Mulheres e Creanças

Maria Amália Vaz de Carvalho · Capítulo 29 de 33

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Mulheres e Creanças

Capítulo III

Quando uma creança é exageradamente gulosa, o meio de a emendar é leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a córar d'elle diante de si propria.

Nas cóleras a que todas as creanças são mais ou menos sujeitas, o remedio mais efficaz é uma brandura magoada.

Que a mãe deixe ver que os erros de seu filho a não enfurecem, mas a fazem soffrer muito.

A creança ficará desarmada e moralisada.

Para ella a revelação subita de que foi causa de grande amargura para aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar da consciencia e ao pungir do seu primeiro espinho!

Usemos na educação dos meios puramente moraes, e não das degradantes correcções physicas.

Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creança, e a impressionabilidade do seu ser moral.

Que ella conheça sempre o mal e o bem, não pelos inconvenientes ou vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas pelo que ellas valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma inclue em si, e pela essencia superior de que a outra é feita.

 

III

 

N'este delicioso e querido assumpto da educação infantil tudo está dito, e tudo está ainda por dizer.

As regras geraes teem forçosamente de ser modificadas na sua applicação a casos particulares; nenhuma creança existe no mundo que seja absolutamente egual a outra creança; é ao espirito da mãe que pertence o gravissimo e delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas.

O que é, pois, necessario antes de tudo, é levar as mães a pensarem profundamente n'estas altas questões, e a estudarem com pertinaz paciencia o caracter das creanças cujos destinos teem de dirigir.

Conhecemos uma senhora, aliás muito boa e muito dedicada, que, tendo cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema.

Resultado inevitavel e fatal:

As creanças são todas deploravelmente educadas.

Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a educação da creança, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras.

Intitula-se—Nos filles et nos fils, e contém uma serie de scenas e estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o coração e o entendimento das mães em certos momentos criticos da sua difficil missão.

Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das creanças e dos criados, da intimidade forçada e muitas vezes perigosa que entre elles se estabelece, e dos resultados nocivos que d'essas relações resultam para a educação.

Legouvé leu este trecho na Academia Franceza; por aqui se reconhece a sua importancia, a maneira superior por que foi tratado.

Muitas mães desattendem na educação dos seus filhos a questão gravissima dos criados.

Deixam que as creanças vivam n'um contacto muito intimo com gente de tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem eivada de erros, de conversação baixa e degradante.

Quantas mães eu não tenho ouvido dizer ás suas filhinhas de quatro, cinco e oito annos:—Vae lá para dentro; deixa-me conversar?!

Imaginam ellas que para a creança nenhuma consequencia má póde provir da sua intimidade com as criadas.

Enganam-se.

Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte integrante da familia, nasciam e morriam na casa, não havia perigo em que as creanças estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e brincassem.

O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas de educação elevada, fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se não devia macular nem de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados.

Hoje, infelizmente, como já o dissemos, esse modo de comprehender a vida de familia, modificou-se completamente.

Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade incrivel; não criam raizes em parte alguma, e este viver de párias no meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu, desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade.

Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe.

Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e sem remorso.

De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as anecdotas mais intimas, os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam tudo isto, uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de apreciações e de commentarios.

Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz vicio.

Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que ha sempre na alma do povo, dão um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por força a curiosidade da creança.

Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a beberem essa deploravel sciencia!

E não se diga que a creança não entende!

A creança tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um extraordinario grau!

A creança entende quasi tudo, e d'aquillo que não entende guarda a memoria até á edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado.

Não levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creança, deve ser um dos maiores cuidados da mãe.

Mas dir-me-hão: as pessoas crescidas conversam por força em mil assumptos melindrosos; se realmente as creanças percebem, como evitar que ouçam?

É n'isso positivamente que está o mal.

Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente dos seus deveres de mãe, deve haver o maximo escrupulo na escolha das diversas conversações.

Assim como ha limpeza nas habitações, porque não haverá limpeza nos espiritos?

Não ha tantos assumptos attrahentes de conversação?

Será absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar indiscretamente mysterios alheios?

Não quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de palavras, que degenerará por força em hypocrisia; mas entre esse excesso ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanças, creio que ha um meio termo que seria facil de adoptar.

E depois, seja dito com toda a coragem: ou se é mãe no sentido completo e absoluto d'esta palavra ou se é mulher do mundo.

Ou nos havemos de consagrar á companhia dos nossos filhos, á sua educação, ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, á vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar.

 

Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve é a vaidade.

A pequenita de tres annos já começa a ter orgulho e presumpção no seu vestidinho bordado, nas suas saias de folhos, no seu chapéu vistoso e garrido.

Todos se riem da gracinha.

—Meu anjinho! Como é presumida! Diz a mãe toda enlevada. E gaba-a muito.—Estás linda! a minha filha é muito bonita. Fica-lhe tão bem este vestido!

Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo é um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites luxuosos, de ambições extravagantes, sonhando com um noivo muito rico que lhe sacie todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, quando os homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu intimo a desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem é a culpa, digam-no sinceramente?

A culpa é de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor funesto, tão natural á mulher, e que só á custa de muita reflexão ella consegue vencer.

A culpa é da mãe, que teve orgulho dos defeitos da sua filha, em vez de lidar por transformal-os em virtudes.

A mulher é vaidosa? Pois bem! se não podemos destruir esse vicio organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva.

Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, instruida e forte.

Façamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que é bem mais difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo; que é muito mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapéu de plumas.

Isto não é mais do que indicar o caminho.

Não ha mãe cujo instincto a não advirta de que estamos fallando verdade.

Até a escolha da boneca é uma cousa importante!

 

Uma boneca esplendidamente vestida, de chapéu com flores, de luvas e cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois uma certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa desdem e antipathia.

Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella não deu a todas nós! Comparavel á alegria da primeira boneca, só a alegria do primeiro filho!

É a mesma hesitação em lhe tocarmos com medo que ella se quebre! o mesmo susto! a mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto namorado e feliz!

A mãe intelligente comprehende e sabe aproveitar isto.

A boneca é como a aprendizagem da maternidade!

—Está nua, coitadinha, está nua a tua boneca, Lili. Que frio que ella deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de te vêr tão bem vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao pé de mim, Lili, vamos nós fazer o fatinho da tua boneca!

E como o coração é que sempre domina e guia a mulher, eis o coração fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser a traquinas, a turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio.

O sacrificio por uma boneca!

Sim, o sacrificio, e porque não?

Só quem não é mãe e quem nunca foi creança é que escarnecerá da expressão que empregamos.

Pois não sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua nos braços, e que se veste, que se calça, que se conchega, que se adormece entre beijos e affagos, é o primeiro sonho de um coração de mãe?

 

As amigas das nossas filhas!

Grave e momentoso assumpto, não raro descurado e de cujo esquecimento ou de cujo desleixo resultam ás vezes damnos irremediaveis.

No collegio é que se travam quasi sempre as primeiras amizades. Ora, nós para as meninas desadoramos o collegio.

Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo.

Quem é que nos responde pela boa escolha de relações que alli adquirem nossas filhas?

Quem nos diz que essas creanças todas que alli se reunem, e que entre si trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, só viram bons exemplos, só conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade?

Pois nenhuma d'ellas trará comsigo aquella funesta curiosidade, que perdeu a nossa primeira mãe?

Todas são innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou de corrosivo?

Quem nos affirma que ellas saberão ser boas e honestas companheiras, que não lançarão com uma palavra imprudente um germen venenoso, que não corromperão com precoce perversidade o espirito da creança innocente, que n'ellas se confiar?

As amigas das nossas filhas são aquellas de quem logo depois de nós depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas!

É de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa, sem escolha e sem criterio, a companhia de outra creança.

Cumpre conhecer bem a mãe, a educação que ella dá aos seus filhos, o modo porque vivem, o caracter, a moralidade d'essa familia.

E que as mães, n'este ponto, se não prendam com preoccupações de banal delicadeza. Primeiro que tudo está o futuro das suas filhas.

Se a educação de um rapaz é já difficilima, que será a educação de uma menina?

Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas contrariedades em meio do caminho!

Que a mãe procure ser a melhor amiga de sua filha, e que esta não receie confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis, nem as mysteriosas comoções da sua alma adolescente.

N'esta deploravel educação que hoje se dá e se recebe, a primeira cousa de que os filhos tratam é de enganar os paes.

De que provém isto? Da mal entendida severidade d'estes.

A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a creança para se confiar sem medo ao coração que a sabe entender e lhe sabe perdoar.

Mas é muito delicado este ponto da missão maternal.

Se o excesso da severidade cria a desconfiança e a mentira, o excesso da indulgencia cria o cynismo e a desvergonha.

Que difficil não é para um espirito de mãe saber ao mesmo tempo attrahir a confiança e impôr o respeito!

Levar o filho que peccou a confessar a culpa, não por ter a certeza de que será facilmente perdoado, mas por lhe exigir a consciencia que não esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mão delicada e firme repôr no caminho direito o ente fragil que se transviou.

No dia em que a mãe tiver alcançado do coração de sua filha ou de seu filho esta singular conquista de veneração e de amor, póde sentir-se tranquilla e satisfeita, póde sem medo responder pelo futuro.

 

Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou ás nossas mãos.

Como verão, pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu casamento foi dirigida á sua filha por uma extremosa mãe.

Explica muito melhor do que nós o podemos fazer o triumpho de um bom coração maternal.

«Não tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente.

Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detésto acima de tudo os enternecimentos intempestivos.

Depois, teria pejo, eu, tua mãe, eu que julgo ter concorrido pelos cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra—quer dizer, da tua educação—teria pejo de te encher de louvores que embora justos, recahiriam um pouco sobre mim.

Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito boa vontade, á companhia dos indifferentes e dos frivolos, que só viriam destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforços, tão santamente abençoados por Deus!

Com que saudades eu me lembro dos serões de outro tempo, em que tu já serena, grave e modesta como és hoje, lias ao pé de mim, emquanto os nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas sãs, em cousas simples, das que não podem ferir os ouvidos de uma menina!

Não te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que virão de certo abençoar e consagrar o teu casamento; mas peço-te que sejas escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na sagrada intimidade do teu lar.

Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons. Não te quiz beata, nem espirito forte; não desejei que fosses uma metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher só de sala, nem mulher exclusivamente do ménage.

O ideal, minha filha, é que de tudo se saiba ser um pouco.

Gostarei que recebas com graça senhoril na tua saleta de todos os dias, artistica e confortavel, mas não desejarei menos que saibas ensinar a tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o fato de teus filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza.

Não quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito bem.

Se foi egoismo, Deus não me castigou por elle, porque devi a essa precaução, por ventura excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos.

Ámanhã já não serás minha, querido encanto; nem já serão os meus beijos os unicos que a tua pura testa de vinte annos receberá! Mas n'esta saudade dilacerante que me punge, quantas compensações supremas eu não encontro!

Entrego-te ao teu noivo, tão candida, tão ignorante do mal como deviam ser todas as creanças da tua edade, que tivessem mãe, que só n'ellas pensasse e só por ellas vivesse!

Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um espectaculo ignobil.

Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia!

De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos!

Ignoram as alegrias profundas de ser mãe, como eu fui, como tu serás, minha joia!

Não ha na tua alma um pensamento, uma idéa, uma saudade, que eu não conheça, e se ámanhã quizer folhear diante de teu marido o livro radioso da tua infancia e da tua adolescencia, não haveria n'elle uma só pagina que eu lhe não podesse repetir de cór.

Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para me consolar de todas as minhas saudades!

É bem pezada n'este mundo a cruz das boas mães, mas não te esqueças nunca, minha filha, que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas, eu confesso bem alto, não ha rosas mais frescas, mais puras e mais orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaçam essa cruz!