Mentirosos

E. Lockhart · Capítulo 3 de 5 · parte 3/3

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Mentirosos

Parte três

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Não posso sair da ilha sem supervisão de um adulto.

Não posso operar um veículo motorizado enquanto estiver tomando remédio.

Não posso ser tão idiota quanto minhas ações, posso?

Peço as desculpas que minha mãe quer ouvir. Depois corro para Windemere e escrevo tudo o que lembro — a lanchonete de frutos do mar, o cata-vento, os pés sujos de Mirren sobre os degraus de madeira, o livro que Gat me deu — no papel quadriculado sobre minha cama.

45

NO INÍCIO DA MINHA SEGUNDA SEMANA em Beechwood, descobrimos o telhado de Cuddledown. É fácil subir lá; só não tínhamos feito antes porque era preciso passar pela janela do quarto da tia Bess.

O telhado é muito frio à noite, mas durante o dia proporciona uma ótima vista da ilha e do mar. Posso enxergar além das árvores que cercam Cuddledown, até a nova Clairmont e seu jardim. Dá até para ver dentro da casa, que tem janelas do chão ao teto em muitos cômodos do térreo. Dá para ver um pouco de Red Gate também, e na outra direção, Windemere e a baía.

Naquela primeira tarde, espalhamos comida sobre uma antiga toalha de piquenique. Comemos pão doce e queijos cremosos que vinham em pequenas caixas de madeira. Frutas silvestres em embalagens de papelão verde. Garrafas geladas de limonada com gás.

Decidimos vir aqui todos os dias. O verão todo. Esse telhado é o melhor lugar do mundo.

— Se eu morrer — digo enquanto olhamos a paisagem. — Quer dizer, quando eu morrer, joguem minhas cinzas nas águas da praia pequena. Então, quando sentirem minha falta, podem subir aqui, olhar para baixo e pensar em como eu era incrível.

— Ou podemos descer e nadar em você — diz Johnny. — Se sentirmos muito sua falta.

— Eca.

— Foi você que quis ser jogada na água da praia pequena.

— Eu só quis dizer que adoro isso aqui. Seria um ótimo lugar para minhas cinzas.

— É — diz Johnny. — Seria.

Mirren e Gat ficaram em silêncio, comendo avelãs cobertas com chocolate de uma tigela de cerâmica azul.

— Esse não é um bom assunto — diz Mirren.

— Tudo bem — diz Johnny.

— E não quero minhas cinzas aqui — diz Gat.

— Por que não? — pergunto. — Podíamos ficar todos juntos na praia pequena.

— E os pequenos vão poder nadar em nós! — grita Johnny.

— Você está me deixando com nojo — retruca Mirren.

— Não é muito diferente de todas as vezes que fiz xixi lá — diz Johnny.

— Eca.

— Ah, o que é isso…? todo mundo faz xixi lá.

— Eu não faço — diz Mirren.

— Faz sim — ele afirma. — Se a água da praia pequena não é feita de xixi, depois de todos esses anos, algumas cinzas não vão estragá-la.

— Vocês já pensaram em seu funeral? — pergunto.

— Do que está falando? — Johnny franze o nariz.

— Vocês sabem, em Tom Sawyer, quando todo mundo acha que Tom, Huck e… qual é o nome dele?

— Joe Harper — diz Gat.

— Sim, eles acham que Tom, Huck e Joe Harper estão mortos. Eles vão ao próprio funeral e escutam todas as lembranças boas que o pessoal da cidade tem deles. Depois que li isso, sempre penso no meu próprio funeral. Por exemplo, o tipo de flor, onde quero minhas cinzas. E o discurso também, dizendo como eu era transcendentalmente incrível e ganhei o prêmio Nobel e uma medalha olímpica.

— E você ganhou uma medalha olímpica em qual esporte? — pergunta Gat.

— Talvez handebol.

— Tem handebol nas olimpíadas?

— Tem.

— E você joga handebol?

— Ainda não.

— É melhor começar.

— A maioria das pessoas planeja o casamento — diz Mirren. — Eu costumava planejar o meu.

— Homens não planejam casamento — diz Johnny.

— Se eu me casasse com Drake, as flores todas seriam amarelas — diz Mirren. — Flores amarelas por todo lado. E um vestido de primavera amarelo, como um vestido de casamento normal, só que amarelo. E ele usaria uma faixa amarela na cintura.

— Ele teria que te amar muito, muito, para usar uma faixa amarela na cintura — digo a ela.

— É — diz Mirren. — Mas o Drake usaria.

— Vou dizer o que não quero no meu funeral — diz Johnny. — Não quero um monte de gente do mundo artístico de Nova York, que nem me conhece, em um salão idiota.

— Eu não quero religiosos falando de um Deus em que não acredito — diz Gat.

— Ou um bando de garotas falsas agindo como se estivessem tristes e depois passando batom e arrumando o cabelo no banheiro — diz Mirren.

— Minha nossa — eu ironizo. — Vocês falam como se funerais não fossem divertidos.

— Sério, Cady — diz Mirren. — Você devia planejar seu casamento, não seu funeral. Pare de ser mórbida.

— E se eu nunca me casar? E se eu não quiser me casar?

— Planeje o lançamento do seu livro, então. Ou a abertura da sua exposição de arte.

— Ela vai ganhar uma medalha olímpica e o prêmio Nobel — diz Gat. — Pode planejar comemorações para essas coisas.

— Está bem — eu digo. — Vamos planejar a festa da minha medalha olímpica no handebol. Se isso deixa vocês felizes.

Então fazemos isso. Bolas de handebol cobertas de pasta americana azul. Um vestido dourado para mim. Taças de champanhe com pequenas bolas douradas dentro. Discutimos se as pessoas usam ou não óculos esquisitos para jogar handebol, como no raquetebol, e resolvemos que, na festa, elas usam. Todos os convidados usarão óculos de handebol o tempo todo.

— Você joga em um time de handebol? — pergunta Gat. — Quer dizer, haverá toda uma equipe de deusas do handebol lá, comemorando a vitória com você? Ou você ganhou sozinha?

— Não tenho ideia.

— Você precisa mesmo começar a pesquisar sobre isso — diz Gat. — Ou nunca vai ganhar o ouro. Teremos que repensar toda a festa se você for prata.

 

A VIDA PARECE BELA nesse dia.

Nós quatro, os Mentirosos, sempre fomos.

Sempre seremos.

Independentemente do que acontecer quando formos para a faculdade, ficarmos mais velhos, construirmos nossas vidas; independentemente de eu e Gat estarmos ou não juntos. Independentemente de onde estivermos, sempre poderemos nos reunir no telhado de Cuddledown e olhar para o mar.

Essa ilha é nossa. Aqui, de certo modo, somos jovens para sempre.

46

OS DIAS QUE SE SEGUEM são mais escuros. Raramente os Mentirosos querem ir para algum lugar. Mirren fica com dor de garganta e dor no corpo. Passa a maior parte do tempo em Cuddledown. Pinta quadros para pendurar nos corredores e faz fileiras de conchas na beirada das bancadas. A louça se empilha na pia e sobre a mesa de centro. DVDs e livros estão amontoados por toda a sala. As camas estão desarrumadas, os banheiros têm cheiro de umidade e mofo.

Johnny come queijo e assiste a comédias britânicas. Um dia ele pega vários saquinhos de chá velhos, empapados, e os joga em uma caneca cheia de suco de laranja.

— O que está fazendo? — pergunto.

— Quem conseguir respingar mais ganha.

— Mas por quê?

— Minha mente funciona de maneira misteriosa — diz Johnny. — Acho que jogar de baixo para cima deve ser a melhor técnica.

Ajudo-o a pensar em um sistema de pontos. Cinco para um respingo, dez para uma poça, vinte para um padrão decorativo na parede.

Acabamos com uma garrafa inteira de suco. Quando termina, Johnny deixa a caneca e os saquinhos encharcados onde caíram.

Eu não limpo.

Gat tem uma lista dos cem melhores romances já escritos, e está aproveitando para ler tudo o que encontra na ilha. Ele marca os livros com post-its e lê passagens em voz alta. Homem invisível. Uma passagem para a Índia. Soberba. Presto atenção média quando ele lê, porque Gat não me beijou mais nem estendeu a mão para mim desde que concordamos em agir normalmente.

Acho que ele evita ficar sozinho comigo.

Eu evito ficar sozinha com ele também, porque meu corpo todo deseja estar perto dele, porque todos os movimentos que faz são carregados de eletricidade. Várias vezes penso em envolvê-lo com os braços ou passar os dedos em seus lábios. Quando deixo meus pensamentos aflorarem — se por um instante Johnny e Mirren estão fora do alcance da visão, se mesmo por um segundo ficamos sozinhos — a dor aguda do amor não correspondido convida a enxaqueca a entrar.

Nesses dias, ela é como uma velha encarquilhada e retorcida, tocando a carne viva do meu cérebro com suas unhas desumanas. Cutuca meus nervos expostos, conjecturando se deve fixar residência em meu crânio. Quando a velha entra, fico confinada em meu quarto por um ou dois dias.

Almoçamos no telhado quase sempre.

Suponho que eles façam o mesmo quando estou doente.

De vez em quando, uma garrafa rola do telhado e o vidro estilhaça. Na verdade, há cacos e mais cacos de vidro quebrado e grudento em toda a varanda.

Moscam sobrevoam, atraídas pelo açúcar.

47

NO FIM DA SEGUNDA SEMANA, encontro Johnny sozinho no pátio, brincando com peças de Lego que deve ter encontrado em Red Gate.

Tenho picles, palitos de queijo e atum grelhado que sobrou da cozinha da nova Clairmont. Decidimos não subir no telhado, já que estamos apenas nós dois. Abrimos os potes e os alinhamos na beirada da varanda suja. Johnny fala que quer construir Hogwarts em Lego. Ou a Estrela da Morte. Ou, espere! Melhor ainda seria um atum de Lego para colocar na nova Clairmont agora que não há mais nenhum animal empalhado do meu avô lá. É isso. Que pena que não tem Lego suficiente nessa ilha idiota para um projeto visionário como o dele.

— Por que você não me ligou nem mandou e-mail depois do acidente? — pergunto. Não pretendia tocar no assunto. Mas as palavras saíram.

— Ah, Cady.

Sinto-me idiota perguntando, mas quero saber.

— Não prefere falar sobre o atum de Lego? — Johnny improvisa.

— Achei que estivesse irritado comigo por causa daqueles e-mails. Aqueles que mandei perguntando sobre Gat.

— Não, não. — Johnny limpa a mão na camiseta. — Eu sumi porque sou um cretino. Porque não penso antes de fazer as coisas, vi muitos filmes de ação e faço tipo.

— Sério? Não penso isso de você.

— É um fato inegável.

— Você não ficou bravo?

— Eu fui um imbecil. Mas não fiquei bravo. Nunca fiquei bravo. Sinto muito, Cadence.

— Obrigada.

Ele pega um punhado de Lego e começa a montagem.

— Por que Gat desapareceu? Você sabe?

Johnny suspira.

— Essa é outra questão.

— Ele disse que não o conheço de verdade.

— Pode ser que não.

— Gat não quer falar sobre o acidente. Ou sobre o que aconteceu com a gente naquele verão. Quer que a gente aja normalmente, como se nada tivesse acontecido.

Johnny alinhou seus Legos pela cor: azul, branco e verde.

— Gat foi um cretino com aquela menina, Raquel, quando começou a ficar com você. Ele sabia que não era certo e se odiou por isso.

— Certo.

— Ele não queria ser esse tipo de cara. Queria ser uma boa pessoa. E estava muito zangado naquele verão, com um monte de coisas. Quando ele não estava lá pra te ajudar, ele se odiou ainda mais.

— Você acha?

— Acho — diz Johnny.

— Ele está saindo com alguém?

— Ah, Cady — diz Johnny. — Gat é um idiota arrogante. Eu o amo como se fosse meu irmão, mas você é boa demais para ele. Procure um cara legal em Vermont, com músculos como os de Drake Loggerhead. — Ele cai na risada.

— Você é um inútil.

— Não posso negar — Johnny responde. — Mas você precisa parar de ser tão sentimental.

48

DOAÇÃO: Vida encantada, de Diana Wynne Jones.

É uma das histórias de Crestomanci que minha mãe lia para mim e para Gat quando tínhamos oito anos. Já reli várias vezes desde então, mas duvido que Gat tenha feito o mesmo.

Abro o livro e escrevo na folha de rosto. Para Gat, com tudo, tudo. Cady.

Vou para Cuddledown na manhã seguinte bem cedo, pisando em xícaras de chá sujas e DVDs. Bato na porta do quarto de Gat.

Ninguém responde.

Bato de novo, depois abro.

Costumava ser o quarto de Taft. Está cheio de ursos e miniaturas de barcos, além das pilhas de livros que Gat fazia, sacos de batatinha vazios, castanhas de caju pisoteadas. Garrafas de suco e refrigerante pela metade, CDs, a caixa de Scrabble, a maioria das peças espalhadas no chão. Está bagunçado como o resto da casa, ou até pior.

De qualquer modo, ele não está lá. Deve estar na praia.

Deixo o livro sobre o travesseiro.

49

NAQUELA NOITE, Gat e eu acabamos ficando sozinhos no telhado de Cuddledown. Mirren estava enjoada e Johnny a levou para baixo para tomar um chá.

Vozes e música saíam da nova Clairmont, onde as tias e meu avô estão comendo torta de mirtilo e tomando vinho do Porto. Os pequenos estão assistindo a um filme na sala.

Gat percorre a parte inclinada do telhado até a calha e sobe de novo. Parece perigoso, fácil de cair — mas ele é destemido.

Agora é o momento de falar com ele.

Agora é o momento em que podemos parar de fingir que está tudo normal.

Procuro as palavras certas, a melhor forma de começar.

De repente, ele escala de volta para onde estou sentada em três passos largos.

— Você é muito, muito bonita, Cady — ele diz.

— É a luz da lua. Faz todas as meninas ficarem bonitas.

— Acho que você é bonita sempre e para sempre. — Sua silhueta contrasta com a luz. — Você tem namorado em Vermont?

É claro que não tenho. Nunca tive namorado, exceto ele.

— Meu namorado se chama Oxicodona — digo. — Somos muito próximos. Fomos juntos para a Europa no verão passado.

— Minha nossa. — Gat está irritado. Ele se levanta e se afasta até a beirada do telhado.

— Estou brincando.

Gat está de costas para mim.

— Você diz que não devemos ter pena…

— Sim.

— … mas fica falando essas coisas. Meu namorado se chama Oxicodona. Ou: Fiquei olhando fixamente para a base azul do vaso sanitário italiano. E fica claro que você quer que todo mundo fique com pena de você. E nós ficaríamos, eu ficaria, mas você não tem ideia da sorte que tem.

Meu rosto cora.

Ele está certo.

Eu quero que as pessoas sintam pena de mim. Eu quero.

E depois não quero.

Eu quero.

E depois não quero.

— Desculpe — eu digo.

— Harris mandou você passar oito semanas na Europa. Acha que ele algum dia vai mandar Johnny ou Mirren? E nunca me mandaria. Pense antes de reclamar sobre coisas que outras pessoas adorariam ter.

Eu me contorço.

— Meu avô me mandou para a Europa?

— Ah, qual é? — Gat diz com amargura. — Acha mesmo que seu pai pagou por aquela viagem?

Sei imediatamente que ele está dizendo a verdade.

É claro que meu pai não pagou pela viagem. Ele nem poderia. Professores universitários não voam de primeira classe nem se hospedam em hotéis cinco estrelas.

Estou tão acostumada aos verões em Beechwood, despensas com um estoque interminável, vários barcos a motor e empregados que grelham bifes e lavam roupas de cama em silêncio — que nem parei para pensar de onde o dinheiro estava vindo.

Meu avô me mandou para a Europa. Por quê?

Por que minha mãe não foi comigo, se a viagem foi um presente do meu avô? E por que meu pai aceitaria aquele dinheiro do meu avô?

— Você tem uma vida acontecendo diante dos seus olhos, com um milhão de possibilidades — Gat diz. — Eu… eu fico incomodado quando você quer compaixão, só isso.

Gat, meu Gat.

Ele está certo. Está mesmo.

Mas ele também não entende.

— Sei que ninguém está me agredindo — digo, de repente na defensiva. — Sei que tenho muito dinheiro e uma boa educação. Comida na mesa. Não estou morrendo de câncer. Muita gente tem uma vida bem pior do que a minha. E sei que tive sorte de poder ir para a Europa. Não devia reclamar disso nem ser ingrata.

— Então tá.

— Mas, ouça, você não tem ideia de como é ter dores de cabeça como essas. Não tem ideia. Dói — eu digo, e percebo que há lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Às vezes é difícil estar viva. Muitas vezes desejo estar morta, de verdade, só para fazer a dor parar.

— Não é verdade — ele diz com rispidez. — Você não deseja estar morta. Não diga isso.

— Só quero que essa dor acabe — digo. — Nos dias em que os remédios não funcionam. Quero que acabe e faria qualquer coisa, sério, qualquer coisa, se tivesse a certeza de que acabaria com a dor.

Faz-se um silêncio. Ele caminha até a beirada do telhado, sem olhar para mim.

— E o que você faz? Quando acontece isso?

— Nada. Eu fico lá deitada e espero, e me lembro repetidas vezes de que a dor não dura para sempre. De que outro dia vai chegar e, depois dele, mais um. Qualquer dia desses, vou me levantar e tomar café da manhã e me sentir bem.

— Outro dia.

— É.

Agora ele se vira e sobe o telhado em alguns passos. De repente, seus braços estão em volta de mim, e estamos presos um ao outro.

Gat está tremendo um pouco e beija meu pescoço com lábios frios. Ficamos assim, envolvidos nos braços um do outro, por um minuto ou dois,

e parece que o universo está se reorganizando,

e eu sei que qualquer raiva que sentíamos desapareceu.

Gat me beija nos lábios e toca meu rosto.

Eu o amo.

Sempre amei.

Ficamos lá no telhado por um longo, longo tempo. Para sempre.

50

MIRREN TEM FICADO DOENTE com muita frequência. Ela acorda tarde, pinta as unhas, deita no sol e fica vendo paisagens africanas em um livro grande de fotografias. Mas não quer mergulhar. Não quer velejar. Não quer jogar tênis nem ir para Edgartown.

Levo para ela jujubas da nova Clairmont. Mirren adora jujubas.

Hoje, estamos as duas deitadas na praia pequena. Lemos revistas que roubei das gêmeas e comemos cenourinhas. Mirren está com os fones de ouvido. Ela fica ouvindo a mesma música várias vezes no meu iPhone.

Nossa juventude está enfraquecida

Não vamos desperdiçá-la

Lembre-se do meu nome

Porque fizemos história

Na na na na na na na

 

CUTUCO MIRREN com uma cenoura.

— O que foi?

— Você precisa parar de cantar ou não me responsabilizo pelas minhas ações.

Ela se vira pra mim, séria. Tira os fones de ouvido.

— Posso te dizer uma coisa, Cady?

— Claro.

— Sobre você e Gat. Eu ouvi vocês dois descendo ontem à noite.

— E?

— Acho que você devia deixar Gat em paz.

— O quê?

— Isso vai acabar mal e estragar tudo.

— Eu o amo — digo. — Você sabe que sempre amei.

— Você está dificultando as coisas para ele. Tornando tudo mais difícil do que já é. Você vai magoar Gat.

— Não é verdade. É mais provável que ele me magoe.

— Bem, pode acontecer também. Não é uma boa ideia vocês ficarem juntos.

— Você não entende que prefiro ser magoada do que ignorada por ele? — digo, sentando. — Prefiro mil vezes viver, arriscar e ver tudo acabar mal a permanecer na bolha em que estive nos últimos dois anos. É um lugar pequeno, Mirren. Eu e minha mãe. Eu e meus remédios. Eu e minha dor. Não quero mais viver lá.

Um silêncio paira no ar.

— Nunca tive um namorado — Mirren revela.

Olho nos olhos dela. Vejo lágrimas.

— E Drake Loggerhead? E as rosas amarelas e as relações sexuais? — pergunto.

Ela baixa os olhos.

— Eu menti.

— Por quê?

— Sabe quando você vem para Beechwood e é como se estivesse em outro mundo? Você não precisa ser quem é em casa. Pode ser alguém melhor até.

Confirmo com a cabeça.

— No primeiro dia depois que você voltou, observei Gat. Ele olhava para você como se fosse o planeta mais brilhante da galáxia.

— É mesmo?

— Quero tanto alguém que olhe para mim desse jeito, Cady. Tanto. E não tive a intenção, mas acabei mentindo. Sinto muito.

Não sei o que dizer. Respiro fundo.

— Não suspire, tá bom? — Mirren censura. — Não faz mal. Não faz mal se eu nunca tiver um namorado. Não faz mal se ninguém nunca me amar, certo? É perfeitamente tolerável.

A voz da minha mãe me chama de algum lugar perto da nova Clairmont.

— Cadence! Está me ouvindo?

Respondo gritando:

— O que você quer?

— A cozinheira está de folga hoje. Estou começando a fazer o almoço. Venha cortar os tomates.

— Já vou. — Suspiro e olho para Mirren. — Preciso ir.

Ela não responde. Visto o moletom e subo até a nova Clairmont.

Na cozinha, minha mãe me entrega uma faca especial para tomates e começa a falar.

Blá-blá-blá, você está sempre na praia pequena.

Blá-blá-blá, você devia brincar com os pequenos.

Seu avô não vai estar aqui para sempre.

Sabe que está com uma queimadura de sol?

Eu corto e corto, uma cesta cheia de tomates com formato estranho. Eles são amarelos, verdes e bem vermelhos.

51

É MINHA TERCEIRA SEMANA na ilha e uma enxaqueca me ataca por dois dias. Talvez três. Não sei nem dizer. Os comprimidos estão acabando, embora eu tenha pegado um frasco novo antes de sair de casa.

Me pergunto se minha mãe está tomando também. Talvez sempre tenha tomado.

Talvez as gêmeas estejam entrando no meu quarto de novo e roubando coisas de que não precisam. Talvez sejam viciadas.

Talvez eu esteja tomando mais do que imagino. Pegando mais em meio ao atordoamento da dor. Esquecendo a última dose que tomei.

Tenho medo de dizer à minha mãe que preciso de mais.

Quando me sinto estável, volto a Cuddledown. O sol está baixo. A varanda está coberta de garrafas quebradas. Lá dentro, as fitas caíram do teto e se enrolam no chão. A louça na pia está ressecada e cheia de crostas. As toalhas que cobrem a mesa de jantar estão sujas. A mesa de centro está cheia de marcas circulares de canecas de chá.

Encontro os Mentirosos reunidos no quarto de Mirren, todos olhando para a Bíblia.

— Discussão sobre uma palavra do Scrabble — diz Mirren assim que eu entro. Ela fecha o livro. — Gat estava certo, como sempre. Você está sempre certo, Gat. Meninas não gostam disso em um cara, sabia?

As peças de Scrabble estão espalhadas no chão da sala. Eu vi quando entrei.

Eles não estavam jogando.

— O que vocês fizeram nos últimos dias? — pergunto.

— Ai, minha nossa — diz Johnny, espreguiçando-se sobre a cama de Mirren. — Já esqueci.

— Foi Quatro de Julho — diz Mirren. — Fomos jantar na nova Clairmont e depois todo mundo saiu no barco a motor grande para ver os fogos em Vineyard.

— Hoje fomos à loja de donuts em Nantucket — diz Gat.

Eles nunca vão a lugar nenhum. Nunca. Nunca veem ninguém. Agora, enquanto estive doente, foram a todos os lugares, viram todo mundo?

— Downyflake — digo. — É o nome da loja de donuts.

— Sim. Os donuts são maravilhosos — diz Johnny.

— Você odeia donuts sem recheio.

— Odeia mesmo — diz Mirren. — Mas não pegamos sem recheio.

— Pegamos de creme com cobertura de chocolate — diz Gat.

— E de geleia — diz Johnny.

Mas eu sei que a Downyflake só faz donuts simples, sem recheio. Nada de creme com chocolate. Nada de geleia.

Por que eles estão mentindo?

52

JANTO COM MINHA MÃE e com os pequenos na nova Clairmont, mas naquela noite tenho enxaqueca de novo. É pior do que a anterior. Deito em meu quarto escuro. Abutres bicam a massa que vaza do meu crânio esmagado.

Abro os olhos e Gat está parado diante de mim. Eu o vejo em meio a um nevoeiro. A luz brilha através das cortinas, então deve ser dia.

Gat nunca vem a Windemere. Mas lá está ele. Olhando para o papel quadriculado na minha parede. Para os post-its. Para as novas lembranças e informações que acrescentei desde que cheguei aqui, anotações sobre a morte dos cães dos meus avós, meu avô e o ganso de marfim, Gat me dando o livro da Moriarty, as tias brigando pela casa de Boston.

— Não leia meus papéis — resmungo.

Ele se afasta.

— Não sabia que não podia. Desculpe.

Eu me viro de lado e pressiono o rosto junto ao travesseiro quente.

— E não sabia que você estava colecionando histórias. — Gat senta na cama. Estende o braço e pega minha mão.

— Estou tentando me lembrar dos acontecimentos sobre os quais ninguém quer falar — digo. — Inclusive você.

— Quero falar sobre isso.

— Quer?

Ele está olhando para o chão.

— Tive uma namorada, dois verões atrás.

— Eu sei. Sempre soube.

— Mas nunca te contei.

— Não, não contou.

— Eu me apaixonei por você de tal forma, Cady… Não tinha como parar. Sei que devia ter te contado tudo e terminado com Raquel na mesma hora. Mas é que… ela estava lá em Nova York, e eu nunca te vejo no resto do ano, e meu telefone não funcionava direito aqui, e eu continuei recebendo pacotes dela. E cartas. O verão todo.

Olho para ele.

— Fui um covarde — Gat diz.

— É.

— Fui cruel. Com você e com ela também.

Meu rosto queima com a lembrança do ciúme.

— Sinto muito, Cady. — Gat continua. — É isso que eu devia ter dito a você esse ano, no dia em que chegamos. Eu estava errado e sinto muito.

Faço um gesto positivo com a cabeça. É bom ouvi-lo dizer isso. Queria não estar tão chapada.

— Na metade do tempo eu me odeio por todas as coisas que fiz — diz Gat. — Mas o que me deixa mesmo confuso é a contradição: quando não estou me odiando, me sinto íntegro, uma vítima, como se o mundo fosse muito injusto.

— Por que você se odeia?

Quando me dou conta, Gat está deitado na cama ao meu lado. Seus dedos frios entrelaçam-se aos meus dedos quentes, e seu rosto fica perto do meu. Ele me beija.

— Porque quero coisas que não posso ter — ele sussurra.

Mas ele me tem. Ele não sabe que já me tem?

Ou Gat está falando de alguma outra coisa, alguma outra coisa que não pode ter? Algo material, um sonho ou coisa do tipo?

Estou suada, minha cabeça dói e não consigo pensar direito.

— Mirren acha que isso vai acabar mal e que eu devia deixar você em paz — conto a ele.

Ele me beija de novo.

— Alguém fez algo comigo que é terrível demais para lembrar — sussurro.

— Eu te amo — ele diz.

Nós nos abraçamos e nos beijamos por um longo tempo.

A dor na minha cabeça diminui um pouco. Mas não completamente.

 

ABRO OS OLHOS e o relógio marca meia-noite.

Gat se foi.

Abro as cortinas e olho pela janela, erguendo a vidraça para pegar um pouco de ar.

Tia Carrie está andando de camisola novamente. Passando por Windemere, coçando os braços muito finos sob a luz da lua. Ela nem está de botas dessa vez.

Em Red Gate, consigo ouvir Will gritando depois de um pesadelo:

— Mamãe! Mamãe, preciso de você!

Mas Carrie não o escuta, pois não vai até ele. Muda de direção e segue pela passagem na direção de nova Clairmont.

53

DOAÇÃO: uma caixa de Legos.

Já doei todos os meus livros. Dei alguns aos pequenos, um para Gat, e fui com tia Bess doar o resto para um sebo beneficente em Vineyard.

Hoje de manhã, vasculhei o sótão. Tem uma caixa de Legos lá, e eu a levo para Johnny. Encontro-o sozinho na sala de Cuddledown, atirando pedacinhos de massa de modelar na parede e vendo as cores mancharem a tinta branca.

Ele vê os Legos e sacode a cabeça.

— Para seu atum — explico. — Agora você tem o bastante.

— Não vou fazer — ele diz.

— Por que não?

— Dá muito trabalho. Dê para Will.

— Você não está com os Legos do Will aqui?

— Levei de volta. Will estava louco por eles — Johnny diz. — Vai ficar feliz com mais.

Levo a caixa para Will na hora do almoço. Há pequenas pessoas de Lego e várias peças para montar carros.

Ele fica ridiculamente feliz. Ele e Taft montam carros durante todo o almoço. Nem param para comer.

54

NAQUELA MESMA TARDE, os Mentirosos pegam os caiaques.

— O que estão fazendo? — pergunto.

— Vamos até um lugar que conhecemos — diz Johnny. — Já fizemos isso antes.

— Cady não devia ir — diz Mirren.

— Por que não? — pergunta Johnny.

— Por causa da cabeça! — grita Mirren. — E se ela se machucar de novo e a enxaqueca ficar ainda pior? Minha nossa, você ainda tem cérebro, Johnny?

— Por que está gritando? — diz Johnny. — Não seja assim.

Por que ela não quer que eu vá?

— Você pode ir, Cadence — diz Gat. — Tudo bem se ela for.

Não quero insistir se não querem minha companhia, mas Gat aponta o banco do caiaque na frente dele e eu entro.

Na verdade, não quero ficar longe deles.

Nunca.

Remamos pelo lado da baía sob Windemere até um recesso. A casa da minha mãe fica sobre uma saliência. Embaixo há um aglomerado de rochas ásperas que quase parecem uma caverna. Puxamos os caiaques sobre as pedras e subimos na parte seca e fresca.

Mirren está enjoada, embora tenhamos ficado nos caiaques por poucos minutos. Ultimamente ela passa mal com tanta frequência que não é surpresa. Ela se deita com os braços sobre o rosto. Fico esperando os meninos desembalarem comida para um piquenique — eles carregam uma mochila de lona —, mas em vez disso Gat e Johnny começam a escalar as pedras. Eles já fizeram isso antes, dá para ver. Estão descalços e sobem até um ponto elevado a quase oito metros da água, parando em uma base suspensa sobre o mar.

Eu os observo até se estabelecerem.

— O que estão fazendo?

— Estamos sendo muito, muito másculos — Johnny grita lá de cima. Sua voz ecoa.

Gat ri.

— Não, sério — digo.

— Pode achar que somos garotos da cidade, mas a verdade é que somos cheios de testosterona.

— Não são.

— Somos sim.

— Ah, por favor. Vou subir aí com vocês.

— Não faça isso! — diz Mirren.

— Johnny me provocou — digo. — Agora eu tenho que ir. — Começo a escalar na mesma direção que os meninos foram. As rochas são frias sob minhas mãos, mais lisas do que eu esperava.

— Não — Mirren repete. — É por isso que eu não queria que você viesse.

— Por que você veio então? — pergunto. — Vai subir lá?

— Eu pulei da última vez — Mirren admite. — Uma vez basta.

— Eles vão pular? — Isso não parece possível.

— Pare, Cady. É perigoso — diz Gat.

E, antes que eu consiga subir mais, Johnny tampa o nariz e pula. Ele mergulha com os pés para baixo.

Eu grito.

Ele atinge a água com força. O mar está cheio de rochas nessa parte. Não dá para saber se é fundo ou raso. Johnny poderia morrer, de verdade, fazendo isso. Poderia. Mas ele aparece, sacudindo a água do cabelo curto e loiro e berrando.

— Você é louco! — eu o censuro.

Depois Gat pula. Johnny tinha se retorcido e berrado ao cair, mas Gat é silencioso, junta as pernas. Ele perfura a água gelada sem provocar quase nenhum respingo. Sai feliz, torcendo a água da camiseta enquanto volta a subir nas pedras secas.

— Eles são idiotas — diz Mirren.

Olho para as pedras de onde pularam. Parece impossível que alguém sobreviva.

E, de repente, quero pular. Começo a escalar novamente.

— Não, Cady — diz Gat. — Por favor, não.

— Você acabou de pular — eu digo. — E disse que não tinha problema eu vir.

Mirren senta, seu rosto está pálido.

— Quero ir para casa agora — ela insiste. — Não estou me sentindo bem.

— Por favor, não faça isso, Cady. Tem muita pedra — grita Johnny. — Não devíamos ter te trazido.

— Não sou uma inválida — digo. — Eu sei nadar.

— Não é isso. Não… não é uma boa ideia.

— Por que é uma boa ideia para vocês e não é uma boa ideia para mim? — retruco. Estou quase no alto. Bolhas começam a aparecer nos meus dedos por agarrar a pedra. A adrenalina invade minha corrente sanguínea.

— Estávamos sendo idiotas — diz Gat.

— Estávamos nos exibindo — diz Johnny.

— Desça, por favor. — Mirren está chorando agora.

Eu não desço. Estou sentada, joelhos junto ao peito, na base de onde os meninos pularam. Olho para o mar agitado lá embaixo. Formas escuras escondem-se sob a superfície da água, mas também posso ver um espaço aberto. Se posicionar meu salto corretamente, atingirei águas profundas.

— Sempre faça aquilo que teme! — eu grito.

— É um lema idiota — diz Mirren. — Eu já falei.

Vou provar que sou forte, já que eles me acham doente.

Vou provar que sou corajosa, já que eles me acham fraca.

Está ventando na pedra alta. Mirren chora. Gat e Johnny gritam comigo.

Fecho os olhos e pulo.

O choque da água é elétrico. Estimulante. Minha perna, a esquerda, raspa em uma pedra. Eu afundo,

até o fundo muito rochoso, e

posso ver a base da ilha, e

meus braços e pernas ficam dormentes, mas meus dedos estão frios. Tiras de algas marinhas passam enquanto eu afundo.

E logo estou na superfície novamente, respirando.

Estou bem,

minha cabeça está bem,

ninguém precisa chorar por mim ou se preocupar comigo.

Estou bem,

Estou viva.

Nado até a praia.

 

ÀS VEZES ME PERGUNTO se a realidade se divide. Em Vida encantada, o livro que dei para Gat, existem universos paralelos nos quais diferentes eventos aconteceram com a mesma pessoa. Uma escolha alternativa foi feita, ou um acidente acabou de outra forma. Todos têm réplicas de si mesmos nesses outros mundos. Versões diferentes, com vidas diferentes, sorte diferente.

Variações.

Eu me pergunto, por exemplo, se tem uma variação de hoje em que eu morro me atirando daquele penhasco. Tenho um funeral e minhas cinzas são espalhadas na praia pequena. Um milhão de botões de peônias cercam meu corpo afogado enquanto pessoas choram em suplício e com pesar. Sou um belo cadáver.

Eu me pergunto se tem outra variação em que Johnny se machuca, suas pernas e costas se esmagam contra as pedras. Não conseguimos chamar o resgate e temos que remar de volta no caiaque com os nervos dele rompidos. Conseguimos mandá-lo de helicóptero para o hospital na cidade, mas ele nunca mais vai andar.

Ou uma variação em que não vou com os Mentirosos nos caiaques. Deixo que me afastem. Eles continuam indo aos lugares sem mim e contando pequenas mentiras. Vamos nos separando, pouco a pouco, e chega um momento em que o idílio de verão está arruinado para sempre.

Parece mais do que provável que essas variações existam.

55

NAQUELA NOITE eu acordo com frio. Chutei os cobertores e a janela está aberta. Eu sento muito rápido e minha cabeça gira.

Uma lembrança.

Tia Carrie, chorando. Curvada, muco escorrendo pelo rosto, sem se preocupar em limpar. Ela está debruçada para a frente, está tremendo, parece que vai vomitar. Está escuro e ela usa uma blusa de algodão branca com uma jaqueta de náilon por cima — de Johnny, xadrez azul.

Por que ela está usando a jaqueta de Johnny?

Por que está tão triste?

Eu levanto e visto um moletom e sapatos. Pego uma lanterna e vou até Cuddledown. A sala está vazia e iluminada pelo luar. Garrafas espalham-se pela bancada da cozinha. Alguém deixou uma maçã cortada ali e ela está ficando marrom. Dá para sentir o cheiro.

Mirren está aqui. Não a tinha visto antes. Ela está debaixo da manta listrada, recostada no sofá.

— Você está acordada — Mirren sussurra.

— Vim procurar vocês.

— Por quê?

— Tive uma lembrança. Tia Carrie estava chorando. Estava usando a jaqueta do Johnny. Você se lembra de ter visto tia Carrie chorando?

— Algumas vezes.

— No verão dos quinze, quando ela tinha aquele cabelo curto?

— Não — responde Mirren.

— Por que não está dormindo? — pergunto.

Mirren sacode a cabeça.

— Não sei.

Eu me sento.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Preciso que me diga o que aconteceu antes do acidente. E depois. Você sempre diz que não foi nada de mais, mas alguma coisa deve ter acontecido comigo além de bater a cabeça enquanto nadava à noite.

— Ahã.

— Sabe o que foi?

— Penny disse que os médicos não querem que ninguém fale sobre isso. Você vai lembrar no seu próprio ritmo e ninguém deve te pressionar.

— Mas eu estou pedindo, Mirren. Preciso saber.

Ela encosta a cabeça nos joelhos, pensando.

— O que você acha? — Mirren finalmente diz.

— Eu… imagino que tenha sido vítima de alguma coisa. — É difícil dizer essas palavras. — Acho que fui estuprada, agredida, ou alguma outra coisa terrível. É esse tipo de coisa que faz as pessoas terem amnésia, não é?

Mirren esfrega os lábios.

— Não sei o que dizer — ela afirma.

— Diga o que aconteceu — eu peço.

— Foi um verão confuso.

— Como?

— É tudo o que posso dizer, minha querida Cady.

— Por que você nunca sai de Cuddledown? — pergunto de repente. — Você quase não sai, exceto para ir à praia pequena.

— Fui andar de caiaque hoje — ela diz.

— Mas você ficou mal. Você tem medo? — pergunto. — Tem agorafobia?

— Eu não me sinto bem, Cady — diz Mirren, na defensiva. — Sinto frio o tempo todo, não consigo parar de tremer. Minha garganta está doendo. Se você se sentisse assim, também não ia querer sair.

Eu me sinto pior do que isso o tempo todo, mas pelo menos dessa vez não menciono minhas dores de cabeça.

— Devíamos contar para a Bess, então. Precisa ir ao médico.

Mirren faz que não com a cabeça.

— É só um resfriado bobo que não sara nunca. Estou reclamando como bebê. Pode pegar um refrigerante para mim?

Não vou mais discutir. Pego um refrigerante para ela e ligamos a televisão.

56

PELA MANHÃ, há um balanço pendurado na árvore do gramado de Windemere. Igual ao que ficava na enorme acerácea na frente de Clairmont.

É perfeito.

Como aquele em que Tipper me balançava.

Meu pai.

Meu avô.

Minha mãe.

Como aquele em que Gat e eu nos beijamos no meio da noite.

Agora lembro que, no verão dos quinze, Johnny, Mirren, Gat e eu nos esprememos naquele balanço de Clairmont, os quatro. Éramos grandes demais para caber. Demos cotoveladas uns nos outros e mudamos de posição. Rimos e reclamamos. Acusamos uns aos outros de ter bunda grande. Acusamos uns aos outros de não cheirar bem. E mudamos de posição de novo.

Finalmente, nós nos acomodamos. Mas não dava para girar. Estávamos tão apertados que não havia como mover o balanço. Gritamos várias vezes para alguém nos empurrar. As gêmeas passaram e se recusaram a ajudar. Finalmente, Taft e Will saíram de Clairmont e fizeram o que pedimos. Resmungando, eles nos empurraram em um círculo largo. Nosso peso era tanto que depois que nos soltaram, começamos a girar cada vez mais rápido, rindo tanto até ficarmos tontos e enjoados.

Nós, os quatro Mentirosos. Agora me lembro.

*

ESSE NOVO BALANÇO parece forte. Os nós estão amarrados com cuidado.

Dentro do pneu tem um envelope.

É a letra de Gat: Para Cady.

Abro o envelope.

Mais de uma dúzia de rosas japonesas secas caem.

57

ERA UMA VEZ um rei que tinha três lindas filhas. Ele lhes dava tudo o que o coração delas desejava e, quando chegou a hora, o casamento delas foi comemorado com muita festividade. Quando a filha mais nova deu à luz uma menina, o rei e a rainha ficaram radiantes. Logo depois, a filha do meio também deu à luz uma menina e as comemorações se repetiram.

Por último, a filha mais velha deu à luz meninos gêmeos, mas infelizmente as coisas não correram como se esperava. Um dos gêmeos era humano, um bebê forte; o outro não passava de um ratinho.

Não houve comemoração. Nenhum anúncio foi feito.

A filha mais velha foi consumida pela vergonha. Um de seus filhos não passava de um animal. Ele nunca brilharia, bronzeado e afortunado, como os membros da família real.

As crianças cresceram, e o ratinho também. Ele era esperto e sempre mantinha os bigodes limpos. Era mais inteligente e mais curioso do que seu irmão ou suas primas.

Ainda assim, causava repulsa ao rei e à rainha. Assim que pôde, sua mãe o preparou, deu a ele uma pequena bolsa com mirtilo e algumas nozes, e o mandou embora para ver o mundo.

O ratinho foi, pois já conhecera o suficiente da vida na corte para saber que, se ficasse em casa, seria para sempre um segredo sujo, uma fonte de humilhação para sua mãe e qualquer um que o conhecesse.

Nem olhou para trás, para o castelo que havia sido seu lar.

Lá, ele nem ao menos tinha um nome.

Agora, estava livre para seguir em frente e fazer um nome para si mesmo no vasto, vasto mundo.

E talvez,

apenas talvez,

voltasse um dia,

para queimar aquela

porra

de palácio.