Merrick
Capítulo 7
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
“Estava ali sentada com um homem branco de boa aparência, e ele simplesmente estava apaixonado por ela, sabe, em adoração. Dava para eu ver. E ela estava tão tonta que não conseguia ficar em pé. Foi então que me dei conta. Ela não queria ver Matthew morrer. Tinha medo de estar ao seu lado quando isso acontecesse. Não estava sendo insensível. Estava simplesmente apavorada. Por isso voltei correndo para casa.
“Grande Nananne estava lavando o rosto dele e lhe dando seu uísque escocês. Era o que ele bebia o tempo todo, recusava-se a tomar qualquer outro tipo de bebida. E não parava de engasgar. Nós só ficamos sentadas ao seu lado até que quase ao amanhecer os engasgos pararam, e sua respiração ficou muito regular, tão regular que se podia acertar o relógio por ela, só para cima e para baixo, para cima e para baixo.
“Foi um verdadeiro alívio ele não estar mais engasgando. Mas Grande Nananne abanou a cabeça querendo dizer que não era nada bom. Então a respiração ficou tão baixa que não se conseguia ver nem ouvir. O peito parou de se mexer. E Grande Nananne me disse que ele estava morto.”
Ela parou tempo suficiente para tomar o resto do café. Levantou-se então afastando a cadeira sem cuidado e apanhou o bule do fogão para nos servir um pouco mais da forte infusão.
Sentou-se de novo e passou a língua pelo lábio, um hábito seu. Parecia uma criança em todos esses gestos, talvez por causa do seu jeito de se sentar ereta na cadeira com os braços cruzados como uma aluna de convento.
— Vejam bem, é bom que vocês escutem essa história — disse ela, olhando de mim para Aaron. — Eu nunca contei tudo a ninguém. Só os detalhes. Ele deixou muito dinheiro para Sandra Gelada.
“Ela chegou a casa por volta do meio-dia no dia seguinte e exigiu saber para onde ele havia sido levado. E começou a berrar, a atirar coisas e a dizer que nunca deveríamos ter chamado o necrotério para levar o corpo.
“E o que você acha que nós íamos fazer com ele?”, perguntou Grande Nananne. “Você acha que não existe uma lei nesta cidade a respeito de cadáveres? Você acha que nós podíamos simplesmente levá-lo ali para fora e enterrá-lo no quintal?” Acabou que o pessoal dele em Boston veio e o levou. E no momento em que Sandra Gelada viu aquele cheque, sabe, o dinheiro que ele deixou para ela, ela saiu desta casa e desapareceu.
“É claro que eu não sabia que aquela era a última vez que eu ia vê-la. Tudo o que sabia era que ela arrumou todas as roupas numa mala de couro vermelho e que estava vestida como uma modelo de revista, num costume de seda branco. O cabelo estava puxado para trás num coque na nuca. Ela era tão linda que não precisava de maquiagem, mas estava usando sombra roxo-escura acima dos cílios e nos lábios uma cor escura como roxo também. Eu sabia que roxo-escuro significava encrenca. Ela estava muito linda.
“Ela me deu um beijo e um frasco de Chanel n° 22. Disse que era para mim. Disse que voltaria para me buscar. Estava saindo para comprar um carro, queria ir embora dirigindo. Ela disse que, se conseguisse atravessar o vertedouro sem se afogar, conseguiria sair da cidade.”
Merrick parou por um instante, com o cenho cerrado, a boca um pouco aberta. Depois recomeçou.
— “Duvido que volte para buscar a menina.” Foi o que Grande Nananne lhe disse. “Você nunca fez nada a não ser levar uma vida desregrada e abandonar essa criança ao deus-dará. Pois bem, ela vai ficar aqui comigo, e você que vá para o inferno.”
Ela fez mais uma pausa. O rosto infantil acalmou-se. Tive medo de que fosse chorar. Acho que engoliu as lágrimas com muita decisão. Voltou então a falar, com um pequeno pigarro. Eu mal conseguia discernir as palavras.
— Acho que foi para Chicago — disse ela.
Aaron esperou respeitoso enquanto o silêncio dominava a velha cozinha. Apanhei meu café e tomei mais um grande gole, saboreando-o tanto por respeito a ela quanto por prazer.
— Você está conosco, querida — disse eu.
— Ah, eu sei, Sr. Talbot — respondeu ela em voz baixa e, sem afastar o olhar de algum ponto distante, ergueu a mão direita e a pôs sobre a minha. Nunca me esqueci desse gesto. Era como se ela estivesse me consolando.
— Bem, Grande Nananne agora sabe — disse ela então. — Ela sabe se minha mãe está viva ou morta.
— É mesmo, ela sabe — respondi, confessando minha crença antes de pensar melhor. — E, não importa o que saiba, ela está em paz.
Houve um intervalo de silêncio no qual tive a dolorosa consciência do sofrimento de Merrick, bem como do barulho dos acólitos da Talamasca que estavam removendo todos os objetos da casa. Ouvi o ruído desagradável de grandes estátuas sendo arrastadas ou empurradas. Ouvi o som de fita crepe sendo esticada e rasgada.
— Eu adorava aquele cara, Matthew — disse Merrick, baixinho. — Eu realmente o adorava. Ele me ensinou a ler o livro da magia. Ensinou-me a ler todos os livros que Oncle Vervain tinha deixado. Ele gostava de olhar para os retratos que eu lhes mostrei. Era um homem interessante.
Mais uma longa pausa. Algo na atmosfera da casa me perturbava. Eu estava confuso com o que estava sentindo. Não estava em nada relacionado aos ruídos ou atividades normais. E de repente pareceu imperioso que eu ocultasse de Merrick essa perturbação, que algo daquela natureza, não importava o que fosse, não a importunasse na ocasião.
Era como se alguém totalmente novo e diferente tivesse entrado na casa e que se pudesse ouvir a movimentação furtiva dessa pessoa. Era a sensação de uma presença coerente. Afastei-a do meu pensamento, sem por um instante temê-la, e mantive os olhos em Merrick quando ela, como em devaneio, recomeçou a falar muito rápido e sem inflexão.
— Lá em Boston, Matthew tinha estudado história e ciência. Conhecia tudo a respeito do México e de suas selvas. Ele me contou a história do povo olmeca. Quando estávamos na Cidade do México, ele me levou a um museu. Ia se encarregar de que eu entrasse para uma escola. Não tinha medo daquela selva. E achava que as vacinas nos protegeriam. Ele não deixava que bebêssemos a água, sabem, tudo isso. E era rico, como eu lhe disse, e nunca teria tentado roubar esses objetos de Sandra Gelada ou de mim.
Seus olhos permaneciam firmes.
Eu ainda sentia aquela entidade distinta no interior da casa, e percebi que ela não a percebia. Aaron também não sabia que ela estava por ali. E não longe do lugar onde estávamos sentados. Com toda a minha alma, eu escutava Merrick.
— Oncle Vervain deixou um monte de coisas. Vou lhes mostrar. Oncle Vervain dizia que tínhamos nossas raízes na selva lá no sul, e no Haiti antes que nosso povo chegasse até aqui. Ele disse que nós não éramos como o povo negro da América, embora ele nunca usasse a palavra “negro”. Sempre dizia “de cor”. Ele achava cortês dizer “de cor”. Sandra Gelada costumava rir dele. Oncle Vervain era um mago poderoso, e antes dele havia seu avô. E Oncle Vervain contava histórias sobre o que o Velho sabia fazer.
Dei-me conta de que sua fala delicada estava ficando mais rápida. A história estava jorrando dela.
— O Velho, é só assim que eu sempre o chamei. Era um praticante de vodu na Guerra de Secessão. Ele foi até o Haiti para aprender coisas e, quando voltou para esta cidade, chegou arrasando. É claro que falam de Marie Laveau, mas também falam do Velho. As vezes sinto perto de mim sua presença, de Oncle Vervain e do Velho, assim como a de Lucy Nancy Marie Mayfair, que aparece no retrato, e de outra, uma rainha do vodu que todos chamavam de Linda Justine. Diziam que todo o mundo tinha medo de Linda Justine.
— O que você quer para sua vida, Merrick? — perguntei-lhe eu de súbito, desesperado para fazer cessar a velocidade cada vez maior da sua fala.
Ela me lançou um olhar penetrante e depois sorriu.
— Quero ter uma educação, Sr. Talbot. Quero estudar.
— Ah, que maravilha — murmurei.
— Já disse ao Sr. Lightner — prosseguiu ela —, e ele me disse que vocês poderiam fazer isso. Quero ir para uma escola de alta qualidade onde me ensinem grego e latim, bem como qual garfo usar para a salada ou o peixe. Quero saber tudo sobre magia, como Matthew sabia, relatos tirados da Bíblia, a leitura daqueles livros antigos, a confirmação do que já foi testado e comprovado. Matthew nunca precisou trabalhar para se manter. Imagino que eu tenha de vir a trabalhar para me manter. Mas quero ser instruída, e acho que o senhor sabe o que quero dizer.
Ela fixou o olhar em mim. Seus olhos estavam secos e límpidos. Foi então talvez mais que em qualquer outra ocasião que percebi sua belíssima coloração que já mencionei antes. Ela continuou a falar, com a voz um pouco mais lenta agora, mais calma e quase terna.
— O Sr. Lightner diz que todos os seus membros são pessoas instruídas. Foi isso o que me disse imediatamente antes da sua chegada. Percebo essas maneiras nas pessoas da casa matriz e ouço seu modo de falar. O Sr. Lightner diz que essa é a tradição da Talamasca. Vocês educam seus membros, porque ser membro é algo vitalício, e vocês todos moram sob o mesmo teto.
Sorri. Era verdade. Pura verdade.
— É — disse eu —, nós fazemos isso com todos os que nos procuram, desde que estejam dispostos e sejam capazes de absorver. E é o que lhe proporcionaremos.
Merrick debruçou-se sobre a mesa e me deu um beijo no rosto.
Fiquei surpreso com esse afeto e sem saber qual a reação adequada. Abri meu coração.
— Querida, nós lhe daremos tudo. Temos tanto a compartilhar... Seria nosso dever se não fosse... se não fosse um prazer tão grande para nós.
Algo invisível de repente se foi da casa. Minha impressão foi como se algum ser tivesse estalado os dedos e simplesmente desaparecido. Merrick não demonstrou ter consciência disso.
— E o que eu posso fazer para vocês em troca? — perguntou ela em voz calma e firme. — Vocês não podem me dar tudo em troca de nada, Sr. Talbot. Digam-me o que querem de mim.
— Que nos ensine o que sabe sobre a magia — respondi — e que cresça para ser feliz, forte e para nunca ter medo.
9
ESTAVA ESCURECENDO QUANDO SAÍMOS DA CASA.
Antes de deixar Nova Orleans, jantamos juntos no Galatoire's, um venerável restaurante antigo de Nova Orleans onde a comida para mim era sempre deliciosa, mas Merrick àquela altura estava tão exausta que empalideceu e adormeceu na cadeira.
Era notável a transformação nela. Murmurou que Aaron e eu deveríamos cuidar dos tesouros olmecas.
— Podem olhar, mas tenham cuidado — disse ela em tom neutro. E então veio o sono repentino que a deixou dócil porém inconsciente, ao que me fosse dado ver.
Aaron e eu praticamente a carregamos até o automóvel — ela conseguia andar dormindo se fosse levada —, e por mais que eu quisesse conversar com Aaron, não ousei fazê-lo, embora Merrick estivesse profundamente adormecida entre nós durante todo o percurso até Oak Haven.
Quando chegamos à casa matriz, aquela boa integrante da Ordem que mencionei anteriormente e que para fins deste relato chamarei agora de Mary nos ajudou a levar Merrick até o quarto e a deitá-la na cama.
Ora, salientei há pouco que desejava que a Talamasca a envolvesse em fantasia, que lhe desse tudo o que ela desejasse.
Permitam-me esclarecer que já tínhamos começado esse processo com a criação para ela de um quarto de esquina no andar superior, que acreditávamos ser o sonho de uma menina-moça. A cama de cerejeira, suas colunas e dossel decorado com flores entalhadas e com enfeites de renda no acabamento, a penteadeira com seu banquinho de cetim e enorme espelho redondo, o pequeno par de luminárias trabalhadas e a infinidade de frascos, tudo isso fazia parte da fantasia, lado a lado com duas bonecas cobertas de babados, bonecas de alcova, como se chamam, que precisaram ser afastadas para podermos deitar a pobre menina no travesseiro para a noite.
E para que vocês não pensem que somos imbecis misóginos, permitam-me explicar que uma parede do quarto, a que não era cortada por portas-janelas que ciavam para a varanda, estava repleta de uma boa coleção de livros de interesse geral. Havia também uma mesa de canto e poltronas para leitura, bem como muitas outras luminárias bonitas e um banheiro provido de sabonetes perfumados, xampus multicores e inúmeros frascos de óleos e colônias perfumadas. Na realidade, a própria Merrick tinha comprado uma infinidade de produtos com a fragrância Chanel n° 22, um perfume especialmente maravilhoso.
Àquela altura, quando a deixamos em sono profundo sob os meigos cuidados de Mary, creio que tanto Aaron quanto eu estávamos apaixonados por ela, totalmente como pais, e eu pretendia não permitir que nada na Talamasca distraísse minha atenção do seu caso.
É claro que Aaron, por não ser o superior geral da Ordem, teria a vantagem de permanecer aqui com ela muito depois que eu tivesse sido forçado a voltar ao trabalho em Londres. E eu o invejava pois ele teria o prazer de ver essa criança conhecer seus primeiros professores particulares e escolher sua própria escola.
Quanto aos tesouros olmecas, nós agora os levávamos ao pequeno cofre-forte da Louisiana para custódia; e, uma vez lá dentro, após alguma reflexão, abrimos a mala e examinamos o que nela havia.
O tesouro era realmente extraordinário. Havia cerca de quarenta ídolos, pelo menos doze das facas perfuradoras, numerosas lâminas de machado e muitos objetos menores com formato de lâmina que costumamos chamar de celte. Cada um dos itens era primoroso em si. Havia também um inventário manuscrito, aparentemente obra do misterioso e malfadado Matthew, que detalhava cada item e seu tamanho. Havia uma nota anexa:
Há uma quantidade muito maior de tesouros neste túnel, mas eles deverão esperar por escavações futuras. Já estou doente e preciso voltar para casa assim que seja possível. Mel e Sandra criam muita polêmica quanto a esse ponto. Elas querem retirar tudo da caverna. Mais eu estou ficando mais fraco mesmo agora enquanto escrevo. Quanto a Merrick, minha doença a está assustando. Preciso levá-la para casa. Vale observar, enquanto tenho forças na mão direita, que nada mais assusta nenhuma das minhas companheiras, nem a selva, nem as aldeias, nem os índios. Tenho de voltar.
Eram mais do que impressionantes essas palavras do falecido; e minha curiosidade acerca de “Mel” era ainda mais forte.
Estávamos embalando tudo e restaurando a antiga ordem quando ouvimos uma batida na porta externa da sala na qual se encontrava o cofre-forte.
— Venham rápido — disse Mary, pela porta fechada. — Ela está histérica. Não sei o que fazer.
Lá fomos nós escada acima e, antes de chegar ao segundo andar, podíamos ouvir seus soluços desesperados.
Merrick estava sentada na cama, ainda no vestido azul-marinho do enterro, os pés descalços novamente, e o cabelo desgrenhado, repetindo em soluços que Grande Nananne tinha morrido.
Era tudo perfeitamente compreensível, mas Aaron exercia um efeito quase mágico sobre pessoas em estado semelhante, e ele logo a tranqüilizou com suas palavras, enquanto Mary ajudava quando possível.
Merrick então, em meio às lágrimas, pediu se poderia tomar um copo de rum.
É claro que ninguém estava a favor desse remédio, mas, por outro lado, como Aaron salientou sensatamente, a bebida a acalmaria e ela acabaria dormindo.
Encontramos algumas garrafas no bar do andar inferior e demos a Merrick um copo, mas ela pediu mais.
— Isso é só uma prova — disse ela, em pranto —, preciso de um copo cheio. — Sua infelicidade e aflição pareciam tão completas que não pudemos lhe dizer não. Afinal, depois que bebeu, seus soluços amainaram.
— O que é que eu vou fazer? Para onde é que eu vou? — perguntava ela, num tom de dar dó, e mais uma vez reforçamos nossas promessas, muito embora sua dor fosse algo que na minha opinião ela precisava expressar com lágrimas.
Quanto a dúvidas acerca do futuro, essa era uma outra história. Pedi a Mary que saísse do quarto. Sentei-me na cama ao lado de Merrick.
— Minha querida, preste atenção — disse-lhe eu. — Você é rica por si só. Aqueles livros do Oncle Vervain. Eles têm um valor imenso. Universidades e museus competiriam em leilões por eles. Quanto aos tesouros olmecas, não tenho como calcular seu valor. É claro que você não quer se desfazer desses objetos, e nós não queremos que você faça isso, mas fique tranqüila pois você está segura, mesmo sem nós.
Isso pareceu tranqüilizá-la um pouco.
Finalmente, depois de chorar baixinho encostada no meu peito por quase uma hora, ela abraçou Aaron, pôs a cabeça no seu ombro e disse que, se soubesse que estávamos na casa, que não íamos sair, ela poderia ir dormir.
— Amanhã de manhã vamos esperar por você lá embaixo — disse-lhe eu. — Queremos que você faça aquele café para nós. É loucura beber o café errado. Nós nos recusamos a tomar o café da manhã sem você. Agora você precisa dormir.
Ela me deu um sorriso grato e gentil, muito embora as lágrimas continuassem a lhe escorrer pelo rosto. Então, sem pedir a permissão de ninguém, ela foi até a penteadeira enfeitada, onde a garrafa de rum estava em total incongruência com os frasquinhos enfeitados, e tomou um bom gole da bebida.
Quando nos levantávamos para sair, Mary atendeu meu chamado trazendo uma camisola pronta para Merrick, e eu levei a garrafa de rum, fazendo um sinal de cabeça para Merrick para me certificar de que ela me havia visto apanhá-la, de modo que houvesse algum simulacro de permissão por parte dela, e Aaron e eu nos retiramos para a biblioteca no andar inferior.
Não me lembro de quanto tempo ficamos conversando.
Possivelmente foi uma hora. Conversamos sobre professores particulares, escolas, programas de ensino, o que Merrick deveria fazer.
— É claro que não pode haver nenhuma cogitação de pedir a ela que demonstre seus poderes paranormais para nós — disse Aaron com firmeza, como se eu estivesse a ponto de fazer minha autoridade suplantar a dele. — Mas eles são consideráveis. Senti isso o dia inteiro e ontem também.
— Ah, mas há uma outra questão — disse eu, e estava prestes a abordar o tema da estranha “perturbação” que tinha sentido na casa de Grande Nananne enquanto estávamos sentados na cozinha. Mas algo me impediu de falar.
Dei-me conta de que percebia a mesma presença agora, debaixo do teto da nossa casa matriz.
— O que houve, amigo? — perguntou Aaron, que conhecia todas as minhas expressões faciais e que poderia provavelmente ler meu pensamento se de fato se dispusesse a fazê-lo.
— Nada — disse eu, e então, instintivamente e talvez por egoísmo, com algum desejo de ser heróico, acrescentei —, quero que você fique onde está.
Levantei-me e saí pelas portas abertas da biblioteca para o corredor.
Lá de cima, da parte dos fundos do andar superior da casa, veio uma risada sardônica e vibrante. Era uma risada de mulher, não havia dúvida, só que eu não conseguia atribuí-la a Mary ou às outras integrantes da Ordem que na época estavam morando na Casa. Na realidade, Mary era a única no prédio principal. Havia algum tempo as outras tinham ido dormir na “senzala” e nas casas de colonos que faziam parte dos anexos a alguma distância das portas dos fundos da casa.
Mais uma vez, ouvi a risada. Parecia uma resposta à minha própria indagação.
Aaron apareceu por trás de mim.
— E Merrick — afirmou, cauteloso.
Dessa vez, não lhe disse que permanecesse ali. Ele me acompanhou quando subi a escada.
A porta do quarto de Merrick estava aberta, e as luzes acesas, fazendo com que um forte clarão se derramasse até o longo e largo corredor central.
— Pois bem, vão entrando — disse uma voz de mulher quando eu hesitei. E, quando entrei, fiquei totalmente alarmado com o que vi.
Numa névoa de fumaça de cigarro, havia uma jovem mulher sentada numa postura altamente sedutora à penteadeira, o corpo viçoso e em rápida maturação coberto apenas com uma sumária combinação de algodão branco, com o tecido fino mal lhe disfarçando os seios perfeitos e os mamilos rosados, ou a sombra escura entre as pernas.
É claro que era Merrick, mas na realidade não era Merrick de modo algum. Com a mão direita, ela levou o cigarro à boca e deu uma longa tragada, com o ar despreocupado de uma fumante inveterada, deixando a fumaça sair tranqüila.
Suas sobrancelhas ergueram-se quando ela olhou para mim, e os lábios estavam arreganhados num belo sorriso debochado. Com efeito, a expressão era tão estranha à Merrick que eu chegara a conhecer que era simplesmente apavorante por si só. Não se poderia imaginar que uma atriz experiente conseguisse alterar as feições com tanto êxito. Quanto à voz que saía do corpo, ela era baixa e sensual.
— Bons cigarros, Sr. Talbot. Rothmans, não é? — A mão direita brincava com a caixinha que ela tirara do meu quarto. A voz da mulher continuou, fria, totalmente desprovida de sentimento e com um leve tom de zombaria. — Matthew costumava fumar Rothmans, Sr. Talbot. Ele ia ao French Quarter comprá-los. Não se encontra essa marca na lojinha da esquina. Fumou até morrer.
— Quem é você? — perguntei.
Aaron não disse nada. Cedeu-me o comando na íntegra nesse momento, mas não abandonou a posição.
— Não se apresse, Sr. Talbot — veio a resposta em tom duro. — Faça-me algumas perguntas. — Ela descansou mais peso no cotovelo esquerdo sobre a penteadeira, e a combinação se abriu, revelando mais seu busto exuberante.
Seus olhos decididamente cintilavam à luz dos abajures da penteadeira.
Parecia que suas pálpebras e sobrancelhas eram governadas exclusivamente por uma nova personalidade. Ela não era nem mesmo irmã gêmea de Merrick.
— Sandra Gelada? — perguntei.
Ela explodiu numa gargalhada que era ameaçadora e chocante. Jogou para trás o cabelo negro e tragou novamente o cigarro.
— Ela nunca lhe disse uma palavra a meu respeito, ou disse? — perguntou ela, e mais uma vez veio aquele sorriso debochado, lindo embora cheio de veneno. — Ela sempre teve inveja. Eu a odiei desde o dia em que nasceu.
— Mel ao Sol — disse eu, com calma.
Ela fez que sim, com um sorriso forçado, soltando a fumaça.
— Esse é um nome que sempre me serviu. E ela segue em frente, me deixando fora da história. Bem, não vá pensar que vou me contentar com tão pouco, Sr. Talbot. Ou eu deveria chamá-lo David? Creio que você parece ser um David, sabe, correto, de vida limpa e tudo o mais. Ela esmagou o cigarro direto no tampo da penteadeira. E, com uma das mãos, apanhou outro e o acendeu com o isqueiro de ouro que eu tinha deixado no meu quarto.
Agora virava o isqueiro, com o cigarro pendurado na boca e através da pequena espiral de fumaça leu a inscrição: “A David, meu Salvador, do Joshua.” Ela olhou para mim de relance e sorriu.
As palavras que tinha lido me feriam fundo, mas eu não ia permitir que aquilo continuasse. Apenas fixei o olhar nela. Isso demoraria um pouco.
— Você tem toda a razão — disse ela —, vai demorar um pouco. Mas não vá achar que eu quero um pouco do que ela está recebendo. Vamos conversar sobre essa história aqui, Joshua, ele foi seu amante, não foi? Vocês foram amantes, e ele morreu.
A dor que eu sentia era intensa. E, por mais que eu alegasse possuir iluminação e autoconhecimento, aquelas palavras me mortificavam por serem pronunciadas na presença de Aaron. Joshua era jovem e um de nós.
Ela deu um riso baixo, carnal.
— É claro que você consegue transar com mulheres também, se forem jovens o suficiente, não é? — perguntou com perversidade.
— De onde você vem, Mel ao Sol? — perguntei.
— Não a chame pelo nome — murmurou Aaron.
— Ah, eis um bom conselho, mas não tem importância. Vou ficar exatamente aqui onde estou. Agora, vamos conversar sobre você e aquele garoto, Joshua. Parece que ele era bem jovem quando vocês...
— Pare com isso — disse eu com rispidez.
— Não fale com ela, David — disse Aaron entre dentes. — Não lhe dirija a palavra. Cada vez que fala com ela, está lhe dando força.
Uma risada alta e cascateante brotou da mulherzinha sentada à penteadeira. Ela abanou a cabeça e se voltou para nos encarar de frente, com a bainha da combinação subindo nas coxas nuas.
— Eu diria que ele estava com uns dezoito anos talvez — disse ela, olhando para mim com os olhos flamejantes enquanto tirava o cigarro da boca. — Mas você não tinha certeza, não é, David? Só sabia que precisava tê-lo.
— Saia de dentro de Merrick — disse eu. — Aí não é seu lugar.
— Merrick é minha irmã! — respondeu ela, em desafio. — Faço com ela o que quiser. Ela me deixou louca desde que nasceu, sempre lendo meus pensamentos, me dizendo o que eu pensava, me dizendo que eu criava meus próprios problemas, sempre pondo a culpa de tudo em mim!
Inclinou-se para a frente com a expressão carrancuda. Dava para eu ver seus mamilos.
— Você deixa transparecer o que você é — disse eu. — Ou não seria o que você foi?
De súbito ela se levantou da penteadeira, e a mão esquerda, livre do cigarro, arrastou todos os frascos e o abajur do lado direito do tampo, com um belo golpe.
Ouviu-se o barulho de vidro estilhaçado. O abajur apagou-se com uma centelha ruidosa. Dois ou mais dos frascos estavam quebrados. O tapete estava coberto com fragmentos afiados. O quarto, impregnado de um forte perfume.
Estava em pé diante de nós, com a mão no quadril, o cigarro para o alto. Olhou para os frascos no chão.
— É, ela gosta dessas coisas! — disse. — Sua postura era cada vez mais sugestiva, zombeteira. — E você realmente gosta do que está vendo, não gosta, David? Ela tem a idade exata para você. Ela ainda tem um pouco de menino nela, não é? Grande Nananne o conhecia e sabia o que você queria. E eu o conheço também.
Seu rosto estava tomado pela raiva e era lindíssimo.
— Você matou Joshua, não matou? — disse ela, em voz baixa, com os olhos de repente semicerrados, como se estivesse espiando o íntimo da minha alma. — Você permitiu que ele estivesse naquela escalada no Himalaia... — Ela pronunciou a palavra como eu a teria pronunciado. — E você sabia que era perigoso, mas o amava tanto que não conseguiu dizer não.
Não pude dizer nada. Em mim a dor era imensa. Tentei eliminar da mente todos os pensamentos acerca de Joshua. Procurei não pensar no dia em que trouxeram seu corpo de volta a Londres. Procurei me concentrar na garota diante de mim.
— Merrick — disse eu, com todas as forças que pude reunir. — Merrick, expulse-a.
— Você me quer, e você também, Aaron — prosseguiu ela, com o sorriso forçado deixando as bochechas maleáveis, o rosto corado. — Qualquer um dos dois me fincaria naquele colchão se achasse que tinha condições.
Eu não disse nada.
— Merrick — disse Aaron em voz alta. — Livre-se dela. Ela não lhe quer bem, querida, livre-se dela!
— Você sabe o que Joshua estava pensando a seu respeito quando despencou daquele penhasco? — perguntou ela.
— Pare com isso! — exclamei.
— Ele estava sentindo ódio de você por mandá-lo, detestando você por ter dito que sim, que ele podia ir!
— Mentira! — disse eu. — Saia de dentro de Merrick.
— Não me venha com gritos, cavalheiro — retrucou ela, furiosa. Olhou de relance para os cacos de vidro no chão e bateu as cinzas no meio deles. — Agora vamos tratar de um bom castigo para ela.
Deu um passo adiante para o meio da confusão de cacos de vidro e frascos derramados que nos separava. Investi contra a figura.
— Não avance.
Agarrei-a pelos ombros e a forcei a recuar. Mas isso exigiu toda a minha força. Sua pele estava úmida de suor e ela se desvencilhou de mim.
— Você acha que eu não posso andar descalça em cima do vidro? — disse ela no meu nariz enquanto lutava para resistir a mim. — Seu velho idiota — prosseguiu —, agora por que eu ia querer ferir o pé de Merrick?
Agarrei-a, esmagando o vidro com meus sapatos.
— Você morreu, não é, Mel ao Sol? Você está morta e sabe disso; e essa é toda a vida que consegue obter!
Por um instante, o belo rosto ficou inexpressivo. A garota parecia ser Merrick. Então ergueram-se novamente as sobrancelhas. As pálpebras assumiram sua expressão lânguida, fazendo cintilar os olhos.
— Eu estou aqui e eu vou ficar aqui.
— Você está na cova, Mel ao Sol — respondi. — Quer dizer, o corpo que você quer está na cova, e tudo o que você tem é um espírito errante. Diga-me que não é verdade.
Um ar de medo alvoroçou sua expressão, e então o rosto voltou a tornar-se obstinado, enquanto ela se livrava das minhas mãos.
— De mim o senhor não sabe nada — disse ela. Estava desnorteada, como costuma acontecer com os espíritos. Não conseguia manter no rosto de Merrick a expressão atrevida. Com efeito, de repente o corpo inteiro estremeceu. A verdadeira Merrick estava lutando.
— Volte, Merrick, livre-se dela — disse eu, voltando a dar um passo à frente.
Ela recuou na direção dos pés da cama alta. Girou o cigarro na mão. Pretendia queimar-me com ele.
— Pode apostar que pretendo — disse ela, lendo meu pensamento. — Quem dera eu tivesse alguma coisa para realmente feri-lo. Mas acho que vou ter de me contentar em feri-la!
Ela olhou ao redor do quarto.
Era só o que eu precisava. Investi contra ela e a segurei pelos ombros, desesperado para não largá-la apesar do suor que a cobria e de seus esforços para escapar. Ela deu um berro.
— Pára com isso! Me solta! — E ela conseguiu esmagar o cigarro no lado do meu rosto.
Tentei alcançar sua mão, agarrei-a e a torci até que ela largasse o cigarro. Ela me deu uma bofetada de modo que por um instante eu me senti zonzo. Mesmo assim, não larguei os ombros escorregadios.
— Chega — gritou ela. — Quer machucá-la, quebrar-lhe os ossos, por que não faz isso? Acha que isso trará Joshua de volta? Acha que ele poderá estar mais velho para você, David? Acha que isso corrigirá as coisas?
— Saia de dentro de Merrick! — gritei. Eu ainda ouvia os cacos de vidro debaixo dos meus sapatos. Ela estava perigosamente próxima deles. Sacudi-a com força, balançando sua cabeça de um lado para o outro.
Inesperadamente, ela se livrou de mim com violência, e mais uma vez veio uma bofetada de força assombrosa que quase me desequilibrou. Por uma fração de segundo, fiquei cego.
Investi contra ela, ergui-a por baixo dos braços e a atirei na cama. Ajoelhei-me na cama sobre ela, ainda a agarrando. Ela lutava para alcançar meu rosto.
— Solte-a, David — gritou Aaron atrás de mim. E de repente ouvi a voz de Mary, aquela outra fiel irmã, que me implorava para não torcer seu pulso com tanta força.
Os dedos continuavam a lutar para alcançar meus olhos.
— Você está morta, sabe que está, não tem nenhum direito de estar aqui
— vociferei. — Diga que está morta; você morreu e tem de deixar Merrick em paz.
Senti seu joelho contra o meu peito.
— Grande Nananne, tire-a daqui! — disse eu.
— Como ousa! — berrou ela. — Você acha que pode usar minha madrinha contra mim. — Agarrou meu cabelo com a mão esquerda e lhe deu puxões.
Mesmo assim, eu a sacudia.
E então recuei, soltei-a e invoquei meu próprio espírito, minha própria alma para que se tornasse um instrumento poderoso; e foi com esse instrumento invisível que mergulhei na sua direção, golpeando-a no coração de tal modo que ela perdeu o fôlego.
Fora, fora, fora!, ordenei-lhe com toda a força da minha alma. Senti a mim mesmo contra ela. Senti seu poder coletivo, como se não houvesse nenhum corpo que o abrigasse. Senti sua resistência. Eu tinha perdido totalmente o contato com meu próprio corpo. Fora de Merrick! Já!
Soltou-se dela um soluço.
— Não existe túmulo para nós, seu canalha, seu demônio — gritou ela.
— Não existe túmulo nem para mim nem para minha mãe! Você não tem como me fazer ir embora!
Olhei para baixo, para seu rosto, embora não soubesse onde meu próprio corpo tinha caído — no chão ou na cama.
Invoque Deus com qualquer nome e vá na sua direção!, disse-lhe eu. Deixe esses corpos onde quer que estejam, está me ouvindo? Deixe-os e siga adiante. Agora! Ê a sua chance!
De repente, a força que me oferecia resistência retraiu-se, e eu senti sua intensa pressão dissolver-se. Por um instante achei que a vi, um vulto amorfo erguendo-se acima de mim. Percebi então que estava deitado no chão.
Eu tinha o olhar fixo no teto. E podia ouvir Merrick, nossa Merrick chorando de novo.
— Elas morreram, Sr. Talbot, morreram. Sandra Gelada morreu e Mel ao Sol, minha irmã, também. Sr. Talbot, as duas morreram. Estão mortas desde que saíram de Nova Orleans, Sr. Talbot. Todos aqueles quatro anos de espera, e elas morreram na primeira noite em Lafayette, Sr. Talbot. Estão mortas, mortas, mortas.
Levantei-me lentamente. Havia cortes do vidro quebrado nas minhas mãos. Eu me sentia mal fisicamente.
A criança na cama tinha fechado os olhos. Não havia zombaria nos seus lábios. A boca aberta estava muito esticada enquanto ela continuava a se lamentar aos gritos.
Mary rapidamente jogou sobre ela um espesso roupão. Aaron estava ao seu lado. Ela rolou na cama e de repente fez uma careta.
— Estou passando mal, Sr. Talbot — disse ela com a voz rouca.
— Por aqui — desviei-a dos cacos perigosos, peguei-a no colo e a carreguei até o banheiro. Ela debruçou-se na pia, e o vômito jorrou.
Eu tremia por inteiro. Minhas roupas estavam encharcadas.
Mary insistiu para que eu me afastasse. Por um momento pareceu-me revoltante, e depois dei-me conta da impressão que deveria ter causado em Mary.
Por isso retirei-me.
Quando olhei para Aaron, surpreendi-me com a expressão no seu rosto. Já tinha visto muitos casos de possessão. Todos são terríveis, cada um ao seu modo.
Esperamos no corredor até Mary nos dizer que poderíamos entrar. Merrick estava usando uma camisola branca de algodão para nos receber, o cabelo escovado com um maravilhoso brilho castanho e os olhos muito límpidos, mas com o contorno vermelho. Estava na poltrona no canto à luz do abajur de pé.
Os pés estavam bem protegidos com chinelos brancos de cetim. Mas todo o vidro tinha desaparecido. Na realidade, a penteadeira estava perfeita com apenas um abajur e todos os frascos intactos.
No entanto, Merrick ainda tremia. E, quando me aproximei, ela estendeu a mão e agarrou a minha.
— Seus ombros vão ficar doloridos por um tempinho — disse eu, em tom de desculpas.
— Ouçam só como elas morreram — disse ela, olhando para mim e depois para Aaron. — Saíram com todo aquele dinheiro para comprar um carro novo. O homem que lhes vendeu o carro foi dar uma volta com elas, sabem, e as levou a Lafayette. E lá ele as matou pelo dinheiro que estava com elas. Deu-lhes um golpe forte na cabeça.
Abanei a cabeça.
— Há quatro anos isso aconteceu — disse ela, prosseguindo séria, com a mente na história e em nada mais. — Aconteceu exatamente um dia depois de terem partido. Ele as espancou num quarto de motel em Lafayette, pôs os corpos no carro e empurrou o carro para dentro do pântano. O carro simplesmente ficou cheio d'água. Se elas acordaram, morreram afogadas. Não sobrou nada de nenhuma das duas agora.
— Meu Deus — murmurei.
— E esse tempo todo eu me sentia tão culpada por ter ciúme, ciúme por Sandra Gelada ter levado Mel ao Sol e ter me deixado para trás. Eu sentia culpa e ciúme, culpa e ciúme. Mel ao Sol era minha irmã mais velha. Mel ao Sol estava com dezesseis anos e “não dava trabalho”, foi o que Sandra Gelada me disse. Eu era muito criança, e ela viria me buscar logo.
Fechou os olhos por um momento e respirou fundo.
— Onde é que ela está agora? — perguntei. Aaron deixou transparecer que não estava preparado para isso. Mas eu precisava lhe fazer a pergunta.
Por um bom tempo, não houve resposta. Merrick continuava com o olhar fixo, o corpo tremendo com violência, e então finalmente falou.
— Ela se foi.
— Como foi que ela apareceu? — perguntei. Mary e Aaron abanaram a cabeça.
— David, deixe a menina por ora — disse Aaron, com a maior cortesia possível. Eu não tinha nenhuma intenção de deixar para lá. Eu precisava saber.
Mais uma vez, não houve resposta imediata. E então Merrick deu um suspiro e se voltou para um lado.
— Como foi que ela apareceu? — perguntei novamente.
O rosto de Merrick enrugou-se. Ela começou a chorar bem baixinho.
— Por favor, senhor — disse Mary —, deixe-a em paz.
— Merrick, como foi que Mel ao Sol apareceu? — perguntei. — Você sabia que ela queria aparecer?
Mary assumiu uma posição à esquerda de Merrick e me lançou um olhar de censura.
Eu não tirava os olhos da menina trêmula.
— Você pediu a ela que viesse? — indaguei, baixinho.
— Não, Sr. Talbot — disse ela, em voz baixa, com os olhos voltando a me focalizar. — Rezei para Grande Nananne. Rezei para que seu espírito me ouvisse enquanto ainda estivesse perto da terra. — Sua voz exausta mal conseguia pronunciar as palavras. — Grande Nananne mandou que ela viesse me contar. Grande Nananne vai cuidar delas duas.
— Ah, entendo.
— O senhor sabe o que eu fiz — prosseguiu ela. — Chamei um espírito que tinha acabado de morrer. Invoquei uma alma que ainda estava bem perto para me ajudar, e o que veio foi Mel. O que veio foi mais do que eu queria. Mas é assim que funciona às vezes, Sr. Talbot. Quando se recorre a les mystères, nem sempre se sabe o que se vai receber.
— E mesmo — respondi. — Eu sei. Você se lembra de tudo o que aconteceu?
— Sim — disse ela — e não. Eu me lembro de o senhor me sacudir e me lembro da informação do que havia acontecido, mas não me lembro direito de todo o tempo que passou enquanto ela estava em mim.
— Certo — disse eu, agradecido. — Como está se sentindo agora, Merrick?
— Com um pouco de medo de mim mesma — respondeu ela. — E peço desculpas se ela o feriu.
— Ora, querida, pelo amor de Deus, não pense em mim — respondi. — Só estou preocupado com você.
— Isso eu sei, Sr. Talbot, mas se lhe servir de consolo, Joshua entrou na Luz quando morreu. Ele não o odiou quando estava caindo da montanha. Mel só inventou essa história.
Fiquei atordoado. Eu podia sentir o súbito constrangimento de Mary. Podia ver que Aaron estava pasmo.
— Tenho certeza — disse Merrick. — Joshua está no Céu. Mel só leu tudo aquilo no seu pensamento.
Eu não podia responder. Correndo o risco de maior suspeita e condenação por parte da vigilante Mary, debrucei-me e dei um beijo no rosto de Merrick.
— O pesadelo terminou — disse ela. — Estou livre de todas elas. Estou livre para começar.
E assim teve início nossa longa jornada com Merrick.
10
PARA MIM NÃO TINHA SIDO FÁCIL CONTAR ESSA HISTÓRIA A LOUIS, E ELA NÃO estava terminada. Eu tinha muito mais a dizer.
Quando parei, no entanto, foi como se eu tivesse despertado para a sala à minha volta e para a presença atenta de Louis. Tive um alívio imediato tanto quanto uma culpa esmagadora. Por um instante, estiquei braços e pernas, e senti minha força vampírica nas veias.
Estávamos sentados juntos como dois seres saudáveis, à luz confortável dos abajures.
Pela primeira vez desde que eu começara a história, olhei para os quadros nas paredes da sala. Tratava-se de tesouros impressionistas de coloração maravilhosa, que Louis tinha adquirido muito tempo atrás e que no passado guardava numa pequena casa na cidade alta, onde morava até Lestat queimar aquela casa e, num esforço de reconciliação, implorar a Louis que viesse morar aqui com ele.
Contemplei um quadro de Monet — quadro que eu vinha ignorando recentemente por ter-se tornado familiar —, um quadro cheio de sol e de verde, de uma mulher trabalhando num bordado junto a uma janela à sombra dos ramos de delicadas árvores de ambientes fechados. Como tantos quadros impressionistas, aquele era altamente intelectual, com suas pinceladas evidentes, e de uma domesticidade flagrante. E deixei essa corajosa santificação da vida comum mitigar o sofrimento do meu coração.
Eu queria sentir nossa domesticidade aqui na Rue Royale. Queria me sentir seguro em termos morais, como naturalmente eu nunca mais me sentiria.
Minha alma estava exausta de revisitar aquela época em que eu era um ser mortal, em que eu não dava importância ao calor úmido dos dias em Nova Orleans, em que eu era um amigo de confiança de Merrick, pois era isso o que eu era, independentemente daquilo que Mel ao Sol condenara em mim — o fato de ter estado com um garoto chamado Joshua que tinha vivido muitos, muitos anos antes.
Quanto a essa questão, Aaron e Mary nunca me fizeram perguntas. Mas eu sabia que nenhum deles jamais voltaria a me encarar do mesmo jeito. Joshua era muito jovem, e eu, muito velho, para o relacionamento. E eu somente confessara minha transgressão — algumas preciosas noites de amor — aos Anciãos muito depois da morte de Joshua. Eles me haviam censurado e me incumbiram de nunca mais permitir que algo semelhante acontecesse.
Quando fui nomeado superior geral, os Anciãos exigiram de mim uma confirmação de que eu estava muito além de semelhantes violações da moralidade, e essa confirmação eu lhes dera, humilhado por ter sido o fato mencionado novamente.
Quanto à morte de Joshua, eu de fato me culpava pelo que lhe havia acontecido. Ele me implorara que permitisse sua participação na escalada, que em si não era muito perigosa, para visitar um santuário no Himalaia que fazia parte do seu estudo das tradições tibetanas. Outros membros da Ordem estavam com ele, e voltaram para casa em segurança. A queda resultara de uma avalanche pequena porém súbita, ao que me fora dado entender, e o corpo de Joshua só fora recuperado meses depois.
Agora, enquanto eu repassava esses fatos com Louis, agora que eu avaliava o fato de ter abordado a mulher Merrick na minha forma sinistra e eterna de vampiro, eu sentia a culpa mais intensa e profunda. Não era algo para o qual eu pudesse um dia procurar absolvição. E não era algo que pudesse me impedir de voltar a ver Merrick.
Já havia acontecido. Eu tinha pedido a Merrick que despertasse o espírito de Claudia para nós. E eu tinha muito mais a contar a Louis antes que os dois pudessem se ver; e muito mais dentro de mim que precisava ser resolvido.
Todo esse tempo, Louis tinha escutado sem dizer palavra. Com o dedo dobrado abaixo da boca, o cotovelo no braço do sofá, ele apenas olhava para mim enquanto eu relatava minhas recordações, e agora esperava ansioso que o relato prosseguisse.
— Eu sabia que essa mulher era poderosa — disse ele, com delicadeza. — O que eu não sabia era como você a amava.
Assombrava-me sua maneira habitual de falar, a qualidade enternecedora da sua voz e o jeito pelo qual suas palavras mal pareciam perturbar o ar.
— Ora, bem, nem eu sabia — respondi. — Éramos tantos, todos unidos pelo amor, na Talamasca, e cada um é um caso especial.
— Mas essa mulher, você realmente a ama — insistiu ele, tranqüilo. — E eu lhe pedi que agisse contra o que lhe dizia seu coração.
— Oh, não, nada disso — confessei, hesitante. — Era inevitável que eu contatasse a Talamasca — insisti. — Mas deveria ter sido um contato com os Anciãos, por escrito, não isso.
— Não se condene tanto por entrar em contato com ela — disse ele com uma autoconfiança extraordinária. Parecia convicto e, como sempre, eternamente jovem.
— Por que não? — perguntei. — Eu considerava que você era o especialista em culpa? — Com isso, ele riu educadamente e depois abafou mais um risinho silencioso, abanando então a cabeça.
— Nós temos coração, certo? — retrucou ele, mudando de posição um pouco nas almofadas do sofá. — Você me diz que acredita em Deus. Isso é mais do que os outros jamais chegaram a me dizer. É mesmo, sinceramente. O que você acha que Deus planeja para nós?
— Não sei se Deus tem algum plano — disse eu, com um pouco de amargura. — Só sei que Ele existe.
Pensei em como amava Louis e sempre amara desde que me tornara cria de Lestat. Pensei em como era profunda minha dependência dele, e no que eu faria por ele. Era o amor de Louis que às vezes paralisara Lestat e escravizara Armand. Louis não precisava ter nenhuma consciência da sua própria beleza, do seu próprio encanto evidente e natural.
— David, você tem de me perdoar — disse ele, de repente. — Tenho uma vontade tão louca de conhecer essa mulher pessoalmente que o forço a prosseguir por motivos egoístas, mas falo sério quando digo que temos coração em todos os sentidos da palavra.
— É claro que você tem — respondi. — Eu me pergunto se os anjos têm coração — murmurei. — Ah, mas não faz diferença, faz? Nós somos o que somos.
Ele não me respondeu, mas eu vi sua expressão se toldar por um instante; e então caiu num devaneio, com seu habitual ar de curiosidade e graça tranqüila.