Mente, Linguagem e Sociedade

John R. Searle · Capítulo 7 de 9

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Mente, Linguagem e Sociedade

Capítulo 6

 

Como a linguagem funciona: a fala como um tipo de ação humana

Em capítulos anteriores, discutimos alguns fenômenos surpreendentes. Um deles foi a existência da consciência em um mundo composto inteiramente de partículas físicas. Outro foi a extraordinária capacidade da mente de se dirigir a objetos e estados de coisas no mundo diferentes de si mesma. O terceiro foi a capacidade das mentes, agindo em cooperação, de criar uma realidade social objetiva. Neste capítulo, discutiremos um fenômeno igualmente surpreendente: a existência da comunicação linguística humana.

Talvez a maneira mais simples de chamar atenção para o caráter extraordinário da linguagem seja lembrar o seguinte fato: na parte inferior do seu rosto e do meu existe uma cavidade que se abre por meio de uma borda articulada. Periodicamente, essa cavidade se abre e dela sai uma variedade de ruídos. Em sua maioria, esses ruídos são causados pela passagem de ar por cordas revestidas de muco na laringe. De um ponto de vista puramente físico, as rajadas acústicas produzidas por esses fenômenos físicos e fisiológicos são bastante triviais. No entanto, elas têm características notáveis. Uma rajada acústica que sai da minha boca pode ser chamada de afirmação, pergunta, explicação, comando, exortação, ordem, promessa e assim por diante, ou de muitas outras possibilidades. Além disso, o que sai pode ser considerado verdadeiro, falso, entediante, desinteressante, excitante, original, estúpido ou simplesmente irrelevante. Agora, o que é surpreendente é que passemos da rajada acústica para essas incríveis propriedades semânticas, que incluem não apenas fenômenos retóricos e linguísticos, mas até mesmo fenômenos políticos, literários e outros tipos de fenômenos culturais. Como isso funciona? Como passamos da física para a semântica? É esta a questão que discuto neste capítulo.

 

Atos de fala: atos ilocucionários e atos perlocucionários

Sempre que eu emitir uma dessas rajadas acústicas em uma situação de linguagem normal, pode-se dizer que realizei um ato de fala. Os atos de fala têm uma variedade de tipos. Por meio dessas rajadas acústicas, faço uma afirmação ou uma pergunta, dou uma ordem ou faço um pedido, explico algum problema científico ou prevejo um evento. Todos esses, e dúzias de outros exemplos desse tipo, foram batizados pelo filósofo britânico J. L. Austin de "atos ilocucionários". O ato ilocucionário é a menor unidade completa possível da comunicação linguística humana. Sempre que falamos ou escrevemos para outra pessoa, realizamos atos ilocucionários1.

Precisamos distinguir os atos ilocucionários, que são o alvo de nossa análise, dos efeitos ou consequências dos atos ilocucionários nos falantes. Então, por exemplo, ao ordenar que você faça alguma coisa, posso fazer com que você o faça. Ao discutir com você, posso persuadi-lo. Ao fazer uma afirmação, posso convencê-lo, ao contar uma história posso diverti-lo. Nesses exemplos, o primeiro de cada par de verbos menciona um ato ou atos ilocucionários, mas a segunda expressão verbal menciona o efeito que o ato ilocucionário tem sobre alguém, um efeito como persuadir, convencer e fazer com que alguém faça alguma coisa. Austin, o inventor dessa terminologia, batizou esses atos que se relacionam a outras consequências que não a comunicação linguística de "atos perlocucionários". Assim, nossa primeira distinção é entre o ato ilocucionário, que é o verdadeiro alvo de nossa análise, e o ato perlocucionário, que se relaciona às consequências ou efeitos de nossas ações, quer sejam atos ilocucionários, quer não, nos falantes. Em geral, os atos ilocucionários devem ser realizados intencionalmente. Se você não teve a intenção de fazer uma promessa ou uma afirmação, então não fez uma promessa ou uma afirmação. Mas os atos perlocucionários não precisam ser realizados intencionalmente. Você pode persuadir alguém de alguma coisa, ou fazer com que façam alguma coisa, ou incomodá-los, ou diverti-los, sem ter a intenção de fazê-lo. O fato de os atos ilocucionários serem essencialmente intencionais, enquanto os atos perlocucionários poderem ou não ser intencionais, é uma consequência do fato de o ato ilocucionário ser a unidade de significado na comunicação. Quando o falante diz alguma coisa, e quer dizer alguma coisa com o que está dizendo, e tenta comunicar o que quer dizer a um ouvinte, terá, se for bem-sucedido, realizado um ato ilocucionário. Atos ilocucionários, significado e intenção estão ligados de um modo que explicarei neste capítulo.

Além da distinção entre atos ilocucionários e perlocucionários, também precisamos de uma distinção no interior do ato ilocucionário entre o contexto do ato e o tipo de ato de que se trata. Essa distinção é exatamente paralela à distinção que fizemos, no Capítulo 4, entre o conteúdo proposicional de um estado intencional e o tipo de estado intencional de que se trata. Para dar um exemplo óbvio, considerem as diferenças entre o proferimento dessas frases:

Por favor saia do quarto.

Quer sair do quarto?

Você vai sair do quarto.

Estes proferimentos têm algo em comum, a saber, que cada um deles contém uma expressão da proposição de que você sairá do quarto. Em cada um dos proferimentos, há algo diferente dos outros dois. O primeiro é um pedido, o segundo uma pergunta e o terceiro, uma previsão. Paralelamente à nossa distinção, em nossa teoria da intencionalidade, entre o conteúdo do estado intencional e o tipo de estado intencional de que se trata, precisamos de uma distinção entre o conteúdo de um ato ilocucionário e a força ilocucionária que ele tem, ou - o que é a mesma coisa - o tipo de ato ilocucionário de que se trata. Para os fins da nossa análise, podemos representar a estrutura dos atos ilocucionários como F(p), onde F representa a força ilocucionária e p o conteúdo proposicional. Ou seja, podemos separar a parte da linguagem que constitui seu tipo ilocucionário, ou força ilocucionária, da parte que constitui seu conteúdo proposicional.

Com isso em mente, isolamos o alvo de nossa análise com um pouco mais de exatidão do que havíamos feito no início deste capítulo. A questão agora é: como chegar até o ato ilocucionário a partir dos sons que emitimos? À primeira vista, essa pergunta pode parecer diferente das perguntas tradicionais que formam a base da filosofia da linguagem. As perguntas tradicionais são: "Como a linguagem se relaciona com a realidade?" e "O que é significado?" Mas penso que, no fundo, minha pergunta e as perguntas tradicionais são a mesma coisa, porque a pergunta "Como chegar até o tipo de ato ilocucionário a partir do som?" é na verdade a mesma pergunta que "Como a mente atribui significado a meros marcas e sons?" E a resposta a essa pergunta nos dará uma análise do conceito de significado que podemos usar para explicar como a linguagem se relaciona com a realidade. A linguagem se relaciona à realidade em virtude do significado, mas o significado é a propriedade que transforma meros proferimentos em atos ilocucionários. Os atos ilocucionários são significativos em um sentido muito especial da palavra, e é esse tipo de significado que permite à linguagem se relacionar com a realidade. Portanto, no fundo, entendidas de maneira apropriada, as três perguntas - "O que é significado?", "Como a linguagem se relaciona com a realidade?" e "Qual a natureza do ato ilocucionário?" - são a mesma pergunta. Como veremos, as três perguntas estão relacionadas com a maneira como a mente impõe intencionalidade a sons e marcas, conferindo-lhes, assim, significados e, ao fazer isso, relacionando-os à realidade.

 

Os significados de "significado"

É notório que as palavras significar, significado, significativo e assim por diante são ambíguas em inglês. Pense na ocorrência dessas expressões nas seguintes frases:

1. Você significa muito para mim, Mabel.

2. A vida perdeu seu significado depois da derrota republicana.

3. O significado dos eventos históricos quase nunca é visível na época do evento.

4. Eu não pretendia magoá-lo. 5. A frase em alemão "Es regnet" significa "Está chovendo".

6. Quando Friedrich disse "Es regnet", isso significava "Está chovendo".

Não direi nada sobre os sentidos de "significar" nas quatro primeiras frases a não ser que eles não são os sentidos essenciais para que se possa compreender significado no sentido linguístico. Para os fins de nossa pesquisa, quero me concentrar nas frases 5 e 6, porque elas são exemplos dos tipos de significado nos quais estou mais interessado neste capítulo.

É costumeiro e correto descrever o tipo de distinção entre as frases 5 e 6 como, por um lado, uma distinção entre significado da frase e significado da palavra e, por outro, uma distinção entre significado do falante e significado do proferimento. Frases e palavras têm significado como partes de uma linguagem. O significado de uma frase é determinado pelos significados das palavras e pela organização sintática das palavras na frase. Mas o que o falante quer dizer com o proferimento da frase, dentro de determinados limites, depende inteiramente de suas intenções. Tenho de dizer "dentro de certos limites" porque não se pode simplesmente dizer qualquer coisa e querer com isso dizer qualquer coisa. Não se pode dizer "Dois mais dois são quatro" e querer dizer que Shakespeare era um poeta bastante bom, além de dramaturgo. Pelo menos não se pode querer dizer isso sem uma grande quantidade de outras circunstâncias prévias. O significado da frase depende inteiramente das convenções da linguagem. No entanto, frases são instrumentos utilizados para falar. Portanto, mesmo que a linguagem limite o significado do falante, o significado do falante ainda é a forma primária de significado linguístico, porque o significado linguístico das frases funciona de maneira a permitir que as pessoas que falam aquela língua usem frases para querer dizer alguma coisa com seus proferimentos. O significado do proferimento do falante é a noção primária de significado para nosso objetivo de análise das funções da linguagem.

No restante deste capítulo, quando examino a pergunta "O que é significado", estarei me referindo à pergunta "O que é significado do falante?" À luz da discussão na primeira parte deste capítulo, essa pergunta agora pode ser reformulada da seguinte maneira: "Como os falantes podem atribuir significados a meros sons que saem de suas bocas ou marcas sobre um papel?"

Isso pode parecer uma pergunta bastante inocente mas, na verdade, existe na tradição filosófica um enorme e aparentemente infinito debate exatamente sobre essa pergunta. Eu não gostaria de dar ao leitor a impressão de que, de alguma forma, a pergunta é fácil ou que minha resposta não é controversa. No entanto, no que diz respeito a meus objetivos atuais, vou passar ao largo de todos os debates tradicionais e dar o que acredito ser a resposta correta à pergunta de maneira direta, nada mais.

A chave para a compreensão do significado é a seguinte: o significado é uma forma de intencionalidade derivada. A intencionalidade original ou intrínseca do pensamento do falante é transferida para palavras, frases, marcas, símbolos e assim por diante. Se pronunciadas de forma significativa, essas palavras, frases, marcas e símbolos passam a ter uma intencionalidade derivada dos pensamentos do falante. Elas não têm apenas um significado linguístico convencional, mas também um significado desejado pelo falante. A intencionalidade convencional das palavras e frases de uma língua pode ser usada por um falante para realizar um ato de fala. Quando um falante realiza um ato de fala, ele impõe sua intencionalidade àqueles símbolos. Como ele faz isso, exatamente? Vimos anteriormente, em nossa discussão sobre a intencionalidade, que as condições de satisfação, em um sentido que tentei explicar, são a chave para entender a intencionalidade. Fenômenos intencionais, como medos, esperanças, desejos, crenças e intenções, têm condições de satisfação. Assim, quando um falante diz alguma coisa e quer dizer alguma coisa, está realizando um ato intencional, e sua produção de sons faz parte das condições de satisfação de sua intenção de fazer o proferimento. No entanto, quando ele faz um proferimento significativo, está impondo condições de satisfação a esses sons e marcas. Ao fazer um proferimento significativo, ele está impondo condições de satisfação a condições de satisfação.

É esse o aspecto essencial do significado, e vou explicar isso com mais detalhes. Suponhamos, por exemplo, que uma pessoa que fale alemão, Friedrich, diga intencionalmente "Es regnet", e queira dizer isso. Ele terá realizado um ato complexo com diversas condições de satisfação. Em primeiro lugar, ele tinha a intenção de proferir a frase, e esse proferimento foi a condição de satisfação dessa parte de sua intenção complexa. Mas, em segundo lugar, uma vez que ele não apenas tinha a intenção de proferir a frase mas também queria dizer aquilo, ou seja, que estava chovendo, o proferimento adquiriu condições de satisfação próprias. O proferimento será satisfeito se, e apenas se, estiver chovendo. As condições de satisfação do proferimento são condições de verdade. O proferimento será verdadeiro ou falso dependendo de o mundo ser da maneira que Friedrich o representa quando faz o proferimento. Portanto, Friedrich tinha pelo menos duas partes em sua intenção: a intenção de emitir o proferimento e a intenção satisfação da primeira parte de sua intenção, toda a intenção do que ele queria dizer consistia na intenção de impor condições de satisfação a condições de satisfação. Além disso, se ele tivesse a intenção de se comunicar com um ouvinte, teria tido uma terceira parte em sua intenção ao realizar o ato de fala, a intenção de que o ouvinte devesse compreender que ele dizia que estava chovendo. Mas essa terceira intenção, a intenção comunicativa, era apenas a intenção de que suas duas primeiras intenções fossem reconhecidas pelo ouvinte. As condições de satisfação da intenção de comunicação são que o ouvinte reconheça que o falante proferiu a frase intencionalmente e que ela tem as condições de satisfação que o falante lhe impôs intencionalmente. Falarei mais sobre a comunicação na próxima seção.

A discussão sobre significado é a questão-chave deste capítulo e, de modo a deixar a posição totalmente clara, quero abordar o problema passo a passo com outro exemplo. Suponhamos que eu esteja aprendendo alemão. Suponhamos que eu pratique a pronúncia da língua com frequência, no chuveiro, ou durante caminhadas em dias chuvosos, dizendo "Es regnet, es regnet, es regnet". Nesse caso, estou apenas praticando pronúncia; não quero dizer que está chovendo. Então, qual a diferença entre dizer alguma coisa e querer dizer aquilo, por um lado, e dizer alguma coisa e não querer dizer aquilo, por outro? Se nos lembrarmos de nosso slogan do Capítulo 4, deveríamos examinar as condições de satisfação. Descobriríamos que as condições de satisfação das duas intenções, dizer e querer dizer, são bastante diferentes. As condições de satisfação da minha intenção quando digo alguma coisa sem querer dizer aquilo são simplesmente que a minha intenção cause um proferimento de determinado tipo, que esteja de acordo com as regras de pronúncia da língua alemã. Mas quais são as condições de satisfação da minha intenção quando realmente quero dizer o que digo?

Suponhamos que tivesse aprendido um pouco de alemão e alguém me fizesse uma pergunta que sei que quer dizer "Como está o tempo hoje?" - "Wie ist das Wetter heute?" Eu responderia "Es regnet". Agora tenho a mesma intenção que tinha antes, a de produzir um proferimento de uma frase em alemão, mas também tenho uma intenção de significado. Qual é a intenção de significado? Nossa tentação natural é dizer que a intenção de significado é que realmente está chovendo quando profiro a frase "Es regnet". Mas isso não está correto, porque é possível dizer alguma coisa e querer dizer o que se está dizendo, e ainda assim não estar sendo sincero. Para resumir, é possível mentir. Portanto, precisamos de uma explicação das intenções de significado que mostre como eu posso dizer alguma coisa e querer dizer aquilo, e na qual minha intenção de significado pode ser a mesma quer eu esteja mentindo, quer sendo sincero.

Em nossa explicação da intencionalidade, vimos que os estados intencionais têm condições de satisfação. A intenção de significado é a intenção de que o proferimento de alguém tenha condições de satisfação adicionais. Mas, uma vez que o proferimento em si é a condição de satisfação da intenção de fazer o proferimento, a intenção de significado equivale à intenção de que as condições de satisfação, ou seja, o próprio proferimento, tenham condições de satisfação, ou seja, nesse caso, condições de verdade. A intenção que tenho quando digo "Es regnet", e quero dizer isso, é que meu proferimento "Es regnet" tenha condições de verdade -e assim, quando digo e quero dizer isso, estou comprometido com a sua verdade. Esse ponto revela se estou mentindo ou não. Tanto aquele que mente quanto aquele que fala a verdade têm um compromisso com dizer a verdade. A diferença é que o mentiroso não respeita seu compromisso. Portanto, a intenção de significado equivale à intenção de que, quando eu disser "Es regnet", além da condição de satisfação da minha intenção de fazer esse proferimento, o próprio proferimento tenha condições de satisfação. Quando digo alguma coisa e quero dizer aquilo, estou comprometido com a verdade do que digo. E isso acontece quer eu esteja sendo sincero, quer insincero.

 

Significado e comunicação

Até agora, falei principalmente sobre a intenção de significado. Mas, é claro, se estou realmente respondendo a uma pergunta sobre o tempo, tenho outra intenção que não a de que meu proferimento seja significativo, no sentido de ter condições de verdade e outras condições de satisfação. Se estou respondendo a uma pergunta, tenho a intenção de comunicar uma resposta ao ouvinte. A intenção de falar com palavras de forma significativa não deve ser confundida com a intenção de comunicar um significado a um ouvinte. Normalmente, a finalidade da fala é comunicar-se com um ouvinte, mas a intenção de comunicar não é idêntica à intenção de significado - a intenção de que o proferimento tenha condições de verdade ou outras condições de satisfação.

Então, o que é a intenção de comunicação? Ao responder a essa pergunta, tomarei emprestado e revisarei algumas das ideias de Paul Grice 2. Grice viu corretamente que, quando nos comunicamos com outras pessoas, conseguimos produzir nelas um entendimento fazendo-as reconhecer nossa intenção de produzir esse entendimento. A comunicação é uma ação humana peculiar, no sentido de que conseguimos produzir um efeito pretendido no ouvinte fazendo-o reconhecer a intenção de produzir esse efeito específico. Isso geralmente não acontece com a ação humana. Em geral, não somos bem-sucedidos em nossas ações simplesmente fazendo com que outras pessoas reconheçam o que estamos tentando fazer. Não posso, por exemplo, vencer uma corrida ou me tomar presidente dos Estados Unidos simplesmente fazendo com que as pessoas reconheçam minha intenção de vencer a corrida ou de me tomar presidente. No entanto, quando estou tentando dizer a alguém que está chovendo, consigo dizer-lhe isso tão logo a pessoa reconheça que estou tentando lhe dizer alguma coisa, e o que exatamente estou tentando lhe dizer. Posso, por exemplo, dizer-lhe que está chovendo simplesmente fazendo-a reconhecer minha intenção de lhe dizer que está chovendo.

Como isso funciona? Quando tenho a intenção de comunicar, tenho a intenção de produzir entendimento. Mas o entendimento vai consistir na compreensão do meu significado. Assim, a intenção de comunicar é a intenção de que o ouvinte reconheça meu significado, ou seja, que me compreenda. Mas o fato de eu dizer "Es regnet" e querer dizer isso, e ter a intenção de comunicar a um ouvinte que está chovendo, consiste na intenção de que o ouvinte reconheça minha intenção de significado. A intenção de comunicação é a intenção de produzir no ouvinte o conhecimento do meu significado, fazendo-o reconhecer minha intenção de produzir nele esse conhecimento. Assim, galgando os degraus do proferimento "Es regnet", meu significado como falante e minha intenção de comunicação equivalem ao seguinte: eu profiro a frase "Es regnet" com as intenções de que

1. Eu esteja proferindo corretamente uma frase em alemão com seu significado habitual;

2. meu proferimento tenha condições de satisfação, ou seja, a condição de verdade de estar chovendo; e

3. o ouvinte reconheça a intenção 2, e deva reconhecer a intenção 2 por meio de seu reconhecimento da intenção 1 e de seu conhecimento das convenções da língua alemã.

Se o ouvinte reconhecer as intenções 1 e 2, conseguirei realizar a intenção 3. Ou seja, se o ouvinte conhece a língua, reconhece minha intenção de produzir uma frase nessa língua e reconhece que não estou simplesmente pronunciando a frase mas também que quero dizer aquilo, então conseguirei comunicar ao ouvinte que está chovendo.

Reparem que essa análise independe da questão de eu estar dizendo a verdade ou mentindo, de eu estar sendo sincero ou insincero. Conseguirei afirmar que está chovendo mesmo que esteja mentindo. Esse é um ponto-chave: mesmo que eu esteja mentindo, ao dizer alguma coisa e querer dizer aquilo, estou comprometido com a verdade do que estou dizendo. Assim, posso ter um compromisso com a verdade mesmo que, no fundo, acredite que o que estou dizendo é falso.

 

Vários tipos de atos de fala

Na análise da linguagem que apresentei, a unidade básica é o ato de fala. Forneci diversos exemplos de atos de fala neste mesmo capítulo: afirmações, ordens, promessas e outros. Mas isso levanta a questão de quantos tipos de atos de fala, quantos tipos de atos ilocucionários, existem. Quantos tipos de condições de satisfação podemos impor às condições de satisfação? A linguagem tem uma enorme variedade de usos. Podemos inventar piadas, contar histórias, dar instruções e receitas, produzir explicações científicas ou fórmulas matemáticas elaboradas ou escrever poemas ou obras de ficção. No entanto, parece-me que, no campo de ação do ato ilocucionário, existe um número restrito de coisas que podemos fazer. Já que, como vimos, a estrutura do ato ilocucionário é F(p), onde F designa a força ilocucionária e p marca o conteúdo proposicional - a pergunta "Quantos tipos de atos ilocucionários existem?" equivale à pergunta "Quantos tipos de F existem?" O conteúdo proposicional pode ser infinitamente diverso, mas podemos, por assim dizer, decompô-lo, porque o mesmo conteúdo proposicional pode ocorrer em diferentes tipos de atos ilocucionários, como foi mostrado em nossa discussão anterior. Portanto, agora reduzimos a pergunta a "Quantos tipos de F existem?" É possível que possamos começar a responder examinando os diferentes verbos que designam atos ilocucionários em inglês, verbos como afirmar, avisar, comandar, prometer, rogar, rezar, contratar, garantir, desculpar-se e reclamar. Mas, se fizermos isso, encontraremos uma impressionante quantidade de verbos, o que dá a impressão de um grande número de atos ilocucionários.

Uma maneira de superar esse problema é tentar focalizar alguns aspectos comuns. Para fazer isso, preciso introduzir a noção de "finalidade ilocucionária". A finalidade ilocucionária de um ato de fala será sua finalidade ou propósito em virtude de ele ser um ato daquele tipo. Assim, por exemplo, uma pessoa pode dar uma ordem por uma série de razões, e com vários graus de urgência diferentes, mas, na medida em que o ato é corretamente descrito como uma ordem, então, qua ordem, ele equivale a uma tentativa de fazer com que o ouvinte faça alguma coisa. Quando uma pessoa faz uma promessa, ela pode fazer uma promessa por uma grande variedade de razões, e com muitos graus de ênfase diferentes. No entanto, já que é uma promessa, ela equivale a um compromisso ou obrigação do falante de fazer alguma coisa para o ouvinte. O leitor cuidadoso poderá reparar que a expressão "equivale a", que tanto usamos no Capítulo 5, reapareceu em nossa discussão sobre os atos ilocucionários, e isso não é um acidente. A noção de finalidade ilocucionária é a noção daquilo a que equivale um proferimento, conforme determinado pelas regras constitutivas dos atos de fala. Assim, a realização de . atos ilocucionários impõe um tipo de função de status.

Além disso, a finalidade ilocucionária de um ato de fala está relacionada à teoria da intencionalidade que explicamos no Capítulo 4. A finalidade ilocucionária determina tanto a direção de ajuste quanto o estado intencional expresso na realização do ato de fala. Assim, por exemplo, se eu fizer uma promessa, então necessariamente expresso a intenção de fazer o que prometi fazer. Se eu prometer ir à sua festa, então necessariamente expresso uma intenção de ir à sua festa. Ou seja, expresso um estado intencional com o mesmo conteúdo proposicional do próprio ato de fala, e esse estado intencional, que eu tenho a intenção de ir à sua festa, é a condição de sinceridade do ato de fala. Então, só para resumir, a noção de finalidade ilocucionária traz consigo, automaticamente, duas outras noções - a noção de direção de ajuste e a noção de um estado intencional que constitui a condição de sinceridade do ato de fala.

Agora, voltemos atrás e reiteremos nossa questão. "Quantos tipos de F existem, ou seja, quantos tipos de atos ilocucionários existem?" pode ser reduzida à pergunta "Quantos tipos de finalidade ilocucionária existem?" Se tomarmos a noção de finalidade ilocucionária e as noções de condição de sinceridade expressa e de direção de ajuste que ela traz consigo como nossas ferramentas básicas de análise, então parece-me que existe um número restrito de coisas que podemos fazer ao realizar atos ilocucionários, e que elas são determinadas pela estrutura da mente. Em poucas palavras, uma vez que a mente cria significado impondo condições de satisfação a condições de satisfação, então os limites do significado são estabelecidos pelos limites da mente. E quais são esses limites?

Existem cinco, e apenas cinco, tipos de finalidade ilocucionária:

1. Em primeiro lugar, existe a finalidade ilocucionária assertiva. A finalidade dos atos ilocucionários assertivos é comprometer o ouvinte com a verdade da proposição. É apresentar a proposição como um representante de um estado de coisas no mundo. Alguns exemplos são afirmações, descrições, classificações e explicações. Todas as assertivas têm a direção de ajuste palavra-mundo, e a condição de sinceridade das assertivas é sempre a crença. Toda assertiva é a expressão de uma crença. O teste mais simples para identificar as assertivas é perguntar se o proferimento pode ser literalmente verdadeiro ou falso. Uma vez que as assertivas têm a direção de ajuste palavra-mundo, elas podem ser verdadeiras ou falsas.

2. A segunda finalidade ilocucionária é a diretiva. A finalidade ilocucionária das diretivas é tentar fazer com que o ouvinte se comporte de tal maneira que seu comportamento corresponda ao conteúdo proposicional da diretiva.

Exemplos de diretivas são ordens, comandos e pedidos. A direção de ajuste é sempre mundo-palavra, e a condição de sinceridade psicológica expressa é sempre o desejo. Toda diretiva é a expressão de um desejo de que o ouvinte execute o ato desejado. Diretivas como ordens e pedidos não podem ser verdadeiras ou falsas, mas podem ser obedecidas, desobedecidas, acatadas, concedidas, negadas etc.

3. A terceira finalidade ilocucionária é a compromissiva. Toda compromissiva é um compromisso da parte do falante de agir da maneira representada no conteúdo proposicional. Exemplos de compromissivas são promessas, votos, juramentos, contratos e garantias. Uma ameaça também é uma compromissiva mas, ao contrário dos outros exemplos, vai contra os interesses do ouvinte e não a seu favor. A direção de ajuste das compromissivas é sempre mundo-palavra e a condição de sinceridade expressa é sempre a intenção. Toda promessa ou ameaça, por exemplo, é a expressão da intenção de fazer alguma coisa. Promessas e votos, assim como ordens e comandos, não podem ser verdadeiros ou falsos, mas podem ser realizados, mantidos ou quebrados.

4. O quarto tipo de finalidade ilocucionária é a expressiva. A finalidade ilocucionária da expressiva é simplesmente expressar a condição de sinceridade do ato de fala. Exemplos de expressivas são desculpas, agradecimentos, felicitações, boas-vindas e condolências. Nas expressivas, o conteúdo proposicional tem normalmente a direção de ajuste nula, porque a verdade do conteúdo proposicional é simplesmente tida como certa. Se eu disser "Eu peço desculpas por ter batido em você" ou "Parabéns por ter ganhado o prêmio", parto do pressuposto de que bati em você ou de que você ganhou o prêmio, pressupondo, assim, uma correspondência entre o conteúdo proposicional e a realidade. Mas a condição de sinceridade das expressivas varia segundo o tipo de expressiva. Assim, um pedido de desculpas é sincero se o falante estiver genuinamente arrependido daquilo por que está se desculpando. Congratulações são sinceras se o falante estiver sinceramente feliz por aquilo por que está congratulando o ouvinte.

5. O último tipo de finalidade ilocucionária é o das declarações. Em uma declaração, a finalidade ilocucionária é provocar uma mudança no mundo, representando-o como tendo sido mudado. Performativos, assim como outros tipos de declarações, criam situações pelo simples fato de representá-las como tendo sido criadas. Os exemplos prediletos são proferimentos como "Eu vos declaro marido e mulher", "A guerra está declarada", "Você está despedido" e "Eu peço demissão". Nesses casos, temos uma direção de ajuste dupla, porque mudamos o mundo, alcançando assim a direção de ajuste mundo-palavra, ao representá-lo como se houvesse sido mudado, alcançando assim a direção de ajuste palavra-mundo. As declarações se destacam entre os atos de fala pelo fato de só fazerem mudanças no mundo em virtude da realização bem-sucedida do ato de fala. Se eu declará-los marido e mulher e for bem-sucedido, ou declarar guerra, então uma situação que não existia antes no mundo passa a existir. Em geral, tais declarações só são possíveis em razão da existência de instituições extralinguísticas do tipo que descrevemos no Capítulo 5.

Reparem que se pode executar um ato de fala de um dos outros tipos, como prometer ou ordenar, simplesmente declarando que o estamos executando. Assim, no proferimento performativo "Prometo vir visitá-lo", o falante primeiro faz uma declaração. Por meio dessa declaração, ele promete. No entanto, em virtude desse fato, seu proferimento cria uma promessa. Já que o fato de ele dizer "Eu prometo" cria a situação que ele representa, ou seja, a situação de o falante estar prometendo, ela é tanto uma promessa quanto uma declaração de que aquilo é uma promessa. Assim, ela tem os três tipos de finalidade ilocucionária - declarativa, compromissiva e assertiva.

Nem todos os atos de fala são realizados pelo proferimento de frases cujo significado literal expressa o significado pretendido pelo falante. Pode-se pedir a alguém para passar o sal dizendo literalmente "Peço-lhe que me passe o sal", ou "Passe o sal", mas diz-se mais frequentemente "Você pode me passar o sal?", "Você poderia me passar o sal?", "Eu gostaria que você me passasse o sal", "Você me passaria o sal?", "Você pode alcançar o sal?" e assim por diante. Tais casos, nos quais alguém realiza um ato de fala indiretamente ao realizar outro diretamente, são chamados de "atos de fala indiretos". Outros tipos de casos em que o significado da frase difere sistematicamente do significado pretendido pelo falante incluem a metáfora, a metonímia, a ironia, o sarcasmo, a hipérbole e o eufemismo.

Todos esses tipos de atos ilocucionários já estão prefigurados em nossa discussão sobre a intencionalidade. Os limites do significado são os limites da intencionalidade, e o fato de haver um número limitado de coisas que se pode fazer com a linguagem é uma consequência de nossa análise da intencionalidade. Existem apenas três direções de ajuste em nossa análise da intencionalidade - mente-mundo, que é característica das assertivas; mundo-mente, que é característica das diretivas e das compromissivas; e a direção nula, que é característica das expressivas. Por que então temos dois tipos diferentes de atos de fala para uma mesma direção de ajuste - mundo-palavra? Podíamos decidir colocar promessas e ordens juntas. Podíamos pensar em uma promessa como uma ordem que alguém dá a si mesmo, e em uma ordem como uma promessa imposta ao ouvinte. No entanto, a obrigação assumida pelo falante na compromissiva é tão especial, e o falante e o ouvinte são tão importantes para toda a situação do ato de fala em geral, que penso ser útil distinguir a direção de ajuste mundo-palavra baseada no ouvinte da direção de ajuste mundo-palavra baseada no falante. Além disso, a linguagem cria uma possibilidade que as mentes humanas individuais não possuem por si sós, que é a de combinar as duas direções de ajuste na execução da declaração. Não podemos criar um estado de coisas pensando nele, mas, de acordo com nossa análise da realidade institucional no capítulo anterior, podemos ver como é possível criar a realidade institucional por meio do proferimento performativo. Podemos criar um estado de coisas representando-o como havendo sido criado. Isso combina as direções de ajuste palavra-mundo e mundo-palavra. Por exemplo, se o presidente da reunião diz "A reunião está adiada", esse proferimento, em si, cria o estado de coisas de a reunião estar adiada, representando-a como estando adiada. Para dar um exemplo mais grandioso, quando o Congresso declara guerra, esse órgão cria um estado de guerra pelo simples fato de dizer que a guerra existe.

Assim, acredito que nossa análise, se compreendida corretamente, mostra as possibilidades e as limitações da linguagem.

 

Regras constitutivas e simbolismo

Ao longo de todo o livro, falei como se a intencionalidade fosse uma coisa e a linguagem, outra, mas é evidente que, para seres humanos reais, as possibilidades de nossa intencionalidade são muito ampliadas pela aquisição de uma linguagem. Os animais e as crianças que ainda não adquiriram a linguagem podem ter formas primitivas de intencionalidade. Podem ter crenças, desejos, percepções e intenções. Mas, uma vez que a criança começa a adquirir a linguagem, as capacidades de sua intencionalidade aumentam muito e, por efeito cumulativo, uma maior intencionalidade aumenta a compreensão da linguagem, que leva a um aumento ainda maior da intencionalidade. Qualquer livro didático sobre o desenvolvimento psicolinguístico da criança ilustra esse fenômeno. O que temos, de fato, não é apenas a mente de um lado e a linguagem do outro, mas mente e linguagem enriquecendo uma à outra até que, para seres humanos adultos, a mente esteja linguisticamente estruturada.

Não devemos pensar que os falantes simplesmente têm pensamentos e então os transformam em palavras. Isso seria uma simplificação grosseira. Para todos os pensamentos, com exceção dos mais simples, é preciso que se tenha uma linguagem para poder pensá-los. Sem palavras, eu posso acreditar que está chovendo, ou sentir fome, mas não posso acreditar que choverá com mais frequência no ano que vem do que neste ano, ou que minha fome é causada mais por uma deficiência de açúcar do que por uma real ausência de comida em meu sistema, sem palavras ou instrumentos simbólicos equivalentes com os quais ter esses pensamentos. A criança desenvolve as capacidades de pensar e falar simultaneamente. Como? A criança começa com uma intencionalidade pré-linguística simples. Ela então aprende um vocabulário simples que lhe permite ter uma intencionalidade mais rica, o que por sua vez permite um vocabulário mais rico, o que por sua vez permite uma intencionalidade mais rica - e assim por diante, em um processo cumulativo. Para todos os pensamentos, com exceção dos mais simples, a criança precisa de uma linguagem para pensar o pensamento, e para todos os atos de fala, com exceção dos mais simples, a criança precisa de uma linguagem convencional com frases que tenham significados de frases convencionais para poder realizar o ato de fala.

Tanto a imposição de um significado convencional a palavras quanto a imposição de significado do falante na realização de um ato de fala são casos de imposição de funções de status no sentido que expliquei no capítulo anterior. Tanto no significado das palavras quanto do falante, os usuários da linguagem impõem uma função a um fenômeno físico, seja ele um tipo de letra ou uma rajada acústica. Eles fazem isso impondo uma função de status segundo a fórmula "X equivale a Y em C". Tanto o significado convencional das palavras na frase "Está chovendo" quanto o significado do falante em uma determinada situação na qual o falante profere a frase, e quer dizer com isso que está chovendo, são casos de funções de status.

Esse fato, de que a linguagem também é uma questão de fatos institucionais, fará parecer que a linguagem é apenas mais uma instituição humana entre outras. Mas a linguagem é especial de maneiras que precisamos explicar. No final do Capítulo 5, prometi que explicaria o papel especial da linguagem na constituição de fatos institucionais. Acredito que a linguagem seja a instituição humana fundamental, no sentido de que outras instituições, como dinheiro, governo, propriedade privada, casamento e jogos, precisam da linguagem, ou pelo menos de formas de simbolismo semelhantes à linguagem, de uma maneira que a linguagem não precisa das outras instituições para sua existência.

Há muitos aspectos da linguagem, como a existência de verbos auxiliares modais, e a capacidade gerativa infinita da sintaxe, que não são os fenômenos que estou discutindo agora. O que estou discutindo agora é uma característica muito especial da linguagem, que chamo de "simbolização". Os seres humanos têm a capacidade de utilizar um objeto para personificar, representar, expressar ou simbolizar alguma outra coisa. É esse aspecto simbolizante básico da linguagem que considero uma pressuposição essencial dos fatos institucionais.

Eis o argumento para essa afirmação. Faz parte da definição das funções de status que a função não pode ser desempenhada unicamente em virtude dos aspectos físicos do objeto que tem a função de status. A faca e a cadeira podem cumprir suas respectivas funções físicas unicamente em virtude de suas características físicas, mas a pessoa ou o pedaço de papel não pode desempenhar as funções de status de presidente ou de dinheiro unicamente em virtude das características físicas do corpo humano ou do papel. As funções de status só podem ser desempenhadas em função da aceitação ou reconhecimento coletivo de algo como tendo aquela função. No entanto, se assim é, então os agentes envolvidos na aceitação ou reconhecimento coletivo devem ter uma maneira de representar para si mesmos o fato de o objeto ter a função de status. Por quê? Porque não há maneira de extrair a função de status Y apenas das características físicas de X. Para facas e cadeiras, sua capacidade de executar a função de facas e cadeiras está fundada na física, mas para dinheiro e presidentes não há nada no objeto X a não ser suas características de objeto do tipo X. A única maneira de chegar à função de status Y é representar o objeto X como tendo esse status.

Normalmente, representamos a função de status com palavras. Temos de ser capazes de pensar "Isso é dinheiro" ou "Ele é o presidente". Mas não queremos dizer que toda função de status tem de ser representada com palavras reais de línguas reais, porque é claro que palavras significativas são por si mesmas objetos com funções de status, e precisamos aceitar o fato de as palavras poderem ter significados sem que tenhamos de ter outras palavras com as quais representamos esses significados originais. De outro modo, teríamos uma regressão perversa ao infinito. Além disso, pode haver funções de status de culturas que não desenvolveram linguagens humanas completamente avançadas. Em tais casos, o próprio termo X é usado para simbolizar o status Y. Agora, e este é o ponto crucial, na medida em que usamos o termo X para representar o status Y, usamo-no simbolicamente, usamo-no como instrumento linguístico.

Considerem, por exemplo, a linha de pedras que funciona como fronteira. A linha de pedras é um símbolo indexado da fronteira. E, por "indexado", quero dizer apenas que as pedras representam a fronteira unicamente por sua própria presença. Elas representam a fronteira por estarem na fronteira. A linha de pedras funciona como um instrumento linguístico porque personifica ou representa a função de status da fronteira. De maneira análoga, as palavras desempenham o papel de significar expressando seus significados.

Portanto, o aspecto no qual a simbolização, nesse amplo sentido linguístico, é essencial para todos os fatos institucionais é que a mudança de X para Y na fórmula X equivale a Y em C já é uma mudança simbólica. A função de status Y pode ser representada por instrumentos simbólicos externos, como quando pensamos, em palavras, "Isto é meu" ou "Isto é uma nota de cinco dólares". Em casos extremos, podemos usar o próprio objeto X para representar a função de status Y, como no caso da linha de pedras que representa a fronteira.

É importante deixar absolutamente claro o que estou dizendo e o que não estou dizendo. Não estou dizendo que toda a realidade institucional é de algum modo textual ou significativa da maneira como frases e atos de fala são significativos. Isso seria um erro. Frases e atos de fala são significativos no sentido estrito de que têm uma semântica. Eles têm condições de verdade ou outros tipos de condições de satisfação. Mas dinheiro e presidentes não são significativos dessa maneira porque, por si mesmos, não têm condições de satisfação. O significado, no sentido estritamente semântico, intencional, é um aspecto especial de certos tipos de instrumentos institucionais, como frases e atos de fala, assim como mapas, gráficos e diagramas. Mas não é de maneira nenhuma universal.

O que estou dizendo é que a mudança que impõe funções de status a um termo X é essencialmente uma mudança simbólica, porque a função de status não pode ser baseada unicamente nas características físicas do termo X. O termo X pode gerar a função de status Y apenas se representarmos o termo X como tendo essa função de status.

Outro papel da linguagem no funcionamento da realidade institucional deve ser destacado. Muitas vezes, precisamos de algum instrumento que nos permita reconhecer um objeto como tendo uma função de status, embora o status seja invisível no próprio objeto. Para esse fim, usamos o que chamo de "indicadores de status". Exemplos óbvios são alianças de casamento, uniformes, crachás, passaportes e carteiras de motorista. Todos são linguísticos, embora nem todos utilizem palavras. Na verdade, são todos atos de fala no sentido que expliquei, por terem condições de satisfação. Usar uma aliança de casamento ou um uniforme da polícia é um ato de fala consagrado que diz "Eu sou casado" ou "Faço parte da polícia".

Descrevi este livro, no Capítulo 1, como uma tentativa de fazer uma modesta contribuição ao projeto intelectual da visão iluminista. Este livro é uma tentativa de explicar certos aspectos estruturais da mente, da linguagem e da realidade social, e explicar as relações de dependência lógica entre eles. Agora concluí essa tentativa. O livro parte da pressuposição de que vivemos em um mundo e que, dentro dos limites estabelecidos por nossos dotes evolutivos, esse mundo é inteligível para nós. Nesta seção final, não tentarei resumir o que disse, porque o livro todo é em grande parte um resumo de algumas ideias que já desenvolvi em outros lugares nas quatro últimas décadas.

Especialistas nos vários assuntos que discuti sentirão que omiti muitas coisas que estão no cerne de suas pesquisas nas respectivas disciplinas. Eles têm razão em sentir isso. Escrevi sobre as questões que me parecem mais importantes, e meu sentido de importância muitas vezes não está de acordo com a opinião geral. Não especialistas sentirão - ou pelo menos espero que sintam - que deve haver muito mais coisas a serem ditas sobre essas questões. De fato, apenas tateei as grandes áreas que discuti. Para, pelo menos, uma discussão mais detalhada sobre essas questões, recomendo ao leitor as obras citadas na seção "Sugestões para leituras complementares".

Dentre as muitas questões pertinentes que não discuti estão as da racionalidade, da liberdade humana e do valor social. Penso, na verdade, que esses não são três tópicos separados, mas sim aspectos diferentes do mesmo tópico. Este livro contém uma concepção implícita da racionalidade, diferente da concepção-padrão da racionalidade em nossa tradição filosófica, e espero desenvolvê-la com mais detalhes em outro livro.

Quero concluir toda essa discussão com algumas reflexões sobre a natureza da filosofia e como ela difere de outras áreas de pesquisa. É claro que não penso que exista uma linha divisória clara entre a filosofia e outras disciplinas. Na verdade, algumas vezes ouvi de profissionais qualificados que o que eu estava fazendo neste ou naquele livro não era realmente filosofia, mas sim linguística, ciência cognitiva ou alguma outra coisa.

Comecemos por contrastar a filosofia e a ciência. "Filosofia" e "ciência" não se referem a assuntos distintos da maneira que "história econômica", "química" e "filologia do romance" se referem a assuntos distintos porque, ao menos em princípio, tanto a filosofia como a ciência são assuntos universais. Ambas visam ao conhecimento e à compreensão. Quando o conhecimento se torna sistemático, e especialmente quando o conhecimento sistemático se toma seguro ao ponto de estarmos confiantes de que é conhecimento, por oposição a uma mera opinião, ficamos mais inclinados a chamá-lo de "ciência" e menos a chamá-lo de "filosofia". Grande parte da filosofia se preocupa com questões às quais não sabemos responder da maneira sistemática característica da ciência, e muitos resultados da filosofia são esforços para rever questões a ponto de tomá-las questões científicas. Neste livro, por exemplo, tentei fazer isso com o problema da consciência.

Essas relações entre filosofia e ciência explicam por que a ciência está sempre certa e a filosofia sempre errada, e por que nunca há progresso em filosofia. A partir do momento em que estamos confiantes de realmente possuir conhecimento e compreensão em alguma área, paramos de chamar isso de "filosofia" e começamos a chamar de "ciência" e, tão logo fazemos algum progresso definitivo, pensamos ter o direito de chamar isso de "progresso científico". Algo desse tipo vem acontecendo ao estudo dos atos de fala ao longo de minha vida intelectual. Ele está aos poucos passando a fazer parte das ciências da linguística, à medida que adquirimos mais confiança em nossos métodos e em nossos resultados.

Com início no século XVII, a área de conhecimento científico aumentou bastante à medida que desenvolvemos métodos sistemáticos de investigação da natureza. Isso deu a muitos pensadores a ilusão de que os métodos das ciências naturais, especialmente a física e a química, poderiam ser aplicados de maneira genérica para resolver os problemas que mais nos intrigam. Tal otimismo se revelou injustificado, e a maioria dos problemas filosóficos que preocupavam os filósofos gregos -problemas sobre verdade, justiça, virtude e a vida boa, por exemplo - ainda estão conosco.

Questões e investigações filosóficas tendem a ter três aspectos. Em primeiro lugar, como vimos em nossa comparação entre a filosofia e a ciência, grande parte da filosofia está preocupada com questões para as quais ainda não temos um método de resposta unânime. É por isso que, algumas vezes, as questões deixarão de ser filosóficas quando encontrarmos um método para respondê-las. Um bom exemplo disso é o problema da natureza da vida. Isso já foi um problema filosófico, mas deixou de sê-lo quando os avanços da biologia molecular nos permitiram desvendar o que parecia um grande mistério, transformando-o numa série de perguntas e respostas biológicas menores, manejáveis, específicas. Espero que algo semelhante venha a ocorrer com o problema da consciência. O fato de as questões filosóficas terem tendência a ser aquelas para que não há procedimento de solução geralmente aceito também explica por que não há uma opinião especializada unânime em filosofia.

O fato de não haver procedimentos universalmente aceitos para resolver problemas filosóficos não significa que valha tudo, que possamos dizer qualquer coisa ou que não haja padrão. Pelo contrário, é justamente a ausência de coisas como métodos laboratoriais nos quais se apoiar que força os filósofos a níveis ainda maiores de clareza, rigor e precisão. Em filosofia, não há substituto para, por um lado, uma combinação de sensibilidade original, imaginativa e, por outro, um rigor lógico, extremamente inteligente. Rigor sem sensibilidade é vazio, sensibilidade sem rigor é insignificante.

Um segundo aspecto das questões filosóficas é que elas tendem a ser o que eu chamo de questões "estruturais". Ou seja, tendem a lidar com a estrutura intelectual de nossas vidas, mais do que com as estruturas específicas dentro dessa estrutura maior. Assim, por exemplo, a pergunta "Qual é exatamente a causa da Aids?" não é uma pergunta filosófica, mas a pergunta "Qual a natureza da causalidade?" é. A primeira pergunta é investigada dentro de uma estrutura que toma a causalidade por pressuposto. O filósofo examina essa estrutura. Mais uma vez, a pergunta "O que Clinton diz é mesmo verdade?" não é uma pergunta filosófica. Mas a pergunta "O que é a verdade?" está no centro da filosofia.

Um terceiro aspecto das investigações filosóficas é que elas tendem, num sentido amplo, a tratar de questões conceituais. Quando perguntamos, num tom de voz filosófico, o que é verdade, justiça, virtude ou causalidade, não estamos fazendo perguntas que podem ser respondidas simplesmente por meio de uma boa observação do meio ambiente ou mesmo pela realização de uma série adequada de experiências no meio ambiente. Tais questões exigem, ao menos em parte, uma análise dos conceitos de "verdade", "justiça", "virtude" e "causa", e isso significa que o exame da linguagem é um instrumento essencial do filósofo, porque a linguagem é o veículo para a articulação de nossos conceitos.

Não é por acaso que esses três aspectos - impossibilidade de solução por métodos universalmente aceitos, estruturas como assunto de investigação e análise conceitua! como o primeiro passo essencial da investigação - tendem a andar juntos. Quando temos maneiras para resolver problemas de forma definitiva, as soluções geralmente são encontradas dentro de estruturas já aceitas nas quais o aparato conceitual é um pressuposto. Assim, em nosso exemplo anterior, quando buscamos a causa da Aids, partimos do pressuposto de que sabemos o que é uma doença e o que é uma causa, e temos métodos aceitos para descobrir a causa das doenças. Temos até mesmo uma teoria geral, a teoria dos germes das doenças, dentro da qual conduzimos a investigação. No entanto, quando perguntamos o que é a causalidade em geral, estamos esmiuçando uma estrutura vasta sem nenhuma metodologia experimental certa para nos guiar, e temos de começar lutando com o conceito comum de "causa" e a família de conceitos a ele relacionados - "efeito", "razão", "explicação" e assim por diante.

Neste livro, pesquisei a estrutura e as inter-relações entre mente, linguagem e sociedade - três estruturas encadeadas. Os métodos não são os das ciências empíricas, onde seria possível realizar experiências ou pelo menos pesquisas de opinião pública. Os métodos que emprego são descritos de forma mais adequada, pelo menos em seus estágios iniciais, como análise lógica ou conceitual. Tento encontrar os elementos constitutivos da consciência, da intencionalidade, dos atos de fala e das instituições sociais isolando-os e vendo como funcionam. No entanto, para dizer a verdade, até mesmo isso é uma distorção da metodologia que se pratica realmente. Na prática, uso qualquer arma que esteja a meu alcance e fico com a arma que funciona. Ao estudar os assuntos deste livro, por exemplo, leio livros cujos temas vão de ciência cerebral a economia. Algumas vezes, os resultados da investigação conduzem à rejeição completa do aparato conceitual existente. Assim, digo que não compreenderemos a relação entre o mental e o físico enquanto continuarmos a levar a sério o antigo aparato conceitual do dualismo, do monismo, do materialismo e todo o resto. O que proponho aqui é uma revisão conceitual, devido ao fato de os antigos conceitos não serem adequados aos fatos da maneira como os compreendemos atualmente, depois de um século de trabalho sobre o cérebro. Em outras áreas, como a ontologia do dinheiro ou da propriedade, por exemplo, temos de tratar nossos conceitos normais de forma muito mais conservadora, porque não existe realidade subjacente a uma realidade institucional socialmente criada, a não ser a capacidade dos seres humanos de tratar e considerar determinados fenômenos de determinadas maneiras, e o aparato conceituai é essencial para esse tratamento e essas considerações. Mas reparem que tais alegações sobre o que deve ser rejeitado e o que deve ser preservado vêm no final e não no começo da investigação. Assim, as próprias alegações são incapazes de fornecer liderança metodológica à investigação.

O objetivo da análise filosófica, em qualquer estudo teórico sério, é fornecer uma explicação teórica das áreas problemáticas ao mesmo tempo verdadeira, explicativa e geral. Neste livro, não quero apenas explicar uma série de fenômenos diversos, mas sim mostrar como se encaixam. Assim, meu objetivo - um objetivo, aliás, que não é compartilhado pela maioria dos filósofos contemporâneos -foi tentar avançar no sentido de obter uma teoria geral adequada.