Mulheres e Creanças

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 26 de 33

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Mulheres e Creanças

Capítulo II

A unica circumstancia que póde alterar esta situação reciproca: a cumplicidade.

Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as excepções se vão tornando dia a dia mais raras?

A culpa é de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio.

Procuremos apontal-o.

No que respeita aos amos cumpre:

Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca seja para elles uma humilhação.

Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo respeito de nós mesmos e dos outros, para que o nosso exemplo levante ainda os que estão mais baixo.

Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de alguem, para que sobre nós nunca possam exercer-se influencias funestas.

Que não exploremos a actividade dos pobres, para que os pobres não tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e já que é indispensavel crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos os recursos da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto e efficaz remedio a todos os males que são por assim dizer o privilegio especial d'essa classe.

 

II

No capitulo anterior, tractando d'esta questão, tentámos apresentar as causas que determinam e aggravam a decadencia e desmoralisação dos criados modernos.

Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte:

É tão precaria, tão falta de garantias, tão exposta a continuas alterações a sorte dos criados, que para ella só descem os que n'outra esphera não poderiam achar collocação que lhes dê a subsistencia.

Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas acceitam este modo de vida, são ainda mais desgraçados do que os maus, porque são mais explorados.

Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente.

Estamos, pois, em face d'este dilemma.

Ou havemos de não ter criados, ou havemos de os ter maus.

É verdade que fomos nós que voluntaria ou involuntariamente os corrompemos e estragámos.

Concedo.

Agora, porém, não se tracta d'isso.

Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de o modificar.

Primeira necessidade imprescindivel: é preciso educarmos os nossos futuros criados.

Mas como?

Creando para isso instituições especiaes, ou modificando a indole das que já existem.

Tractemos antes de tudo das mulheres.

Estão por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim é, as instituições de caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de iniciativa do Estado.

O que é que n'esses asylos se aprende, salvo excepções possiveis, mas que não chegaram ainda ao nosso conhecimento?

Aprende-se em primeiro lugar o que hoje é indispensavel para toda e qualquer situação, por mais humilde que seja; aprende-se a ler, escrever, contar, coser e marcar.

Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar orgão ou harmonium; ha alguns onde se aprende grammatica, historia, geographia, etc., etc.

Muito bem.

Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos.

Serão mestras regias, serão talvez caixeiras de alguma pequena loja, serão mesmo professoras particulares se houverem progredido no estudo e adquirido uma instituição mais solida e mais proficua.

Que fazemos das outras noventa?

Imaginemos que cincoenta casaram muito moças.

Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba á desamparada solidão que estava á espera d'ellas e que as leva para o seu pobre albergue desguarnecido e miseravel.

Dos conhecimentos que adquiriram na educação dada pelo asylo quaes aproveitarão, quaes applicarão á sua felicidade, ao seu bem estar domestico?

Com que trabalho poderão auxiliar o trabalho do marido, insufficiente para acudir a todas as necessidades do ménage?

Que officio aprenderam a exercer?

Dão as voltas de casa, varrem, limpam o pó, cosinham, mas fazem tudo isto mal.

Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima d'estes misteres tão humildes.

Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida pobre mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a abnegação, a boa vontade, e, em muitas das horas que ficam vagas, exercer qualquer pequena industria que ajude o marido, banir de casa a tagarellice das visinhas, viver só com o seu homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no trabalho fecundo, isso que é de certo o ideal, quem é que lh'o ensinou a praticar?

Deixemos, porém, essas cujo destino agora não precisamos de apreciar e voltemos para as que ficam.

Sahem do asylo, vão umas servir, outras vão ser costureiras, vendedeiras, etc., etc.

Umas são as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi vemos atravessar as ruas, apregoando hortaliças, ou fructa, outras as pallidas e anemicas creanças, de cuia postiça, chapeu de aba revirada, polonaise phenomenal, bota de tacão alto e cambada, que encontramos á noutinha ou de manhã cedo, indo para casa das modistas, ou voltando de lá.

As outras quem as não conhece, ao menos por ter ouvido fallar d'ellas?

São as criadas de hoje, ou serão as criadas de ámanhã.

A educação que lhes deram está em contraposição perfeita com a tarefa que teem de cumprir.

Uma que foi apresentada para cosinheira, não tem as minimas noções culinarias, mas em compensação lê correctamente os jornaes que veem de manhã.

Outra, cuja obrigação é engommar, não tem geito senão para bordar de matiz.

Algumas, menos favorecidas da intelligencia, não sabem o que aprenderam, nem aprenderam aquillo que fazem.

São as mais vulgares!

Porque é pois que se não dá ás raparigas do povo, ao menos ás que são educadas nos asylos de beneficencia, uma educação em harmonia com o seu futuro papel?

Não reprovamos de certo a leitura, a ortographia, uns elementos de arithmetica, mas o que reprovamos é que haja uma uniformidade absoluta na educação que se ministra a tantas e tantas creanças de indoles diversas, de intelligencias diversissimas.

Aquellas que tivessem disposições para um genero de trabalhos mais levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente destinada para as filhas do povo que até aos 12 annos tivessem dado manifestações inequivocas de claro e perspicaz entendimento.

Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas.

Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma conforme a sua vocação ensinassem as linguas, a musica, a pintura em porcellana, a grammatica, a geographia, a contabilidade, etc., etc.

A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela bolsa particular, iriam as mães de familia procurar professoras portuguezas para as suas filhas, professoras cuja educação fosse completa, e cuja moralidade podesse ser affiançada.

Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de comprehenderem o grande alcance d'esta innovação, iriam tambem buscar a essa casa raparigas honestas, que elles podessem sentar á mesa ao lado de suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu estabelecimento.

Os fabricantes de louças e outros industriaes achariam na intelligencia e na prompta comprehensão feminina grande auxilio, e auxilio mais economico.

Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria, n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que requerem não só engenho, mas tambem habilidade manual.

Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente.

Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer.

A disciplina escolar, a instrucção elementar recebida, a aprendizagem methodica, affirmava-lhes a sua superioridade enorme sobre as outras.

 

Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma applicação difficil.

Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir.

Mas que educação precisa uma criada?

Ora essa!

Uma criada precisa uma educação tão cuidadosa como uma duqueza.

A differença consiste unicamente n'isto:

Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para duqueza.

No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na escolha das mestras.

Antes de tudo uma moralidade austera.

Depois no que toca á parte technica da educação, officinas distinctas onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os serviços que mais tarde tivesse a cumprir.

Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene. Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais adiantados. Outras onde se lavasse roupa de lã, e roupa de linho e algodão.

Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creança, e fatos de senhora.

Não se attenderia aqui como no atelier das modistas do asylo superior, aos caprichos da moda, mas unicamente á commodidade, ao bom gosto e á hygiene.

Outras ainda onde se cozesse á machina.

Haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a varrer, a limpar o pó, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o á moda franceza, a deitar bem rêdes, a fazer meias, a cerzir panno, etc., etc.

Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez.

As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado ás suas discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente de muita qualidade eram forçadas a ter, além da honestidade commum a todas as mulheres honestas, uma honestidade particular da sua classe, uma honestidade composta de elementos muito variados.

Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de resistir ás más tentações, de ser fiel, de ser boa companheira, de ser laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas obrigações.

N'este asylo ainda haveria subdivisões necessarias.

As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a elle de preferencia, não desprezando porém os outros.

Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria egualmente todos os elementos que houvessem de constituir a sua educação.

Ser criada não é—entenda-se bem—nem uma vergonha nem um pis aller; ser criada é um officio, ás vezes mais complicado que os outros, porque comprehende muitos.

A unica differença é que se póde ser uma boa criada não sendo excessivamente intelligente, e que as qualidades aqui indispensaveis são robustez, destreza de mãos, fidelidade, amor de trabalho.

 

Não se diga que isto é uma utopia impossivel.

No estado de adiantamento a que chegou entre nós o principio de associação applicado á beneficencia, nada mais facil do que organisar por este modo os asylos do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz.

Não augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria necessariamente a educação popular.

Reunidas debaixo de uma direcção geral, todas as casas de Beneficencia de uma cidade, passaria esta não a crear asylos novos, mas a modificar a indole dos que existem.

Estabelecer-se-hia uma especie de gradação natural.

Em baixo a casa que recebesse sem distincçao todas as creanças de 4 a 10 annos que estivessem no caso de serem admittidas.

Alli, sob a direcção de professores intelligentes, e de directoras de espirito cultivado, far-se-hia aos 12 annos de edade a escolha.

Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.ª classe, outras para o asylo profissional de 2.ª classe, a terceira para o asylo das criadas futuras.

Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que grangeassem um salario por mesquinho que fosse.

Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central.

Este plano, como se vê, não é mais que um plano embryonario, o germen d'uma idéa que se nos affigura util e praticavel.

Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se entenderem que o merece.

 

Quanto a nós, acreditamos piamente que só então começariamos a ter criadas.

As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos não compete agora explicar.

Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam preferidas a todas que as não tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia ás criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos.

As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as não deslustrasse.

As outras ficariam com as que teem hoje.

Não merecem mais.

 

Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida.

Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um pequeno contingente para a classe dos criados.

Seria um bem.

Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa sempre um luxo!

Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros envenadores e infieis?

Estes serviços tão faceis não podem ser feitos por mulheres?

Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio de pobreza, ou de habitos plebeus.

No fim de contas tudo isto não passa de convenção!

 

Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas pequeninas questões de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua.

Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento progressivo, o rapido desenvolvimento das instituições de caridade.

Não é o dinheiro que falta, porque entre nós quando se falla na miseria, a caridade nunca faltou; o que falta é uma direcção boa.

A rotina n'isto como em tudo é funestissima.

A nossa caridade official dá pão e vestuario ás creanças, mas que faz em favor das mulheres?

Dando-lhes uma educação que não está em harmonia com os seus meios futuros, condemna-as á miseria, á desgraça, quantas vezes á ociosidade e á ignominia?

A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguiça!

Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e á sociedade.