da minha mula e sendo acudido e levado até a hospedaria mais próxima, recuperei a consciência ao descobrir, sentado na minha cama, um lama mongol entoando suavemente OM MANI PADME HUM. Maravilhosamente recuperado, senti a fadiga e a doença desaparecerem, e na manhã seguinte continuei a viagem, sentindo-me tão bem como no primeiro dia. É possível argumentar que o efeito dos mantras em tais circunstâncias é puramente psicológico. Isso é bem verdade, mas num sentido que não é de todo simples. A energia da compaixão personificada por Avalokiteshvara é real, e reside no nível profundo de nossa consciência; está presente em todos nós, ainda que escondida pelos obstáculos do ego, e é despertada pelas sílabas, sobretudo quando pronunciadas com profunda aspiração pela felicidade de outrem. Por uma razão qualquer, essa energia é mais facilmente evocada do que outras similares, para as quais existem outros mantras; provém daí a larga popularidade do Mani entre os que não receberam o ensinamento da ioga, do qual depende a eficiência dos demais.
0 Mani também pode ser empregado em níveis mais elevados de ensinamento, e não são poucos os lamas eruditos que o consideram o mantra dos mantras, inteiramente completo em si mesmo, desde que alguém conheça os meios de usá-lo efetivamente. Apesar das aparências, nenhuma operação mágica participa dele. O mantra, além de ter uma afinidade psíquica com um elemento encaixado na consciência de quem o usa, e com um elemento idêntico na psique daqueles sobre os quais é usado, recebe enorme força de poder cumulativo das sagradas associações com as mentes das inúmeras pessoas que o pronunciaram durante o curso de séculos.
Ao relatar o que se segue sobre algumas das práticas iogues do Mani, antecipo-me de algum modo para reunir tudo quanto foi dito sobre este mantra num só lugar. Segundo a doutrina Mahayana, tal como interpretada pela seita Vajrayana, a suprema energia que brota da Fonte Suprema, e dali para as profundezas da consciência do adepto - tem dois aspectos: a sabedoria da realização sagrada e a sabedoria da compaixão. Esta última muitas vezes é personificada pelo Buda Amitaba, do qual Avalokiteshvara é conhecido como uma emanação divina. Entre as inúmeras formas do Bodhisattva Avalokiteshvara, a mais freqüentemente admirada é a de uma divindade de quatro braços, de pura cor branca, duas mãos prendendo uma jóia colocada palma a palma num gesto de oração, duas mãos erguidas à direita e à esquerda, uma segurando um fio de contas de cristal, simbolizando a contemplação, a outra com um lótus que representa a perfeição espiritual. Mas a contemplação bem realizada não requer reflexão cuidadosa sobre o Simbolismo; há profundas razões na ioga para essa forma da divindade, sua postura, seus gestos, suas cores e atributos, que são reconhecidos e aceitos por todos quantos admitem que a tradição vinda de Nalanda há séculos atrás, e mantida no Tibete de hoje, nada contém de fantasioso ou arbitrário. Exceto no início da prática da ioga, pouca preocupação se tem com o assunto, porque pensar muito na interpretação do Simbolismo pode levar à distração; é preciso permitir que os símbolos ajam diretamente sobre um nível mais profundo da consciência. A forma bonita do Bodhisattva Kuan Yin (Kannon), conhecida por todos os amantes da arte chinesa e japonesa, é, similarmente, produto da intuição iogue; mas os artistas, ignorando o fato de que Kuan Yin é uma divindade de meditação e não um deus, podem ter introduzido detalhes imaginosos que não se encontram em pinturas ou estátuas especialmente preparadas como apoio para a meditação.
0 Mani pode ser usado em qualquer momento, sem preparo especial, por aqueles que possuem algum conhecimento dos métodos da ioga contemplativa, ou por aqueles capazes de imbuir a forma do ser compassivo com o poder advindo das associações que ele desperta em suas mentes. Sua recitação por adeptos é, em geral, acompanhada da visualização da forma divina e das sílabas, cada qual com sua cor apropriada; simultaneamente, brota na mente do adepto o desejo profundo pelo bem-estar dos seres sensíveis e a vontade de experimentar compaixão por todos eles — não só por aqueles que é fácil amar, como amigos, cavalos, elefantes e Cachorrinhos, mas também pelas criaturas até então consideradas repelentes, como insetos nocivos, répteis, soldados, bandidos, fantasmas e demônios. A princípio, mesmo sendo incapazes de amá-los, é possível ao menos simpatizar com suas tristezas e alegrar-se com suas transitórias alegrias, vendo-os como seres igualmente condenados, como nós mesmos, a vagar de nascimento em nascimento, era após era, até alcançar a Luz. Objetos anteriores do desagrado do adepto, suas inimizades ou aversões peculiares devem ser os primeiros destinatários do poder do Mani, devendo o adepto dirigir seu pensamento para eles com todo o amor de que seja capaz. Possuído de tristeza pelos fardos que todos devem carregar, e ansioso pela felicidade universal, ele olha as belas feições do Bodhisattva, já radiantemente visíveis à sua visão interior, e recita repetidamente OM MANI PADME HUM! Ou então se aprendeu com um mestre tibetano, UM MANI PEME HUNG!
(A vogai "U" é semelhante à primeira vogal da palavra inglesa "woman"; o "A" é pronunciado como em "father"; "PEME", contração de "PADME", soa quase como "pay-may", com a diferença de que o "P" fica parecido com o "B".)
OM, simbolizando a origem, a Fonte Suprema, o Dharmakaya, o Absoluto, é uma palavra de grande poder criativo, considerada com freqüência como sendo a soma de todos os sons do universo — a harmonia das esferas, talvez.
MANI PADME (jóia no lótus) significa vários conceitos como: a sabedoria essencial que existe no âmago da doutrina budista; a sabedoria esotérica da Vajrayana contida na filosofia esotérica Mahayana; a Mente contida dentro de nossas mentes; o eterno no temporal; o Buda em nossos corações; a meta (suprema sabedoria) e os meios (compaixão); e, se posso permitir-me tirar uma inferência, o Cristo interior que reside na mente do cristão místico.
HUM é o condicionado no incondicionado (que é para OM assim como Tê é para Tao na filosofia taoísta); representa a realidade sem limites incorporada dentro dos limites do ser individual e, deste modo, une todos os seres e objetos separados ao OM universal; é a não-morte no efêmero, além de ser uma palavra de grande poder que destrói os empecilhos criados pelo ego.
Tais interpretações são naturalmente de interesse, mas é necessário acentuar que a reflexão sobre o Simbolismo não faz parte da prática contemplativa. As sílabas mântricas não podem produzir seu efeito total sobre os mais profundos níveis na consciência do adepto se a sua mente está apinhada de conceitos verbais. O pensamento reflexivo deve ser transcendido, abandonado.
Quanto à maneira de recitação, não deve haver regras fixas a não ser aquelas impostas pelo mestre, se ele assim o quiser. A sílaba OM é em geral enfática e mais ou menos prolongada, de modo que o M final vibre. MANI PADME (ou MANI PEME) são recitadas quase como uma palavra. HUM (OU HUNG) é às vezes retardada. Podemos desenhar o ritmo assim: _ - - -- — —! O mantra deve ser pronunciado em tom monótono; ou com a sílaba OM um tanto mais alta do que o resto; ou com as cinco primeiras sílabas em tom monótono e baixo, mas com o HUM tão mais alto do que o resto, como o sol fica acima do dó em nossa escala musical. Nesse caso o diagrama se modificaria para — - - - - — !
Quando a recitação chega ao fim, os devotos permitem que a figura mental do Bodhisattva desapareça de sua mente, qualquer que seja o método aprendido, e depois refletem com gratidão sobre os resultados, tais como o poder de gerar compaixão e distribuí-la imparcialmente, a mais íntima e simpática compreensão dos corações de seres aflitos (ou de algum ser ou seres em particular), ou o alívio da dor, da tristeza ou da confusão mental na mente da pessoa para a qual se dirigiram os votos do adepto. Antes de se levantar, não se deve esquecer de realizar o ato mental de dedicar o mérito resultante de sua prática ao bem-estar de todos os seres, pois esta é a conclusão essencial de todas as práticas e ritos iogues.
Um método popular de usar o Mani é o de gerar compaixão para com todos os seres do universo, dirigindo a mente para cada um dos seis estados de existência por sua vez, enquanto se repete o mantra muito lentamente, talvez 21 ou 108 vezes; em resposta a OM, raios brancos sobre o mundo dos devas; a MA, raios verdes sobre o reino dos asuras (titãs); a NI, raios amarelos sobre o reino humano; a PAD, raios azuis sobre o reino dos animais; a ME, raios vermelhos sobre o reinado dos pretas (bocas ardentes); e a HUM, raios escuros e enfumaçados sobre os habitantes (criados pela mente) do inferno. As sílabas são visualizadas como se fossem evoluindo lentamente dentro do coração do Bodhisattva, cada qual irradiando seus raios na direção certa.
A natural inclinação dos devotos chineses para contemplar a compaixão sob forma feminina é compartilhada pelos tibetanos que, portanto, contemplam Tara, emanação de Avalokiteshvara. De acordo com a necessidade individual, Tara é representada de maneiras variadas, como uma figura maternal de grande beleza ou como uma linda virgem. O método de contemplá-la é semelhante ao usado para outras formas Yidam (formas de divindade interior), como serão descritas em outro capítulo. Aqui, voltando ao uso popular dos mantras, vou alistar os que pertencem às vinte e uma formas em que Tara é invocada pelos que procuram proteção contra uma ou outra calamidade. São elas:
A Tara Verde (fonte das outras vinte emanações): UM TARE TÜTARE TURE SOHA
A Tara Que Evita Desastres: UM BANZA TARE SARVA BIGANEN SHINDHAM KURU SOHA
A Tara Que Evita Calamidades Vindas da Terra: UM TARE TUTARE TURE MAMA SARVA LÁM LÁM BHAYA SHINDHAM KURUSOHA
A Tara Que Evita Destruição Produzida Pela Água: ÚM TARE TUTARE TURE MAMA SARVA BHAM BHAM DZALA BHAYASHINDHAM KURUSOHA
A Tara Que Evita a Destruição Produzida Pelo Fogo: UM TARE TUTARE TURE MAMA SARVA RAM RAM DZALA BHAYA SHINDHAM KURUSOHA
A Tara Que Evita a Destruição Causada Pelo Vento: UM TARE TUTARE MAMA SARVA YAM YAM DZALA BHAYA SHINDHAM KURUSOHA
A Tara Que Aumenta a Sabedoria: UM RATANA TARE SARVA LOKAJANA PITEYA DARÁ DARÁ DIRI DIRI SHÊNG SHÊNG DZA DZANJIA NA BU SHÊNG KURU UM
A Tara Que Evita Calamidades Vindas do Céu: UM TARE TUTARE TURE MAMA SARVA DIK DIK DIKSHNA RAKSHA RAKSHA KURUSOHA
A Tara Que Evita Destruição Causada Por Exércitos: UM TARE TUTARE TURE MAMA SARVA DIK DIK DIKSEHNA RAKSHA RAKSHA KURU SOHA
A Tara Que Evita Calamidades Provindas do Inferno: UM TARE TUTARE TURE MAMA SARVA RANDZA DUSHEN DRODA SHINDAM KURUSOHA
A Tara Que Evita Danos Causados Por Ladrões: UM TARE TUTARE TURE SARVA DZORA BENDA BENDA DRKTUM SOHA
A Tara Que Aumenta Poder: UM BEMA TARE SENDARA HRI SARVA LOKAWASHUM KURU HO
A Tara Que Evita Males Causados Por Demônios: UM TARE TUTARE TURE SARVA DUSHING BIKANEN BHAM PEH SOHA
A Tara Que Evita Males Que Afetam o Gado: UM TARE TÜTARE TURE SARVA HAM HAM DUSHING HANA HANA DRASAYA PEH SOHA
A Tara Que Evita Males Causados Por Animais Ferozes: UM TARE TÜTARE TURE SARVA HEH HEH DZALEH DZALEH BENDAPEHSOHA
A Tara Que Evita Efeitos Maléficos de Venenos: UM TARE TÜTARE TURE SARVA DIKSHA DZALA YAHA RAHA RÁ PEH SOHA
A Tara Que Vence Demônios: UM GARMA TARE SARWA SHATDRUM BIGANEN MARA SEHNA HA HA HEH HEH HO HO HUNG HUNG BINDA BINDA PEH
A Tara Que Cura Doenças: UM TARE TÜTARE TURE SARVA DZARA SARVA DHUKKA BRASHA MANAYA PEH SOHA
A Tara Que Confere Longevidade: UM TARE TÜTARE TURE BRAJAAYIUSHEI SOHA
A Tara Que Confere Prosperidade: UM TARE TÜTARE TURE DZAMBEH MOHEH DANA METI SHRI SOHA
A Tara Que Realiza Pedidos: UM TARE TÜTARE TURE SARVA ATA SIDDHI SIDDHI KURU SOHA
Estes vinte e um mantras foram transcritos de acordo com a pronúncia tibetana. Os E finais devem ser pronunciados; por exemplo, TARE é pronunciado como "ta- rey". As sílabas SOHA representam a palavra sânscrita "svaha"; PEH representa a "phat" sânscrita; e, é claro, UM representa "om". Entretanto, por uma razão que se tornará aparente, a pronúncia correta não é importante, desde que sejam evitados erros elementares como pronunciar TARE como se tivesse uma sílaba só, tal como na palavra inglesa "tare".
A eficácia destes vinte e um mantras tem sido comprovada por tanta gente que não pode ser desprezada com um sorriso, mas precisei de algum tempo até chegar a uma distinção entre eles e o abracadabra de nossas histórias de fadas ocidentais. Mais tarde, aprendi que eles são empregados para agir em razão de certas afinidades com certos elementos da consciência, mais profundos do que o nível do pensamento conceituai. Ainda assim, conservo dúvidas sobre como operam. Conseguirão resultados de maneira análoga ao esfacelamento de uma vidraça, como tanger uma corda de alaúde afinada na nota certa (neste caso, devem estar imbuídos de um poder não explicável apenas por tais afinidades), ou agem, não por circunstâncias externas, mas sobre a pessoa que usa o mantra, inspirando- lhe uma fé que aumente seu poder para enfrentar tais circunstâncias? Os tibetanos apresentam provas persuasivas da primeira sugestão, mas a segunda é mais fácil de aceitar. Duas idéias estão sendo debatidas no moderno Ocidente: a (I) de que todas as doenças são psicossomáticas e a (II) de que há meios psicológicos para reduzir a "tendência para acidentes". Se aceitarmos essas premissas, não é ir longe demais supor que um mantra, ao despertar uma força até então insuspeitada dentro da psique, possa modificar a vulnerabilidade relativa à doença ou ao perigo externo. Entretanto, essa maneira relativamente científica de considerar este assunto deixa fora de estudo grande número de efeitos espetaculares reivindicados pela ioga mântrica, tais como a possibilidade de causar ou de evitar chuvas de pedra! Alguma especulação sobre esse extraordinário aspecto dos mantras será encontrada no último capítulo; não que seja de grande importância; tais maravilhas são julgadas pelos lamas como de significado trivial, comparadas com o uso dos mantras que são dedicados ao alcance da suprema realização humana, que é a Luz. À medida que aumentava meu interesse pela verdadeira finalidade dos mantras, também diminuía minha crença em suas maravilhas exteriores — mas devo confessar que tal crença nunca ficou adormecida!
Meu primeiro encontro com os lamas Nyingmapa aconteceu em Sikkim, terra de vales verdes e alcantilados, aninhados abaixo dos lindos campos de neve de Kanchenjunga. Diferentes do Tibete, ali não há grandes mosteiros, mas eremitérios que consistem em pequenos templos cercados pelos chalés de madeira dos lamas, que podem ser monges ou leigos casados. Se eu não tivesse um conhecimento anterior da Vajrayana, poderia facilmente partilhar da errada concepção, perpetuada pelos viajantes ocidentais que deixam a região do Himalaia, de que existe aqui uma forma de budismo tão profundamente incrustada de magia e demonologia que mal pode ser reconhecida como manifestação do Dharma Sagrado. Os interiores bastante sombrios dos pequenos templos contêm algumas representações dos Budas e Bodhisattvas com a expressão serena, familiar a todos os budistas, olhos semicerrados, lábios entreabertos por sorrisos que indicam felicidade interior; mas há muito mais representações de seres demoníacos, com chifres cruéis e garras, línguas pendentes e olhos faiscantes, mãos inumeráveis segurando horríveis panóplias de armas, exibindo temíveis objetos como cabeças de esqueletos viradas para cima, cheias de sangue fresco. Adornadas com colares de ossos ou cabeças cortadas, elas se ostentam sobre montes de cadáveres, tanto animais quanto humanos, ou de corpos recentemente estripados que se retorcem! O que parece ter escapado aos olhos de muitos escritores que obscurecem o assunto da "depravação religiosa dos tibetanos", foram as expressões e atitudes dos lamas — homens piedosos, longe de serem desgraçados, perdidos em horríveis fantasias de luxúria, crueldade e medo, sempre exibindo aparência atraente; bondosos, generosos, facilmente levados ao riso, nada têm da rígida solenidade nem do premeditado coleguismo tantas vezes encontrados nos sacerdotes de outros países; e seus olhos refletem doçura e sabedoria, nascidas de longa comunhão com a paz interior. Vendo-os desta maneira, pus de lado as dúvidas remanescentes, e aceitando de boa fé o que me intrigava ou entristecia, deixei que meus lamas me orientassem como quisessem. Isso foi bom, pois os lamas que encontrei em Sikkim, e os outros com os quais estudei depois em Kalimpong e noutros lugares, possuíam uma riqueza de dons para oferecer — tesouros de vida, tesouros da mente. Se fiz má aplicação do conhecimento sagrado que me transmitiram, com tanto trabalho, a culpa não terá sido deles.
Se eu tivesse ido procurar esses lamas Nyingmapa pronto a aceitar seu ensinamento apenas em meus próprios termos, ou em termos do racionalismo em mim implantado na escola, se eu tivesse má vontade em dar crédito aos assuntos não apoiados pelo que eu considerava prova científica, tivesse eu insistido em fixar-me numa direção estritamente lógica, suponho que nada teria aprendido. Os adeptos Vajrayana, dedicados à percepção em suas próprias mentes da verdade absoluta, empregam realmente métodos que mais parecem mágica do que ciência, acreditando que o imaginado, e portanto nascido da mente, não é menos real do que o mundo da matéria — também este criado pela mente. A princípio tive dúvidas e reservas, mas chego hoje a concluir que, apesar de aquilo que os Mayanistas denominam verdade relativa (isto é, "verdade factual" a respeito do que chamamos "o mundo real") ser a província da ciência e da lógica, é função de uma doutrina espiritual indicar a verdade absoluta, a qual, pertencendo ao não-duplo, ao indivisível, ao incomensurável, pode ser experimentado pela intuição, mas nunca entendido pelo pensamento conceituai — vem daí a confiança dos iogues nas imagens vividas, na contemplação do aparentemente "faz de conta"; este precisa vestir o intangível com formas e cores, de que a mente possa apoderar-se enquanto luta para se libertar dos sulcos mentais produzidos pela sua aplicação exclusiva ao tangível. Deste modo, a imaginação se torna um instrumento mais precioso do que o pensamento.
Ultrapassando o ensinamento doutrinário, a Vajrayana confere ênfase à experiência intuitiva direta. Apesar de ser uma forma especializada em contemplação, seus adeptos penetram mais fundo do que as chamadas leis imutáveis que governam o ambiente externo. Há cientistas, assim como místicos, que reconhecem a validez puramente relativa dessas leis — como Einstein fez. Talvez a própria ciência estabeleça algum dia ou pelo menos corrobore com a necessidade de uma notável profundeza de percepção mística por parte dos que desejam desvendar a face da realidade. Para a maioria dos ocidentais, a percepção mística, como meio para atingir a verdade, é um conceito tão pouco familiar que podemos ser perdoados por acharmos totalmente bizarro o processo usado para alcançá-la. Outra razão para que alguns viajantes ocidentais inteligentes ficassem inclinados a considerar a Vajrayana uma mixórdia de superstições é o fato de ela conter tantos paralelos semelhantes ao folclore que por toda parte precedeu o conhecimento científico. Por isso ela não parece outra coisa senão a sobrevivência da antiga ignorância; mas, tal como bem sabem os discípulos de C. G. Jung, a imaginação contida no folclore possui imenso significado psicológico; os que se recusam a aceitá-lo, ou que o desprezam, sofrem perda irreparável.
Apesar de meus lamas se preocuparem mais com os efeitos subjetivos dos mantras sobre a mente dos adeptos do que com a realização de milagres pela ajuda do poder mântrico, eles nunca pareciam duvidar desta última possibilidade, por mais que desencorajassem infrutíferas curiosidades sobre o assunto. Num momento confirmavam que tais fatos se realizavam com freqüência; noutro me repreendiam por pedir que me permitissem presenciar um desses milagres. Não sei se acabei por pensar que aquela relutância em dar uma demonstração, ainda que mínima, devia-se à falta de confiança em seus próprios poderes. Antes que uma total descrença se cristalizasse em minha mente, dei com algo que me impressionou como sendo pelo menos a corroboração parcial do poder dos mantras em obter resultados objetivos. Por sorte, descobri que o controle mântrico dos sonhos é possível. Pode-se argumentar que o que ocorre nos sonhos é inteiramente subjetivo, pois o drama todo se passa na mente de quem sonha; no entanto, há uma espécie de objetividade participante, porque os sonhos não podem ser, normalmente, controlados pela consciência, e seu conteúdo sem dúvida varia segundo os desejos de quem sonha.
Para tornar o assunto mais claro, devo antecipar um assunto que na verdade pertence ao próximo capítulo, ou seja, o Yidam, a deidade interior. As iogas relativas ao Yidam são baseadas num princípio que pode ser expresso assim:
Olhe para dentro! Nenhum Buda, Bodhisattva ou deidade, nenhuma força divina, elevada ou inferior, pode ajudá-lo a alcançar a Luz, se você partir de fora. A Mente é Rainha. A sua mente constitui a única fonte da sabedoria e do poder iogue. Portanto, conheça sua mente, reconhecendo nela tudo o que é sagrado e digno da mais alta reverência. Pois a sua mente também é a Mente, a própria substância do ilimitado, o não-duplo, o próprio Absoluto! Infelizmente, a vitória no conhecer a própria mente é tarefa mais penosa que se pode imaginar. Portanto, em conjunto com a sabedoria devem estar os meios. Todo o Simbolismo do grande sistema Vajrayana surgiu destes dois: a sabedoria, como finalidade; os dois reunidos como Caminho. Na verdade, o ensinamento de Buda conduz à Luz mas não antes que seja abandonado, deixando que a sabedoria aja no interior.
Uma importante aplicação iogue deste princípio consiste em visualizar dentro de si mesmo uma deidade, personificando um aspecto da realidade que seja possível descobrir por baixo das camadas do erro nascidas no ego. Essa deidade é apropriada para as necessidades do discípulo; ela personifica a potencialidade divina de que é dotada toda criatura, a essência encontrada no íntimo de todo indivíduo, enquanto ainda transcende todos os laços individuais do seu não-duplo, infinito, eterno. O Yidam que me foi designado foi a Tara Verde; o rito para invocá-la envolvia a repetição _muito freqüente do seu mantra, de modo que OM TARE TÜTÃRE TURE SWÃHÃ voltava-me sempre à mente, qualquer que fosse o objeto de interesse para a minha atenção. Eu ainda não havia alcançado o ponto em que o mantra evolui espontaneamente, mas havia chegado bastante perto para que ele me acorresse de súbito à mente e aos lábios em momentos de crise.
Desde a infância tenho pesadelos periódicos durante os quais posso ser ameaçado por implacáveis inimigos, ou me agacho, enquanto edifícios à minha volta caem em chamas sob uma saraivada de bombas. Vejo violentos jatos de fogo serem arremessados, enquanto o solo, em todas as direções, estremece e desaba. Às vezes, vejo-me escoltado para um local de execução, tomado por pensamentos fúnebres, como dar um último adeus ao sol nascente, preocupando-me com a idéia de como meus filhos suportarão a vergonha de ter um pai executado, ou como minha filha caçula conseguirá viver sem mim. Algumas vezes, sou perseguido por serpentes ou agarrado por vampiros. Esses pesadelos estão sempre cheios de detalhes horrivelmente realísticos, e minhas emoções são as de um homem realmente envolvido em tais situações. Esses sonhos ainda me afligem de vez em quando, mas perderam muito de seu poder aterrorizador porque, certa noite, descobri que uma rápida emissão do mantra de Tara interrompia de imediato qualquer perigo ameaçador. Raramente acordo nesse ponto, mas a circunstância ameaçadora é afastada, e o sonho toma uma direção agradável, durante a qual vejo uma ilha montanhosa que se ergue no meio de um mar coberto de espuma — a Potala de Tara no Oceano do Sul — ou alguma outra cena também deliciosa, na qual as cores são infinitamente mais bonitas do que outra coisa qualquer que eu já tenha visto quando em vigília.
Ocasionalmente, a forma difere. Não faz muito tempo, sonhei que tinha sido levado a um lugar de confinamento — onde a única saída era por uma porta bem vigiada. Não sei como, eu sabia que havia sido injustamente levado para uma casa de doentes mentais — um cadafalso pareceria menos deplorável! Os atendentes, era óbvio, tinham um prazer sádico diante de meus frenéticos apelos para ser liberado. Como sempre, o mantra de Yidam não surgiu em minha mente senão quando cheguei ao ponto de total desespero. Tal lembrança me trouxe um momento de grande alegria; mas, dessa vez, antes que eu tivesse tempo de pronunciá-lo, um de meus irônicos captores o pronunciou, ele mesmo, acrescentando com um sorriso: "0 que está esperando? Vamos, apele para seu precioso Yidam, se quer perder tempo e saliva." Fiquei apavorado! Nunca havia sentido tal desalento. Quase abandonei meu Yidam, quase! Mal ousando esperar, pronunciei o mantra. Apesar de o efeito imediato ter sido simplesmente o de excitar uma ironia que dominava meu mais leve fio de esperança, dentro de instantes eu passava através da janela sem ser impedido por suas grades!
Alguns anos antes de ser perseguido por este sonho, eu tinha feito outra descoberta que me convencera da eficiência do meu mantra Yidam. Um amigo, interessado na aparente similaridade entre a experiência iogue e os estados provocados por alucinógenos, persuadiu-me a experimentar mescalina. O efeito da droga sobre mim foi terrível — de tal modo que duvido tenha alguém jamais experimentado pior "Viagem" que a minha! Bem consciente do que me cercava e ainda capaz de falar durante os estágios iniciais, comer e beber, passei por uma dilacerante desintegração acompanhada por um tormento mental quase intolerável. Eu teria dado tudo no mundo para encontrar um alívio imediato, mas era feriado e eu percorreria toda a cidade de Bangkok sem achar um médico que me tratasse contra a mordida de um cão hidrófobo, e menos ainda para livrar um tolo das conseqüências de sua tolice — ou foi isso o que pensei na ocasião sendo provavelmente uma alucinação. Durante horas a agonia continuou, intensificando-se em vez de diminuir. Desejei morrer literalmente! Afinal, num espírito de total desprendimento, apelei com humildade para meu Yidam, usando, é claro, o seu mantra. Num instante; a situação foi transformada! O horror cedeu lugar à beatitude, no mesmo grau de intensidade!
Vou relatar mais uma experiência de qualidade diferente, mas o mantra de meu Yidam fez de novo a sua parte. Em si mesmo, o incidente seria trivial demais para ser digno de relato, se não fosse porque, pela primeira vez, o mantra produziu um efeito inteiramente externo para mim. Se alguém se gabar do poder iogue, não será apenas um ímpio, mas também encontrará maneira segura de perdê-lo; no entanto, neste caso, não existe nenhuma gabolice, pois o resultado, não sendo intencional, não reflete nenhuma capacidade especial de minha parte, mas só o poder do próprio mantra.
Eu tinha ido passar alguns dias com um amigo que possuía em seu apartamento de Hong Kong uma antiga e bela estátua de Tara Verde. Antes de me deitar, pedi incenso e uma tigela de água para usar num breve ritual que um de meus lamas me havia ordenado realizar todos os dias de minha vida, sem falta. Meu amigo, que eu ficara conhecendo na Floresta de Reclusos quando ainda éramos ambos muito jovens, era erudito, estudioso do budismo, mas muito conhecedor da Vajrayana. Por curiosidade, ele perguntou se podia estar presente enquanto eu realizasse o ritual, com o que concordei de boa vontade; portanto, ambos sentamos em almofadas, lado a lado, diante do relicário onde ele havia colocado a estátua da Tara Verde. Como de costume, acendi varetas de incenso e depois iniciei o que deveria ser unicamente a transformação mental da tigela de água no oceano do líquido que simboliza a sabedoria. Que eu saiba, nada inesperado ocorreu; mas quando nos levantamos de nossas inclinações finais, meu amigo — sem muita surpresa — comentou serenamente que, durante minha recitação mântrica, a água da tigela havia ficado verde — a cor de Tara! 0 mantra nunca tivera tal efeito até então, nem existia a intenção de que houvesse qualquer transformação física da água. Sem dúvida, o fenômeno resultou da conjunção do poder mântrico e do que residia na antiga estátua. Como meus pensamentos estavam voltados para meu íntimo, eu não ficara olhando a água da tigela e não posso dizer se na verdade ela ficara verde, ou se isso havia acontecido apenas na mente de meu amigo; em qualquer caso, o efeito foi externo na medida em que o mantra que pronunciei causara algo fora de mim. O incidente teve certa influência sobre minha capacidade de crer em histórias muito mais espetaculares a respeito de mantras; apesar de pouco importante, foi da mesma qualidade daqueles acontecimentos espetaculares nos quais eu tivera tanta dificuldade em acreditar.