Mulheres e Creanças

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 16 de 33

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Mulheres e Creanças

Na volta do baile

«És meu, oh bem amado, pertences-me!»

 

Na volta do baile

 

Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e como que cingem de uma graça ideal os contornos delicados do seu rosto, que o capuz de baile emmoldura em alvas rendas.

Dançou até ás seis da manhã; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos fôfos coxins do seu coupé, mas vem pensando muito.

É que o viu no baile, e lhe disseram que elle seria o seu marido.

O pae antes d'ella partir de casa—vestida de tulle e rendas, coroada de myosotis, e com um collar de perolas lacteas e iriadas, a affagar voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo—o pae, antes d'ella partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em que havia muito affecto:

—Elle é moço, é nobre, é herdeiro de uma casa riquissima.

A familia deseja este enlace. Não te quero forçar, Lili; mas, se gostares d'elle, approvarei com enthusiasmo essa affeição!

—É moço e nobre, pensára Lili comsigo. Hei de amal-o por força. Terá maneiras distinctas, um porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso. E dirá amo-te, com uma graça fina e superior!

Depois, á proporção que o baile se ia approximando, com o esplendor prestigioso dos seus lustres, com o capitoso aroma das suas montanhas de flores, com as prismaticas scintillações dos seus diamantes, com o ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava que era positivamente uma cousa agradabilissima ser rica!

—Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio discreto de admiração que enlouquece as mulheres, terei vestidos de velludo negro, com diademas de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos meus cabellos! Invejar-me-hão, e quando eu sahir acclamada e triumphante das salas em que fôr rainha, deixarei no meu caminho um rasto de admirações apaixonadas!

Vira-o no baile, fallara com elle, tinham dançado juntos.

Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante e enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres que em torno d'elle cubiçassem o seu titulo futuro e a sua riqueza presente.

Apesar d'isso, Lili estava contente.

Era ella que elle preferira, e visto que elle era rico, teria carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original, severo e elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das suas salas, e o feitio dos seus chapéus, seria uma das raras mulheres que sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que ella tem de fastoso e brilhante.

Que importa que elle não saiba dizer amo-te com a voz que Lili tinha sonhado!

A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem hesitação e sem lagrimas as palavras mysteriosas que a mulher pura só deve dizer ao eleito do seu coração, as palavras magicas:

Sou para sempre tua!