Mantras, palavras sagradas de poder
Capítulo 5
ALGUNS MANTRAS IOGUES
Certa vez, circunvagando pela grande stupa (chetiya) na antiga cidade de Nakorn Pathom na Tailândia central, dei com a visão mais inesperada, e ali fiquei em transe: um vasto, mas adoravelmente gracioso edifício de cone maciço e estupenda abóbada, recoberto com ladrilhos da cor do sol. Era como se um montículo da neve de Kanchenjunga tivesse sido transportado para aquela planície tórrida e tremeluzente. Lá, nos jardins luxuriantes, além da face ocidental da stupa, havia uma piscina ornamentada, de cujo centro se erguia uma estátua de Padma Sambhava, o Nascido do Lótus, o "Precioso Guru" dos Nyingmapas! Numa terra em que a forma tibetana do Budismo é virtualmente desconhecida e não se ouve falar na seita Nyingma, encontrar uma estátua deste ser era quase tão extraordinário como deparar com uma figura da Virgem na Meca! Assombrado, eu olhava, enquanto recordações me assaltavam. Quase podia ouvir a batida e a cadência dos címbalos e o som excitante dos tambores rituais tibetanos. Para mim, o perfume de frangipana estava magicamente transmudado na fragrância do incenso tibetano tocado pelo aroma mais picante da fumaça das lamparinas. Até meu ouvido mais íntimo vinha o cantochão do mantra do Precioso Guru elevando-se como um peã, como em alguma grande reunião tibetana, durante a qual são recitados versos em sua honra e mil vozes se juntam no mantra OM AH HUM VAJRA GURU PADMA SIDDHI HUM! Essas recordações, por sua vez, evocavam um mar de benevolentes rostos tibetanos iluminados pelo transe.
Vivendo numa cidade onde a madrugada é recebida por uma esquadra de caminhões com dez rodas, que aumentam de velocidade bem diante da janela do meu quarto, regozijo- me com as lembranças de uma região majestosamente bela da Terra, onde o silêncio reina sobre os montes e uma vigorosa tradição mística ainda sobrevive — uma tradição não-confinada, como no Japão, a templos que formam ilhas de tranqüilidade cercadas pelo ruído ensurdecedor da cidade moderna, mas que é compartilhada por todos os povos de ascendência tibetana, habitantes de montes e vales que se acocoram sob a sombra dos picos de neve himalaianos, que os sobrepujam.
Nessa região abençoada, ainda não-poluída pelo mau cheiro do petróleo e pelo lixo das sacolas plásticas, são encontrados não só lamas santos, mas muitos leigos em vários caminhos da vida que não são impedidos, na dureza de sua luta pela existência, de cultivar o atalho da cultura iogue. Ali, a ioga ainda mantém sua conotação adequada — "união". Isto fica muito longe do sistema de exercícios ginásticos comparáveis ao judô ou ao karatê, que muitas vezes passam por ioga no Ocidente. Podem ser incluídos exercícios físicos — alguns muito excitantes, tais como a geração de calor interno que capacita os adeptos a se sentarem, despidos, na neve e no gelo derretido em contato com sua carne mas sua ioga é, essencialmente, a ioga que existe na mente, sendo seu propósito nada menos que a experiência mística exaltada, conhecida pelos budistas como Supremo Esclarecimento. Muito dela consiste em práticas contemplativas tais como a ioga Yidam da qual os únicos componentes físicos são as recitações que acompanham e as posturas sagradas. As iogas psicofísicas para se harmonizarem com os canais de "respiração, psíquicos e de vitalidade" com o intuito de alcançar a Iluminação ainda nesta vida são ensinadas apenas aos adeptos adiantados e o ensinamento é estritamente confinado a iniciados selecionados. O que é preciso descrever agora são as iogas contemplativas para as quais é comparativamente fácil conseguir a iniciação; os mantras incluídos já apareceram em diversas publicações e não podem ser considerados secretos, ainda que alguns dos seus mais elevados usos pertençam ao conhecimento sagrado cujo acesso é ainda cuidadosamente guardado. Bem acima do que pode ser chamado de budismo popular, elas são no entanto largamente praticadas numa região onde lamas capacitados para conferir iniciações não são difíceis de encontrar. A ioga da deidade interior, em geral, forma o âmago da prática iniciática do leigo tibetano, mas raramente o todo; é provável que seu lama exija dele a realização de certas iogas suplementares durante as quais algumas deidades diferentes de Yidam são visualizadas e usados outros mantras. Essa contemplação de mais do que uma deidade deu o ensejo absurdo a uma acusação contra a Vajrayana: a de que é politeísta! Nada poderia estar mais longe da realidade, pois os iniciados estão perfeitamente cientes de que existe apenas, em última fase, a fonte da sabedoria intuitiva; a corporificação desta Fonte, ou de suas emanações em várias formas, é devida ao reconhecimento de que as emanações diferenciadas da energia suprema da sabedoria-compaixão pode ser percebida mais facilmente por mentes que ainda estão longe da Iluminação. Mais tarde, o adepto descobre que há razões psicológicas sensatas para muitos aspectos da prática iogue que, a princípio, podem parecer de valor discutível.
Mantras de Apoio
Mesmo antes da iniciação, muitos tibetanos terão provavelmente tomado parte em ritos centrados no mantra da compaixão, OM MANI PADME HUM, sobretudo aquelas evocações comunitárias de Avalokiteshvara Bodhisattva, durante as quais as aspirações pelo bem-estar de indivíduos, grupos de pessoas ou seres sensitivos em geral são imbuídos pelo mantra cujo poder traz algum alívio para os sofrimentos.
De espécie um tanto diferente são as evocações que podem ser denominadas "de apoio", pois são usadas em relação com grande número de iogas de maneira periférica.
De particular importância é o mantra OM AH HUM.
Trata-se de sílabas de grande poder; a primeira e a terceira são tão impregnadas de significado que muitas páginas seriam necessárias para elucidar exaustivamente este mantra. Usado como "mantra de apoio", ele tem tido funções principais em três casos: (1) para criar uma atmosfera ritualmente pura antes de iniciar a prática mais importante; (2) para transmudar oferendas materiais em suas principais contrapartidas; e (3) para servir de compensação para um mantra que foi esquecido ou que se ignora. Neste contexto, OM, a sílaba inicial de quase todos os mantras, encarna (como sempre) um tremendo poder criador e representa o Infinito, a Mente Única, a consciência que tudo abrange e a própria essência da existência. AH mantém e preserva o que OM cria. HUM imbui o que foi criado com energia vital, além de submeter a paixão e destruir o pensamento dualístico. Juntas, as três sílabas preparam e purificam a mente do adepto para a ioga que ele vai realizar. Ao fazer oferendas como parte do antigo ritual que governa as iogas desta espécie, sendo seu propósito simbolizar a renúncia dos desejos mundanos, o adepto insere o nome da substância oferecida entre a primeira e a segunda sílabas do mantra, assim OM PUSHPÉÃH HU M, OM DUPHE AH RUM, quando as palavras inseridas significam flores e incenso. Para substituir corretamente um mantra de saudação a uma deidade particular de mediação, o mantra requer a inserção do nome da deidade, assim: -OM SAMANTABHADRA AH HUM. Mantras compostos deste modo podem ser usados para transpor a "energia" das deidades nomeadas para os vários centros psíquicos (chakras) do corpo do adepto. Durante certos ritos contemplativos, um OM é visto acima da sobrancelha da deidade, um AH vermelho reverbera em sua garganta e um HUM brilha sobre seu coração; raios de luz colorida procedentes dessas sílabas penetram as partes correspondentes da pessoa do adepto, purificando o seu corpo, a sua fala e a sua mente ou, num nível mais profundo, sua respiração, seus canais psíquicos e sua vitalidade. Neste caso, OM representa o Dharmakaya ou Corpo Místico (Vazio) de alguém Totalmente Iluminado; AH representa a Fala Sagrada; HUM representa a Mente de Buda. Quando usado para acompanhar oferendas, o mantra simboliza a total submissão das faculdades do corpo do adepto, sua fala e mente; de outro modo, significa a aspiração do adepto para se assemelhar à pureza do Buda, nessas três faculdades.
Assim como OM AH HUM purifica o próprio adepto, assim o mantra RAM YAM KHAM (sua pronúncia rima com a palavra inglesa come) purifica o lugar onde a ioga será realizada. A visualização que a acompanha é grandiosa e terrível. O adepto se julga sentado no centro de uma área cercada por chamas devastadoras como o fogo pelo qual o universo será destruído ao final de um kalpa: rodeando as chamas, há uma negra tempestade como um turbilhão ao fim de uma era; além fica um oceano coberto de imensas ondas violentamente agitadas. Segundo a ioga, este mantra sela o ambiente do adepto, tornando-o inacessível às más influências, que se tornam mais violentas à medida que o sucesso se aproxima, gerado por agentes aos quais a virtude é odiosa — agentes que todo meditador experimentado conhece.
Um modo menos eficiente de purificar a arena da ioga é recitar OM VAJRA BHÜMI AH HUM, no qual "vajra" (adamantina) denota a não-substância do Vazio — Realidade Suprema; e "bhumi" significa simplesmente "local". Por meio deste mantra, um domínio de vazio sem mancha, brilhante, é conjurado pela mente; o poder das sílabas OM AH HUM imbui a vizinhança do adepto com a qualidade do puro vazio e ele julga os fenômenos à sua;volta em seu estado absoluto; são então indistinguíveis do Grande Vazio.
O Mantra de Transmutação da Fala
Exige-se freqüentemente dos iniciados num curso de ioga contemplativa que comecem cada dia recitando um mantra composto de todas as vogais e consoantes do alfabeto tibeto-sânscrito, que em conjunto compreende os elementos de qualquer mantra imaginável; o propósito é levar à transmutação da fala do adepto, no sentido de purificar sua pronúncia à maneira da ioga. A fórmula Nyingmapa seguinte combina esse mantra com uma recitação introdutiva que fornece a instrução para a visualização requerida:
OM AH HUM!
Crepitam línguas de fogos de Ram 2 E formam um vajra com três dentes de luz vermelha -Dentro, o Mantra da Causalidade,
Com vogais e consoantes mântricas ao redor
Em letras como um fio de pérolas. Delas,
A luz se expande em oferendas e conquista
A alegria dos Budas e de seus filhos 3.
Contraindo-se, purifica a fala De obscuridades; assim, realiza
A transmutação da fala de Vajra4, depois do que
Todos os siddhis5são obtidos. Agora, recita-se: AÃIIUÜRRLLEAIOAUAMAH (sete vezes)
KÁ KHA GA GHA NGA CA CHA JA JHA NYA
TA THA DA DHA NA TA THA DA DHANA
PA PHA BA BHA MAYARA LA WA
SA SH A SA H A KSH A H (sete vezes)
OM YE DHARMA HETU PRABHAWA HETUN TESHAN TATHAGATO HYAVADAT TESHAN CA YO NIRODHA EVAM VÃDI MAHA SR AM A NAH SWAHA (sete vezes)
O Mantra do Precioso Guru
Os budistas de todas as escolas e seitas refugiam-se diariamente na Jóia Tríplice — o Buda, a Dharma (Doutrina) e a Samgha (comunidade sagrada). A estas, os seguidores da Vajrayana acrescentam uma quarta — o Guru. Quando os Refúgios são recitados, o Guru vem em primeiro lugar — Namo Gurubé, Namo Buddhaya, Namo Dharmaya, Namo Sanghaya. Isto é para reconhecer que é ao guru do adepto e aos dos lamas de sua formação, chegando até o próprio Buda, que ele deve seu total conhecimento dos outros Refúgios. Como é apropriado em toda prática iogue, a confiança no guru é absoluta. Se a sua integridade ou sabedoria for posta em dúvida, os iogues ficam na perigosa posição de homens que navegassem ao longo de costas rochosas num mar desconhecido sem um navegador ou com um navegador em cujo conhecimento não tivessem confiança! Os riscos seriam terríveis! Portanto, o que é conhecido como guru, em ioga, forma uma parte essencial da ioga Vajrayana.
Os lamas Nyingmapa e os da maioria de outras seitas ensinam que os discípulos foram iniciados nos sagrados poderes da ioga para que o ultrapassem o domínio das semelhanças até o reino beatífico do puro ser, de modo que, percebendo sua identidade, possam apoiar-se espontaneamente em ambos, invocando primeiro o Precioso Guru, Padma Sambhava, Fundador da Linhagem Nyingma, cuja forma, para propósitos contemplativos, é considerada como corporificando todos os outros mestres do conhecimento sagrado. Como a forma imaginada é uma criação mental que personifica o primeiro dos Quatro Refúgios, talvez a identidade do Precioso Guru não seja de total importância para a prática. Entretanto, ele é bem conhecido por todos os tibetanos, tanto na lenda como na história. A lenda conta que Padma Sambhava é assim chamado porque chegou a ficar conhecido pelos homens por sua aparição numa gigantesca flor de lótus que flutuava sobre as águas de um lago, na terra de Urgyen, que em tempos antigos ficava na região além da fronteira noroeste do Tibete. Historicamente, ele é conhecido por ter sido um dos grandes iogues que levaram o Buda Dharma da índia para o Tibete (século VII d.C). Desde essa época, ele tem sido venerado, logo abaixo do Buda, nos corações dos homens, pois é a cabeça-de-ponte da grande seita Vajrayana do Budismo Mahayana. Na verdade, em contextos em que a Realidade Absoluta é encarada como a fonte suprema de todo conhecimento sagrado, a forma do Precioso Guru é empregada, na ioga, como personificação do Dharmakaya, o Corpo no qual o Buda e o Absoluto são indistintamente um só.
Ensina-se que as transformações corporais do Precioso Guru são inúmeras; convencionalmente, ele é com mais freqüência representado como um belo jovem ou como um homem jovem e barbudo, sentado à maneira iogue da "postura real". Com os dedos da mão direita, que segura uma Vajra (símbolo da adamantina não-substância do Vazio), ele forma o mudra da "proteção contra o obscurecimento do Dharma". Com sua mão esquerda, ele segura uma taça de crânio humano (que significa renúncia) transbordante de amrta (ou néctar da imortalidade) coberta por um vaso cheio da mesma não-substância. Um tridente mantido no lugar por seu braço esquerdo representa os três reinos da existência samsárica, e as três cabeças representam ali os três Corpos místicos dos Esclarecidos, sendo um deles um crânio humano que sugere a ausência de atributos ou vazios do Dharmakaya. Todo detalhe de sua forma tem seu próprio significado simbólico.
Durante a contemplação iogue, os Nyingmapas visualizam todos os lamas de sua linhagem, na representação do Nascido no Lótus, reverenciando-se a todos como sucessivas encarnações do Dharmakaya, na presunção de que o maior mérito de um guru é o poder de suas palavras para transmitir a luz da Realidade Absoluta. Portanto, começam sua meditação criando uma imagem mental do Precioso Guru e conferindo-lhe vida por intermédio do mantra do Guru, prestando assim homenagem à meta inimaginável do comportamento místico e a toda a linhagem de mestres que mostraram o caminho para alcançá-lo. Seja qual for a prática principal de um adepto Nyingmapa, ele deve recitar alguns versos de invocação ao Nascido no Lótus e repetir o mantra algumas centenas ou milhares de vezes. O que se segue agora é típico dos muitos versos dessa espécie; eles pertencem a velhos textos e foram extraídos de um sadhana (rito contemplativo) composto pelo Venerável Chogyam Trungpa Tulku:
Ó Precioso Guru, Buda do Tríplice Tempo,
Senhor dos Poderes Sagrados, sempre em Grande Beatitude, inclino-me a teus pés. Afastador de todas as dificuldades, que se revela em forma irada para afastar
ilusões.
Oro a ti, suplicando sagrada determinação.
Oro a ti, Lama, Jóia entre Jóias,
Pedindo determinação para afastar todo pensamento individual, Que doravante pareçam sem sentido as coisas mundanas, Que a sagrada determinação dos pensamentos não se afaste, Que eu compreenda a minha mente como a incriada, não-nascida. Que a inquietação inata seja apaziguada,
Que minha mente se torne veículo adequado para o Atalho mais Profundo. Que minha obtenção da Verdade Suprema fique livre de obstáculos. Que o poder da Sabedoria e da Compaixão se aperfeiçoe em mim. E que eu possa alcançar esta união com o Buda, o Dominador de Vajra.
Para realizar a ioga do Precioso Guru, o adepto senta- se, pela manhã, num lugar calmo e limpo. Após certos preliminares como os que precedem a contemplação do Yidam, sua mente torna-se serena, não-perturbada por pensamentos preocupantes. Desejando o bem de todos os seres e resolvido a usar qualquer poder que alcance para benefício de outros, ele visualiza um plácido lago azul sobre o qual flutua um lótus gigantesco que suporta discos lunares e solares dentro de suas pétalas bem abertas. Ali está sentada a Eterna Criança, Padma Sambhava, o Precioso Guru, que o adepto, cheio de alegria e emoção, reconhece como a representação do Dharmakaya, mas também como a representação de seu mestre e de todos os lamas de sua filiação. Ao fazer reverência ao Precioso Guru, ele reverencia a todos. Tendo orado para pedir bênção, o afastamento de todos os obstáculos e a obtenção do poder espiritual ilimitado, ele começa sua recitação do mantra do Guru pelo qual a forma visualizada é dotada de força vital e a união com o Guru é completada:
OM AH HUM VAJRA GURU PADMA SIDDHI HUM!
Na tradução do Venerável Chõgyam Trungpa Tulku, o significado interior dessas sílabas é o seguinte:
OM é a origem, o Dharmakaya.
AH é a inspiração, o Sambhogakaya. HUM é a expressão, o Nirmanakaya. VAJRA é a união desses três.
GURU é a visão interior que instrui, o ponto central da mandala. PADMA é a compaixão destemida. SIDDHI é o poder do Reino Dharma. HUM é a unidade dessas qualidades em nós.
Quando desaparece a visão do Precioso Guru sobrevém um estado de consciência sem objetivo, a que se seguem certas aspirações e uma dedicação do mérito recém- alcançado para o bem-estar de todos os seres.
O Precioso Guru é a suprema corporificação do poder tântrico, através do qual é possível emancipar-se das garras do pensamento dualístico, ser capaz de usar todas as energias, sejam boas ou más na origem, para a rápida realização da Iluminação. Dizem que ele praticou a meditação usando pilhas de cadáveres como assento, tendo transmudado a carne dos cadáveres em puro alimento, o que é talvez uma alegoria forçada para ilustrar o processo de transmudar o sujo em limpo. Pode-se dizer o mesmo sobre a verdade da história na qual ele foi transformado na sílaba HUM e depois engolido por uma dakini feroz, em cujo corpo recebeu a iniciação e foi purificado de todas as corrupções. Tais imagens podem ser revoltantes; mas, a não ser que a beleza e a felicidade sejam aceitas imparcialmente, como pode ser sobrepujado o pensamento dualístico?
Os Mantras das Terríveis Divindades
O Yidam escolhido por um discípulo no momento de sua iniciação não é sempre um ser bonito como Tara. De acordo com as circunstâncias, pode ser escolhida uma das terríveis divindades, tais como Yamantaka — horripilante corporificação do suave patrono de sabedoria e erudição, Manjushri Bodhisattva. Na verdade, cada uma das deidades de meditação tem uma contrapartida aterrorizadora, sem a qual não haveria liberação para o "bom" e o "mau" do pensamento dualístico. Até a delicada Tara pode, às vezes, aparecer como uma dakini ou deidade fêmea, de aparência feroz. Contemplar as deidades em suas formas horríveis é um meio de obter tremendo poder para destruir todos os obstáculos do ego — paixões, desejos, ilusões — criados pela ignorância, assim como negar o dualismo envolvido na preferência pelas formas agradáveis ao olhar.
Alguém que desconheça as características especiais do budismo Vajrayana admitiria que a aparência diabólica de Yamantaka não é outra senão a do jovem e encantador Manjushri, de voz suave! De pele azul, com muitas cabeças (a maior é de um touro feroz; a menor, uma minúscula e sorridente cabeça de Buda acima de todas, a única que sugere que sua função é secretamente benigna), Yamantaka tem incontáveis membros; as mãos, que não empunham uma ou outra de uma variada coleção de armas assassinas, seguram objetos tão terríveis como uma taça de sangue no feitio de um crânio humano; sob seus pés, jazem montes de cadáveres; seus ornamentos são confeccionados com ossos, esqueletos humanos e cabeças cortadas; brotam chamas de seu corpo em todas as direções — no entanto, apesar de os iogues consumados o virem como um ser fantasmagórico e raivoso, cercado de fogo ardente, sua proximidade não os atemoriza, pois eles bem sabem que essa ferocidade não é dirigida contra os seres humanos e pecadores, mas contra as más inclinações de suas mentes e contra o ego, que deve ser destruído impiedosamente antes que se conquiste a Iluminação. Ele é a encarnação de suas paixões, cobiças e ilusões, mas também dos poderes maravilhosos da transmutação pelos quais a energia gerada por esses erros é usada contra eles. As armas de Yamantaka, com suas lâminas afiadas e denteadas, são instrumentos com os quais a sabedoria corta os laços da escuridão; o horrível colar que pende de seu pescoço é composto de cabeças, não de seres humanos, mas de paixões decapitadas.
Os seguidores de tradições com aparência menos apavorante inclinam-se a dizer que não há necessidade de um Simbolismo tão bestial, mas nele está contido algo mais do que um Simbolismo; o iogue deve vivenciar essas formas assustadoras como realidades vivas carregadas de feroz energia e movimento; de certo modo, ele deve aspirar o cheiro do touro e sentir o bafo chamuscante das chamas como parte de uma tremenda experiência psíquica, pela qual, dia após dia, as forças do ego são derrotadas. Não se trata de olhar figuras apenas, ou de meditar sobre vagas formas sem vida. A Fonte-Realidade, apesar de ser, ao fim, calma, remota, intangível, cria toda espécie de contraste violento no reino das aparências. Como tudo isso pode ser descartado pelos que procuram conhecer a Verdade como um todo? Além do mais, desde que a consciência humana contém tanta coisa egoística, violenta, cruel e profundamente enraizada, como podem essas más tendências ser combatidas senão por forças tão implacáveis e impiedosas como elas próprias? Destruí-las dentro do espaço de um período de vida é tarefa, não para melindrosos, mas para gigantes indomáveis que venceram o medo e o ódio.
Yamantaka, cujo nome significa Vencedor da Morte, é assim denominado porque a contemplação de sua forma pelos iogues adequadamente instruídos constitui um dos poderosos meios pelos quais a cadeia de uma era de nascimento é morte é subitamente cortada. Libertando a mente da dualidade, a morte e a vida são transcendidas, mas as inclinações maléficas escondidas nas profundezas da consciência do adepto devem ser, primeiro, levadas para a claridade, reconhecidas pelo que são e depois destruídas. A forma iogue da deidade retrata simultaneamente a fealdade do mal, a energia causticante e a força feroz de vontade necessárias para sua rápida destruição. A contemplação de formas tão plácidas como as de Chenresig ou de Tara é um remédio insuficiente para se vencer a cobiça ou a paixão dominadoras; daí, a absoluta necessidade da ioga para seres como Yamãntaka e as terríveis dakinis nuas.
Quando Yamãntaka é evocado, deve haver uma resolução ardente de apagar o tríplice fogo da paixão, da cobiça e da ignorância. O mantra pelo qual sua forma está imbuída de vida é o seguinte: OM YAMÃNTAKA HUM PHAT! Os mantras de deidades lutadoras são breves! Dessas sílabas, só PHAT (em tibetano: Pé) exige explicação. Sua rápida e explosiva ejaculação afasta más influências, chama de volta a mente distraída para a unidade durante a ioga contemplativa, e representa um estímulo para a visão espiritual. Essa forma de ioga, como todas as outras, deve terminar com um sentimento de gratidão cordial pelo poder recebido e ser seguida pela dedicação do merecimento a todos os seres.
O Mantra da Sabedoria e do Ensinamento
Assim como Avalokiteshvara personifica a compaixão, a contrapartida do benigno e encantador Manjushri personifica a sabedoria. Não se deve temer a arma que ele mantém erguida: é a espada para Discriminar o Conhecimento, pela qual os laços da ignorância são destruídos. Seu outro atributo, um livro ou uma pilha de volumes, representa a Perfeição da Sabedoria Sutra, que muitos tibetanos apreciam acima de tudo. Às vezes, Manjushri é visto de pernas cruzadas sobre um lótus; mais freqüentemente, está a cavalo sobre um tigre bonito, de aparência amigável. A única lembrança de sua emanação odiosa é a cor azul de sua pele. Pelos Nyingmapas, ele é raramente tido como um Yidam, pois se acredita que ele é arisco e dificilmente atende pela forma de invocação habitual; no entanto, é de presumir que os Gelugpas pensem de modo diferente, pois ele e Yamãntaka são os principais guardiões de sua seita. Há ocasiões em que é extremamente apropriado buscar sua ajuda. Em geral, ele é invocado por escritores que iniciam novas obras nos campos das artes e do conhecimento científico. Muitos livros começam com alguns versos em sua honra, para que não se cometam erros graves. Seu mantra é: OM ARAPACHANA DHI Existe a peculiaridade de que, após ter sido pronunciado várias vezes, é então falado com repetição múltipla da sílaba final, tornando-se OM ARAPACHANA DHTH DHTH DHTH DHTH DHTH. . . Como em todos os mantras, a mente é Rainha. Deve haver uma poderosa aspiração para que o fluxo da sabedoria brote do íntimo e também um sentimento de gratidão cordial quando o fluxo é mentalmente apreendido.
O Mantra da Purificação
O mantra conhecido por todos os iniciados é o de Vajrasattva, suprema encarnação da energia sabedoria- compaixão, que é retratada no próprio centro da mandala ou padrão esquemático que ilustra as divisões e subdivisões dessa energia; assim, ele representa o Buda Sabedoria em sua forma pura e não-diferenciada. Como até os mais destacados adeptos dificilmente podem evitar uma ocasional infração dos votos-samaya feitos por ocasião da iniciação, é necessário que haja meios de reparar os danos. Isso é feito pelo adepto que visualiza Vajrasattva sentado sobre sua cabeça. Depois de invocações apropriadas e da geração do verdadeiro arrependimento pelo mal feito, são recitadas as Cem Sílabas Mantras várias vezes, durante o que brota um brilhante néctar branco do coração da deidade, passando pelo alto da cabeça do adepto, enchendo gradualmente todo o seu corpo e expelindo de seus orifícios inferiores as correntes escuras das más inclinações que fluem para as bocas escancaradas de Yama (Morte) e seus servidores reunidos numa praça subterrânea, profunda, diretamente abaixo de onde está sentado o adepto, realizando seus ritos de purificação. Quando, após um tempo que pode ser para alguns desconfortavelmente longo, o adepto percebe, segundo a ioga, que seu corpo está limpo e brilha agora como um vaso de cristal transbordante de puro néctar branco, desiste de recitar as Cem Sílabas Mantras e começa a recitação do mantra do coração de Vajrasattva, como segue: OM VAJRASATTVA HUM. Essas sílabas cintilam à sua volta, emitindo raios de luz brilhantemente colorida — OM, branca na frente; VAJRA, amarela à direita; SAT, vermelha atrás; TVA, verde à esquerda e HUM, azul em seu coração. Continuando essa prática pelo maior tempo possível, o adepto conclui o rito da maneira usual, culminando numa dedicação do mérito.
Todas essas práticas dependem do reconhecimento de que por todo o universo, todos os objetos aparentes são nascidos da mente. 0 que explica o fato de as sílabas mentalmente criadas poderem encher o céu com uma multidão de deidades brilhantes é o seguinte: assim como o Vazio (o Tao, o Deus Pai, a Mente, a Mãe do Universo) é a fonte, contingente e vida de todos os fenômenos, assim cada mente individualmente e o contingente do Vácuo! Sendo de natureza única e livres das leis espaciais, elas são coterminantes. Toda santidade e sabedoria ali residem. A verdadeira natureza do homem transcende a mais elevada concepção de divindade jamais formulada neste ou noutros mundos. Dentro da dimensão de seu crânio, giram galáxias inteiras. Livre do tempo e do espaço, o Vasto Contingente de universos tão numerosos como os grãos de areia do rio Ganges está presente em sua inteireza dentro da mais minúscula de suas partes!
Mas as mentes iludidas pelo pensamento dualístico estão cegas para a sua verdadeira natureza; e a simples aceitação intelectual da verdade nada faz para a percepção direta de seu esplendor. Portanto, vários meios habilidosos foram imaginados para alimentar uma percepção clara. Os mantras, gestos e visualizações empregados nestas iogas dão acesso a fatores psíquicos mergulhados no nível mais profundo da consciência do adepto. Homens analfabetos ou muito eruditos, supersticiosos ou relativamente esclarecidos podem usá-los com igual proveito, com a diferença de que o erudito poderá ter de lutar com mais pesada carga de obscurantismos que o homem simples.
Aí está o verdadeiro significado dos mantras. Ainda que possam ser usados efetivamente para realizar uma variedade de propósitos, sua mais elevada meta é assistir o contemplador do mantra para que chegue a ver face a face a sua própria divindade. Por comparação, todas as outras finalidades são triviais.
2 - RAM corporifica a energia do fogo.
3 - "Filhos de Buda" é o termo usado para os fiéis budistas.
4 - Fala de Vajra significa o dom da fala que deve ser transmudado para a forma iogue.
5 - Poderes