Mantras, palavras sagradas de poder
Capítulo 2
A TRADIÇÃO PERDIDA
Agora, findaram-se as noites passadas entre figuras de túnicas brancas banhadas em luz dourada, entoando extasiadamente a sílaba mântrica BRONG. Eu havia entrado noutro mundo, não muito diferente, onde meus companheiros eram monges chineses, vestidos de negro, com as cabeças raspadas. Era a primeira hora da madrugada e o palco era o vestíbulo de um grande templo com telhados duplamente curvos, enfileirados, que se erguiam por entre os pátios cheios de flores de um mosteiro. Sobre o altar elevado brilhavam inúmeras velas, iluminando com fulgor as três enormes estátuas douradas — os Budas e o Mundo Triplo; no entanto o vestíbulo, com seus pilares festivamente pintados e suas vigas no teto, era sombrio, vasto demais para que a luz ressaltasse os rostos entre a multidão dos devotos. Suas escuras túnicas monásticas fundiam-se com a escuridão circundante, de modo que, às vezes, o mar de rostos pálidos assemelhava-se a um grupo de espíritos desencarnados. Em dado momento, os monges se tinham enfileirado perante o altar, mas logo se voltavam e formavam agora dois grupos que se defrontavam ao longo da nave central, desde o altar até a maciça porta de entrada. Eu estava de pé junto ao grupo do lado direito, e pude observar as expressões dos que estavam do lado esquerdo. Ao meu lado, o chantre, brandindo um bastão em forma de lótus emergindo da haste, batia um ritmo mântrico no "tambor-peixe de madeira", grande bloco de madeira, assim chamado devido a uma longínqua semelhança com a cabeça de um peixe; e de vez em quando outro monge marcava o cantochão batendo num grande vaso de bronze. Com este sonoro acompanhamento, a assembléia entoava um longo mantra expresso numa linguagem que já não era reconhecível como sânscrito; mas, como agora eu já sabia, seu efeito não dependia, em absoluto, do significado conceituai das sílabas sagradas. A onda de som era, sem dúvida, exaltadora; à medida que as notas jorravam, minha mente erguia-se em asas de não-pensamento pelo poder de um antigo mistério, e eu sentia o desejo de juntar minha voz à dos outros.
Em tal ambiente, teria sido perdoável supor que a centenária tradição mântrica ainda florescesse. Não era assim. Felizmente para mim, o interesse pelos mantras não ficava entre as razões que me levavam a pretender ficar muito tempo naquele mosteiro. Eu havia ido para a China à procura de estilos de vida que tivessem sobrevivido ao assalto das inovações estridentes do Ocidente, e estava ansioso por adquirir algo de valor para meu desenvolvimento espiritual; os mantras, apesar de todo o seu fascínio, não eram essenciais para nenhuma destas finalidades, de modo que não fiquei abalado com a descoberta de que restava pouca coisa da antiga tradição mântrica ainda em vigor na China, provavelmente porque a Seita Esotérica (Mi Tsung), da qual derivava o conhecimento dos mantras, estava, havia muito, agonizante. Os mantras, apesar de terem preeminência na liturgia monástica, que permanecera intocada durante séculos, eram agora considerados meios para obter boa sorte, encantamentos mágicos, e não como auxiliares do desenvolvimento espiritual. A história seguinte é uma das inúmeras que ouvi, e que serve para reforçar esta convicção.
Certa noite, logo após minha chegada ao mosteiro, eu caminhava pelos bosques circundantes com Su Ting, jovem monge que se tornara meu mentor e companheiro. Por acaso, ele havia falado sobre o poder dos mantras e, achando-me um tanto cético, disse com animação:
"Todas as pessoas do Oceano Ocidental são tão difíceis de convencer como você? É estranho! Basta que você use um pouco os seus olhos e ouvidos para descobrir coisas por você mesmo. Lembra-se de Hui Ting, o monge ao qual você deu aqueles biscoitos, quando ele partiu com os outros peregrinos para o Pagode Dourado em Burma? Ele poderia ter-lhe contado. Há alguns anos, quando ele era estudante primário em Mengtsê, sua cidade natal, fez amizade com o filho de um comerciante, cujo sobrenome era Kao. Quando, afinal, ele resolveu tornar-se monge, Kao pensou que ele estivesse louco e gritou para os vizinhos que não deixassem um moço promissor jogar fora sua felicidade por causa de 'uma porção de superstições tolas'. Você sabe como são as pessoas. Depois perderam-se de vista, como é natural, por alguns anos. Hui Ting, tendo feito seus votos, veio para nossa companhia há cinco ou seis anos. Então, no inverno passado, alguém veio bater no portão do mosteiro quando já era noite. Quando foi recebido, pediu bruscamente que o Recebedor de Hóspedes o levasse para ver o 'jovem Chang, de Mengtsê'. Chang é um sobrenome tão comum, e é claro que nós, que deixamos nossos lares, de modo nenhum usamos nossos sobrenomes; portanto, levou algum tempo para se descobrir que ele se referia a Hui Ting. Nosso visitante, como você já deve ter adivinhado, era Kao. Assim que os dois ficaram a sós, Hui Ting comentou:
"Você mudou, velho amigo. Não posso dizer que está com boa aparência. Você está magro. Quanto à sua cor, você tinha as bochechas tão vermelhas quanto as do Deus da Guerra, e agora..."
"Você tem razão, pequeno careca. O que mais poderia ter-me trazido a esta toca de eunucos desorientados? Eu estou doente. Os médicos não ajudam e, como último recurso, vim procurá-lo, para ver se por acaso existe algo de válido em sua sagrada tolice. Você tinha muito bom-senso, o que me leva a supor que deve ter tido uma boa razão para abandonar tão ansiosamente as alegrias do mundo. Você era um moço que gostava de garotas bonitas; agora, você não pode sequer ter uma esposa, ainda menos divertir-se com meretrizes hábeis na música e você-sabe-mais-no-quê."
"Hui Ting sorriu. Lembrava-se de que era o próprio Kao que se envolvia com mulheres da vida, e não se ofendia absolutamente com essa maneira de colocar as posições. 'Não se preocupe com minhas dificuldades — elas não são o que você imagina. Que é que o trouxe até nós, batendo em nosso portão a esta hora de uma noite tão gelada de inverno?"
"A história de Kao era que, um ou dois anos antes, ele havia atirado com violência sua esposa para o mundo dos fantasmas. Sempre censurando suas infidelidades, ela o havia induzido a espancá-la e, ao cair de costas com os golpes, fraturara a cabeça, batendo na quina de uma mesa pesada. A fratura, agravada pelo virulento veneno do ódio, causara a sua morte. Mas não era só isso. Assim que ela foi colocada no caixão, ele começou a sofrer violentas dores na cabeça, exatamente na parte correspondente à batida fatal."
"O espírito dela está à minha procura", queixou-se Kao. "Não posso trabalhar. Não posso descansar. Desisti da minha loja e o preço que recebi por ela foi engolido por um grupo de médicos incompetentes. Agora eles dizem que tenho um tumor incurável. A não ser que Vossa Reverência possa sugerir uma cura para isso, estou perdido. A própria Morte, em si mesma, não seria tão má, mas imagine se eu tiver que encarar esse fantasma malévolo no mundo dos espíritos?"
"Não sendo médico, Hui Ting estava em apuros. Gostaria de ajudar, mas como? A única coisa que sabia fazer era meditar. Só pôde pensar numa forma de poderosa aspiração para o bem estar de seu amigo e invocar o Buda Que Cura. Isto deu provas de ser inesperadamente efetivo. Passando para um estado de tranqüilidade, ele abriu os olhos e, ao fazer isto, ouviu uma voz que saía de seus próprios lábios, que disse: "Volte para Mengtsê. Levante antes da madrugada, todos os dias. Agasalhe-se por causa do frio e vá sentar junto ao lago, no Templo do Clemente Kuan Yin, no limite leste da cidade. Mantendo o olhar na água, recite o mantra que lhe ensinarei, milhares de vezes em cada manhã. Os primeiros sinais de sucesso serão o aparecimento de ondinhas na água, como se uma pedra fosse atirada nela, e a diminuição de sua dor. Se você se concentrar corretamente, essas ondas criadas pela sua mente serão cada dia mais pronunciadas. Continue até que o próprio Misericordioso se manifeste, erguendo-se do centro em ondas concêntricas. Quando isso acontecer, cumprimente-o com humildade e vá embora. Não será preciso voltar lá."
"Kao fez o que a voz havia ordenado. Dentro de poucos dias, sua dor se tornou menos intensa e, apesar de ter apanhado um resfriado, certo dia em que esperou sentado, com paciência, durante uma leve tempestade de neve, ele persistiu até que as sílabas mântricas, precedendo o esforço de sua mente, causaram ondas circulares, tal como fora predito. No décimo quinto dia da segunda lua, ele viu um peixe branco saltar de dentro das ondas, permanecer no ar pelo espaço de três batidas de gongo e manifestar-se como uma radiosa figura envolta em branco puro, apesar de não ser uma figura maior do que a de um recém-nascido. Inclinando-se até o chão três vezes, Kao correu para casa cheio de alegria. A cura fora completada e agora, todos os anos, ele vem aqui no Aniversário do Clemente Kuan Yin para tomar parte nas celebrações e fazer oferendas à nossa comunidade."
Su Ting me asseverou que as ondas no lago e o aparecimento do Misericordioso Bodhisattva em forma de miniatura eram fenômenos objetivos evocados pelo mantra, em conjunção com a poderosa concentração da mente de Kao. Apesar de não estar convencido, não rejeitei totalmente a possibilidade de que Su Ting tivesse razão. Agora tenho certeza de que ele tinha razão, pois os mantras pronunciados com profunda sinceridade libertam poderes mentais criativos, dos quais naturalmente não temos consciência. Mesmo assim, a história exemplifica a preocupação chinesa com um aspecto dos mantras que é apenas de importância secundária.
Histórias dessa espécie, como é natural, tornavam-me duplamente curioso sobre os mantras que formavam parte da liturgia monástica usada em toda a China, sem levar em conta se era um mosteiro da Seita Ch'an (Zen), da Seita Ching T'u (Pura Terra) ou qualquer outra. Verifiquei que era difícil obter informação abundante sobre o assunto. Os monges mais velhos que procurei para orientação geralmente fugiam de minhas perguntas, estendendo-se sobre a excelência de certas fórmulas devotas que, apesar de não diferirem dos mantras pelo efeito, pertenciam a categoria diferente de expressão sagrada, como veremos adiante. Ao passo que os mantras são denominados chou em chinês, as fórmulas devotas são conhecidas como nien-fu (que correspondem ao sânscrito japa. Ambas induzem a um estado contemplativo da mente, a qual fica livre do pensamento dualístico, mas diferem completamente; enquanto os mantras despertam uma resposta direta dentro da própria mente do devoto, as fórmulas nien-fu são apelos ostensivos para que uma resposta divina venha de fora. Entretanto, essa diferença só se mantém no nível da verdade relativa, não havendo divisão, no sentido principal, entre o interior e o exterior em tais assuntos, pois nossas mentes e a Mente são reconhecidas como sendo uma coisa só. Na verdade, o mais elevado propósito do procedimento iogue é realizar uma experiência direta da unidade das mentes com a Mente. Enquanto os místicos cristãos e sufi consideram essa experiência como atingindo a união entre o homem e Deus, e os adeptos budistas e taoístas, uma realização de um estado de união com a Fonte Suprema que, desde o início, nunca cessou de existir, estas diferenças conceituais não têm validez definitiva. Dentro do aprisco do budismo, o uso de fórmulas nien-fu assemelha-se muito superficialmente a uma posição teísta, ao passo que as outras posições, inclusive aquela em que os mantras são usados, são, obviamente, livres de teísmo; no entanto, em essência, e como resultado, o uso é o mesmo. Segue-se agora o relatório das fórmulas dos mantras e das nien-fu.
Diariamente, antes do nascer do sol, a comunidade de todos os mosteiros chineses budistas é convocada ao vestíbulo pelo clangor ressoante de uma chapa de bronze, alternado com o ribombar de um gigantesco tambor. Os monges prosternam-se três vezes, regulando seus movimentos pelas notas de um carrilhão de prata, depois de se reunirem ante as estátuas resplandecentes dos Budas do Mundo Tríplice, as quais são tão elevadas que as feições esculpidas e os sorrisos enigmáticos, revelando o êxtase da mente, ficam perdidos na sombra. Depois se elevava um solene hino incensatório como prelúdio para ritos em que três principais correntes se intercalavam: cantos de bênção e aspiração (o equivalente mais próximo da oração), a recitação de mantras e o pronunciamento de fórmulas devotas (nien-fu) dirigidas a Amitabha, encarnação da luz da verdade, ou a Avalokitesvara (Kuan Yin), corporificação da suprema compaixão. Um mantra realmente impressionante de três mil sílabas era recitado durante quase trinta minutos, ainda que o ritmo batido no tambor-peixe de madeira fosse rápido e não lento. No entanto, tais mantras litúrgicos, emitidos de maneira monótona demais para serem chamados de cânticos, eram mais melodiosos e variados do que o cantochão propriamente dito. Apesar de ter sua origem na índia, a melodia não podia mais ser reconhecida como indiana. Todos os monges recitavam toda a liturgia de cor e, ainda que as seções mântricas não contivessem nenhum significado inteligível, eu podia ver, pelas expressões dos que ocupavam a nave, que elas inspiravam exaltação. Na verdade, havia sempre um punhado de monges que tinha tosse ou resfriados e alguns irrequietos e jovens noviços, que aparentavam o desejo de que o rito terminasse. Mas a maioria da assembléia permanecia de pé, imóvel, de olhos fechados, a bem- aventurança iluminando os seus rostos. Eu também me sentia invadido e elevado por aquela torrente solene de sons, desejando participar. Desanimado pela dificuldade de decorar tudo, nunca aprendi o mais longo dos mantras, mas consegui entregar à memória inclusive o de 415 sílabas, Ta Pei Chou (Mantra da Grande Compaixão) que, em certas ocasiões, era repetido vinte e uma vezes, ou até cento e oito vezes consecutivas.
Havia um velho monge que, em resposta à minha pergunta sobre a razão da serenidade inspirada pelos mantras, respondeu que era o som, que, inspirado de modo misterioso, tornava a mente capaz de secreta afinidade com o Tao, a Fonte do Ser, mas a resposta não me impressionou, por ser muito vaga. Eu ainda estava inclinado a supor que o efeito era semelhante ao da hipnose, devendo-se mais ao ritmo do tambor e ao melodioso clangor da grande chapa de bronze do que aos próprios mantras; ainda assim, reconheci a superioridade do pronunciamento mântrico sobre a oração, pois as orações transmitem um significado conceituai ao evocar o pensamento, o que impede a serenidade da mente do adepto. A mente de alguém não consegue atingir um estado de calma, sem perturbações, refletindo a serenidade da Fonte, enquanto estiver ligada a dualismos como "Eu, o adorador; Ele, o Adorado". A oração é, no máximo, uma forma elementar de comunhão mística; quanto às orações que contêm petições, nada menos espiritual e com interesse pessoal do que rezar por uma vitória, por tempo bom ou boa sorte, que só pode ser obtida à custa dos outros. Não era de admirar que eu confundisse o processo dos mantras com algo semelhante ao poder hipnótico. Os ocidentais, educados para questionar, analisar, investigar, ficam portanto impedidos de chegar espontaneamente ao êxtase místico.
Quanto aos outros componentes da liturgia chinesa budista, sem comparação, a mais interessante era a recitação de fórmulas devotas — prática de nien-fu mas eu também apreciava os cânticos de bênção e os anelos, pela riqueza de sua imaginação. Imagens como "Buda brilhando com a Lua da Flor Dourada", "Buda fulgurante com a Irradiação Cor de Pérola do Sol e da Lua" talvez promovam a realização intuitiva da experiência mística, geralmente acompanhada pela percepção da luz interior.
Namo O-mi-to Fu (Reverência ao Buda Amitabha ou à Encarnação da Luz sem Limites), a fórmula nien-fu mais largamente usada, tem, é claro, um significado conceituai, mas era usada na maneira pela qual os místicos da Igreja Ortodoxa empregam a Prece de Jesus, isto é, como meio de transcender o pensamento conceituai e de estabelecer a comunhão com O Que Existe no íntimo. A recitação da fórmula constituía uma parte importante do rito noturno. Os monges, fossem apenas um punhado ou várias centenas deles, perambulavam pelo vestíbulo do santuário, enfileirados, às vezes passando por trás das estátuas douradas, às vezes indo e vindo do espaço entre as estátuas e o altar, onde ardiam as lâmpadas e as velas. À frente caminhava o celebrante, seguido pelo chantre que batia o ritmo num tambor portátil, decorado com laca dourada e escarlate. Inicialmente, o andar era lento e às vezes se prolongava sobre cada sílaba — NA-a-a-a MO-o-o-o-o O-a-a- a-a Ml-a-a-a-a TO-a-a-a FU-u-u-a-a-a. Depois, o ritmo se acelerava, os sapatos de sola de tecido batiam mais rápido e a invocação assumia uma urgência crescente. Ao final, os monges avançavam tão depressa quanto podiam sem desandar numa correria ou tropel, enquanto a invocação era encurtada para quatro sílabas pronunciadas com rapidez,- OMITO FU, OMITO FU, OMITO FU. . . Então, à medida que se elevava o fervor, e às vezes subia num crescendo, uma nota semelhante à de um sino soava na chapa sonora, o que levava a procissão a uma parada. Seguia-se um momento de silêncio, interrompido talvez por um suspiro.
Então, CLANG! Com este sinal partido da grande chapa de bronze, os monges, adequadamente, apressavam-se a retomar seus lugares no centro do vestíbulo, para os estágios finais do rito.
Esotericamente, eles haviam recorrido ao Buda Amitabha para que os admitissem, quando morressem, em sua Terra da Pureza, onde, libertos de todos os obstáculos mundanos, pudessem se preparar para a inefável beatitude do Nirvana. Esotericamente, a Terra da Pureza era reconhecida como algo inatingível dentro da mente do próprio devoto — um estado de tranqüilidade que sobreviria quando a mente fosse expurgada do desejo desordenado, e iluminada pela compaixão, uma perfeita unidade das mentes com Mente! Ensinaram-me que pronunciar o nome sagrado com perfeita concentração, mil vezes, dez mil vezes ao dia, fosse com a mente e os lábios ou só com a mente, sem dar importância, por menor que fosse, ao assunto prático do dia, suscitaria um estado de santidade para além do pensamento conceituai. A consciência, liberta das distinções mutiladoras entre pensador e pensamento, entre pensamento e objeto do pensamento, expandir-se-ia e assumiria a vastidão e sublimidade da Fonte Suprema — Amitabha reconhecida como Pura Mente, o Tao, Nirvana!
Naturalmente, naquele tempo eu ignorava o significado secreto da doutrina da Terra da Pureza; os monges, na sua sabedoria, abstinham-se de expor doutrinas tão sutis a noviços, e eu não tinha Ta-hai ou o Quinto Tio para murmurar pequenas explicações aos meus ouvidos. É preferível, além do mais, deixar que o conhecimento vivificante surja por si mesmo. Apesar disso, eu já tinha conseguido entender que a prática nien-fu seguida durante o rito noturno não era essencialmente diferente da recitação dos mantras pela manhã; as duas práticas envolviam o uso de palavras de um modo que transcendia o seu significado.
Tendo sonhado de longe com a China, desde meus onze anos, tinha ânsia de conhecer cada vez mais o que me parecia uma terra mágica. Minhas irrequietas viagens levaram-me a inúmeros santuários budistas e taoístas, sendo alguns grandes mosteiros e outros pequenos, quase sem visitar os templos. Os locais haviam sido escolhidos com amorosa atenção e pelos encantos da natureza. Encontravam-se tetos curvos cobertos de porcelana verde, azul ou amarela, erguendo-se como palácios de fadas entre bosques de cedros ou moitas de bambus delicados. Às vezes, seus muros escarlates ou carmesins podiam ser vistos junto à saliência de um rochedo que dominava, lá de cima, uma torrente fumegante, ou um elegante pagode ser entrevisto sobre o topo de uma colina à beira de um lago, com seus onze ou treze andares refletidos na superfície da água. Beleza e mais beleza! Os imponentes portões de entrada desses santuários formavam o limiar de um mundo de mistério. Até mesmo as cozinhas e banheiros, até as divisões para latrinas, tinham nalguma parede ou pilar um pedaço de papel escarlate inscrito com um mantra apropriado para cozinhar, lavar-se ou esvaziar os intestinos, preciosos lembretes sobre a santidade de cada ação, de cada objeto, sem excluir os que enchem de nojo as pessoas sem discernimento. Deste modo, os monges eram exortados a não fazer um uso menos apropriado do tempo dedicado a tarefas e a abluções do que das horas que passavam na sala de meditação. A completa negação do ego, a união consciente com a Fonte do Ser é uma realização tão difícil dentro do tempo de uma vida que nem um momento pode ser desperdiçado; pois, se a oportunidade é perdida, quanto tempo a mais de vida não se passará até que as condições necessárias para progresso ulterior sejam encontradas? Tais foram, pelo menos, os pensamentos que inicialmente inspiraram a colocação de mantras em lugares tão pouco apropriados, mas a longa familiaridade havia enfraquecido a sua mensagem. É duvidoso que ao menos um monge, entre dez ou vinte, tenha realmente recitado um mantra enquanto se agachava sobre uma fossa.
Lamento agora não ter indagado por que certos mantras, particular, eram julgados apropriados para a ablução ou a defecação. A resposta poderia ter lançado alguma luz sobre a questão de fazer distinção entre toda uma série de mantras necessários para corresponder à variedade de circunstâncias, ao passo que uma fórmula nien-fu é considerada inteiramente Suficiente para uso em todas as contingências.
Havia mantras especiais para uso durante as refeições. 0s monges, tendo entrado no refeitório, ficavam de pé, em Silêncio, enquanto um deles fazia uma oferenda aos espíritos girantes que se acreditava estarem ali aglomerados. Erguendo alguns grãos de arroz, em pauzinhos, o monge os depositava sobre um baixo pilar de pedra, esculpido em forma de lótus e que ficava no pátio adjacente. Ao fazê-lo, recitava um mantra que converteria mentalmente a oferenda num grande banquete. Apesar de não estar convencido, então, da existência desses invisíveis aglomerados, eu admirava a prática, tomando-a como um lembrete diário do dever budista da compaixão para com qualquer espécie de ser sensitivo, e da verdade da ioga de que nada é o que parece ser, sendo ilusória a aparente solidez dos Objetos, sendo os visíveis e os invisíveis igualmente reais ou irreais.
O mais belo e misterioso dos ritos monásticos era o usado para saciar a fome das "bocas ardentes" ou dos espíritos atormentados de homens que haviam sido avarentos. Quando ocorria uma morte, era costume dos parentes do morto realizarem vários atos caridosos para acrescentar sua provisão de méritos e assim exercer uma influência benigna nas condições de sua existência seguinte; dessas ações, em geral faziam parte a distribuição gratuita de algum texto sagrado, como o Diamante Sutra e o oferecimento de um banquete para as "bocas ardentes". Para esse rito, o principal oficiante, vestido com uma túnica escarlate e dourada, e usando o chapéu em forma de lótus com cinco pétalas de um Bodhisattva, sentava na ponta da mesa comprida e estreita, com seus assistentes colocados em banquetas de cada lado e equipados com acessórios tais como livros litúrgicos, tambores, sinos e implementos rituais. A mesa era então colocada de modo a ficar de frente para um pátio bastante espaçoso para acomodar a multidão de hóspedes invisíveis bocas-ardentes com gargantas finas como hastes de grama e monstruosas barrigas, nas quais bastava jogar um grão de arroz ou um gole de água para que se transformassem logo numa chama ardente, a não ser que esse alimento se transformasse em amrta (néctar) para conforto dos hóspedes.
À medida que o rito prosseguia, os dedos do oficiante agitavam-se durante uma série de mudras, tão graciosamente como os gestos de uma dançarina indiana; enquanto isso, ele entoava uma seqüência de mantras pontilhada pela batida do tambor de madeira e o tilintar de um sino ritual. Os verdadeiros adeptos dessa tarefa sabiam produzir ondas de sons impressionantemente melodiosos. As palavras não podem reproduzir a beleza desse rito ou a melancolia e pavor que ele criava no coração dos presentes. Os lindos gestos e o canto misterioso, com suas cadências antigas, atuavam de tal modo sobre os sentidos que era fácil ver a multidão de espíritos atormentados e, igualmente, "ouvir" seus gritos lamentosos enquanto esperavam, com angústia e agoniada ânsia, pelo amrta que aplacaria sua fome e sua sede. Não era preciso crer firmemente nessas presenças invisíveis para se comover com o drama do ritual, pois o mundo está repleto de seres famintos e carentes — humanos, animais, e talvez membros de ordens invisíveis — lamentavelmente necessitados da compaixão que brota na mente, tal como ensina a experiência iogue.
Por mais impressionantes que fossem esses remanescentes de uma rica tradição mântrica outrora difundida, em breve me vi forçado a concluir que o conhecimento sobre a natureza e função dos mantras se havia tornado raro na China, exceto nas regiões fronteiriças onde florescia a Vajrayana e em certas cidades da Mongólia e do Tibete, onde foram reintroduzidos por pequenos grupos de devotos. O prevalecimento dos mantras na liturgia monástica seguida pelas seitas Ch'an (Zen) e da Terra da Pureza era a curiosa e fortuita sobrevivência do tempo em que a extinta Seita Esotérica havia florescido. Provavelmente, a liturgia havia sido planejada de forma aceitável para todas as seitas, numa época em que a Seita Esotérica ainda se mantinha entre as outras, e a intenção havia sido a de que todas as abordagens da sabedoria iogue deviam ser encorajadas. Como os mosteiros chineses eram fortalezas da tradição, ninguém havia pensado em modificar a liturgia, mas era raro encontrar um monge que fosse capaz de expor uma tradição mântrica. A maior parte dos monges, tendo perdido os aspectos mais sublimes, contentava-se em considerar os mantras como força mágica, útil para o alívio de doenças, e para transformar as oferendas para os espíritos, sem preocupação direta com os que estão ligados à suprema tarefa de alcançar uma realização mística. Para um Mestre-Dharma preparado para discorrer, mesmo brevemente, sobre os mantras, havia dezenas deles que preferiam falar a respeito dos maravilhosos frutos da prática nien-fu, ou sobre os métodos contemplativos da seita Ch'an. A serenidade experimentada durante a recitação dos mantras litúrgicos era bem real; no entanto, eu tinha certeza de que haviam sido mantidos mais por respeito à tradição do que pelo cuidado com seu valor como auxílio para o progresso na ioga.
Como é natural, eu estava muito influenciado pelas idéias de meus mestres chineses e pelos monges com os quais costumava passar semanas ou meses de cada vez, de modo que continuei a compartilhar de sua atitude para com os mantras, continuando a atribuir seu efeito sobre mim ao canto sonoramente ritmado, mais do que ao poder das próprias sílabas mântricas. Mas sempre que eu deixava perceber que considerava os ritos para alimentar espíritos e bocas-ardentes como encantadoras alegorias com a intenção de desenvolver uma compaixão espontânea, os monges repreendiam minha descrença e insistiam comigo sobre o que sem dúvida julgavam ser verdadeiros relatos de maravilhas produzidas pelos mantras. Entre essas histórias, havia uma que me causou grande impressão porque, verdadeira ou não, parecia indicar o que poderia ser a fonte real do poder mântrico, se é que tal poder existe de fato. Não me lembro do nome do Mestre-Dharma que foi o principal protagonista, mas o chamarei de Hung Kuan Fa-Shih. Assim é a história:
0 Mestre-Dharma Hung Kuan Fa-Shih era tão maravilhosamente adepto da realização dos ritos para beneficiar bocas-ardentes e espíritos errantes, que aos circunstantes parecia estar presente uma multidão que se reunia junto à mesa, em que, vestido como um Bodhisattva, ele ficava sentado entoando as palavras sagradas, com as mãos adejantes e os dedos girando, à medida que os mudras iam sendo substituídos. Mais de uma vez, alguém o ouvira dizer: "Entre os cidadãos de todos os universos das dez direções, não há nenhum tão maldoso como aquele que transgrediu a incomensurável compaixão de Buda. Os que temem pelo bem-estar dos seus mortos podem murmurar o nome deles para mim. Mesmo que sejam culpados de crimes nefandos, como matar e comer a carne dos seus parentes, eu não os abandonarei. Foi este o voto que fiz perante a face do Buda Compassivo." Até mesmo os descendentes de diabos podem ser movidos pela piedade filial, de modo que aconteceu virem filhos e filhas de criminosos decapitados e de outros miseráveis que haviam mergulhado em crimes. Eles vinham procurar o Mestre-Dharma em segredo e implorar sua ajuda. Ele nunca a recusou. Certa noite, ele admitiu em seu eremitério um moço que viera interceder por seu pai, notório bandido, culpado não só de um mas de dois, entre os cinco crimes que, segundo o ensinamento ortodoxo budista são indizivelmente atrozes. Tendo liderado o ataque a um convento isolado, ele imitara seus companheiros, violentando e assassinando castas freiras e "tirando sangue do corpo de um Buda", isto é, cortando com sua espada as imagens sagradas!
Suspirando ao pensar em crime tão insensato e apavorante, Hung Kuan concordou com o pedido do moço e, despertando seu discípulo mais chegado, preparou-se imediatamente para lutar pela libertação do espírito atormentado. Durante o rito, os outros notaram, com preocupação, que de vez em quando o Mestre-Dharma titubeava, com as faces brancas como cinza*, as mãos trêmulas, a voz chegando a ser um sussurro, mas, de cada vez, ele parecia fortalecer-se e o rito prosseguia. Emergindo da escuridão circundante, o espírito do chefe dos bandidos apareceu. Ficou de pé, inclinado sob o peso acabrunhador dos pecados. Foi fácil notar o feliz momento em que esse peso, abruptamente, caiu. Imediatamente, sua forma enevoada ficou ereta e, olhando o moço, gritou num tom de gelar sangue, como falam os que ultrapassaram o limiar da morte: "Moço infeliz! Você teria agido melhor se deixasse seu pai sofrer uma era de tormento do que privar o mundo deste santo monge que salvou um número incontável de miseráveis criaturas de uma sorte dolorosa e que tinha muitos anos de vida diante dele!" Com estas palavras, o espírito desapareceu. O Mestre-Dharma, lutando contra a fraqueza, conseguiu força suficiente para terminar o rito, antes de cair morto nos braços de seu choroso discípulo.
Afinal, voltando-se para o aterrorizado moço, esse monge falou com tristeza: "Nosso Mestre foi capaz de libertar numerosos espíritos pelo poder de seu mérito. Todo mantra que ele pronunciou, cada um de seus gestos sagrados, tudo foi fortalecido pela vitalidade de sua mente imperturbável. Sem dúvida, ele sabia que libertar um espírito carregado por tão repugnantes crimes, como os de seu pai, esgotaria sua reserva de força vital. Entretanto, em vez de rejeitar seu voto, ele o ajudou de boa vontade, mesmo sabendo que isso lhe custaria a vida! O mínimo que você pode fazer é apressar-se em entrar num mosteiro e passar sua vida adquirindo mérito para ajudar, por sua vez, alguns espíritos desgraçados." Assim fez o moço, porém a recompensa foi pequena diante de tão irreparável perda. Há outra história que permanece em minha memória provavelmente porque, quer seja verdadeira ou apenas criada como um conto moral, contém um elemento factual com relação à natureza do mantra. Na província de Honan havia duas crianças, Lao San e Lao Szê. Como Confúcio em tempos antigos, o menino e a menina gostavam de imitar as cerimônias adultas. Além de realizar "casamentos", "funerais" e "cerimônias da lua cheia", usando bonecas para representar bebês de um mês, freqüentemente visitavam um templo deserto a fim de se prosternarem até o chão diante de Buda Compassivo. Certo dia, para sua considerável mas não imensa surpresa, a estátua do Buda falou com eles, comunicando uma breve fórmula sagrada cujas sílabas eles decoraram com atenção, apesar de incapazes de entender seu significado. Foi um segredo que guardaram dos outros e, sempre que surgia um problema infantil, eles repetiam as sílabas num murmúrio, e o problema era resolvido, logo ou pouco tempo depois.
No inverno seguinte, eles pararam por acaso diante de um lago gelado, para ver outras crianças patinando. Em dado momento, um garoto de uns catorze anos aproximou-se do centro do lago, mais do que seus companheiros. Subitamente, com o som de um tiro de revólver, o gelo se partiu e começou a baixar. Com a rapidez do pensamento, os irmãos pronunciaram sua fórmula sagrada, depois do que o gelo partido, através do qual a água começava a subir, ficou firme até que o patinador alcançasse o gelo mais firme perto da margem. Dançando de satisfação, Lao San e Lao Szê gritaram a plenos pulmões que o garoto devia a vida às suas palavras mágicas. Meio impressionadas, meio caçoístas, as outras crianças se reuniram à volta deles, exigindo uma explicação.
"Quais palavras mágicas?" exclamou outro garoto, torcendo o braço de Lao San até que ele gritou, pedindo piedade. Instintivamente, os irmãos sabiam o que aconteceria se revelassem seu segredo, mas a dor era forte demais para que o menino a suportasse. Soluçando amargamente, revelou a sagrada fórmula: Naturalmente, as outras crianças exigiram uma demonstração antes de soltar sua vítima. Infelizmente, quando aplicada para salvar um cão vadio de uma saraivada de pedras, o mantra falhou. E também nunca mais agiu, para Lao San e Lao Szê.
A verdade contida nesta pequena história é a de que os adeptos da arte mântrica que se gabam de sua realização, ou procuram demonstrá-la para outros, perdem seu poder. Isso é lamentável, pois o reconhecimento desse fato reforça a modéstia natural que advêm do progresso espiritual, com o resultado de que raramente alguém pode testemunhar, a não ser por acaso, manifestações convincentes do poder mântrico. A convicção, em geral, só é obtida como resultado do poder interior que a pessoa alcança.
0 fato de que este genuíno conhecimento mântrico tenha sido outrora muito difundido na China é verificável por várias passagens da liturgia budista. Por exemplo: há uma passagem, conhecida como "Mêng-Shan Shih Shih-I" (literalmente, "Doação do Monte Secreto de Oferendas") que, de modo superficial, assemelha-se a mágica quando o oficiante traça com a ponta do dedo uma sílaba mântrica sobre uma tigela de água pura, a fim de convertê-la em amrta ou, como dizem os chineses, kan-lu (orvalho doce); mas é notável que, antes do mantra, vêm as palavras: "Quem quer que deseje compreender os Budas do Mundo Tríplice deve entender que o universo inteiro consiste em nada além da mente." Isto, como vim a saber mais tarde, é o contexto no qual toda a ciência dos mantras deve ser entendida. Nesta passagem, temos o remanescente do conhecimento profundo anteriormente transmitido pela Seita Esotérica. Por que teria desaparecido da China esta seita com seus fascinantes segredos, há quase mil anos? Provavelmente, porque empregou a imagem sexual que, por motivos perfeitamente respeitáveis, caracteriza a Seita Vajrayana do Tibete. Se é assim, as autoridades confucianas, ignorando a elevada natureza das doutrinas veladas por essa imagem, devem ter ficado assustadas. Os confucianos, sem serem puritanos inflexíveis, eram chocantemente cheios de preconceitos, e podem muito bem ter dado ordens para que as imagens e pinturas sagradas fossem destruídas. Outra possibilidade é a de que, impressionados pelos relatos sobre os estranhos poderes dos iniciados, os confucianos os tenham tomado por feiticeiros, perseguindo-os com rigor. Em toda a história e em muitas partes do mundo, a acusação de feitiçaria tem freqüentemente sido feita a expoentes das formas mais esotéricas de religião, apesar de sua conduta ser em geral inatacável, governada por intenções da mais irrepreensível pureza.