Mulheres e Creanças

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 25 de 33

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Mulheres e Creanças

Capitulo XIV: I

Se ámanhã uma das nossas mulheres começasse a percorrer as grandes cidades da Europa meridional, prégando a transformação dos costumes, os direitos politicos do sexo feminino, a reforma das instituições, a sua prédica, por mais eloquente que fosse, seria abafada em uma tempestade homerica de risos!

Aqui muito á puridade, eu não sei se somos nós, que temos razão!

 

Criados e Amos

 

CAPITULO XIV

 

I

 

Fallemos dos nossos criados.

É um assumpto este de importancia summa.

Tem relações estreitas com a administração da casa, com o seu aceio, arranjo, conforto e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com a figura que ella representa em relação ás outras casas.

Parece uma questão ridicula e comesinha; tem sido estragada por todas as matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia da sua bilis; é o assumpto obrigado das conversações das mães burguezas, em quanto nas pequenas soirées dos quartos andares as meninas estafam um desgraçado piano asthmatico, os litteratos da familia recitam versos a Ella, e tres commendadores gordos e vermelhos disputam acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete.

Ninguem todavia ainda encarou esta questão debaixo do seu verdadeiro aspecto.

Declama-se contra a decadencia e desmoralisação dos criados de hoje, mas ninguem pensou que esta decadencia, que esta desmoralisação, provém forçosamente de alguma causa que é necessario conhecer e destruir.

Á primeira vista, observando na familia, esse elemento que se tem tornado tão indispensavel quanto perigoso, nota-se o seguinte:

—Que os criados de hoje não se podem comparar aos criados antigos, nem na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem na moralidade.

Já se vê que esta regra tem excepções numerosas, de que não tractaremos, mas que reconhecemos e admittimos.

—Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas familias a quem serve, e em cujo seio penetra.

—Que elles são sempre ou quasi sempre os auxiliares da traição, do vicio, da desobediencia, e que portanto é profundamente corruptora a influencia que exercem na familia.

—Que o seu interesse consiste em especularem com as fraquezas ou as maldades d'aquelles de quem dependem, e que vivem e medram na immoralidade dos seus superiores.

—Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que estão acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes póde provir do rebaixamento dos entes de quem receiam a severidade ou que são forçados, muito contra sua vontade, a respeitar, o fim que elles teem, e que procuram por todos os modos attingir, é o seguinte: penetrar vagarosa e cautelosamente na confiança dos amos, extorquir-lhes os seus segredos, e divulgal-os por sêde instinctiva de vingança, ou exploral-os, por desejo immoderado de ganho.

Posto isto, provado está que os criados são os nossos inimigos necessarios, e que é preciso que para com elles a nossa attitude seja por em quanto inteiramente defensiva.

E dizemos por em quanto, por uma razão muito simples.

Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam symptomas de corrupção e de gangrena, a culpa vem por força de longe, e de cima, e que devemos applicar-nos com todas as nossas forças e todos os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim.

A que póde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece entre os criados antigos e os criados de hoje?

A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade d'elles; as causas que teem o seu quê de politicas, e seu quê de economicas, o seu quê de sociaes, o seu quê de philosophicas.

Vejam em quantas questões nebulosas e importantes entesta esta humilde questão de criados.

Transformação completa do viver social e do viver domestico.

D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos justiça, mas n'uma base de muita mais solidez.

Havia o chefe que acolhia á sua vasta sombra, os irmãos, os parentes pobres, os filhos, os servos que eram tambem uma tradição e tambem uma herança.

Quando o chefe morria succedia o filho ou o irmão mais velho, que herdava os irmãos, os tios, os parentes pobres, os servos, todos os haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade.

Os criados entravam ao collo de sua mãe que vinha ser aia, ou varredora, ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou 80 annos no caixão para o cemiterio, deixando na familia nova geração de servos que eram seus filhos.

D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. Só eram demittidos por erro de officio.

Não receiavam o dia de ámanhã, não sentiam a esmagadora indifferença dos superiores a revelar-lhes que na familia eram párias, eram estranhos, eram inimigos.

Não precisavam de se apossar de um segredo, de ameaçar tacitamente com uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo uma mania, para darem solidez e garantia de duração á sua posição dependente e precaria!

Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e custosos pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho, primorosamente entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que umas poucas de gerações se enlaçavam, na cosinha do palacio, ao lume crepitante das fornalhas enormes, reunia-se tambem a familia ainda mais numerosa dos antigos servos.

Eram paes, mães, filhos, ás vezes netos.

Não estavam privados de todas as condições humanas, tinham as suas festas intimas, as suas alegrias, os seus affectos.

O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam, florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim dizer, identificada com a sorte dos amos.

Affeiçoavam-se áquellas paredes, ou áquelles moveis, á senhora que era branda e protectora para elles, ás creanças que tinham ajudado a crear, e que um dia viriam a conceder-lhes a mesma protecção que hoje recebiam dos paes.

Eram maus, interesseiros, crueis ás vezes! Embora! É porque eram homens, e não porque eram servos.

Tinham as qualidades boas ou más da humanidade e não as de uma determinada classe.

D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje.

 

No regimen moderno, a familia tem outra constituição e outros costumes.

As fortunas extremamente divididas já não consentem esse modo de viver opulento e patriarchal.

Os mesmos ricos, que são no fim de contas os grandes financeiros modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam á custa de privações e de trabalho, são egoistas para todos, e particularmente duros para os inferiores.

Na sua opinião os criados são machinas. Umas machinas que vestem casaca, e usam gravata branca.

Exigem d'elles um serviço irreprehensivel, uma obediencia passiva, uma disciplina exemplar.

De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mêdo.

Comprehendem perfeitamente que são rediculos, elles que andaram tanto tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem empurrões e maus tractos dos caixeiros grandes da casa, a curvarem-se humildemente diante dos patrões, dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de potentados.

Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Japão, uns manjares exquisitos que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por mez, lhes impinge traiçoeiramente, sentem-se acanhados diante do olhar frio, do olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que elles no mudo escarneo d'esse olhar, lhes dizem que estão percebendo o seu desastramento, os seus gestos grosseiros, e até a saudade com que recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias da mocidade.

D'esta hostilidade mutua nada bom póde resultar.

Os amos são orgulhosos, cheios de desdem, de indiferença, de duro egoismo; os criados são hypocritamente humildes, são invejosos, e malevolamente escarnecedores.

Só um laço póde ligar estes sêres; a cumplicidade.

De cima não haverá brandura em quanto de baixo não houver subserviencia criminosa.

Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados que andam á mira d'um segredo, d'uma indiscrição, d'uma descoberta qualquer que os faça levantar a cabeça.

No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe é escutado o primeiro recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e só continua apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e de despeito.

Era escrava obediente e muda, hoje é cumplice, o que quer dizer tyranna.

Ao marido em caso identico succede o mesmo.

Moralidade d'esta situação: o criado de hoje triumpha quando seus amos se rebaixam.

 

Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria.

Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma certa promiscuidade que abala o respeito.

Já aqui os criados não são automatos que se movem ao impulso d'uma vontade superior.

Não são mudos, não teem a fria apparencia aristocratica que revela a opulencia da casa em que servem.

Pelo contrario; as criadas estão iniciadas nos pequenos segredos da familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar, desiquilibrada, impostora, não tem aquella dignidade da vida antiga, as criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse viver, julgam-no e escarnecem-o.

Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma alimentação sadia, para a satisfação das necessidades indispensaveis; se a dona da casa desenvolver os seus recursos de economia, conseguir-se-hia sem muito trabalho, no fim do anno, joindre les deux bouts como expressivamente dizem os francezes.

O pae é um funccionario bem collocado, o rendimento se não é grande pelo menos é sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa.

Diante d'este quadro parece-nos que não ha brecha por onde possa penetrar a malicia interesseira da criadagem.

Pois ha, minhas senhoras!

O dono da casa tem um emprego bom, é verdade, mas aspira a subir de posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto em capricho por causa das picuinhas do seu collega da secretaria, o conselheiro Fulano; logo, para attingir este fim desejado é preciso antes de tudo figurar.

Tem de ir aos chás do seu amigo deputado, ás soirées do barão de tal que é muito influente, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu amigo cicrano que é parente do primo da mulher do secretario particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em luxo avariado, em pompa feita de remendinhos.

A mulher, já se entende, não lhe fica atraz!

Podéra!

E ella então que tem de se vingar d'uns chascos que as snr.as Silvas fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que ella trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a D. Leocadia que é mulher d'um commendador seu conhecido; e de quebrar os olhos á prima Ausenda que anda a dizer pelas casas do seu conhecimento «que não sabe onde ella vae buscar para tanto luxo!»

Filhas d'estes paes o que serão as meninas?

Querem vestidos de seda, embora os comprem em segunda mão, querem joias embora sejam falsas, querem botinas de tacão alto, porque as teem visto ás pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de S. e da marqueza de V.; querem apparecer no theatro, querem ir ao Club, querem tomar banhos quando não seja em praia elegante, ao menos na Ericeira; querem reunir á noute uma vez por semana, umas visitas que nunca vão, querem fazer emfim o que por ahi faz toda a gente.

Resultado d'isto, resultado inevitavel.

Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se ás criadas.

A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas humilhações insupportaveis.

As criadas vão á porta receber os credores, e trazem dentro os recados com um sorriso maganão que escapa a todas as reprehensões e a todos os castigos.

Se estão de mau humor resmungam, fazem causa commum com o inimigo, que é no fim de contas o confrade; se estão bem dispostas dão alvitres, inventam e lembram desculpas, lamentam a senhora, etc., etc.

De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e ellas uma intimidade funesta.

Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia esteja bem organisada.

Um dia, as meninas, que teem recebido a educação mais perniciosa e mais falsa, fartam-se d'aquella vida de privações intimas, de balofas apparencias e querem fugir d'ella.

Teem só uma porta: o casamento.

Nas familias pobres da burguezia, o casamento é julgado a porta por onde se sahe da miseria!

Quantas vezes não é elle a porta por onde se entra na desgraça!

Começam então a namorar.

A namorar seja quem fôr. O alferes que passa, o dandy pelintra que encontram nos seus passeios, o litterato pallido e fatal que olhou para ellas da plateia.

Quem é a confidente natural d'este namoro, a auxiliar forçada d'esta intriga ridicula?

A criada!

É ella quem espia a mãe, e quem ajuda a enganal-a; é ella quem entrega e recebe as cartas, é ella quem se farta de rir com a menina, ouvindo contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou!

Quantos perigos, quantas humilhações, quantas vergonhas n'este facto que é hoje trivial e repetidissimo!

A criada só tem a ganhar na execução d'estes misteres.

Ganha indulgencia para as suas proprias faltas, uma advogada que ou por medo ou por sympathia defende a sua causa, e até se tanto fôr preciso se revolta por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a ajude no trabalho!

Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua posição inferior, de desafogar o mau genio, e isto sem perigo de qualidade alguma.

Quando se não dão estes casos que ahi deixamos apontados dão-se outros identicos ou outros similhantes.

 

Da parte dos superiores indifferença profunda, desejo de explorar de todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho, egoismo, desapego.

Da parte dos inferiores, a mesma indifferença creada a pouco e pouco pela incerteza ácerca do dia de ámanhã; desaffeição pronunciada, despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel, em troca do maior salario que poderem alcançar, separação de vida, de interesses, de alegrias, de affectos.

Se entra em casa a doença com todo o seu cortejo de lugubres tristezas, de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saberá ser enfermeira. Fará o serviço, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar um caldo para ir á janella ver quem passa; deixando apagar o lume de noite porque adormecerá inteiramente esquecida dos que soffrem e velam.

E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se salvem.

Hoje está aqui, ámanhã estará n'outra parte!

Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada, sósinha como um cão!

Não dá porque não recebe.

Entre os criados e os amos os interesses são absolutamente oppostos.