Meninos de Ouro

Daniel James Brown · Capítulo 3 de 10 · parte 1/3

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Meninos de Ouro

Segunda parte – 1934 – Resiliência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

SEGUNDA PARTE

 

1934

 

Resiliência

Tom Bolles

CAPÍTULO 6

 

Minha ambição sempre foi me tornar o maior construtor de barcos de corrida do mundo. E, sem falsa modéstia, creio ter atingido esse objetivo. Se eu fosse vender ações [da Boeing], acho que perderia o estímulo. Poderia até ficar rico, mas seria um artesão de segunda classe. Prefiro continuar sendo um artesão de primeira.

– George Yeoman Pocock

 

Em janeiro Joe e Joyce retornaram a Seattle, onde continuava a chover quase todos

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os dias. Na retomada dos treinos, no dia 8, Joe e os outros 17 rapazes da 1 e da 2 guarnição de calouros foram informados de que era hora de passar dos barcos de treinamento para os de corrida – os magníficos barcos de cedro que George Pocock construía em sua oficina nos fundos da garagem da Universidade de Washington.

Ficaram sabendo também que aquilo que no outono lhes parecera um brutal programa de treinamento era apenas uma pálida amostra do que Al Ulbrickson e Tom Bolles lhes reservava para a temporada. Nos primeiros meses, eles competiriam principalmente uns com os outros e com as guarnições de veteranos. Depois competiriam com a Universidade da Colúmbia Britânica e umas outras guarnições do noroeste. A verdadeira temporada de corridas, no entanto, era curta e decisiva: em meados de abril, uma única guarnição – aquela que emergisse como a

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1 guarnição de calouros – enfrentaria sua congênere da Universidade da Califórnia, Berkeley, a grande rival, ali mesmo no lago Washington, na regata anual da Costa do Pacífico. Somente se vencesse ela seria considerada a campeã do Oeste, apta a competir com a Academia Naval e a elite universitária do Leste pelo título nacional de calouros em Poughkeepsie, Nova York, em junho. Toda a temporada – nove meses de preparação – se resumia a duas grandes corridas.

Em seus seis anos como treinador de calouros, Bolles jamais perdera uma corrida para a Califórnia ou qualquer outra universidade no lago Washington e não tinha a menor intenção de permitir que isso acontecesse agora, com esse novo grupo, por melhores que fossem os calouros da “Cal” – e estava informado de que eles eram, de fato, muito bons. Sabia que os rapazes de Ky Ebright vinham treinando desde agosto e competindo uns com os outros em barcos de corrida desde outubro, quando, em Washington, os calouros ainda ensaiavam suas primeiras remadas nos barcos de treinamento. Bolles notara que Ebright vinha fazendo mais barulho do que de costume na imprensa da baía de São Francisco, alardeando que seus calouros dariam uma surra em Washington. Então disse aos seus rapazes que dali até o dia da corrida eles iriam treinar seis dias por semana, com sol ou com chuva.

Chovia, e eles remavam. Remavam com vento cortante, granizo e até neve, noite adentro. Remavam com as costas na chuva gelada, que se acumulava no fundo barco e espirrava com o movimento dos assentos. Um jornalista esportivo local que cobriu o treinamento naquele mês observou: “Chovia, chovia e chovia. E continuou chovendo, chovendo e chovendo.” Outro comentou que “se eles remassem com o casco emborcado não faria muita diferença; havia quase tanta água acima da superfície quanto abaixo”. Alheio ao mau tempo, Bolles os seguia de perto pelo lago Washington, pelo canal de Montlake e pelo lago Union, onde a água da chuva escorria velozmente dos cascos enegrecidos das antigas escunas. Da cabine de sua lancha de mogno com apliques metálicos, a Alumnus, devidamente protegido da chuva e dos respingos das marolas por uma capa amarela, Bolles se esgoelava para transmitir instruções pelo megafone até quase perder a voz.

Veio uma nova onda de desistências. Muitos dos que haviam suportado os treinos gelados de outubro e novembro agora punham seus remos nos suportes ao fim do treino e se arrastavam até o campus colina acima para nunca mais voltar. Quatro guarnições viraram três, e, no fim do mês, Bolles às vezes tinha dificuldade de preencher o terceiro barco. Todos os rapazes do barco de Joe continuaram, mas a momentânea camaradagem que haviam sentido em sua primeira incursão pelo lago Union, em novembro, rapidamente se evaporou. Sob o olhar implacável de Bolles, que examinava o desempenho de cada um para decidir quem continuaria no barco, a ansiedade, a insegurança e as desavenças tomaram o lugar do alegre otimismo daquela noite.

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Al Ulbrickson treinava seus veteranos com igual rigor, visando definir a 1 e a

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2 guarnições da Universidade que competiriam com a Califórnia em abril e com as universidades do Leste em junho. Mas as chuvas de janeiro viraram tempestades em fevereiro e ele andava decididamente insatisfeito com o que via na água,

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particularmente com a sua 1 guarnição. À noite, depois dos treinos, Ulbrickson costumava ficar em seu gabinete fazendo anotações, comentários geralmente bem mais expressivos do que sua reticente figura pública se permitia. Em meio a resmungos sobre o mau tempo, ele reclamava da falta de energia demonstrada pelos veteranos quando exigiam deles que competissem entre si. O diário se encheu de comentários ácidos: “bailes demais”, “excesso de queixas”, “falta de garra”, “pouca ambição...”.

Em 16 de fevereiro finalmente Ulbrickson viu algo que o satisfez – mas não onde

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estivera procurando. Encerrados os treinos daquela noite, sua 1 guarnição

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emparelhou, a 3 quilômetros da garagem, com o 1 barco de calouros de Tom Bolles, que também retornava. Provocações de parte a parte os levaram a disputar uma corrida. Os calouros saíram colados aos veteranos, no mesmo ritmo de remadas. Aquilo não era surpresa para Ulbrickson, ciente de que Bolles vinha trabalhando duro com seus comandados. Mas como as duas guarnições já treinavam havia horas, ele esperava que os calouros, mais jovens e inexperientes, esmorecessem. Ledo engano. A cerca de 800 metros da garagem, os calouros saltaram à frente assumindo um quarto de barco de vantagem. Aquilo chamou a

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atenção de Ulbrickson, e também de Harvey Love, o timoneiro da 1 guarnição, que passou a pedir freneticamente um aumento do ritmo. Dando o máximo nos 30 segundos finais, os veteranos conseguiram chegar junto com os calouros ao cais flutuante da garagem. Naquela noite, Ulbrickson pôs uma cáustica observação em

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seu diário: “O primeiro trabalho digno de nota da 1 guarnição.”

Mil e oitenta quilômetros ao sul, no estuário de Oakland – águas da Universidade da Califórnia –, Ky Ebright enfrentava problemas notavelmente similares. Um único membro de sua equipe medalhista de ouro nos Jogos Olímpicos de 1932 ainda

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remava pela Califórnia e sua 1 guarnição estava, na melhor das hipóteses, igualando o seu melhor tempo. Ebright não conseguia descobrir o que havia de errado. “Eles são fisicamente perfeitos e muito fortes, mas não consigo vê-los vencendo”, queixou-se certa vez ao San Francisco Chronicle. Para completar, nas

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últimas semanas seus calouros haviam começado a vencer a 1 guarnição nas tomadas de tempo e nas disputas diretas.

Ky Ebright era, sob vários aspectos, o oposto de Al Ulbrickson. Ulbrickson, um dos melhores remadores da história de Washington, era alto, bem constituído fisicamente e notavelmente bonito, ao passo que o ex-timoneiro Ebright era baixo e magro, usava óculos e tinha feições um tanto irregulares – nariz grande e queixo retraído. A reticência de Ulbrickson beirava a grosseria; a extroversão, de Ebright também. Um de seus remadores, “Buzz” Schulte, lembrou: “Ele berrava, provocava, fazia o que fosse preciso para motivar os rapazes.” Dado a bater com o megafone na amurada da lancha, exasperado, certa vez ele o atirou num remador que havia enforcado o remo. A péssima aerodinâmica do objeto fez, no entanto, com que ele passasse longe do alvo e caísse no colo do timoneiro, Don Blessing. Irritado com o ataque ao seu remador, Blessing empurrou o megafone com o joelho por sobre a lateral do barco. Ebright explodiu: “Blessing, seu desgraçado! Este megafone custou uma fortuna. Por que fez isso?”

Ky Ebright tinha seus maus momentos, mas era, tal como Al Ulbrickson, um notável treinador – não por acaso, ambos acabariam entrando para o Hall da Fama do remo. Tinha um profundo senso de responsabilidade para com os jovens sob seu comando. Na noite em que a Califórnia ganhou a medalha de ouro olímpica em Amsterdã, em 1928, Ebright foi até Blessing, abraçou-o com emoção e disse, com a voz embargada: “Sabe, Don, eu o xinguei e o enfureci muitas vezes, mas você é o melhor timoneiro e o melhor aluno que eu já tive e quero que saiba quanto valorizo isso.” “Aquilo me levou às lágrimas”, disse Blessing mais tarde. “Ele era um deus para mim” – sentimento compartilhado pela maioria dos seus pupilos, entre eles Robert McNamara, futuro secretário de Defesa dos Estados Unidos, e Gregory Peck, o ator, que em 1997 doou 25 mil dólares à equipe de remo da Califórnia em memória de Ebright.

Como Ulbrickson, Ebright cresceu em Seattle e estudou na Universidade de Washington, onde em 1915 começou sua vida de remador como timoneiro. Certa vez ele liderou uma guarnição de Washington a uma esmagadora vitória por 15 barcos de diferença sobre a Califórnia. Depois de se formar, continuou a frequentar a garagem de barcos de Washington para dar conselhos a alunos e treinadores e ajudar no que fosse possível. Em 1923, quando o diretor técnico de Washington, Ed Leader, saiu para treinar a equipe de Yale, Ebright foi um dos candidatos a ocupar seu posto, mas a universidade o preteriu em favor de Russell “Rusty” Callow.

Pouco depois, Washington recebeu a notícia de que o treinador da Califórnia, Ben Wallis, deixaria Berkeley e que a universidade, depois de anos de resultados pouco expressivos, estava prestes a fechar seu programa de remo. Os responsáveis pelo remo de Washington se alarmaram. A Universidade da Califórnia mantinha equipes de remo desde 1868, um dos programas mais antigos do país. Stanford abandonara a modalidade em 1920. Se Califórnia desistisse também, sem um sério rival na Costa Oeste, temia-se que Washington viesse a ter problemas para manter sua equipe. Mas havia, aparentemente, uma solução: Califórnia queria um treinador que lhe trouxesse resultados; Ebright queria um emprego de treinador; Washington queria um rival. Conclusão: Ky Ebright tornou-se o treinador chefe da equipe de remo da Califórnia em fevereiro de 1924, com a missão de reestruturar o programa de alto a baixo. Ele assim o fez. E teve sua desforra.

Em 1927, o remo da Califórnia evoluíra tanto que já rivalizava com Washington pela supremacia da Costa Oeste. Foi aí que começaram a surgir os atritos. Desde o início, houve em Washington quem dissesse que Ebright, ao aceitar a proposta da Califórnia, havia traído suas origens. Outros achavam que Ebright guardava mágoa de Washington por ter sido preterido e queria um ajuste de contas. Com a contínua evolução da Califórnia, outras questões vieram à tona e o relacionamento entre os dois programas piorou ainda mais. Em pouco tempo a rivalidade se tornou, como disse Ebright mais tarde com todas as letras, “sangrenta e cruel”.

Um dos motivos dessa animosidade era, quem diria, o maior cavalheiro dos dois lados da barricada. Ky Ebright sabia, desde seus tempos de Washington, da importância de George Pocock para o remo de Washington e se remoía de inveja.

Parte do seu ressentimento se devia a suspeitas a respeito dos barcos. Como quase todos os treinadores de remo do país no fim da década de 1920, Ebright comprava a maior parte de seu equipamento de Pocock, que tinha um negócio próprio fora da garagem de Washington. Seus barcos de cedro e remos de abeto eram, então, tidos em todo o país como inigualáveis em qualidade, durabilidade e, o mais importante, velocidade na água. Eram de última geração, tão elegantes e dinamicamente perfeitos que se costumava dizer que pareciam deslizar mesmo quando parados em seus suportes. Em meados da década de 1930, um oito de Pocock tinha o mesmo preço de mercado de um Cadillac LaSalle zero quilômetro. Ebright, no entanto, reagindo a rumores ouvidos por seu pai de que Pocock estaria fornecendo equipamento de segunda ou defeituoso para prejudicar o maior rival de Washington, enviou-lhe uma carta furiosa: “Ele ouviu dizer que você teria afirmado que esperava que o barco a ser usado por Washington fosse bem melhor do que o que fabricou para a Califórnia este ano.” Nos meses seguintes, várias cartas indelicadas, e até acusatórias, vindas de Berkeley chegaram à caixa de correio de Pocock. A toda elas o inglês respondeu de maneira educada e diplomática, afirmando que o equipamento fornecido à Califórnia era idêntico ao fornecido a Washington e a todos os seus demais clientes. Tudo o que fosse dito em contrário, ele insistia, era puro boato: “Eu lhe asseguro que Washington não hesitaria em trocar seus barcos pelos da Califórnia”, escreveu. “Tire da cabeça de seus rapazes a ideia de que estão recebendo equipamento do inimigo. Não é verdade. Meu trabalho vem em primeiro lugar, seguido da expansão do esporte do remo.” Não convencido, Ebright continuou a atacá-lo.

Ebright criou um dilema para Pocock. Em 1931, a Depressão levara ao encerramento de programas de remo por todo o país ou, na melhor das hipóteses, a cortes radicais na aquisição de equipamentos. Por mais cobiçados que fossem seus barcos, Pocock começou a enfrentar dificuldades para manter o negócio. Escrevia cartas aos treinadores implorando encomendas. Ebright, ansioso, ao que parece, para agarrar a chance de se vingar, escrevia-lhe ameaçando trocá-lo por um fornecedor inglês e exigindo reduções de preço e modificações de projeto. Pocock explicou, várias vezes, que precisava desesperadamente de encomendas, mas não podia baixar os preços. Escreveu: “Nenhum cliente me fez encomendas este ano pedindo redução de preço. Todos sabem o valor dos barcos.” Mas Ebright não arredou pé: “Você não vai conseguir segurar seus preços por muito tempo; ninguém vai conseguir pagar (…) a galinha dos ovos de ouro morreu.”

O que mais parecia dar nos nervos de Ebright não era, no entanto, o preço, tampouco a qualidade do equipamento que Pocock lhe fornecia, mas o valor dos conselhos que os rapazes de Washington, e não seus remadores, estavam recebendo. Ebright sabia que Pocock possuía um profundo conhecimento de todos os aspectos do esporte – das especificidades técnicas à psicologia da vitória e da derrota –, e não achava justo que Washington detivesse esse monopólio. Sempre que as duas equipes rivais se reuniam, ficava irritado ao ver o inglês no cais, conversando com os rapazes de Washington, ou na lancha, com Ulbrickson, cochichando em seu ouvido. As acusações chegavam a ser bizarras, dada a situação geográfica: “Insisto que o senhor nunca acompanhou um treino da nossa equipe (…) devia sair conosco para dar conselhos como faz com Washington.”

A integridade de Pocock, sua perícia como construtor de barcos e, acima de tudo, sua honra eram tudo em sua vida. As cartas de Ebright lhe magoavam. Primeiro porque, de fato, não devia à Califórnia nada mais do que o equipamento de primeira que continuava a lhe fornecer. Depois porque, quando a Universidade da Califórnia fora a Washington em busca de um novo técnico no outono de 1923, foi George Pocock quem recomendou Ky Ebright depois de recusar a proposta feita a ele por achar que a melhor maneira de contribuir para o esporte era continuar construindo barcos.

Pocock se esforçava para aparar essas arestas. Sempre que as duas universidades se encontravam, ele procurava a delegação da Califórnia para trocar ideias com seus técnicos e ajudar os rapazes a regular seus barcos antes das corridas. Mas os ataques de Ebright não passavam despercebidos na garagem de Washington. Em 1934, as relações entre os dois programas estavam mais tensas do que nunca.

Em meados da primavera, Tom Bolles vivia uma luta diária com os calouros. A curva de seus tempos parecia se mover na direção errada. “Eles estão mais lentos a cada dia que passa”, queixava-se, circunspecto e desanimado.

Um dos desafios básicos do remo é o fato de que quando um remador vai mal, a guarnição inteira afunda com ele. Uma equipe de beisebol, ou de basquete, pode perfeitamente triunfar mesmo que seu grande astro esteja num dia ruim. Mas as exigências do remo são tais que, num barco de corrida, cada remador, ou remadora, depende dos outros integrantes para ter um desempenho quase perfeito em cada remada. Os movimentos precisam estar intimamente conectados, em perfeita sincronia. Um erro ou perda de desempenho de um pode atrapalhar o ritmo da remada, o equilíbrio do barco e, em última instância, o sucesso de toda a guarnição. A maior parte dos problemas de uma guarnição se deve à falta de concentração de um dos remadores.

Em busca de sua melhor forma, os calouros de Washington criaram um mantra que seu timoneiro, George Morry, entoava durante os treinos: “C-N-B, C-N-B, C-N-B!”, na cadência das remadas. Era o acrônimo de “cabeça no barco” e tinha como finalidade não deixar ninguém esquecer que o remador, do momento em que entra no barco ao momento em que cruza a linha de chegada, tem que se manter totalmente concentrado no que está acontecendo ali dentro. O mundo inteiro se resume àquele casco apertado. Todo o foco fica no remador que está à frente e nos comandos do timoneiro. Nada que não diga respeito ao próprio barco – o barco da raia ao lado, o incentivo da torcida, o encontro da noite anterior – pode invadir a mente de um remador bem-sucedido. Mas não havia, naquela circunstância, mantra que desse jeito nos calouros. Bolles concluiu que precisava retornar com eles aos fundamentos, à mecânica que fazia o barco andar ou não.

Em geral, todo remador de um oito com timoneiro faz a mesma coisa – puxa seu remo na água o mais suavemente possível, com a força e a frequência exigidas pelo timoneiro. Mas há sutis diferenças no que se espera de cada remador, dependendo do lugar que ele ocupe. Dado que o restante do barco vai necessariamente aonde vai a proa, qualquer desvio ou irregularidade na remada do sujeito que vai na proa tem uma grande probabilidade de prejudicar a trajetória, a velocidade e a estabilidade do barco. Portanto, se é correto dizer que o proa deve ser forte, como todos os outros, é ainda mais importante que ele seja tecnicamente completo, capaz de atuar com perfeição, remada a remada, sem nenhuma falha. O mesmo vale, em menor medida, para os remadores das posições dois e três. As posições quatro, cinco e seis compõem a chamada “casa de máquinas” da guarnição, razão pela qual os remadores que as ocupam são geralmente os maiores e mais fortes do grupo. Embora a técnica seja também importante nesses assentos, a velocidade do barco depende sobretudo da força bruta desses remadores e da eficiência com que eles a transmitem à água por meio de seus remos. A posição sete é uma espécie de híbrido. Seu ocupante deve ser quase tão forte quanto os da casa de máquinas, mas precisa estar absolutamente atento, consciente e sintonizado com o que acontece no restante do barco de modo a interpretar com precisão o ritmo e a força aplicados pelo remador da posição oito, o voga, e transmiti-los corretamente à casa de máquinas. O voga fica cara a cara com o timoneiro, que mira a proa e dirige o barco. Teoricamente, o voga aplica o ritmo e a força exigidos pelo timoneiro, mas no fim das contas é ele que controla tudo isso. Todos os demais remam no ritmo e no nível de potência do voga. O barco vai bem quando funciona como um mecanismo bem lubrificado em que cada remador é um elo vital da cadeia que o impele adiante – como a corrente de uma bicicleta.

Para recuperar o desempenho dos calouros, o trabalho de Bolles era buscar com afinco os elos mais fracos da cadeia e repará-los. Naquela primavera, um desses elos parecia ser Joe Rantz. Bolles o trocou várias vezes de posição, da três para a sete e vice-versa, mas sem sucesso. O problema parecia ser técnico. Desde o início dos testes, no último outono, Bolles não conseguira de Joe uma perpendicular consistente – girar o remo de modo que a pá ficasse a 90 graus com a superfície antes de fazer a pegada, o começo de cada remada. Se a pá entrasse na água a qualquer ângulo que não fosse 90 graus, a quantidade de força gerada pela remada estaria comprometida, reduzindo a eficiência do barco inteiro. Fazer a perpendicular exigia pulsos fortes e um excelente controle motor – e Joe parecia não ter ainda pegado o jeito. Além disso, sua remada era um tanto incomum. Ele remava com muita força, mas de um jeito próprio, um modo que, sob quaisquer critérios convencionais, parecia amplamente ineficaz.

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Exasperado, Bolles tirou Joe do 1 barco certa tarde, antes da saída para o lago Washington. A velocidade diminuiu perceptivelmente. Perplexo, colocou-o de volta

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no barco para a perna de volta. Disputando corrida, Joe e a 1 guarnição

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reconstituída bateram a 2 por uma margem decisiva. Bolles ficou desconcertado. Talvez o problema não fosse o pulso de Rantz. Talvez fosse sua cabeça.

Para Joe, esse incidente, ainda que passageiro, foi um lembrete frio e súbito de quão precária era sua posição na guarnição e, em consequência, sua presença na universidade. Poucos dias depois, em 20 de março, quando uma nota do Post-Intelligencer anunciou “Rantz confirmado na posição três”, Joe recortou o artigo, colou-o num caderno de recortes que acabara de começar e escreveu ao lado: “Será que estou garantido? Olha o que diz o Post. Mas não dá para ter certeza.” Todo o seu esforço poderia virar pó de repente, numa tarde qualquer.

O fato de continuar se sentindo o primo pobre do grupo não o ajudava. A permanência do tempo frio o obrigava a ir treinar quase todos os dias com o mesmo suéter surrado, motivo de intermináveis gozações dos colegas.

Para piorar, eles descobriram um terreno novo e fértil para se divertir às suas custas numa noite em que um grupo o encontrou jantando no refeitório. Joe comia vorazmente um enorme prato de bolo de carne com batatas e creme de milho. Terminada a sua comida, virou-se para o colega ao lado, pediu-lhe o resto do bolo de carne que deixara no prato e o devorou com igual avidez.

O falatório não o deixou perceber que alguém chegara por trás fazendo gracinhas. Ao parar e erguer os olhos foi que viu um sorrisinho na cara do colega à sua frente. Seguindo o olhar dele, virou-se e deu com meia dúzia de companheiros do remo estendendo-lhe seus pratos sujos, sorrindo com deboche. Aturdido e humilhado, as orelhas em chamas, Joe abaixou a cabeça, encarou o prato e voltou a comer, mastigando metodicamente com olhos fixos, frios e desafiadores. Tinha fome quase o tempo todo, e não ia desperdiçar comida boa por causa daqueles almofadinhas.

No fim de março, a curva de desempenho dos calouros mudou de direção. Seus tempos voltaram a melhorar. Bolles conseguira, aparentemente, encontrar a combinação adequada de remadores e posições. Em 2 de abril, com Joe ainda na posição três, Bolles fez uma tomada de tempo. Naquela noite, em casa, Joe escreveu em seu caderno: “Duas milhas em 10m36s. Oito segundos para nos tornarmos a guarnição de calouros mais rápida de todos os tempos!!!”

Durante a maior parte do resto da semana o vento esteve forte demais para remar, mas em 6 de abril as condições melhoraram e Ulbrickson decidiu colocar a

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1 guarnição de calouros e a 1 e a 2 de veteranos para competirem entre si no lago Washington. Era a oportunidade perfeita de ver se o atraso provocado pelo mau tempo teria afetado o desempenho dos rapazes.

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Ulbrickson deu à 2 guarnição, que até então não havia se mostrado promissora, uma vantagem de três barcos na largada e mandou os calouros pararem na marca das duas milhas – a distância padrão de suas provas. Pensava, com isso, propiciar aos treinadores uma leitura final e exata de seus tempos em condições de corrida

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antes do confronto com a Califórnia. A 1 e a 2 guarnição deviam prosseguir até a marca das três milhas.

Alinhados os barcos, Ulbrickson empunhou o megafone e comandou: “Todos

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prontos… Vão!” Harvey Love, o timoneiro da 1 guarnição, estava conversando e perdeu a largada. Os calouros saltaram, imediatamente, meio barco à frente deles. Os três barcos saíram num ritmo relativamente rápido. Na primeira milha todos

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sustentaram suas vogas e posições relativas – a 2 guarnição ainda três barcos à

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frente dos calouros, em segundo, e a 1 guarnição meio barco atrás, com a proa estacionada na linha da posição cinco do barco dos calouros. Pouco a pouco, a proa

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da 1 guarnição foi caindo até o seis, o sete, o voga e, finalmente, o timoneiro do barco dos calouros. Na marca da milha e meia os calouros haviam aberto distância

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sobre a 1 guarnição e começavam a se aproximar da 2 , à sua frente. E sem sequer aumentar a voga. Faltando um quarto de milha, sentindo ter os dois barcos onde queria que estivessem e ciente de que sua guarnição ainda tinha bastante combustível no tanque, o timoneiro George Morry mandou os calouros aumentarem a voga em

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dois pontos e passou batido pela 2 guarnição, assumindo a liderança. Nas duas milhas, Morry comandou: “Escora!” Com dois barcos de frente sobre as duas outras guarnições, os calouros suspenderam os remos e os deixaram deslizar na água para ir parando devagar. Quando os dois outros barcos passaram, os calouros vibraram com os punhos erguidos.

Bolles consultou o cronômetro. Ao ver o tempo dos calouros para as duas milhas, teve de consultá-lo novamente para confirmar. Embora soubesse que eles estavam ficando afiados, percebera agora, sem margem de dúvida, que aquele barco era a semente de algo verdadeiramente excepcional. O que não sabia era se a Califórnia tinha algo ainda melhor, como Ky Ebright vinha deixando vazar para a imprensa. A resposta ele só teria uma semana depois, em 13 de abril. Pelo sim e pelo não, Bolles decidiu conservar só para si o tempo que registrara no cronômetro.

A velocidade de um barco de corrida é fundamentalmente determinada por dois fatores: a força produzida pela ação combinada dos remos e a voga – que é o número de remadas que a guarnição dá por minuto. Portanto, se dois barcos levando o mesmo peso andarem exatamente à mesma voga, aquele que produzir mais força por remada chegará à frente. Se dois barcos produzirem exatamente a mesma força por remada, mas um deles andar em voga mais alta, este chegará à frente. É claro, remadores são humanos e nenhuma guarnição pode manter, indefinidamente, remadas poderosas e voga muito alta. E, o que é mais crítico: quanto mais alta a voga, mais difícil é manter todos os muitos movimentos individuais da guarnição sincronizados. Assim, toda corrida é uma prova de equilíbrio, uma sequência de sutis e deliberados ajustes de força e voga, sempre em busca do desempenho ideal. Talvez ninguém jamais alcance a excelência absoluta, mas o que Bolles viu naquele dia – sua guarnição remando confortavelmente em voga alta, porém sustentável, e com tamanha força – lhe deu razões para pensar que aqueles calouros iriam longe.

E não era só uma questão de talento atlético. Bolles tinha especial admiração pelo caráter daqueles calouros. Os rapazes que haviam chegado até ali eram durões e otimistas, dignos representantes da cultura do Oeste, a maioria produtos autênticos de suas origens madeireiras, mineiras, leiteiras, pesqueiras e portuárias. Seu modo de falar, de caminhar e de se comportar era próprio de rapazes que haviam passado a maior parte da vida ao ar livre. Apesar dos tempos difíceis e das circunstâncias aflitivas, eles traziam sempre na cara um sorriso puro e aberto e não hesitavam em estender suas mãos calejadas a estranhos. Olhavam nos olhos de um modo convidativo, não desafiador. Riam de qualquer coisa e, nos obstáculos, sempre enxergavam oportunidades. Tudo isso, Bolles sabia, dava a essa guarnição um imenso potencial, particularmente se ela tivesse a chance de competir no Leste.

Naquela mesma noite, em Oakland, Ky Ebright embarcou com suas guarnições – todos rapazes do Oeste também – e seu equipamento no Cascade da Southern Pacific rumo a Seattle.

Ciente de que estivera ventando muito no noroeste, Ebright andou se queixando na imprensa da região de São Francisco sobre a falta de experiência de seus rapazes em águas encrespadas. Familiarizado, desde os seus tempos de timoneiro, com os caprichos do lago Washington, não se conformava com o clima ameno e a placidez reinantes no estuário de Oakland. Quando os ventos retornaram, pouco depois da chegada de sua equipe a Seattle, não perdeu tempo. Em 10 de abril, colocou seus três barcos nas águas mexidas do lago para ver como eles se sairiam. Para sua satisfação, saíram-se todos muito bem, especialmente os calouros, ajustando com perícia o ciclo da remada ao movimento das marolas para fazer uma pegada perfeita. Obtiveram ótimos tempos, que Ebright fez questão de manter a salvo da curiosidade da imprensa. A prática confirmou aquilo que Ebright e seu treinador de calouros, Russ Nagler, outro ex-timoneiro de Washington, já vinham insinuando desde algum tempo: que aqueles calouros talvez fossem os melhores que já haviam treinado, melhores até que os vencedores da medalha olímpica de 1932. Ainda em 6 abril, quando um repórter do San Francisco Chronicle perguntou a Nagler quais eram as perspectivas de seus calouros, ele respondeu, com surpreendente franqueza: “Nossos calouros vão arrancar o couro dos Huskies…”

Tom Bolles e Al Ulbrickson, que haviam lido a matéria, assistiam da margem do lago ao treino da Califórnia com ar de preocupação. Eles haviam colocado seus rapazes na água naquele mesmo dia, diante da imprensa e de Ebright, mas os calouros retornaram da primeira milha remando de maneira notavelmente letárgica, e o barco com água pela metade. Bolles voltou ao píer com uma expressão carregada e, num movimento atípico, foi até os jornalistas esportivos reunidos na garagem e lhes transmitiu uma previsão curta e grossa a respeito de seus calouros: “Parece que vamos ficar para trás.”

Iludir o adversário fazia parte do jogo. Era muito fácil regular um barco de modo que os remos ficassem perto demais da água e mais ainda remar sem nenhuma pressa dando a impressão de estar a todo vapor. Quando a declaração de Bolles apareceu no jornal no dia seguinte, Joe a recortou, colou-a em seu caderno e escreveu ao lado: “O treinador disse que Cal estava com um palmo de pescoço para fora. E está dando declarações pessimistas para eles esticarem ainda mais. Assim fica mais fácil de cortar.”

O dia da corrida, sexta-feira 13 de abril, foi um desses raros dias de primavera em Seattle em que chumaços de nuvens brancas vagam sobre um intenso azul-celeste e, à

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tarde, as temperaturas chegaram aos 23 C.

Às 11 horas da manhã, uma barca fretada por estudantes saiu do cais Colman, no centro de Seattle, e se dirigiu às comportas de Ballard, rumo ao lago Washington. No começo da tarde ela chegou ao Cais Oceanográfico da universidade, onde Joyce Simdars se juntou a outros 1.400 alunos barulhentos vestidos de roxo e dourado, acompanhados da banda marcial da universidade tocando hinos esportivos. Depois que a barca se afastou do cais, a banda passou a tocar músicas de jazz e os estudantes subiram ao convés superior para dançar.

Joyce se acomodou num banco da proa para tomar café ao sol e tentar, dali, assistir à corrida e torcer por Joe. Pretendia encontrá-lo depois, qualquer que fosse o resultado, mas não podia evitar o nervosismo: sabia perfeitamente a importância que tinha para Joe o sucesso do barco e quantas coisas dependiam disso para os dois. Para incentivá-lo, conseguira a muito custo uma tarde de folga no emprego. O trabalho em Laurelhurst era tão abominável quanto havia imaginado – uma interminável sucessão de tarefas domésticas, vestida num uniforme ridículo, movendo-se pela casa silenciosamente para não perturbar as sacrossantas deliberações do magistrado. Poder desfrutar o sol e o ar fresco na barca era um pequeno alívio da exaustão, do cansaço e da melancolia que lhe causavam o trabalho, os estudos e o inverno inusitadamente longo e chuvoso.

A barca circundou o farol de Laurelhurst e tomou o rumo norte, seguindo a margem ocidental do lago Washington. Nos deques, gramados e píeres particulares, as pessoas estendiam toalhas, abriam garrafas de Coca-Cola e cerveja gelada, tiravam lanches de cestas de piquenique, atiravam amendoim ao ar para pegá-los com a boca e, naturalmente, ajustavam seus binóculos. Rapazes sem camisa jogavam bola em pequenas faixas de praia. Moças em discretas roupas de banho de uma única peça, com saiotes franzidos, se divertiam na água ou se estendiam na areia tépida, aguardando a hora da corrida.

No extremo norte do lago, centenas de barcos de passeio convergiam para um mesmo lugar. Elegantes veleiros brancos, lindas lanchas de mogno polido, imponentes iates com adornos em teca e latão e pequenos barcos a remo jogavam suas âncoras formando um enorme semicírculo ao largo da praia Sheridan, logo depois da barcaça que demarcava, por meio de uma grande seta negra apontada para a água, a linha de chegada das corridas. Um barco da guarda-costeira patrulhava o percurso, usando sirenes e megafones para manter as raias livres dos barcos pequenos.

Joyce se levantou do banco e tomou posição na amurada, ao lado dos outros estudantes. Decidira manter a calma, independentemente do que acontecesse.

Alguns quilômetros ao sul, dois mil torcedores vestidos de roxo e dourado subiram a bordo de um trem de observação da Northern Pacific na estação Universidade. Mais de 700 deles desembolsaram 2 dólares por um lugar em um dos nove vagões especiais de observação, abertos nas laterais; o restante pagou 1,50 dólar cada por assentos comuns. O trem se deslocava ao longo da raia, paralelamente à margem ocidental do lago, de Sand Point até a linha de chegada na praia Sheridan, e retornava à linha de largada antes do início da prova seguinte. Ao todo, cerca de 80 mil moradores de Seattle – muito mais do que a capacidade do estádio de futebol da Universidade de Washington – haviam começado um esplêndido fim de semana indo assistir às corridas.

As guarnições de calouros de Washington e Califórnia remaram com decisão até a linha de largada, em Sand Point, para a primeira prova, na distância de duas

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milhas. Em seguida, em intervalos de uma hora, viriam as corridas da 1 e da 2 guarnição, ambas com três milhas. Joe Rantz era o número três do barco de Washington; Roger Morris, o sete. Estavam nervosos, como todos os demais. Apesar do calor na beira do lago, uma brisa setentrional moderadamente forte começara a soprar no espelho-d’água e eles iriam remar bem na sua direção. Isso os tornaria mais lentos, prejudicando, quem sabe, seu estilo. Acima de tudo, havia a aflitiva certeza de que os próximos poucos minutos de esforço extremo iriam lhes dizer se cinco meses e meio de treinos tinham valido a pena. Nesses poucos minutos, cada um daria pouco mais de 300 remadas. Com oito remadores no barco, os remos teriam que entrar e sair suavemente da água mais de 2.400 vezes. Se apenas um deles errasse uma única remada a corrida estaria acabada e todos perderiam a chance de ir para Nova York, em junho, competir com as melhores guarnições da Costa Leste pelo título nacional. Joe perscrutou a multidão reunida na margem do lago imaginando se Joyce estaria sentindo metade da sua aflição.

Às 15 horas, com marolas bem suaves, os calouros alinharam seu barco ao da Califórnia, concentraram-se nele o máximo que podiam e ficaram à espera da ordem de largada. Atrás da linha, Tom Bolles manobrava sua lancha com um chapéu para lá de surrado, com a aba caída e a copa esburacada pelas traças. Ele o comprara de segunda mão em 1930 e o usava em todas as corridas por achar que dava sorte.

Na barca, a banda parou de tocar e os estudantes suspenderam o baile para se aglomerar nas amuradas, fazendo-a adernar ligeiramente para o lado da raia. No trem de observação, o maquinista pôs a mão no acelerador. Na beira do lago, milhares ergueram seus binóculos. O juiz de largada anunciou: “Todos prontos!” Os rapazes de Washington levaram os carrinhos à frente, debruçaram-se sobre os remos, mergulharam as pás na água e olharam fixamente adiante. George Morry, o timoneiro de Washington, ergueu o braço direito, sinalizando que seu barco estava pronto. Grover Clark, o timoneiro da Cal, com um apito entre os dentes, fez o mesmo. O juiz de largada gritou: “Vão!”

A equipe da Califórnia arrancou, atacando a água ao ritmo furioso de 38 remadas por minuto. A proa prateada de seu barco abriu imediatamente um quarto de vantagem sobre Washington. Uma vez na liderança, Cal assumiu o ritmo mais sustentável de 32 por minuto com Grover Clark soprando o seu apito na cadência das remadas. Washington vinha com 30, mas mantendo-se um quarto de barco atrás. Levaram quase um quarto de milha nessa configuração, as pás brancas de Washington cintilando à luz do sol e as da Califórnia soltando chispas de luz azul. Joe Rantz, na posição três, mantinha-se entre o seis e o sete da Califórnia. Roger Morris, na sete, só tinha água a seu lado. Virados para a popa e com a cabeça totalmente concentrada no barco, os rapazes só viam o movimento das costas do companheiro à sua frente. Ninguém fazia a menor ideia de quanta vantagem a Califórnia obtivera com seu ímpeto inicial. Só George Morry, olhando adiante, sabia. Podia ver as costas de Grover Clark, mas mantinha a voga de Washington inalterada em 30 remadas por minuto.

Ao passarem pela marca do quarto de milha, os dois barcos começaram a emparelhar. Logo, Washington foi recuperando a diferença, posição por posição, sem sair da voga notavelmente baixa de 30 remadas por minuto. Na marca de uma milha, Washington já tomara distância da Califórnia. À medida que o barco adversário entrava no campo de visão dos rapazes de Washington, a confiança deles aumentava. A dor em seus braços, pernas e em seu tórax não dava trégua, mas fora varrida para o fundo de suas mentes e lá ficara, dominada por uma sensação de quase invulnerabilidade.

No barco da Califórnia, Grover Clark tirou o apito da boca e berrou: “Quero 10 fortes!” – no remo, o comando padrão para 10 super-remadas, as mais vigorosas que o remador pode dar. Os remos da Califórnia se curvavam como arcos com o esforço, 10 remadas que ajudaram a Califórnia a manter sua posição. Mas Washington seguia à frente, com a vantagem de quase dois barcos praticamente intacta. Na milha e meia, Clark pediu outras 10, mas os rapazes da Califórnia já não tinham mais o que dar. Os de Washington, sim. Ao entrarem na última meia milha, a sotavento das montanhas do extremo norte do lago, o vento contrário deu lugar aos gritos da torcida nas praias, nos barcos à frente, no trem de observação e – os mais frenéticos – na barca apinhada de estudantes. O barco da Califórnia lutava para se aproximar, com Grover Clark apitando como uma locomotiva desgovernada. Ao se aproximar da linha de chegada com quatro barcos de vantagem, George Morry pediu, finalmente, o aumento da voga. Os rapazes de Washington passaram a 32, logo a 36, só para mostrar que podiam. Cruzaram a linha de chegada com quatro barcos e meio de vantagem sobre a Califórnia e quase 20 segundos menos que o recorde da corrida de calouros – com vento de proa e tudo.

Gritos de júbilo e buzinas estridentes eram ouvidos por toda a margem do lago enquanto os calouros de Washington remavam até o barco da Califórnia para buscar o que normalmente simboliza o troféu das guarnições vitoriosas: as camisetas dos vencidos. Cumprimentaram os adversários, agora descamisados e desanimados, e remaram, exultantes, até o cais. Tom Bolles os recebeu calorosamente no Alumnus e os levou à barca dos estudantes.

Com seu troféu na mão, Joe subiu radiante a escadinha que levava ao convés superior à procura de Joyce. Não seria fácil encontrar uma mocinha de 1,60 metro de altura no meio daquela multidão ávida para cumprimentá-los. Mas Joyce o avistara e foi abrindo caminho em meio à massa até chegar, finalmente, diante de Joe, que se curvou e a ergueu do chão com um grande abraço suado.

Um grupo de estudantes levou a guarnição ao refeitório do barco e os fez sentarem-se à mesa diante de uma montanha de sorvete, cortesia da Associação dos Alunos da Universidade de Washington. Joe se empanturrou, como sempre fazia quando a comida era de graça – sempre que havia comida, na verdade. Terminado o lanche, levou Joyce de volta ao convés onde a orquestra já tocava música dançante a todo volume. Joe – de calção e camiseta, queimado de sol e descalço – pegou Joyce – magra e frágil num vestidinho branco, franzido, de verão – e a fez rodopiar. E eles continuaram girando pelo deque, rindo, tontos de alegria sob o céu azul de Seattle.

Naquele mesmo dia, num bairro elegante de Berlim próximo ao Ministério da Propaganda, Joseph e Magda Goebbels recebiam mais um filho – uma menina de cabelos castanhos a que deram o nome Hildegard. Apelidaram-na “Hilde”, mas o pai logo começou a chamá-la de sua “ratinha”. Era o segundo dos seis filhos de Goebbels que, 11 anos depois, Magda mandaria matar com cianureto.

Tudo corria às mil maravilhas para o ministro do Reich naquela primavera. O velho Estádio Olímpico estava sendo demolido para a construção do vasto complexo projetado por Werner March para as Olimpíadas de 1936 – um empreendimento à altura das ambições políticas de Hitler e dos objetivos propagandísticos de Goebbels. O Reichssportfeld se estenderia por mais de 130 hectares.

Antecipando-se aos Jogos, Goebbels formara, em janeiro e fevereiro, comitês do Ministério para imprensa escrita, rádio, cinema, transportes, arte pública e orçamento, todos com a responsabilidade de extrair dos Jogos o máximo retorno em propaganda. Nenhuma oportunidade seria desperdiçada ou negligenciada. Do tratamento a ser dispensado à imprensa estrangeira à decoração da cidade, tudo estaria submetido a um rigoroso planejamento do Estado alemão. Foi numa dessas reuniões que um dos assessores de Goebbels propôs algo inteiramente novo – uma poderosa peça publicitária concebida para destacar o que o III Reich tomava como suas raízes ancestrais na Grécia Antiga –, um revezamento para trazer a chama simbólica de Olímpia, na Grécia, até Berlim.

Enquanto isso, o ministro procedia à implacável eliminação do judaísmo e de outras influências “questionáveis” da vida cultural alemã. Desde 10 de maio de 1933, quando incitou estudantes da Universidade de Berlim a queimarem cerca de 20 mil livros – de Albert Einstein, Erich Maria Remarque, Thomas Mann, Jack London, H. G. Wells e Helen Keller, entre outros –, Goebbels vinha se dedicando incansavelmente ao seu mister de “purificar” a arte, a música, o teatro, a literatura, a radiodifusão, a educação, os esportes e o cinema alemães. Atores, escritores, artistas, professores, funcionários públicos, advogados e médicos judeus foram expulsos de suas ocupações e privados de seus meios de vida, através de novas leis ou do terror dos camisas-pardas nazistas – os paramilitares das Sturmabteilung, ou SA.

A indústria cinematográfica alemã tornara-se de particular interesse para Goebbels. Convencido do potencial propagandístico do cinema, dedicava-se agora a eliminar dos filmes quaisquer ideias, imagens ou temas que não correspondessem aos mitos nazistas em ascensão. Para tanto, o departamento de cinema do Ministério da Propaganda passara a supervisionar diretamente o planejamento e a produção de todos os novos filmes alemães. O próprio Goebbels – romancista e dramaturgo fracassado – assumira pessoalmente a revisão dos roteiros de quase todos os filmes, usando um lápis verde para eliminar ou reescrever falas e cenas que lhe parecessem ofensivas.

Mas não se tratava apenas do valor prático do cinema para a propaganda nazista. Goebbels sentia-se pessoalmente atraído pelo glamour da indústria, muito especialmente pelos astros alemães que povoavam as telas dos cinemas de Berlim. Dado que agora todos dependiam de Goebbels, muitos atores, atrizes, produtores e diretores passaram a frequentar o seu círculo, a bajulá-lo e a pedir-lhe favores.

Em junho do ano anterior, Hitler premiara Goebbels com uma suntuosa residência particular na recém-rebatizada Hermann-Göring-Strasse, rua situada uma quadra ao sul do Portão de Brandemburgo. Goebbels logo tratou de reformar e ampliar a casa – um centenário palácio dos marechais da corte prussiana – para torná-la ainda mais imponente. Mandou construir um segundo pavimento, montar um cinema privado, instalar estufas aquecidas e criar caprichados jardins. Tendo à disposição um orçamento praticamente ilimitado, Magda Goebbels a mobiliou e decorou com grande extravagância – paredes cobertas de gobelins e pinturas tomadas de museus alemães, tapetes luxuosos e até uma cômoda que fora de Frederico, o Grande. Adaptada aos padrões de Goebbels, a casa se convertera num foco de noitadas íntimas e grandes jantares para nazistas e todos os que se refestelavam à sua sombra.

Dentre os frequentadores da mansão da Hermann-Göring-Strasse, Goebbels tinha especial interesse pelas jovens estrelas em ascensão, algumas das quais logo descobriram que satisfazer seus desejos eróticos, a despeito de sua pequena estatura e sua psique deformada, podia ser um poderoso estímulo ao desenvolvimento de suas carreiras. Outras ele cultivava por seus autênticos talentos dramáticos e pela pura vaidade de poder tê-las em sua companhia.

Nesta segunda categoria se enquadrava uma jovem que participara de algumas de suas festas naquela primavera, estrela dotada de luz própria e amiga cada vez mais íntima de Adolf Hitler. Mais do que qualquer outra mulher alemã, ela teria um papel fundamental na conformação do movimento nazista.

Além de bela e brilhante, Leni Riefenstahl era obstinada e sabia como conseguir o que queria. E o que queria acima de tudo era ser o centro das atenções, alvo privilegiado dos holofotes e objeto da aclamação pública.

Desde muito jovem, demonstrou uma vontade indômita de chegar ao ápice. Aos 17 anos decidiu se tornar bailarina, à revelia da opinião convencional de que bailarinas começavam sua formação desde crianças. Com pouco mais de 20 anos, já dançava profissionalmente para plateias de toda a Alemanha, colhendo elogios entusiásticos da crítica. Obrigada, por causa de uma lesão, a encerrar a carreira de bailarina, voltou-se para o cinema e chegou ao estrelato logo em A montanha sagrada, seu primeiro filme como atriz principal. Como não poderia deixar de ser em se tratando de Leni Riefenstahl, mesmo tendo estrelado, nos anos seguintes, uma série de filmes de igual sucesso, ela não se sentia saciada em suas ambições. Cada vez menos disposta a ceder o controle criativo de seu trabalho, fundou em 1931 sua própria produtora e começou – muito precocemente para uma mulher, na década de 1930 – a escrever, produzir, dirigir, editar e estrelar seus filmes.

Joseph Goebbels e Leni Riefenstahl

 

A luz azul, lançado em 1932, era diferente de tudo o que já se vira, uma espécie de conto de fadas místico que romanceava e celebrava a vida simples de fazendeiros vivendo em harmonia com a natureza em solo alemão. O filme condenava a corrupção do moderno mundo industrial e, por tabela, também os intelectuais. Internacionalmente aclamado, ficou semanas em cartaz nos cinemas de Londres e Paris.

Embora menos calorosamente recebido na Alemanha, o filme fascinou Adolf Hitler, para quem ele era a perfeita representação visual e artística da ideologia “do sangue e da terra” sobre a qual fora fundado o partido nazista – a ideia de que a força da nação residia em sua linhagem nativa pura e simples. Hitler já conhecia o trabalho de Leni desde algum tempo, mas agora se tornara seu amigo. Atendendo a um pedido pessoal seu, em 1933 ela dirigiu um filme de propaganda de uma hora de duração, A vitória da fé, documentando o congresso do partido nazista daquele ano em Nuremberg. Produzido em cima da hora e com várias dificuldades técnicas, o filme não a agradou, mas o Führer continuou impressionado com seu trabalho. Sua expectativa era de que, no outono, ela produzisse um filme ainda mais ambicioso sobre o grande congresso de Nuremberg de 1934.

A contínua ascensão de Leni Riefenstahl nos meses seguintes foi motivo de frequentes atritos com Goebbels, cada vez mais enciumado de sua influência junto a Hitler e da imunidade que ele lhe concedia. Além disso, segundo ela, Goebbels se sentia sexualmente atraído por ela e a cortejava. Mais adiante, este estranho par desempenharia um importante papel na imagem que os Jogos Olímpicos de Berlim e, por extensão, o novo Estado nazista projetariam para o mundo inteiro.

Por ora, no entanto, Leni era apenas um rosto a mais no turbilhão de personagens glamourosos que frequentavam a imponente mansão de Joseph e Magda Goebbels para tomar champanhe, festejar os anfitriões e celebrar sua juventude e beleza dançando, cantando, assistindo a filmes e falando de pureza racial até tarde da noite, enquanto a pequena Hilde Goebbels dormia em seu berço na penumbra de um quarto do segundo andar.

Continuar: parte 2 de 3