Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 6 de 10

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Meninos de Ouro

Epílogo

 

Harmonia, equilíbrio e ritmo: as três coisas que você leva para o resto da vida. Sem eles, a civilização não se sustenta. É por isso que um remador, quando sai para a vida, consegue enfrentá-la, lidar com ela. É isso o que ele leva do remo.

– George Yeoman Pocock

 

P or toda a Seattle – nos confortáveis restaurantes do centro, nos bares esfumaçados de Wallingford, nos animados cafés de Ballard, nas filas das mercearias de Everett a Tacoma – não se falava de outra coisa. Nas semanas seguintes, os cinemas ficaram lotados de gente que queria ver com os próprios olhos, nos cinejornais, a façanha dos rapazes em Berlim.

A caminho de casa os rapazes fizeram uma parada em Nova York, onde desfilaram em carro aberto sob uma chuva de papel picado atirado do alto dos arranha-céus. O louro, atlético e sorridente Joe Rantz, de Sequim, Washington, erguia sobre a cabeça uma camiseta de remo com uma águia negra, uma suástica e uma barra vermelha nas costas.

Em meados de setembro, Joe já estava morando na nova casa do lago Washington, dormindo no quarto que o pai construíra para ele bem ao lado do seu. Entregou à Universidade a muda de carvalho que lhes fora presenteada em Berlim, imediatamente plantada perto da garagem de barcos, e tratou de ganhar algum dinheiro antes do início das aulas.

Don Hume também voltou correndo para casa, preocupado, como Joe, em trabalhar para poder pagar mais um ano de faculdade. Stub McMillin passou alguns dias em Mount Vernon, no estado de Nova York, visitando parentes que lhe prepararam uma caixa cheia de sanduíches e frutas para a longa viagem de trem de volta para casa. Johnny White e Gordy Adam foram à Filadélfia visitar parentes de Johnny e depois a Detroit pegar um novo automóvel Plymouth que o pai dele encomendara. Shorty Hunt retornou à sua Puyallup natal a tempo de ser homenageado na feira anual da cidade. Roger Morris, Chuck Day e Bobby Moch só retornaram a Seattle no início de outubro, depois de seis semanas viajando pela Europa.

George e Frances Pocock e Al e Hazel Ulbrickson pararam na Inglaterra a caminho de casa. Pocock foi ver seu pai – em situação difícil e idade avançada – pela primeira vez em 23 anos. Encontrou no colégio Eton dois homens com quem trabalhara quando garoto – Froggy Windsor e Bosh Barrett – ainda dando duro na velha oficina de barcos. Depois de abraçá-lo calorosamente, foram buscar o primeiro barco construído por Pocock: o skiff de pinho da Noruega e mogno com que ganhara 50 libras em Putney-on-Thames 27 anos antes. Ainda estava em bom estado e agora era um favorito dos rapazes do Eton. Pocock não hesitou em sair com ele para remar no Tâmisa, à sombra do castelo de Windsor, com indisfarçável orgulho, como mostra o filme gravado por Frances com uma câmera caseira.

Em meados de outubro estavam todos de volta a Seattle para a apresentação da equipe para a temporada 1936-1937. Bobby Moch se formara com honras e se tornara assistente técnico de Al Ulbrickson. Todos os demais retornaram ao barco.

Na primavera seguinte, mais exatamente na manhã de 17 de abril de 1937, o San Francisco Chronicle saiu com duas manchetes concorrentes: “Seabiscuit na raia hoje!” e “A guarnição da Califórnia enfrenta Washington”. Naquela tarde, o cavalo Seabiscuit ganhou o prêmio extra de 10 mil dólares da corrida Marchbank Handicap no hipódromo de Tanforan, em San Bruno, por três corpos de vantagem. Do outro lado da baía, os rapazes de Washington derrotaram os da Califórnia no estuário de Oakland por categóricos cinco barcos de vantagem. Enquanto Seabiscuit iniciava sua carreira, vários dos rapazes se preparavam para encerrar as suas, não sem antes deixar mais uma marca na história do remo. Em 22 de junho, eles remaram novamente pelo título nacional em Poughkeepsie. Os calouros de Washington já

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haviam vencido a sua corrida. A 2 guarnição também. Ao soar o tiro de largada,

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a 1 guarnição saiu remando forte até ultrapassar a Academia Naval e cinco outros competidores na marca das duas milhas e cruzar a linha de chegada com quatro barcos de vantagem sobre o segundo colocado. Era um novo recorde do percurso e um feito que poucas horas antes os jornalistas achavam impossível: a segunda vitória consecutiva de Washington em todas as provas da Regata de Poughkeepsie.

Após a corrida, o mais velho e sábio entre os pares de Al Ulbrickson, Jim Ten Eyck, de Syracuse, disse finalmente, com todas as letras, o que desde algum tempo

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achava do 1 barco de Washington: “É o melhor ‘oito’ que já vi e não tenho expectativa de ver outro melhor.” Vinda de um homem que acompanhava o entra e sai de guarnições desde 1861, era uma declaração e tanto.

Poughkeepsie foi a última corrida de Roger Morris, Shorty Hunt e Joe Rantz. Pelos cálculos de Royal Brougham, feitos naquela mesma noite num guardanapo de bar, em quatro anos de remo universitário cada um deles havia remado um total aproximado de 6.990 quilômetros, o suficiente para ir de Seattle ao Japão. Foram cerca de 469 mil remadas em preparação para não mais de 45 quilômetros de corridas universitárias. Nesses quatro anos e 45 quilômetros, Joe, Shorty e Roger não sofreram uma só derrota.

No dia seguinte, depois de assistir de longe à saída dos rapazes da garagem de barcos de Poughkeepsie, Royal Brougham escreveu: “Os oito remadores apertaram as mãos em silêncio e tomaram cada um o seu rumo. Aquela que para muitos é a melhor guarnição de todos os tempos passava para a História.”

Dias depois da cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 1936, os nazistas renovaram a perseguição contra os judeus alemães e outros tidos como inferiores com um selvagem e implacável espírito de vingança. Os avisos antissemitas foram reinstalados e a brutalidade e o terror retomados com intensidade ainda maior. Num encontro secreto com industriais alemães em Berlim, em dezembro, Hermann Göring disse reservadamente o que ainda não podia dizer em público: “Estamos no limiar da mobilização, praticamente em guerra. Só faltam os tiros.”

O mundo, infelizmente, não sabia disso. A ilusão criada pelos Jogos Olímpicos foi completa, uma fraude magistral. Joseph Goebbels conseguira realizar o ideal de todo bom propagandista – convencer o mundo de que a sua versão da realidade era razoável e a dos seus oponentes, tendenciosa. Ele não só criara uma visão convincente da nova Alemanha como minara os esforços dos adversários ocidentais do nazismo – judeus americanos de Nova York, membros do Parlamento britânico e parisienses aflitos –, fazendo-os parecer um bando de gente estridente, histérica e mal informada. Entre os milhares de americanos que, naquele outono, voltavam para casa depois de assistir aos Jogos, muitos pensavam parecido com aquela pessoa supostamente citada no material de propaganda alemão: “Quanto a esse tal de Hitler... acho que todos nós gostaríamos de levá-lo conosco para organizar os Estados Unidos do jeito que fez na Alemanha.”

Hitler e Goebbels parabenizam Leni Riefenstahl na estreia de Olympia

Olympia, de Leni Riefenstahl, estreou em Berlim em 20 de abril de 1938, num grandioso evento no cinema UFA-Palast am Zoo a que não faltaram Hitler com toda a elite nazista e embaixadores e enviados especiais de mais de 40 países, incluindo Estados Unidos e Grã-Bretanha. Estiveram tembém presentes chefes militares, estrelas de cinema e atletas famosos, como Max Schmeling. A música esteve a cargo da Filarmônica de Berlim. Leni Riefenstahl, recebida com aplausos ao entrar na sala, foi ovacionada após a exibição do filme. Berlim o adorou. Ele seria entusiasticamente recebido em todo o mundo, a partir das viagens de divulgação de Leni pela Europa e pelos Estados Unidos, culminando em Hollywood.

No dia seguinte à estreia, Joseph Goebbels premiou Leni Riefenstahl com um bônus de 100 mil reichsmark. Nesse mesmo dia, Hitler se reuniu com o general Wilhelm Keitel para discutir os planos preliminares da tomada e ocupação da região dos Sudetos, na Tchecoslováquia.

Em setembro de 1939, a ilusão de um Estado nazista civilizado se desfez por completo quando Hitler desencadeou, com a invasão da Polônia, a guerra mais catastrófica da história mundial. Nos cinco anos seguintes ela ceifaria entre 50 e 60 milhões de vidas – um número tão grande que nunca será confirmado exatamente. A guerra só chegou aos Estados Unidos, porém, no fim de 1941, levando em seu rastro, junto com toda a nação, os rapazes que haviam remado em Berlim. Todos sobreviveram a ela, alguns por serem altos demais para servir, outros por serem engenheiros recém-formados – qualificação que os tornava mais valiosos na Boeing e em outras empresas essenciais ao esforço de guerra do que nos tanques e trincheiras.

Joe se formou em 1939, depois de completar os dois anos de química laboratorial que perdera por causa do remo. Joyce se formou como Phi Beta Kappa naquele mesmo dia e eles se casaram às 20 horas daquela mesma noite. Depois de se formar engenheiro químico, Joe ingressou na Union Oil Company em Rodeo, Califórnia, retornando a Seattle em 1941 para trabalhar na Boeing. Lá, ajudou a projetar componentes do B-17 para o esforço de guerra e, mais tarde, trabalhou no desenvolvimento da tecnologia de “ambiente limpo” por fluxo laminar que seria utilizada pela Nasa em seu programa espacial. Com emprego estável, Joe comprou uma casa em Lake Forest Park, não muito longe da linha de chegada das corridas de remo entre Washington e Califórnia. Ele e Joyce morariam lá pelo resto de suas vidas.

Joe e Joyce tiveram cinco filhos: Fred, Judy, Jerry, Barb e Jenny. Em todo esse tempo Joyce não esqueceu as dificuldades por que Joe passara em sua infância e em sua adolescência nem jamais descumpriu, por um instante sequer, o juramento que fizera a si mesma no início de seu relacionamento: nunca mais abandoná-lo nem deixá-lo passar por situação semelhante. Joyce lhe deu um lar aconchegante e cheio de amor para o resto da vida.

Depois de se aposentar da Boeing, Joe mergulhou fundo em sua antiga paixão pelo trabalho com o cedro. Fazia longas caminhadas pelas montanhas do Noroeste levando motosserra, machadinha, alavanca e cunhas de ferro em busca de madeira aproveitável. Quando a encontrava, ficava tão feliz como quando, ainda rapaz, achava coisas que outros haviam deixado para trás mas que para ele eram muito úteis. Levava as toras montanha abaixo até a sua oficina para transformá-las manualmente em telhas, varas, mourões e outros itens, com o que estabeleceu um pequeno mas bem-sucedido negócio de produtos de cedro feitos por encomenda. Ao entrar em sua nona década de vida, sua filha Judy ou, ocasionalmente, algum outro membro da família o acompanhava para ajudar e cuidar dele.

Joe e Joyce se formaram e se casaram no mesmo dia

Bobby Moch estudou direito, casou-se e continuou a trabalhar como treinador-assistente em Washington até ser convidado para ser diretor técnico de remo no Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT – em 1940. Com sua congênita tenacidade, aceitou o cargo, arranjou uma transferência para a faculdade de direito de Harvard e conseguiu o mais prestigiado diploma dos Estados Unidos em sua área sem deixar o emprego de treinador. Aprovado nos exames de qualificação de Massachusetts e Washington, retornou a Seattle em 1945 para iniciar uma bem-sucedida carreira, com direito a um vitorioso caso na Suprema Corte.

Stub McMillin voltou da Alemanha sem um tostão e teria sido obrigado a abandonar a faculdade não fosse a generosidade do Rainier Club de Seattle, que levantou 350 dólares para ajudá-lo a concluir os estudos. Dispensado do serviço militar em virtude de sua estatura, substituiu Bobby Moch no posto de treinador no MIT, onde também trabalhou durante 12 anos como engenheiro de laboratório em pesquisas confidenciais. De volta a Seattle, instalou-se na ilha Bainbridge, casou-se e foi trabalhar na Boeing.

Chuck Day se formou em medicina e ingressou na Marinha no início da guerra. Depois de servir como médico naval no Pacífico Sul, retornou a Seattle e montou um bem-sucedido consultório de ginecologia. Acabaria, porém, pagando um alto preço pelo incontornável hábito de fumar.

Shorty Hunt se casou com a namorada, Eleanor, formou-se e começou a trabalhar numa empresa de construção. Durante a guerra aplicou seus conhecimentos à construção de bases navais e aéreas nas frentes de guerra do Pacífico Sul. De volta a Seattle, montou uma empresa de construção e teve duas filhas com Eleanor.

Don Hume passou os anos da guerra na Marinha Mercante, sediado em São Francisco. Construiu, em seguida, uma carreira na área de exploração de petróleo e gás, trabalho que o mantinha longe de casa a maior parte do tempo, em lugares distantes como a ilha de Bornéu. Foi presidente da Associação de Mineradoras da Costa Oeste. Nunca se casou.

Johnny White formou-se engenheiro metalúrgico em 1938 e casou-se em 1940. Seguindo os passos do pai no ramo do aço, foi trabalhar na Bethlehem Steel, da qual se tornou gerente geral de vendas. Em 1946, sua irmã Mary Helen lhe devolveu o violino que comprara por 100 dólares.

Gordy Adam arranjou um emprego de tempo parcial na Boeing para poder pagar o último ano de faculdade. Acabou ficando lá pelos 38 anos seguintes, e trabalhou no B-17, no B-29, no 707 e no 727. Casou-se em 1939.

Roger Morris formou-se engenheiro mecânico, casou-se e passou o período da guerra no ramo da construção militar na região da baía de São Francisco. Retornou, mais tarde, a Seattle para trabalhar na Manson Construction Company, onde se especializou em grandes projetos de dragagem.

Al Ulbrickson foi treinador de Washington por mais 23 anos, período em que teve muitas vitórias emocionantes e algumas derrotas esmagadoras. Ganhou seis

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títulos da Associação Interuniversitária de Remo na categoria 1 barco e 10 na

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categoria 2 barco. Entrou para o Hall da Fama do remo nacional em 1956, junto com Tom Bolles, Ky Ebright e Hiram Conibear. Durante a maior parte de seu reinado, Washington permaneceu onde continua até hoje: no topo do remo universitário americano e mundial – ou bem perto dele. Num encontro com jornalistas, em 1959, para falar de sua aposentadoria, uma das primeiras coisas que lembrou ao comentar os momentos mais importantes da carreira foi o dia, em 1936, em que colocou Joe Rantz no barco olímpico e o viu decolar.

Ky Ebright conseguiu a tão sonhada terceira medalha de ouro olímpica em Londres, em 1948. Aposentou-se, como Ulbrickson, em 1959, depois de se estabelecer como um dos maiores treinadores de remo de todos os tempos. Ganhou

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sete títulos da Associação Interuniversitária de Remo na categoria 1 barco e duas na

o

categoria 2 barco. O programa de remo criado por ele na Califórnia é até hoje, tal como o de Washington, um perpétuo candidato aos mais importantes troféus nacionais e internacionais.

Quando a guerra terminou, George Pocock já havia há tempos realizado seu sonho de se tornar o melhor construtor de barcos do mundo. Mesmo assim, continuou a aperfeiçoar sua arte durante os 25 anos seguintes. Gerações de remadores e treinadores americanos continuaram não apenas a adquirir e utilizar seus barcos como a procurá-lo e a aprender com ele em todos os lugares e ocasiões possíveis.

A grande paixão de Pocock continuou sendo o prazer simples de moldar o cedro para construir barcos de grande delicadeza e requinte. Um de seus maiores triunfos pessoais foi a encomenda, por parte da Universidade de Oxford, de um barco de cedro vermelho ocidental para ser usado contra Cambridge na Boat Race.

Pocock entrou para o Hall da Fama do remo americano em 1969. A essa altura, era Stan, seu filho, quem tocava a oficina de construção de barcos. Nos 10 anos seguintes, os materiais sintéticos como a fibra de vidro e a fibra de carbono começaram a substituir a madeira na fabricação de barcos de competição. Sob a direção de Stan, a empresa de Pocock operou, lentamente, a transição. George não viveu – felizmente, talvez – para ver a época em que os barcos de cedro desapareceram das regatas de remo dos Estados Unidos. Faleceu em 19 de março de 1976.

Embora tenham seguido cada um o seu caminho depois da Regata de Poughkeepsie de 1937, os rapazes fizeram questão de que esses caminhos se cruzassem ainda muitas vezes. Continuaram próximos para o resto de suas vidas, ligados por suas lembranças e um profundo respeito mútuo. Encontravam-se ao menos uma vez por ano, geralmente duas, às vezes só os nove, mas, com o passar do tempo, incluindo as respectivas famílias, ora em churrascos no quintal ora em jantares informais em que se jogava badminton, pingue-pongue e futebol, e se faziam brincadeiras ao redor da piscina.

Organizavam também celebrações especiais a cada 10 anos. Na primeira delas, no verão de 1946, pegaram o Husky Clipper na garagem e, de calções e camisetas, saíram para remar no lago Washington como se não tivessem perdido um único treino desde então. Bobby Moch os comandou à respeitável voga de 26 remadas por minuto para alegria de fotógrafos e cinegrafistas da imprensa. Em 1956 todos

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remaram juntos novamente. No 30 aniversário, porém, Chuck Day já não estava com eles, vitimado por um câncer no pulmão. No dia em que morreu, no hospital onde durante anos exercera a medicina, os enfermeiros e médicos que trabalharam com ele choravam pelos corredores.

Reencontro da guarnição, 1956

Em 1971 toda a guarnição entrou para o Hall da Fama do remo americano, numa cerimônia em Nova York. Em 1976 os oito remanescentes se reencontraram

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para o 40 aniversário da medalha olímpica, com direito a fotos na nova Garagem de Barcos Conibear – de peito nu e remos nas mãos. Apesar dos ombros caídos, das barrigas protuberantes e dos cabelos grisalhos ou inexistentes, eles remaram – e bem – no Husky Clipper para as câmeras de TV. Um pouco devagar, mas com a pegada limpa e eficiente de sempre.

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Em 1986, no 50 aniversário da vitória em Berlim, eles remaram pela última vez. De calções brancos e camisetas de remo, eles levaram o Husky Clipper ao lago Washington num reboque e subiram a bordo cautelosamente em meio a uma multidão de fotógrafos prontos para ajudar. Bobby Moch ajustou o velho megafone à cabeça e mandou sair. Apesar das articulações doloridas e das costas alquebradas, eles mergulharam as pás brancas na água e saíram pelo lago Washington puxando juntos, como um homem só, cortando a água tingida de bronze pelo sol do fim da tarde. Ao cair da noite retornaram para a rampa de acesso à garagem, acenaram para os fotógrafos e puseram os remos de volta em suas prateleiras, dessa vez em definitivo.

Eles e suas famílias continuaram a se encontrar fora da água em aniversários e ocasiões especiais. No entanto, na década de 1990 essas ocasiões começaram a incluir funerais. Gordy Adam morreu em 1992 e Johnny White, em 1997, este tendo tido ainda a oportunidade de participar, em 1996, do concerto da banda marcial de Olympia, capital do estado de Washington, em homenagem à guarnição por

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ocasião do 60 aniversário de sua conquista olímpica. Shorty Hunt faleceu em 1999. Em 2001, faleceu Don Hume.

Um ano depois, em setembro de 2002, Joe perdeu Joyce. Na época eles dividiam um quarto numa instituição para idosos, ele se recuperando de uma fratura na pélvis, ela sofrendo de insuficiência cardíaca e renal. Movidos por inusitada compaixão, os funcionários juntaram suas camas de modo que pudessem dar as mãos – e foi assim que Joyce faleceu. Poucos dias depois, Joe foi à cerimônia religiosa em sua memória e retornou ao quarto, agora sozinho pela primeira vez em 63 anos.

Bobby Moch morreu em janeiro de 2005, seguido por Stub McMillin, em agosto daquele ano. Ficaram apenas Joe e Roger.

Depois da morte de Joyce e apesar do declínio da própria saúde, Joe realizou vários sonhos antigos na companhia de seus filhos. Mesmo confinado a uma cadeira de rodas, fez um cruzeiro ao Alasca, subiu o rio Colúmbia num barco a vapor, passeou no Trem da Neve até o povoado de Leavenworth na cordilheira das Cascatas, retornou ao lugar onde ficava a Mina de Ouro e Rubi em Idaho, foi ao Havaí, desceu o Mississippi em outro vapor, foi a Los Angeles visitar Rose, Polly e Barb, foi duas vezes a Milwaukee visitar sua filha Jenny e família, foi ao auditório do Grand Ole Opry, em Nashville, ouvir música country e fez a travessia do canal do Panamá.

No início de 2007, Joe morava com sua filha Judy e recebia cuidados especiais. Em março compareceu a um almoço do Clube Náutico Varsity, em Seattle, com sua jaqueta roxa “Hall da Fama Husky”, e foi aplaudido de pé por 450 pessoas. Em maio assistiu, da beira do Canal, ao primeiro dia de corridas das guarnições de Washington. Agosto foi o seu sprint final rumo à linha de chegada. Em 10 de setembro morreu na casa de Judy, meses depois de eu tê-lo conhecido e entrevistado pela primeira vez para a realização deste livro. Suas cinzas foram sepultadas em Sequim, ao lado das de Joyce.

Em algum momento, o carvalho que Joe trouxe dos Jogos Olímpicos morreu depois de replantado várias vezes no campus da Universidade. Aquilo chateara Joe em seus últimos anos. Atendendo, então, a um pedido de Judy, um pequeno grupo de pessoas se reuniu perto da Garagem de Barcos Conibear num dia de inverno de 2008 para plantar um novo carvalho. Bob Ernst, diretor de Remo de Washington, fez um breve discurso antes de Judy depositar, lenta e respeitosamente, nove pás de terra na base da árvore, uma para cada um dos rapazes.

Roger Morris, o primeiro amigo de Joe na guarnição, foi o último a partir. Morreu em 22 de julho de 2009. Em seu funeral, Judy pediu a palavra e lembrou que, em seus últimos anos, Joe e Roger se mantinham em contato – por telefone ou pessoalmente. Falavam pouco; ficavam apenas sentados, em silêncio, satisfeitos por estarem juntos.

E assim eles se foram, amados e lembrados por tudo o que eram – grandes remadores olímpicos e, sobretudo, bons homens, sem exceção.

Em agosto de 2011, viajei a Berlim para ver o lugar onde, 75 anos antes, os rapazes haviam conquistado a medalha de ouro. Visitei o Estádio Olímpico e, em seguida, tomei um trem para Köpenick, na antiga Berlim Oriental ocupada pelos soviéticos. Vaguei pelas ruas de paralelepípedos entre antigos edifícios deixados intactos pela guerra, salvo uma ou outra fachada marcada por estilhaços. Na rua Freiheit, passei pelo terreno baldio onde até a noite de 9 de novembro de 1938 ficava a sinagoga e pensei na família Hirschhahn.

Em Grünau, o local da regata foi pouquíssimo alterado desde 1936. É um lugar encantador, todo verde e arborizado, dominado pelas águas tranquilas do lago Langer. A não ser pelo grande placar eletrônico instalado na área próxima à linha de chegada, o estádio ainda é substancialmente o mesmo que aparece nas antigas fotos e cinejornais, com as mesmas tribunas cobertas próximas à linha de chegada e raias praticamente iguais às de 1936, onde, ainda hoje, moças e rapazes treinam em seus barcos de corrida.

No fim da tarde, o diretor do museu Wassersport de Grünau, Werner Phillip, conduziu-me gentilmente por uma escada até a varanda da Haus West. Passei um longo minuto apreciando, em silêncio, a vista do Langer do mesmo lugar onde estivera Hitler 75 anos antes.

Lá embaixo, um grupo de rapazes descarregava um barco de um caminhão cantando baixinho qualquer coisa em alemão, preparando-se, provavelmente, para uma corrida noturna. Na água, um remador conduzia seu skiff por uma das raias até a grande placa “Ziel” do fim do percurso. Mais perto de mim, um bando de andorinhas fazia voos rasantes sobre o lago, velozes silhuetas contra o sol poente bicando, aqui e ali, a superfície prateada.

Observando-as, ocorreu-me que, quando Hitler viu Joe e seus companheiros saírem do fim do pelotão para tomar a frente de italianos e alemães 75 anos atrás, talvez tenha tido um pressentimento do destino que o aguardava. Ele não tinha como saber que, anos depois, centenas de milhares de rapazes como aqueles, dotados da mesma natureza essencial – dignos e despretensiosos, sem nada que os privilegiasse ou favorecesse, apenas leais, comprometidos e perseverantes –, voltariam à Alemanha vestidos de verde-oliva para capturá-lo.

Quase todos já se foram – as legiões de jovens que salvaram o mundo anos antes de eu nascer. Naquela tarde, porém, na varanda da Haus West, senti uma onda de gratidão por sua generosidade, sua humildade e sua honra, sua civilidade simples e todas as coisas que eles nos ensinaram antes de passar pelas águas do crepúsculo e, finalmente, desaparecer na noite.

Resta entre nós um único sobrevivente da corrida pela medalha de ouro de 1936: o Husky Clipper. Durante muitos anos ele residiu na velha garagem, sem nenhum uso, salvo as saídas dos rapazes nos decênios da conquista. Na década de 1960 ele esteve alguns anos em Tacoma, emprestado à Universidade Luterana do Pacífico. Em 1967 Washington resgatou-o, restaurou-o e colocou-o em exposição no diretório estudantil, de onde, mais tarde, foi transferido para o Centro de Remo e Memorial George Pocock, em Seattle.

Hoje ele está na Garagem de Barcos Conibear, da Universidade de Washington, um espaçoso edifício construído em 1949 e recentemente reformado. Fica suspenso no teto do arejado e iluminado refeitório, uma graciosa agulha de cedro e abeto vermelho e amarelo brilhando à luz de pequenos focos de luz. Atrás de uma parede envidraçada se estende o lago Washington. De vez em quando as pessoas se aproximam para admirá-lo e tirar fotos enquanto conversam a respeito do que sabem sobre ele e os rapazes que o utilizaram em Berlim.

 

Joe na floresta

Mas o Husky Clipper não está lá somente para decorar o ambiente e ser admirado. Está lá, sobretudo, para inspirar. A cada outono, centenas de calouros – rapazes num dia, moças no outro, a maioria bem altos, a minoria baixinhos – se reúnem debaixo dele certa tarde do início de outubro para preencher as fichas de inscrição do programa de remo da universidade. Depois, ficam conversando e se avaliando mutuamente até o treinador de calouros chegar e pedir silêncio. Começa, então, a falar sobre o futuro daqueles que buscam um lugar em sua equipe. Explica, de cara, a dureza dos treinos e o tempo que irão passar na chuva e no frio. Ressalta que as guarnições de Washington costumam ter o melhor aproveitamento acadêmico de todos os atletas do campus, e não por acidente: eles terão que se sair tão bem nas aulas quanto nos barcos. Então, muda de tom para falar da glória de poder remar um barco de Washington. Fala das mais recentes vitórias regionais, da já ancestral rivalidade com a Califórnia, da reputação nacional e internacional do programa, dos muitos campeonatos conquistados pelos rapazes e moças de Washington e das dezenas de atletas olímpicos formados pelo programa.

Por fim, o treinador faz uma pausa, pigarreia e aponta para o Husky Clipper. Centenas de jovens lançam olhares contemplativos para o alto enquanto um profundo silêncio desce sobre a sala. E então ele começa a contar a história.