Meninos de Ouro
Terceira parte – 1935 – As partes que realmente importam
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
TERCEIRA PARTE
1935
As partes que realmente importam
Joe e Joyce em Seattle
CAPÍTULO 9
Um dos primeiros conselhos de um bom treinador de remo depois de completada a instrução básica é: “Faça a sua parte.” É exatamente o que faz o jovem remador ao perceber que o barco anda melhor assim. Isso tem uma clara implicação social.
– George Yeoman Pocock
E stavam todos sentados nos bancos duros da garagem, de calções e camisetas de cores diferentes, tremendo de frio. O sol já se pusera e o amplo interior do salão era fustigado por incômodas correntes de ar. Lá fora fazia tanto frio que o gelo se acumulara nos cantos das vidraças das portas de correr. Era o começo da noite de 14 de janeiro de 1935, o momento da reapresentação da equipe depois das festas de fim de ano. Os rapazes e alguns repórteres aguardavam Al Ulbrickson para ouvir seu planejamento para a próxima temporada. Depois de uma longa e desconfortável espera, Ulbrickson saiu do seu gabinete e começou a falar. Quando terminou, ninguém mais sentia frio na garagem.
Ele começou pelo básico, anunciando uma mudança de estratégia. Em vez do tradicional início relativamente lento nas primeiras semanas do trimestre de inverno, dedicado ao aprimoramento formal e técnico enquanto esperavam o tempo melhorar, este ano eles iriam remar diariamente desde já, com o tempo que fosse. Cuidariam primeiro de melhorar o condicionamento físico e só depois se preocupariam com o aperfeiçoamento técnico. Mais do que isso, porém, todos – não só os segundanistas – começariam a competir entre si em guarnições bem definidas. Não haveria mescla nem trocas constantes. Nessas corridas estaria em jogo o prêmio máximo. Não seria uma temporada normal.
“Em um ou outro momento”, disse ele, “as guarnições de Washington conquistaram os maiores prêmios dos Estados Unidos. Mas nenhuma jamais participou de uma Olimpíada. Este é o nosso objetivo.”
Naquela noite começaria a arrancada rumo à conquista da medalha de ouro em Berlim em 1936.
Pondo de lado a reticência habitual, e a despeito da presença de repórteres na sala, Ulbrickson foi se animando até um estado de quase exaltação. Disse que nunca vira, em todos os seus anos como remador e treinador, e que não esperava ver outra vez enquanto vivesse, tanto potencial quanto o que estava reunido ali. Em algum lugar daquele grupo, afirmou, dirigindo-se aos rapazes, estava a melhor guarnição que já passara por Washington: melhor do que a grande guarnição de 1926 que tinha vencido com sua própria ajuda em Poughkeepsie e do que as guarnições da Califórnia medalhistas de ouro nas olimpíadas de 1928 e 1932; talvez a melhor guarnição que Washington teria. Nove deles, declarou, como se fosse uma certeza, estariam no pódio olímpico de Berlim em 1936. Quais, exatamente, dependia de cada um. Quando terminou, os rapazes se levantaram num salto e comemoraram, aplaudindo com as mãos erguidas sobre as cabeças.
A atuação inusitada, em se tratando de Al Ulbrickson, chamou a atenção de todos em Seattle que tinham algum interesse pelo remo. Na manhã seguinte, o Seattle Post-Intelligencer exultava: “Uma nova era no remo de Washington. Possível participação nos Jogos Olímpicos de Berlim!” O Washington Daily dizia: “Apesar do frio intenso, há muitos anos não se via na garagem tanto ardor e tanta energia.”
Foi o estopim de uma guerra generalizada. Rivalidades latentes desde a temporada de outono se transformaram em batalhas abertas. Contatos visuais prudentemente evitados deram lugar a olhares gelados de desafio. Ombradas acidentais quase davam briga. Batiam-se portas de armários com violência. Trocavam-se ofensas. Nutriam-se rancores.
Seguros de que Ulbrickson falara para e sobre eles, os nove rapazes do barco de segundanistas mudaram o mantra “C-N-B” para “T-P-B”. Quando indagados sobre o que significava, respondiam, sorrindo: “Tudo pelo barco.” Conversa. Significava “Todos para Berlim”, uma espécie de código secreto para o objeto de suas ambições. Mas na lousa da garagem eles ainda eram o quarto de cinco barcos, independentemente do que realizassem sobre a água. E Ulbrickson, ao menos publicamente, parecia ter outros rapazes em mente naqueles dias. Ao longo das semanas seguintes, ele fez questão de falar a todo repórter com quem conversava sobre as excelentes perspectivas do voga dos veteranos, Broussais C. Beck Jr. O pai de Beck fora gerente da famosa loja de departamentos Bon Marché de Seattle, um feroz opositor dos trabalhadores organizados conhecido por contratar espiões para se infiltrarem nos sindicatos. Fora também um excepcional remador de Washington em sua época e, mais tarde, presidente do Conselho de Remo da Universidade. Seu próprio pai fora um dos mais proeminentes pioneiros de Seattle, dono de uma grande propriedade rural na região de Ravenna Park, ao norte do campus. A comunidade de negócios e um bom número de alunos queriam muito ver o jovem Beck como voga da guarnição de Washington. Ele podia ou não ter todo o potencial que Ulbrickson lhe atribuía, mas não restava dúvida de que era o tipo de sujeito que os treinadores gostavam de ter na equipe – para deixar os ex-alunos felizes. Aquilo não passou despercebido a Joe. Beck era, muito claramente, um dos rapazes que tinham sempre uma camisa limpa para vestir, que não precisavam se preocupar com dinheiro. Joe se perguntava se ele precisava se preocupar com alguma coisa.
O plano de Ulbrickson de fazer os rapazes entrarem em forma rapidamente começou a dar problemas logo no dia seguinte ao seu inflamado discurso. A manchete do The Daily contava a história, ou pelo menos o seu início: “Guarnições entram na água com gelo nos remos”. O tempo, de muita chuva e ventanias desde o fim de outubro, tornara-se ártico. Na noite da palestra de Ulbrickson, ventos setentrionais gelados ergueram ondas enormes no estuário de Puget levando água salgada duas quadras adentro de Alki Beach e a toda a orla de West Seattle. Nos dias seguintes as temperaturas caíram abaixo dos 7 negativos, transformando floquinhos de neve em nevadas e, logo, em nevascas. O cerco foi quase contínuo até a terceira semana de janeiro. Assim como no outono, Ulbrickson teve que manter suas guarnições dias a fio dentro da garagem – quando muito mandava os rapazes para uns tiros no Canal, mas suas mãos ficavam tão dormentes que mal conseguiam segurar os remos. Nunca chegou a dizer isso, mas nessas horas ele devia sonhar com os tanques de remo usados no Leste. Lá, pelo menos, se trabalhava, ao passo que seus rapazes ficavam sentados na garagem apenas apreciando, pelas janelas, um dos melhores lugares do mundo para se remar.
Com a piora do tempo, Tom Bolles viu seu grupo de calouros diminuir rapidamente. Dos 210 alunos que se apresentaram no outono, só lhe restavam 53 em 14 de janeiro. Na terceira semana do mês, o Daily noticiou: “Mais três dias de nevasca e Tom Bolles já não terá uma guarnição de calouros.” Bolles, no entanto, parecia imperturbável. “O remo é um esporte em que não se precisa fazer cortes”, observou. Embora não falasse muito a respeito, estava convencido de que no grupo remanescente havia alguns grandes talentos. Na verdade, estava começando a achar que daria para montar uma guarnição de calouros capaz até de bater a do ano anterior.
Quando a neve deu lugar à chuva no fim de janeiro, os 215 hectares do campus foram reduzidos a um vasto lamaçal. Na enfermaria, eram tantos os estudantes sofrendo de resfriado, gripe e pneumonia que já não havia leitos: muitos tinham que ficar em macas espalhadas pelos corredores. Mas mesmo com vento e chuva, Ulbrickson aproveitou a mudança para mandar suas cinco guarnições de veteranos para a água.
Os conflitos latentes na garagem haviam adquirido contornos de guerra naval. O estopim foi a manchete do Daily de 24 de janeiro, “Calouros campeões bem cotados por Ulbrickson”, com uma grande foto dos segundanistas, Joe entre eles, a bordo do City of Seattle. Na legenda, em negrito, se lia: “Eles sonham com Poughkeepsie e as
a
Olimpíadas.” A 1 guarnição do ano anterior ficou indignada. Durante meses Ulbrickson dera a impressão de favorecer os segundanistas, mas não passava, em todo caso, de uma manifestação de preferência bastante sutil. Agora ela era pública, com todas as letras e para quem quisesse ler – remadores, seus amigos e, pior, suas namoradas. Tudo indicava que os veteranos seriam humilhados, preteridos pelos segundanistas queridinhos de Ulbrickson.
Um dos rapazes do barco dos segundanistas, Bob Green, tinha o hábito de animar seus companheiros durante as corridas com gritos de incentivo. Era uma quebra de protocolo, uma vez que só o timoneiro fala no barco para não atrapalhar a remada, principalmente durante uma corrida. Como, porém, a prática pareceu ter beneficiado os segundanistas no ano anterior, George Morry, seu usual timoneiro, a aceitava de bom grado.
O mesmo não valia, no entanto, para alguns membros das outras guarnições, para os quais o comportamento de Green era motivo de grande irritação. Era o caso de Bobby Moch, o pequeno e astuto timoneiro daquela que vinha despontando como a melhor guarnição de veteranos. Sua indignação com o comportamento de Green ficava cada vez maior. Quando, em fevereiro, começaram as disputas pelo status de
o
1 barco da universidade, ele descobriu um modo de tirar proveito da situação. Sempre que seu barco emparelhava com o dos segundanistas, Moch se inclinava para seu voga e dizia, baixinho: “Quero 20 bem fortes, depois mais 5”, enquanto Green, aos gritos, conclamava seus companheiros a irem em frente. Cinco remadas depois, Moch punha o megafone na direção dos segundanistas e gritava: “Olhe lá, o Green abriu sua boca grande novamente. Vamos passá-los, rapazes!” Antes de terminar de falar seu barco já avançava, como num passe de mágica, sobre o dos segundanistas. Irritado com a chamada, Green passava a gritar ainda mais alto enquanto Morry, o timoneiro, pedia: “Quero 10 fortes!” A essa altura, porém, o outro barco já estava longe. Toda vez que Moch fazia aquilo, os segundanistas perdiam as estribeiras – todos ao mesmo tempo, como um só corpo. Desesperados para recuperar o atraso, metiam os remos na água de qualquer maneira, resultando em pegadas muito fundas ou muito rasas, remadas fora de tempo e movimentos sem nenhuma sincronia. Acabavam todos, como dizia Moch, “destroçados”, e ninguém mais do que Joe, a quem tudo aquilo mais parecia uma piada às suas custas, uma brincadeira com a intenção de humilhá-lo. O invariável final era Moch sentado na popa de seu barco olhando por cima do ombro, dando adeus aos segundanistas e rindo da cara de tacho de todos eles. Bobby Moch – como todos os envolvidos ainda iriam ver – de bobo não tinha nada.
Al Ulbrickson também não, e por isso mesmo começava a ter sérias dúvidas a respeito dos segundanistas. Sua expectativa era de que, a essa altura, eles já tivessem
o
se firmado como o novo 1 barco da universidade. No entanto, essa guarnição que
o
nem o 2 barco superava não se parecia em nada com aquela que vencera, com espantosa facilidade, a corrida de Poughkeepsie. Daquele jeito eles não iriam a lugar algum. Depois de estudá-los por alguns dias em busca de falhas individuais, decidiu chamar para uma conversa em seu gabinete aqueles que lhe pareciam mais problemáticos – George Lund, Chuck Hartman, Roger Morris, Shorty Hunt e Joe Rantz. Não era o barco inteiro, mas era quase.
Ser convocado para uma conversa no gabinete de Al Ulbrickson era assustador, um acontecimento raro e sempre marcante. Como de hábito, ele não gritou nem socou a mesa. Mandou que os rapazes se sentassem e, com os olhos na altura dos seus, lhes disse, sem meias palavras, que se não melhorassem acabariam fora da disputa. Estavam atrapalhando seus planos de manter a guarnição intacta. Ora, não era exatamente isso o que eles queriam? Se era, por que não remavam como haviam feito na disputa do título? Em sua opinião, o problema era simples: preguiça. Faltava força. Faltava garra. Faltava capricho. Faltava empenho. Além disso, a remada estava toda errada: eles estavam “esfaqueando” a água com os remos em vez de “escavá-la”. E o pior de tudo, estavam levando suas emoções com eles no barco e perdendo a cabeça por nada. Aquilo tinha que acabar. Para concluir, lembrou-lhes
o
de que havia pelo menos quatro candidatos para cada vaga no 1 barco da universidade. Dito isso, apontou-lhes a porta.
Os rapazes saíram da sala abalados, tentando ignorar a presença de um grupo de veteranos que os observava da porta da garagem com um sorriso debochado. Agitados, Joe, Roger e Shorty saíram juntos para o campus, debaixo de chuva, conversando sobre o ocorrido.
Shorty e Roger se tornaram amigos logo no primeiro dia. Shorty, naturalmente falador, e Roger, naturalmente reticente e bronco, eram uma combinação estranha – mas que funcionava. Joe era grato a eles por nunca terem pegado no seu pé. Na verdade, Joe contava cada vez mais com os dois ao seu lado quando os outros o provocavam. Shorty ocupava a posição dois, logo atrás dele, e, sempre que o via deprimido, não hesitava em passar um braço no seu ombro e lhe dizer: “Não se preocupe, Joe. Eu lhe dou cobertura.”
Shorty Hunt era, na opinião geral, um sujeito extraordinário. O que ninguém sabia ainda era quão extraordinário ele realmente era. Poucos anos mais tarde o jornalista Royal Brougham iria classificá-lo, ao lado de Al Ulbrickson, como um dos dois maiores remadores da história de Washington. Como Joe, ele fora criado numa pequena cidade, Puyallup, entre Tacoma e o sopé do monte Rainier. Mas, ao contrário de Joe, tivera uma vida familiar estável e, como resultado, era seguro de si e muito talentoso. Foi um astro dos esportes no secundário – jogou tênis, basquete e futebol americano –, além de tesoureiro da classe, assistente de bibliotecário e membro do clube de rádio. Em todos os seus anos de colégio foi indicado para o quadro de honra. Foi membro ativo da associação do mérito escolar e da seção local da Associação Cristã de Moços. Formou-se com dois anos de antecedência. Muito bonito, costumava ser comparado ao ator Cesar Romero devido aos cabelos escuros e ondulados. Seu 1,91 metro de altura lhe rendera, ao entrar na faculdade, o apelido de “Shorty”, que usaria pelo resto da vida. Elegante, andava sempre bem vestido e atraía, como um ímã, os olhares das garotas. Mas parece que não tinha namorada firme.
Apesar de seus feitos, Hunt era também uma contradição. Falador e sociável, gostava de estar no centro das atenções, mas era extremamente reservado a respeito de sua vida particular. Mantinha as muitas pessoas que giravam ao seu redor a uma prudente distância. Por acreditar que sua opinião era inevitavelmente a certa, não tinha paciência com as pessoas que pensavam de forma diferente. Tal como Joe, havia ao seu redor uma barreira invisível que não deixava ninguém ultrapassar e também era sensível. Ninguém sabia dizer ao certo que coisas o faziam se fechar ou perder o foco. As provocações dos outros barcos pareciam estar entre elas.
Após a reunião com Ulbrickson, Joe, Shorty e Roger subiram a colina de volta ao campus conversando exaltados, mas em voz baixa. Al Ulbrickson tinha uma política, havia muito estabelecida, pela qual uma infração nos treinamentos fazia um remador recuar dois barcos e duas levavam à sua exclusão da equipe. Eles não sabiam ao certo se o ocorrido representava ou não uma infração, mas temiam que sim. E estavam chateados por terem sido censurados. Shorty, particularmente agitado, estava furioso; Roger, mais carrancudo que de costume. Contornaram a fonte Frosh resmungando: Ulbrickson era injusto, frio, excessivamente severo, incapaz de enxergar o duro que eles estavam dando. Em vez de estar sempre exigindo mais, ele devia era dar um tapinha nas costas do sujeito de vez em quando. Mas o fato era: ele dificilmente iria mudar. E as coisas estavam ficando perigosas. O melhor que tinham a fazer era um pacto de proteção mútua.
Joe se separou do grupo e começou a subir a avenida University rumo à Associação Cristã. Com os ombros curvados e os olhos semicerrados para protegê-los da chuva, passou por restaurantes baratos cheios de estudantes eufóricos, felizes com seus hambúrgueres e sua comida chinesa, seus cigarros e suas cervejas, a salvo do frio que fazia lá fora. Olhando-os de soslaio, continuou caminhando. Esbravejara e se queixara de Ulbrickson em coro com Shorty e Roger, mas, agora que estava sozinho, o orgulho se desvanecera e a velha ansiedade e insegurança voltavam a oprimir seu peito. Apesar de todo o esforço, era óbvio que continuava a ser totalmente descartável, inclusive na garagem, o único lugar onde começara a se sentir mais ou menos em casa.
No dia seguinte ao da conversa em seu gabinete, Al Ulbrickson anotou em seu diário, com visível satisfação, que os segundanistas pareciam estar recuperando a forma. Em sua primeira saída, bateram com folga os outros quatro barcos. Nas
o
semanas seguintes, as cinco guarnições disputaram com unhas e dentes o status de 1 barco em meio a chuva, rajadas de vento e um mar tão encrespado que as obrigavam a passar os intervalos tirando água do fundo do casco. Para saber se os segundanistas haviam se reencontrado de fato, Ulbrickson organizou uma prova de uma milha em que eles logo assumiram uma vantagem de um barco para não mais perdê-la. Estavam muito à frente na meia milha e assim foram, sem grande esforço, até o final. Ao olhar o cronômetro, no entanto, Ulbrickson ficou decepcionado. Ainda estavam 10 segundos mais lentos do que o esperado para essa etapa dos treinamentos. Mas venceram, e por isso galgaram, pela primeira vez, o alto da lista na lousa da garagem.
No dia seguinte, porém, eles remaram muito mal e perderam feio. Ulbrickson
o
prontamente os rebaixou ao posto de 3 barco. Naquela noite, frustrado, ele depreciou os segundanistas em seu diário – “péssimos”, “cada um por si”, “nem sinal de trabalho em equipe”, “todo mundo dormindo”, “muita reclamação”, “cadê o antigo moral?”. Poucos dias depois, organizou uma prova de três milhas em que os segundanistas foram os últimos na marca da primeira milha, apareceram colados aos líderes na segunda e, na terceira, deram uma bela arrancada para a vitória com
a
a convincente vantagem de um barco e meio sobre a 2 guarnição. Coçando a cabeça, Ulbrickson os reconduziu ao alto da lista. Mas nem bem haviam voltado à liderança, eles degringolaram outra vez – “mortos”, “ritmo confuso”, “Rantz segurando o carrinho e alongando demais os braços”, escreveu no diário. O treinador oscilava entre a perplexidade e o desespero total, quando não a loucura. Mantinha-se fechado, como sempre, mas estava cada vez mais obcecado por encontrar uma guarnição que fosse capaz de bater Ky Ebright na Califórnia em abril, vencer em Poughkeepsie em junho e estar em condições de ir a Berlim no ano seguinte.
Ebright não lhe saía da cabeça. O normalmente ruidoso treinador da Califórnia andava estranhamente calado, a ponto de um jornalista esportivo da região da baía de São Francisco chamá-lo de “esfinge de Berkeley” e se perguntar se ele vinha se lembrando de dizer boa-noite à esposa. As últimas vezes que ele se mostrara assim tão reservado fora nas fases de preparação para as Olímpíadas de 1928 e 1932. Tudo o que Ulbrickson conseguira encontrar nos jornais da região de São Francisco fora a desconcertante notícia de que Dick Burnley – o excepcional voga da Califórnia que liderara os comandados de Ebright à espetacular vitória sobre os rapazes de Ulbrickson em Poughkeepsie – havia crescido mais de um centímetro.
A principal fonte das dúvidas de Ulbrickson não era, no entanto, Ebright, tampouco o desempenho errático dos segundanistas em quem depositava tantas esperanças. Parte dos problemas que ele tinha para resolver era, na verdade, uma coisa boa, derivada da abundância de recursos. Vários talentos haviam começado a se revelar nos outros barcos.
Para começar, havia a nova safra de calouros de Tom Bolles, cartas ainda fora do baralho que Ulbrickson poderia, no entanto, colocar em seus planos para o ano seguinte – o ano mais importante. Bolles lhe relatara que eles vinham remando poucos segundos abaixo dos tempos que Joe e sua guarnição haviam estabelecido no ano anterior e que melhoravam a cada treino. Seu voga – um garoto de cabelos encaracolados chamado Don Hume – parecia particularmente promissor: era incansável, imune à dor e capaz de remar contra quaisquer obstáculos, como uma locomotiva bem lubrificada. Faltava-lhe, é claro, polimento. Nenhum outro membro da guarnição, salvo o timoneiro, precisava ter tanta experiência, e o voga Hume ainda tinha muita por adquirir. Dois outros garotos também pareciam bastante bons – um rapaz caladão, grande e musculoso chamado Gordy Adam, da posição cinco, e Johnny White, da posição dois, que por ser filho de um excepcional single sculler respirava remo desde pequenino.
Um dos barcos de veteranos – o de Bobby Moch, que volta e meia deixava os segundanistas para trás – tinha também dois candidatos promissores, ambos segundanistas. Um deles era um rapaz de cabelos ondulados chamado Jim McMillin, um varapau de 1,96 metro de altura, com cara de bobo e sorriso irresistível que os colegas de guarnição chamavam de “Stub” – toco. Não se
o
destacara no 2 barco de calouros na temporada anterior, mas parecia ter finalmente encontrado seu espaço na guarnição de Moch. Era grande o suficiente para fornecer a alavancagem e a força que toda grande guarnição precisa ter no centro do barco e parecia nunca acreditar que havia sido derrotado, mesmo quando isso acontecia. Remava com igual vigor nas causas ganhas e nas perdidas. Determinado, não
o
escondia de ninguém que se considerava candidato ao 1 barco. O outro era um garoto de óculos chamado Chuck Day, um tagarela brincalhão e exibido, quase impossível de ignorar, que Ulbrickson observara ainda na equipe de calouros. Tal como Hume, Day precisava de polimento como remador, mas era naturalmente inclinado a lutar primeiro e perguntar depois – atitude que vinha lhe rendendo bons frutos. Havia momentos em que toda guarnição precisava de uma “vela de ignição” para ajudar o barco a “pegar” e pôr todos os cilindros para trabalhar.
Com a chegada de março, Ulbrickson decidiu que era tempo de mudar de tática outra vez. Abandonou a ideia das guarnições “fechadas” e começou a montar combinações, dizendo aos rapazes: “Vou ficar mudando até achar uma guarnição que se destaque das demais. Aí saberei que tenho o grupo certo.” Começou tirando Joe do barco dos segundanistas, que ficou mais lento – exatamente como acontecera com Tom Bolles no ano anterior. No dia seguinte, Joe estava de volta. Experimentou Stub McMillin na posição sete do barco dos segundanistas, mas retirou-o no dia seguinte. Tentou tirar Joe outra vez, com o mesmo resultado. Colocou Shorty no barco de veteranos capitaneado por Moch. Fez todas as trocas possíveis e imagináveis, mas, no decorrer de março, foi se fixando pouco a pouco em duas
o a
guarnições candidatas ao posto de 1 barco da Universidade: a 2 guarnição da temporada anterior, com Moch, McMillin e Day, e a guarnição dos segundanistas, ainda intacta a despeito de suas várias tentativas de desmontá-la e melhorá-la. As duas vinham registrando tempos excepcionais, mas nenhuma batia a outra de maneira decisiva. Ulbrickson precisava que uma delas desse um salto, ainda que somente para acabar com o seu dilema – o que não aconteceu.
Ulbrickson sabia qual era o verdadeiro problema. Embora seu diário registrasse uma infinidade de falhas técnicas – Rantz e Hartman não dobravam os braços no ponto certo na remada, Green e Hartman atacavam a água cedo demais, Rantz e Lund tarde demais, e assim por diante –, nada disso era fundamental. Ainda em fevereiro ele havia comentado com George Varnell, do The Seattle Times, que “temos mais invidualidades excepcionais no grupo deste ano do que em qualquer outro que já treinei”. O grande problema estava no próprio fato de ter sido obrigado a lançar mão da palavra “individualidades”. Havia dias – muitos dias – em que eles não remavam como equipe, mas como soma de individualidades. E quanto mais ele os censurava por suas falhas técnicas e lhes pedia para jogar para o time, mais eles pareciam mergulhar em seus mundinhos e desafios particulares.
O tempo horroroso que assolava Seattle desde outubro melhorou, mas não sem antes coroar aquele inverno com uma última nevasca sobre a cidade no dia 21 de março. Em 2 de abril, finalmente, um sol cálido desabrochou sobre o lago Washington. No campus, estudantes acostumados ao bolor da biblioteca Suzzallo e à umidade de seus quartos alugados apertavam os olhos, cautelosos, à procura de um pedaço de gramado onde se esticar. Pela primeira vez desde o verão anterior viam-se rapazes com camisas esportivas e sapatos brancos e moças de saias floridas e meias curtas. As cerejeiras do “quadrado” floriam com força total. Sabiás saltitavam sobre a relva, empertigados, à procura de minhocas. As primeiras andorinhas roxo-esverdeadas do ano rodopiavam entre as torres da biblioteca. A luz do sol entrava pelas janelas das salas de aula, onde os professores davam aula com os olhos perdidos no campus ensolarado.
Na garagem, os rapazes se estendiam na rampa, sem camisa, aquecendo-se como lagartos brancos ao sol. O guardador da garagem de canoas registrou um súbito aumento na demanda de canoas, todas alugadas por casais. O Daily saiu com uma chamada de capa: “Campus embriagado de amor, meninas”.
Joe e Joyce estiveram entre os primeiros a alugar uma canoa. Joyce ainda morava e trabalhava na casa do juiz – e odiava cada vez mais o emprego. Joe achou, então, que levá-la para um passeio na água talvez fosse lhe fazer bem. Encontrou-a sentada no gramado em frente à biblioteca, com um vestido de verão, conversando com amigas. Ao chegarem à garagem ele tirou a camisa, ajudou-a a subir numa canoa e saiu pelo Canal. Remou preguiçosamente em meio às ninfeias e às tocas de castor no lado sul da baía Union até chegar a um lugar de que gostava. Parou ali, deixando o barco à deriva.
Joyce, reclinada na proa, banhava-se na luz do sol arrastando uma das mãos na água. Joe, estendido na popa do jeito que dava, mirava o azul translúcido do céu. De vez em quando um sapo coaxava e se atirava na água, assustado com a aproximação da canoa. Libélulas azuis sobrevoavam o idílio agitando as asas secamente enquanto melros de asa vermelha chilreavam pousados no junco costeiro. Embalado pelo leve balanço da canoa, Joe adormeceu.
Então Joyce se sentou na proa e pôs-se a estudar o rosto do rapaz com quem se comprometera. Estava ainda mais bonito do que no secundário. Em momentos assim, totalmente à vontade, seu rosto e seu corpo definido ficavam tão serenos e graciosos que lembravam a Joyce as antigas estátuas de mármore de atletas gregos que estudara recentemente em seu curso de história da arte. Vendo-o assim, pensou, era difícil crer que ele já tivesse vivido momentos tão conturbados.
Lanchas de mogno reluzente passaram rugindo, do lago Washington para o Canal, com colegiais em trajes de banho agrupadas no convés acenando para eles. Suas esteiras atravessaram o tapete de plantas aquáticas e fizeram a canoa balançar de um lado para outro, tirando Joe de seu torpor. Ele sorriu para Joyce, que o admirava da proa. Depois sentou-se, sacudiu a cabeça para limpar a mente, tirou o violão de seu velho estojo e começou a cantar. Começou pelas canções que os dois cantavam juntos no ônibus escolar de Sequim – canções alegres e divertidas que os faziam rir – e que voltaram a cantar juntos agora. Enveredou, em seguida, por suaves, lentas e doces canções de amor. Joyce ficou em silêncio, ouvindo com atenção, feliz também, mas de um modo diferente e mais profundo. Quando Joe parou de tocar, eles falaram sobre a vida que imaginavam ter quando se casassem, tivessem uma casa e, quem sabe, filhos. Conversaram abertamente, sem parar um só minuto e sem nenhuma preocupação com o tempo até o sol começar a descer por trás de Capitol Hill e Joyce começar a sentir frio. Então Joe pegou os remos e levou a canoa de volta à Universidade. Até o fim de suas vidas os dois iriam se lembrar daquele dia.
No dia seguinte, de alma lavada, Joe abasteceu o velho Franklin e foi a Fremont. Estacionou em frente à padaria Golden Rule, levantou o vidro e pôs-se a esperar, tentando desfrutar o aroma delicioso de pão recém-assado. O nervosismo não o permitiu. Pouco depois do meio-dia, alguns homens vestidos de branco saíram do edifício, sentaram-se no gramado e abriram suas marmitas. Pouco depois saíram outros, de macacão escuro. Joe logo reconheceu o pai. Com 1,88 metro de altura, ele era de longe o mais alto do grupo. Não parecia mudado. Até o macacão era parecido com os que costumava usar na chácara, em Sequim. Joe saiu do carro e atravessou a rua a passos rápidos.
Ao erguer os olhos, Harry o viu chegando e estacou, segurando a marmita. Joe lhe estendeu a mão:
– Oi, pai.
Atônito, Harry não disse nada, mas apertou a mão do filho. Fazia cinco anos e meio que o vira pela última vez. Logo se deu conta de como seu filho estava crescido, totalmente diferente do garoto magricela que deixara em Sequim. Perguntou-se se Joe teria vindo para confrontá-lo ou para perdoá-lo. Lenta e suavemente, soltou a respiração.
– Oi, Joe. É bom ver você.
Atravessaram a rua e entraram no Franklin. Harry desembrulhou um sanduíche de salame e, sem dizer nada, ofereceu metade dele a Joe. Começaram a comer e, depois de um silêncio longo e constrangedor, a conversar. Harry falou sobre o equipamento da confeitaria – os fornos enormes, os misturadores de massa e a frota de caminhões de entrega cuja manutenção estava a seu cargo. Joe deixou que o pai se estendesse sobre o assunto, não especialmente interessado, mas feliz por poder ouvir o som familiar de sua voz forte e profunda, a voz que lhe contara tantas histórias, à noite, sentado nos degraus da cabana da Mina de Ouro e Rubi, e que lhe ensinara tantas coisas, em Sequim, sobre o maquinário e a floresta.
Quando Joe, finalmente, começou a falar, fez uma série de perguntas sobre seus meios-irmãos. Como estava Harry Jr.? Conseguira se recuperar na escola depois do acidente? Mike estava com que altura? E as meninas, como iam? Harry assegurou-lhe que estavam todos bem. Seguiu-se longa pausa. Joe perguntou ao pai se podia ir visitá-los uma hora dessas. Harry olhou para baixo e disse:
– Acho que não, Joe.
Um sentimento visceral lhe sobreveio – de raiva, de decepção, de ressentimento; não tinha certeza do que era, mas era antigo, familiar e doloroso. Para não forçar a situação, decidiu mudar de assunto. Harry, no entanto, depois de outra pausa acrescentou, sem erguer os olhos:
– Às vezes Thula e eu saímos para passear. Não fica ninguém em casa além das crianças.
Depois olhou pela janela, como que tomando distância do que acabara de dizer. Parecia aliviado. Joe não faria perguntas sobre a terrível noite em que ele o abandonara em Sequim.
Existe, no remo, uma coisa muito difícil de alcançar e até de definir. Muitas guarnições – vencedoras, inclusive – nunca a alcançam. Outras a fazem, mas não conseguem mantê-la. É a sincronia. Ela acontece quando os oito remadores trabalham de um modo tão coordenado que nenhum movimento individual está fora de sincronia com o de todos os outros. Não se trata apenas de que os remos entrem e saiam da água no mesmo instante, mas de que os 16 braços puxem juntos, os 16 joelhos se flexionem juntos, os oito corpos deslizem juntos para a frente e para trás e os oito troncos se curvem e se aprumem rigorosamente juntos. Cada mínima ação – cada giro sutil dos pulsos – deve ser reproduzida com exatidão por todos os remadores, de uma ponta a outra do barco. Só então este estará totalmente livre para deslizar, com fluidez e elegância, entre as puxadas dos remos. Só então o remador sentirá o barco como uma parte de si mesmo, movendo-se como que por conta própria. Só então a dor dará lugar ao júbilo. O remo se torna, nesse momento, uma espécie de linguagem perfeita. Poesia – o que há de mais parecido com remar em sincronia.
Remar em sincronia não faz necessariamente o barco andar mais rápido, salvo na medida em que, não havendo nenhuma ação que freie seu livre curso, a guarnição obterá o máximo retorno de cada remada. Seu principal efeito é a economia de energia – remar em voga mais baixa deslizando na água com a maior eficiência possível, às vezes até mais rápido do que outras guarnições remando em voga mais alta, porém com menos eficiência. A sincronia favorece a reserva de energia indispensável para a visceral e dolorosa arrancada final da corrida, o sprint. É imensamente difícil manter a sincronia quando se aumenta a voga. Com o aumento do ritmo, cada uma da miríade de ações dos remadores tem que se dar a intervalos de tempo cada vez menores, tornando praticamente impossível a manutenção da sincronia. Quanto mais perto uma guarnição conseguir chegar desse ideal – remar em sincronia com alta voga –, mais perto estará de remar num outro patamar, aquele em que remam os campeões.
Joe e a guarnição de calouros haviam alcançado uma perfeita sincronia no dia da vitória em Poughkeepsie – e Al Ulbrickson não o esquecera; na verdade, não conseguia tirar aquela imagem da cabeça. Havia algo de maravilhoso, quase mágico, no modo como eles fecharam a corrida. Ele vira lampejos de algo quase perfeito, um vislumbre do máximo ideal, e precisava acreditar que ele ainda estava lá.
O clima piorou novamente justo quando a Regata da Costa do Pacífico, na Califórnia, se aproximava, no início de abril. Para piorar, os segundanistas não conseguiam, por mais que se esforçassem, conservar a magia. Hoje eles a tinham;
o
amanhã a perdiam; ganhavam do 2 barco na segunda-feira, perdiam feio na terça-feira; venciam novamente na quarta, voltavam a perder na quinta. Quando ganhavam, o faziam com folga; quando perdiam, pareciam completamente perdidos. Enlouquecido, Ulbrickson tornou público seu dilema declarando ao Seattle Times em 2 de abril: “Nunca vivi uma situação como esta. Nunca havia chegado a esta altura da temporada de treinamentos sem que uma guarnição houvesse estabelecido uma clara superioridade sobre as outras.” Mesmo assim, precisava tomar uma decisão.
Acabou fazendo o que desde o início era sua intenção: proclamar oficialmente a
o
guarnição de segundanistas como 1 barco da Universidade para o ano de 1935. Os jornais locais anunciaram ao mundo. E os segundanistas perderam a corrida
a a
seguinte para a 2 guarnição. Como era de esperar, a 2 guarnição reivindicou sua
o
promoção a 1 barco de Washington na regata que se aproximava. Quase jogando as mãos para o céu, Ulbrickson disse que iria pensar no caso. Eles competiriam novamente na Califórnia. Quem vencesse a primeira prova depois que chegassem a
o
Oakland seria o 1 barco de Washington na Regata da Costa do Pacífico.
a
Promover o barco de segundanistas ao status de 1 guarnição da Universidade foi um movimento inusitado, mas não propriamente isolado. Na verdade, Ky Ebright estava a ponto de fazer o mesmo – reagindo, talvez, a tudo o que vinha lendo na imprensa sobre os segundanistas de Washington. Ao começar os preparativos para a Regata da Costa do Pacífico, Ebright rebaixou inesperadamente os rapazes que haviam conquistado o título nacional em Poughkeepsie, no ano anterior, em favor de
a
um misto de barco de segundanistas e 2 guarnição de veteranos. Perplexo com o desempenho dos campeões nacionais do ano anterior, Ebright só manteve um deles no barco principal. Quando Royal Brougham chegou a Oakland para cobrir a regata, Ebright lhe disse: “Como você me explica que a melhor guarnição dos Estados Unidos em junho do ano passado não consegue hoje bater um barco misto
a
da 2 guarnição e segundanistas?”
Brougham não fazia a menor ideia, mas enviou imediatamente a informação a Ulbrickson, em Seattle, advertindo-o, porém, de que havia cronometrado o novo
o
barco misto de Ebright: “Não pense que o novo 1 barco dos Bears é lento, Sr. Ulbrickson (...) o barco é muito veloz.” Ao saber dos detalhes, principalmente do fato de Ebright ter substituído Dick Burnley, o fortíssimo voga que levara a Califórnia à vitória sobre seus rapazes em Poughkeepsie, Ulbrickson ficou pasmo. Ele sabia que Ebright, de olho em 1936, andava à procura de novos talentos tanto quanto ele. Mas quem diabos Ebright poderia ter descoberto que seria capaz de tirar uma máquina de remar como Burnley do barco que ia disputar o título nacional?
Às 8 horas da manhã de 7 de abril, as três guarnições de Washington já remavam nas águas oleosas do estuário de Oakland. Além de chover, ventos de 50 quilômetros por hora açoitavam a baía de São Francisco lançando jatos de água salgada no rosto dos rapazes. Exceto por isso, eles se sentiam em casa: haviam trazido consigo um pouco do sul de Seattle. Sem o barco da Califórnia à vista, eles remaram por toda a extensão do estuário e ao longo dos lodaçais na costa leste da baía. A nova ponte ainda inacabada se destacava na paisagem, com suas elegantes torres prateadas indicando a direção da ilha Treasure e São Francisco. Fora do estuário, porém, a ondulação era ainda mais forte, o suficiente para ameaçar virar os barcos. Ulbrickson mandou darem meia-volta.
Na ida, pareceu-lhe que os veteranos estavam andando mais rápido que os segundanistas. Na volta, aconteceu o contrário. Todos aguardavam ansiosamente a prova decisiva que Ulbrickson anunciara antes de sair de Seattle. Os remadores de cada guarnição mal se dirigiam aos seus concorrentes.
Enquanto isso, Al Ulbrickson e Ky Ebright se dedicavam à sua dança preferida, a dança do infortúnio, cada um tentando superar o outro em prognósticos sombrios para a regata. Ulbrickson declarou que seus rapazes estavam pesados e fora de forma por causa dos muitos treinos cancelados em Seattle. Havia tentado, mas até agora não conseguira colocá-los em “ponto de bala”. “Podem considerá-los azarões”, chegou a dizer. “Meus rapazes não estão preparados para a corrida. Eles saíram para remar três milhas ontem e na primeira já estavam com a língua de fora. Nunca trabalhamos tão pouco nem em condições tão desfavoráveis.” Nem por isso os repórteres deixaram, porém, de notar que eles tinham excelente aspecto ao descerem do trem. Quando indagado sobre por que havia trazido uma delegação de segundanistas, Ulbrickson olhou para o repórter com malícia e respondeu: “Porque foi o melhor que conseguimos.” Ebright, por sua vez, também tentava inverter o favoritismo e falou menos, mas de modo mais direto. Entrevistado pelo The New York Times, ele disse, com todas as letras: “Califórnia tem possibilidades, mas eu acho que Washington vai ganhar. Nossas chances não são tão boas. Nosso barco principal é, sem dúvida, mais lento que o do ano passado e totalmente inexperiente em corridas.” Continuava estranhamente silencioso a respeito de seus pupilos.
Ky Ebright
No dia 10 de abril, Ulbrickson decidiu realizar a anunciada prova para
o
determinar qual seria o 1 barco. Joe e os segundanistas perderam, chegando quase um barco atrás dos veteranos. Incrédulos, deixaram-se afundar em desespero dentro do barco. Os veteranos, é claro, exultaram. De volta ao hotel, Al Ulbrickson escreveu
o
em seu diário que estava “encrencado” e não quis anunciar qual seria o 1 barco da Universidade.
Na manhã de 12 de abril o resultado se repetiu. Ainda não convencido, tentou uma última cartada. Os segundanistas haviam trazido um barco novinho em folha, mas com o qual implicaram de imediato. Desde a chegada vinham se queixando de que não se afinavam com ele. Ulbrickson os colocou, então, no City of Seattle, com o qual haviam obtido a memorável vitória de Poughkeepsie. Desta vez eles remaram muito bem, igualando o tempo dos veteranos. “Eles se sentiram em casa no barco velho”, anotou em seu diário.
Naquela mesma noite, depois do jantar no hotel Oakland, Ulbrickson soltou a bomba: os segundanistas iriam disputar a prova principal, apesar das repetidas derrotas. “Sinto muito”, disse. “Talvez eu não devesse fazer isso, mas é o que vai ser.” Furiosos, os veteranos abandonaram a sala e foram extravasar sua raiva caminhando pelas ruas de Oakland. Ao explicar a decisão para a Associated Press, Ulbrickson pôs de lado a tática da dissimulação e a dança do infortúnio e disse apenas que acreditava, no fundo do seu coração, nos segundanistas. “Eles são, potencialmente, a melhor guarnição que já treinei.”
À noite, em seu diário, ele escreveu, infeliz: “A pior posição para se estar na véspera de uma corrida.”
No dia da corrida, 13 de abril, chovia outra vez e um vento insistente soprava do sul na direção do estuário. Este nunca fora, nem em melhores dias, o que se poderia chamar de um lugar talhado para a prática do remo. Seu aspecto era o de uma longa autopista marítima espremida entre Oakland e a ilha Alameda, em meio um cenário industrial já nitidamente envelhecido. Várias pontes de aço ligavam os dois lados. O percurso da corrida fazia uma ligeira curva em Union Point, pouco antes da linha de chegada, na ponte da avenida Fruitvale. Armazéns decrépitos, tanques de petróleo, guindastes enferrujados e instalações fabris ocupavam os dois lados do canal. Ancoradas às suas margens havia embarcações de todo tipo – veleiros chineses, rebocadores, precárias casas flutuantes, velhas escunas e barcaças cheias de carga industrial. A água raiada de manchas de óleo cheirava a diesel e algas e tinha uma cor cinza-esverdeada mesmo nos dias de sol. Bem ao lado da garagem de barcos da Califórnia, um cano de 10 centímetros de diâmetro lançava esgoto diretamente na água.
Arranjar um bom lugar para assistir à corrida numa paisagem como aquela era um desafio, mas na tarde de 13 de abril cerca de 40 mil espectadores se espremeram debaixo de guarda-chuvas em terrenos baldios, nas docas, nas pequenas embarcações ancoradas ao longo do percurso e até nos telhados dos armazéns. De longe, a maior concentração de espectadores era na altura da linha de chegada, na ponte da avenida Fruitvale, onde milhares de torcedores da Califórnia, de azul e dourado, se acotovelavam com centenas de fãs de Washington, de roxo e dourado, para conseguir uma boa visão da raia. Locutores de rádio se apertavam num abrigo sob a ponte, prontos para transmitir o resultado da corrida para todo o país.
Às 15h55 a regata começou, com a prova de duas milhas para calouros. Don Hume, o voga de Washington, deixara o hospital em Seattle fazia somente dois dias, por conta de uma séria amigdalite da qual ainda se recuperava. Mas ninguém que estivesse assistindo à corrida acreditaria nisso. Os calouros de Washington assumiram rapidamente uma vantagem de meio barco e, na marca de uma milha, já lideravam por um barco inteiro, com as duas guarnições remando a 32 por minuto. Perto da curva, na entrada da reta final, os calouros de Cal tentaram se aproximar aumentando o ritmo para 34. Washington fez o mesmo. Com os dois barcos na mesma voga, a força de Hume fez a diferença. No último quarto de milha, ele remou de um modo tão suave, vigoroso e eficiente que, enquanto os rapazes da Califórnia se debatiam com os remos, os de Washington aumentaram sua vantagem até cruzar a linha com três barcos de frente. Na ponte, os fiscais deixaram cair bandeiras brancas para indicar que a vitória cabia às pás brancas de Washington.
A corrida das segundas guarnições era, para os recém-rebaixados de Washington, uma questão de honra – e de um lugar no futuro também. Às 16h10, ainda fervendo de ódio contra a decisão de Ulbrickson, eles levaram o barco até a linha de largada, na altura da rua Webster, a três milhas da chegada. Dada a partida, Califórnia pulou na frente e se manteve em 32. Com Bobby Moch comandando a cadência e Stub McMillin a casa de máquinas, Washington foi emparelhando, lenta e metodicamente, e logo começou a abrir vantagem. Na marca da milha e meia, já ganhara distância sobre Califórnia.
E foi aí que Washington começou a remar pra valer. Moch pediu mais voga e, em seguida, ainda mais. Força total. Cada remada era uma punição a Califórnia, a Ulbrickson, aos segundanistas e a quem mais duvidasse deles. Jogando as costas contra o vento e a chuva, eles extravasaram toda a sua frustração. Bobby Moch tinha o hábito de pedir 10 fortes associando-as a algum nome, visando maior impacto psicológico. Às vezes era “Quero 10 por Al”, outras “Quero 10 pelo Sr. Pocock”. Dessa vez, ele berrou no megafone: “Quero 10 fortes por Joe Beasley!” Ninguém no barco, incluindo Moch, ouvira falar de Joe Beasley, mas ele agora estava se divertindo. Deram-lhe 10 fortes. Aí ele gritou: “E quero 10 fortes para os segundanistas!” O barco foi catapultado à frente. Ao se aproximar da curva, já à vista da multidão sobre a ponte, sua vantagem era de cinco barcos. Cruzaram a linha de chegada com oito barcos de vantagem e ampliando a diferença.