Mantras, palavras sagradas de poder
Capítulo 4
A DEIDADE INTERIOR
As recordações de cenas que me marcaram,durante o desenvolvimento gradual de minha percepção de ioga não são apenas reuniões em templos grandes ou pequenos. Como era de esperar, algumas percepções preciosas surgiram durante as horas que passei em meu relicário aqui em Bangkok. Recordo particularmente minha alegria quando, poucos meses depois de começar a praticar ioga contemplativa, pela primeira vez tudo aconteceu de modo correto, com certeza porque eu havia aprendido a fazer o que devia, sem esforço. Eu estava sentado diante do meu altar particular, onde tremulavam velas em duas lamparinas tibetanas de prata, o incenso ardia num turíbulo oblongo com a perfuração desenhada na forma do mantra OM MANI PADME HUM, demodo que a fumaça se erguia na configuração de cada uma daquelas sílabas, à medida que, por sua vez, as varetas eram queimadas. Não havia tormas, pois nunca aprendi a fazê-las; havia oferendas de símbolos de substâncias como água pura, grãos, flores e frutas, colocadas em pequenas tigelas de prata. Ainda que nenhum desses objetos fosse essencial à ioga, era agradável tê-los; os relicários devem ser arrumados para ficarem tão limpos e atraentes quanto possível. Atrás do altar, pendia um thanka representando a Tara Verde, o Yidam queeu havia escolhido, encarnação do "Buda no meu coração". Com suavidade, recitei seu mantra,vendo mentalmente a figura da Tara viva com o bija-mantra TAM brilhando no centro do seu coração. Em volta dele giravam as sílabas OM TARE TÜTARE TURE SWAHA, uma fita brilhante de fogo verde-claro, e seu movimento destilava um néctar branco que passava pelo alto de minha cabeça, penetrando-a e arrastando impurezas para fora, na forma de uma fumaça negra; transformando meu corpo num vaso de cristal transbordante de elixir mais branco do que a neve. Dentro em pouco, as sílabas resplandecentes se anularam dentro do TAM, o TAM se dissolveu e nada ficou a não ser a entrada numa consciência sem objetivo.
A contemplação da deidade interior, personificação de nossa divindade inata, forma a verdadeira fundação da ioga mântrica dirigida para a rápida obtenção da Iluminação. A maneira de evocar essa deidade permaneceu em segredo durante muito tempo, e ainda é ensinada com circunspecção. Mesmo agora, a iniciação quase não pode ser dispensada; além de exigir instrução correta, ela confere mais poder — transmissão da virtude iogue do lama e de toda a linha de seus predecessores, que se estende, no caso dos Nyingmapas e Kargyupas, até o Precioso Guru Padma Sambhava e até o próprio Shakyamuni Buda. Na Europa e na América a iniciação já não é de tão difícil obtenção, agora que se estabeleceram lá alguns lamas refugiados.
As iniciações também servem a outro propósito: evitar resultados maléficos devido à conduta imprópria nos rituais iogues. Como outras forças poderosas, os mantras iogues podem ser usados para construir ou para destruir. Sua função destruidora é dirigida exatamente para a obstrução interior à Iluminação, à carga do karma nesta vida e nas anteriores, mas os mantras podem ser inadvertidamente mal- empregados, com perigosas conseqüências, e já houve iogues que abusaram deliberadamente de seu conhecimento para fins perversos. Por isso, todas as seitas esotéricas budistas — a indo-tibetana Vajrayana, a japonesa Shingon e, enquanto existiu, a chinesa Mi Tsung — têm confinado a instrução mântrica a iniciados. Até hoje, os métodos para empregar mantras importantes são preservados dos não-iniciados e, apesar de outros, como OM Mani PADME HUM, serem muito usados, são formalmente comunicados só depois de se darem dois passos — primeiro, um pequeno wang (aumento de poder); segundo, um loong ou transmissão oral de palavras que devem ser ditas pelo lama ao ouvido do discípulo. O fato de as solicitações para iniciação aumentarem consideravelmente e de a permissão para escrever sobre assuntos iogues já não ser de difícil obtenção é em grande parte devido à ocupação do Tibete pela China, pois a morte ou o exílio de tantos lamas despertou preocupação a respeito da continuidade da transmissão do conhecimento sagrado. Outra razão é que os lamas, movidos por um espírito de compaixão, concordam agora com as necessidades de discípulos estrangeiros, que raramente podem permanecer junto de um lama o bastante para obter sua confiança e aprovação, à maneira antiga.
É uma sorte que o deliberado abuso dos mantras por adeptos ocidentais seja pouco provável. Em primeiro lugar, não é fácil adquirir as técnicas necessárias para produzir resultados maléficos; em segundo lugar, os que não têm reverência pelos mantras pouco se importarão com eles, ao passo que os que têm reverência estão a par dos perigos do abuso. A ioga mântrica faz parte de uma tradição que reconhece que todas as atividades do corpo, da fala e da mente, são boas e más, produzem conseqüências às quais o autor não tem possibilidade de fugir. 0 uso impróprio do conhecimento iogue traz a retribuição em seu lastro. A carga kármica de um adepto que empregue os mantras para levar um inimigo à destruição é duplamente pesada: ao pecado de tirar a vida é acrescentado o de profanação do conhecimento sagrado. A biografia de Milarepa relata quão duramente foi punido pelo mestre Marpa o poeta que profanou o conhecimento mântrico, quando, sendo jovem, ele o tinha usado para destruir os perseguidores de sua família. Antes de lhe conceder sequer uma migalha de ensinamento, Marpa fez o moço sofrer anos de amarga servidão, exigindo que ele construísse casas e mais casas sobre distantes cumes de morro, com pedras e argila trazidas de longe e ordenando depois que ele destruísse imediatamente as casas e levasse de volta a argila e as pedras para seu lugar de origem. Com dor nos músculos, nos membros e com os ombros cobertos de esfoladuras, o infeliz moço obedecia. Marpa, é claro, exercia sua compaixão; causar a Milarepa um amargo sofrimento na vida presente era a maneira mais adequada de reduzir a carga kármica resultante do seu chocante abuso de poderes obtidos através da ioga.
Eu não poderia descrever o pernicioso uso dos mantras mesmo que, perversamente, desejasse fazê-lo, pois meus bondosos mestres nem sonharam em me transmitir tal conhecimento. O que mais se deve temer é o mau uso não- proposital, razão importante para adquirir a instrução cuidadosa que se segue à iniciação.
O que distingue a maneira mística iogue da de outras religiões é a admissão de que o Esclarecimento-Libertação- Salvação provém do nosso próprio íntimo.. Aí está a chave do mais elevado conhecimento. É com isto em mente que se deve procurar o verdadeiro sentido dos mantras e de todos os outros auxílios para o progresso iogue. Em termos gerais, há dois conceitos diferentes desta verdade. Enquanto os místicos cristãos e muçulmanos, compreendendo a experiência mística à luz dos seus dogmas, concebem como obter a união com Deus, os budistas e taoístas concebem como realizar o Nirvana ou o Tao. As diferentes maneiras para dominar a finalidade não são de grande importância, mas existe uma profunda diferença entre obter e realizar: o primeiro verbo sugere uma separação entre o devoto e sua finalidade, que deve ser superada; o segundo implica numa união que nunca cessou de existir, mesmo que, em meio às ilusões nascidas do ego, não se perceba quando acontece a realização. Ainda assim, a verdadeira experiência, quer se chame obtenção ou realização, não difere, pois é produto da intuição direta da Verdade Suprema.
Budistas e taoístas gozam da vantagem de não haver conflito entre os que aderem aos caminhos místico ou não- místico. Na teoria, pelo menos, todo budismo é místico, pois, não reconhecendo um criador onipotente, ele ensina que não existe a quem agradar, ofender, aplacar e que, por conseguinte, toda realização deve se processar dentro do próprio íntimo. A Escola Mahayana de Budismo, da qual a Vajrayana faz parte, vai mais longe, proclamando que o universo inteiro resulta do jogo da Mente. A Mente é a única realidade e a aparente individualidade de nossas mentes finitas resulta da ignorância de nossa verdadeira natureza, que nasce de uma ilusão primordial. Essa concepção do universo é compartilhada por certas seitas hindus, que usam uma espécie diferente de ioga mântrica; mas, como não fui iniciado em nenhuma delas, não posso descrever sua ioga por conhecimento direto, de modo que achei melhor não tentar essa descrição.
Místicos consumados, apesar das diferenças de terminologia, reconhecem que a experiência da união mística é a mesma para todos. Ao se tornarem consumados, eles se elevaram acima de dogmas conflitantes, do preconceito e da controvérsia. Por outro lado, os que ainda não provaram a alegria mística podem ficar intrigados em relação ao que motiva uma aproximação interior única para a sabedoria. Muitos contestam a necessidade de qualquer forma de atividade espiritual, além da observância de um razoável código de moral. Alguns chegam a destacar até isso.
No caso de alguns raros afortunados, a experiência mística surge por si mesma, conferindo tanta beatitude que essas questões parecem ridículas. A seguir, na boa sorte vêm aqueles nos quais não a experiência, mas uma grande sede por ela, surge espontaneamente; apesar de atormentados enquanto sua sede não for saciada, são confortados por um pré-conhecimento intuitivo da felicidade que podem atingir. Mas, e quanto ao resto — isto é, a maioria das pessoas? Não é preciso muita reflexão para sentir o quanto a vida é pouco satisfatória, até que ponto ela é enfadonha, se não de todo tristonha ou trágica; o quanto são fugazes suas satisfações, como são decepcionantes as mais vivas esperanças. Ante essa realidade melancólica e muitas vezes dolorosa, gerações de antepassados nossos procuraram refúgio na piedade e na crença de que o céu proporcionaria compensação por seus sofrimentos terrenos. Hoje, entretanto, essas simples crenças perderam seu poder de consolo. Mas, e se houvesse uma religião acima de todas as religiões, uma verdade resplandecente e viva, a inspiração real de todas as religiões, freqüentemente tão mal compreendida que sua luz quase não é vista? Não há maneira de provar aos cegos que a luz existe. É preciso que eles vençam sua cegueira e entendam a luz por si mesmos pois ela nunca pode ser explicada por palavras. Quanto a mim, a primeira insinuação de sua existência me veio quando fui envolvido pela atmosfera de alegria e de bondade, própria das pessoas que passaram suas vidas contemplando o que existe em seu íntimo, em vez de dissipar as forças no incessante jogo dos fenômenos exteriores.
Devido à circunstância de a maioria dos tibetanos estarem imersos numa antiga e esclarecida tradição, encontra-se um número suficiente de lamas imbuídos de alegria, compaixão e íntima serenidade, que os convencem de que compartilham de um segredo infinitamente digno de ser conhecido. É claro que eles, como os budistas em geral, não têm o monopólio desse segredo; conheci taoístas em cujos rostos transparecia a mesma tranqüilidade abençoada, e tenho lido narrativas sobre místicos hindus, sufis e cristãos com idêntica realização. Os taoístas quase desapareceram da Terra, e os místicos aperfeiçoados são mais raros do que antes, por isso é sensato procurar mestres na região fronteiriça do Himalaia, onde ainda florescem as antigas tradições contemplativas.
Ao mesmo tempo que os meios para a realização mística não são de propriedade exclusiva de nenhuma fé, o budismo oferece realmente duas vantagens especiais: refreia a insistência sobre determinadas crenças que muitas vezes constituem um obstáculo para o progresso espiritual e fornece toda uma panóplia de métodos contemplativos para cultivar a intuição da realidade. Minha preferência pessoal pela forma Mahayana de budismo é enraizada em duas circunstâncias: ela oferece uma larga variedade de meios apropriados para diferentes temperamentos e níveis de compreensão e, o que é ainda mais importante, propõe claramente a doutrina da Mente como Suprema Realidade. Dentro do conjunto da Mahayana, encontrei as iogas contemplativas da seita Vajrayana, particularmente inspiradoras; de outro modo eu teria dificuldade em escrever sobre mantras, pois essa é a seita que deve ser procurada quando se busca um profundo conhecimento mântrico.
A doutrina Vajrayana oferece dois preciosos pontos de vista sobre a verdade, um deles comum a todas as seitas Mahayanas, o outro é um segredo outrora bem guardado. São eles: o reconhecimento da identidade samsara e do Nirvana; e um conceito altamente esotérico — "Eu sou o Buda!"
Samsara é o fluxo universal em que as criaturas são condenadas a vagar enquanto persiste a ilusão, nascida do ego, sobre a existência independente, pois nosso mundo é apenas uma fração infinitesimal do todo. 0 Nirvana é o ser- não-ser final, além da concepção humana, e que não será alcançado até que a última parcela de ego-ilusão não tenha sido descartada. No entanto, samsara e Nirvana não são dois! Não se vai de um para o outro, nem há seres individuais que façam essa transferência; existe apenas a queda de uma ilusão, o súbito reconhecimento das coisas como realmente são, a revelação da verdadeira natureza de si mesmo e de todos quanto ainda possam existir. Para usar uma simples analogia — uma criança nascida e criada num quarto escuro como breu deve imaginar seu ambiente vazio de cor e de forma visual; então aparece a luz e tudo fica gloriosamente diversificado; no entanto, o quarto é o mesmo, nada mudou, a não ser a concepção que a criança fazia sobre o seu ambiente.
"Eu sou o Buda!" Se Buda significa o Supremo, o que os místicos teístas chamam de Deus Pai, vemos que aquilo que essas tremendas palavras encarnam é a própria essência da percepção mística. Quem as compreende percebe que é, ao mesmo tempo, o adorador e o adorado, o individual e o universal, um ser aparentemente insignificante mas, na verdade, divino! Dessa percepção brotam três obrigações: tratar todos os seres, por mais que sejam exteriormente repugnantes, como personificações da sagrada essência; reconhecer todos os sons, por mais que ofendam os ouvidos, como componentes de sons sagrados, e recordar que qualquer coisa em todo o universo não passa de Nirvana, por mais densas que sejam as nuvens sombrias da ilusão. Portanto, aconteça o que acontecer, o adepto é vestido de divindade; com seus olhos de sabedoria, percebe o que é sagrado em todos os seres, em todos os sons, em todos os objetos; e seu coração de sabedoria gera uma desmedida compaixão.
A partir do momento em que o aspirante começa a procurar a liberação de seu íntimo, abandona o dualismo de adorador e adorado, e reconhece a identidade do "próprio poder" e do "poder alheio" como fontes de inspiração espiritual; os grilhões da consciência do ego são quebrados; e à medida que se dissipa o poder do ego ilusório, as qualidades de paciência, clemência e compaixão florescem. Ainda assim, grande perigo está inerente à liberação do conceito "Eu sou o Buda!"; mal compreendido, leva a um comportamento grosseiramente irresponsável e a um orgulho gabola que, aumentando o ego em vez de o diminuir, envolve o aspirante ainda mais no cativeiro da ilusão. Por isso, tal conhecimento era outrora oculto dos profanos; por isso, os lamas ensinam meios habilidosos para neutralizar esse grande risco. Ninguém deve refletir "Eu sou o Buda" sem recordar que, no nível da verdade absoluta, não existe essa entidade, o "Eu"!
A simples aceitação da doutrina de que a divindade reside no íntimo é coisa muito diferente de experimentar intuitivamente a sua verdade; entretanto, até que essa experiência se manifeste, nada de valor permanente foi conseguido. Para completar uma viagem a pé, digamos de Paris a Lhasa, é preciso dar um passo na direção sudeste; bem, a viagem começou mas ainda se está tão longe de Lhasa como cidadãos que saíram de suas casas para comprar pão; mas já se está melhor do que antes, quando a viagem era considerada apenas como um plano para ir a um lugar qualquer. Assim é com o aspirante. É porque a viagem da aceitação até o conhecimento da verdade é tão cheia de abismos que o budismo Vajrayana proporciona uma variedade de meios para se atingir a meta tão rapidamente quanto possível à capacidade individual de cada um. Ambas, a tarefa e a meta, são psicológicas, pois a longa estrada começa e termina dentro do espaço de um esqueleto humano.
Os mantras fazem parte dos habilidosos meios empregados desde o começo da viagem e são usados exatamente até aquele ponto alto no qual os "meios" de toda espécie são abandonados. A ioga mântrica exige, primeiro e acima de tudo, a adoção de um Yidam, por cujo intermédio encarna-se a deidade interior. Para os budistas de algumas outras seitas, sejam seguidores do Zen ou dos Theravadins, isso pode parecer uma perversão ridícula de uma de suas crenças mais caras; pois, tradicionalmente, os budistas são ensinados a descartar toda divindade. É verdade que, no nível popular, muitas vezes os crentes dirigem petições às divindades de outras crenças (hindus, taoístas e assim por diante, segundo as localidades), mas os benefícios que buscam nada têm a ver com o progresso espiritual. (Certa vez, ajudei uma moça presbiteriana, infeliz no amor, a entrar na Walsingham Abbey para acender velas à Virgem; o que era importante é que a fé que ela professava — como o budismo — não lhe oferecia possibilidades de um final feliz). Segundo a doutrina budista, como todo o universo resulta do exercício da mente, não pode haver nenhum criador onipotente senão ela; os deuses são apenas uma das várias ordens de seres que, apesar de talvez possuírem poderes invejáveis, têm crescimento e morte, de acordo com uma escala de tempo apropriada à sua natureza. Buda falou, com freqüência, sobre deuses num contexto que abarca tantos deuses quanto os grãos de areia que existem no Ganges; ele ensinou que é inútil invocá-los para obter progresso espiritual, que depende exclusivamente do esforço individual. Noutras palavras, devemos considerar os deuses como, digamos, panteras e delfins *— bem reais, mas pertencentes a uma espécie que pouco tem a ver com o homem espiritual.
Não devem ser confundidos com os deuses os Budas e Bodhisattvas do panteão da Mahayana. Nestes está incluído o Buda histórico; mas, na maior parte, são personificações de forças que emanam da energia sabedoria-compaixão, gerada pela Mente. Assim, a sabedoria é personificada por Manjushri, a compaixão, por Avalokiteshvara, a perfeita atividade, por Vajrapani, etc. No nível popular, são muitas vezes confundidas com deidades e é conveniente referir-se a elas, coletivamente, por esse nome; mas são reconhecidas pelos adeptos da ioga como sendo simultaneamente emanações da Mente que tudo abrange e, em certo sentido, criações da nossa própria mente.
Voltando aos métodos da ioga mântrica, ainda que para o leigo se pareçam com ritos teísticos, eles são na verdade soberbos métodos psicológicos para alcançar uma realização intuitiva direta sobre a deidade, em nossas mentes. Para dar ênfase à natureza especial dos objetos de contemplação, muitas vezes eu me refiro a eles como "Deidades de meditação". Qualquer delas pode ser usada como Yidam ou "deidade interior" do adepto, individualmente. Há centenas, senão milhares delas, e estão colocadas numa hierarquia que corresponde à diferenciação crescente da energia sabedoria- compaixão, em progressivas distâncias da Fonte. É vital que os adeptos aprendam a conhecer que esses riachos jorram de dentro de si mesmos, pois sua mente, na aparência individual, não é senão a Mente infinita; entretanto, a princípio deve-se encará-la como se fluísse do exterior, pois então a Mente é provisoriamente concebida como estando "além de"; em seguida, como interior; e, afinal, como interior e exterior, já reconhecidas como idênticas. A Mente e a sua mente não são duas!
Para assisti-lo nesta realização (que deve ir muito além da simples aceitação intelectual), o adepto recebe um Yidam que personifica uma forma diferente da energia sabedoria-compaixão. Sobretudo na Ásia, os aspirantes estão dispostos a crer, de início, que seus Yidams são deidades com existência própria que devem ser convidadas para uma vida interior; além do mais, até os aspirantes mais avançados são ensinados a começar visualizando os Yidams como se fossem externos; e, num estágio ulterior, devem alternar essa prática com a visualização dos Yidams como forças internas. À medida que os adeptos atingem níveis mais elevados, não devem abandonar de todo suas práticas iniciais, pois, ao passo que a contemplação de uma divindade externa leva ao erro do teísmo, a contemplação ininterrupta da deidade interior, quando a compreensão ainda não está amadurecida, pode levar a resultados deploráveis, dando lugar ao orgulho, aumentando assim o poder do ego. Também, num certo sentido restrito, o Yidam é um ser separado - não realmente separado da mente do adepto, pois a Fonte Suprema e o adepto são um só, ainda que separados no sentido de que o Yidam, sob certos aspectos, pertence ao reino das aparências no qual as entidades individuais têm realmente uma existência transitória, pois a deidade não representa a Fonte em si mesma, mas uma das energias diferenciadas que dela jorram, energias que se bifurcam e se redividem à medida que aumenta a distância da Fonte. Forças e objetos podem ser ao mesmo tempo separados e não-separados — isso é bem explicado pela doutrina de interpenetração contida no Avatamsaka (Hua Yen) Sutra, que estabelece de que maneira cada objeto no universo é penetrado por — e penetra — qualquer outro objeto. Dizer que Yidam e adepto são separados é errado num certo sentido; dizer que são idênticos é errado noutro sentido; vem daí a necessidade de alternar os dois processos. Isso é análogo a outra verdade mística profunda: assim como o universo contém todos os seres, assim também cada ser contém o universo. A contemplação do Yidam em si mesmo confere percepção de todo válida, mas o erro será evitado se se acrescentar a percepção que surge da contemplação do Yidam como algo exterior.
0 Yidam, designado para um aspirante cuja capacidade iogue seja (como a minha) modesta, é em geral a encarnação de um riacho subsidiário da energia sabedoria-compaixão, tais como Tara ou dakini, pois esses riachos subsidiários estão mais próximos do nível da verdade relativa, à qual pertence a consciência "cotidiana", de modo que são mais fáceis de entender do que energias mais rarefeitas, a menor distância da Fonte. A ênfase é dada sobre a prática e não sobre a crença. Sempre que a intuição direta é a finalidade, as crenças são de menor importância; portanto, a extensão até a qual um aspirante tem consciência da verdadeira natureza da meditação sobre deidades faz pouca diferença para o seu progresso; mais tarde, a compreensão brotará por si mesma. Assim sendo, chego a pensar que a contemplação iogue que envolve a invocação do Yidam poderia ser usada efetivamente pelos adeptos de qualquer religião; assim como as formas de Yidam visualizadas pelos tibetanos são tiradas da iconografia indiana e Bon, assim também a iconografia usada pelos cristãos e por outros pode ser tomada de empréstimo de uma iconografia que lhes fosse conhecida. Para que essa inovação se tornasse aceitável às autoridades clericais, os Yidams teriam de ser representados como uma ajuda psicológica para a intuição; a princípio, tal concepção meio limitada sobre a natureza dos Yidams não teria grande importância; e quando surgisse a intuição, quaisquer erros de compreensão se corrigiriam por si mesmos. Os cristãos nunca puderam reconciliar-se com práticas espirituais que acarretassem a adoração ritual de "deidades pagãs", mas isso não seria obstáculo. Como as deidades de meditação não são nem mais nem menos do que personificações de energias intangíveis, elas podem assumir qualquer forma associada ao temor sagrado na mente do adepto. Isto, entretanto, é pura especulação; nunca pensei em consultar lamas ou sacerdotes cristãos sobre o assunto. No entanto, essa sugestão não é frívola; seria absurdo supor que os grandes místicos do passado, que falaram sob a inspiração do Espírito Santo, ou do Cristo interior e da união com o Deus Pai, estivessem falando de algo fundamentalmente diferente do caminho e da finalidade do misticismo budista.
É na invocação às deidades de meditação - com freqüência mas não sempre o Yidam do adepto — que os mantras representam seu melhor papel; todos os outros, ainda que espetaculares, são puramente secundários. Cada uma dessas deidades tem um bija-mantra de uma sílaba, um mantra-coração composto de várias sílabas, e algumas vezes também um mantra mais longo, e todos eles encarnam a energia que essa deidade particular personifica.
Os bija-mantras, além de serem, como são, as sementes que dão nascimento às "cenas de transformação" na mente do adepto, e que formam a substância das visualizações iogues, são também associados com o que é conhecido em ioga como os centros psíquicos do corpo (chakras), e podem ser empregados para estimular esses centros com a energia de que são dotados. O ensinamento diz que os bija-mantras, em particular, devem muito de sua eficiência ao shabda (som sagrado), força misteriosa, da qual falarei no capítulo final; além do mais, o Lama Govinda nos informa que os sons têm uma qualidade diretiva — para cima ou para baixo; horizontais ou verticais, etc. mas este é um dos vários aspectos dos mantras que não posso elucidar por carecer de conhecimento de primeira mão.
Na contemplação iogue, a principal função dos bija- mantras é inicialmente dirigir a energia personificada pelo Yidam para a imagem que o adepto cria em sua própria mente. Enquanto o mantra-coração está sendo recitado, ele é visualizado como um círculo de sílabas brilhantemente coloridas que giram em volta do bija-mantra, resplandecendo no centro do Yidam. Às vezes, num lampejo, a visualização conduz a uma experiência de união com a deidade invocada; mas não antes que a longa prática tenha, por assim dizer, enchido os mantras brilhantes com o próprio sangue do adepto, pois deve haver o encontro e a fusão da energia do Yidam com a do adepto. Os mantras-coração não são grupos de sílabas arbitrariamente inventados, mas intimamente ligados tanto com a energia invocada e com suas contrapartidas na consciência profunda do adepto; provém daí o extraordinário poder de despertar a energia adormecida de sua psique. Quando, num estágio ulterior, a verdadeira natureza da deidade é revelada, os véus da ilusão são rasgados e surgem percepções cada vez mais exaltadas.
Um lama, ao escolher o Yidam para cada discípulo no momento de sua iniciação, avalia com cuidado suas necessidades especiais. Alguns Yidams são dotados de uma beleza sobre-humana; assim, Tara muitas vezes toma a forma de uma virgem encantadora, e tanto Padma Sambhava (o Precioso Guru dos Nyingmapas e Kargyupas) como Manjushri Bodhisattva (corporificação da sabedoria) aparecem às vezes com a beleza da juventude; na verdade, o Precioso Guru pode até ser representado por um garoto bochechudo e de faces rosadas que mal ultrapassou a primeira idade. Por outro lado, há Yidams de aspecto feroz que fazem gelar o coração, alguns com muitas cabeças e membros, e com toda espécie de terríveis atributos e ornamentos. Tudo isso nem de longe se assemelha à "ira de Deus" mas, pelo contrário, representa os poderes indômitos necessários para esmagar as paixões arraigadas e as más tendências com que o ego se defende contra os valorosos esforços para terminar com sua dissolução. O ensinamento explica que, quando se morre, quando se entra no bardo ou no estado intermediário entre a morte e o renascimento, encontramos exatamente essas formas-pensamento aterradoras que o iogue, familiarizado com elas durante suas meditações, irá reconhecer como amigas e aliadas, ao passo que os ignorantes fugirão delas e assim se enredarão em renascimentos indesejáveis. Ao manter-se com a forma abrangente de toda a natureza do Absoluto, do qual todas essas formas descendem, até a linda Tara tem sua forma triste e demoníaca e, inversamente, o horrível, chamejante Yamantaka de cabeça de touro, pode ser personificado como o amável jovem Manjushri; pois é assim que se transcende o dualismo. Se os adeptos se apegassem à beleza e fugissem do horror, se procurassem sempre a alegria e excluíssem o terror de suas mentes, como lhes seria possível alcançar o reino da não-dualidade? São necessários não só "um" mas "ambos" para se chegar ao "nenhum".
A evocação do Yidam requer mais do que o exercício de uma imaginação exercitada e a lembrança dos muitos detalhes significativos. Para que a forma representada seja imbuída de vida e confira seu poder, deve ser liberada uma energia misteriosa, através da recitação e visualização dos mantras adequados. Como resultado de longa prática, os adeptos consumados são capazes de evocar tais deidades e mantras instantaneamente e servir-se de seu poder, mesmo quando não está sendo realizada a ioga contemplativa; mas a recitação e a visualização são efetivas, a não ser que a deidade invocada seja solicitada para "viver". A projeção de representações, por si só, não tem valor. Entretanto, talvez devido aos mantras, a tarefa é mais fácil do que outras formas de contemplação meditativa.
Os meditadores experimentados sabem como é freqüente acontecer que um período de meditação se passe em vão, quando a mente se comporta mais como um cervo da floresta do que como um cavalo de batalha bem treinado; os pensamentos recusam-se a se afastar e se exige um tremendo esforço para realizar o que devia ser feito sem sacrifício. Se algum praticante de meditação zen ou theravadin cair muitas vezes nesse estado insatisfatório, sua resolução poderá desaparecer, seguindo-se o tédio e a inércia. Em tais casos, os métodos Vajrayana dão prova da maravilhosa maneira de evitar o fracasso. Enquanto alguém recita o mantra do Yidam e contempla as sílabas ardentes que giram em torno de outra e depois se amalgamam, pode ocorrer uma súbita transformação, como quando se aperta um botão e a luz inunda um quarto escuro; e então o adepto é transportado para um domínio de consciência, belo em sua serenidade, um estado de aguda percepção que, sendo vazio de objeto, é de inconcebível pureza.
Os métodos Ch'an (Zen) e Vajrayana, na aparência tão diferentes, na realidade têm muito em comum. Ambos são conhecidos como métodos que encurtam o caminho, devido à sua finalidade comum — o Esclarecimento nesta vida mesma.
Apesar de serem diferentes os seus pontos de partida, assim que o domínio do pensamento conceitual é deixado para trás, os caminhos convergem. Que é Yidam senão a corporificação da Mente Original, forma usada para cobrir o inconcebível até o ponto em que as formas são transcendidas? Enquanto o Ch'an (Zen) com sua austera simplicidade é idealmente apropriado para certos temperamentos, há aspirantes que consideram que a cor, o som e o movimento inerentes à ioga contemplativa Vajrayana aumentam seus poderes de concentração; é natural que tais manifestações de forma diferenciada devam ser transcendidas por fim, mas elas mesmas proporcionam o poder para realizar esse propósito — deste modo, os aliados caros ao ego são usados para a sua destruição! A sabedoria de Ch'an reside na sua retirada do campo de opositores em guerra; a sabedoria de Vajrayana reside em serem empregadas as armas dos antagonistas a fim de pôr em fuga seus exércitos; cada uma delas, à sua maneira, leva diretamente ao estado não-dualístico.
A essência do método preliminar iogue para atingir a realização mística de nossa verdadeira natureza pela evocação da deidade interior é a seguinte:
A fim de que a ioga seja de todo eficiente, o Yidam é concebido no início como uma divindade externa, pois o instinto ilusório que faz os homens buscarem um deus exterior não deve ser violado, mas satisfeito, até que o aspirante seja levado a abandoná-lo. Em breve, ele alcança a intuição direta de que o Yidam reside interiormente; em seguida, ele percebe que o Yidam é interior; mais tarde, ele percebe a sua própria identidade com o Yidam e, num estágio seguinte, reconhece que o Yidam também se identifica com a Fonte Suprema. Assim se descobre que a separação nos domínios da forma e do vácuo, pelo uso de meios apropriados, é ilusória. O inconcebível é concebido quando é corporificado conceitualmente até o momento em que cessa a necessidade de conceitos. Este processo assemelha-se tão intimamente ao faz-de-conta infantil que se fica pensando por que homens de intelecto superior se preocupam com ele, em vez de começar pelo mais alto nível de compreensão de que são capazes.
O ponto importante é que a simples compreensão nada vale; a experiência precisa desenvolver-se a um nível mais profundo do que o do intelecto; as técnicas para apressar esse desenvolvimento são mais profundas do que parecem a princípio. O simples raciocínio não leva à experiência perceptual da verdade que, assim como o grande contém o pequeno, também o pequeno contém o grande, no sentido de que toda a extensão disto, e todos os universos possíveis estão inseridos dentro de cada crânio humano!
O recurso do faz-de-conta é menos raro, como técnica espiritual, do que geralmente se pensa. Por exemplo, dentro da congregação das religiões teísticas, apesar de se considerar que Deus não tem forma, seus adoradores lhe atribuem alguma forma imaginada; de que outro modo poderiam imaginá-lo? O método Vajrayana simplesmente sistematiza uma abordagem que outros usam instintivamente. A Fonte Suprema, incomensurável, intangível, isenta de atributos, fica naturalmente além da concepção; portanto, devem ser empregados meios para entendê-la. A princípio, procura-se compreender uma de suas emanações intermediárias com características que se relacionam de certo modo com a ausência e de outro modo com o reino da forma. É nisso que reside o segredo do Yidam — uma forma temporariamente dada à ausência de forma, e que tem atributos sobre os quais a mente pode apoiar-se, mas não tão sólida que a ausência de sua natureza se perca de vista, a não ser por neófitos que têm muito a aprender. A Vajrayana ultrapassa as religiões teísticas em sua aspiração a um grau de perfeição no qual não só a forma da deidade mas a própria deidade chegue a ser reconhecida como um conceito inteiramente provisório.
De madrugada, antes de levantar, o adepto recita o mantra que encarna a energia do seu Yidam, que assim é invocado. Após suas abluções matinais, ele se dirige ao santuário, onde são feitas oferendas como água pura, flores, incenso, lâmpadas e assim por diante, que são arrumados diante de uma estátua de Buda. Se possível, deve haver um quadro ou estátua do Yidam. As oferendas podem ser de extrema simplicidade (uma só flor ou vasilha de água), ou tão elaboradas quanto se quiser fazê-las. Tendo tocado com a cabeça no chão por três vezes, o adepto converte mentalmente o gesto em oferendas de grande magnificência, pronunciando o mantra OM AH HUM, quando toca cada uma delas; por estas sílabas, ele as penetra com seu corpo, fala e mente, de modo que cada flor ou feixe de varetas de incenso representa sua total entrega pessoal.
Segue-se, depois, a aceitação dos Quatro Refúgios - refúgio no Guru, no Buda, no Dharma (Doutrina) e no Saitigha (Comunidade Sagrada). Depois, refletindo sobre suas imperfeições, o adepto resolve abjurá-las; depois do que se rejubila com os méritos dos que alcançaram a realização suprema. Seu lama, com certeza, já lhe ensinou como celebrar várias outras iogas preliminares deste gênero. Então, fixando a mente na última meta de sua prática, ele recita o mantra OM SVABHAVASUDDHAH SARVA DHARMAH SVABHAVA SUDDHO HAM AH HUM, que significa: "Despidos de auto-identidade são todos os componentes da existência, despido de toda identidade sou eu." Estas sílabas, estando imbuídas de poder mântrico, ajudá-lo-ão a chegar pela intuição à sublime verdade que contêm.
A contemplação iogue do Yidam compreende mantras, mudras e visualização e, deste modo, congrega as três faculdades: corpo, fala e mente. O adepto observa um vácuo sem formas no qual, de súbito, aparece uma sílaba mântrica luminosa. Isso de repente se transforma num lótus que tem como centro o bija-mantra do Yidam. Num lampejo, isso se modifica para uma representação do Yidam, cujos detalhes de forma, claramente visualizados, transportam seu significado psíquico para a mente do adepto. Em seguida, pronunciando um mantra, o vivido Yidam é invocado, penetrando na semelhança mentalmente criada que se acha no lótus e, mais uma vez, aparece o bija-mantra, agora rodeado pelo mantra- coração — faixa de sílabas fulgurantes. Pronunciando-as incontáveis vezes, o adepto completa as sílabas, à medida que giram e emitem raios que brilham sobre as criaturas nas dez direções; uma corrente de luz entra em seu corpo através da parte superior da cabeça. Então, diminui a forma do Yidam, que passa para dentro do adepto também pelo alto da cabeça e vai repousar em seu coração; depois do que o adepto se sente diminuir de tamanho até que ele e o Yidam se tornam coextensivos, imersos, inseparáveis. Já não são dois. Então, o mantra gira dentro de seu coração único. Depois as sílabas se retiram para a inicial OM, que é absorvida pelo bija-mantra no centro, o qual se contrai e derrete dentro do minúsculo círculo que encabeça. Finalmente, esse círculo desaparece e nada resta senão o vácuo, pois o adepto-Yidam entrou em samadhi — estado beatífico de consciência sem objetivo, ficando assim até quando esse estado for mantido sem esforço.
Ao se retirar do samadhi, o adepto oferece várias aspirações, que sempre incluem o desejo cordial de que os Budas e seus Seres Esclarecidos permaneçam no universo "girando a Roda da Lei". Por último, ele oferece seus próprios méritos para benefício de todos os seres sensitivos.
Tendo-se unido com o adepto durante a ioga matinal, o Yidam permanece com ele e é retido, se possível, durante o dia todo. Quando o corpo do adepto já se tornou o templo desse ser sagrado, o adepto reforça sua percepção da unidade entre adorado e adorador, convertendo mentalmente tudo o que lhe agrada — o sabor da boa comida, a doçura da brisa em sua pele — em oferendas para o Yidam. O mantra do Yidam está para sempre em seus lábios e em sua mente, de modo que, à medida que passa o tempo, as sílabas surgem de forma espontânea. À noite, e talvez com maior freqüência, a ioga é repetida e, ao retirar-se para dormir, o adepto usa a mantra para solicitar à deidade, que fica acima de sua cabeça, que guarde o seu sono. Ele também pode criar uma tenda — vajra, um pavilhão protetor, cujo conteúdo é formado por cetros-vajra entrelaçados ou pelas sílabas do mantra do Yidam.
Entre os co-produtos imediatos desta prática iogue há um especialmente apreciado: em momentos de crise, o mantra salta para a mente de um modo espontâneo, resultando que o adepto pode aguardar a morte com seus pensamentos fixados sobre o Yidam e com o mantra do Yidam nos lábios. Se por acaso a morte ocorrer antes que ele tenha alcançado uma percepção direta e intuitiva da meta, pelo menos o adepto pode esperar o renascimento em circunstâncias que favorecerão seus futuros progressos.
Se um aspirante deseja instruir-se sobre as maravilhosas técnicas tântricas para transformar as energias geradas pelas paixões em potentes armas para destruí-las, de modo a anulá-las bem depressa, o Yidam provavelmente será uma das divindades ferozes. Seria especialmente perigoso adotar uma delas, a não ser que o lama do aspirante esteja à mão para orientar, pois elas corporificam energias muito poderosas, apropriadas para uma tarefa difícil, que facilmente podem escapar ao controle.
Sobre os mais elevados estágios do caminho iogue não posso dizer muita coisa; meu conhecimento é muito limitado e, seja como for, não seria adequado descrevê-los; mas é possível calcular as maravilhosas experiências subjetivas invocadas pelos mantras na mente de um iogue consumado.
Há um bija-mantra que transforma instantaneamente o iogue na aparência de uma das divindades ferozes; ele se vê como essa divindade; seu ser parece pulsar com tão estupendo poder e assumir tamanha vastidão que as palavras não são mais do que pedras brilhantes em seu atalho. Assim que pronuncia esse mantra, miríades de seres, réplicas de sua terrível forma, extravasam de seu corpo e cobrem o céu, lutando, rechaçando obstáculos destruidores para o progresso iogue. Cada um desses seres é imbuído, na energia corporificada naquela sílaba, e é tão grande o seu número que eles enchem o universo — não resta uma abertura de espaço, tendo sido dissolvidos todos os objetos ou aparências que o espaço contém com uma sensação auditiva exaltada. Nada permanece da carne do iogue, senão o que pulsa e lateja. Deste modo, são purgadas de seu ser ilusório todas as entidades componentes, dentro e fora delas.
Há mantras para invocar do Vácuo sílabas que cintilam como raios de luz, como sóis nascentes que lançam brilhantes faixas de luz colorida, que se dividem e subdividem até que 60 milhões de raios sejam projetados. De certas sílabas surgem conjunções de divindades que enchem o céu antes de serem reabsorvidas e reincorporadas. De outras, brotam panoramas vastos, complexos e infinitamente esplêndidos que, dissolvendo-se em raios de luz, fluem de novo para as sílabas fulgurantes. As palavras não podem transmitir o esplendor dessas imagens; mas tentar visualizá- las sem imbuí-las com energia mântrica produziria apenas pálidas contrapartidas daquilo que os iogues são capazes de conjurar quando, depois do treino, que em geral significa passar muitos anos em total solidão, tiverem requintado seus poderes contemplativos e dominado de todo a prática da invocação mântrica. Então, suas mentes serão como filamentos sem os quais, ainda que perto de uma fonte de energia elétrica, sua casa continua às escuras.
Não se deve supor que toda essa fantasia psicodélica deva ser procurada e desfrutada em proveito próprio. Toda essa riqueza de cores brilhantes, o malabarismo com o espaço, que reduz os mundos ao tamanho de pedrinhas, não tem importância a não ser que leve a uma total compreensão do Vazio. O iogue deve chegar a perceber que ele próprio e todos os universos que ele contém são vazios do menor indício de exclusividade. Ele deve vivenciar a relatividade do vasto e do minúsculo, a interpenetração e a suprema identidade de todos os objetos e, acima de tudo, o essencial vazio-não-vazio do samsara. Assim é a mente preparada para a consumação-liberação do encantamento desse mestre dos mágicos, o ego, e obtenção da felicidade da união realizada, a Iluminação, o Nirvana!
Se, como temo, estas palavras deixarem de inspirar um sagrado temor, a falha é minha. Ainda tenho muito que andar e não posso escrever sobre os mais elevados mistérios por experiência direta. Entretanto, não aprendi a revelação do próprio Mistério Sublime, mas apenas de um dos meios para alcançá-lo. O livro que descreva os equipamentos usados pelos escaladores do Himalaia é um pobre substituto para que se dominem os deslumbrantes picos de neve naquela montanha, que é a mais bela e mais sagrada de todas as montanhas, o Kanchenjunga!