Meninos de Ouro
Prólogo
Um esporte como este – de muito esforço e pouca glória, mas ainda popular depois de tantos séculos – tem que ter uma beleza que os indivíduos comuns não conseguem enxergar, mas os excepcionais sim.
– George Yeoman Pocock
E ste livro nasceu no frio e chuvoso dia de fim de primavera em que fui à modesta casa onde Joe Rantz agonizava.
Eu só sabia duas coisas a respeito de Joe quando, depois de saltar a cerca da minha fazenda e atravessar um trecho de floresta úmida, bati à porta de sua filha Judy. Primeiro, que aos 70 e tantos anos ele levara sozinho várias toras de cedro montanha abaixo, cortara varas e mourões com um machado e erguera os quase 700 metros de cerca que eu acabara de transpor – uma tarefa tão hercúlea que, sempre que penso nela, balanço a cabeça, admirado. Segundo, que ele fora um dos nove rapazes do estado de Washington – garotos de fazenda, pescadores e lenhadores – que abalaram Adolf Hitler e o mundo do remo ao conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1936.
Judy abriu a porta e me conduziu à aconchegante sala de estar onde Joe, com seu 1,90 metro de altura, estava estendido numa cadeira reclinável com as pernas para cima, enfiado num conjunto de moletom cinza e em botinas acolchoadas vermelhas. Um cilindro de oxigênio lhe fazia companhia. Uma barba branca e rala despontava em seu rosto. Tinha a pele pálida e os olhos túrgidos, efeitos da insuficiência cardíaca que o estava matando. Na estufa, o fogo crepitava e sibilava. As paredes eram cobertas de velhas fotos de família, destacando-se, no lado oposto da sala, uma vitrine cheia de bonecas, cavalos de porcelana e louça estampada de rosas. A chuva respingava na janela que dava para a floresta enquanto a vitrola tocava bem baixinho canções de jazz das décadas de 1930 e 1940.
Ao sermos apresentados, Joe me estendeu sua mão excepcionalmente fina e alongada. Judy lera para ele um de meus livros, o que o fez desejar me conhecer e trocar ideias sobre seu conteúdo. Por uma extraordinária coincidência, ele fora, quando jovem, amigo de Angus Hay Jr. – filho de um dos personagens mais importantes daquela história. Falamos sobre isso durante algum tempo, até que a conversa passou a ser sobre sua própria vida.
A voz de Joe era aguda, frágil e tênue a ponto de quase sumir. Esforçava-se na busca de lembranças e palavras que servissem para capturá-las e, de vez em quando, mergulhava no silêncio. Aos poucos, cautelosamente incentivado pela filha, ele foi desfiando a história da sua vida. De maneira pausada mas resoluta, recordou sua infância e a juventude durante a Grande Depressão, as privações e os obstáculos que teve que vencer. Eu, surpreso de início depois atônito, ouvia seu relato enquanto fazia anotações.
Ao falar sobre sua trajetória como remador da Universidade de Washington, ele chorou. Começou discorrendo sobre o aprendizado da arte do esporte, os barcos e os remos, a técnica e as táticas. Relembrou as horas longas e geladas passadas na água sob o céu cinza-metálico, as vitórias esmagadoras e as derrotas evitadas por um fio, a viagem à Alemanha, o desfile no Estádio Olímpico de Berlim sob as vistas de Hitler e, é claro, os companheiros de equipe. Foi aí, quando começou a falar sobre “o barco”, que a voz começou a lhe faltar e as lágrimas brotaram em seus olhos.
No início, pensei que “o barco” fosse o Husky Clipper em que ele remara em direção à glória. Depois, achei que fosse um modo de se referir aos seus companheiros de equipe, aquele incrível grupo de jovens responsável por um dos maiores feitos da história do remo olímpico. Observando, porém, seu esforço para manter a compostura em certos momentos, percebi que “o barco” significava, além da embarcação física e de sua tripulação, algo transcendente, uma coisa misteriosa, quase indefinível. Era uma experiência compartilhada – uma singularidade que existiu numa fenda do tempo há muito desaparecida, quando nove rapazes generosos se empenharam juntos, trabalharam como um só homem, deram uns aos outros tudo o que tinham de si, unidos para sempre pelo orgulho, pelo respeito e pelo amor. Joe chorava, ao menos em parte, pela extinção daquela centelha, mas muito mais, creio eu, pela sua beleza.
Quando eu me preparava para sair, Judy tirou a medalha de ouro de Joe da caixa de vidro junto à parede e depositou-a na minha mão. Enquanto eu a admirava, contou-me que, anos antes, ela desaparecera. Depois de vasculhar a casa de Joe de alto a baixo, a família a deu por perdida. Só muitos anos mais tarde, quando reformaram o imóvel, encontraram-na em meio ao material isolante do sótão. Talvez um esquilo houvesse se encantado com seu brilho e a levado para o ninho como um tesouro particular. Enquanto Judy me relatava esse episódio, ocorreu-me que, assim como a medalha, a história de Joe também fora suprimida da vista de todos por muito tempo.
Apertei outra vez a mão de Joe e disse-lhe que gostaria de voltar para conversar um pouco mais, quem sabe escrever um livro sobre seus dias de remador. Agarrando de novo minha mão, ele disse que gostaria também. E com a voz mais uma vez embargada, advertiu-me com gentileza: “Mas não apenas sobre mim. Tem que ser sobre o barco.”