Meninos de Ouro
Quarta parte – 1936 – Tocando o Divino
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
QUARTA PARTE
1936
Tocando o Divino
a
A 1 guarnição de 1936
Da esquerda para a direita: Don Hume, Joe Rantz, Shorty Hunt, Stub McMillin, Johnny White, Gordy Adam, Chuck Day, Roger
Morris. Ajoelhado: Bobby Moch
CAPÍTULO 13
Quando se pega o ritmo num oito com timoneiro, estar nele é puro prazer. Não é preciso muito esforço quando se pega o ritmo – a “sincronia”, como dizem. Já ouvi homens gritarem de prazer ao alcançar essa sincronia num “oito com”; é algo que a pessoa não esquecerá enquanto viver.
– George Yeoman Pocock
Na noite de 9 de janeiro, Al Ulbrickson reuniu os rapazes na garagem para lhes fazer uma clara advertência: quem se reapresentasse na segunda-feira seguinte teria “que estar disposto a enfrentar a temporada mais dura e importante da história do remo de Washington”. O tão aguardado ano olímpico chegara e Ulbrickson não queria que ninguém subestimasse o tamanho da empreitada e o preço a se pagar pelo direito de participar.
Quando Joe chegou à garagem naquela segunda-feira e olhou a lousa, foi
o
surpreendido com a inclusão de seu nome na escalação do 1 barco ao lado de
o o
Shorty Hunt e Roger Morris. Depois de remar todo o último outono no 3 e no 4 barco, não conseguiu entender o motivo dessa súbita promoção. Na verdade, não era uma promoção. Ulbrickson decidira reconstituir, parcial e temporariamente, as guarnições de 1935 para treinar em voga baixa e trabalhar os fundamentos nas semanas iniciais. “De modo geral”, disse, “os homens ficam mais receptivos a instruções quando trabalham com os colegas que conhecem melhor.” Quando começassem a remar em ritmo de corrida, ele desfaria os barcos e a disputa voltaria a ser cada um por si. Em outras palavras, a escalação inicial dos barcos não significava nada.
E, assim, todos voltaram para a água. No restante de janeiro e início de fevereiro, treinaram remadas curtas de meio trilho e um quarto de trilho com foco na técnica, praticaram partidas e corrigiram falhas individuais, seis dias por semana. A cada poucos dias nevava sobre o lago Washington. Quando não nevava fazia dias claros, mas com muito vento e frio intenso. Eles remavam mesmo assim, alguns vestindo moletons surrados; outros, calções e gorros. A Universal Pictures veio filmá-los para a eventualidade de precisarem nas Olimpíadas. De vez em quando os barcos
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disputavam corridas curtas entre si. O 1 barco nominal, o de Joe, continuava em terceiro e o terceiro, em primeiro. Ulbrickson anotou em seu diário que os rapazes do barco de Joe começavam bem, depois perdiam a sincronia, logo a recuperavam e a perdiam novamente, três vezes numa única corrida. Sua pegada era a pior dos três barcos principais.
Num dia nublado de fevereiro, Ulbrickson, já impaciente, tentava, de sua lancha, corrigir os problemas do barco de Joe quando viu George Pocock remando sozinho à distância. Imediatamente, mandou os rapazes pararem, desacelerou a lancha e pôs-se a observá-lo.
Ao notar o olhar distante de Ulbrickson, os rapazes se viraram para ver o que era e deram com a fantasmagórica figura de Pocock remando serenamente, quase sem esforço, em meio à névoa que caíra sobre lago. Seu corpo magro e ereto deslizava no barco com fluidez, para a frente e para trás, sem hesitação nem solavancos. Os remos entravam e saíam da água sem o menor ruído, deixando na água escura um rastro brilhante.
Ulbrickson fez um gesto para que Pocock se aproximasse e, megafone em punho, bradou: “George, diga você a eles o que estou tentando explicar. Diga-lhes o que queremos fazer aqui.” Sem sair de seu barco, Pocock circundou lentamente o barco de Joe inclinando o tronco para falar calmamente com cada remador. Depois se afastou, acenando para Ulbrickson. A cena não durou mais que três minutos.
Ao comando de Ulbrickson – “Vão!” –, os rapazes direcionaram habilmente o barco, com pegadas e remadas rápidas e precisas. Daquele dia em diante, George Pocock passou a acompanhá-los na lancha dos treinadores sempre que podia, de sobretudo, cachecol e chapéu, tomando notas e dando sugestões ao treinador.
No geral, Ulbrickson estava bastante satisfeito. Apesar do mau tempo e do desempenho errático do barco número um, os treinamentos progrediam bem, com tempos bastante promissores para um início de temporada. Com o sangue novo da excepcional guarnição de calouros do ano anterior, repetia-se o problema do excesso de talento: era difícil distinguir o bom do ótimo e o ótimo do excelente. Mas, no fim de fevereiro, Ulbrickson começou a formar uma ideia consistente da composição do
o
1 barco da Universidade – o barco para ir a Berlim –, ainda que não estivesse pronto para dizê-lo à imprensa e aos próprios rapazes. Enquanto estivessem competindo entre si em igualdade de condições, eles provavelmente continuariam evoluindo. Uma coisa era óbvia, no entanto. Se algum barco de Washington chegasse às águas do lago Langer em meados daquele ano, era Bobby Moch quem estaria na popa com o megafone.
Com 1,70 metro de altura e 54 quilos, Moch tinha o tipo físico quase perfeito para um timoneiro. Na verdade, George Pocock projetava seus barcos para um desempenho ideal com um timoneiro de 54,4 quilos. Em geral, ser ainda menor era desejável, desde que o indivíduo tivesse força para guiar o barco. Assim como os jóqueis, os timoneiros faziam de tudo para controlar o peso – não comiam, tomavam laxantes, exercitavam-se compulsivamente e passavam longas horas na sauna, onde, aliás, os remadores costumavam trancá-los quando os achavam um pouco gordos. Para Bobby Moch, manter a silhueta nunca fora um problema. De todo modo, mesmo que ganhasse uns gramas, o 1,5 quilo de seu cérebro as teriam mais do que compensado.
A primeira tarefa de um timoneiro é conservar a direção do barco no transcurso da prova. Nos barcos de Pocock da década de 1930, o timoneiro manejava o leme puxando duas cordinhas. Na ponta de cada uma havia um toco de madeira com que se batia numa placa afixada ao costado do barco para sinalizar aumento de voga. Não é nada fácil guiar um casco de 61 centímetros de largura levando oito homens grandes em constante movimento, com o vento e as correntes tentando o tempo todo tirá-lo do curso. Esta, porém, é a menor das preocupações de um timoneiro.
A partir do instante em que o barco entra em movimento, o timoneiro é o seu capitão. Cabe a ele exercer o controle físico e psicológico sobre tudo o que acontece dentro dele. Bons timoneiros conhecem seus remadores como a palma de suas mãos – seus pontos fracos e fortes individuais – e sabem como extrair o máximo de cada um, a qualquer momento. São dotados da força de caráter indispensável para convencer remadores exaustos a puxar mais rápido e mais forte quando tudo parece perdido. Têm também um conhecimento enciclopédico de seus adversários: suas estratégias de corrida, o modo como administram as energias da guarnição e o momento provável em que farão um ataque. Antes da regata, o timoneiro recebe do treinador um plano de corrida e se torna inteiramente responsável por sua execução. No entanto, na dinâmica de uma prova de remo as circunstâncias podem mudar abruptamente, obrigando o timoneiro a abandoná-lo. Como único membro da guarnição que olha para a frente e conhece a posição de todos os demais competidores, ele precisa estar preparado para reagir rapidamente a situações imprevistas. Quando um plano de corrida vai por água abaixo, cabe ao timoneiro formular outro, quase sempre numa fração de segundo, e comunicá-lo de maneira rápida e convincente a toda a guarnição. Em geral, isso implica muitos gritos e fortes emoções. Na prova que deu à Califórnia a medalha de ouro em Amsterdã, em 1928, Don Blessing teve o que o The New York Times classificou como “uma das atuações mais demoníacas jamais vistas neste mundo… Que linguajar! E que vocabulário! Quem fechasse os olhos poderia ouvir o som cruel do chicote nas costas dos escravos nas galés”. Em suma, um bom timoneiro é ao mesmo tempo armador, chefe de torcida e treinador do time. Filósofo, carismático e astuto como uma raposa, o timoneiro é também, muitas vezes, o sujeito mais durão do barco.
O pequeno Bobby Moch era tudo isso e muito mais. Fora criado em Montesano, uma pequena cidade madeireira à beira do rio Chehalis, no sudoeste de Washington, um lugar úmido e sombrio dominado por árvores imensas, caminhões imensos e homens imensos. Os abetos e cedros cobriam as nevoentas colinas ao redor da cidade; os caminhões de transporte de toras a atravessavam dia e noite pela rodovia 41 a caminho das serrarias de Aberdeen; e os robustos madeireiros passeavam, empertigados, pela rua principal, de camisa de flanela e botas, jogavam sinuca no Star Pool Hall nas noites de sábado e tomavam litros de café no Montesano nas manhãs de domingo.
O pai de Bobby, o relojoeiro e joalheiro suíço Gaston, não era um homem de porte físico avantajado. Cidadão proeminente, orgulhoso membro do Corpo de Bombeiros cem por cento voluntário da cidade, ficou célebre por ter feito a primeira viagem de automóvel entre Aberdeen e Montesano, uma distância de 20 quilômetros, no tempo recorde de uma hora e meia. Quando Bobby tinha 5 anos, uma desastrada cirurgia de apêndice quase lhe tirou a vida. O resultado foi uma constituição física mirrada e uma saúde problemática durante a infância e mesmo depois – sofria de asma grave. Determinado, porém, a não se deixar limitar por sua estatura e sua fragilidade, praticou no colégio todos os esportes ao seu alcance, mesmo não se destacando em nenhum. Excluído do time de futebol americano, se juntava com outros garotos de tamanho insuficiente num terreno baldio perto de sua casa para jogar peladas sem capacetes nem ombreiras. Por ser o menor de todos, era sempre escolhido por último e passava a maior parte do jogo com a cara enfiada na lama, experiência a que mais tarde creditou boa parte de seu sucesso na vida. “Não importa quantas vezes você é derrubado”, dizia à filha Marilynn, “mas quantas vezes você se levanta.” Na base da pura força de vontade, no último ano do secundário entrou para o basquete. De todo modo, a massa cinzenta que carregava no crânio lhe fora útil na sala de aula: primeiro da classe, foi o orador da turma na solenidade de formatura do colégio Montesano em 1932.
Ao ingressar na Universidade de Washington, Moch se interessou pela posição de timoneiro. Como tudo mais em que se meteu, teve que lutar com unhas e dentes por um lugar num dos barcos de Al Ulbrickson. Sua determinação conquistou a admiração do treinador. Depois este descobriu, como todo mundo na garagem, que a única circunstância em que Moch não se sentia inteiramente feliz e confortável no assento do timoneiro era quando estava na liderança de uma corrida. Enquanto houvesse um barco à sua frente, uma guarnição a ser derrotada, um obstáculo a superar, Bobby Moch não sossegava. Em 1935, empunhou pela primeira vez o
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megafone do 2 barco que disputava com Joe e os segundanistas o status de 1 guarnição da universidade. Por ter tomado o lugar de um rapaz muito apreciado por seus novos companheiros, que remavam com ele havia dois anos, não obteve o respeito que é a pré-condição do sucesso de um timoneiro. Isso o levou a apertá-los ainda mais. “Foi um ano difícil”, disse mais tarde. “Eles não gostavam nem um pouco de mim. Como eu exigia que melhorassem, fiz vários inimigos.”
Moch comandava o barco como um senhor de escravos – na base do chicote. Tirava partido de sua voz profunda de barítono, surpreendente num homem tão pequeno, para impor seus comandos com absoluta autoridade. Mas era astuto o suficiente para saber quando maneirar, quando bajular, quando implorar e quando fazer graça. Foi assim que, pouco a pouco, acabou conquistando sua nova guarnição.
Em suma, Bobby Moch tinha uma inteligência fantástica e sabia como usá-la. Não por acaso, no fim da temporada de 1936 ele ganharia sua própria chave Phi Beta Kappa para girar no dedo, exatamente como fazia Al Ulbrickson.
No fim de fevereiro, Ulbrickson passou a escalar as guarnições classificando os barcos como número um, número dois e número três. Joe caiu do número um para o número dois. Em uma disputa no dia 20, sob neve intensa e um forte vento leste, o número um e o número dois chegaram praticamente empatados. As esperanças de Joe cresceram. Uma semana depois, no entanto, Ulbrickson o rebaixou para o barco número três.
O tempo continuava péssimo. E os rapazes remavam mesmo assim. Frio, chuva, neve e granizo eram simplesmente ignorados. Havia dias, porém, em que o vento encrespava de tal modo a superfície do lago que não era possível remar sem que o barco inundasse. Os tempos obtidos pelos barcos principais estavam bons, apesar das condições adversas, mas não melhoravam com a rapidez que Ulbrickson desejava. Ele ainda não encontrara um barco que se destacasse dos demais. E com todo aquele frio mais os dias em que simplesmente não se podia remar, o moral dos rapazes começara a cair. “Vários resmungões”, ele anotou em seu caderno na noite de 29 de fevereiro.
Foi numa tarde excepcionalmente tempestuosa do começo de março, em que os rapazes se arrastavam, impacientes, pela garagem sem poder sair para a água, que George Pocock bateu no ombro de Joe e pediu-lhe que fosse à oficina para uma troca de ideias. Pocock estava envernizando o casco de um novo barco, sempre com o corpo inclinado sobre um dos lados. Joe puxou um cavalete até o outro lado e se sentou nele, de frente para o mestre.
Pocock começou dizendo que vinha observando o trabalho de Joe havia algum tempo e que o considerava um ótimo remador. Notara alguns defeitos técnicos – ele dobrava os cotovelos um pouco cedo demais na remada e sua pegada poderia ser mais perfeita se movesse as mãos à mesma velocidade da água embaixo do barco. Mas não era sobre isso que queria conversar.
Comentou com Joe que às vezes ele parece achar que está sozinho no barco, como se levá-lo até a linha de chegada fosse obrigação exclusivamente dele. Quem rema assim espanca a água em vez de trabalhar com ela; e o pior, não deixa a guarnição ajudá-lo a remar. Sugeriu que pensasse numa prova bem disputada como uma sinfonia, e nele mesmo como apenas um dos instrumentistas. Se alguém na orquestra desafinar ou tocar fora do ritmo, todo o trabalho será arruinado. No remo a coisa funciona exatamente assim. Mais importante do que o vigor com que um homem rema é a harmonia entre o que ele faz e o que os demais estão fazendo. Seguiu argumentando que um remador só conseguirá isso se for capaz de abrir o seu coração para os colegas de barco. Ele deve ter carinho pela guarnição. Não é só ao trabalho que ele precisa se entregar, é à guarnição também, mesmo com o risco de se magoar.
Então parou, olhou para Joe e disse: “Se você não gosta de alguém no barco, vai ter que aprender a gostar, Joe. O importante não é se você vai vencer a corrida, é se todos vão vencer.”
E fez um alerta a Joe, para que não perdesse sua chance. Lembrou a ele de que já aprendera a superar a dor, o cansaço e a voz que lhe dizia que não iria conseguir. Isso significava que tinha a oportunidade de fazer algo que não está ao alcance da maioria. E concluiu com uma observação de que Joe jamais se esqueceria: “Eu lhe garanto, Joe, que quando você começar a confiar nos seus companheiros, vai sentir dentro de si uma força muito maior do que qualquer coisa que já imaginou. Você terá, às vezes, a sensação de que saiu deste planeta e de que está remando entre as estrelas.”
O dia seguinte era um domingo, e Joe, como vinha fazendo nos últimos fins de semana, pegou Joyce para irem ao lugar onde seu pai estava construindo a nova casa, às margens do lago Washington. O andar de cima ainda não estava terminado, mas, com o porão quase concluído, Harry já se mudara para lá com as crianças. Era mais uma caverna do que uma casa, com uma porta de entrada estilo garagem e uma pequena janela de frente para o lago, porém quente e seca graças a um fogão a lenha que Harry instalara.
Joe e Harry passaram a manhã transportando madeira da estrada para o local da construção, sob uma chuva torrencial, para em seguida içá-la até o nível do futuro andar principal da casa. Enquanto isso, Joyce entretinha as crianças jogando cartas e preparando guloseimas. Ela e Joe andavam preocupados com a dificuldade que elas vinham tendo de se adaptar à ausência da mãe. Com o pai totalmente absorvido na construção da casa, estavam carentes de atenção. Todas tinham sonhos assustadores, Rose e Polly não aguentavam ficar sozinhas e suas notas na escola vinham despencando. Joe prometera a cada um deles uma moeda de 10 centavos por cada 10 que tirassem, e Joyce se esforçava para ser um pouco maternal com elas.
Fazer o papel de mãe dos filhos de Thula era, para Joyce, algo fácil e natural sob quase todos os aspectos. Ao ver o sofrimento das crianças, seu primeiro instinto foi acolhê-las em seus braços e acalentá-las. Fez isso desde a primeira vez que as viu depois da morte de Thula, não sem antes trancar no fundo de sua alma, fora da vista das crianças, o rancor que ainda sentia por ela. O mais difícil agora era administrar seus sentimentos em relação a Harry.
Joe na nova casa de Harry às margens do lago Washington
Na superfície, eles até que se davam bem. Harry era simpático, caloroso mesmo, e ela procurava retribuir. Por dentro, no entanto, Joyce ainda fervia de raiva. Não conseguia esquecer. Não podia perdoá-lo por ter abandonado Joe, pela fraqueza de permitir que Thula o enxotasse como a um cão vadio. E quanto mais remoía o assunto, mais irada ficava.
Lá pelo fim da tarde, Joe e Harry haviam arrumado toda a madeira. Como continuava a chover ainda mais forte do que antes, Harry decidiu entrar. Joe avisou que já estava indo e caminhou até o píer da casa de Fred. Lá ficou algum tempo, olhando as águas encrespadas do lago, todo cinza e branco, pensando no que o aguardava.
A linha de chegada da Regata da Costa do Pacífico, em abril, ficava pouco mais de um quilômetro ao norte. Será que ele estaria no barco principal da Universidade quando passasse por este píer? Provavelmente não. Rajadas de vento o fustigavam e a água da chuva escorria pelo seu rosto, mas ele não se importava. Meditava sobre a conversa do dia anterior, repassando em sua mente, uma a uma, as palavras de Pocock.
Para Joe, que passara os últimos seis anos construindo obstinadamente seu próprio caminho, que forjara sua identidade sobre uma severa autossuficiência, nada era mais assustador do que depender dos outros. Os outros o decepcionavam. Os outros o abandonavam. Depender dos outros, confiar nos outros, machucava. Mas “confiança” parecia ser o cerne do conselho de Pocock. “Estar em harmonia com os companheiros”, ele dissera. Parecia haver aí uma espécie de verdade absoluta, algo com que ele próprio precisava se entender.
Ficou um longo tempo no píer olhando para o lago, alheio à chuva, deixando os pensamentos se conectarem a outros, se recombinarem de uma nova forma. Como músico, sabia o que era harmonia. Isso o fez recordar sua parceria com Harry Secor para capturar os enormes salmões do rio Dungeness. E que dizer dos cavalos de Charlie McDonald – Fritz e Dick – arrastando choupos imensos como se fossem palitos de fósforo, unidos como se fossem um só? Charlie lhe garantira que eles puxariam até arrebentarem os arreios – ou os próprios corações. Lembrou-se, também, de como os homens com quem trabalhara no penhasco de Grande Coulee cuidavam uns dos outros alertando das pedras que caíam lá de cima. Finalmente, lembrou-se da camaradagem fácil e desinteressada que construíra com Johnny White e Chuck Day em suas aventuras pela rua B.
Virou-se, então, e viu, em meio à cortina de água que caía, a casa que seu pai estava construindo. Atrás da casa, um trem de carga se arrastava sobre os trilhos por onde passaria o trem de observação durante a corrida contra a Califórnia. As crianças, Joyce e seu pai estavam lá dentro, sentados em frente ao fogo à espera de que Joe saísse da chuva. Debaixo do aguaceiro seus sentimentos começaram a mudar, como notas de uma partitura musical que vão se encaixando, uma ao lado da outra, para formar fragmentos de novos temas.
De volta à cálida caverna, Joe enxugou o cabelo com uma toalha, pegou o banjo e puxou uma cadeira para perto do fogão enquanto as crianças se juntavam ao seu redor. Afinou cuidadosamente o instrumento, pigarreou, abriu um imenso sorriso e começou a cantar. Um por um, todos o acompanharam – as crianças, Joyce e Harry.
Em 19 de março, Al Ulbrickson pensava já ter na cabeça sua melhor aposta para o
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barco olímpico. Na lousa ele ainda era o 2 barco, que já começava a se destacar
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consistentemente do 1 . Era nele que Ulbrickson começava a depositar, discretamente, suas esperanças.
Na proa, tinha Roger Morris. Na posição dois, Chuck Day. Na três, Gordy Adam, um dos ex-calouros de Tom Bolles. Gordy vinha de uma fazenda leiteira às margens do rio Nooksack, próxima à fronteira canadense, e frequentara uma minúscula escola primária, a Mount Baker High, no povoado de Deming. Depois, passou cinco meses brutais pescando salmão no mar de Bering, no Alasca, juntando dinheiro para pagar a universidade. Era muito calado. Na disputa com a Califórnia no ano anterior remara as duas milhas com o polegar cortado até o osso sem dizer a ninguém. Para homenageá-lo, Royal Brougham passara a chamá-lo de Gordy “Coragem” Adam.
Na posição quatro Ulbrickson tinha o belo e elegante Johnny White. Stub McMillin, o grandão desengonçado, era o número cinco, e Shorty Hunt, o número seis. O sete era Merton Hatch, outro ex-calouro de Tom Bolles. O voga era o inescrutável Don Hume, o quarto ex-calouro de Tom Bolles.
Colocar um segundanista de 19 anos na posição de voga era arriscado, mas Hume se mostrara um calouro tão sensacional que muitos já o consideravam o melhor voga de Washington desde o próprio Ulbrickson, talvez ainda melhor. Hume vinha de Anacortes, na época uma pequena cidade portuária especializada em madeira e peixe em conserva 80 quilômetros ao norte de Seattle. No secundário, fora um atleta completo – astro do futebol americano, do basquete e da corrida –, além de aluno de destaque. Era também excelente pianista, capaz de tocar qualquer coisa, de jazz a Mendelssohn. Quando se sentava ao piano, atraía multidões. Depois da quebra da bolsa, seu pai perdeu o emprego numa fábrica de celulose e se mudou para Olympia em busca de trabalho. Don ficou em Anacortes morando com amigos da família e acabou arranjando emprego numa serraria.
Caminhando um dia pela praia pedregosa do canal que separa Anacortes da ilha Guemes, Hume topou com um barco a remo de quatro metros, abandonado. Recuperou-o, levou-o para a água e descobriu que adorava remar. Na verdade, gostava mais do que qualquer coisa que já fizera na vida. Remou obsessivamente durante todo o ano seguinte à sua formatura no colegial, no canal em dias de nevoeiro e em longos passeios às ilhas San Juan nos ensolarados. Quando acabou o trabalho na serraria e decidiu se juntar aos pais em Olympia, foi remando para lá, uma viagem de mais de 160 quilômetros que durou seis dias. Naquele mesmo outono se mudou para Seattle, matriculou-se no curso de geologia da Universidade e foi direto à garagem de barcos, onde Tom Bolles e Al Ulbrickson rapidamente perceberam que tinham em mãos um atleta excepcional.
Hume remava com a suavidade da seda e a precisão e a regularidade mecânicas de um metrônomo. Parecia ter um senso de ritmo inato, entranhado. Mais do que isso, porém, seu domínio do remo, sua absoluta confiabilidade e sua segurança inabalável eram tão evidentes que todos os rapazes do barco podiam senti-las de imediato e entrar em sincronia com ele independentemente das condições da água e da situação da corrida. Hume era fundamental.
Na popa do barco principal imaginado por Ulbrickson, responsável pelo megafone, estava, é claro, Bobby Moch.
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Joe estava no 3 barco e tudo indicava que de lá não sairia. Até então não
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conseguira sequer uma vaga no provável 2 barco, e assim estaria fora das disputas com a Califórnia e de todas as seguintes. No entanto, ao entrar na garagem no dia 21 de março deu com o seu nome escrito na lousa na posição sete do barco número
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dois, aquele que todo mundo dizia ser a melhor aposta para 1 barco da universidade. Mal podendo acreditar, perguntou-se se Pocock dissera alguma coisa a Ulbrickson, se Merton fizera alguma besteira monumental ou se Ulbrickson apenas precisava de alguém para ocupar a posição naquele dia. Fosse como fosse, aquela era, sem sombra dúvida, sua grande chance.
Joe já sabia o que precisava fazer. Agora iria descobrir que era surpreendentemente fácil. A partir do instante em que pôs os pés no barco naquela tarde, sentiu-se em casa. Gostava daqueles rapazes. Não conhecia bem Gordy Adam nem Don Hume, mas ambos fizeram questão de saudá-lo ao chegar. Roger Morris, o mais íntimo de seus amigos da garagem, gritou-lhe da proa: “Ei, Joe, estou vendo que você finalmente encontrou o barco certo!”
Perto de Morris estavam seus amigos de Grand Coulee, Chuck Day e Johnny White. Enquanto prendia os sapatos no finca-pé e amarrava os cadarços, ouviu um radiante Stub McMillin dizer: “Muito bem, pessoal. Este barco vai voar!” Shorty Hunt deu-lhe um tapa nas costas e murmurou: “Eu lhe dou cobertura, Joe.”
Nesse dia, Joe remou como nunca na vida – como Pocock lhe dissera para remar, entregando-se por inteiro ao esforço da guarnição. Seguiu com rigor as remadas de Hume à sua frente e transmitiu-as a Shorty às suas costas como se fosse uma extensão deles, parte de um contínuo de músculos e madeira. Aquilo foi para Joe uma autêntica transformação, uma mudança quase mágica. O mais parecido que já lhe acontecera e de que conseguia se lembrar era a noite em que fora até o lago Union com a guarnição de calouros e vira as luzes de Seattle refletidas na água e sua respiração sincronizada com a dos companheiros em baforadas de fumaça branca na fria escuridão. Ao sair do barco sob a luz evanescente do crepúsculo, percebeu que a transformação consistia menos em tentar fazer o que Pocock lhe indicara do que em saber que podia fazê-lo com aqueles rapazes. Bastava confiar neles. No fim das contas, era simples assim. À noite, Ulbrickson escreveu em seu caderno: “Troquei Hatch por Rantz e o resultado foi positivo.”
Essa frase se revelou um eufemismo de considerável magnitude. Foi a última alteração que Ulbrickson precisou fazer na escalação do barco. Nos dias que se seguiram, ele começou a voar, exatamente como Stub McMillin disse que iria acontecer.
Em 22 de março ele ganhou de todos os outros do início ao fim. Em 23, venceu uma corrida por inacreditáveis sete barcos de vantagem e outra por convincentes três ou quatro. Na manhã do dia 27, sob uma forte e tardia tempestade de neve, chegou com três barcos de vantagem. Num teste de 2 mil metros levado a cabo na tarde do mesmo dia, cruzou a linha de chegada bem à frente dos demais, com Don Hume liderando uma perfeita atuação coletiva à pesadíssima voga de 40 remadas por minuto. Em 28 de março, ainda caía uma neve ligeira quando Ulbrickson o elevou
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oficialmente ao status de 1 barco da universidade. Levaria alguns dias para anunciá-lo à imprensa, mas a decisão mais importante de sua carreira estava tomada. Era com essa guarnição que iria disputar a vaga para os Jogos Olímpicos de Berlim.
Naquela tarde, George Pocock batizou pessoalmente o novo barco em que os rapazes iriam remar as eliminatórias. Enquanto Joe e seus companheiros de guarnição o erguiam no ar, Pocock derramou sobre sua proa um líquido misterioso e declarou: “Eu o batizo Husky Clipper. Que tenha sucesso em todas as águas em que correr. Em Berlim, principalmente.”
Ao descerem com ele pela rampa, alguns rapazes torciam o nariz para tentar distinguir o estranho cheiro do fluido derramado por Pocock, que lhes gritou lá de cima com um sorriso maroto: “Caldo de chucrute. Para o barco ir se acostumando com a Alemanha.”
Em 4 de abril, Ulbrickson fez a última tomada de tempo antes de anunciar oficialmente as guarnições que iriam disputar a Regata da Costa do Pacífico. Na marca das duas milhas, Bobby Moch aumentou a voga para 32 e a manteve ali. O recorde das três milhas era 16m33s4, estabelecido pelo barco de Washington que Joe acompanhara da balsa em 1934. Agora, ele e seus companheiros haviam feito 16m20s com as costas eretas ao fim da corrida, respirando com facilidade e sentindo-se muito bem. E pareciam se sentir ainda melhor a cada vez que embarcavam juntos no Husky Clipper.
Havia uma razão clara para o que estava acontecendo. Eles haviam sido selecionados numa duríssima disputa, uma peneira que filtrara uma espécie de caráter comum: eram todos talentosos, eram todos durões, eram todos ferozmente determinados, mas eram também, todos eles, rapazes de bom coração. Todos tinham origem humilde ou assim se tornaram por força da época difícil em que cresceram. Cada um à sua maneira havia aprendido que nada pode ser dado como certo nesta vida, que apesar de jovens, fortes e bonitos, o mundo era feito de forças ainda maiores do que eles. Os desafios que haviam vencido juntos lhes ensinara a humildade – a subordinação do ego de cada um às necessidades de todos –, e esta era a porta de entrada para se unirem e começarem a fazer o que antes não estava ao seu alcance.
Antes das eliminatórias para as Olimpíadas, Al Ulbrickson ainda tinha pela frente uma série de imensos desafios: o primeiro deles a Regata da Costa do Pacífico contra a Universidade da Califórnia, no lago Washington. Ele sabia que precisava vencer as três provas para convencer o povo de Seattle a financiar, uma vez mais, o envio dos três barcos a Poughkeepsie, em junho, para a disputa do título nacional. Depois disso
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– ganhando ou perdendo em Poughkeepsie – poderia levar o 1 barco de Washington à seletiva olímpica de Princeton, em julho. Vencer em Princeton significava ir a Berlim, disputar uma ou duas séries classificatórias e, só então, a final pela medalha de ouro contra as melhores guarnições do mundo. Seria uma tarefa hercúlea. Mas a cada vez que Al Ulbrickson via sua nova guarnição principal entrar na água, crescia sua confiança de que poderia realizá-la.
Em Berkeley, Ky Ebright devia estar ainda mais confiante do que Al Ulbrickson, tanto em relação à próxima regata em Seattle quanto às suas perspectivas olímpicas.
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Ele quase certamente tomara conhecimento do tempo de 16m20s feito pelo 1 barco de Ulbrickson nas três milhas, mas a notícia não deve tê-lo perturbado. Seus rapazes já haviam feito as mesmas três milhas em impressionantes 15m34s no estuário. O barco remara a favor da maré, mas a diferença era de quase um minuto. Em outra
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tomada de tempo realizada em 8 de abril, dessa vez em águas paradas, seu 1 barco fizera 16m15s, cinco segundos menos que a guarnição de Ulbrickson. Precavido, no entanto, contra a acomodação, quando a guarnição chegou ao píer, Ebright a recebeu com um ríspido: “Vocês andaram bem hoje, para variar.” O fato era que ele tinha bons motivos para estar otimista com suas perspectivas para 1936, e não vira ainda em Seattle nada que abalasse tal convicção.
De todo modo, não estava disposto a correr riscos. Na verdade, entraria com o que tinha de melhor para derrotar Washington em Seattle e começar o ano olímpico com o pé direito. Iniciara a temporada escrevendo os nomes de todos os seus remadores em pedaços de papel e jogando-os num chapéu – os campeões de
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Poughkeepsie junto com todos os demais candidatos do 2 barco e ex-calouros. Daí, foi sorteando os nomes, um de cada vez, para determinar as escalações iniciais. O objetivo era fazer com que ninguém pudesse contar com o desempenho passado para ganhar uma vaga no barco principal. Quem a quisesse teria que conquistá-la novamente.
Tudo correu às mil maravilhas desde então. O sol incessante da Califórnia lhe permitira trabalhar com os rapazes no ritmo adequado, culminando numa série de corridas de três milhas no estuário que os deixou bem preparados, no auge da forma física. Testados na curta distância, eles se saíram igualmente bem. Sendo assim, e considerando as surras aplicadas a Washington em Poughkeepsie e Long Beach no verão anterior, Ebright concluiu que estava bem posicionado para ganhar as corridas em Washington e Poughkeepsie e, em seguida, dominar as menores distâncias nas seletivas olímpicas e em Berlim.
Nas últimas semanas Ebright reinstituíra uma tradição que, desde o triunfo olímpico de 1932, vinha empregando antes das grandes corridas – a “mesa dos melhores remadores”. Quem conseguisse chegar aos dois barcos principais da Universidade ganhava o direito de jantar de graça com seus colegas de guarnição no Stephens Union, no campus de Berkeley. Naqueles tempos difíceis, isso era um poderoso incentivo para que os rapazes brigassem por vagas nos barcos principais. E dava a Ebright um meio de controlar o valor nutricional da alimentação de seus pupilos. O cardápio da mesa dos remadores era farto e particularmente rico em proteínas e cálcio. Na maior parte das noites isso significava um bife grande e suculento e quanto leite cada um fosse capaz de tomar.
Al Ulbrickson se preocupava, tanto quanto Ebright, com a qualidade da alimentação de seus remadores na temporada de corridas. Mas como não havia orçamento para uma mesa dos melhores remadores em Seattle, sua receita era bem menos apetitosa do que um bife suculento. Todas as tardes seus rapazes tinham que tomar um copo de uma solução cor-de-rosa de cálcio, com gosto de giz, seguida de um copo de gelatina espumante. A gelatina podia ser difícil de ser ingerida, dependendo de como e quando tivesse sido misturada. Às vezes era preciso enfiá-la rapidamente goela abaixo para evitar que ela endurecesse e fizesse o sujeito engasgar.
Ky Ebright e seus rapazes chegaram a Seattle no fim da tarde de 14 de abril, uma terça-feira, e se hospedaram no Edmond Meany Hotel. Um pouco mais cedo, Ulbrickson mandara seus rapazes a águas encrespadas como não se via desde o dia do ano de 1932 em que Califórnia venceu por 18 barcos de vantagem uma corrida em que Washington mal conseguiu cruzar a linha de chegada antes de afundar.
No entanto, quando os rapazes da Califórnia se apresentaram no canal de Montlake na quarta-feira de manhã, fazia um sol esplendoroso e a água estava lisa como vidro. Ver os campeões nacionais descerem a rampa com seus barcos foi intimidante. Os repórteres de Seattle comparavam, maravilhados, o bronzeado de sua pele com o branco pálido dos rapazes de Washington. Mas se algum deles tinha alguma dúvida de que Ky Ebright levava a sério a ameaça representada por Washington, ela foi rapidamente dissipada. Munido de um megafone, Ebright ocupou o assento do timoneiro do seu barco principal, o California Clipper, e começou a berrar comandos enquanto o barco saía para um treino de oito milhas na parte sul do lago, bem longe das vistas da comissão técnica de Washington.
Nem Ulbrickson nem Ebright fizeram tomadas de tempo nos dias que se seguiram ou, se fizeram, não revelaram os resultados. Ambos continuaram a emitir as habituais avaliações pessimistas sobre as chances de seus rapazes. Ebright dizia, com ar de tédio, que seu barco principal não era lá essas coisas – “uma unidade regular”. Ulbrickson manifestou um desespero ainda maior, dizendo que os Bears eram os claros favoritos porque “nós fomos prejudicados este ano pelo mau tempo”. Depois da queixa, soltou uma mentira deslavada: “Meu grupo não tem nada de extraordinário.”
O sábado 18 de abril foi um dia lindo para se assistir a uma regata de remo, embora difícil para se disputar uma corrida. O céu estava perfeitamente azul e a temperatura prometia subir à casa dos 20 graus na hora da largada. Com um tempo assim, a regata prometia atrair uma multidão para as praias do extremo norte do lago Washington. Lá pelo meio da manhã, porém, um fluxo constante de ar quente vindo do sul encrespara a superfície azul do lago Washington.
Joe teve uma ideia para lucrar com a vinda dessa gente toda à beira do lago, onde agora morava seu pai: ele e Harry compraram 45 quilos de amendoim com casca e Joyce, Harry, Rose, Mike, Polly e Harry Jr. trabalharam até tarde da noite embalando o amendoim em saquinhos de papel para vender aos espectadores da regata. Assim que o público começou a aparecer, no início da tarde, Joyce e as crianças se espalharam pelas praias para vendê-los por 10 centavos cada um.
Tal como em 1934, às 13 horas uma barca – desta vez a M.V. Chippewa – saiu do Cais Oceanográfico levando uma batelada de alunos e a banda marcial da Universidade de Washington. Para uma simples barca, a Chippewa era decorada com grande elegância. Muitos passageiros disseram se sentir num navio da North Atlantic, com painéis de mogno das Filipinas em toda a cabine principal, salão para fumantes, sala para senhoras, cozinha completa, assentos forrados de couro vermelho e, na proa, uma sala de observação envidraçada. A barca costumava ser fretada para cruzeiros noturnos especiais. Um sofisticado sistema de alto-falantes transmitia aos demais compartimentos a música ao vivo da sala de observação, onde a banda marcial de Washington tomou posição e começou a tocar música dançante. Tal como acontecera dois anos antes, jovens sem paletó e moças em vestidos de verão logo começaram a dançar, na sala e nos deques externos.
A Chippewa seguiu para o norte, lago acima, até a linha de chegada na praia Sheridan, acompanhada por um cruzador da Marinha e cerca de 400 outros barcos cobertos de galhardetes em roxo e dourado. A essa altura o vento sul aumentara consideravelmente. A fumaça escura e o vapor expelidos pelas chaminés dos barcos maiores eram levados rapidamente e já dava para ver ondas espumantes se formando no extremo norte do lago, onde o vento empurrava a água contra a costa.
Às 14h15 um trem de observação partiu da estação Universidade rumo à rua 125, local da largada da prova de duas milhas para calouros. O maior público já reunido para assistir a uma regata no Noroeste do país já estava a postos às margens do lago Washington.
Tom Bolles acompanhou, em sua lancha, a guarnição de calouros até a linha de largada. Ele acreditava ter em mãos, uma vez mais, um grupo excepcionalmente talentoso, mas, como qualquer treinador de calouros, não tinha como avaliar a verdadeira capacidade de seus pupilos antes de vê-los correr contra um grande rival.
Eles não o decepcionaram. A largada, dada pontualmente às 15 horas, deu a impressão de que a disputa seria acirrada. Califórnia saiu na frente, mas as condições eram propícias para os remadores mais fortes. Uma ondulação traiçoeira cortava a raia, ameaçando continuamente o equilíbrio dos barcos e induzindo os remadores ora a fazer a pegada no ar ora a afundar demais a pá e enforcar a remada. Foi o que aconteceu ao remador número sete da Califórnia na marca de um quarto de milha, obrigando os quatro remadores de estibordo a quase parar para acertarem o passo. Ao recomeçarem, o número três também enforcou. Com isso, Washington ganhou uma vantagem substancial e continuou a aumentá-la. Cruzou a linha de chegada quatro barcos e meio à frente, com o tempo oficial de 10m11s2, mais de um minuto abaixo dos 11m24s8 estabelecidos pela guarnição de calouros de Joe em 1934. Dado, no entanto, que quatro cronometristas extraoficiais relataram o tempo mais razoável de 10m42s, o registro oficial acabou sendo revisto. Mas ainda era um novo recorde do percurso, por larga margem, e Tom Bolles continuava invicto no lago Washington. No dia seguinte, as escolas da Costa Leste, Harvard em especial, registrariam o fato. Os dias de Bolles em Washington estavam contados.
A prova das segundas guarnições começou às 15h45 e, para todos os efeitos práticos, acabou 100 metros adiante. Quatro remadores de Washington eram veteranos do barco de segundanistas de Joe – Bud Schacht, George Lund, Delos Schoch e Chuck Hartman – que sabiam não apenas como remar em águas encrespadas, mas, principalmente, como vencer. Com muita facilidade, tomaram a liderança logo no início, ampliaram-na a cada boia de quarto de milha e cruzaram a linha de chegada com quase seis barcos de vantagem. O tempo de 16m14s2 superou o recorde estabelecido pela Califórnia em quase um minuto.
Harry, Joyce e as crianças estavam no píer da casa de Fred Rantz, comendo amendoim e jogando as cascas no lago. Iriam comer amendoim por muito tempo ainda, porque as vendas daquela manhã haviam sido decepcionantes. Harry, com um binóculo, olhava na direção de Sand Point. O rádio Philco da casa – um luxo que comprara de segunda mão especialmente para a ocasião – estava a todo volume para todos poderem ouvir a narração da corrida principal pela NBC.
Joyce balançava as pernas na borda do embarcadouro. No extremo norte do lago, um avião prateado circundava a área da linha de chegada. Olhou para a água, para além das cascas de amendoim que flutuavam. Estava inquieta.
De manhã bem cedo, no quartinho da Associação Cristã de Moços, ela cortara o cabelo de Joe numa cadeira com uma toalha enrolada no pescoço, presa por um grampo. Era um ritual de todo mês, a que Joyce se entregava pelo simples prazer de estar perto dele, de poder conversar com ele longe de olhos e ouvidos estranhos, de agradá-lo e fazê-lo relaxar.
Naquela manhã, porém, enquanto ela trabalhava em seu cabelo louro, metodicamente – penteando-o para cima, usando o pente de guia para fazer o corte à escovinha no comprimento que o agradava –, Joe não parava quieto na cadeira. Ela lhe perguntou qual era o problema. Ele hesitou, à procura das palavras, mas, como ela recordou mais tarde, o essencial de sua resposta foi que havia algo de diferente naquela corrida, naquele barco, que ele não sabia explicar. Só sabia que não queria decepcionar os rapazes.
Às 16h15, enquanto as duas guarnições principais se dirigiam à linha de largada, a rede NBC Red entrou no ar com a cobertura da corrida para todo o país. O vento de cauda aumentara ao longo de toda a extensão do lago, marolando ainda mais a água em seu extremo norte. Até ali, os quatro barcos concorrentes, perdedores inclusive, haviam feito tempos bem abaixo dos recordes anteriores do percurso. Com os corpos eretos e alongados dos remadores atuando como velas a empurrar os barcos ao longo da corrida, estava claro que, salvo grandes imprevistos, novos recordes seriam estabelecidos.
O Husky Clipper oscilava na linha de largada. Na proa, Roger Morris e Gordy Adam cuidavam de manter o barco corretamente apontado para o norte sob a pressão implacável da ondulação oblíqua. Bobby Moch ergueu a mão para indicar que sua guarnição estava pronta. O mesmo fez o timoneiro Tommy Maxwell no barco da Califórnia.
Atrás dos barcos, nas lanchas dos treinadores, Ulbrickson e Ebright estavam visivelmente nervosos, sem saber exatamente o que iriam enfrentar. Ambos sabiam da excelência de suas guarnições, mas estavam inseguros a respeito do barco adversário. A guarnição da Califórnia pesava um total de 706,24 kg, a de Washington 708,05 kg, uma diferença de menos de dois quilos. Ambas contavam com timoneiros sagazes e remadores vigorosos e experientes. Os dois barcos eram de última geração – os melhores e mais novos produtos das oficinas de Pocock, o Husky Clipper e o California Clipper, com 18,9 metros de comprimento, peso praticamente igual e lustrosos cascos de cedro. E, o mais importante, ambos com o arqueamento que era a marca registrada de Pocock, a ligeira curvatura que lhes dava compressão, elasticidade e rapidez na água. Era difícil ver alguma clara vantagem. A corrida seria decidida pela garra e pela competência das guarnições.
Ao grito do juiz de largada – “Vão!” –, os dois barcos pularam à frente como cavalos de corrida que passam muito tempo presos no portão. As guarnições remavam forte e em alta voga, 35 ou 36 remadas por minuto. Gene Berkenkamp, o vigoroso voga da Califórnia que trucidara Washington em Poughkeepsie e Long Beach no ano anterior, levou seu barco à liderança por pequena margem. Nos primeiros três quartos de milha, as duas guarnições remaram lado a lado, atacando com fúria as águas encrespadas. No barco de Washington, Don Hume acompanhava a cadência de Berkenkamp, mas não conseguia emparelhar.
Foi o momento de Bobby Moch fazer uso do cérebro privilegiado tomando uma decisão inesperada e muito inteligente – algo difícil, mas que lhe pareceu ser a coisa certa a fazer. Com o adversário na liderança remando a mais de 30 por minuto, pediu a Hume que baixasse a voga para 29.
Quase imediatamente, os rapazes de Washington entraram em sincronia. Don Hume dava o ritmo com puxadas largas, suaves e profundas, seguido por Joe e todos os demais. Muito lentamente, assento por assento, o Husky Clipper começou a recuperar o atraso em relação ao California Clipper. Pouco depois de passarem emparelhados na marca de uma milha, Washington começou a abrir vantagem.
Atônito com o que via, o timoneiro Tommy Maxwell reagiu: “Quero 10 fortes!” Bobby Moch o ouviu, olhou para ele, mas não mordeu a isca. Inclinados sobre os remos, Gene Berkenkamp e a guarnição da Califórnia atenderam ao pedido do timoneiro. Bobby Moch, por sua vez, encurvado na popa, olhou Don Hume nos olhos e disse para manter as 29. Califórnia terminou suas 10 fortes sem conseguir diminuir sensivelmente a pequena vantagem de Washington.
Com vento direto no rosto e água espirrando da proa dos barcos, as duas guarnições deslizavam pela raia driblando as marolas com as pás dos remos. Califórnia reduzira a voga para 32, em seguida para 31, mas Washington continuava a ampliar lentamente a sua vantagem sem sair das 29. Tommy Maxwell pediu mais 10 fortes. Uma vez mais o desafio não obteve resposta do impassível Bobby Moch e uma vez mais Washington manteve sua posição. O Husky tinha agora uns 2,5 metros de vantagem sobre o California.
Joe, na posição sete de Washington, teve um lampejo de consciência – o barco logo iria passar em frente à casa de seu pai, na margem ocidental do lago. Por um instante, teve a tentação de dar uma espiada por cima do ombro em busca de Joyce. Mas resistiu. Manteve a mente no barco.
Naquele mesmo momento o trem de observação passava atrás da casa de Harry Rantz rugindo e expelindo fumaça de óleo diesel que o incessante vento sul levava junto com ele. Ao lado, no píer de Fred, Joyce e as crianças ficaram de pé, pulando e acenando, ao ver a proa do barco de Joe um pouco à frente. Ao lado deles, Harry seguia a prova pelo binóculo, com um sorriso no rosto cansado.
Perto da boia das duas milhas, o barco da Califórnia teve um pequeno desequilíbrio e logo outro, um momento depois. Por duas vezes, remadores de estibordo erraram ao tirar o remo da água, quebrando o ritmo e desacelerando o barco. Washington aproveitou para ampliar a vantagem para três quartos. Aflito, Tommy Maxwell pediu mais voga aos seus rapazes. Berkenkamp aumentou para 35 e logo para 36. Bobby Moch continuou a ignorá-lo.
Faltando meia milha, Moch pediu a Hume mais cadência. Hume passou a 32, o máximo a que se atrevia na água encrespada e também o máximo necessário. O Husky Clipper acelerou “como uma coisa viva” – palavras de George Varnell, do The Seattle Times, no dia seguinte – e abriu luz sobre a Califórnia. Acelerou como barco algum jamais fizera no lago Washington. Nas últimas centenas de metros os corpos dos oito remadores oscilavam como pêndulos, para a frente e para trás, em perfeita sincronia. As pás brancas de seus remos cintilavam sobre a linha-d’água como asas de aves marinhas voando em formação. Cada remada perfeita agora ampliava a distância entre eles e os exaustos atletas da Cal. Nos aviões que pairavam sobre a linha de chegada, os fotógrafos tinham dificuldade para conseguir os dois barcos no mesmo enquadramento. Centenas de embarcações soaram seus apitos, assim como a locomotiva do trem de observação. Os estudantes já comemoravam na Chippewa. Um longo e profundo bramido se ergueu da praia Sheridan, onde dezenas de milhares de torcedores assistiam ao final da corrida, quando o Husky Clipper cruzou a linha de chegada com três barcos de vantagem sobre o California Clipper.
A guarnição da Califórnia remou o mais forte que pôde, até o fim. Uma vez mais os dois barcos bateram o recorde do percurso. Washington, com o tempo de 15m56s4, o fez por categóricos 37 segundos.
Al Ulbrickson, calmamente sentado em sua lancha na linha de chegada, ouviu a banda a bordo da Chippewa tocar “Bow Down to Washington” (Curvem-se a Washington). Enquanto observava seus pupilos remarem até o barco da Califórnia para recolher as camisetas dos vencidos, tentou fazer um balanço do que acabara de
o
presenciar. Seu 1 barco vencera uma extraordinária guarnição da Califórnia, campeã nacional, em circunstâncias bastante difíceis. Os rapazes haviam remado, como diria aos jornalistas no fim daquela tarde, “melhor do que nunca”. Estava claro que eles eram, de fato, algo fora do comum, mas era também muito cedo para
a
dizer se a magia iria perdurar. Fazia dois anos que sua 1 guarnição vencera a de Ebright na Regata da Costa do Pacífico para acabar inapelavelmente derrotada em Poughkeepsie. Quem poderia dizer que aquilo não iria se repetir? E este ano as seletivas olímpicas os aguardavam logo depois de Poughkeepsie, para não mencionar o que havia mais além.
Mesmo com a justificada e resoluta circunspecção de Ulbrickson, os jornais de Seattle saíram na manhã seguinte, um domingo, transbordantes de expectativas a respeito de Berlim. Muitos dos que haviam assistido à disputa no lago acreditavam ter visto mais do que simplesmente uma ótima guarnição. Sem poupar metáforas em seu artigo para o The Seattle Times, Clarence Dirks foi o primeiro a apontá-lo: “Seria inútil pretender individualizar os excepcionais remadores da guarnição de Washington, da mesma maneira como seria impossível destacar uma nota em especial numa bela composição musical. Todos faziam parte de uma máquina perfeitamente ajustada; eram poesia em movimento, uma sinfonia de pás sincronizadas.”
Poughkeepsie à noite
CAPÍTULO 14
Para remar como campeões, os membros de uma guarnição devem ter total confiança uns nos outros, avançar com naturalidade, sabendo que ninguém vai levar o barco sozinho (...). A guarnição de 1936, com Hume na voga, remou com naturalidade, em perfeita sincronia. Por confiarem totalmente uns nos outros, eles atacavam a água como um só homem e passavam à remada seguinte com o barco a toda velocidade de um modo que mal se percebia a desaceleração. Um exemplo clássico de como se rema um oito.
– George Yeoman Pocock
D ois dias depois, em 20 de abril, Adolf Hitler completou 47 anos. Em Berlim, milhares de alemães eufóricos se reuniram para festejar e vê-lo passar em revista um desfile de mais de 1.500 tanques, veículos blindados e peças de artilharia pelo Tiergarten, o imponente parque central da cidade. A multidão ao longo da Charlottenburger Chaussee era tão grande que quem estava nas últimas fileiras tinha que alugar periscópios para ver o que se passava lá na frente. As filhas pequenas de Joseph Goebbels, todas de branco, tiaras inclusive, presentearam Hitler com um buquê de flores. A União dos Servidores Públicos do Reich deu a Hitler um exemplar do Mein Kampf transcrito a mão, sobre pergaminho, em letras medievais; o tomo, encadernado em ferro, pesava 34 quilos.
Um mês antes, Hitler recebera um presente ainda maior das mãos daqueles que em breve se tornariam seus inimigos mortais. Na manhã de 7 de março, 30 mil soldados alemães entraram na Renânia desmilitarizada em aberto desafio ao Tratado de Versalhes e ao Pacto de Locarno, dos quais a Alemanha era signatária. Era, de longe, a ação mais ousada já empreendida por Hitler, sua maior aposta, um passo crucial rumo à catástrofe que estava prestes a envolver todo o planeta. Nos dois dias seguintes, Hitler, Goebbels e o restante da liderança nazista aguardaram ansiosamente a reação do mundo. Eles tinham consciência de que a Alemanha ainda não dispunha de força militar suficiente para sobreviver a uma guerra contra a França ou a Grã-Bretanha, muito menos contra as duas juntas. Essas 48 horas, Hitler confessou mais tarde, foram as mais tensas de sua vida.
A preocupação era, porém, desnecessária. Na Inglaterra, o ministro das Relações Exteriores, Anthony Eden, disse “lamentar profundamente” o fato e cuidou de pressionar os franceses a não se excederem na reação. Pedido atendido: os franceses nada fizeram. Joseph Goebbels, aliviado, escreveu: “O Führer está imensamente satisfeito (...). A Inglaterra permanece passiva. A França não agirá sozinha. A Itália está decepcionada e os Estados Unidos parecem desinteressados.”
Hitler tinha agora absoluta certeza da passividade das potências ocidentais. Entretanto, a reocupação da Renânia não lhe saiu barato. A despeito da não reação militar, um grande alvoroço tomou conta da opinião pública em várias capitais estrangeiras. Na Europa e nos Estados Unidos, um número cada vez maior de pessoas voltava a ver a Alemanha como na época da Primeira Guerra Mundial – um país de hunos, de bárbaros sem lei. Consciente de que para o Ocidente era muito mais fácil se mobilizar contra um país de bárbaros do que contra uma nação civilizada, Hitler precisava de uma vitória no campo das relações públicas – não uma vitória doméstica, dado que a reocupação da Renânia era imensamente popular no país, mas em Londres, Paris e Nova York.