Mulheres e Creanças

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 11 de 33

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Mulheres e Creanças

CAPITULO V As mães e as filhas

—Ao principio tivemos as nossas turras, mas a gente, como o outro que diz, foi-se habituando um ao outro, e agora não ha que se lhe diga; o que elle quer, quero eu tambem.

Ao principio tinhamos as nossas turras... ouviram? É que no campo ao primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminação; é que no campo o noivado dura menos, mas em compensação descobrem-se brutalmente as differenças de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vão desapparecendo.

A mulher, porém, que é sempre mulher, quer ande vestida de sedas, quer ande envolvida em saragoça, póde com a sua benefica e pacificadora influencia, tanto no campo como na cidade, desculpando o marido, conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeições e defeitos que estão fatalmente inherentes, ai de nós! á mesquinha natureza humana.

 

CAPITULO V

 

As mães e as filhas

 

Venho ainda hoje fallar ás mães a respeito das suas filhas. Creio que é um meio de ser ouvida com attenção.

Se as mães são pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males que affligem a educação de seus filhos, não é d'ellas a culpa, que só levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas entranhas.

Mas o amor das mães é cego como um instincto, e como tal precisa de ser guiado e dirigido.

Entregues a si, transviadas pelas noções incompletas que já lhes eivaram de erros funestos a educação que receberam na infancia, ouvindo mais a voz da propria vaidade, que a voz austera da razão, as mães continuam a suppôr que na educação de uma menina se deve attender antes de tudo ás exterioridades brilhantes, que farão d'ella a favorita dos salões mundanos, a elegante e afamada cultora de todas as delicadas frivolidades sociaes.

Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da miseria, já cuida tão sómente em hombrear com as duquezas que inveja de longe, até á mais aristocratica descendente das antigas paladinas, todas teem as mesmas noções falsissimas ácerca da educação que suas filhas devem receber.

Não estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas galas sediças; para ellas uma educação de senhora não varia.

Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica.

Os filhos são reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo instituto, e teem de sujeitar-se ás regras acanhadas e incompletas da educação official; as filhas, debaixo da direcção mediata ou immediata das mães, começam no lar domestico a sua aprendizagem, que é como que a opposição systematica a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou.

Turbulentas, como é natural que sejam as creanças, aprendem a suffocar a espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros. A primeira obrigação que reconhecem é a de não fazerem bulha.

Tornam-se taciturnas e sonsas.

O habito de contrariarem incessantemente os impulsos tão naturaes da sua idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, o peior e o mais vulgar dos vicios femininos.

Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabeça uma pressão despotica, de que não podem reconhecer a justiça, aspiram instinctivamente ao livramento, teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os segredos.

Não se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos seus corpos miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena.

A vaidade maternal cuida então de as enfeitar; o vestuario das suas pequenas joias torna-se para as mães—para as mulheres—um negocio de alta e gravissima importancia.

Não ha nada que as satisfaça; os bordados finos, as rendas, as sedas, as plumas, os velludos, tudo se combina para adornar o gracioso e querido anjo.

Dous resultados inevitaveis:

A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e a feroz vaidade de que elle lhes lança n'alma a primeira semente, que mais tarde ha de desatar-se em venenosos fructos.

A pequena assim vestida julga-se forçosamente de uma essencia superior ás que não podem competir com ella em opulencia; de um lado levanta-se o orgulho, de outro lado rasteja a inveja.

O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar emulações raivosas, de ser apontada como um modelo de elegancia infantil, accende no espirito da creança a funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da mulher.

Quando sôa emfim a hora em que o espirito exige a sua indispensavel cultura, o mesmo systema que até alli dominou na educação da pequenina continúa a fazer sentir a sua corruptora influencia.

«—Quero que a minha filha se não possa envergonhar de apparecer ao pé das mais ricas!—diz a mãe enfatuada na sua funesta vaidade.

Chamam-se os professores de dança, de musica, de linguas, de desenho, ou conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas d'este genero.

Algumas mães exigem tambem que as filhas aprendam a bordar a lã, a bordar a ouro, a bordar sobre escomilha, a fazer crochet, flôres, pequenos trabalhos de agulha, proprios para ornamentação de um quarto de pensionista ingenua.

Outras, mais dadas á sciencia, querem uns elementos de geographia, alguma historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica.

Por cima de tudo isto um pó dourado de devoção elegante, ministrada pelo director das consciencias do high-life.

Não se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro e despretencioso, cujos sermões não tenham fama, cujas predicas não sejam ouvidas, entre suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia, inicie a pequena neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica.

É indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro, que torne o ensino da religião alguma cousa de artistico e de adocicado como elle.

Saber bem doutrina constitue um dos deveres de uma educação primorosa, e no entanto a filha que aprendeu, a mãe que a mandou ensinar, ignoram todos os deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as obrigaria.

Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de cór umas certas e determinadas regras de que não percebem a applicação pratica.

Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua educação completa.

Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o seu destino a reserve para receber n'uma sala faustuosa os altos personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da côrte, para conviver n'um pé de intimidade com todos os grandes, e com todos os opulentos; quer ella tenha de partilhar as luctas obscuras de um modesto empregado, de um industrial de poucos haveres, de um artista desprotegido, é a mesma a sua educação moral, physica e intellectual.

Está do mesmo modo preparada para as luctas e para os combates da vida; tem a mesma força nos musculos, tem as mesmas faculdades no espirito, tem as mesmas noções na consciencia.

A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos direitos, as mesmas aspirações, ambicionam para suas filhas o mesmo lugar na sociedade.

Mas o que deve confessar-se uma vez por todas é que esta educação, toda vaidade, toda orgulho frivolo, toda inutil ostentação, convem tão pouco á filha da aristocracia e da opulencia, como á filha da burguezia e da mediocridade.

Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto e seguro para conhecer os homens, a graça ondeante e fina para os attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e paixões, para os conciliar entre si; precisa de fallar a cada um a linguagem mais propria para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido um auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que o ajude a conservar dignamente a posição que herdou dos seus avós ou que conquistou com o braço e com o pensamento.

A outra, n'uma esphera que é inferior á da primeira, segundo o ponto de vista social, mas que de feito lhe é superior, porque inclue mais altos e mais complexos deveres—a outra precisa de descer com seu marido á arena onde combatem os modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em tudo e por tudo ajuda, guia e conselho, precisa de acceitar para si terriveis responsabilidades, para as quaes nenhuma lição a preparou!

Dir-me-hão que o nivelamento democratico das modernas sociedades dá a todos os mesmos direitos, porque dá a todos os mesmos deveres; que a mãe opulenta e nobre que cria suas filhas nos fôfos ocios da riqueza não sabe se em breve terá de vel-as curvadas ao peso da maxima miseria, assim como a mulher de um humilde empregado não sabe se verá sua filha ascender a uma prospera e brilhante posição, elevada por um d'esses casamentos que são vulgares, como d'antes eram raros.

D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese em cousa alguma destróe a minha asserção, pois o que eu disse e repito é que a educação feminina, tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade, para nenhuma posição brilhante ou precaria é util ou conveniente.

 

Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, póde adquirir-se partindo de tão errados principios?

A que fim se aspira, que fim se attinge, alcançando uma educação que tem por unica base a vaidade?

Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir conhecimentos inuteis, está porventura armada para resistir ás tentações, ás adversidades, ás miserias, aos combates da vida?

Imagine-se, em contraposição a esta falsa cultura, que constitue o que os burguezes embebecidos em comico enthusiasmo chamam uma educação muito fina, imagine-se que as mães, juntando-se n'uma piedosa cruzada, conseguiam crear uma instituição moderna, onde suas filhas recebessem a educação que hoje lhes poderia servir, para se tornarem uteis na sociedade e na familia.

Quantas vezes não tenho eu acariciado em sonhos a idéa d'essa escola-modelo, onde a creança aprendesse a ser mulher, onde a mulher aprendesse a ser mãe! onde uma direcção harmonica e intelligente presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao desenvolvimento não menos sagrado do corpo; onde a moral caminhasse a par da sciencia, onde a primeira noção que o entendimento feminino recebesse fosse esta: «Todo o trabalho nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir um dever!»

Eu não quizera por certo proscrever da educação da mulher as graças, que são para ella o que o perfume é para a flôr.

Não queria vêr o mundo convertido n'um viveiro de pedantes, enfronhadas em sciencia e tornando antipathica a virtude, á força de lhe darem ares dogmaticos.

Se a leitora suppõe de mim tal abominação, é que eu bem pouco tenho conseguido revelar-me aos seus olhos.

O meu intento é outro; permitta-me que lhe torne aqui bem palpavel.

V. exc.a, minha senhora, tem uma filha, um pequenino anjo, louro e risonho, que é n'este mundo o seu enlevo, como que um bocadinho do céu azul, que lhe cahiu no seio n'um dia abençoado.

Tome o meu conselho: não siga na educação do seu pequeno amor o systema que sua mãe seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as filhas que teem.

Córte de uma vez este fatal nó gordio da tradicção, do costume, da rotina, que faz morrer em flôr tantas innovações beneficas.

Tenha a coragem das suas opiniões; inutilise esse formoso e rico enxoval que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite fóra essas sedas, essas rendas, esses instrumentos de perdição para a alma pequenina que Deus lhe confiou.

Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que revele os seus desvelos de mãe, mas que não denuncie as suas vaidades de rica.

Bem vê que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava, como um laço de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se sente mais livre e mais contente.

Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu dos pés á cabeça, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a si mesma se v. exc.a já não era tão rica como ella julgou; mas em compensação d'esta pequena ferida de seu amor proprio, houve uma creança pobre, que ao parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de rosas, e beijal-a com um dôce e fraterno beijo, como os anjos se dão entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um sorriso bom!

Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que não teem as invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabeça como uma eterna maldição!

Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e muito aceiado, as mães pobres sorriem-se com amor por dous motivos, ambos santos: porque ella não humilha ninguem, e deixa uma esmola de pão e um rasto de luz no seu caminho de anjo inconsciente.

Oh! como são doces ao coração das mães as bençãos que se desfiam como um rosario de perolas sobre a cabeça loura de seus filhos.

Quando a intelligencia já viva e luminosa da sua filha lhe pedir cultivo, como as flores pedem agua, não a force a um trabalho pesado e tenaz, nem tão pouco lhe dê da vida uma idéa tão frivola, que ella só aprenda o que é superfluo para não dizer inutil.

 

Abra-lhe com a sua mão maternal tão delicada e tão subtil o vasto livro da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa, o folheie cheia de amor e de fé. Toda a sciencia se encerra n'isto, minha senhora.

Faça-a penetrar na alma de todas as cousas para que a vida se não conserve aos seus olhos inanimada e esteril.

Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei, que é feita de tanto amor!

Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes, deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do pão e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do albergue da desgraça, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos cravados nas nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe então baixinho, com a sua voz de mãe, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de uma virgem:—Comprehendes agora as palavras do Christo: Ama a Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo?

Só este commentario das lições do Justo póde fazer com que ellas dêem abençoados fructos!

Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com a sua palavra serena e firme a força necessaria para vencer e dominar as astucias criminosas e traiçoeiras.

Faça-lhe sentir com a lição e com o exemplo que a mulher tem quasi sempre em si o seu peior inimigo, e que este inimigo, que toma todas as fórmas imaginaveis, é sempre no fundo o mesmo! o orgulho.

Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o despotismo, que tem como origem a belleza e a graça artificial das seducções, rebaixa o homem que o acceita, e a mulher que o põe em acção.

Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as eventualidades.

Que se não ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um balcão.

Eis o ideal.

Ha uma dignidade que está comnosco, que participa da nossa propria assencia, que provém da noção elevada que nós temos dos nossos direitos e dos nossos deveres, e que é portanto independente de qualquer circumstancia exterior.

É d'esta dignidade que uma educação justa e forte deve dar á mulher, e que em todas as peripecias da vida, por mais desusadas e estranhas, a deve acompanhar.

Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos delicados, e bastante superioridade para comprehender a idéa do dever que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as obrigações, depois as distracções, eis aquillo que todas as mães devem ensinar ás suas filhas.

No dia em que todas o souberem, teremos então, em vez das creanças fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora escravisa, segundo o impulso das suas ephemeras paixões, uns seres pensantes, conscios da sua força, sem ambições desregradas de um poder que lhes não deve pertencer, sem a hypocrita humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco sympathica.