Mente, Linguagem e Sociedade
Capitulo 1
Metafísica básica: realidade e verdade
A visão iluminista: a realidade e sua inteligibilidade
Da época das revoluções científicas do século XVII até as primeiras décadas do século XX, era possível para uma pessoa instruída acreditar que poderia vir a conhecer e compreender as coisas importantes sobre o funcionamento do universo. A partir da revolução de Copérnico, passando pela mecânica de Newton, pela teoria do eletromagnetismo e pela teoria da evolução de Darwin, o universo fazia certo sentido, tinha certa inteligibilidade, e estava se tornando ainda mais acessível pelo constante aumento do conhecimento e da compreensão. As pessoas instruídas podiam até mesmo sentir que o conhecimento científico era perfeitamente compatível com sua fé religiosa, e mesmo um acréscimo a ela. Essa crença exigia que se fizesse uma distinção entre dois reinos metafísicos - o mental ou espiritual, por um lado, e o físico ou material, por outro. A religião comandava o reino espiritual e a ciência o reino material. Essa distinção entre os reinos do corpo e da mente parecia justificar-se por si só; de fato, ela possuía uma longa história, e havia tido sua mais famosa formulação na obra de René Descartes, um filósofo que, sem dúvida, fez parte da revolução científica do século XVII. Até mesmo os grandes revolucionários "subversivos" do final do século XIX e do início do século XX, Sigmund Freud e Karl Marx, embora rejeitassem o dualismo cartesiano, consideravam que seu trabalho fazia parte do progresso da ciência conforme este havia sido concebido desde o século XVII. Freud pensava estar criando uma ciência da mente, Marx, uma ciência da história e da sociedade.
Em suma, houve um longo período na história da civilização ocidental em que se tomou por pressuposto que o universo era completamente inteligível e que éramos capazes de um entendimento sistemático de sua natureza. Uma vez que essas duas pressuposições encontraram expressão em uma série de afirmações clássicas do Iluminismo europeu, proponho chamá-las de "visão iluminista". O ápice dessa visão otimista ocorreu no final do século XIX, especialmente na Alemanha de Bismarck e na Inglaterra vitoriana, e dois de seus exemplos mais eloquentes foram Gottlob Frege, matemático e filósofo alemão, e Bertrand Russell, lógico e filósofo inglês.
A partir das primeiras décadas do século XX, um certo número de eventos, intelectuais e outros, veio desafiar e enfraquecer esse otimismo tradicional a respeito da natureza das coisas e de nossa capacidade de compreender essa natureza. Minha opinião é que o maior golpe psicológico no otimismo intelectual do século XIX não foi de modo algum um desenvolvimento intelectual, mas sim a catástrofe da Primeira Guerra Mundial. No entanto, houve também certo número de desafios puramente intelectuais à visão iluminista. Tanto a inteligibilidade do mundo real quanto nossa capacidade de compreender o mundo pareciam estar sendo atacadas por vários lados. Em primeiro lugar, a teoria da relatividade ameaçou nossas pressuposições mais fundamentais sobre espaço e tempo, e sobre matéria e energia. Por exemplo, como podemos compreender um universo onde, segundo Albert Einstein, se fôssemos até uma estrela praticamente à velocidade da luz e voltássemos dentro de dez anos, estaríamos dez anos mais velhos mas tudo na Terra teria envelhecido cem anos? Em segundo lugar, a descoberta dos paradoxos da teoria dos conjuntos parecia colocar em xeque a racionalidade da matemática, a cidadela da racionalidade por excelência. Se os fundamentos da matemática contêm uma contradição, então nada parece seguro. Como disse o próprio Frege ao ser confrontado com o paradoxo de Russell: "Sua descoberta da contradição me surpreendeu além do que as palavras podem expressar, e, como estou quase a ponto de dizer, deixaram-me paralisado, pois destruíram as bases sobre as quais eu pretendia construir a aritmética." Ela parece "minar não apenas as bases da minha aritmética, mas as únicas bases possíveis da aritmética como tal"1. Em terceiro lugar, a psicologia freudiana foi considerada não como uma porta de entrada para uma racionalidade melhorada, mas sim como uma prova da impossibilidade da racionalidade. Segundo Freud, a consciência racional é apenas uma ilha no oceano do inconsciente irracional.
Em quarto lugar, a prova da incompletude de Kurt Gödel parecia desferir outro golpe na matemática. Há afirmações verdadeiras em sistemas matemáticos que todos podem ver que são verdadeiras, mas que não se podem provar verdadeiras dentro desses sistemas. Antes de Gödel, parecia que o próprio significado de "verdadeiro" em matemática queria dizer "capaz de ser provado matematicamente". Em quinto lugar, e o pior de tudo segundo certas interpretações, a mecânica quântica parecia simplesmente inassimilável por nossas concepções tradicionais da determinação e da existência independente do universo físico. A mecânica quântica parecia mostrar que a realidade física, em seu nível mais fundamental, é indeterminada, e também que o observador consciente, no próprio ato de observar, está em parte criando a própria realidade que observa. Em sexto lugar, no final do século XX, a racionalidade da própria ciência foi atacada por autores como Thomas Kuhn e Paul Feyerabend, que argumentavam que a própria ciência estava corrompida pela arbitrariedade e pela irracionalidade. Kuhn é lembrado por ter dito que uma revolução científica importante não é apenas uma nova descrição da mesma realidade, mas que ela cria uma "realidade" diferente. "Depois de uma revolução", diz ele, "os cientistas trabalham num mundo diferente" 2. E Ludwig Wittgenstein, o filósofo mais influente do século XX, é considerado por muitos como aquele que mostrou que nosso discurso é uma série de jogos de linguagem mutuamente intraduzíveis e incomensuráveis. Não estamos praticando um grande jogo de linguagem, no qual existem padrões universais de racionalidade e onde tudo é inteligível para todo mundo, mas sim uma série de jogos de linguagem menores, cada um com seus próprios padrões internos de inteligibilidade.
Eu poderia continuar essa lista exaustiva. Por exemplo, vários antropólogos afirmaram que não existe uma racionalidade universalmente válida, mas sim que culturas diferentes têm racionalidades diferentes. Versões similares do relativismo se tomaram comuns nos movimentos intelectuais coletivamente conhecidos como "pós-modernismo". Os pós-modernistas se consideram desafiadores da visão iluminista.
Só para pôr minhas cartas na mesa desde o início: eu aceito a visão iluminista. Penso que o universo existe de modo bastante independente de nossas mentes e que, dentro dos limites estabelecidos por nossas capacidades evolutivas, somos capazes de compreender sua natureza. Acredito que a verdadeira mudança desde o século XIX não foi que o mundo se tomou ininteligível de alguma maneira excitante e apocalíptica, mas que é muito mais difícil entendê-lo pela razão bastante chata e pouco excitante de que devemos ser mais espertos e saber muito mais. Por exemplo: para compreender a física contemporânea, é preciso saber muita matemática. Não tentarei responder a todos esses desafios à visão iluminista. Isso exigiria muitos livros. Em vez disso, uma vez que meu principal propósito é construtivo, afirmarei de forma sucinta que não me perturbo diante dos argumentos que acabo de apresentar, e em seguida, com mais detalhes, responderei aos diversos aspectos do desafio "pós-modernista".
Em primeiro lugar, a teoria da relatividade não é uma refutação da física tradicional, mas sim sua extensão. Ela exige que pensemos de modos contra-intuitivos sobre o espaço e o tempo, mas isso não é uma ameaça à inteligibilidade do universo. Em segundo lugar, os paradoxos lógicos, tanto os semânticos quanto os da teoria dos conjuntos, me parecem nada mostrar além de alguns erros filosóficos que podemos cometer. Assim como os famosos paradoxos de Zenão sobre o espaço, o tempo e o movimento não demonstram a irrealidade do espaço, do tempo e do movimento 3 do mesmo modo os paradoxos lógicos não mostram nenhuma contradição no centro da linguagem, da lógica e da matemática. Em terceiro lugar, a psicologia freudiana, qualquer que tenha sido sua contribuição definitiva para a cultura humana, não é mais levada a sério como teoria científica. Ela continua a existir como fenômeno cultural, mas poucos cientistas sérios acreditam que forneça uma explicação cientificamente consistente do desenvolvimento psicológico e da patologia humanos. Em quarto lugar, a prova de Gödel, de certo modo, sustenta a concepção racionalista tradicional que separa a ontologia (aquilo que existe) da epistemologia (o modo como conhecemos). A verdade é uma questão de correspondência com os fatos. Se uma afirmação é verdadeira, deve haver algum fato devido ao qual ela é verdadeira. Os fatos dependem daquilo que existe, da ontologia. Demonstrabilidade e verificação são uma questão de descoberta da verdade, e são, portanto, noções epistemológicas, mas não devem ser confundidas com os fatos que descobrimos. Gödel demonstra, de forma conclusiva, que a verdade matemática não pode ser identificada com a demonstrabilidade. Em quinto lugar, concordo que a mecânica quântica, segundo algumas interpretações, é um sério desafio para a visão iluminista, e não sou tecnicamente competente para fazer uma avaliação séria de seu significado. No entanto, quero distinguir entre, por um lado, a alegação de que a mecânica quântica mostra uma indeterminação na relação entre os níveis micro e macro, e por outro lado a alegação de que ela mostra que a realidade não tem uma existência independente dos observadores. Até onde sei, devemos simplesmente aceitar certo nível de indeterminação estatística nas relações entre micro e macro como um fato da realidade. Até onde posso ver, no entanto, não há nada nos resultados da mecânica quântica que nos force a chegar à conclusão de que o observador consciente cria, em parte, a realidade observada. Tais paradoxos não estão realmente nos resultados das experiências, mas sim nas várias interpretações4 dos resultados, e nada nos obriga a adotar interpretações tão paradoxais e contra-intuitivas, embora alguns físicos tenham aceitado essa interpretação. Em seguida, esforços no sentido de provar o relativismo da racionalidade - provar que todos os padrões de racionalidade são culturalmente relativos - acabam invariavelmente demonstrando o inverso. Por exemplo, para estabelecer o relativismo cultural, o antropólogo nos diz que os “nuer” consideram que irmãos gêmeos são pássaros, e que em certas cerimônias o pepino é uma cabeça de boi. No entanto, quando ele nos diz de que maneira os “nuers” explicam esses fatos, invariavelmente se revela que ele pode nos dizer como eles fazem sentido segundo os nossos padrões e, portanto, como podem fazer sentido para nós 5. Descobre-se que a aparente irracionalidade dentro de uma cultura tribal pode ser tomada inteligível segundo padrões universais de racionalidade.
Terei outras coisas a dizer mais tarde sobre Kuhn e os desafios pós-modernistas à visão iluminista.
Neste livro, quero usar o período contemporâneo de confusão como uma oportunidade de me lançar a uma empreitada filosófica muito tradicional para explicar vários fenômenos aparentemente diversos, de modo a demonstrar sua unidade subjacente. Não acredito que vivemos em dois mundos, o mental e o físico - e menos ainda em três mundos, o mental, o físico e o cultural -, mas sim em um só mundo, e quero descrever as relações entre algumas das muitas partes desse único mundo. Quero explicar a estrutura geral de várias partes mais enigmáticas da realidade do ponto de vista da filosofia. Especificamente, quero explicar alguns aspectos estruturais da mente, da linguagem e da sociedade, e então mostrar como eles se encaixam. Meu objetivo, portanto, é prestar uma modesta contribuição à visão iluminista.
Introdução à filosofia
Este projeto pode parecer equivocadamente ambicioso mas, em pelo menos um aspecto importante, este é um "livro introdutório" sobre filosofia: não se exige do leitor nenhum treinamento ou conhecimento filosófico prévio.
Livros sobre filosofia que são introdutórios neste sentido geralmente podem assumir duas formas e, uma vez que este não assume nenhuma delas, considero importante fazer, desde o início, a distinção entre ele e outros livros do gênero. O primeiro tipo de livro introdutório, e talvez o mais frequente, é o que apresenta ao leitor uma lista de problemas filosóficos famosos, como o livre arbítrio, a existência de Deus, o problema da mente-corpo, o problema do bem e do mal ou o problema do ceticismo e do conhecimento. Um bom exemplo recente deste tipo de livro é What Does lt All Mean?, de Thomas Nagel6. O segundo tipo de livro introdutório é uma curta história da disciplina. O leitor é apresentado a um breve resumo dos principais pensadores e doutrinas filosóficas, começando com os gregos pré-socráticos e terminando com alguma figura proeminente da atualidade, como Wittgenstein, ou algum movimento recente, como o existencialismo. O mais famoso livro desse tipo é provavelmente History of Westem Philosophy, de Bertrand Russell7. O livro de Russell não é um bom livro acadêmico, mas penso que contribuiu muito mais para a propagação do pensamento filosófico do que outras histórias mais cuidadosas, porque qualquer um é capaz de lê-lo com prazer e com ao menos alguma compreensão. Eu o li quando adolescente, e ele teve grande impacto sobre mim. Dizem que Jimmy Carter o mantinha em sua mesa-de-cabeceira quando era presidente.
Este livro não é um inventário de grandes questões, tampouco uma história da filosofia. Na verdade, é de um tipo que saiu de moda e que muitos bons filósofos considerariam impossível de ser escrito. É um livro sintético, já que tenta sintetizar diversas explicações de assuntos aparentemente sem relação, ou relacionados de forma marginal. Uma vez que vivemos em um só mundo, deveríamos ser capazes de explicar exatamente como as diferentes partes desse mundo se relacionam entre si, e como se juntam para formar um todo coerente. Quero enfatizar as palavras síntese e sintético porque fui formado - e geralmente me consideram parte desse grupo - por um grupo de filósofos que acreditam fazer aquilo que se chama "filosofia analítica". Filósofos analíticos decompõem questões filosóficas e analisam os elementos que as compõem. Fazem o que se chama de "análise lógica". Este livro contém bastante análise lógica, mas é também um livro onde relaciono as coisas umas com as outras. É uma síntese escrita por um analista. Com base em meus escritos anteriores, quero explicar como algumas partes essenciais da mente, da linguagem e da realidade social funcionam e como formam um todo coerente.
Tenho três objetivos distintos. Em primeiro lugar, quero expor uma série de reivindicações teóricas, tanto sobre a natureza da mente, da linguagem e da sociedade quanto sobre as relações que existem entre elas. Em segundo lugar, ao atingir o primeiro objetivo, quero exemplificar certo estilo de análise filosófica. A pesquisa filosófica tem semelhanças importantes, mas também dessemelhanças, com outras formas de pesquisa, como a pesquisa científica, e quero tomá-las claras no decorrer dessa discussão. Em terceiro lugar, desejo fazer, de passagem, por assim dizer, uma série de observações sobre a natureza dos enigmas e dos problemas filosóficos. Para expor esses três pontos de forma mais sucinta: quero fazer filosofia, ao fazer filosofia quero ilustrar a maneira de fazê-lo, e quero fazer algumas observações sobre os problemas especiais ligados ao fato de fazer filosofia. No final do livro, apresento algumas conclusões gerais sobre a natureza da filosofia.
Se eu tiver êxito em minhas ambições descritivas, quase tudo o que disser deve soar obviamente verdadeiro, tão óbvio, na verdade, que o inocente leitor filosófico - o leitor a quem este livro é destinado- se perguntará algumas vezes: por que ele está nos dizendo isso? A resposta é que cada afirmação que faço, mesmo a mais óbvia, será, como tem sido normalmente há séculos, motivo de controvérsia e mesmo de raiva. Por que isso acontece? Por que, quando começamos a fazer filosofia, somos quase inexoravelmente levados a negar coisas que todos sabemos serem verdadeiras - por exemplo, que existe um mundo real, que podemos ter certos tipos de conhecimento sobre esse mundo, que afirmações são geralmente verdadeiras se correspondem a fatos do mundo, e falsas se não o fazem? Wittgenstein pensava que o erro filosófico era provocado em primeiro lugar por uma má compreensão dos mecanismos da linguagem, e também por nossa tendência à generalização exagerada e à aplicação dos métodos da ciência em áreas para as quais eles não são apropriados. Penso que estas são, de fato, algumas das causas do erro filosófico - mas apenas algumas. Apontarei algumas outras à medida que avançarmos, outras que são mais repreensíveis do que as razões citadas por Wittgenstein, tais como o auto-engano e a vontade de potência.
De qualquer maneira, vale a pena dizer aquilo que parece óbvio porque o que parece óbvio geralmente só parece ser assim depois de ter sido dito. Antes de ter sido dito, o que precisa ser dito não é óbvio. Portanto, este livro pode dar a impressão de que os estou conduzindo por uma estrada plana e aberta. Isso é uma ilusão. Estamos em uma trilha estreita no meio de uma floresta. Meu método de exposição é apontar o caminho e então apontar as partes da floresta que devemos evitar. Ou, para dizer a mesma coisa de um modo que parece mais pretensioso do que é minha intenção, tento afirmar a verdade e depois apresentar as falsidades que competem com ela, e que conferem à afirmação da verdade muito de seu interesse filosófico.
As posições-padrão
Na maioria das principais questões filosóficas, existe aquilo que poderíamos chamar, empregando uma metáfora usada para computadores, de posição-padrão. Posições-padrão são as opiniões que temos antes da reflexão, de modo que qualquer desvio delas exige um esforço consciente e um argumento convincente. Eis as posições-padrão para algumas questões principais:
• Há um mundo real que existe independente de nós, independente de nossas experiências, pensamentos, linguagem.
• Temos acesso perceptivo direto a esse mundo por meio de nossos sentidos, especialmente o tato e a visão.
• As palavras de nossa linguagem, palavras como coelho ou árvore, têm em geral significados razoavelmente claros. Por causa de seus significados, podem ser usadas para nos referirmos aos objetos reais do mundo e para falarmos sobre eles.
• Nossas afirmações são, em geral, verdadeiras ou falsas dependendo de corresponderem ao modo como as coisas são, ou seja, aos fatos do mundo.
• A causalidade é uma relação real entre objetos e estados de coisas do mundo, uma relação pela qual um fenômeno, a causa, provoca o outro, o efeito.
Em nossa vida diária, esses pontos de vista são tão aceitos que penso ser enganoso descrevê-los como "pontos de vista" - ou hipóteses, ou opiniões. Por exemplo, não é minha opinião que o mundo real existe, da maneira que é minha opinião que Shakespeare era um grande dramaturgo. Essas pressuposições geralmente aceitas fazem parte do que chamo de Pano de Fundo de nosso pensamento e linguagem. Uso maiúsculas para que fique claro que estou empregando o termo quase como se fosse um termo técnico, e mais adiante explicarei seu significado com maiores detalhes.
Grande parte da história da filosofia consiste em ataques a posições-padrão. Os grandes filósofos muitas vezes são famosos por rejeitarem aquilo que todo mundo aceita. O ataque característico começa apontando os enigmas e paradoxos da posição-padrão. Aparentemente, não podemos adotar a posição-padrão nem acreditar em uma série de outras coisas em que gostaríamos de acreditar. Portanto, a posição-padrão deve ser abandonada e substituída por algum ponto de vista novo e revolucionário. Alguns exemplos famosos são a refutação por David Hume da ideia de que a causalidade é uma relação real entre eventos no mundo, a refutação pelo bispo George Berkeley do ponto de vista segundo o qual um mundo material existe independentemente das percepções que temos dele e a rejeição de Descartes, bem como de muitos outros filósofos, do ponto de vista segundo o qual podemos ter um conhecimento perceptivo direto do mundo. Mais recentemente, presume-se que Willard Quine tenha refutado o ponto de vista segundo o qual as palavras, em nossa linguagem, têm significados determinados. E vários filósofos pensam haver refutado a teoria da verdade como correspondência -o ponto de vista segundo o qual, se uma afirmação é verdadeira, geralmente o é porque existe algum fato, situação ou estado de coisas no mundo que a toma verdadeira.
Acredito que, em geral, as posições-padrão são verdadeiras, e que os ataques contra elas são equivocados. Penso que este é certamente o caso para todos os exemplos que acabo de apresentar. É pouco provável que as posições-padrão tivessem sobrevivido durante séculos, às vezes durante milênios, aos percalços da história da humanidade se fossem tão falsas quanto os filósofos as pintam. Mas nem todas as posições-padrão são verdadeiras. Talvez a mais famosa posição-padrão seja a de que cada um de nós é formado por duas entidades separadas, um corpo de um lado e uma mente ou alma do outro, e que essas duas entidades estão juntas durante nossas vidas, mas são independentes no sentido de que nossas mentes ou almas podem se separar de nossos corpos e continuar a existir como entidades conscientes mesmo depois de nossos corpos serem totalmente aniquilados. Esse ponto de vista se chama "dualismo". Penso que ele é falso, e direi por que no Capítulo 2. Em geral, no entanto, as posições-padrão têm mais chances de estarem certas do que suas alternativas, e é um fato triste na minha profissão, embora ela seja maravilhosa, que os filósofos mais famosos e mais admirados sejam muitas vezes aqueles que têm as teorias mais absurdas.
É tentador pensar que o que venho chamando de posições-padrão é o que o senso comum chamaria de "senso comum". Acho que isso é um erro. O "senso comum" não é uma noção muito clara mas, da maneira como a entendo, o senso comum é basicamente uma questão de crenças amplamente difundidas e geralmente inquestionadas. Embora não haja linhas divisórias claras, o que venho chamando de posições-padrão é muito mais fundamental do que o senso comum. Trata-se, creio, de uma questão de bom senso que, se queremos que as pessoas sejam gentis conosco, é melhor que sejamos gentis com elas. Esse tipo de senso comum não tem opiniões sobre questões metafísicas básicas, como a existência do mundo externo ou a realidade da causalidade. O senso comum é, na maioria das vezes, uma questão de opiniões comuns. O Pano de Fundo é anterior a tais opiniões.
Algumas das mais interessantes questões em filosofia são aquelas oriundas de um conflito direto ou mesmo de uma incoerência lógica entre duas posições-padrão. Por exemplo, parece-me que as pessoas em geral pensam e falam como se supusessem que possuímos um livre-arbítrio de um tipo que toma impossível o determinismo causal, e ao mesmo tempo que todos os nossos atos têm explicações causais deterministas. No decorrer deste livro, examinaremos diversas posições-padrão e prestaremos especial atenção ao conflito entre essas posições. Neste capítulo, discuto um grupo de posições-padrão centradas nas noções de realidade e de verdade.
Realidade e verdade: a posição-padrão
Entre as posições-padrão que formam nosso Pano de Fundo cognitivo, talvez a mais fundamental seja um determinado conjunto de pressuposições sobre a realidade e a verdade. Geralmente, quando agimos, pensamos ou falamos, tomamos como pressuposto uma determinada maneira pela qual nossas ações, pensamentos e palavras se relacionam com as coisas externas a nós. Represento isso como uma série de afirmações, mas é enganoso sugerir que, quando falamos, pensamos ou agimos de certa maneira, estamos também defendendo uma teoria. A série de afirmações que apresento sobre a realidade e a verdade pode ser tratada como uma teoria, ou mesmo como um conjunto de teorias mas, quando o Pano de Fundo está funcionando - quando está, por assim dizer, cumprindo seu papel -, não precisamos de uma teoria. Tais pressuposições são anteriores à teoria.
De qualquer modo, quando agimos ou pensamos ou falamos das maneiras a seguir, tomamos muitas coisas como pressupostos. Quando batemos um prego, pedimos uma refeição para viagem em um restaurante, conduzimos uma experiência em laboratório ou nos perguntamos aonde iremos nas férias, tomamos os seguintes pressupostos: existe um mundo real totalmente independente dos seres humanos e do que estes pensam ou dizem sobre ele, e afirmações sobre objetos ou condições desse mundo são verdadeiras ou falsas dependendo se as coisas no mundo são realmente da maneira como dizemos que são. Portanto, por exemplo, se ao fazer planos para minhas férias eu me perguntar se a Grécia no verão é mais quente do que a Itália, simplesmente parto do pressuposto de que existe um mundo real que contém lugares como Grécia e Itália, e que estes têm temperaturas variadas. Além disso, se eu ler num guia de viagem que a temperatura média no verão é mais elevada na Grécia do que na Itália, sei que aquilo que o guia diz será verdadeiro se e somente se a temperatura média no verão for realmente mais elevada na Grécia do que na Itália. Isso porque parto do pressuposto de que tais afirmações só são verdadeiras se houver alguma coisa independente da afirmação em virtude da qual, ou por causa da qual, elas são verdadeiras.
Essas duas pressuposições de Pano de Fundo têm histórias longas e vários nomes famosos. A primeira, de que há um mundo real que existe independentemente de nós, eu gostaria de chamar de "realismo externo". "Realismo" porque afirma a existência do mundo real, e "externo" para distingui-lo de outros tipos de realismo -por exemplo, o realismo dos objetos matemáticos (realismo matemático) ou o realismo dos fatos éticos (realismo ético). O segundo ponto de vista, segundo o qual uma afirmação é verdadeira se as coisas no mundo são da maneira como a afirmação diz que são, é a chamada "teoria da verdade como correspondência". Essa teoria se encontra em uma série de versões diferentes, mas a ideia básica é que as afirmações são verdadeiras se correspondem, descrevem ou se encaixam à maneira como as coisas realmente são no mundo, e falsas se não o fazem.
Entre os fenômenos no mundo independentes da mente estão coisas como os átomos de hidrogênio, as placas tectônicas, os vírus, as árvores e as galáxias. A realidade de tais fenômenos é independente de nós. O universo existia muito antes de qualquer ser humano ou outro agente consciente aparecer, e estará aqui muito depois de todos nós havermos saído de cena.
Nem todos os fenômenos no mundo são independentes da mente. Por exemplo, a existência do dinheiro, da propriedade, do casamento, das guerras, dos jogos de futebol e das festas depende de agentes humanos conscientes de uma maneira que as montanhas, as geleiras e as moléculas não dependem.
Considero a reivindicação básica do realismo externo - a de que existe um mundo real total e absolutamente independente de todas as nossas representações, todos os nossos pensamentos, sentimentos, opiniões, linguagem, discurso, textos e assim por diante - tão óbvia, e na verdade uma condição tão essencial da racionalidade, e mesmo da inteligibilidade, que fico de certa forma embaraçado por ter de levantar essa questão e discutir os vários desafios a esse ponto de vista. Por que alguém em pleno juízo desejaria atacar o realismo externo? Bem, essa é, na verdade, uma questão complicada, que examinarei com detalhes adiante. Aqui, no entanto, desejo observar que os ataques ao realismo externo não são isolados. Filosoficamente, eles têm tendência a caminhar junto com os desafios a outros aspectos de nossas pressuposições de Pano de Fundo que também são posições-padrão. Junto com o realismo, pensamos geralmente que nossos pensamentos, palavras e experiências se relacionam diretamente com o mundo real. Isto é, partimos do pressuposto de que, quando olhamos para objetos como árvores e montanhas, nós geralmente os percebemos; que, quando falamos, normalmente usamos palavras que se referem a objetos em um mundo que existe independentemente de nossa linguagem; e que, quando pensamos, em geral pensamos sobre coisas reais. Além disso, como mencionei antes, o que dizemos sobre tais objetos é verdadeiro ou falso na medida em que corresponder ou não à maneira como as coisas são no mundo. Assim, o realismo externo é a base de outros pontos de vista filosóficos fundamentais frequentemente negados - a teoria referencial do pensamento e da linguagem, e a teoria da verdade como correspondência. Pensadores que desejem negar a teoria da verdade como correspondência ou a teoria referencial do pensamento geralmente se sentem pouco à vontade ao terem de aceitar o realismo externo. Muitas vezes, evitam completamente falar no assunto, ou então têm alguma razão mais ou menos sutil para rejeitá-lo. Na verdade, muito poucos pensadores dão um passo à frente e dizem que um mundo real que exista absolutamente, objetivamente e totalmente independente de nós não existe. Alguns o fazem. Alguns dão um passo à frente e dizem que o chamado mundo real é uma "interpretação social". Mas tais negações diretas do realismo externo são raras. A atitude mais típica dos antirrealistas é apresentar um argumento que pareça desafiar a posição-padrão conforme a descrevi, e então alegar que o desafio justifica alguma outra posição que desejam defender, alguma versão de pontos de vista chamados de diversas maneiras: construtivismo, pragmatismo, desconstrutivismo, relativismo, pós-modernismo e assim por diante.
A estrutura lógica da situação enfrentada pelo antirrealista é a seguinte:
1. Suponhamos que o realismo externo seja verdade. Nesse caso existe um mundo real, independente de nós e de nossos interesses.
2. Se existe um mundo real, então existe um modo como o mundo realmente é. Existe uma maneira objetiva como as coisas são no mundo.
3. Se existe uma maneira como as coisas realmente são, então deveríamos ser capazes de dizer como são.
4. Se podemos dizer como as coisas são, então aquilo que dizemos é objetivamente verdadeiro ou falso dependendo de nosso êxito ou fracasso em dizer como são.
Aqueles que apoiam formas de subjetivismo ou de relativismo e que desejariam rejeitar a quinta proposição ficam embaraçados diante da primeira, que sentem que deve ser rejeitada ou, como dizem às vezes, "questionada".
Os ataques ao realismo externo não são novidade. Eles existem há muitos séculos. Talvez o mais famoso seja a alegação do bispo Berkeley de que aquilo em que pensamos como objetos materiais são, na verdade, apenas conjuntos de "ideias", isto é, estados de consciência. E, de fato, essa tradição, chamada de "idealismo" ou de "fenomenismo", ainda persiste no século XX. Esse ponto de vista veio a ser chamado de "idealismo" porque afirma que a única realidade é aquela das "ideias", nesse sentido especial da palavra. Provavelmente, o idealista mais influente de todos os tempos foi Georg Friedrich Hegel. O princípio básico do idealismo é que a realidade, no final das contas, não é uma questão de algo existir independentemente de nossas percepções e de outras representações, mas sim que a realidade é constituída por nossas percepções e outros tipos de representações. Em vez de pensar que nossas afirmações da verdade dependem de uma realidade que existe de forma independente, fazemos com que a realidade dependa de nossas próprias representações. Acredito que a versão mais sofisticada da posição idealista pode ser encontrada na filosofia de Immanuel Kant, que pensava que aquilo que chamava de "mundo fenomenal" - o mundo das cadeiras, mesas, árvores, planetas e assim por diante - consistia inteiramente em nossas representações. Ele também pensava que realmente existe outro mundo por trás de nosso mundo fenomenal, um mundo de "coisas em si", mas que esse mundo nos é totalmente inacessível; não podemos sequer falar sobre ele com algum significado. O mundo empírico - ou seja, o mundo que todos experimentamos e no qual vivemos -é na verdade um mundo de aparência sistemática, um mundo de como as coisas nos parecem. Assim, do ponto de vista de Kant, como em outras formas de idealismo, o mundo das mesas, cadeiras, montanhas e meteoros, assim como o do espaço, tempo e causalidade, é na verdade um mundo de meras aparências. A diferença entre Kant e outros idealistas como Berkeley é que os outros pensavam que as aparências - ou, como Berkeley as chamava, "ideias" - são a única realidade, enquanto Kant pensava que, além do mundo das aparências, existe por trás das aparências uma realidade das coisas em si, da qual não podemos ter nenhum conhecimento.
Por que razão tantos filósofos competentes se sentiam atraídos pelo idealismo, em suas diferentes versões? Bem, uma das vantagens é que isso nos permite responder ao desafio do ceticismo, o ponto de vista segundo o qual não podemos realmente saber como o mundo é. De fato, historicamente, o idealismo surgiu da falta de resposta ao ceticismo do tipo proposto por Descartes. Todas as formas de ceticismo repousam sobre a alegação de que podemos ter todas as provas possíveis para qualquer alegação e, ainda assim, estar completamente errados. Podemos ter a prova mais perfeita possível da existência de um mundo externo e ainda assim estar sofrendo uma grande alucinação. Poderíamos estar sendo enganados por um demônio malvado, ou ser um cérebro numa cuba, ou estar sonhando e assim por diante*. O idealista resolve esse problema removendo o abismo entre a prova e a realidade de tal maneira que a prova coincida com a realidade. Toma-se, então, bastante simples distinguir os casos como ilusões, arco-íris, alucinações e assim por diante, que não são reais, daqueles que constituem o "mundo real". As ilusões são simplesmente aparências que não são apropriadamente coerentes com nossas outras aparências. Mas, tanto nas percepções ilusórias quanto nas não-ilusórias, não há nada além de nossas representações. Em suma, a sedução do idealismo é que o abismo que toma o ceticismo possível é removido. A realidade consiste em aparências sistemáticas.
Devo confessar, no entanto, que acredito que haja uma razão muito mais profunda para a persistente sedução de todas as formas de antirrealismo, e isso se tomou óbvio no século XX: ela satisfaz um desejo básico de poder. Parece demasiado repulsivo, de algum modo, que devamos estar à mercê do "mundo real". Parece ruim demais que nossas representações tenham de depender exclusivamente de nós. É por isso que pessoas que defendem versões contemporâneas do antirrealismo e rejeitam a teoria da verdade como correspondência em geral desdenham o ponto de vista oposto. Richard Rorty, por exemplo, se refere com sarcasmo à "Realidade como Ela É em Si" 8. Há cinquenta anos, o idealismo parecia estar morto, e na versão representada pela linha que vai de Berkeley a Hegel isso ainda é em grande parte verdadeiro. Recentemente, no entanto, surgiram novas formas de negação do realismo. Como diz Rorty: "Algo que se parecia muito com o idealismo começou a se tomar intelectualmente respeitável"9. Isso tem várias versões, cada uma mais obscura do que a outra, e surge com etiquetas como "desconstrução", "etnometodologia", "pragmatismo" e "construtivismo social". Certa vez, participei de um debate com um etnometodologista famoso que alegava ter mostrado que os astrônomos, na verdade, criam quasares e outros fenômenos astronômicos por intermédio de suas pesquisas e de seus discursos. "Imagine que fôssemos dar um passeio sob a luz da lua, e eu dissesse 'Que lua bonita hoje', e você concordasse. Estaríamos criando a lua?'', disse eu. "Sim", disse ele.
No final do século XX, as preocupações com o ceticismo têm sido menos fundamentais para motivar o antirrealismo. Não é fácil identificar o que move o antirrealismo contemporâneo mas, se precisássemos puxar um dos fios dentre os vários argumentos disponíveis, seria aquele algumas vezes chamado de "perspectivismo". O perspectivismo é a ideia de que nosso conhecimento da realidade nunca é "sem mediação", é sempre mediado por um ponto de vista, por um conjunto específico de predileções ou, pior ainda, por motivos políticos sinistros, como a fidelidade a um grupo ou ideologia política. E, já que nunca podemos ter um conhecimento não mediado do mundo, então talvez não haja um mundo real, ou talvez seja inútil até mesmo falar a respeito, ou quem sabe nem seja interessante. Assim, o antirrealismo no final do século XX é, de certo modo, tímido e evasivo. Quando digo "tímido" e "evasivo", quero contrastá-lo com a alegação bruta, crua, que estou fazendo a respeito da posição-padrão: a de que existe um mundo real totalmente independente de nós. Um mundo de montanhas, oceanos, galáxias e assim por diante. Observem alguns dos pontos de vista contrastantes a seguir. Hilary Putnam escreve: "Se é preciso usar uma linguagem metafórica, que a metáfora seja esta: a mente e o mundo, juntos, criam a mente e o mundo" 10 11 . Jacques Derrida escreve: "Não existe nada fora dos textos (li n 'y a pas de hors texte)".
Richard Rorty escreve: "Penso que a própria ideia de uma 'verdadeira questão' é algo sem o qual viveríamos melhor" 12. Nelson Goodman alega que criamos mundos estabelecendo determinados tipos de fronteiras preferencialmente a outros.
Agora, assim como criamos constelações escolhendo e agrupando determinadas estrelas preferencialmente a outras, também criamos estrelas estabelecendo determinados tipos de fronteiras preferencialmente a outros. Nada determina se o céu deve ser dividido em estrelas ou em outros objetos. Temos de criar o que encontramos, seja a Ursa Maior, Sirius, comida, gasolina ou um aparelho de som 13. O que devemos dizer em resposta a esses desafios à posição-padrão? Responderei a várias das formas de argumentação mais comuns, mas devo confessar desde o início que não penso que seja realmente a argumentação que está na origem do impulso de negar o realismo. Penso que, no que diz respeito à história cultural e intelectual contemporânea, os ataques ao realismo não são motivados por argumentos, porque estes são mais ou menos obviamente débeis, por razões que explicarei detalhadamente dentro de pouco tempo. Pelo contrário, conforme sugeri anteriormente, a motivação para negar o realismo é um tipo de vontade de potência, e ela se manifesta de diversas maneiras. Nas universidades, principalmente em várias disciplinas das ciências humanas, parte-se do princípio de que, se um mundo real não existe, então a ciência natural repousa sobre a mesma base das ciências humanas. Ambas lidam com interpretações sociais, não com realidades independentes. Partindo desse princípio, formas de pós-modernismo, desconstrutivismo e assim por diante são desenvolvidas com facilidade, já que foram completamente desvinculadas das enfadonhas amarras e limites de ter de enfrentar o mundo real. Se o mundo real é apenas uma invenção -uma interpretação social destinada a oprimir os elementos marginalizados da sociedade -, então vamos nos livrar do mundo real e construir o mundo que queremos. Esta, acredito, é a verdadeira força psicológica em ação por trás do antirrealismo no final do século XX.
No entanto, há dois pormenores lógicos que preciso esclarecer imediatamente. Primeiro, apontar as origens psicológicas do antirrealismo não é uma refutação do antirrealismo. Seria uma falácia genética supor que, ao expor as origens ilegítimas dos argumentos contra o realismo, de alguma maneira refutamos esses argumentos. Isso não é o bastante. Segundo, já que os argumentos contra o realismo foram apresentados, devemos respondê-los detalhadamente. Portanto, aqui vamos nós.
Quatro desafios ao realismo
O argumento contemporâneo mais comum contra o realismo, como já disse, é o perspectivismo. Os argumentos tomam formas diferentes, mas o ponto comum a todos é que não temos acesso, não temos como representar e não temos meios para lidar com o mundo real exceto de um determinado ponto de vista, partindo de um determinado conjunto de pressuposições, sob um determinado aspecto, uma determinada postura. Se não existe acesso não mediado à realidade, então, assim reza o argumento, não há realmente por que falar na realidade e, de fato, não há realidade independente de posturas, aspectos ou pontos de vista. Uma boa afirmação de tal perspectivismo pode ser encontrada em um livro didático sobre a filosofia das ciências sociais escrito por Brian Fay. (Aliás, muitas vezes somos capazes de descobrir mais coisas sobre o que está acontecendo em uma cultura lendo os livros didáticos do ciclo básico universitário do que aqueles escritos por pensadores mais prestigiosos. Os livros didáticos são menos chegados à dissimulação.)
O perspectivismo é o modo epistemológico dominante da vida intelectual contemporânea.
Perspectivismo é o ponto de vista segundo o qual todo conhecimento tem um caráter essencialmente perspectivo; ou seja, alegações sobre conhecimento e sua avaliação sempre ocorrem dentro de limites que proporcionam os recursos conceituais nos quais e por meio dos quais o mundo é descrito e explicado. Segundo o perspectivismo, ninguém nunca vê a realidade diretamente como ela é em si; pelo contrário, as pessoas a encaram segundo seu próprio ponto de vista com suas próprias pressuposições e preconcepções14.
Até aqui, isso não parece ser um ataque nem mesmo à mais ingênua forma de realismo. Apenas diz que, de maneira a conhecer a realidade, deve-se conhecê-la a partir de um ponto de vista. O único erro nesse trecho é que, de uma maneira ou de outra, conhecer a realidade diretamente como ela é exige que ela seja conhecida a partir de nenhum ponto de vista. Isso é uma pressuposição injustificada. Por exemplo, vejo diretamente a cadeira diante de mim, mas é claro que a vejo de um determinado ponto de vista. Conheço-a diretamente de uma determinada perspectiva. Na medida em que é inteligível falar sobre conhecer "a realidade diretamente como ela é em si", conheço-a diretamente como ela é em si quando sei que há uma cadeira ali porque a estou vendo. Isso quer dizer que o perspectivismo, assim definido, não é incompatível nem com o realismo nem com a doutrina da objetividade epistemológica que diz que temos acesso perceptivo direto ao mundo real.
O fator decisivo é apresentado quando Fay prossegue dizendo que o perspectivismo toma impossível que tenhamos conhecimento de fatos que existem de forma independente. Eis como ele conduz o argumento:
Notem aqui que não existem fenômenos que são fatos em si, mas sim fenômenos que são
descritos de uma determinada maneira. Fatos são entidades linguisticamente significativas que selecionam, em meio à torrente de acontecimentos, aquilo que aconteceu ou aquilo que existe. Mas isso significa que, para que haja fatos, deve haver um vocabulário em cujos termos eles possam ser
descritos. Sem um vocabulário prévio que o descreva ou situe, não haveria fato nenhum.
E, no parágrafo seguinte:
Dizendo de forma sucinta: fatos estão enraizados em esquemas conceituais15.
Esse trecho todo me parece bem típico dos argumentos utilizados contra o realismo externo na filosofia contemporânea. Todos esses argumentos são ruins. É verdade que precisamos de um vocabulário para descrever ou afirmar os fatos. No entanto, assim como o fato de eu sempre ver a realidade de um determinado ponto de vista e sob determinados aspectos não quer dizer que eu nunca perceba a realidade diretamente, do mesmo modo o fato de eu precisar de um vocabulário de maneira a afirmar os fatos, ou de uma linguagem para identificar e descrever os fatos, não implica que os fatos que estou descrevendo ou identificando não tenham existência independente. O fato de haver água salgada no oceano Atlântico ocorria muito antes de haver alguém para identificar aquela porção de água como o oceano Atlântico, para identificar de que era feita essa água, ou para identificar um de seus componentes químicos como sal. Obviamente, para que possamos fazer todas essas identificações, devemos ter uma linguagem, mas e daí? Os fatos existem, totalmente independentes da linguagem. O argumento de Fay, tal como apresentado, é uma falácia. Trata-se de uma falácia de uso-menção supor que a natureza linguística e conceitual da identificação de um fato exige que o próprio fato identificado seja de natureza linguística 16 . Fatos são condições que tomam afirmações verdadeiras, mas não são idênticos a suas descrições linguísticas. Inventamos palavras para afirmar fatos e para dar nome a coisas, mas isso não significa que inventamos os fatos ou as coisas.
Um segundo argumento, relacionado ao argumento do perspectivismo, é o da relatividade conceitual. Eis como funciona. Todos os nossos conceitos são criados por nós, seres humanos. Não há nada inevitável a respeito dos conceitos que temos para descrever a realidade. Mas, segundo o antirrealista, a relatividade de nossos conceitos, se compreendida corretamente, mostra que o realismo externo é falso porque não temos acesso à realidade externa a não ser por intermédio de nossos conceitos. Estruturas conceituais diferentes fornecem descrições diferentes da realidade, e essas descrições não estão de acordo umas com as outras. Por exemplo, em relação a um esquema conceitua!, se me perguntam "quantos objetos há neste quarto?", posso contar os diversos móveis neste quarto. No entanto, em relação a outro esquema conceitua!, que não faz distinção entre os elementos de um conjunto de móveis, mas apenas trata o conjunto de móveis como uma entidade, haverá uma resposta diferente à pergunta "quantos objetos há no quarto?" Em relação ao primeiro esquema conceitual, podemos dar como resposta que há sete objetos no quarto. Dentro do segundo esquema, há apenas um objeto. Então, quantos há na realidade? O antirrealista diz que não há resposta para essa pergunta. Não existe fato exceto em relação a um esquema conceitual, e portanto não há mundo real exceto em relação a um esquema conceitual.
Como podemos interpretar este argumento? Fico constrangido em dizer que o considero incrivelmente débil, mesmo que tenha sido enunciado em diferentes versões por alguns filósofos muito conhecidos. Realmente há sete objetos no quarto, contados por meio de um sistema de contagem, e realmente há um só objeto, contado por meio de outro sistema de contagem. A aparição de um problema decorre inteiramente da aparente incoerência em se dizer que há apenas um objeto e ainda assim existem sete objetos. No entanto, uma vez que se compreenda a natureza das alegações, não há incoerência alguma. Ambas são coerentes e, de fato, ambas são verdadeiras. Há muitos exemplos assim na vida diária. Meu peso é 160 em libras e 72 em quilos. Então qual é meu peso real? A resposta é que tanto 160 quanto 72 são verdadeiros, dependendo do sistema de medidas que estivermos usando. Não há, na verdade, nenhum problema ou incoerência.
Um terceiro argumento contra o realismo externo é o argumento da história da ciência. Esse argumento tem sua origem no livro de Thomas Kuhn The Structure of Scientific Revolutions, embora eu duvide de que o próprio Kuhn tenha aceitado o argumento dessa forma. Segundo Kuhn, a ciência não avança pelo constante acúmulo de conhecimento; pelo contrário, ela avança por uma série de revoluções: assim, um paradigma para fazer ciência é abandonado por causa de sua incapacidade para resolver determinadas questões e, como resultado de uma revolução científica, é substituído por um novo paradigma. A ciência não descreve uma realidade que existe de forma independente, mas está sempre criando novas "realidades" à medida que avança. Como dizem Bruno Latour e Steve Woolgar: "O que queremos dizer é que o fato de estarmos no mundo é consequência do trabalho científico, mais do que sua causa."11 Como mencionei anteriormente, duvido que Kuhn tivesse aceitado o argumento antirrealista, mas ele de fato pensava que de alguma maneira Newton trabalhava em um mundo diferente do de Aristóteles.
Como deveríamos entender esse argumento? Devo dizer, mais uma vez, que o fato de haver um mundo real que existe de forma totalmente independente de nós, e de que a tarefa das ciências naturais é nos prover uma explicação teórica de como o mundo funciona, não coloca em dúvida, de modo algum, nem mesmo a mais ingênua versão da posição-padrão. Suponhamos que Kuhn esteja inteiramente certo ao dizer que a ciência avança aos arrancos e, de quando em quando, com grandes saltos. Suponhamos que as teorias revolucionárias não sejam sequer traduzíveis para o vocabulário das teorias iniciais, a ponto de os argumentos entre os adeptos das diferentes teorias revelarem apenas incompreensão mútua. O que decorre disso? Penso que nada de interessante decorre disso em relação ao realismo externo. Isto é, o fato de os esforços científicos para explicar o mundo real serem menos racionais e menos cumulativos do que havíamos imaginado anteriormente - se é que isso é um fato - não põe de maneira alguma em dúvida a pressuposição de que existe um mundo real e que os cientistas estão fazendo esforços genuínos para descrevê-lo.
O quarto argumento contra o realismo externo, relacionado ao argumento de Kuhn, é o argumento da subdeterminação das teorias pelos dados. Considerem a transição da ideia de que a Terra é o centro de nosso sistema planetário para a ideia de que esse centro é o Sol; a transição da teoria geocêntrica para a teoria heliocêntrica. Não se descobriu que o sistema geocêntrico de Ptolomeu era falso e o sistema heliocêntrico, verdadeiro. Pelo contrário, abandonamos o primeiro porque o segundo era mais simples e nos permitia fazer melhores previsões sobre eclipses, paralaxes e coisas assim. Não descobrimos uma verdade absoluta; pelo contrário, adotamos um modo diferente de falar, por razões essencialmente práticas. Isso se deve ao fato de ambas as teorias serem "subdeterminadas" pelos dados. Poderíamos ter adotado qualquer das teorias, e isso estaria de acordo com todas as provas disponíveis, contanto que estivéssemos dispostos a fazer os ajustes necessários na teoria. A história de tais "descobertas" científicas mostra que, se a verdade é supostamente uma relação de correspondência a uma realidade independente da mente, então não existe verdade, porque não existe tal realidade, e portanto nenhuma relação de correspondência.
Menciono esse argumento e o exemplo da revolução de Copérnico porque, quando estudei filosofia na década de 1950, foi ele que me foi apresentado. Ele é pelo menos meio século anterior aos debates atuais. Mas, ainda assim, é um argumento ruim. A transição da teoria geocêntrica para a teoria heliocêntrica não mostra que não há uma realidade que exista de forma independente; pelo contrário, o debate só é inteligível para nós se partirmos do pressuposto de que tal realidade existe. Só compreendemos o debate e sua importância se partirmos do pressuposto de que é um debate sobre objetos reais -a Terra, o Sol, os planetas - e suas verdadeiras relações. A não ser que partamos do pressuposto de que existem objetos independentes da mente, como a Terra e o Sol, sequer entendemos o que está em jogo, e a que diz respeito o debate sobre se os primeiros dependem da segunda ou a segunda dos primeiros. De fato, os argumentos sobre simplicidade e melhores prognósticos só são pertinentes porque muitas vezes pensamos neles como maneiras de se chegar até a verdade sobre o mundo real. Se pensarmos que não há mundo real, então também podemos dizer o que quisermos por razões estéticas ou outras. Por que dar preferência à simplicidade a não ser que o façamos por razões estéticas? No entanto, realmente supomos que seja mais provável que o sistema mais simples corresponda aos fatos, porque pensamos que as incríveis complexidades da astronomia de Ptolomeu eram realmente maneiras de preencher buracos e resolver incongruências nessa teoria. O debate e sua solução são justamente argumentos a favor, e não contra, a existência do mundo real, assim como da ciência, como uma série de esforços cada vez mais bem-sucedidos para estabelecer a verdade sobre esse mundo. O subsequente desenvolvimento da teoria da relatividade, com seu abandono do ponto de vista segundo o qual o Sol e os planetas existem no espaço absoluto, é outra demonstração desse argumento.
Aquilo que escolhemos, ao escolhermos uma teoria preferencialmente a outra com base em provas que estejam de acordo com ambas as teorias, mostra como o mundo de fato é independente de nossa escolha de teorias. É famoso o argumento de Quine segundo o qual a aceitação da existência das partículas da física atômica era um postulado equivalente, como postulado, à aceitação da existência dos deuses de Homero18. Sem dúvida, mas nem por isso a existência dos elétrons, de Zeus ou de Atena dependem de nós. O que depende de nós é aceitarmos ou rejeitarmos a teoria que afirma que eles existem. A teoria é verdadeira ou falsa dependendo se eles existem ou não, independentemente de nossa aceitação ou rejeição da teoria.
Qualquer leitor que conheça a história da filosofia estará se perguntando se vou responder ao ceticismo, pois certamente não posso afirmar o que afirmo sobre o mundo real a menos que afirme ter conhecimento sobre o mundo real. A validade de tais afirmações a respeito do conhecimento exigiria em primeiro lugar uma resposta às dúvidas céticas sobre a própria possibilidade de se conhecer o mundo real. Portanto, vou me voltar agora para aquele que, historicamente, é o maior argumento contra o ponto de vista segundo o qual existe uma realidade independente da mente.
Ceticismo, conhecimento e real idade
Na história da filosofia, o argumento mais comum e mais famoso contra o ponto de vista segundo o qual há uma realidade que existe independente de nós é que tal afirmação torna a realidade impossível de ser conhecida. De acordo com esse argumento, somos forçados a adotar o ponto de vista segundo o qual existe um mundo de coisas em si que estará para sempre além do alcance de nosso conhecimento. Mas a pressuposição de tal realidade é ao mesmo tempo prejudicial e vazia - prejudicial porque nos impele ao desespero do ceticismo, e vazia porque não podemos fazer nada com a hipótese de uma realidade que exista de forma independente. Segundo Berkeley, se a matéria existe, nunca poderemos conhecê-la; se não existe, tudo continua na mesma19.
Seriam necessários muitos livros inteiros para fazer justiça à história desse argumento, mas aqui serei breve. Os argumentos céticos em filosofia têm sempre a mesma forma: podemos ter as melhores provas possíveis sobre alguma coisa e ainda assim estarmos completamente enganados. Pode-se ter as melhores provas possíveis sobre o comportamento das outras pessoas, e ainda assim estar errado sobre seu estado mental. Pode-se ter as melhores provas possíveis sobre o passado, e ainda assim estar errado quanto ao futuro. Podemos ter as melhores provas possíveis sobre nossas próprias experiências perceptivas, e ainda assim estarmos errados sobre o mundo externo. Isso porque poderíamos estar sonhando, tendo alucinações, ser um cérebro numa cuba ou estar sendo sistematicamente enganados por um demônio mau. Esse tipo de ceticismo (mas nem todos esses exemplos) pode ser encontrado em Descartes. Céticos mais radicais vão além: não apenas não temos provas suficientes mas, estritamente falando, não temos prova alguma, porque as provas que temos pertencem a um domínio e as afirmações que fazemos pertencem a outro domínio. Temos provas sobre comportamento, mas estamos fazendo afirmações sobre consciência. Temos provas sobre o passado, mas nossas afirmações são sobre o futuro. Temos provas sobre nossas sensações, mas nossas afirmações são sobre objetos materiais. Tais formas radicais de ceticismo podem ser encontradas em David Hume. O exemplo que focalizaremos agora diz respeito às provas que temos da existência de um mundo real ou, como ele é algumas vezes chamado, "mundo externo". Como alguém pode duvidar de que ele ou ela está lendo um livro, sentado em uma cadeira, vendo a chuva cair sobre as árvores lá fora? O primeiro passo do filósofo cético é fazer a pergunta: o que é, estritamente falando, que percebemos quando olhamos para uma árvore? A resposta é que não percebemos um objeto material de existência independente; pelo contrário, percebemos nossa própria percepção, nossa própria experiência consciente.
O ponto de vista do senso comum segundo o qual realmente vemos coisas como árvores e casas é supostamente fácil de ser refutado. As duas refutações mais famosas são o argumento da ciência e o argumento da ilusão. Em razão do prestígio das ciências naturais, o argumento da ciência foi o mais atraente do século XX. O argumento é o seguinte:
Se considerarmos cientificamente o que acontece quando observamos uma árvore, eis o que
encontramos: os fótons são refletidos pela superfície da árvore, atacam as células fotorreceptoras da retina e provocam uma série de bombardeios de neurônios que atravessam as cinco camadas de células da retina, atravessam o núcleo lateral geniculado e voltam ao córtex visual; essa série de bombardeios de neurônios acaba causando uma experiência visual em algum recôndito do cérebro. Tudo o que vemos, literalmente, diretamente, é a experiência visual em nossos cérebros. Isso é chamado alternadamente de "informação sensorial", "objeto percebido", ou, mais recentemente, "descrição simbólica", mas a ideia básica é que quem percebe não vê realmente o mundo real20.
Esse argumento me parece falacioso. O fato de eu poder fornecer um relato causal de como é possível, para mim, ver o mundo real não quer dizer que não veja o mundo real. De fato, trata-se de uma variação da falácia genética. O fato de eu poder fornecer um relato causal da razão por que acredito que dois mais dois são quatro (fui condicionado pela srta. Masters, minha professora do primário) não mostra que dois mais dois não são quatro. E o fato de eu poder fornecer um relato causal de como é possível, para mim, ver a árvore (os fótons de luz alcançam minha retina e deflagram uma série de bombardeios de neurônios que acabam por causar uma experiência visual) não mostra que não vejo a árvore. Não há nenhuma incongruência entre afirmar, por um lado, "percebo diretamente a árvore", e afirmar, por outro, "existe uma sequência de eventos físicos e neurobiológicos que acaba produzindo em mim a experiência que descrevo como 'ver a árvore"'.
O segundo argumento é o argumento da ilusão. Esse argumento adquire muitas formas diferentes, e não as apresentarei todas, mas o ponto comum entre elas é o seguinte: aquele que pensa que percebemos diretamente objetos e situações no mundo, o realista perceptivo ingênuo, é incapaz de lidar com o fato de que não há como distinguir o caso no qual eu realmente vejo objetos e estados de coisas no mundo, o chamado caso "verídico", do caso no qual estou tendo algum tipo de ilusão, alucinação, delírio e assim por diante. Portanto, o realismo perceptivo é falso. A versão mais simples que conheço desse argumento pode ser encontrada em Hume. Ele pensava que o realismo perceptivo ingênuo era tão facilmente refutável que se livrava dele em algumas frases. Se alguma vez você se sentir tentado a pensar que percebe o mundo real diretamente, pressione seu globo ocular. Se estiver partindo do pressuposto de que está vendo o mundo real, você teria de dizer que ele é duplo21. Ou seja, se os realistas ingênuos estivessem certos, e eu estivesse vendo o mundo real, então quando vejo em dobro eu estaria vendo dois mundos. Mas obviamente não estou vendo dois mundos. Não há duas mesas à minha frente, mesmo que, quando pressiono meu globo ocular de modo que os dois olhos não mais estejam focalizados, eu tenha duas experiências visuais.
Há muitas variações do argumento da ilusão. Muitas delas, do meu ponto de vista, foram eficazmente atacadas por J. L. Austin em sua obra clássica Sense and Sensibilia22. Não entrarei em todos os detalhes agora, mas me contentarei com a forma geral do argumento e com uma afirmação da razão de por que ele é falacioso.
A forma geral do argumento da ilusão é a seguinte: se o realista perceptivo estiver certo, e realmente houver casos em que percebemos diretamente objetos e situações no mundo, então deve haver uma distinção no caráter da experiência entre os casos nos quais percebemos objetos e estados de coisas no mundo da maneira como realmente são e os casos nos quais não o fazemos. Mas, uma vez que as duas experiências são indistinguíveis qualitativamente, a análise de um caso deveria poder ser aplicada ao outro e, já que no caso não verídico não estamos vendo o mundo real, no suposto caso verídico devemos dizer que tampouco estamos vendo o mundo real, ou que não o estamos vendo como ele realmente é.
Agora, uma vez exposta dessa maneira, a estrutura básica do argumento pode ser considerada falaciosa. Simplesmente não é verdade que, de modo que eu possa estar vendo o objeto à minha frente, deve existir algum aspecto interno da própria experiência que seja suficiente para distinguir a experiência verídica de uma alucinação do objeto. Considero que a finalidade do exemplo da alucinação é mostrar que não há nada na própria experiência, no próprio caráter qualitativo da experiência, capaz de distinguir os casos alucinatórios dos casos verídicos. Mas por que deveria haver? Já que a experiência visual é causada por uma sequência de bombardeios de neurônios que começam nos receptores sensoriais e terminam em algum lugar no cérebro, é pelo menos concebível que devesse haver bombardeios de neurônios equivalentes que produzissem uma experiência visual equivalente, mas sem que houvesse um objeto que pudesse efetivamente ser visto. Se isso estiver correto, então os casos nos quais estou realmente vendo um objeto não podem ser distinguidos dos casos nos quais não estou vendo o objeto unicamente por meio de uma única experiência no cérebro. Mas por que uma experiência única deveria ser tudo o que tenho para ir adiante? No caso normal, parto do pressuposto de que sou um agente personificado que participa de todo tipo de conflito com o mundo à minha volta. Qualquer experiência única apenas provoca em mim o tipo de impressão que o faz por ser parte de uma rede de outras experiências, e está relacionada a um Pano de Fundo de capacidades pressupostas que possuo para lidar com o mundo. Se isso estiver correto, então a experiência única, considerada isoladamente, não é suficiente para fazer a distinção entre a percepção verídica e a alucinação. Mais uma vez, por que seria? Quero dizer, a estrutura básica do argumento da ilusão repousa sobre uma falsa premissa: a pressuposição de que algumas vezes vejo objetos reais no mundo real exige que haja uma distinção no caráter qualitativo de minhas experiências visuais entre as experiências perceptivas verídicas e as não verídicas. Portanto, o argumento não é sólido porque a primeira premissa é falsa.
Uma vez que rejeitamos a ideia de que tudo o que percebemos são nossas próprias percepções, então não temos base epistemológica para negar o realismo externo.
Existe justificativa para o realismo externo?
Até agora, tenho respondido aos desafios ao realismo externo, mas será que ele pode ser justificado por si só? Não acredito que faça sentido exigir uma justificativa do ponto de vista segundo o qual existe uma maneira como as coisas são no mundo, independentemente de nossas representações, porque qualquer tentativa de justificação pressupõe aquilo que se está tentando justificar. Qualquer tentativa de descobrir alguma coisa sobre o mundo real pressupõe que exista uma maneira como as coisas são. Por isso é errado representar o realismo externo como o ponto de vista segundo o qual objetos materiais existem no espaço e no tempo, ou montanhas e moléculas, e assim por diante, existem. Suponhamos que não existissem montanhas ou moléculas, e nenhum objeto material no espaço e no tempo. Então esses seriam fatos sobre como o mundo é, e pressuporiam, portanto, o realismo externo. Ou seja, a negação desta ou daquela afirmação sobre o mundo real pressupõe que existe uma maneira como as coisas são, independentemente de nossas afirmações.
Falo como se essas questões sobre idealismo, realismo e assim por diante fossem objeto de debate e argumento entre teorias concorrentes. Na história da filosofia, é certamente assim que parece, mas acredito que essa seja a maneira errada de ver a questão. Em um nível muito mais profundo, eis o que penso que está acontecendo de fato: o realismo externo não é uma teoria. O fato de existir um mundo lá fora não é uma opinião que tenho. Pelo contrário, trata-se da estrutura necessária para que seja até possível defender opiniões ou teorias sobre coisas como os movimentos planetários. Quando se debatem os méritos de uma teoria, como a teoria heliocêntrica do sistema solar, deve-se partir do pressuposto de que existe uma maneira como as coisas realmente são. De outro modo, o debate não pode começar. Seus próprios termos seriam ininteligíveis. Mas essa pressuposição, de que há uma maneira como as coisas são, independentemente de nossas representações da maneira como são, é o realismo externo. O realismo externo não é uma reivindicação da existência deste ou daquele objeto, mas sim uma pressuposição da maneira como entendemos tais reivindicações. É por isso que os "debates" sempre parecem inconclusivos. Pode-se resolver a questão da teoria da evolução de Darwin de maneira mais ou menos conclusiva, mas não se pode resolver dessa maneira a questão da existência do mundo real, porque qualquer solução desse tipo pressupõe a existência do mundo real. Isso não significa que o realismo seja uma teoria impossível de ser provada; pelo contrário, significa que o realismo não é sequer uma teoria, mas sim a estrutura dentro da qual é possível ter teorias.
Não acredito que os diversos desafios ao realismo sejam motivados pelos argumentos aqui apresentados; acredito que sejam motivados por algo muito mais profundo e menos intelectual. Conforme sugeri anteriormente, muitas pessoas consideram repulsivo que nós, com nossa linguagem, nossa consciência e nossos poderes criativos, sejamos subordinados e dependentes de um mundo material mudo, estúpido, inerte. Por que deveríamos depender do mundo? Por que não pensaríamos no "mundo real" como algo que criamos, e portanto algo que depende de nós? Se toda a realidade é uma "construção social", então somos nós que estamos no poder, não o mundo. A motivação profunda para a negação do realismo não é este ou aquele argumento, mas uma vontade de potência, um desejo de controle, e um ressentimento profundo e duradouro. Esse ressentimento tem uma longa história, e aumentou no final do século XX devido a um grande ressentimento e ódio em relação às ciências naturais. A ciência, com seu prestígio, seu aparente progresso, seu poder, seu dinheiro e sua enorme capacidade para fazer o mal, se tomou alvo de ódio e ressentimento. Isso é alimentado pelos trabalhos de pensadores como Kuhn e Feyerabend, que parecem desmistificar, desmitificar a ciência. A eles se atribui o fato de terem mostrado que a ciência não nos fornece um conhecimento objetivo de uma realidade independente, mas, pelo contrário, é uma série de interpretações verbais mais ou menos irracionais, "paradigmas" no interior dos quais os cientistas podem se dedicar à "resolução de quebra-cabeças'', até que as contradições e incoerências no interior do paradigma levem a seu abandono e os cientistas corram para abraçar um novo paradigma e começar tudo de novo. Em resumo, o retrato das ciências naturais que nos fornece conhecimento objetivo sobre uma realidade que existe de forma independente - um retrato considerado fato nas ciências naturais, como qualquer pessoa com treinamento sério na área pode testemunhar - se encontra hoje sob intensa crítica. Depois de dizer que a ciência não nos fornece um conhecimento objetivo da realidade, o próximo passo é dizer que não existe tal realidade. Há apenas interpretações sociais.
Preciso enfatizar de novo a afirmação que fiz anteriormente: minha afirmação de que o antirrealismo é motivado por uma vontade de potência em geral e um ódio à ciência em particular pretende ser um diagnóstico, não uma refutação. Se pretendesse ser uma refutação, estaria cometendo a falácia genética: supor que a explicação das origens causais de um ponto de vista é suficiente para mostrar que esse ponto de vista é falso.
Além do ateísmo
A realidade, em última instância, para falar de modo bastante grandioso, é a realidade descrita na química e na física. É a realidade de um mundo que consiste em entidades que julgamos conveniente -quando não totalmente exato -chamar de "partículas", que existem em campos de força. Esse ponto de vista em si não é o realismo, mas uma afirmação de como, dentro do Pano de Fundo realista, o mundo veio a ser. O realismo é uma pressuposição do Pano de Fundo que diz: não existe uma maneira como as coisas são. A física é uma disciplina que contém teorias. As teorias dizem: as coisas são dessa maneira. Os antirrealistas, ao desafiar a pressuposição do Pano de Fundo, na verdade não desafiam a teoria, mas sim o status da teoria. Já que não existe uma maneira-como-as-coisas-são, independentemente de nós, a física não pode nos dizer como são. A física é apenas uma interpretação social entre outras.
Mas, alguém com certeza dirá, e quanto a Deus? Se Deus existe, então certamente Ele é a realidade em última instância, e a física e todo o resto são dependentes de Deus, dependentes não só para sua criação inicial mas para continuarem a existir.
Em gerações anteriores, livros como este teriam de conter um ataque ateísta ou uma defesa teísta da religião tradicional. Ou, no mínimo, o autor precisaria declarar um agnosticismo discreto. Dois autores que escreveram em um estado de espírito similar ao meu, John Stuart Mill e Bertrand Russell, montaram ataques polêmicos e eloquentes à religião tradicional. Hoje em dia, ninguém se importa com isso, e o simples fato de levantar a questão de Deus é considerado levemente de mau gosto. Questões de religião são como questões de preferência sexual: não devem ser discutidas em público, e mesmo as questões abstratas só são discutidas pelos chatos.
O que aconteceu? Penso que a maioria das pessoas imaginaria que houve um declínio da fé religiosa nos segmentos mais instruídos da população da Europa Ocidental e da América do Norte. Talvez isso seja verdade, mas me parece que o impulso religioso está forte como nunca, e adquire todo tipo de formas estranhas. Acredito que tenha ocorrido algo muito mais radical do que um declínio da fé religiosa. Para nós, membros instruídos da sociedade, o mundo se tomou desmistificado. Ou melhor, para dispor a afirmação de modo mais preciso, não mais consideramos os mistérios que vemos no mundo expressões de significado sobrenatural. Não mais achamos que ocorrências estranhas sejam Deus se manifestando pela linguagem dos milagres. Ocorrências estranhas são apenas ocorrências que não entendemos. O resultado dessa desmistificação é que ultrapassamos o ateísmo a um ponto no qual a questão não mais importa do modo como importava para as gerações anteriores. Para nós, se Deus existisse, isso teria de ser um fato da natureza como outro qualquer. Às quatro forças básicas do uni verso - gravidade, eletromagnetismo, forças nucleares fraca e forte - acrescentaríamos uma quinta, a força divina. Ou, mais provavelmente, veríamos as outras forças como formas da força divina. Mas tudo isso ainda seria física, mesmo que fosse física divina. Se o sobrenatural existisse, ele também teria de ser natural.
Alguns exemplos ilustram a mudança em nosso ponto de vista. Quando eu lecionava como professor visitante na Universidade de Veneza, costumava ir até uma encantadora igreja gótica, a igreja da Madonna dei Orto. O plano inicial havia sido batizar a igreja de San Christoforo mas, durante sua construção, uma estátua da Madonna foi encontrada no pomar vizinho, e presumiram que ela havia caído do céu. Uma estátua da Madonna caída do céu no pomar da própria igreja era um milagre suficiente para justificar a mudança de nome para igreja da Madonna do Pomar. Eis o que a história revela: se fosse encontrada uma estátua perto de uma construção, hoje, ninguém diria que ela caiu do céu. Mesmo que a estátua fosse encontrada nos jardins do Vaticano, as autoridades da Igreja não alegariam que ela caiu do céu. Este não é um pensamento possível para nós porque, em certo sentido, nós sabemos demais.
Outro exemplo, também proveniente da Itália. Quando eu lecionava na Universidade de Florença, a igreja da minha paróquia, se posso dizer assim, era San Miniato, localizada no topo de uma colina com vista para a cidade, e um dos prédios mais impressionantes de Florença. Por que ela se chama assim? Bem, parece que San Miniato foi um dos primeiros mártires cristãos da história da cidade. Foi executado pelas autoridades romanas no século III, por volta do ano 250, no reinado do imperador Décio. Sobreviveu ao ataque dos leões na arena, mas então foi decapitado. Depois disso, levantou-se, colocou sua cabeça debaixo do braço, saiu andando da arena, cruzou o rio e saiu da cidade. Subiu a colina na margem sul do Amo, ainda carregando sua cabeça, até alcançar o topo, onde se sentou. É neste local que a igreja está hoje. Os guias atuais são bastante tímidos em relação a essa história, e muitos nem sequer a mencionam. Não se trata de acreditarmos que ela é falsa, mas nem sequer a consideramos seriamente como uma possibilidade.
Outra prova recente da desmistificação do mundo foi o teste do sudário de Turim. O sudário milagroso, com a imagem do corpo crucificado de Cristo, foi submetido a testes radioativos pelas autoridades da Igreja, e descobriu-se que tinha apenas setecentos anos de idade. Provas posteriores indicaram uma data anterior, e a data exata ainda é desconhecida. Mas, e é isso que desejo mostrar, por que acreditamos que os testes são mais convincentes do que o milagre? Por que o milagre de Deus deve ser subordinado ao carbono 14? O fato de o mundo ter se tomado desmistificado a ponto de a religião não mais ter a importância pública de outrora, mais do que mostrar que estamos todos nos tomando ateus, mostra que ultrapassamos o ateísmo e chegamos a um ponto no qual as questões têm um significado diferente para nós.
O leitor impaciente pode muito bem estar se perguntando quando tomarei uma posição em relação à existência de Deus. Na verdade, penso que a melhor observação a esse respeito foi feita por Bertrand Russell em um jantar ao qual compareci quando era estudante universitário. Já que o episódio se transformou em lenda, e já que um incidente similar ocorreu em outra ocasião na qual eu não estava presente, penso que devo contar ao leitor o que realmente aconteceu, conforme me lembro.
Periodicamente, a cada dois anos ou coisa assim, a Voltaire Society, uma sociedade de alunos de inclinação intelectual em Oxford, promovia um banquete com Bertrand Russell - o patrono oficial da sociedade. Na ocasião à qual me refiro, fomos todos a Londres e jantamos com Russell em um restaurante. Ele estava então na casa dos oitenta anos, e tinha a reputação de ser um ateu famoso. Para muitos de nós, a questão das opiniões de Russell sobre a imortalidade parecia premente, e perguntamos a ele: "Suponhamos que o senhor estivesse errado sobre a existência de Deus. Suponhamos que fosse tudo verdade, e que o senhor chegasse às portas do paraíso e encontrasse são Pedro. Tendo negado a existência de Deus durante toda sua vida, o que o senhor diria a... Ele?" Russell respondeu sem hesitar um só instante. "Bem, eu iria até Ele e diria: 'O Senhor não nos deu provas suficientes! "'