Merrick

Anne Rice · Capítulo 3 de 8 · parte 2/4

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Merrick

Capítulo 7

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

— Este é meu livro, dado por Grande Nananne — disse ela, olhando para o grosso volume com óbvio respeito. Ela deixou que Aaron erguesse o livro em suas faixas de proteção até a mesa sob a lâmpada.

Ora, o velino ou pergaminho é o material mais forte jamais inventado para livros, e esse livro era obviamente tão velho que nunca teria resistido ao tempo se tivesse sido escrito em qualquer outro material. Na realidade, a capa de madeira estava praticamente em pedaços. A própria Merrick tomou a iniciativa de afastá-la para o lado para que se pudesse ler a folha de rosto.

Estava em latim, e eu a traduzi instantaneamente, como qualquer membro da Talamasca conseguia traduzir.

AQUI ESTÃO TODOS OS SEGREDOS DAS ARTES MÁGICAS COMO ENSINADOS A CAM, FILHO DE NOÉ, PELOS GUARDIÃES E TRANSMITIDOS A SEU FILHO ÚNICO, MESRAN.

Levantando com cuidado essa página, que estava presa como todas as outras por três argolas diferentes de correia de couro, Merrick revelou a primeira de muitas páginas de feitiços mágicos, escritos em latim em letra muito comprimida, desbotada mas nitidamente visível.

Era o livro de magia mais antigo que eu já tinha visto, e naturalmente sua pretensão — a afirmação na sua folha de rosto — remontava à mais primitiva de toda a magia negra jamais conhecida desde a época do Dilúvio.

De fato, eu estava mais do que familiarizado com as lendas que cercavam Noé e seu filho Cam, bem como a história ainda anterior, de que os Anjos Guardiães teriam ensinado a magia às Filhas dos Homens quando se deitaram com elas, como afirma o Gênese.

Mesmo o anjo Memnoch, que seduziu Lestat, tinha revelado uma versão dessa história no seu próprio modo de ver, ou seja, o de ter sido seduzido durante seus passeios pela terra por uma Filha do Homem. Mas é claro que naquela época eu nada sabia a respeito de Memnoch.

Eu queria ficar sozinho com aquele livro! Queria ler cada sílaba dele. Queria que nossos especialistas testassem o papel, a tinta, além de examinar seu estilo.

Não será nenhuma surpresa para a maioria dos leitores da minha narrativa saber da existência de pessoas que podem dizer a idade de um livro desses à primeira vista. Eu não era uma dessas pessoas, mas acreditava firmemente que o que tinha nas mãos havia sido copiado em algum mosteiro, em algum ponto do mundo cristão, em alguma época anterior à chegada de Guilherme, o Conquistador, às costas da Inglaterra.

Em resumo, eu diria que o livro era provavelmente do século VIII ou IX. E, quando me debrucei para ler a página inicial, vi que ele afirmava ser uma “cópia fiel” de um texto muito mais antigo que tinha vindo, naturalmente do próprio filho de Noé, Cam.

Havia tantas lendas interessantes a respeito desses nomes. Mas o maravilhoso era que esse texto pertencia a Merrick e que ela o estava revelando a nós.

— Este é meu livro — disse ela mais uma vez. — E eu sei aplicar os encantamentos e feitiços nele. Conheço todos eles.

— Mas quem a ensinou a lê-lo? — perguntei, sem conseguir esconder meu entusiasmo.

— Matthew — respondeu ela —, o homem que me levou com Sandra Gelada até a América do Sul. Ele ficou muito empolgado quando viu esse livro, e os outros. É claro que eu já conseguia ler um pouco, e Grande Nananne sabia ler todas as palavras. Matthew foi o melhor dos homens que minha mãe trouxe para casa. Tudo era alegre e seguro quando Matthew estava conosco. Mas agora não podemos falar dessas coisas. Vocês precisam me deixar ficar com o livro.

— Amém, você vai ficar com ele — disse Aaron, rápido. Acho que ele sentiu medo de que eu pretendesse sumir com o texto, mas não se tratava disso. Eu queria tempo com o livro, sim, mas só quando a menina permitisse.

Quanto à menção que Merrick fez à sua mãe, fiquei realmente muito curioso. Na verdade, achei que deveríamos interrogá-la a respeito de imediato, mas Aaron abanou a cabeça com severidade quando comecei a perguntar.

— Vamos, vamos voltar agora — disse Merrick. — O corpo já deve estar pronto.

Deixando o precioso livro no quarto de Merrick no andar superior, voltamos à cidade dos sonhos mais uma vez.

O corpo tinha sido disposto num caixão cinza-chumbo forrado de cetim e instalado numa mesa portátil na severa sala de estar da frente, que descrevi antes. À luz de numerosas velas — o lustre do teto estava desprovido de lâmpadas e, por isso, desligado —, a sala era quase bonita; e Grande Nananne agora estava usando um belo vestido de seda branca com minúsculas rosas cor-de-rosa aplicadas na gola, um dos preferidos do seu guarda-roupa.

Um lindo rosário de cristal envolvia seus dedos unidos e, acima da sua cabeça, encostado no cetim da tampa do caixão, havia um crucifixo de ouro. Um genuflexório de veludo vermelho, sem dúvida fornecido pela funerária, estava ao lado do caixão, e muitos vieram ajoelhar-se ali, para fazer o sinal-da-cruz e orar.

Mais uma vez, veio muita gente e, na realidade, as pessoas tendiam a se dividir em grupos de acordo com a raça, exatamente como se alguém lhes tivesse dado ordens para tal: os de pele clara formavam sua roda, os brancos juntavam-se aos brancos, e os negros aos negros.

Desde aquela época, já vi muitas situações na cidade de Nova Orleans nas quais as pessoas se segregam de acordo com a cor de uma forma muito acentuada. Mas naquela época eu não conhecia a cidade. Sabia apenas que a monstruosa injustiça da Segregação Legal não mais existia, e me assombrei com a forma pela qual a cor parecia dominar a separação naquele grupo.

Aflitos, Aaron e eu esperávamos que alguém nos perguntasse sobre Merrick e o que deveria acontecer com ela, mas ninguém falou uma palavra sequer. Na verdade, as pessoas apenas abraçavam Merrick, davam-lhe beijos, sussurravam alguma coisa e passavam adiante. Ali também havia uma tigela, e punham dinheiro nela, mas para quê eu não sabia. Talvez para Merrick, porque as pessoas sem dúvida sabiam que ela não tinha nem pai nem mãe.

Só quando nos preparávamos para dormir em catres num quarto dos fundos (o corpo permaneceria exposto a noite inteira), quarto que não tinha nenhuma outra mobília, Merrick trouxe o padre para falar conosco, dizendo-lhe em francês rápido e muito bom que nós éramos seus tios e que ela iria morar conosco.

“E essa é a história”, pensei. Éramos tios de Merrick. Merrick decididamente iria embora para estudar.

— É isso exatamente o que eu pretendia recomendar a ela — disse Aaron. — Eu me pergunto como ela soube. Achei que brigaria comigo por ser contrária a uma mudança dessas.

Eu não sabia o que achava. Essa menina sóbria, séria e linda me perturbava e me atraía. Tudo aquilo me fazia duvidar do meu juízo.

Naquela noite, nosso sono foi só intermitente. Os catres não eram confortáveis, o quarto vazio era quente, e as pessoas não paravam de ir e vir, aos cochichos no corredor.

Muitas vezes entrei na sala de estar para encontrar Merrick cochilando tranqüila na sua cadeira. O velho padre foi também dormir pouco antes do amanhecer. Pela porta dos fundos aberta, eu via um quintal envolto em sombras onde lamparinas ou velas distantes tremeluziam com violência. Aquilo me perturbou. Adormeci enquanto ainda havia algumas estrelas no céu.

Amanheceu, finalmente, e chegou a hora de iniciar o serviço fúnebre.

O padre apareceu com as devidas vestimentas, acompanhado do coroinha, e entoou as orações que toda a multidão parecia conhecer. O serviço em inglês, pois foi esse o serviço, não era menos impressionante que o antigo rito latino, que havia sido superado. O caixão foi fechado.

Merrick começou a tremer por inteiro e depois a soluçar. Era algo terrível de presenciar. Tinha arrancado o chapéu de palha e trazia a cabeça descoberta. Seus soluços começaram a ficar cada vez mais fortes. Algumas mulheres de cor bem-vestidas reuniram-se à sua volta e a acompanharam na descida da escada da frente. Esfregavam-lhe vigorosamente os braços e lhe enxugavam a testa. Seu pranto soluçante vinha como simples soluços. As mulheres faziam ruídos tranqüilizadores e lhe davam beijos. A certa altura, Merrick deu um grito.

Era de cortar o coração ver essa menininha controlada chegar agora ao ponto da histeria.

Ela foi praticamente carregada até a limusine da funerária. O caixão veio atrás dela acompanhado por homens solenes até o rabecão. E então seguimos todos até o cemitério, Aaron e eu no automóvel da Talamasca, constrangidos por estarmos separados de Merrick, mas resignados à idéia de que era a melhor solução.

A melancólica dramaticidade não se reduziu com a chuva que caía insistente e com o corpo de Grande Nananne sendo carregado pelo caminho totalmente invadido pelo mato do cemitério de St. Louis n° 1, em meio a altos túmulos de mármore com telhado pontudo, para ser posto numa cripta semelhante a um forno num jazigo de três andares.

Os mosquitos eram quase insuportáveis. As ervas daninhas estavam infestadas de insetos invisíveis, e Merrick, ao ver o caixão sendo posto no lugar, deu mais um grito agudo.

Mais uma vez, as mulheres educadas esfregaram seus braços, enxugaram sua cabeça e beijaram seu rosto.

E então Merrick deu um terrível grito em francês.

— Onde é que você está, Sandra Gelada? Onde é que você está, Mel ao Sol? Por que não vieram para casa!

Havia rosários em abundância e pessoas rezando em voz alta quando Merrick se encostou no jazigo, com a mão direita no caixão à vista.

Afinal, exausta por enquanto, ela se acalmou, deu meia-volta e se encaminhou decidida, com a ajuda das mulheres, na direção de Aaron e de mim. Enquanto as mulheres a afagavam, ela abraçou Aaron e enfurnou a cabeça junto ao seu pescoço.

Eu não conseguia ver nela agora nada da jovem mulher. Sentia total compaixão por ela. Achava que a Talamasca deveria cercá-la com todos os elementos concebíveis de fantasia que ela chegasse a desejar.

Enquanto isso, o padre insistia com os funcionários do cemitério para que pusessem a lápide no lugar AGORA, o que causou alguma controvérsia, mas foi o que acabou acontecendo, com a pedra vedando a pequena gaveta e o caixão sendo posto oficialmente fora do alcance da visão ou do toque.

Lembro-me de ter apanhado meu lenço para enxugar os olhos. Aaron acariciava o longo cabelo castanho de Merrick e lhe dizia em francês que Grande Nananne tinha tido uma vida longa e maravilhosa e que seu único desejo no leito de morte, de que Merrick ficasse em segurança, tinha sido realizado.

Merrick ergueu a cabeça e proferiu apenas uma frase.

— Sandra Gelada devia ter vindo.

Lembro-me disso porque, no momento em que disse essas palavras, alguns dos presentes abanaram a cabeça e trocaram entre si olhares de censura.

Eu me sentia bastante desnorteado. Examinava o rosto dos homens e mulheres ao meu redor, Vi algumas das pessoas de sangue africano mais negras que já vi nos Estados Unidos, e também algumas das mais claras. Vi pessoas de beleza extraordinária e outras que eram apenas simples. Quase ninguém era comum, como entendemos essa palavra. Parecia totalmente impossível adivinhar a linhagem ou a história racial de qualquer um que eu visse.

Mas nenhuma dessas pessoas era íntima de Merrick. A não ser por Aaron e por mim, ela era basicamente só. As mulheres educadas e bem-vestidas tinham cumprido seu dever, mas na verdade não a conheciam. Isso era evidente. E estavam felizes por Merrick ter dois tios ricos que estavam ali para levá-la embora.

Quanto aos “Mayfair brancos” que Aaron avistara no dia anterior, nenhum apareceu. Isso foi uma “sorte tremenda”, aos olhos de Aaron. Se tivessem descoberto que uma criança Mayfair estava solta no mundo sem amigos, teriam insistido em preencher essa necessidade. Na verdade, eu agora me dou conta de que também não tinham comparecido ao velório. Tinham cumprido seu dever. Merrick lhes dissera algo satisfatório, e eles seguiram seu caminho.

Agora restava voltar para a velha casa.

Um caminhão de Oak Haven já estava esperando para transportar os pertences de Merrick. Ela não tinha nenhuma intenção de deixar a casa da tia sem tudo que lhe pertencia.

Em algum momento antes de chegarmos à casa, Merrick parou de chorar, e uma expressão sombria se instalou nas suas feições, expressão que já vi muitas vezes.

— Sandra Gelada não sabe — disse ela de repente, sem preâmbulo. O carro seguia preguiçoso através da chuva fraca. — Se ela soubesse, teria vindo.

— Ela é sua mãe? — perguntou Aaron, em tom reverente. Merrick fez que sim.

— É o que ela sempre dizia — respondeu ela e deu um sorriso bastante brincalhão. Ela abanou a cabeça e olhou pela janela do carro. — Ora, não se preocupe com isso, Sr. Lightner — disse ela. — Sandra Gelada não me deixou de verdade. Ela viajou e só não voltou.

Isso pareceu fazer perfeito sentido naquela hora, talvez só porque eu quisesse que fizesse sentido, para que Merrick não sofresse profundamente com alguma verdade mais incontestável.

— Quando foi a última vez que você a viu? — Aaron ousou perguntar.

— Quando eu estava com dez anos e nós voltamos da América do Sul. Quando Matthew ainda estava vivo. A gente tem de entender Sandra Gelada. Ela era a única de doze irmãos que não passava.

— Não passava? — perguntou Aaron.

— Por branca — disse eu antes de pensar em me conter. Mais uma vez, Merrick sorriu.

— Ah, entendo — disse Aaron.

— Ela é linda — disse Merrick —, ninguém poderia dizer que não era. E conseguia prender qualquer homem que quisesse. Eles nunca escapavam.

— Prender? — perguntou Aaron.

— Prender com um feitiço — disse eu, baixinho. Merrick novamente sorriu para mim.

— Ah, entendo — disse Aaron de novo.

— Meu avô, quando viu como minha mãe era morena, disse que ela não era filha dele; e minha avó veio e largou Sandra Gelada na soleira da porta de Grande Nananne. As irmãs e os irmãos, todos se casaram com gente branca. É claro que meu avô era branco também. Chicago é onde eles todos estão. Esse cara que era o pai de Sandra Gelada, ele era dono de uma casa de jazz em Chicago. Quando as pessoas gostam de Chicago e de Nova York, elas não têm mais vontade de ficar aqui no sul. Eu, por mim, não gostei de nenhuma das duas.

— Quer dizer que você já esteve lá? — perguntei.

— Estive, sim. Fui com Sandra Gelada — disse ela. — É claro que não vimos aqueles brancos. Mas procuramos os nomes no catálogo. Sandra Gelada queria ver a mãe com os próprios olhos, dizia, mas não queria falar com ela. E quem sabe, talvez ela tenha feito sua magia nociva. Poderia ter feito isso com todos eles. Sandra Gelada tinha muito medo de ir de avião até Chicago, mas tinha ainda mais medo de ir dirigindo. E de morrer afogada? Tinha pesadelos em que morria afogada. Ela não dirigia no Elevado por nada neste mundo. Tinha medo do lago como se o lago fosse apanhá-la. Tinha medo de muita coisa. — Ela parou. O rosto ficou inexpressivo. E então, franzindo o cenho muito de leve, prosseguiu.

— Não me lembro de gostar muito de Chicago. Nova York não tinha uma árvore que eu visse. Eu mal podia esperar para voltar para casa. Sandra Gelada... ela adorava Nova Orleans também. E sempre voltava, até a última vez.

— Ela era inteligente, sua mãe? — perguntei. — Era brilhante como você?

Isso fez com que parasse para pensar.

— Ela não estudou — disse Merrick. — Ela não lê livros. Já eu gosto de ler. Quando se lê, pode-se aprender muito, sabe? Eu lia revistas velhas que as pessoas deixavam por aí. Uma vez apanhei pilhas e pilhas de revistas Time de uma casa velha que estavam demolindo. Li tudo o que pude naquelas revistas. Quer dizer, cada uma delas. Li sobre arte, ciência, livros, música, política e cada palavra ali até as revistas se desmancharem. Leio livros da biblioteca, das prateleiras do mercado; leio jornal. Leio velhos livros de orações. Leio livros de magia. Tenho muitos livros de magia que ainda nem lhes mostrei.

Ela encolheu um pouco os ombros, parecendo pequena e cansada, mas ainda infantil na sua perplexidade diante de tudo o que havia acontecido.

— Sandra Gelada não tinha vontade de ler nada — disse ela. — Nunca se veria Sandra Gelada assistindo ao noticiário das seis. Grande Nananne mandou-a para as freiras, ela sempre dizia isso, mas Sandra Gelada se comportava mal e as freiras não paravam de mandá-la para casa. Além disso, Sandra Gelada era bastante clara para ela mesma não gostar de gente escura, sabe? Seria de imaginar que ela tivesse aprendido a lição, por ter sido abandonada pelo próprio pai, mas ela não aprendeu. A verdade é que ela era da cor de amêndoa, se vocês conseguem imaginar. Mas tinha aqueles olhos claros, amarelos, e isso denuncia de cara, esses olhos amarelos. E ela detestara quando começaram a chamá-la de Sandra Gelada.

— Como foi que surgiu esse apelido? — perguntei. — Foram as crianças que começaram?

Estávamos quase chegando. Lembro-me de que havia muito mais que eu queria saber sobre essa estranha sociedade, tão diferente do que eu conhecia. Naquele momento, percebi que minhas oportunidades no Brasil tinham sido em grande parte desperdiçadas. As palavras da velha tinham me ferido fundo.

— Não, ele começou bem na nossa casa — disse Merrick. — Esse é o pior tipo de apelido, calculo. Quando os vizinhos e as crianças o ouviram, disseram: “Sua própria Nananne a chama de Sandra Gelada.” Mas o apelido pegou por causa do que ela fazia. Como eu disse, ela usava toda a magia para prender as pessoas. Punha mau-olhado nas pessoas. Uma vez eu a vi esfolar um gato preto, e nunca vou querer ver isso de novo.

Devo ter estremecido porque um ínfimo sorriso pairou nos seus lábios por um instante. E então ela prosseguiu.

— Quando eu estava com seis anos, ela já tinha começado a chamar a si mesma de Sandra Gelada. Costumava dizer para mim: “Merrick, vem cá com Sandra Gelada.” E eu pulava no seu colo.

Houve uma ligeira mudança de tom na sua voz quando ela continuou.

— Ela não era nem um pouco parecida com Grande Nananne — disse Merrick. — E fumava o tempo todo, e bebia. Estava sempre desassossegada e, quando bebia, era cruel. Quando Sandra Gelada voltava para casa depois de passar muito tempo longe, Grande Nananne costumava dizer: “O que você está querendo desta vez, Sandra Gelada? Que mentiras você vai contar?” Grande Nananne dizia que não havia lugar para a magia negra neste mundo. Que se conseguia fazer tudo o que se precisava fazer com a magia branca. E então Matthew veio, e Sandra Gelada estava feliz como nunca.

— Matthew — disse eu, em tom de adulação —, o homem que lhe deu o livro de pergaminho.

— Ele não me deu aquele livro, Sr. Talbot, só me ensinou a lê-lo — respondeu ela. — Aquele livro nós já tínhamos. Tinha sido do tio-avô Vervain, que era um terrível praticante do vodu. Era chamado de Dr. Vervain de uma ponta da cidade à outra. Todo o mundo queria os feitiços dele. Aquele velho me deu um monte de coisas antes de seguir adiante. Ele era o irmão mais velho de Grande Nananne. Foi a primeira pessoa que eu cheguei a ver morrer. Estava sentado à mesa da sala de jantar com o jornal na mão.

Eu tinha mais perguntas na ponta da língua.

Em todo o desdobrar daquela longa narrativa, não houve nenhuma menção àquele outro nome que Grande Nananne tinha pronunciado: Mel ao Sol.

Mas tínhamos chegado à velha casa. O sol da tarde estava bem forte, mas a chuva tinha diminuído.

 

8

FIQUEI SURPRESO DE VER TANTA GENTE POR ALI. NA VERDADE, HAVIA GENTE por toda parte, e uma turma bastante discreta porém atenta. Observei de imediato que não apenas um, mas dois pequenos caminhões-baú tinham vindo da casa matriz e que um pequeno grupo de acólitos da Talamasca montava guarda, prontos para começar a fazer a mudança.

Cumprimentei esses jovens da Ordem, agradecendo-lhes antecipada- mente seu cuidado e discrição, e disse que esperassem tranqüilos até receber o sinal para iniciar o trabalho.

Enquanto subíamos a escada da frente e percorríamos a casa, vi, quando as janelas me permitiam ver alguma coisa, que havia pessoas paradas sem nada fazer nos becos laterais e, quando entramos no quintal, percebi muita gente reunida ao longe à direita e à esquerda para lá do denso aglomerado de carvalhos de galhos baixos. Não vi cercas em nenhum ponto. E acredito que não houvesse nenhuma cerca naquela época.

Tudo estava em penumbra sob a exuberante copa de folhas, e nós estávamos cercados pelo som delicado de água pingando. Jacintos silvestres vermelhos cresciam ali onde o sol penetrava na sombra preciosa. Vi teixos finos, a espécie tão sagrada aos mortos e aos magos. E vi muitos lírios perdidos no capim sufocante. O local não poderia ter sido mais tranqüilizante e onírico se tivesse sido um jardim japonês intencional.

A medida que meus olhos foram se acostumando à luz, percebi que estávamos num pátio calçado com lajes, com algumas árvores retorcidas embora floridas, com grande quantidade de rachaduras e coberto por um musgo brilhante e escorregadio. Diante de nós, um enorme galpão aberto com uma coluna central sustentando o telhado de chapa corrugada.

A coluna estava pintada de um vermelho vivo até a metade da altura, e verde dali até o alto; e se erguia a partir de uma enorme pedra de altar devidamente manchada. Mais além, na escuridão, estava o inevitável oratório, com santos ainda mais numerosos e magníficos do que os do quarto de Grande Nananne.

Havia fileiras e mais fileiras de velas acesas.

Dos meus estudos, eu sabia que se tratava de uma configuração comum do vodu — a pedra e a coluna central. Encontrava-se esse tipo de configuração em todos os cantos da ilha do Haiti. E esse local calçado com lajes e coberto de mato era o que um curandeiro do vodu haitiano poderia ter chamado de seu peristilo.

Afastadas para um lado, em meio aos teixos muito juntos e de crescimento irregular, havia duas mesas de ferro, pequenas e de formato retangular, bem como um panelão ou caldeirão, como suponho que seja seu nome correto, pousado sobre um braseiro com pernas em tripé. O caldeirão e o braseiro fundo me perturbaram até certo ponto, possivelmente mais do que qualquer outra coisa. O caldeirão parecia ser um objeto maléfico.

Um zumbido distraiu um pouco minha atenção porque receei que se originasse de abelhas. Tenho um medo enorme de abelhas e, como muitos membros da Talamasca, temo algum segredo relacionado às abelhas que tem a ver com nossas origens, mas não tenho espaço suficiente aqui para dar uma explicação.

Permitam-me continuar, dizendo apenas que logo percebi que o zumbido provinha de colibris, nesse vasto lugar coberto de mato. E, quando parei imóvel ao lado de Merrick, imaginei vê-los pairando como costumam fazer, perto das trepadeiras floridas de crescimento descontrolado do telhado do galpão.

— Oncle Vervain adorava esses passarinhos — disse-me Merrick, abafando a voz. — Foi ele quem instalou os alimentadores para eles. Conhecia os passarinhos por suas cores e os chamava por nomes lindos.

— Eu também os adoro, querida. No Brasil, eles têm um lindo nome em português: “o que beija as flores” — disse eu.

— É, Oncle Vervain sabia essas coisas — disse-me ela. — Oncle Vervain tinha visitado toda a América do Sul. Oncle Vervain conseguia ver os espíritos no meio do ar em torno dele o tempo todo.

Com essas palavras, ela parou de falar. Mas eu tive a nítida sensação de que seria muito difícil para ela despedir-se daquilo tudo, do seu lar. Quanto ao seu uso da expressão — espíritos no meio do ar —, fiquei devidamente impressionado, como tinha sido por tantas outras coisas. É claro que manteríamos essa casa para ela, disso eu me certificaria. Reformaríamos o imóvel por inteiro se ela assim desejasse.

Ela olhou ao redor, com os olhos se demorando sobre o panelão de ferro era cima do tripé.

— Oncle Vervain conseguia pôr o caldeirão para ferver — disse ela, baixinho. Ele punha pedaços de carvão por baixo. Ainda me lembro do cheiro da fumaça. Grande Nananne ficava sentada na escada dos fundos para olhar. Todos os outros tinham medo.

Ela agora avançou e entrou no galpão. Parou diante dos santos, olhando fixamente para as numerosas oferendas e as velas cintilantes. Fez rápido um sinal-da-cruz, e com dois dedos da mão direita tocou no pé descalço da Virgem alta e linda.

O que deveríamos fazer?

Aaron e eu ficamos parados pouco atrás dela e junto aos seus ombros, como dois anjos da guarda bastante confusos. A comida nos pratos sobre o altar era nova. Eu sentia o cheiro de rum e de perfume adocicado. Era evidente que algumas daquelas pessoas que se aglomeravam em meio aos arbustos tinham trazido essas misteriosas oferendas. Mas eu recuei quando percebi que um dos objetos curiosos ali empilhados em aparente desordem era de fato a mão de um ser humano.

Estava decepada exatamente antes do pulso e tinha secado de um modo que lhe dava uma terrível aparência de garra; mas não era esse todo o horror. Ela estava coberta de formigas, que tinham como que arrasado com todo o banquete.

Quando percebi que os insetos detestáveis estavam por toda parte, senti um pavor peculiar que só as formigas conseguem despertar.

Merrick, para perplexidade minha, segurou a mão com bastante afetação, com o polegar e o indicador, e tentou sacudir as formigas invasoras com alguns movimentos pequenos e ferozes.

Não se ouviu nada da platéia na multidão ali adiante, mas pareceu que eles se aproximaram. O zumbido dos pássaros estava se tornando hipnótico, e mais uma vez veio o chiado baixo da chuva.

Nada penetrava na copa das árvores. Nada atingia o telhado metálico.

— O que você quer que nós façamos com essas coisas? — perguntou Aaron, com delicadeza. — Você não quer deixar nada, pelo que eu entendi.

— Vamos desmanchar tudo — disse Merrick —, se vocês estiverem de acordo. Já passou o tempo disso tudo. Esta casa deveria ser trancada agora, se vocês cumprirem o que me prometeram. Quero ir embora com vocês.

— Está bem, vamos mandar desarmar tudo.

De repente ela olhou para a mão mumificada que ainda estava segurando. As formigas começavam a subir para sua pele.

— Ponha isso de lado, minha filha — disse eu, de súbito, espantando a mim mesmo. Merrick deu-lhe mais uma balançada ou duas e fez o que eu disse.

— Mas ela vem conosco, tudo tem de vir. Um dia, vou desembalar todas essas coisas para ver o que são. — E espanou da mão as formigas inconvenientes.

Devo confessar que seu tom despreocupado me encheu de alívio.

— Claro que sim — disse Aaron, voltando-se e fazendo um sinal para os auxiliares da Talamasca que tinham nos acompanhado até a borda do pátio. — Eles vão começar a embalar tudo — disse ele a Merrick.

— Mas uma coisa neste quintal eu tenho de apanhar sozinha — disse ela, olhando de relance para mim e para Aaron. Não parecia estar sendo misteriosa de propósito ou por brincadeira, mas parecia, sim, preocupada.

Afastou-se de nós e foi devagar se aproximando de uma das fruteiras retorcidas que subia a partir do centro exato das lajes do pátio. Abaixou a cabeça enquanto entrava por baixo dos galhos verdes e baixos, e ergueu os braços quase como se estivesse tentando abraçar a árvore.

Num instante, percebi seu objetivo. Eu deveria ter adivinhado. Uma enorme cobra desceu, enrodilhando-se em torno dos braços e ombros de Merrick. Era uma constritora.

Não consegui deixar de estremecer e de sentir total repulsa. Nem mesmo os anos que passei no Amazonas tinham me tornado um paciente apreciador de cobras. Muito pelo contrário. Mas eu sabia como era seu toque. Conhecia seu sinistro peso sedoso e a estranha corrente de sensações que elas despertavam na nossa pele, enquanto se movimentavam rapidamente para enlaçar nossos braços.

Eu sentia tudo isso enquanto observava Merrick.

Enquanto isso, do emaranhado verde de mato crescido vieram sussurros baixos daqueles que também a observavam. Era isso o que tinham vindo ver. Era esse o momento. A serpente era um deus do vodu, naturalmente. Eu sabia. Mas mesmo assim estava pasmo.

— É decididamente inócua — apressou-se Aaron a me dizer. Como se ele soubesse! — Vamos ter de alimentá-la com um rato ou dois, imagino, mas para nós ela é totalmente...

— Não se preocupe — disse eu com um sorriso, livrando-o da situação embaraçosa. Dava para ver como estava constrangido. E então para provocá-lo um pouco e para afastar a profunda melancolia do lugar, prossegui. — É claro que você sabe que os roedores precisam estar vivos.

Ele ficou devidamente horrorizado e me lançou um olhar de reprovação, como se estivesse dizendo, você não precisava ter me contado isso! Mas era educado demais para dizer uma palavra que fosse.

Merrick estava conversando com a cobra em francês em voz baixa. Dirigiu-se de volta ao altar e ali encontrou uma caixa preta de ferro com janelas com grades de todos os lados — não conheço nenhuma outra palavra para designá-la — que ela abriu com uma das mãos, fazendo com que as dobradiças rangessem ruidosas. E no interior dessa caixa ela deixou a cobra se acomodar lenta e graciosamente, o que ela fez, para felicidade de todos nós.

— Bem, veremos que cavalheiros resolutos vão querer carregar a cobra — disse Aaron ao auxiliar mais próximo que estava ali parado, pasmo, a observar.

Enquanto isso, a multidão tinha começado a se dispersar e ir embora discretamente. Havia muito farfalhar nas árvores. Caíam folhas em toda a nossa volta. Em algum lugar, invisíveis no jardim exuberante, os pássaros continuavam a pairar, batendo o ar com suas asas minúsculas e vigorosas.

Merrick ficou parada um bom tempo, olhando para cima, como se tivesse descoberto uma fresta na cumeeira de folhas.

— Nunca mais vou voltar aqui; acho que não — disse ela, baixinho, para nós dois ou para ninguém.

— Por que está dizendo isso, minha filha? — perguntei. — Você pode fazer o que quiser. Pode vir aqui todos os dias se desejar. São muitas as coisas sobre as quais precisamos conversar.

— Está em ruínas isso tudo aqui — disse ela — e além do mais, se Sandra Gelada um dia voltar, não quero que ela me encontre. — Ela olhou para mim com ar sensato. — Veja bem, ela é minha mãe e poderia me levar embora. E eu não quero que isso aconteça.

— Não vai acontecer — respondi, embora ninguém neste mundo pudesse dar à criança uma garantia dessas contra o amor de mãe, e Merrick sabia. Eu poderia apenas me esforçar ao máximo para me certificar de que faríamos o que Merrick quisesse.

— Agora vamos — disse ela —, há algumas coisas lá em cima no sótão que só eu quero movimentar.

O sótão era de fato o segundo andar da casa, um lugar com o teto muito alto e inclinado, como já descrevi, com quatro águas-furtadas, uma para cada ponto cardeal, supondo-se que a casa tivesse sido construída com a orientação correta. Eu não fazia a mínima idéia se tinha sido ou não.

Subimos por uma escada estreita nos fundos, com dois lances em ângulo de 180 graus, e entramos num lugar com fragrâncias tão deliciosas de madeira que me apanharam de surpresa. Havia ali aconchego e limpeza, apesar da poeira.

Merrick acendeu uma lâmpada elétrica fraquíssima e logo nos encontramos no meio de malas, baús antigos e arcas com cintas de couro. Bagagem de antigamente. Um dono de antiquário teria adorado. E eu, tendo visto apenas um livro de magia, estava muitíssimo disposto para mais.

Merrick explicou que tinha apenas uma valise mais importante que todas as outras, e a colocou sobre os caibros empoeirados abaixo da lâmpada suspensa.

Era uma bolsa de lona com reforço de couro nos cantos. Merrick abriu-a com facilidade, pois não estava fechada à chave, e fixou o olhar numa série de trouxas mal amarradas. Mais uma vez, tecido branco de lençol tinha sido usado para esses objetos, ou talvez velhas fronhas de algodão.

Era óbvio que o conteúdo dessa mala tinha enorme importância, mas eu não poderia ter calculado o quanto.

Espantei-me então quando Merrick, sussurrando uma pequena oração, uma saudação, se não me engano, ergueu uma trouxa e afastou o tecido revelando um objeto assombroso — uma longa lâmina de machado verde, densamente esculpida com figuras nos dois lados.

Tinha pelo menos sessenta centímetros de comprimento e era bastante pesada, embora Merrick a segurasse sem dificuldade. E tanto Aaron quanto eu podíamos ver a imagem de um rosto em perfil, gravado em relevo na pedra.

— Puro jade — disse Aaron, reverente.

Esse objeto tinha sido extremamente polido, e o rosto em perfil usava um cocar rebuscado e primorosamente trabalhado, que, se não estou enganado, envolvia plumas e espigas de milho.

O entalhe do retrato ou imagem ritual, qualquer que fosse, tinha o tamanho de um rosto humano.

Quando Merrick girou o objeto, vi que uma figura completa estava gravada do outro lado. Havia um pequeno orifício perto da ponta afilada do objeto, talvez para permitir que ficasse suspenso num cinto.

— Meu Deus — disse Aaron, baixinho. — É olmeca, não é? Seu valor deve ser inestimável.

— Olmeca, se tenho direito a um palpite — respondi. — Nunca vi um objeto tão grande e de decoração tão esmerada fora de um museu.

Merrick não demonstrou surpresa.

— Não diga nada que não seja verdade, Sr. Talbot — disse ela com delicadeza. — Vocês têm alguns parecidos nos seus próprios cofres-fortes. — Ela me encarou de frente, como um sonho, por um bom tempo.

Eu mal podia respirar. Como ela poderia ter conhecimento de uma coisa dessas? Mas então disse a mim mesmo que ela poderia ter obtido essa informação com Aaron. Só que um olhar de Aaron me fez saber que eu estava totalmente equivocado.

— Não tão lindo, Merrick — respondi com total franqueza. — E além disso os nossos são fragmentos.

Quando ela não me deu resposta, só ficou ali parada segurando a reluzente lâmina de machado com as duas mãos estendidas, como se quisesse apreciar a luz sobre o objeto, prossegui.

— Isso vale uma fortuna, minha filha — disse eu —, e nunca esperei ver um objeto como esse neste lugar.

Ela pensou por um tempo e depois baixou a cabeça num gesto solene, de perdão.

— Na minha opinião — continuei, num esforço para me redimir — ele vem da mais antiga civilização conhecida na América Central. E sinto meu coração bater forte quando olho para ele.

— Talvez seja anterior aos olmecas — disse ela, voltando a erguer os olhos para mim. Seu olhar passou preguiçoso por Aaron. A luz dourada da lâmpada se derramava sobre ela e a figura de trajes primorosos. — Foi isso o que Matthew disse depois que o retiramos da caverna do outro lado da cachoeira. Foi isso o que Oncle Vervain disse quando me ensinou onde eu deveria procurar.

Voltei a contemplar o esplêndido rosto de pedra verde e reluzente com seus olhos inexpressivos e nariz achatado.

— Você não precisa que eu lhe diga — disse eu — que tudo isso é muito provável. A origem dos olmecas é desconhecida, ou é isso o que nos ensinam os livros.

Ela fez que sim.

— Oncle Vervain era filho de uma daquelas índias que conheciam a mais profunda magia. O homem de cor e a mulher de pele vermelha geraram Oncle Vervain e Grande Nananne, e a mãe de Sandra Gelada era neta de Grande Nananne; portanto, isso está dentro de mim.

Não pude falar. Não havia palavra que expressasse minha confiança ou meu assombro.

Merrick pôs de lado a lâmina de machado, em cima das numerosas trouxas, e apanhou outra com igual cuidado. Esse era um volume menor, mais comprido; e, quando ela o desembalou, mais uma vez faltou-me fôlego para falar.

Era uma figura alta, magnificamente esculpida; e sem dúvida um rei ou um deus, eu não saberia dizer qual. Como no caso da lâmina de machado, só o tamanho já era impressionante, para não falar no brilho da pedra.

— Ninguém sabe — disse a menina, respondendo direto aos meus pensamentos. — Só que, estão vendo este cetro? Ele é mágico. Se for um rei, é um sacerdote e um deus também.

Submisso, examinei os detalhes da escultura. A figura longa e estreita usava um belo cocar fincado logo acima dos seus olhos ferozes e arregalados e lhe caía em toda a volta dos ombros. No peito nu havia um disco suspenso na pala em torno de seu pescoço e ombros.

Quanto ao cetro, ele parecia estar a ponto de golpear a palma aberta da mão esquerda com ele, como se estivesse se preparando para algum ato de violência quando seu inimigo ou vítima se aproximasse. Era de dar calafrios por sua ameaça, e belo na sua franqueza e riqueza de detalhes. Era polido e parecia reluzir, como a máscara.

— Devo deixá-lo em pé ou deitá-lo? — perguntou Merrick, olhando para mim. — Não brinco com essas criaturas. Não, eu nunca faria uma coisa dessas. Dá para sentir a magia nelas. Já conjurei espíritos com elas. Não brinco. Vou cobri-lo de novo para que possa ficar tranqüilo.

Tendo reembalado o ídolo, ela ainda apanhou uma terceira trouxa. Eu não conseguia calcular a quantidade que restava na bolsa abarrotada.

Dava para ver que Aaron estava pasmo. Não era preciso ser um especialista em antigüidades da Mesoamérica para perceber o que eram aqueles artefatos.

Quanto a Merrick, ela começou a falar enquanto desembalava essa terceira maravilha...

— Nós fomos lá e seguimos o mapa que Oncle Vervain nos deu. E Sandra Gelada não parava de rezar pedindo a Oncle Vervain que nos dissesse aonde ir. Éramos Matthew, Sandra Gelada e eu. Sandra Gelada não parava de falar: “Você não está feliz agora de nunca ter ido à escola? Você está sempre se queixando. Bem, agora você vai entrar numa grande aventura.” E para dizer a verdade, foi isso mesmo.

O tecido caiu do furador longo, pontudo e afiado que estava nas suas mãos. Era uma peça única de jade verde, e em seu punho havia as nítidas penas do beija-flor e dois olhinhos esculpidos em profundidade. Eu já tinha visto objetos desse tipo em museus antes, mas nunca um exemplar tão belo. E agora eu entendia o amor de Oncle Vervain pelos pássaros lá no quintal.

— Sim, senhor — disse Merrick. — Ele dizia que esses passarinhos são mágicos. Foi ele quem instalou os alimentadores para eles. Já lhe disse. Quem vai encher os alimentadores quando eu for embora daqui?

— Nós cuidaremos deste lugar — disse Aaron, em seu estilo tranqüilizador. Mas eu percebia que ele estava extremamente preocupado com Merrick. Ela continuou a falar.

— Os astecas acreditavam nos beija-flores. Eles pairam no ar como se fosse mágica. Viram para lá e para cá e criam mais uma cor. Existe uma lenda de que os guerreiros astecas se transformavam em beija-flores quando morriam. Oncle Vervain dizia que os magos precisam saber tudo. Oncle Vervain dizia que nós éramos todos magos que remontávamos a quatro mil anos antes dos astecas. Ele me falou das pinturas na parede da caverna.

— E você sabe onde fica essa caverna? — perguntou-lhe Aaron, apressando-se a esclarecer o que queria dizer. — Querida, você não pode contar a ninguém. As pessoas perdem a sensatez por causa de segredos como esses.

— Eu tenho os papéis de Oncle Vervain — respondeu Merrick com a mesma voz sonhadora. Ela voltou a pôr a lâmina afiada dessa faca sobre a camada de objetos envoltos em algodão. Sem cuidado, desnudou um quarto objeto, um pequeno ídolo atarracado esculpido com tanto esmero quanto o outro revelado anteriormente. Sua mão voltou ao perfurador com punho redondo de beija-flor.

— Isso eles usavam para obter sangue na sua magia. Foi o que Oncle Vervain me disse que eu encontraria, um objeto para extrair sangue. Foi isso o que Matthew me afirmou que era.

— Essa mala está cheia de objetos semelhantes não está? — perguntei. — Esses não são de modo algum os mais importantes de todos, são? — Olhei ao redor.

— O que mais está escondido neste sótão?

Ela deu de ombros. Pela primeira vez parecia estar sentindo calor e desconforto sob o teto baixo.

— Venham — disse com educação —, vamos fechar essa mala e descer para a cozinha. Digam ao seu pessoal que não abram nenhuma dessas caixas; que só as levem para um local onde estejam em segurança. Vou-lhes fazer um café delicioso. Eu faço o melhor café. Faço café melhor que Sandra Gelada ou Grande Nananne. Sr. Talbot, o senhor está a ponto de desmaiar com esse calor. E Sr. Lightner, o senhor está preocupado demais. Ninguém vai arrombar esta casa nunca, em tempo algum, e a sua casa tem segurança o tempo todo.

Ela reembalou a lâmina de machado, o ídolo e o perfurador com cuidado. Depois fechou a mala pressionando os dois fechos enferrujados. Então, e só então, percebi a velha etiqueta de cartão murcho com o nome de um aeroporto no México, e os adesivos que indicavam ter a mala viajado muitas milhas além daquele ponto.

Guardei minhas perguntas até descermos para o ar mais fresco da cozinha. Dei-me conta de que o que Merrick tinha dito sobre um mal-estar meu no calor lá em cima tinha sido a perfeita verdade. Eu estava quase passando mal.

Ela largou a mala, tirou os sapatos e a meia-calça branca, ligou um ventilador redondo e enferrujado acima do refrigerador, que oscilava preguiçosamente, e passou a preparar o café, como tinha dito.

Aaron começou a procurar o açúcar e, na “geladeira”, como Merrick a chamava, encontrou o jarro com leite ainda fresco e bem gelado. Isso não importou muito para Merrick, porém, porque o que ela queria era leite para o café e o aqueceu até quase chegar ao ponto de fervura.

— É assim que se faz — disse ela a nós dois.

Finalmente nós nos sentamos a uma mesa redonda de carvalho cujo tampo pintado de branco tinha sido limpo com um pano.

O café au lait estava forte e delicioso. Cinco anos entre os mortos-vivos não conseguem eliminar a lembrança. Nada conseguirá. Exagerei no açúcar, exatamente como Merrick, e o tomei em grandes goles, acreditando piamente que se tratava de um reconstituinte. Recostei-me então na cadeira de madeira que rangia.

Em toda a minha volta, a cozinha estava arrumada, se bem que fosse uma herança de tempos passados. Até mesmo o refrigerador era alguma espécie de antigüidade, com o motor a zumbir no alto, abaixo do ventilador ruidoso. As prateleiras acima do fogão e ao longo das paredes eram fechadas por portas de vidro, e eu podia ver todos os utensílios de um local onde as pessoas faziam suas refeições regularmente. O piso era de linóleo velho e muito limpo.

Lembrei-me de repente da mala. Dei um salto e olhei ao redor. Ela estava bem ao lado de Merrick na cadeira vazia.

Quando olhei para Merrick, vi lágrimas nos seus olhos.

— O que foi, querida? — perguntei. — Diga-me e eu farei o que puder para corrigir.

— É só a casa e tudo o que aconteceu, Sr. Talbot — respondeu ela. — Matthew morreu nesta casa.

Essa era a resposta para uma pergunta de enorme gravidade, que eu não tinha ousado fazer. Não posso dizer que senti alívio ao ouvi-la, mas não pude deixar de me perguntar quem poderia reivindicar a posse dos tesouros que Merrick considerava só seus.

— Não se preocupe com Sandra Gelada — disse Merrick, direto para mim. — Se ela fosse voltar para apanhar essas coisas, já teria voltado há muito tempo. Nunca houve neste mundo dinheiro que bastasse para Sandra Gelada. Matthew realmente a adorava, mas ele tinha muito dinheiro, e isso fazia a maior diferença.

— Como foi que ele morreu, querida? — perguntei.

— De uma febre daqueles lugares na selva. E ele fez com que todos nós nos vacinássemos. Não gosto de agulhas. Tomamos vacina para todas as doenças imagináveis. Mesmo assim, ele voltou doente. Algum tempo mais tarde, quando Sandra Gelada estava gritando, berrando e atirando coisas, ela disse que os índios de lá da selva o haviam amaldiçoado, que ele nunca deveria ter subido pela cachoeira até a caverna. Mas Grande Nananne dizia que a febre era forte demais para isso. Ele morreu logo ali, no quarto dos fundos.

Ela apontou para o corredor que nos separava do quarto no qual Aaron e eu tínhamos passado nossa noite incômoda.

— Depois que ele morreu e ela foi embora, tirei a mobília. Está no quarto da frente junto com a de Grande Nananne. É ali que eu durmo desde então.

— Dá para imaginar por que — disse Aaron, compreensivo. — Deve ter sido terrível para você perder os dois.

— Agora Matthew foi sempre bom para todas nós — continuou ela. — Queria que ele tivesse sido meu pai, como se isso fosse me ajudar muito agora. Esteve internado no hospital e recebeu alta. E depois os médicos pararam de vir porque ele estava bêbado o tempo todo e gritava com eles. E acabou morrendo mesmo.

— E Sandra Gelada já tinha ido embora? — perguntou Aaron com delicadeza, pondo a mão sobre a mesa ao lado da dela.

— Ela passava o tempo todo no bar ali na esquina e, depois que foi expulsa desse bar, passou a ir ao da rua principal. Na noite em que ele começou a morrer, corri dois quarteirões até lá para buscá-la e bati com força na porta telada dos fundos para ela sair. Estava bêbada demais para andar.

Continuar: parte 3 de 4