O Guardião

Dean R. Koontz · Capítulo 3 de 8 · parte 2/2

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O Guardião

Laura Shane, dos 12 aos 17 anos,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

As conversas no refeitório eram conduzidas em voz baixa porque monitores adultos controlavam a refeição das crianças. A conselheira residente do terceiro andar, srta. Keist, passou pela mesa de Laura e das gêmeas e Thelma cochichou:

— Gestapo.

Quando a conselheira se afastou, Ruth disse:

— A sra. Bowmaine é bem-intencionada, só que não é boa para esse trabalho. Se tivesse se interessado em conhecer você, Laura, não ia pensar que era capaz de cometer suicídio. Você é uma sobrevivente.

Empurrando a comida horrível de um lado para o outro do prato, Thelma disse:

— Uma vez pegaram Tammy Hinsen no banheiro com um paco te de lâminas, tentando arranjar coragem para cortar os pulsos.

De repente Laura percebeu todo o misto de humor e tragédia, de absurdo e realismo que formava o padrão da vida no Mcllroy. Num momento estavam brincando e rindo; logo depois discutiam as tendências suicidas de garotas que conheciam. Compreendeu que era uma compreensão da vida além da sua idade e resolveu anotar essas novas observações no caderno que tinha começado recentemente.

Ruth conseguiu engolir toda a comida do prato. Disse:

— Um mês depois do incidente com as lâminas, fizeram uma revista de surpresa nos quartos, procurando objetos perigosos. Encontraram fósforos e uma lata de fluido para isqueiro entre as coisas de Tammy. Ela pretendia ir para o chuveiro, derramar o fluido no corpo e acender um fósforo.

— Oh, meu Deus! — Laura pensou na garotinha loura e magra, de rosto pálido e olheiras escuras, e era como se o plano de se imolar daquele modo fosse apenas o desejo de acelerar a chama lenta que há tanto tempo a consumia de dentro para fora.

— Eles a mandaram para terapia intensiva durante meses — disse Ruth.

— Quando voltou — explicou Thelma —, os adultos comentavam o quanto tinha melhorado, mas para mim e para Ruth, Tammy parece a mesma.

Dez minutos depois da verificação feita nos quartos pela srta. Keist, Laura saiu da cama. O corredor deserto do terceiro andar estava iluminado apenas por três lâmpadas fracas de segurança. De pijama, carregando o travesseiro e o cobertor, correu descalça para o quarto das gêmeas.

Só a lâmpada ao lado da cama de Ruth estava acesa. Ela sussurrou:

— Laura, você dorme na minha cama. Já arrumei um lugar para mim no chão.

— Pois então desarrume e volte para a cama — disse Laura.

Dobrou o cobertor várias vezes e o colocou no chão perto da cama de Ruth. Depois deitou com seu travesseiro.

Rebecca Bogner disse:

— Nós todas vamos arranjar encrenca por causa disto.

— O que acha que podem fazer? — perguntou Ruth. — Amarrar a gente no pátio dos fundos, passar mel e nos deixar para as formigas?

Tammy estava dormindo, ou fingindo que dormia. Ruth apagou a luz e elas se acomodaram no escuro. A porta se abriu e a luz central do quarto foi acesa. Com um roupão vermelho e uma expressão furiosa, a srta. Keist entrou.

— Muito bem! Laura, o que está fazendo aqui?

Rebecca Bogner gemeu:

— Eu disse que ia dar encrenca.

— Volte já para seu quarto, mocinha.

A rapidez do aparecimento da srta. Keist era suspeita e Laura olhou para Tammy Hinsen. A garota loura não estava mais fingindo que dormia. Apoiada num cotovelo, sorria. Evidentemente tinha resolvido ajudar o Enguia, talvez na esperança de recuperar o lugar de favorita.

A srta. Keist acompanhou Laura até o quarto dela. Laura deitou na cama e a encarregada observou-a por um momento.

— Está quente. Vou abrir a janela. — Voltou para perto da cama e olhou para a menina com ar pensativo. — Quer me contar alguma coisa? O que há de errado?

Laura pensou em contar tudo a respeito do Enguia. Mas, e se a srta. Keist tentasse surpreender o homem e ele não aparecesse? Laura nunca mais poderia acusá-lo porque teria uma história de acusação falsa; ninguém ia acreditar. E então, mesmo que Sheener a violentasse, nada mais poderia fazer.

— Não, está tudo bem — disse ela.

— Thelma é segura demais para a idade, tão cheia de falsa maturidade. Se você fizer outra vez a bobagem de violar os regulamentos só para uma noite de conversa com suas amigas, escolha alguém que valha o risco.

— Sim, senhora — concordou Laura, só para se livrar da mulher, já arrependida de ter acreditado por um momento na preocupação real da conselheira.

Depois que a srta. Keist saiu, Laura não fugiu do quarto. Ficou deitada no escuro, certa de que haveria outra verificação dentro de meia hora. Sem dúvida o Enguia não ia aparecer antes da meia-noite, e eram só dez horas; portanto, entre a próxima visita da srta. Keist e a chegada de Sheener, teria muito tempo para procurar um lugar seguro.

Longe, muito longe, o trovão ribombou na noite. Laura sentou na cama. Seu guardião! Jogou para longe as cobertas e foi até a janela. Não viu nenhum relâmpago. O ribombo distante emudeceu. Talvez não fosse trovão. Esperou uns dez minutos, mas nada aconteceu. Desapontada, voltou para a cama.

Logo depois das dez e meia, alguém girou a maçaneta da porta. Laura fechou os olhos, abriu a boca, fingiu que estava dormindo.

Um vulto entrou mansamente no quarto e parou ao lado da cama.

Laura respirou lenta e ritmadamente, mas seu coração estava disparado.

Era Sheener. Laura sabia que era ele. Oh, Deus, tinha esquecido que o homem era louco, imprevisível e agora ali estava ele, muito antes do que ela esperava, e devia estar preparando a seringa com a droga. Ia pôr Laura dentro de um saco e levá-la para longe como um Papai Noel insano que roubava crianças em vez de deixar presentes.

Ouviu o tique-taque do relógio. A brisa fresca balançou as cortinas.

Finalmente o vulto afastou-se. A porta se fechou.

Era a srta. Keist.

Tremendo violentamente, Laura levantou e vestiu o roupão. Dobrou o cobertor e saiu com ele no braço, sem chinelo porque descalça não faria tanto barulho.

Não podia voltar ao quarto das gêmeas. Foi para a escada da ala norte, abriu a porta cautelosamente e entrou no patamar pouco iluminado. Aguçou o ouvido para ver se percebia os passos do Enguia, lá embaixo. Desceu com medo de encontrar Sheener, mas chegou a salvo ao andar térreo.

Tremendo de frio, com os pés descalços nas lajotas geladas, refugiou-se na sala de jogos. Não acendeu as luzes, guiando-se pela luz fantasmagórica das lâmpadas da rua que entrava pela janela desenhando contornos prateados nos móveis. Passou pelas cadeiras e mesa de jogo e arrumou o cobertor no chão atrás do sofá.

Dormiu agitada, acordando repetidamente de pesadelos. A velha casa era cheia de ruídos sinistros à noite: o estalar do assoalho no andar de cima, o ruído surdo do encanamento antigo.

 

8

Slefan apagou todas as luzes e esperou no quarto mobiliado para uma criança. Às três e meia da manhã ouviu Sheener chegando. Silenciosamente colocou-se atrás da porta do quarto. Sheener entrou, acendeu a luz e foi direto para o colchão estreito. Fez um som estranho enquanto atravessava o quarto, um misto de suspiro e ganido de animal que escapa do mundo hostil para a segurança da sua toca.

Stefan fechou a porta, e Sheener voltou-se rapidamente, chocado com a invasão do seu ninho.

— Quem... quem é você? Que diabo está fazendo aqui?

Dentro do Chevrolet estacionado no outro lado da rua, Kokoschka viu Stefan sair da casa de Willy Sheener. Esperou dez minutos, saiu do carro, deu uma volta na casa, encontrou a porta dos fundos aberta e entrou cautelosamente.

Encontrou Sheener num quarto de criança, espancado e ainda coberto de sangue. O cheiro de urina enchia o ar, pois o homem tinha perdido o controle da bexiga.

Algum dia, pensou Kokoschka com sombria determinação e sadismo, vou machucar Stefan mais do que isto. Ele e aquela maldita garota. Assim que souber a parte que ela desempenha nos planos de Stefan e por que ele está pulando décadas para reformular sua vida, vou fazer com que ambos sofram o tipo de dor que ninguém conhece deste lado do inferno.

Saiu da casa de Sheener. Lá fora, olhou por um momento para o céu estrelado e depois voltou para o instituto.

 

9

Logo depois do nascer do dia, quando a casa toda ainda dormia, mas o perigo já tinha passado, Laura voltou para o terceiro andar. Tudo no seu quarto estava como havia deixado. Nenhum sinal de intruso.

Exausta, com os olhos ardendo, pensou se não teria dado muito crédito ao Enguia, acreditando que teria coragem para procurá-la no quarto. Sentiu-se um tanto tola.

Arrumou a cama — uma tarefa que todas as crianças do Mcllroy tinham de desempenhar — e quando levantou o travesseiro parou, petrificada com o que viu. Uma única bala.

Naquele dia o Enguia Branca não foi trabalhar. Passara a noite toda preparando-se para raptar Laura e sem dúvida precisava dormir.

—Como é que um homem desse pode dormir? — disse Ruth. — Quero dizer, será que a consciência não tira o sono dele?

— Ruthie — disse Thelma —, ele não tem consciência.

— Todo o mundo tem, até as piores pessoas. Deus nos fez assim.

— Shane — disse Thelma —, prepare-se para me ajudar num exorcismo. Nossa Ruth está outra vez possuída pelo espírito idiota de Gidget.

A sra. Bowmaine, com uma demonstração inusitada de compaixão, mudou Tammy e Rebecca para outro quarto, permitindo que Laura ficasse com as gêmeas. Provisoriamente uma cama ficaria vazia no quarto das três amigas.

— Vai ser a cama de Paul MacCartney — disse Thelma, enquanto com a irmã ajudava Laura a se instalar. — Sempre que os Beatles estiverem na cidade, Paul pode usar essa cama. E eu posso usar Paul!

— Às vezes você me deixa embaraçada — disse Ruth.

— Ora, só estou expressando um saudável desejo sexual.

— Thelma, você só tem 12 anos! — disse Ruth com impaciência.

— Depois vêm os 13. A qualquer momento vou ficar menstruada. Vamos acordar de manhã com tanto sangue no quarto que vai parecer um massacre.

— Thelma!

Sheener não foi trabalhar na sexta-feira também. Seus dias de folga naquela semana eram sexta e sábado, assim, no sábado à noite Laura e as gêmeas comentaram que talvez ele não voltasse, que tinha sido atropelado por um caminhão ou contraído beribéri.

Mas no domingo Sheener estava servindo o café da manhã. Tinha os olhos roxos, a orelha direita envolta em curativo e perdera dois dentes da frente.

— Talvez tenha mesmo sido atropelado por um caminhão — murmurou Ruth, na fila do café.

Outras crianças comentavam os ferimentos de Sheener, algumas rindo divertidas. Mas todas o temiam, desprezavam ou evitavam, e ninguém falou diretamente com ele sobre o seu estado.

Laura, Ruth e Thelma ficaram em silêncio quando chegou sua vez de serem servidas. Quanto mais perto chegavam, mais Sheener parecia machucado. O roxo dos olhos não era recente, devia ter alguns dias, mas o rosto ainda estava horrivelmente marcado e inchado; sem dúvida, alguns dias antes não podia sequer abrir os olhos. O lábio partido parecia em carne viva. O rosto, onde não estava arranhado ou roxo, tinha uma cor cinzenta, em lugar da palidez de sempre. Era uma figura ridícula com o cabelo cor de cobre — um palhaço de circo depois de um tombo desajeitado.

Não olhava para as crianças que servia, mantendo os olhos no leite e nos doces. Quando chegou a vez de Laura, Sheener ficou tenso, mas não ergueu os olhos.

Laura e as gêmeas sentaram-se de modo a poder observar o Enguia, uma coisa em que não teriam pensado uma hora atrás. Mas agora ele parecia menos ameaçador, mais um objeto de curiosidade. Em vez de evitá-lo, passaram o dia acompanhando-o no seu trabalho, disfarçando, como se só por coincidência estivessem sempre no mesmo lugar que ele, observando-o. Aos poucos perceberam que Sheener percebia intensamente a presença de Laura, mas evitava olhar para ela. Olhava para as outras crianças, parou na sala de jogos para falar suavemente com Tammy Hinsen, mas parecia tão temeroso a olhar para Laura quanto a pôr o dedo numa tomada elétrica.

No fim daquela manhã, Ruth disse:

— Laura, ele está com medo de você.

- Macacos me mordam se não está — disse Thelma. — Foi você quem bateu nele, Shane. Não contou para a gente que é boa no caratê?

— É estranho, não é? Por que ele está com medo de mim?

Mas ela sabia. Seu guardião especial. Embora tivesse pensado que teria de enfrentar Sheener sozinha, seu guardião havia se encarregado outra vez, avisando Sheener para ficar longe dela.

Laura não sabia por que relutava em falar sobre seu guardião com as gêmeas. Elas eram suas melhores amigas. Confiava nas duas. Porém, sentia que o segredo do guardião devia continuar como segredo, o pouco que sabia era sagrado e não tinha direito de falar sobre ele com outras pessoas, reduzindo o sagrado a mero comentário.

Nas duas semanas seguintes, as escoriações no rosto do Enguia desapareceram e, sem o curativo na orelha, ficaram a descoberto os pontos que evitaram que perdesse aquela parte do corpo. Sheener continuou a manter distância de Laura. Quando a servia, no refeitório, não guardava mais o melhor pedaço para ela e evitava encontrar os olhos da menina.

Entretanto, uma vez ou outra ela o surpreendia observando-a da outra extremidade da sala. Sempre o homem desviava os olhos verdes malignos, mas havia neles algo pior do que o desejo doentio de antes: raiva. Obviamente ele a culpava pelo espancamento sofrido.

Na sexta-feira, 27 de outubro, a sra. Bowmaine informou a Laura que seria transferida para outra casa de família, no dia seguinte. Um casal em Newport Beach, sr. e sra. Dockweiler que nunca havia adotado uma criança e estavam ansiosos para ficar com Laura.

— Tenho certeza de que será uma situação mais harmoniosa — disse a sra. Bowmaine. — Espero que não se repita o problema que teve com os Teagel.

Naquela noite, no quarto, Laura e as gêmeas tentaram discutir sem sentimentalismo a próxima separação, como haviam discutido sua ida para a casa dos Teagel. Mas a amizade estava agora mais forte e Ruth e Thelma falavam de Laura como se fosse sua irmã. Certa vez Thelma chegou a dizer: "As espantosas irmãs Ackerson, Ruth, Laura e moi" e Laura sentia-se agora mais desejada, mais amada, mais viva do que nunca, desde a morte do pai, há três meses.

— Eu adoro vocês — disse Laura.

— Oh, Laura — Ruth desmanchou-se em lágrimas.

Thelma franziu a testa.

— Você vai voltar logo. Esses Dockweiler devem ser uma gente horrível. Vão fazer você dormir na garagem.

— Espero que sim — disse Laura.

— Vão bater em você com canos de borracha...

— Isso será ótimo.

Dessa vez o relâmpago que atingiu a vida de Laura foi um bom relâmpago, ou pelo menos assim parecia, no começo.

Os Dockweiler moravam numa casa enorme no bairro elegante de Newport Beach. Laura tinha um quarto com vista para o mar, decorado em vários tons de marrom e bege.

Quando mostrou o quarto para Laura, Carl Dockweiler disse:

— Não sabíamos quais eram suas cores favoritas, por isso o deixamos assim, mas podemos pintar tudo de novo, da cor que você quiser.

Carl Dockweiler tinha uns quarenta anos, era grande como um urso, forte, rosto largo e curtido de sol, que faria lembrar John Way-ne se Wayne tivesse uma expressão mais alegre.

— Talvez uma menina da sua idade prefira um quarto cor-de-rosa.

— Oh, não, gosto dele assim! — disse Laura.

Ainda um tanto chocada com a opulência inesperada, foi até a janela e olhou para a maravilhosa vista do porto de Newport, onde os iates balançavam na água dourada de sol.

Nina Dockweiler aproximou-se e pôs a mão no ombro da menina. Era uma mulher bonita de cabelos escuros e olhos cor de violeta, um rosto de boneca de porcelana.

— Laura, sua ficha diz que você gosta de livros, mas não sabíamos de que tipo, portanto vamos até a livraria para escolher o que quiser.

Na Livraria Waldenbooks Laura escolheu cinco brochuras e os Dockweiler insistiram para que comprasse mais, mas ela sentia-se culpada em gastar o dinheiro deles. Carl e Nina percorreram as estantes retirando livros e lendo para ela as informações das orelhas e contracapas, juntando aos cinco escolhidos todos aqueles pelos quais ela demonstrava algum interesse. Em determinado momento, Carl estava de quatro na seção de jovens-adultos, lendo os títulos na estante mais baixa.

— Ei, tem um aqui sobre cães. Gosta de histórias de animais? Aqui está uma história de espionagem! — Ele era uma figura cômica. Laura riu.

Quando saíram da loja, tinham comprado cem livros, um caminhão de livros.

O primeiro jantar deles foi numa pizzaria, onde Nina exibiu um talento surpreendente. Como um mágico, tirou um pepperoni da orelha de Laura e o fez desaparecer.

— Formidável — disse Laura. — Onde aprendeu?

— Eu tinha uma firma de decoração de interiores, mas tive de desistir dela há alguns anos. Motivos de saúde. Era um trabalho muito estressante. Mas eu não estava acostumada a ficar em casa sem fazer nada e então comecei a fazer tudo aquilo com que sonhava e não tinha tempo antes. Como aprender a fazer mágica.

— Motivos de saúde? — perguntou Laura.

A segurança era um tapete traiçoeiro que estava sempre sendo puxado de baixo dos seus pés e agora alguém preparava-se para puxá-lo outra vez.

O medo de Laura foi tão evidente que Carl Dockweiler disse:

— Não se preocupe. Nina nasceu com um coração preguiçoso, um defeito congênito, mas pode viver tanto quanto eu ou você se evitar tensão excessiva.

— Não pode operar? — perguntou Laura, devolvendo ao prato o pedaço de pizza que ia levar à boca, sentindo desaparecer todo o apetite.

— A cirurgia cardiovascular tem progredido muito — disse Nina. — Em um ou dois anos, talvez. Mas, meu bem, não precisa se preocupar. Eu sou cuidadosa, especialmente agora com uma filha para mimar!

— Nós queríamos muito ter filhos — disse Carl —, mas não podemos. Quando resolvemos adotar, descobrimos a condição cardíaca de Nina e as agências de adoção não quiseram nos aprovar.

— Mas somos qualificados como pais provisórios — disse Nina.

— Portanto, se você quiser, pode ficar para sempre conosco, como se fosse legalmente adotada.

Naquela noite, no quarto espaçoso com vista para o mar —- agora uma vasta extensão escura, quase assustadora —, Laura disse a si mesma que não devia se apegar demais aos Dockweiler, pois a condição cardíaca de Nina anulava qualquer possibilidade de segurança real.

No dia seguinte, domingo, eles a levaram para comprar roupas 73 e teriam gasto uma fortuna se Laura não pedisse para parar com as compras. Com o Mercedes cheio de roupas novas, foram ver uma comédia de Peter Sellers e depois jantaram hambúrgueres numa lanchonete onde os milkshakes eram imensos.

Regando as batatas fritas com catchup, Laura disse:

— Vocês têm sorte por terem ficado comigo e não com outra criança.

Carl ergueu uma sobrancelha:

— É mesmo?

— Bem, vocês são bons, bons demais... e muito mais vulneráveis do que imaginam. Qualquer criança percebe essa vulnerabilidade e pode tirar vantagem. Impiedosamente. Mas podem ficar descansados comigo. Nunca vou me aproveitar de vocês e nunca vão se arrepender de me acolher.

Olharam para ela atônitos.

Finalmente, Carl olhou para Nina e disse:

— Eles nos enganaram. Ela não tem 12 anos. Deram uma anã para nós.

Naquela noite, na cama, enquanto o sono não vinha, Laura repetiu sua ladainha de autoproteção:

— Não goste demais deles, não goste demais deles... — Mas já gostava imensamente.

Os Dockweiler a matricularam numa academia onde os professores eram mais exigentes do que nas escolas públicas que Laura havia freqüentado, mas ela gostou da mudança e acompanhou bem a classe. Lentamente começou a fazer amizades. Sentia falta de Thelma e Ruth, mas consolava-se com a certeza de que ficariam felizes sabendo que ela estava satisfeita.

Laura começou a acreditar que podia confiar no futuro e podia ousar ser feliz. Afinal, tinha um guardião especial, não tinha? Talvez até mesmo um anjo da guarda. E qualquer garota abençoada com um anjo da guarda era destinada ao amor, à felicidade e à segurança.

Mas, será que um anjo da guarda daria um tiro na cabeça de alguém? Espancaria alguém cruelmente? Não importava. Tinha um belo guardião, anjo ou não, pais provisórios que a amavam e não podia recusar a felicidade tão prodigamente oferecida.

Na terça-feira, 5 de dezembro, Nina tinha hora marcada com seu cardiologista, assim não havia ninguém em casa quando Laura voltou da escola, naquela tarde. Entrou com sua chave e deixou os livros escolares na mesa Luís XIV no hall, perto da escada.

A enorme sala de estar era decorada em tons creme, pêssego e verde-pálido, um ambiente aconchegante, apesar do tamanho. Laura foi até a janela e olhando para a linda vista pensou como seria bom se Ruth e Thelma pudessem compartilhar tudo aquilo — e de repente pareceu ;i coisa mais natural a possibilidade de tê-las ali com ela.

Por que não? Carl e Nina gostavam de crianças. Tinham amor suficiente para uma casa cheia delas, para milhares de crianças.

— Shane — disse ela, em voz alta —, você é um gênio.

Foi até a cozinha e preparou um lanche. Um copo de leite, um croissant de chocolate esquentado no forno e uma maçã. Enquanto fazia isso imaginava um meio de falar sobre as gêmeas com os Dockweiler. O plano parecia tão natural que, quando Laura abriu com o ombro a porta da cozinha que dava para a sala de jantar, já havia imaginado uma variedade de argumentos, todos convincentes.

O Enguia a esperava na sala de jantar. Agarrou Laura e a atirou contra a parede com tanta força que a menina perdeu o fôlego. A maçã e o croissant de chocolate voaram do prato, o prato voou da mão dela. Ele derrubou o copo de leite da sua outra mão, jogando-o contra a mesa. O vidro partiu-se barulhentamente. Sheener puxou Laura para ele e atirou-a novamente contra a parede. Uma dor aguda queimou as costas da menina, sua visão ficou embaçada, sentiu que não podia desmaiar e procurou manter a consciência, tenazmente, embora a dor fosse lancinante, a respiração difícil e estivesse atordoada por uma meia concussão.

Onde estava seu guardião? Onde?

Sheener encostou o rosto no dela e o terror ativou os sentidos de Laura, fazendo-a notar os menores detalhes daquele rosto insano, ainda com as marcas da sutura na orelha, os cravos nojentos em volta do nariz, as marcas de acne na pele oleosa. Os olhos verdes eram estranhos demais para parecerem humanos, olhos ferozes e animalescos.

Seu guardião ia arrancar o Enguia de cima dela a qualquer momento. Ia agarrar o monstro e matá-lo. A qualquer momento.

— Eu peguei você — disse ele com voz esganiçada de louco. — Agora você é minha e vai me dizer quem era aquele filho da puta, o homem que me espancou. Vou estourar a cabeça dele.

Segurava Laura pelos braços, seus dedos pareciam penetrar a carne dela. Ergueu-a do chão, até a altura dos seus olhos, e a prendeu contra a parede. Os pés da menina dançavam no ar.

— Quem é o sacana? — Sheener era forte demais para seu tamanho. Afastou Laura da parede e jogou-a contra ela outra vez, mantendo seu rosto na altura do seu. — Diga, meu bem, ou arranco sua orelha.

A qualquer momento agora. A qualquer momento. As costas de Laura latejavam, mas agora conseguiu respirar, embora o que inalou fosse ácido e nojento.

— Responda, meu bem.

Laura pensou que podia morrer enquanto esperava a chegada do seu guardião.

Deu um pontapé na virilha de Sheener. Um golpe perfeito. O homem com as pernas abertas, não acostumado a meninas que reagiam contra sua força, não esperava aquele ataque. Arregalou os olhos — por um instante pareceram olhos humanos — e emitiu um som surdo de agonia. Largou Laura, que caiu no chão. Sheener recuou cambaleando, perdeu o equilíbrio e caiu sobre a mesa de jantar, o corpo dobrado deslizando para o tapete chinês.

Quase imobilizada de dor, de choque e de medo, Laura não conseguiu ficar de pé. Suas pernas pareciam feitas de trapos. Completamente flácidas. Então arraste-se. Podia se arrastar. Para longe dele. Freneticamente. Na direção do arco da sala de jantar. Esperando ser capaz de ficar de pé quando chegasse à sala de estar. Sheener agarrou o tornozelo esquerdo de Laura. Ela tentou se libertar dando pontapés. Não adiantou. Suas pernas estavam fracas demais. Sheener continuou segurando. Dedos gelados. Um gelo de morte. O homem guinchou asperamente. Sinistro. Laura apoiou a mão no leite derramado sobre o tapete. Viu os pedaços de vidro. A parte superior do copo estava quebrada, mas a base ficara intata, como uma coroa de pontas cortantes. Gotas de leite grudavam-se nela. Ainda ofegante, semiparalisada de dor, Sheener segurou o outro tornozelo de Laura. Movendo uma mão depois da outra em sua perna foi se aproximando dela. Continuava a guinchar. Como um passarinho ferido. Ia se atirar em cima dela. Prendê-la com seu peso. Laura segurou o fundo do copo quebrado. Cortou o polegar. Nem sentiu. Sheener largou os tornozelos da menina para agarrar suas coxas. Laura contorceu o corpo, de costas no chão. Como se ela fosse a enguia. Estendeu o braço com o fundo cortante do copo para ele, não para feri-lo, mas para procurar fazer com que se afastasse. Mas o homem estava no impulso de se atirar sobre ela e as três pontas de vidro o atingiram no pescoço. Sheener tentou arrancar a estranha arma. Girou-a em desespero. As pontas cortaram sua carne. Engasgado, ofegante, ele a prendeu contra o chão com o peso do seu corpo. O sangue jorrava do nariz dele. Laura contorceu-se. Ele a agarrou, com um dos joelhos apertados contra o quadril da menina. Aproximou a boca do pescoço dela, mordeu, apenas marcando a pele de Laura. Se ela deixasse, da próxima vez a mordida seria mais profunda. Ela procurou se libertar. A respiração assobiava e roncava na garganta ferida do homem. Laura saiu de baixo dele. Ele a segurou. Ela o chutou. Suas pernas estavam mais fortes agora. O pontapé atingiu o alvo. Laura arrastou-se na direção da sala de estar. Segurou o batente do arco de entrada. Ficou de pé. Olhou para trás. O Enguia estava também de pé, segurando uma cadeira com o braço erguido como se fosse um taco. Ele jogou a cadeira. Laura desviou o corpo. A cadeira bateu no batente do arco com um rugido de trovão. Ela cambaleou até a sala de estar, caminhando para o hall, até a porta, para a fuga. Ele atirou a cadeira. Atingiu o ombro de Laura. A menina caiu. Rolou no chão.

Olhou para cima. Sheener estava de pé ao seu lado e segurou seu braço esquerdo. Laura sentiu que perdia as forças. As trevas pulsavam nos limites da sua visão. Ele segurou o outro braço. Estava perdida. Estaria se o vidro no pescoço do homem não tivesse alcançado mais uma artéria. O sangue jorrou de repente do nariz dele. Sheener caiu em cima de Laura, um peso enorme e terrível, morto.

Laura não podia se mover, mal conseguia respirar e lutava para não perder a consciência. Acima do som sinistro dos seus soluços, ouviu uma porta se abrindo. Passos.

— Laura? Cheguei — era a voz de Nina, clara e alegre a princípio, depois cheia de horror. — Laura? Oh, meu Deus, Laural Laura lutou para tirar o homem morto de cima dela, mas só teve forças para livrar a metade do corpo, o bastante para ver Nina no arco que dava para o hall.

Por um momento, Nina ficou paralisada de horror. Olhou para sua sala em tons creme, pêssego e espuma do mar, a decoração elegante tingida agora de vermelho. Então, os olhos cor de violeta voltaram-se para Laura e ela saiu do transe.

— Laura. Oh, meu Deus, Laura.

Deu três passos para a frente, parou e dobrou o corpo, abraçando-se como se tivesse sido ferida no estômago. Emitiu um som estranho: "Uh, uh, uh, uh." Tentou endireitar o corpo. Seu rosto crispou-se. Não conseguiu ficar ereta e finalmente desmoronou, sem fazer nenhum som.

Não podia acontecer assim. Não era justo, que diabo.

Novas forças, nascidas do pânico e do seu amor por Nina reanimaram Laura. Libertou-se do corpo de Sheener e arrastou-se rapidamente para a mulher.

Nina estava imóvel, os belos olhos abertos, sem ver nada.

Laura pôs a mão suja de sangue no pescoço de Nina, procurando um pulso. Pensou ter sentido alguma coisa. Fraco, irregular, mas um pulso.

Tirou a almofada de uma cadeira e colocou-a sob a cabeça de Nina, depois correu para a cozinha onde estavam os números dos telefones da polícia e dos bombeiros. Com voz trêmula comunicou o ataque cardíaco de Nina e deu o endereço.

Quando desligou, Laura sabia que tudo ia dar certo porque já perdera o pai de ataque cardíaco e seria absurdo perder agora sua mãe adotiva. A vida tem momentos absurdos, mas apropria vida não é absurda. Era estranha, difícil, miraculosa, preciosa, tênue, misteriosa, mas não completamente absurda. Assim, Nina ia viver, porque sua morte não teria sentido.

Assustada ainda, mas sentindo-se melhor, Laura voltou para a sala e ajoelhou ao lado da mãe adotiva, abraçando-a.

Newport Beach tinha serviços de emergência de primeira classe. A ambulância chegou três ou quatro minutos depois do telefonema de Laura; os dois médicos eram eficientes e estavam bem equipados. Porém, depois de alguns minutos, confirmaram que Nina estava morta, evidentemente desde o momento em que sofreu o colapso.

 

10

 

Uma semana depois da volta de Laura para Mcllroy, quando faltavam oito dias para o Natal, a sra. Bowmaine determinou que Tammy Hinsen voltasse para o quarto das gêmeas. Numa conversa particular excepcional com Laura, Ruth e Thelma, ela explicou o motivo. — Sei que vocês dizem que Tammy não é feliz na sua companhia, mas ela

parece sentir-se melhor com vocês do que em qualquer outro lugar. Experimentamos vários quartos, mas as outras crianças não a toleram. Não sei o que faz com que todos a evitem, mas suas companheiras de quarto geralmente acabam por usá-la como saco de pancadas.

De volta ao quarto, antes da chegada de Tammy, Thelma sentou no chão na posição de ioga, as pernas cruzadas, os calcanhares encostados nos quadris. Começou a se interessar pela ioga quando os Beatles recomendaram a meditação oriental, e dizia que quando afinal conhecesse Paul McCartney (que era seu destino, sem dúvida nenhuma) "seria bom termos alguma coisa em comum, o que teremos se eu puder falar com segurança sobre essa tal de ioga".

Naquela noite, em vez de meditar, ela disse:

— O que aquela vaca teria feito se eu dissesse: "Sra. Bowmaine, as crianças não gostam de Tammy porque ela deixava que o Enguia brincasse com ela e o ajudava a se aproximar de outras garotas vulneráveis. Na opinião de todas, ela é a inimiga." O que a bovina Bowmaine teria dito se eu atirasse isso na cara dela?

— Ia te chamar de mentirosa e suja — disse Laura, deixando-se cair na cama curva no centro.

— É claro. Depois ia mandar me cozinhar para o almoço. Não acha incrível o tamanho daquela mulher? Fica maior a cada semana. Uma pessoa tão grande é perigosa, um animal faminto capaz de devorar qualquer criança com ossos e tudo, como se estivesse tomando um sorvete.

Ao lado da janela, olhando para o pátio atrás da casa, Ruth disse:

— Não é justo o modo como as outras crianças tratam Tammy.

— A vida não é justa — disse Laura.

— Também não é um pãozinho quente — observou Thelma. — Puxa, Shane, não venha com filosofia, se quer ser banal. Sabe que odeio banalidades tanto quanto ligar o rádio e ouvir Bobbie Gentfy cantando Ode to Billy Joe.

Uma hora depois, quando Tammy chegou, Laura ficou tensa. Ela matara Sheener e Tammy era tão dependente dele. Esperava que a menina estivesse revoltada e furiosa, mas Tammy a cumprimentou com um sorriso tímido, comovente e sincero.

Depois de dois dias, perceberam que Tammy encarava a perda do Enguia com mágoa perversa, mas também com alívio. A fúria que havia demonstrado quando rasgou os livros de Laura estava esgotada, li Ia era outra vez a garotinha sem graça, magra e sem cor que no seu primeiro dia no Mcllroy Laura havia comparado a uma aparição, a ponto de dissolver-se em ectoplasma e desaparecer completamente com u primeira brisa.

Depois da morte do Enguia e de Nina Dockweiler, Laura passou a se datar com o psicoterapeuta dr. Boone, em entrevistas de meia hora, As terças e sábados, dias em que ele visitava Mcllroy. Boone não compreendia como Laura pudera absorver o choque do ataque de Sheener c da morte de Nina sem nenhum dano psicológico. Ficou intrigado com us discussões articuladas da menina sobre seus sentimentos e o vocabulário adulto com que descrevia suas reações aos acontecimentos de Newport Beach. Tendo perdido a mãe, depois o pai, enfrentado várias crises e muito terror — mas, acima de tudo, beneficiada pelo maravilhoso amor do seu pai —, ela era resistente como uma esponja, absorvendo o que a vida lhe apresentava. Entretanto, embora pudesse falar sobre Sheener friamente e sobre Nina com afeição e tristeza, para o psiquiatra, aquela adaptação era apenas aparente, não real.

— Então, você sonha com Willy Sheener? — perguntou ele, sentando ao lado de Laura no sofá do pequeno consultório reservado para aquelas sessões, no Mcllroy.

— Sonhei com ele só duas vezes. Pesadelos, é claro. Mas todas as crianças têm pesadelos.

— Sonha com Nina também. São pesadelos?

— Oh, não! São belos sonhos.

O médico ficou surpreso.

— Quando pensa em Nina, fica triste?

— Fico. Mas também... lembro como foi bom fazer compras com ela, experimentar vestidos e suéteres. Lembro do seu sorriso, da sua risada.

—E culpa? Sente culpa pelo que aconteceu com Nina?

— Não. Talvez Nina não tivesse morrido se eu não fosse morar com eles, atraindo Sheener, mas não posso me sentir culpada por isso.

Tentei ser uma boa filha adotiva para eles e pareciam felizes comigo.

O que aconteceu foi que a vida jogou um grande pastelão em cima de nós e isso não foi por minha culpa; nunca se pode ver o pastelão quando é atirado. Não adianta fazer palhaçadas quando ele está chegando.

— Pastelão? — perguntou ele, atônito. — Você vê a vida como uma comédia de pastelão? Como os Três Patetas?

— Em parte.

— Então a vida não passa de uma piada?

— Não. A vida é uma coisa séria e uma piada ao mesmo tempo.

— Como assim?

— Se o senhor não sabe — disse Laura —, talvez eu deva fazer as perguntas aqui.

Laura encheu várias páginas do seu caderno com observações sobre o dr. Will Boone. Entretanto, não escreveu nenhuma linha sobre seu guardião desconhecido. Procurava também não pensar nele. O guardião havia falhado. Laura chegou a confiar nele; seus esforços heróicos a seu favor fizeram com que se sentisse especial, e esse sentimento a ajudou a enfrentar a vida depois da morte do pai. Agora, sentia-se tola por ter contado com alguém mais, além dela mesma, para a sobrevivência. Guardava ainda o bilhete que ele deixara em sua mesa, depois do enterro do pai, mas não o relia mais. E com o passar do tempo, a intervenção do guardião ia se transformando em fantasia, como Papai Noel, que devia ser superada com a idade.

Na tarde do dia de Natal, voltaram para o quarto com os presentes das instituições de caridade e de benfeitores. Começaram a cantar músicas de Natal e surpreenderam-se quando Tammy juntou-se ao coro, com sua voz baixa e hesitante.

Nas duas semanas seguintes, Tammy deixou de roer as unhas. Estava um pouco mais acessível, mas parecia mais calma, mais satisfeita.

— Sem nenhum pervertido por perto — disse Thelma —, talvez ela comece a se sentir limpa outra vez.

Sexta-feira, 12 de janeiro de 1968. Laura completava 13 anos, mas não comemorou o aniversário. Não via nenhuma alegria na ocasião.

Na segunda-feira foi transferida para Caswell Hall, uma instituição para crianças mais velhas, em Anaheim, a sete quilômetros de Mcllroy.

Ruth e Thelma a ajudaram a levar a bagagem até o hall. Laura nunca imaginou que fosse sentir tanto aquela partida de Mcllroy.

— Em maio estaremos com você — garantiu Thelma. — Fazemos 13 anos no dia dois de maio e então vamos sair daqui. Ficaremos juntas outra vez.

Quando a assistente social de Caswell chegou, Laura não estava nada disposta a acompanhá-la. Mas foi.

Caswell Hall era um antigo ginásio transformado em dormitórios, salas de recreação e escritórios para as assistentes sociais. A atmosfera era mais institucional do que no Mcllroy.

Era também mais perigoso porque as crianças eram mais velhas e muitas delinqüentes juvenis. Maconha e bolinhas podiam ser obtidas e brigas entre garotos — até mesmo entre garotas — eram comuns. Havia grupos como em Mcllroy, mas em Caswell alguns deles eram perigosos, com estrutura e função muito semelhantes às das gangues das ruas. O roubo era comum.

Depois de algumas semanas, Laura compreendeu que havia dois tipos de sobreviventes: aqueles que, como ela própria, possuíam a força necessária, por terem sido, no passado, amados intensamente; e aqueles que, nunca tendo sido amados, aprendiam a vencer por meio do ódio, da suspeita e das parcas recompensas da vingança. Desprezavam a necessidade de sentimentos humanitários e ao mesmo tempo invejavam os que os possuíam.

Laura vivia com cautela em Caswell mas sem permitir que o medo a abatesse. Os valentões eram assustadores, mas também patéticos com suas atitudes e rituais de violência, até mesmo ridículos. Não encontrou ninguém como as gêmeas Ackerson para compartilhar seu humor negro, por isso enchia com ele seus cadernos. Naqueles monólogos bem escritos, Laura voltava-se para si mesma, enquanto esperava que as gêmeas completassem 13 anos; foi um período intensamente rico em autodescoberta e mais compreensão do mundo tragicômico no qual vivia.

No sábado, 30 de março, Laura estava lendo no quarto, em Caswell, quando ouviu uma das suas companheiras de quarto — uma garota manhosa chamada Fran Wickert — conversando com outra menina no corredor sobre um incêndio no qual algumas crianças haviam morrido. Laura ouvia sem interesse até escutar a palavra 'Mcllroy'.

Um arrepio percorreu seu corpo, gelando seu coração, entorpecendo suas mãos. Deixou cair o livro e correu até o corredor, assustando as duas meninas.

— Quando? Quando foi esse incêndio?

— Ontem — disse Fran.

— Quantas crianças mo...morreram?

— Não muitas, duas, eu acho, talvez só uma, mas disseram que a gente sentia o cheiro de carne queimada. Foi a coisa mais horrível... Avançando para Fran, Laura perguntou:

— Os nomes dessas meninas?

— Ei, me larga.

— Diga os nomes?

— Não sei nenhum nome. Cristo, o que há com você?

Laura não se lembrava de ter largado Fran e saído para a rua, mas de repente estava na Katella Avenue, a vários quarteirões de Caswell Hall. Katella era uma rua comercial e em alguns trechos não havia calçada, por isso Laura correu pelo acostamento, para o leste, com o tráfego zumbindo à sua direita. Caswell ficava a sete quilômetros de Mcllroy e Laura não conhecia bem o caminho, mas, confiando no instinto, correu até ficar exausta, depois, quando não podia mais correr, continuou andando.

O mais certo teria sido procurar um dos conselheiros de Caswell e perguntar os nomes das vítimas do incêndio em Mcllroy. Mas Laura tinha a estranha impressão de que o destino das gêmeas Ackerson dependia da sua capacidade de fazer a difícil viagem até Mcllroy, que se perguntasse por elas por telefone iam dizer que estavam mortas, mas que infligindo a si mesma aquele sacrifício da jornada de sete quilômetros ela as encontraria sãs e salvas. Era superstição, mas Laura entregou-se a ela.

A noite chegou. O céu de fim de março encheu-se de luz vermelha e púrpura embaçada, e os contornos das nuvens esparsas pareciam em chamas quando Laura avistou o Lar Mcllroy. Viu com alívio que a frente da velha casa estava intata.

Encharcada de suor e tremendo de exaustão, com uma terrível dor de cabeça, Laura não diminuiu o passo quando viu a casa sem marcas de fogo. Passou por seis crianças no corredor do andar térreo e mais três na escada, e duas delas a reconheceram. Mas não parou para perguntar sobre o incêndio. Precisava ver.

No último lance da escada sentiu cheiro de queimado, o cheiro acre e alcatroado; o cheiro ácido de fumaça. Quando passou pela porta no fim da escada viu que as duas janelas nas extremidades do corredor do terceiro andar estavam abertas e ventiladores elétricos haviam sido instalados no meio, para espalhar o ar viciado.

A porta do quarto das gêmeas tinha um batente novo, não pintado e uma porta também nova, mas a parede estava chamuscada e manchada de fuligem. Um cartaz feito à mão avisava do perigo. Como todas as portas de Mcllroy, aquela não tinha fechadura, e Laura, ignorando o aviso, a abriu e entrou para ver o que temia: destruição.

As lâmpadas do corredor e a fraca luz que vinha de fora não iluminavam bem o quarto, mas Laura viu que os restos dos móveis queimados tinhamtinham sido retirados; tudo estava vazio e repleto com o fantasma malcheiroso do fogo. O assoalho, embora parecesse firme, estava manchado de fuligem e chamuscado. As portas do armário eram apenas cinzas com alguns pedaços de madeira queimada presos às do-bradiças parcialmente derretidas. As duas janelas tinham explodido ou quebrado com a força das chamas e estavam provisoriamente protegidas com pedaços de plástico grudados nas paredes. Felizmente para as outras crianças do Mcllroy o fogo fora para cima, atingindo o teto. Olhou para o sótão da casa, onde vigas maciças eram vagamente visíveis no escuro. Ao que parecia, as chamas foram dominadas antes de atravessar o telhado, pois ela não via o céu.

Laura respirava com dificuldade, ruidosamente, não só por causa da jornada de Caswell até ali, mas também porque um torno de pânico apertava seu coração dolorosamente. E com cada respiração inalava o ar amargo com gosto nauseante de carbono.

Desde o momento em que soube da notícia em Caswell, Laura adivinhou o motivo do fogo, embora sem querer admitir que sabia. Tammy Hinsen fora apanhada certa vez com uma lata de fluido para isqueiro e fósforos que pretendia usar para incendiar o próprio corpo. Quando soube daquela idéia de auto-imolação, Laura compreendeu que Tammy pensava seriamente no assunto, porque era o modo certo de suicídio para ela, uma exteriorização da chama interna que a consumia há anos.

Por favor, meu Deus, faça com que Tammy estivesse sozinha no quarto, por favor.

Sufocada com o cheiro e o sabor da destruição, Laura saiu do quarto até o corredor do terceiro andar.

— Laura?

Ergueu os olhos e viu Rebecca Bogner. Com a respiração entrecortada e áspera, trêmula e difícil, Laura conseguiu dizer os nomes:

— Ruth... Thelma?

A expressão sombria de Rebecca destruía a possibilidade das gêmeas terem escapado ilesas, mas Laura repetiu os nomes preciosos, ouvindo na própria voz uma súplica patética.

— Lá — disse Rebecca, apontando para o lado norte do corre dor. — O penúltimo quarto à esquerda.

Com um ímpeto de esperança, Laura correu para o quarto indicado. Três camas estavam vazias, mas na quarta, revelada pela luz da lâmpada de cabeceira, uma menina estava deitada, voltada para a parede.

— Ruth? Thelma?

A garota levantou lentamente da cama — uma das gêmeas, ilesa. Usava um vestido cinzento amarrotado e velho, o cabelo estava em desalinho, o rosto inchado, os olhos cheios de lágrimas. Deu um passo para Laura, mas parou. O esforço era demais.

Laura correu para ela e a abraçou.

Com a cabeça no ombro de Laura, o rosto contra o pescoço da amiga, ela disse com voz torturada:

— Oh, queria que tivesse sido eu, Shane. Se tinha de ser uma de nós, por que não eu?

Até aquele momento, Laura pensava que era Ruth. Recusando aceitar aquele horror, Laura disse:

— Onde está Ruthie?

— Foi embora, Ruthie foi embora. Pensei que você soubesse...minha Ruthie está morta.

Laura sentiu que alguma coisa se partia no seu íntimo. Uma dor tão grande que impossibilitava as lágrimas; estava paralisada, amortecida.

Durante uma infinidade de tempo ficaram abraçadas. O crepúsculo transformou-se em noite. Sentaram na beirada da cama.

Duas meninas apareceram na porta. Evidentemente compartilhavam o quarto com Thelma, mas Laura fez sinal para que saíssem.

Olhando para o chão, Thelma disse:

— Acordei com os gritos, aqueles gritos horríveis... e uma luz tão brilhante que feria meus olhos. Então compreendi que o quarto estava em chamas. Tammy estava em chamas. Ardendo como uma tocha.

Contorcendo-se na cama, queimando, gritando...

Laura passou o braço pelos ombros dela e esperou.

— ... o fogo saltou do corpo de Tammy, subiu pela parede sibilando, a cama dela estava em chamas, o fogo espalhava-se pelo assoalho, o tapete em chamas...

Laura lembrou de Tammy cantando com elas no Natal e de como parecia mais calma a cada dia, como se gradualmente estivesse encontrando a paz interior. Agora era evidente que essa paz baseava-se na decisão de terminar seu tormento.

— A cama de Tammy ficava mais perto da porta, a porta estava em chamas, então quebrei a janela ao meu lado. Chamei Ruth, ela...ela disse que estava indo, havia muita fumaça, eu não podia ver nada e então Heather Dorning que estava na sua antiga cama chegou à janela e eu a ajudei a sair. A fumaça saía pela janela e consegui ver alguma coisa. Ruth tentava jogar seu cobertor sobre Tammy para abafar as chamas, mas o cobertor pegou fogo também e vi Ruth... Ruth... em chamas...

Lá fora a última luz púrpura dissolveu-se na escuridão. As sombras se adensaram nos cantos do quarto. O cheiro persistente de queimado pareceu ficar mais forte. — ... e eu ia correr para ela, eu estava indo, mas então o fogo explodiu, estava em todo o quarto e a fumaça era tão negra e espessa que não consegui mais ver Ruth, não vi mais nada... então ouvi as sirenes, altas e próximas, e tentei me convencer de que chegariam a tempo de ajudar Ruth, o que era uma mentira, uma mentira na qual eu queria acreditar e... eu a deixei lá, Shane. Oh, meu Deus, saí pela janela e deixei Ruthie em chamas, queimando...

— Não podia fazer mais nada — disse Laura.

— Eu deixei Ruthie queimando.

— Você não podia fazer nada.

— Deixei Ruthie.

— Não adiantava você morrer também.

— Deixei Ruthie queimando.

Em maio, quando completou 13 anos, Thelma foi transferida para Caswell e ficou no quarto de Laura. As assistentes sociais concordaram porque Thelma estava sofrendo de depressão e não respondia ao tratamento. Talvez encontrasse a ajuda de que precisava na companhia de Laura.

Durante meses Laura desesperou tentando ajudar a amiga. À noite, Thelma era torturada por sonhos e durante o dia consumia-se em auto-recriminação. Finalmente, o tempo a curou, embora o ferimento em sua alma jamais tivesse fechado. Seu senso de humor reapareceu gradualmente, com um espírito mais fino do que nunca, mas havia nela uma nova melancolia.

Laura e Thelma compartilharam um quarto em Caswell por cinco anos, até sair da custódia do Estado para a vida por conta própria. Compartilharam muitas alegrias durante aqueles anos. A vida era boa outra vez, mas não a mesma que conheceram antes do incêndio.

 

11

No laboratório principal do instituto o objeto dominante era o portão, através do qual era possível passar para outros tempos. Era um aparelho enorme em forma de barril, com três metros e meio de comprimento e oito metros e meio de diâmetro, a parte externa de aço polido, forrado de cobre polido. A base eram blocos de cobre que o mantinham a quarenta centímetros do solo. Grossos cabos elétricos estavam ligados a ele e dentro do barril correntes estranhas faziam o ar cintilar como se fosse água.

Kokoschka voltou do tempo, sua figura materializando-se dentro do enorme cilindro. Fizera várias viagens naquele dia, seguindo Stefan a tempos e lugares distantes, e finalmente descobriu por que o traidor tinha o obsessão de reformular a vida de Laura Shane. Apressou-se para a boca do portão « desceu até o laboratório, onde dois cientistas e três dos seus homens o esperavam.

— A garota nada tem a ver com os planos do miserável contra o governo, nada com suas tentativas para destruir o projeto de viagem no tempo — disse Kokoschka. — É um assunto inteiramente à parte, uma cruzada pessoa! dele.

— Então agora sabemos tudo que ele fez e por quê — disse um dos cientistas. — E você pode eliminá-lo.

— Certo — concordou Kokoschka, atravessando a sala até o principal painel de programa. — Agora que descobrimos os segredos do traidor, podemos matá-lo.

Sentou na frente do painel de programação, a fim de ajustar o portão para outra viagem no tempo, onde poderia surpreender o traidor, e resolveu matar Laura também. Seria um trabalho fácil, que podia fazer, sozinho, pois teria o elemento surpresa a seu favor; preferia trabalhar sozinho sempre que possível; não gostava de compartilhar seus prazeres. Laura Shane não constituía ameaça ao governo nem aos seus planos para reformular o futuro do mundo, mas ele a mataria primeiro, na frente de Stefan, somente para aumentar o sofrimento do traidor, antes de matá-lo. Além disso, Kokoschka gostava de matar.