Mulheres e Creanças

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 28 de 33

Páginas do PDF

Mulheres e Creanças

Capítulo II

Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fôr vaidade, falso luxo, ostentação ridicula!

A graça das creanças consiste na plena expansão da sua vitalidade; o luxo d'ellas está no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela—aos que sabem ver—as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas, todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos, feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns braços amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso meigo e pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca que só sabe abençoar, uns olhos de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o tepido ninho das suas doces aves implumes.

 

II

 

Por muito tempo todas as attenções do homem se fixaram n'um ponto que se avistava para além da vida terrestre.

Curava-se sómente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vôo para as altas espheras da eterna bemaventurança.

Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da edade média, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de milhares de gerações, nossas predecessoras na vida.

Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a materia, causa de tantos erros e de tão falsas interpretações; foi elle que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a sua mais cruel inimiga, como a sua tentação mais perigosa e abominavel.

D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira poderia provir.

Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as deducções que d'esse ponto de vista resultavam.

O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e humilhação; todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a creança nascida já vinha contaminada do peccado original; a alma, só a alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditações, do nosso mais especial e esmerado cultivo!

Quantos erros de educação, de moralidade e de hygiene!

Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não excitava!

Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade?

Pelo contrario!

Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas!

O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma das suas chagas abertas.

A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um coração dilacerado.

Os fanaticos mostravam á admiração das turbas os estygmas sangrentos das suas carnes palpitantes.

Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem, os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com feições diversas e caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e mais chã.

A resurreição da carne era um dos pontos fundamentaes do dogma catholico. O espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais material do que a sciencia de hoje.

—Para que aperfeiçoarmos e amenisarmos a vida,—diziam do alto dos seus pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades d'essas éras tão hostis para o homem.—Quanto maiores supplicios houvermos padecido n'este momento rapido, maior quinhão de gloria tem para nós a eternidade. Sofframos todas as humilhações mais abjectas, curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes devorem o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como Job na sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos cá em baixo, serão os primeiros no céu!

E a humanidade, ébria de um sonho de beatitude immortal, perdia a força para combater, e esperava passivamente a resurreição esplendida que os illuminados lhe promettiam!

Oh! quanto devemos á robustez de espirito, á fé fecunda e creadora que moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo estagnador!

Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje illumina até os mais ignorantes, dos bens que hoje desfructam até os mais desgraçados.

Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se não fossem esses benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro, é o problema da educação.

 

Segundo o ponto de vista da edade média, a mãe não devia attender senão á alma de seu filho.

Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes só se fazia um bandido.

E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de que se usava eram inteiramente contraproducentes.

Hoje a mãe já não tem desculpa nem da sua ignorancia propria, nem da ignorancia da sua época.

Se não sabe é porque não quer saber.

O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as gerações que vão seguir-se-lhe melhores do que as gerações que o precederam.

Está pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo.

Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que é da saude do corpo que depende a saude da alma, e que os maus são quasi sempre os enfermos ou os defeituosos.

O caminho das boas mães está naturalmente traçado.

Não poupar esforços para aperfeiçoar e robustecer o corpinho querido, dentro do qual está crescendo e desabrochando a flôr maravilhosa, a flôr delicadissima, que é a alma infantil.

Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser mãe.

Não a póde haver mais seria e mais tremenda.

Desde que a creança nasce até ao segundo periodo da sua vida, em que ella já começa a ser susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos, engenhosos, delicados e constantes!

Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creança está no banho, um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudança de habitos, qualquer pequena cousa que á primeira vista parece insignificante, póde ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho.

Sabemos de uma creança que ficou cega, porque estabeleceram uma corrente de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido.

Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente, que nunca pôde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a tornou rachitica uma quéda que a fizeram dar brincando com ella em pequena.

Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanças ao ar, fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro.

Quem póde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi resultam!

A creança é tudo que ha de mais fragil e de mais delicado.

Pensem bem todas as mães que um erro de hygiene póde ás vezes fazer de uma indole pacifica uma indole perversa.

A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo, estão hoje para todos os olhos tão estreitamente unidos, tão profundamente identificados, que não ha abalo ou sensação que um experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo.

Pensam muitas mães que o melhor meio de emendarem os erros de seus filhos, são os ralhos repetidos e os castigos severos.

Engano perfeito!

O unico meio de educação verdadeiramente proficuo é o exemplo.

Que encargo de almas não assume a mulher que quizer ser boa mãe!

A mais doce e a mais tocante relação reciproca que existe entre a mãe e o filho, é aquella em virtude da qual a mãe educando-se educa, e o filho sendo ensinado ensina.

Emquanto ensinamos os nossos filhos, a nós proprias nos estamos illustrando.

Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as inocularmos no coração, como que se nos vão lentamente revelando todas as bellezas incomparaveis d'este mundo moral, de cuja contemplação andavamos, senão alheiadas, ao menos distrahidas.

Oh! de quantos rasgos bons não é origem para a mãe, o receio de vêr traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho.

E depois é necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta verdade tão simples e tão lucida.

O exemplo, é que ensina, guia e robustece a alma e educa o espirito.

Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do caracter, se ella não provar com o seu exemplo de todos os dias a divina graça d'estas qualidades e d'estes usos?

A creança obedecerá talvez, mas sem convencimento e sem alma!

Para que todas as bençãos de Deus chovam sobre a cabeça das que sabem ser boas mães, nem esta benção suprema lhes faltou.

Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, perdem defeitos e ganham virtudes.

A educação bem comprehendida é tão util á mãe como á creança.

 

Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e perspicaz entendimento.

Tem habitos inveterados de preguiça, tem horas desoladoras de tedio e de morbida melancolia. O tempo para ella é pesado e longo.

Vive, não gosando as horas porém matando-as como póde.

Não se occupa, não reage contra o seu natural e funesto prostramento, não tem um fim util e querido para o qual viva.

Um dia esta creatura infeliz é mãe!

Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e como no fim de contas é intelligente e boa, quer cumprir dignamente a sua sagrada missão.

Como é milagrosa e abençoada a influencia que n'este caso a creança innocente exerce no caracter de sua mãe.

Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os inuteis desalentos! É preciso que ella ensine a viver á fragil creaturinha que Deus confiou aos seus braços.

Quantas d'estas redempções se não devem á infancia! Quantas vezes a mão inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos não tem redimido os erros de seus paes!

 

Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que lêmos ha muitos annos, e cuja idéa é esta.

Duas desgraçadas creaturas, d'estas que a miseria prende ás vezes mutuamente por ephemeros laços, arrastavam juntas uma vida angustiada e degradante.

Ella sem coragem, sem aceio, sem actividade, sem aquella força que ao mais negro albergue póde dar a mysteriosa graça dos ninhos; elle, ocioso, cruel, covarde diante da desgraça e diante do trabalho, ébrio ás vezes, d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho.

Porque se conservaram unidos?

Nem elles proprios o sabiam.

Poder do habito, abjecto marasmo das supremas degradações.

Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma creança.

Não se admirem.

Tambem ás vezes das podridões de uma sepultura desabrocha uma rosa de maio.

Quando á noite o homem voltou de suas divagações sem rumo, a pobre mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe espantada:

—Porque me não bates? porque me não ralhas? quem é que suspendeu o insulto da tua bocca, e os golpes dos teus braços?

E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um enternecimento desconhecido na voz rouca:

—Tenho medo de acordar o pequenino.

—J'ai peur de réveiller l'enfant.

Oh! creanças, creanças, como isto revela bem o poder divino que é tão vosso!

 

Tenho fallado muito ás mães n'este assumpto.

Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma á educação dos seus filhos!

É que não ha creanças más, como não ha homens perversos.

Ha creanças mal educadas e ha homens pervertidos.

Na educação que as creanças recebem dominam ainda perigosos preconceitos, e dizemos perigosos, por que n'este grave assumpto todo o erro é um perigo.

Apontemos alguns.

Toda a mãe ambiciona possuir um filho modelo.

Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos classicos, que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a travessura dos outros, que nunca se esquece das lições, que é emfim um prodigio que todas as mães invejam, e apontam como ideal a seus filhos menos privilegiados.

Esta classe de creanças póde dizer-se que é a unica verdadeiramente antipathica.

Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam meninos modelos.

Para evitar este resultado, é preciso não dar excessiva attenção ás graças naturaes da creança, não a louvar de modo que ella ouça, não a forçar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe plena liberdade de movimentos e de impulsos.

Se a creança tem demasiada propensão para os estudos mais proprios de outra edade, cumpre distrahil-a, pôl-a em contacto com a natureza, ensinal-a a comprehender a alma das cousas.

Nada melhor para desenvolver o espirito e o coração das creanças do que a vida no campo.

Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que desperta sans curiosidades no entendimento infantil.

Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe um animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeiçoe.

Ás vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no chão, ou em qualquer movel da casa, vemos com indifferença a criada que o trata bater tambem, fingindo-se muito zangada, no objecto que sem

 

culpa nem consciencia é a causa da magoa que afflige o nosso pequeno amor.

Este velho costume das aias e das mães pouco atiladas, é um erro.

Torna a creança absurdamente vingativa.

D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, não vae nada.

De cada idéa falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o germen de um vicio ou de um defeito.

Quantas mães eu não tenho ouvido dizer: Meu filho é tão teimoso! Meu filho é tão guloso! Ou tão tagarella, ou tão curioso!—ou tão colerico!

Mães, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje é planta damninha e venenosa.

 

Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia forçada, a cólera instinctiva, com os castigos implacaveis, é pessima tactica.

O meio de levar uma creança a esquecer-se de que teimava, é distrahir-lhe a attenção para assumpto muito diverso d'aquelle que a absorvia.