Mentirosos
Parte três
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Onde estão seus cartuns da New Yorker? — pergunto.
— O decorador tomou algumas decisões.
— E as almofadas?
— O quê?
— Vocês tinham aquelas almofadas. Com cães bordados.
Ele sacode a cabeça.
— Você ficou com o peixe?
— O quê? O peixe-espada e tudo aquilo? — Descemos a escadaria até o andar térreo. Meu avô se movimenta com lentidão e eu ando atrás dele. — Comecei de novo com essa casa — ele diz simplesmente. — A antiga vida se foi.
Ele abre a porta do escritório. Tem a mesma seriedade do resto da casa. Há um laptop no meio da mesa. Uma janela grande dá para o jardim japonês. Uma cadeira. Uma parede com prateleiras completamente vazias.
Parece sóbrio e aberto, mas não é modesto, porque tudo é opulento.
Meu avô é mais parecido com minha mãe do que comigo. Ele apagou a antiga vida gastando dinheiro em outra para substituí-la.
— Onde está aquele jovem? — meu avô pergunta de repente. Seu rosto assume uma expressão vaga.
— Johnny?
Ele sacode a cabeça.
— Não, não.
— Gat?
— Sim, aquele jovem. — Ele se segura na mesa por um instante, como se sentisse tontura.
— Você está bem?
— Ah, estou.
— Gat está em Cuddledown com Mirren e Johnny — digo a ele.
— Prometi um livro a ele.
— A maioria dos seus livros não está aqui.
— Pare de me dizer o que não está aqui! — meu avô grita com um vigor repentino.
— Você está bem? — pergunta tia Carrie da porta do escritório.
— Estou — ele diz.
Carrie me olha de um jeito estranho e pega no braço do meu avô.
— Vamos. O almoço está pronto.
— Você voltou a dormir? — pergunto a minha tia no caminho para a cozinha. — Ontem à noite… Johnny estava acordado?
— Não sei do que está falando — ela diz.
34
A COZINHEIRA DO MEU AVÔ faz as compras e prepara os alimentos, mas as tias planejam todas as refeições. Hoje comemos frango assado, salada de tomate com manjericão, queijo camembert, pão e limonada na sala de jantar. Liberty me mostra fotos de meninos bonitos em uma revista. Depois me mostra fotos de roupas em outra. Bonnie lê um livro chamado Aparições coletivas: Fato e ficção. Taft e Will querem que eu os leve para brincar de esqui-boia, ou seja, que dirija o pequeno barco a motor rebocando uma boia com os dois dentro.
Minha mãe diz que não posso dirigir o barco enquanto estiver tomando remédio.
Tia Carrie diz que não importa, porque Will não vai brincar de esqui-boia de jeito nenhum.
Tia Bess diz que concorda, então é melhor Taft nem pensar em pedir a ela.
Liberty e Bonnie perguntam se elas podem ir.
— Você sempre deixou Mirren ir — diz Liberty. — Sabe que é verdade.
Will derruba a limonada e encharca um pão.
As pernas do meu avô ficam molhadas.
Taft pega o pão molhado e acerta Will com ele.
Minha mãe limpa a sujeira enquanto Bess corre ao andar de cima para pegar uma calça seca para meu avô.
Carrie repreende os meninos.
Quando a refeição termina, Taft e Will correm para a sala para não ter de ajudar a limpar. Pulam como lunáticos sobre o novo sofá de couro do meu avô. Vou junto.
Will é nanico e rosado, como Johnny. Cabelo loiro quase branco. Taft é mais alto e muito magro, dourado e sardento, com cílios longos e escuros e aparelho nos dentes.
— E, então, vocês dois — digo. — Como foi o verão passado?
— Sabe como conseguir um dragão de cinzas no DragonVale? — pergunta Will.
— Eu sei como conseguir um dragão de fogo — diz Taft.
— Você pode usar o dragão de fogo para conseguir o dragão de cinzas — diz Will.
Argh. Meninos de dez anos.
— Vamos. Verão passado — eu digo. — Contem. Vocês jogaram tênis?
— Claro — diz Will.
— Vocês nadaram?
— Sim — diz Taft.
— Foram andar de barco com Gat e Johnny?
Os dois param de pular.
— Não.
— Gat falou alguma coisa sobre mim?
— Não posso falar sobre você ter ido parar na água e tudo mais — diz Will. — Prometi a tia Penny que não falaria.
— Por que não? — pergunto.
— Vai piorar suas dores de cabeça e temos que esquecer esse assunto.
Taft confirma.
— Ela disse que, se fizéssemos suas dores de cabeça piorarem, ia nos pendurar pelas unhas do pé e tirar nossos iPads. Devemos ser divertidos e não idiotas.
— Não estamos falando do acidente — eu digo. — Estamos falando do verão em que fui para a Europa.
— Cady? — Taft toca em meu ombro. — Bonnie viu comprimidos no seu quarto.
Will se afasta e senta no braço na outra ponta do sofá.
— Bonnie mexeu nas minhas coisas?
— E Liberty.
— Céus.
— Você me disse que não era viciada em drogas, mas guarda comprimidos na cômoda. — Taft estava sendo petulante.
— Falem para elas ficarem longe do meu quarto — eu digo.
— Se você é viciada em drogas — diz Taft —, tem algo que precisa saber.
— O quê?
— Drogas não são amigas. — Taft parece sério. — Drogas não são amigas, e as pessoas deviam ser suas amigas.
— Ai, meu Deus. Você não pode simplesmente me dizer o que fez no verão passado, seu pestinha?
Will diz:
— Taft e eu queremos jogar Angry Birds. Não queremos mais falar com você.
— Tanto faz — digo. — Façam o que quiserem.
Saio na varanda e vejo os meninos correndo pela passagem que leva a Red Gate.
35
TODAS AS JANELAS DE CUDDLEDOWN estão abertas quando desço depois do almoço. Gat está colocando música para tocar no som antigo. Meus velhos desenhos de lápis de cor estão presos com ímãs na geladeira: meu pai no alto, minha avó com os cachorros embaixo. Minha pintura está colada com fita adesiva em um dos armários da cozinha. Há uma escada e uma caixa grande com papéis de presente no centro da sala.
Mirren empurra uma poltrona pelo chão.
— Nunca gostei do jeito que minha mãe arrumava esse lugar — ela explica.
Ajudo Gat e Johnny a mudar os móveis de lugar até Mirren ficar satisfeita. Tiramos as aquarelas de paisagens de Bess e enrolamos os tapetes. Pilhamos o quarto dos pequenos em busca de objetos divertidos. Quando terminamos, a sala está decorada com cofres de porquinho e colchas de retalho, pilhas de livros infantis, uma luminária em forma de coruja. Fitas grossas e brilhantes da caixa de papéis de presente cruzam o teto.
— Bess não vai ficar zangada por você estar redecorando a casa? — pergunto.
— Prometo que ela não vai colocar os pés em Cuddledown pelo resto do verão. Está tentando sair desse lugar há anos.
— Do que está falando?
— Ah — diz Mirren sutilmente —, você sabe. Blá-blá-blá, filha menos querida, blá-blá-blá, a cozinha é uma porcaria, por que o vovô não manda reformar?, e por aí vai.
— Ela pediu para ele?
Johnny ficou me olhando de um jeito estranho.
— Você não lembra?
— Ela perdeu a memória, Johnny! — grita Mirren. — Ela não se lembra, tipo… de metade do verão dos quinze.
— Não? — Johnny diz. — Eu pensei…
— Não, não, cala a boca agora mesmo. — Mirren o repreende. — Você não prestou atenção no que eu disse?
— Quando? — Ele pareceu perplexo.
— Aquela noite — diz Mirren. — Eu te contei o que tia Penny disse.
— Relaxa — diz Johnny, jogando uma almofada nela.
— Isso é importante! Como pode não prestar atenção nessas coisas? — Mirren parece prestes a chorar.
— Desculpe, está bem? — Johnny diz. — Gat, você sabia que a Cadence não se lembra, tipo, da maior parte do verão dos quinze?
— Sabia — ele responde.
— Está vendo? — diz Mirren. — Gat ouve.
Meu rosto está quente. Olho para o chão. Ninguém fala por um minuto.
— É normal perder parte da memória quando se bate a cabeça com muita força — digo finalmente. — Minha mãe explicou?
Johnny ri de nervoso.
— Fico surpresa por minha mãe ter contado — eu continuo. — Ela odeia falar sobre isso.
— Ela disse que você devia ir com calma e se lembrar das coisas no seu próprio ritmo. Todas as tias sabem — diz Mirren. — Vovô sabe. Os pequenos. Os empregados. Todas as pessoas dessa ilha, menos Johnny, parece.
— Eu sabia — diz Johnny. — Só não sabia da história inteira.
— Não seja desagradável — diz Mirren. — Não é hora para isso.
— Tudo bem — digo a Johnny. — Você não é desagradável. Só teve um momento abaixo do padrão. Tenho certeza de que será ótimo de agora em diante.
— Eu sempre sou ótimo — diz Johnny. — Só não sou tão ótimo quanto Mirren quer que eu seja.
Gat sorri quando eu uso “abaixo do padrão” e dá um tapinha em meu ombro.
Começamos de novo.
36
JOGAMOS TÊNIS. Johnny e eu ganhamos, mas não porque ainda sou boa. Ele é um atleta excelente, e Mirren está mais inclinada a acertar a bola e fazer dancinhas felizes, sem se preocupar se alguém vai rebater. Gat fica rindo dela, o que o faz errar.
— Como foi a viagem para a Europa? — Gat pergunta no caminho de volta para Cuddledown.
— Meu pai comeu tinta de lula.
— O que mais? — Chegamos ao jardim e jogamos as raquetes na varanda. Esticamo-nos sobre a grama.
— Sinceramente, não tenho muita coisa para contar — digo. — Sabe o que eu fiz enquanto meu pai visitava o Coliseu?
— O quê?
— Deitei com o rosto encostado nos ladrilhos do banheiro do hotel. Fiquei olhando fixamente para a base azul do vaso sanitário italiano.
— O vaso era azul? — Johnny pergunta, sentando.
— Só você para ficar mais empolgada com um vaso sanitário azul do que com os monumentos de Roma — resmunga Gat.
— Cadence — diz Mirren.
— O quê?
— Deixa pra lá.
— O quê?
— Você disse para não sentir pena de você, mas aí conta uma história sobre o vaso sanitário — ela diz sem pensar. — É de dar pena. O que devemos dizer?
— Além disso, ir para Roma nos deixa com inveja — diz Gat. — Nunca fomos para Roma.
— Eu quero ir para Roma! — diz Johnny, voltando a se deitar. — Quero muito ver os vasos azuis!
— Quero ver as Termas de Caracalla — diz Gat. — E experimentar todos os sabores de sorvete que eles fazem.
— Então vá — digo.
— Não é tão simples assim.
— Certo, mas você vai — eu afirmo. — Na faculdade ou depois da faculdade.
Gat suspira.
— Só estou dizendo… você foi para Roma!
— Queria que você tivesse ido junto — digo a ele.
37
— VOCÊ ESTAVA NA QUADRA de tênis? — Minha mãe me pergunta. — Ouvi o barulho das bolas.
— Só passando o tempo.
— Você não joga há tanto tempo… Isso é maravilhoso.
— Meu saque está ruim.
— Estou tão feliz por você estar retomando as atividades. Se quiser jogar comigo amanhã, é só dizer.
Ela está se iludindo. Não estou retomando o tênis só porque joguei uma única tarde e de jeito nenhum vou querer jogar com ela. Minha mãe ia usar uma saia de tênis e me elogiar e me pedir para tomar cuidado e ficar no meu pé até eu ser grossa com ela.
— Vamos ver — digo. — Acho que distendi o ombro.
O jantar é servido ao ar livre, no jardim japonês. Observamos o pôr do sol às oito, em grupos ao redor de pequenas mesas. Taft e Will pegam costeletas de porco da bandeja e comem com as mãos.
— Vocês são animais — diz Liberty, franzindo o nariz.
— E com isso você quer dizer que…? — pergunta Taft.
— Existe uma coisa chamada garfo — diz Liberty.
— E existe uma coisa chamada sua cara — diz Taft.
Johnny, Gat e Mirren podem comer em Cuddledown porque não estão doentes. E suas mães não são controladoras. Minha mãe nem me deixa sentar com os adultos. Ela me obriga a sentar em uma mesa separada com meus primos.
Estão todos rindo e discutindo uns com os outros, falando de boca cheia. Paro de escutar o que estão dizendo. Em vez disso, olho para minha mãe, Carrie e Bess amontoadas ao redor do meu avô.
AGORA ME LEMBRO de uma noite. Deve ter sido umas duas semanas antes do acidente. No início de julho. Estávamos todos sentados à longa mesa no gramado de Clairmont. Velas de citronela queimavam na varanda. Os pequenos tinham terminado de comer seus hambúrgueres e estavam virando estrelas no gramado. Nós estávamos comendo peixe-espada grelhado com molho de manjericão. Tinha uma salada de tomates amarelos e uma travessa de abobrinha gratinada. Gat pressionou a perna junto à minha debaixo da mesa. Fiquei meio tonta de felicidade.
As tias brincavam com a comida, quietas e formais umas com as outras apesar dos gritos dos pequenos. Meu avô recostou na cadeira, entrelaçando as mãos sobre a barriga.
— Vocês acham que devo reformar a casa de Boston? — ele perguntou.
Um silêncio se seguiu.
— Não, pai. — Bess foi a primeira a falar. — Amamos aquela casa.
— Você sempre reclama da corrente de ar na sala — disse meu avô.
Bess olhou para as irmãs.
— Não reclamo.
— Você não gosta da decoração — disse meu avô.
— Isso é verdade. — A voz da minha mãe era crítica.
— Eu acho que é atemporal — disse Carrie.
— Você poderia me dar algumas sugestões, sabe… — meu avô disse a Bess. — Poderia ir até lá olhar com calma? Dizer o que acha?
— Eu…
Ele se aproximou.
— Eu também posso vender, sabe?
Todos sabíamos que tia Bess queria a casa de Boston. Todas as tias queriam a casa de Boston. Era uma casa de quatro milhões de dólares, e tinham crescido nela. Mas Bess era a única que morava lá perto, e a única com filhos o suficiente para encher os quartos.
— Pai — Carrie disse com severidade. — Não pode vender a casa.
— Posso fazer o que quiser — disse meu avô, espetando o último tomate de seu prato e o enfiando na boca. — Você gosta da casa do jeito que está, Bess? Ou quer vê-la reformada? Ninguém gosta de gente evasiva.
— Adoraria ajudar com tudo o que quiser mudar, pai.
— Ah, faça-me o favor — retrucou minha mãe. — Ontem mesmo você estava falando do quanto estava ocupada e agora vai ajudar a reformar a casa de Boston?
— Ele pediu nossa ajuda — disse Bess.
— Ele pediu sua ajuda. Está nos excluindo, pai?
Minha mãe estava bêbada. Meu avô riu.
— Penny, relaxe.
— Vou relaxar quando a herança estiver definida.
— Você está nos enlouquecendo — Carrie resmungou.
— O que disse? Não murmure.
— Nós todas te amamos, pai — disse Carrie em voz alta. — Sei que esse ano está sendo difícil.
— Se estão enlouquecendo, é por escolha de vocês mesmas — disse meu avô. — Recomponham-se. Não posso deixar a herança para pessoas loucas.
VEJO AS TIAS AGORA, no verão dos dezessete. Aqui, no jardim japonês da nova Clairmont, minha mãe abraça Bess, que estende o braço para cortar uma fatia de torta de framboesa para Carrie.
É uma linda noite, e somos de fato uma linda família.
Não sei o que mudou.
38
— TAFT TEM UM LEMA — digo a Mirren. É meia-noite. Nós, os Mentirosos, estamos jogando Scrabble na sala de Cuddledown.
Meu joelho está encostando na coxa de Gat, mas não sei se ele percebeu. O tabuleiro está quase cheio. Meu cérebro está cansado. Tenho letras ruins.
Mirren reorganiza suas peças sem muita atenção.
— Taft tem o quê?
— Um lema — digo. — Como o vovô, sabe? Ninguém gosta de gente evasiva?
— Nunca sente nos fundos da sala — Mirren entoa.
— Nunca reclame, nunca explique — diz Gat. — Esse é de Disraeli, eu acho.
— Ah, ele adora esse — diz Mirren.
— E não aceite não como resposta — acrescento.
— Minha nossa, Cady! — grita Johnny. — Não pode simplesmente formar uma palavra e deixar a gente continuar o jogo?
— Não grite com ela, Johnny — diz Mirren.
— Desculpe — diz Johnny. — Você pode, por favorzinho com açúcar mascavo e canela, formar uma porra de uma palavra no Scrabble?
Meu joelho está encostando na coxa de Gat. Realmente não consigo pensar. Formei uma palavra curta e idiota.
Johnny joga suas peças.
— Drogas não são amigas — eu anuncio. — É esse o lema do Taft.
— Não acredito — Mirren ri. — De onde ele tirou isso?
— Talvez esteja aprendendo sobre drogas na escola. Além disso, as gêmeas xeretaram meu quarto e contaram a ele que eu tinha uma cômoda cheia de comprimidos, então ele quis se certificar de que eu não era viciada.
— Meu Deus — exclamou Mirren. — Bonnie e Liberty são um desastre. Acho que agora são cleptomaníacas.
— Sério?
— Elas pegaram os remédios para dormir da minha mãe e seus brincos de argola de diamante. Não tenho ideia de onde acham que vão usar aqueles brincos sem que ela veja. Além disso, são duas e só têm um par.
— Você falou com elas sobre isso?
— Tentei com Bonnie. Mas elas estão além de qualquer ajuda que eu possa dar — Mirren afirma e volta a reorganizar as peças. — Eu gosto da ideia de um lema — continua. — Acho que uma citação inspiradora pode ajudar nos momentos difíceis.
— Como o quê? — pergunta Gat.
Mirren para. Depois diz:
— Seja um pouco mais gentil do que precisa ser.
Ficamos todos em silêncio depois disso. Parece impossível discordar.
Então Johnny diz:
— Nunca coma nada maior do que sua bunda.
— Você já comeu algo maior do que sua bunda? — pergunto.
Ele confirma com seriedade.
— Certo, Gat — diz Mirren. — Qual é o seu?
— Não tenho nenhum.
— Ah, vamos.
— Certo, talvez — Gat fica olhando para as unhas. — Não aceite um mal que você possa mudar.
— Concordo com isso — digo, porque concordo.
— Eu não — diz Mirren.
— Por que não?
— Há muito pouca coisa que se pode mudar. É preciso aceitar o mundo como ele é.
— Não é verdade — diz Gat.
— Não é melhor ser uma pessoa relaxada e tranquila? — Mirren pergunta.
— Não. — Gat é conclusivo. — É melhor combater o mal.
— Não coma neve amarela — diz Johnny. — É outro bom lema.
— Sempre faça aquilo que teme — eu digo. — Esse é o meu.
— Ah, faça-me o favor. Quem diz isso? — grita Mirren.
— Emerson — respondo. — Eu acho. — Pego uma caneta e escrevo isso no dorso das mãos.
Esquerda: Sempre faça. Direita: aquilo que teme. A letra sai torta na direita.
— Emerson é tão chato — diz Johnny. Ele pega a caneta que está comigo e escreve em sua própria mão esquerda: NADA DE NEVE AMARELA . — Aqui está — ele diz, exibindo o resultado. — Isso deve ajudar.
— Cady, estou falando sério. Não devemos fazer sempre aquilo que tememos — diz Mirren de maneira fervorosa. — Nunca devemos.
— Por que não?
— Você pode morrer. Você pode se ferir. Se está com muito medo, é provável que exista um bom motivo para isso. Você tem que confiar nos próprios instintos.
— Então qual é a sua filosofia? — Johnny pergunta a ela. — Seja um grande covarde?
— Sim — responde Mirren. — Isso e aquela coisa da gentileza que eu falei antes.
39
VOU ATRÁS DE GAT quando ele sobe. Eu o sigo pelo longo corredor, pego em sua mão e trago seus lábios para os meus.
É o que temo fazer, e faço.
Ele retribui o beijo. Seus dedos se entrelaçam nos meus e eu fico tonta e ele me levanta e tudo fica claro e tudo é sublime de novo. Nosso beijo transforma o mundo em poeira. Só nós existimos e nada mais importa.
Então Gat se afasta.
— Eu não devia fazer isso.
— Por que não? — A mão dele ainda segura a minha.
— Não é que eu não queira, é que…
— Achei que íamos começar de novo. Isso não é começar de novo?
— Estou confuso. — Gat recua e se encosta na parede. — Essa conversa é tão clichê. Não sei mais o que dizer.
— Explique.
Uma pausa. E depois:
— Você não me conhece.
— Explique — digo novamente.
Gat coloca a cabeça entre as mãos. Ficamos lá parados, ambos encostados na parede, no escuro.
— Certo. Aqui vai uma parte — ele finalmente sussurra. — Você não conhece minha mãe. Você nunca foi ao meu apartamento.
Isso é verdade. Nunca vi Gat em nenhum outro lugar além de Beechwood.
— Você sente que me conhece, Cady, mas só conhece a versão que vem para cá — ele diz. — Não é… Simplesmente não é tudo. Não conhece meu quarto com a janela sobre o duto de ventilação, o curry que minha mãe faz, os caras da escola, a forma como comemoramos os feriados. Só conhece a versão de mim que existe nessa ilha, onde todos são ricos, menos eu e os empregados. Onde todos são brancos, menos eu, Ginny e Paulo.
— Quem são Ginny e Paulo?
Gat acerta a palma da mão com o punho.
— Ginny é a empregada. Paulo é o jardineiro. Você não sabe o nome deles, sendo que trabalham aqui todo verão. Essa é uma parte do meu argumento.
Meu rosto fica quente de vergonha.
— Sinto muito.
— Mas você ao menos quer conhecer o resto? — Gat pergunta. — É capaz de entender?
— Você não vai saber até me dar uma chance — digo. — Não tenho notícias suas há um tempão.
— Sabe o que sou para seu avô? O que sempre fui?
— O quê?
— Heathcliff. De O morro dos ventos uivantes. Você leu?
Faço que não com a cabeça.
— Heathcliff é um garoto cigano acolhido e criado por uma família impecável, os Earnshaw. Ele se apaixona pela menina, Catherine. Ela o ama também, mas acha que ele não serve para ela, devido à sua ascendência. E o resto da família concorda.
— Não é assim que me sinto.
— Não há nada que Heathcliff possa fazer para que os Earnshaw o considerem bom o bastante. E ele tenta. Ele vai embora, estuda, vira um cavalheiro. Ainda assim, eles o consideram um animal.
— E?
— Então, já que o livro é uma tragédia, Heathcliff se transforma no que pensam dele, sabe? Ele se transforma em um homem bruto. O mal que há nele aflora.
— Achei que fosse um romance.
Gat sacode a cabeça.
— Aquelas pessoas são horríveis umas com as outras.
— Está dizendo que meu avô acha que você é Heathcliff?
— Eu tenho certeza disso — diz Gat. — Um bruto sob uma superfície agradável, traindo sua gentileza de me deixar vir para sua ilha protegida todos os anos. Eu o traí seduzindo sua Catherine, sua Cadence. E meu castigo é virar o monstro que ele sempre viu em mim.
Fico em silêncio.
Gat fica em silêncio.
Estendo o braço e toco nele. A mera sensação de seu antebraço sob o algodão fino da camisa me faz ansiar por beijá-lo de novo.
— Sabe o que é horrível? — Gat pergunta, sem olhar para mim. — O que é horrível é que, no fim das contas, ele está certo.
— Não, não está.
— Está, sim.
— Gat, espere.
Mas ele já entrou no quarto e fechou a porta.
Fico sozinha no corredor escuro.
40
ERA UMA VEZ um rei que tinha três lindas filhas. As meninas cresceram e se tornaram adoráveis. Tiveram casamentos sublimes, mas a chegada da primeira neta trouxe decepção. A jovem princesa gerou uma filha tão, mas tão pequena, que sua mãe resolveu guardá-la no bolso, onde a menina passava despercebida. Depois de um tempo, netos de tamanho normal chegaram e o rei e a rainha se esqueceram quase completamente da existência da princesa pequenina.
Quando a princesinha ficou mais velha, passava a maior parte dos dias e das noites praticamente sem sair de sua pequena cama. Ela não tinha muitos motivos para se levantar, de tão solitária que era.
Um dia, arriscou ir à biblioteca do palácio e ficou satisfeita ao descobrir como os livros podem ser boa companhia. Começou a frequentá-la com frequência. Certa manhã, enquanto lia, um rato apareceu sobre a mesa. Ele ficou em pé. Usava uma pequena jaqueta de veludo. Os bigodes eram limpos e o pelo era marrom. “Você lê como eu”, ele disse. “Andando de um lado para o outro diante das páginas.” Ele deu um passo à frente e se curvou em uma reverência.
O rato encantava a princesa pequenina com histórias de suas aventuras. Contou a ela sobre ogros que roubam pés de gente e deuses que abandonam os pobres. Fazia perguntas sobre o Universo e procurava continuamente por respostas. Achava que feridas precisavam de atenção. Por sua vez, a princesa narrava ao rato os contos de fadas, fazia retratos pixelados para ele e pequenos desenhos com lápis de cor. Ela ria e discutia com ele. Sentiu-se desperta pela primeira vez na vida.
Não demorou muito até que se apaixonassem perdidamente.
Quando apresentou o pretendente à família, no entanto, a princesa encontrou dificuldades. “Ele não passa de um rato!”, berrou o rei com desdém, enquanto a rainha gritava e saía correndo da sala do trono, com medo. De fato, todo o reino, da realeza aos criados, via o pretendente-rato com desconfiança e mal-estar. “Ele é anormal”, as pessoas diziam. “Um animal disfarçado de gente”.
A princesa pequenina não hesitou. Ela e o rato deixaram o palácio e foram para muito, muito longe. Em uma terra estrangeira, casaram-se, construíram um lar, encheram-no de livros e chocolates e viveram felizes para sempre.
Se você quiser viver em um lugar onde as pessoas não tenham medo de ratos, deve abrir mão de viver em palácios.
41
UM GIGANTE EMPUNHA um serrote enferrujado. Ele se sente triunfante e cantarola enquanto trabalha, fatiando minha testa e chegando à mente que há por baixo.
Tenho menos de quatro semanas para descobrir a verdade.
Meu avô me chama de Mirren.
As gêmeas estão roubando remédio para dormir e brincos de diamante.
Minha mãe discutiu com as tias a respeito da casa de Boston.
Bess odeia Cuddledown.
Carrie perambula pela ilha à noite.
Will tem pesadelos.
Gat é Heathcliff.
Gat acha que eu não o conheço.
E talvez tenha razão.
Tomo comprimidos. Bebo água. O quarto está escuro.
Minha mãe está parada na porta, olhando para mim. Não falo com ela.
Fico na cama durante dois dias. De vez em quando a dor aguda fica menos intensa. Aí, se estou sozinha, sento e escrevo no amontoado de anotações acima da minha cama. Mais perguntas do que respostas.
Na manhã em que me sinto melhor, meu avô vem cedo para Windemere. Está usando calça de linho branca e uma jaqueta esportiva azul. Estou de shorts e camiseta, jogando a bola para os cães no pátio. Minha mãe já está na nova Clairmont.
— Estou indo para Edgartown — diz meu avô, coçando as orelhas de Bosh. — Quer vir? Se não se importar com a companhia de um velho.
— Não sei — brinco. — Estou tão ocupada com essa bola de tênis cheia de baba. Pode levar o dia todo.
— Vou te levar até a livraria, Cady. Comprar presentes como costumava fazer.
— Que tal um doce?
Meu avô riu.
— Claro.
— Minha mãe te convenceu a isso?
— Não. — Ele coça o tufo de cabelo branco. — Mas Bess não quer que eu dirija o barco a motor sozinho. Ela diz que posso ficar desorientado.
— Também não tenho permissão para dirigir o barco a motor.
— Eu sei — ele diz, segurando as chaves. — Mas Bess e Penny não mandam aqui. Eu mando.
Decidimos tomar café da manhã na cidade. Queremos tirar o barco do cais de Beechwood antes que as tias nos vejam.
EDGARTOWN É UMA VILA NÁUTICA ADORÁVEL em Martha’s Vineyard. São vinte minutos até lá. É cheia de cerquinhas brancas e casas de madeira branca com jardins floridos. As lojas vendem coisas para turistas, sorvetes, roupas caras, joias antigas. Barcos saem do porto para passeios com pescaria e vistas deslumbrantes.
Meu avô parece como antes. Não para de gastar dinheiro. Tenta me agradar com café expresso e croissants de uma pequena padaria com bancos altos junto à vitrine, depois tenta comprar livros para mim na livraria de Edgartown. Quando recuso o presente, ele sacode a cabeça diante do meu projeto de doações, mas não dá sermão. Em vez disso, pede minha ajuda para escolher presentes para os pequenos e um livro sobre arranjo de flores para Ginny, a empregada. Fazemos um pedido enorme na Murdick’s Fudge: chocolate, chocolate com nozes, manteiga de amendoim e doce de leite.
Passeando por uma das galerias de arte, encontramos o advogado do meu avô, um sujeito magro e grisalho chamado Richard Thatcher.
— Então esta é Cadence, a primeira — diz Thatcher, apertando minha mão. — Ouvi falar muito a seu respeito.
— Ele cuida dos meus bens — diz meu avô, explicando quem é o homem.
— Primeira neta — diz Thatcher. — Nada se compara a esse sentimento.
— Ela tem a cabeça no lugar também — diz meu avô. — Sangue dos Sinclair dos pés à cabeça.
Ele sempre fez essa coisa de falar frases de efeito. “Nunca reclame, nunca explique.” “Não aceite não como resposta.” Mas é irritante quando ele usa para falar de mim. A cabeça no lugar? A porra da minha cabeça está ferrada de inúmeras formas clinicamente diagnosticadas, e metade de mim vem do lado infiel dos Eastman. Não vou para a faculdade ano que vem; desisti de todos os esportes que costumava praticar e dos clubes de que fazia parte; estou chapada de oxicodona na metade do tempo e não sou legal nem com meus primos pequenos.
Ainda assim, o rosto do meu avô fica radiante ao falar de mim, e pelo menos hoje ele sabe que não sou Mirren.
— Ela se parece com você — diz Thatcher.
— Não parece? Só que ela é bonita.
— Obrigada — eu digo. — Mas se quiser que eu fique realmente parecida com ele, terei que colocar uns tufos pra cima no cabelo.
Isso faz meu avô rir.
— É do barco — ele diz a Thatcher. — Não trouxe chapéu.
— Na verdade é sempre assim — digo a Thatcher.
— Eu sei — ele afirma.
Os homens se cumprimentam com um aperto de mão e meu avô me dá o braço ao sairmos da galeria.
— Ele está cuidando muito bem de você — meu avô me diz.
— O sr. Thatcher?
Ele confirma.
— Mas não conte para sua mãe. Ela vai criar confusão de novo.
42
A CAMINHO DE CASA, uma lembrança surge.
Verão dos quinze, uma manhã do início de julho. Meu avô preparava um expresso na cozinha de Clairmont. Eu comia pão torrado com geleia à mesa. Estávamos só nós dois.
— Adoro aquele ganso — eu disse, apontando. Havia uma estátua de ganso cor de creme no aparador.
— Está lá desde que você, Johnny e Mirren tinham três anos — disse meu avô. — Foi o ano em que Tipper e eu fizemos aquela viagem para a China. — Ele riu. — Ela comprou muitos objetos de arte lá. Tínhamos uma guia de turismo, uma especialista em arte. — Ele foi até a torradeira e pegou o pedaço de pão que eu estava preparando para mim.
— Ei! — protestei.
— Shhh, eu sou o avô. Posso pegar a torrada quando quiser. — Ele sentou com o expresso e passou manteiga no pão. — Essa garota, especialista em arte, nos levou a lojas de antiguidades e nos ajudou a circular pelas casas de leilão — ele disse. — Ela falava quatro línguas. Não dava para imaginar ao olhar para ela. Uma chinesinha tão magrinha.
— Não diga chinesinha! Céus!
Ele me ignorou.
— Tipper comprou joias e queria comprar esculturas de animais para as casas daqui.
— Isso inclui o sapo de Cuddledown?
— Claro, o sapo de marfim — disse meu avô. — E sei que compramos dois elefantes.
— Esses estão em Windemere.
— E macacos em Red Gate. São quatro macacos.
— Marfim não é ilegal? — perguntei.
— Ah, em alguns lugares. Mas dá para conseguir. Sua avó amava marfim. Ela viajou para a China quando era criança.
— É presa de elefante?
— Ou de rinoceronte.
Lá estava ele, meu avô. Com o cabelo branco ainda espesso, as linhas de expressão profundas devido a todos aqueles dias velejando. O queixo quadrado como o de um artista de cinema de antigamente.
Pode ficar com ela, ele disse sobre a estátua de marfim.
Um de seus lemas: não aceite não como resposta.
Sempre me pareceu um jeito ousado de viver. Ele dizia isso quando nos aconselhava a ir atrás de nossas ambições. Quando encorajava Johnny a treinar para uma maratona, ou quando eu não consegui ganhar o prêmio de leitura no sétimo ano. Era algo que ele dizia quando falava sobre suas estratégias de negócios e sobre como convencera minha avó a se casar com ele. “Pedi quatro vezes até ela dizer sim”, ele sempre dizia, recontando uma de suas lendas favoritas da família Sinclair. “Eu a venci pelo cansaço. Ela disse sim para me fazer ficar quieto.”
Agora, à mesa do café da manhã, observando-o comer meu pão torrado, “Não aceite não como resposta” parecia a atitude de um sujeito privilegiado que não se importava com quem fosse se ferir, contanto que sua esposa tivesse as lindas estátuas que queria exibir em suas casas de veraneio.
Fui até lá e peguei o ganso.
— As pessoas não deviam comprar marfim — eu disse. — É ilegal por um motivo. Gat estava lendo outro dia sobre…
— Não me diga o que aquele menino está lendo — retrucou meu avô. — Sou muito bem informado. Recebo todos os jornais.
— Desculpe. Mas ele me fez parar para pensar sobre…
— Cadence.
— Você podia leiloar as estátuas e depois doar o dinheiro para alguma instituição de proteção à vida selvagem.
— Aí eu ficaria sem as estátuas. Tipper tinha muito apreço por elas.
— Mas…
Meu avô gritou:
— Não me diga o que fazer com meu dinheiro, Cady. Ele não é seu.
— Está bem.
— Não é você quem diz que destino dar ao que é meu, está claro?
— Está.
— Nunca.
— Sim, vovô.
Senti o ímpeto de pegar aquele ganso e arremessá-lo para o outro lado da sala.
Ele quebraria quando atingisse a lareira? Ele estilhaçaria?
Fechei as mãos em punho.
Era a primeira vez que falávamos sobre vovó Tipper desde sua morte.
MEU AVÔ ENCOSTA o barco no cais e o amarra.
— Ainda sente falta da vovó? — pergunto a ele conforme nos aproximamos da nova Clairmont. — Porque eu sinto. Nunca falamos sobre ela.
— Uma parte de mim morreu — ele diz. — E era a melhor parte.
— Acha mesmo? — pergunto.
— É tudo o que tenho a dizer sobre isso — afirma meu avô.
43
ENCONTRO OS MENTIROSOS no pátio de Cuddledown. A grama está cheia de raquetes de tênis e garrafas de bebida, embalagens de comida e toalhas de praia. Os três estão deitados sobre toalhas de algodão, usando óculos de sol e comendo batatinha.
— Está se sentindo melhor? — pergunta Mirren.
Faço que sim.
— Sentimos sua falta.
Eles passaram óleo para bebê no corpo. Dois frascos estão sobre a grama.
— Vocês não têm medo de se queimar? — pergunto.
— Não acredito mais em protetor solar — diz Johnny.
— Ele está convencido de que os cientistas são corruptos e toda a indústria do protetor solar é uma fraude geradora de dinheiro — diz Mirren.
— Já ouviram falar de queimaduras solares? — pergunto. — A pele fica cheia de bolhas.
— É uma ideia idiota — diz Mirren. — Só estávamos muito entediados. — Mas ela enche os braços de óleo para bebê enquanto fala.
Me deito ao lado de Johnny.
Abro um saco de batatinhas sabor churrasco.
Fico olhando para o peito de Gat.
Mirren lê em voz alta um trecho de um livro sobre Jane Goodall.
Ouvimos um pouco de música no meu iPhone, pelo alto-falante minúsculo.
— Por que não acredita em protetor solar mesmo? — pergunto a Johnny.
— É uma conspiração — ele diz. — Para vender um monte de creme de que ninguém precisa.
— Ahã.
— Eu não vou me queimar — ele diz. — Você vai ver.
— Mas por que está passando óleo para bebê?
— Ah, isso não faz parte do experimento — Johnny diz. — Só gosto de ficar o mais seboso possível o tempo todo.
GAT ME ENCONTRA NA COZINHA, procurando algo para comer. Não tem muita coisa.
— A última vez que nos vimos foi novamente abaixo do padrão — ele diz. — No corredor, há alguns dias.
— É.
Minhas mãos estão tremendo.
— Sinto muito.
— Tudo bem.
— Podemos começar de novo?
— Não podemos começar de novo todos os dias, Gat.
— Por que não? — Ele dá um pulo para se sentar sobre a bancada. — Talvez esse seja um verão de segundas chances.
— Segundas, pode ser. Mas depois disso fica ridículo.
— Então apenas aja normalmente — ele diz. — Pelo menos hoje. Vamos fingir que não sou confuso, vamos fingir que você não está zangada. Vamos agir como amigos e esquecer o que aconteceu.
Não quero fingir.
Não quero ser amiga dele.
Não quero esquecer. Estou tentando lembrar.
— Só por um ou dois dias, até as coisas começarem a parecer certas novamente — diz Gat, vendo minha hesitação. — Vamos só passar um tempo juntos até tudo deixar de ter tanta importância.
Quero saber tudo, entender tudo; quero abraçar Gat bem de perto, passar minhas mãos sobre ele e nunca mais soltar. Mas talvez esse seja o único jeito de começar.
Aja como uma pessoa normal. Agora mesmo.
Porque você é. Porque você pode ser.
— Já aprendi a fazer isso — digo.
Entrego a ele a sacola de doces que meu avô e eu compramos em Edgartown e o modo como seu rosto se alegra diante do chocolate me enche de carinho.
44
NO DIA SEGUINTE, Mirren e eu pegamos o barco a motor pequeno e vamos para Edgartown sem permissão.
Os meninos não querem ir. Eles vão andar de caiaque.
Eu dirijo e Mirren coloca a mão na água.
Ela não está usando muita roupa: a parte de cima de um biquíni com estampa de margaridas e uma minissaia de sarja. Caminha pelas calçadas de pedra de Edgartown falando sobre Drake Loggerhead e como é ter “relações sexuais” com ele. Ela sempre usa essas palavras; as respostas sobre o que sentiu têm a ver com o perfume das rosas japonesas misturado com montanhas-russas e fogos de artifício.
Mirren também fala sobre quais roupas quer comprar para o primeiro ano em Pomona e filmes que quer ver e projetos que quer fazer durante o verão, como encontrar um lugar em Vineyard para andar a cavalo e voltar a fazer sorvete. Ela não para de tagarelar durante meia hora.
Eu gostaria de ter a vida dela. Um namorado, planos, faculdade na Califórnia. Mirren vai disparar em direção a seu futuro ensolarado enquanto eu vou voltar às aulas na Dickinson Academy, em mais um ano de neve e asfixia.
Compro um saquinho de doce na Murdick’s, mesmo sabendo que sobrou um pouco de ontem. Nos sentamos em um banco na sombra, e Mirren continua falando.
Outra lembrança surge.
VERÃO DOS QUINZE, Mirren sentada ao lado de Taft e Will nos degraus de nossa lanchonete de frutos do mar preferida em Edgartown. Os meninos têm cata-ventos coloridos de plástico. Estamos esperando Bess, porque ela está com os sapatos de Mirren. Não podemos entrar sem eles.
Os pés de Mirren estavam sujos, as unhas pintadas de azul.
Estávamos esperando já havia um tempo quando Gat saiu da loja no fim do quarteirão. Ele levava uma pilha de livros debaixo do braço. Correu na nossa direção a toda velocidade, como se estivesse com muita pressa para nos alcançar, mesmo nós estando ali sentadas.
Então parou de repente. O primeiro livro era O ser e o nada de Sartre. Ele ainda tinha as palavras escritas no dorso das mãos. Uma indicação do meu avô.
Gat se curvou como um tolo, um palhaço, e me presenteou com o livro que estava no fim da pilha. Era um romance de Jaclyn Moriarty. Eu estava lendo aquela autora durante todo o verão.
Abri o livro na folha de rosto. Havia uma dedicatória. Para Cady, com tudo, tudo. Gat.
— EU ME LEMBRO de ficarmos esperando seus sapatos para poder entrar na lanchonete de frutos do mar — digo a Mirren. Ela tinha parado de falar e olhava para mim com expectativa. — Cata-ventos — digo. — Gat me dando um livro.
— Então suas lembranças estão voltando — Mirren diz. — Isso é ótimo!
— As tias brigaram pela herança.
Ela dá de ombros.
— Um pouco.
— E o vovô e eu, nós tivemos uma discussão sobre estátuas de marfim.
— É. Conversamos sobre isso na época.
— Me diga uma coisa.
— O quê?
— Por que Gat desapareceu depois do acidente?
Mirren torce uma mecha de cabelo.
— Não sei.
— Ele voltou com Raquel?
— Não sei.
— Nós brigamos? Eu fiz alguma coisa errada?
— Eu não sei, Cady.
— Ele ficou chateado comigo outro dia. Por eu não saber o nome dos empregados. Por nunca ter visto o apartamento dele em Nova York.
Faz-se um silêncio.
— Ele tem bons motivos para ficar zangado — diz Mirren, finalmente.
— O que eu fiz?
Mirren suspira.
— Não tem como você consertar.
— Por que não?
De repente Mirren começa a engasgar. A ter ânsia de vômito. Dobra o corpo para a frente, suando, pálida.
— Você está bem?
— Não.
— Posso ajudar?
Ela não responde.
Eu lhe ofereço uma garrafa de água. Ela pega. Bebe devagar.
— Fiz muito esforço. Preciso voltar a Cuddledown. Agora.
Seus olhos estão opacos. Eu estendo a mão. Sua pele continua molhada de suor e ela parece não conseguir se equilibrar direito. Andamos em silêncio até o porto, onde o pequeno barco a motor está atracado.
MINHA MÃE NUNCA NOTOU que o barco havia desaparecido, mas ela vê o saco de doces quando o entrego a Taft e Will.
Mais uma vez, blá-blá-blá. O sermão não é interessante.
Não posso sair da ilha sem permissão dela.