O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 1 de 4 · parte 2/4

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O Legado da Caça-Vampiro

Para Steve, Holli e Tammy

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

 

— Vou visitar O Cálice. Talvez eu possa saber m ais...

— Sim , e Way ren vai aj udar. — Eustácia deu-lhe um olhar de advertência, efetivam ente encerrando a conversa assim que Vitória entrou.

 

— Ah, Vitória! Que rapidez. Íam os j ustam ente com eçar a rever a história de Lilith, a Escura — disse Eustácia abruptam ente, esfregando as m ãos retorcidas. — Max, eu contei pouco a Vitória sobre ela; achei que seria m elhor que você estivesse aqui para aj udar a preencher os detalhes a partir da sua posição privilegiada.

 

— Pois não. Por favor, signora, conte a história. Com entarei quando necessário.

 

— Muito bem .

 

Vitória inclinou-se para frente, ansiosa, e por um m om ento Eustácia hesitou. Olhando o rosto lindo e inocente de sua sobrinha-neta, teve um a grande sensação de orgulho. Ela trespassara um vam piro em sua prim eira tentativa. Ela se adaptara a seu treinam ento extrem am ente bem e aceitara toda a escuridão e o m al que espreitavam este m undo com um a sim plicidade que nem Eustácia tivera inicialm ente.

 

Seria um a vida difícil. Ela precisaria abrir m ão de m uitas coisas que outras garotas da sua idade teriam . Ela estaria em perigo m ais vezes do que um a m oça deveria.

 

Contudo, ao m esm o tem po, Vitória teria um a vida de em oção e aventura sem paralelos. Enfrentaria criaturas m ais m alignas que se podia im aginar, e teria a força e a astúcia para sobrepuj á-las. Perderia o controle de parte de sua vida, porém ganharia m ais liberdade do que um a j ovem poderia sequer sonhar.

 

E estava vaticinado: som ente um a Gardella poderia destruir Lilith.

 

Max, form idável e m agnífico com o era não tinha o sangue dos Gardella; e talvez isso o tornasse ainda m ais eficiente m ais determ inado com o Venador.

— Lilith, a Escura, é filha de Judas Iscariotes — com eçou Eustácia.

 

Ela contara esta história apenas um a dúzia de vezes em sua vida. A prim eira vez havia sido para o Papa.

 

Talvez esta fosse a últim a.

 

— Judas Iscariotes? O traidor de Jesus Cristo?

 

Eustácia assentiu com a cabeça.

 

— De fato. O hom em que traiu Jesus por trinta m oedas de prata. Ele é conhecido com o o Traidor; porém , o Senhor o perdoou com o fez com toda a hum anidade. Mas Judas Iscariotes não aceitou o perdão e se enforcou com o você sabe. Ele foi então am aldiçoado com o inferno eterno.

 

O Diabo vendeu-lhe de volta ao seu ser terreno e deu-lhe o poder de andar pela Terra no corpo de um hum ano im ortal, de um a form a que cham am os m orto-vivo. Um m orto-vivo está am aldiçoado pela eternidade assim que bebe o sangue de um m ortal. Ele não pode ser salvo.

 

"Nessa condição de am aldiçoado, preso entre a vida e a m orte, Judas vagou pela Terra por séculos. Fala-se que ele foi o prim eiro vam piro; não sei se essa é a verdade. O que sei é que enquanto esteve am aldiçoado, e vagando pela Terra, ele transform ou sua filha num a vam pira. Essa filha é conhecida com o Lilith, a Escura. Ela se alim enta do sangue hum ano e da fraqueza hum ana. Lilith é agora a rainha dos vam piros, e quer vingar- se de nós. Ela vive do sangue dos m ortais."

 

— Pelo fato de nós, o m undo da Cristandade, considerarm os seu pai um traidor? — perguntou Vitória.

 

— De fato. Não há nom e na Cristandade pronunciado com m ais desprezo e ódio que o de Judas Iscariotes. Outrora um nom e de orgulho, hoj e é um nom e no qual se cospe. Judas se foi, m as Lilith percorre a Terra arregim entando seu exército de vam piros e dem ônios. Ela pretende governar o m undo; sua força é sem pre a nossa fraqueza. É nossa tarefa, nosso legado, m anter Lilith e seus asseclas encurralados.

 

— Ela e sua tia-avó são inim igas há décadas. Lilith sabe que a única coisa que a im pede de dom inar o m undo é Eustácia e seus poderes. — O

 

rosto de Max tinha traços m ais profundos do que de costum e, pensou Eustácia. — Quando sua tia chegou de Veneza pela prim eira vez, Lilith não conseguiu encontrá-la. Ela vasculhou Veneza de cim a a baixo, depois Rom a e Florença... Mandou sua gente a Paris, Madri e Cairo, e aqui para Londres. Passaram -se quase duas décadas até que ela encontrasse a sua tia.

 

As pessoas ligadas a Eustácia m antiveram -na bem escondida e bem protegida.

 

— Você era o m elhor de todos, Max, j ovem com o era. — Jovem e determ inado é o que ele fora. Raivoso porque perdera seus am ados pai e irm ã para um vam piro; e sedento de sangue à sua m aneira. Havia escolhido a senda de Venador.

 

— O que Lilith está fazendo agora? A senhora sabe qual é o plano dela? — perguntou Vitória. Seus olhos castanho-claros não denotavam preocupação ou m edo, com o Eustácia receara. Não, eram afiados e calculistas. E intensos. Por Deus, o Legado havia escolhido bem !

 

Pela prim eira vez em anos, Eustácia sentiu um a centelha de esperança de que em breve poderia descansar em paz.

 

— Para triunfar, Lilith precisa destruir sua tia — disse Max. — Ao m esm o tem po, ela enviou hordas de vam piros e dem ônios por todo o m undo para transform ar em seres iguais a eles a tantos quanto possível.

 

Para se alim entar de seu sangue, eles m ordem o pescoço de suas vítim as, e não seu peito, com o norm alm ente se pensa.

 

— Mas eles deixam um a m arca, não deixam ? — interrom peu Vitória, com a com preensão despontando em seu rosto. — Três X no peito da vítim a. Com o foram encontrados no peito dos cadáveres daqueles hom ens perto do cais. Aquilo foi um vam piro, não foi?

 

— Você está m uito bem inform ada para um a m ocinha — com entou Max.

 

Eustácia interveio depressa:

 

— De fato, você está certa, Vitória, em bora eu não faça idéia de com o você veio, a saber, disso. Três X representam as trinta m oedas de prata com que Judas foi pago para trair Jesus.

 

— O que explica o m edo deles de qualquer coisa feita de prata.

 

Aquele idiota do Quentford com certeza foi vítim a de um dos vam piros de Lilith, e nós tem os trabalhado diligentem ente para evitar que qualquer traço de vam pirism o sej a ligado à sua m orte. Foi sorte dele não ter sido transform ado. Com o você tam bém j á deve saber — disse Max, olhando por cim a de seu longo e reto nariz para Vitória —, se um vam piro se alim enta de um m ortal, geralm ente causa sua m orte; m as se ele, ou ela, escolher, ele pode com partilhar do sangue hum ano e oferecer seu próprio sangue ao hum ano em um a espécie de ritual de acasalam ento. Se isso ocorre, o hum ano é fecundado, ou transform ado, em um vam piro. Portanto um a m ordida de vam piro pode m atar um m ortal ou transform á-lo em um m orto-vivo. E há ocasiões em que nenhum a das duas coisas acontece, quando a m ordida não é profunda o suficiente para m atar. Nosso trabalho...

 

— Nosso trabalho — interrom peu Eustácia — é destruir o m aior núm ero deles enquanto tentam os descobrir o que Lilith está planej ando para tom ar o poder. Sabem os que ela transferiu o grosso de sua corte para Londres; onde está se escondendo, eu não sei e Max ainda não pôde averiguar. Ela está aqui não só porque eu estou aqui, m as porque ela está à procura de algo cham ado o Livro de Anwarth, sobre o qual nada sabem os até o m om ento.

 

— Nós, Venadores, sem pre conseguim os detê-la no passado. No passado, entretanto, não éram os forçados a contar com garotinhas m al saídas do berço — falou Max com incom um estupidez. — Eu realm ente espero que você encontre tem po entre preencher seu cartão de dança e escolher seus vestidos de baile para nos aj udar.

 

Vitória levantou-se de sua cadeira e se postou em frente a Max, que prosseguiu sentado confortavelm ente no sofá.

 

— Preencher m eu cartão de dança? Lorde Max, ou sej a, lá com o devo cham á-lo, saiba que abandonei m inha própria estréia, e perdi um a valsa com o m arquês de Rockley ! Para protegê-lo de um ataque de vam piros. O status de m eu cartão de dança perm aneceu esquecido enquanto eu seguia o senhor e sua acom panhante para fora. .

 

— Proteger-m e. Sim , claro, você estava m e protegendo de m inhas próprias presas afiadas, não estava?

 

— Com o eu poderia saber que o senhor era um Venador? O senhor achou por bem não divulgar essa inform ação até que pudesse cacarej ar de alegria pelo m eu erro! Mas o fato e que eu fiz o que tinha de ser feito! E

 

farei o que tiver de ser feito no futuro!

 

— Vitória, Max! Por favor! Não podem os perm itir que haj a dissensões entre nós neste m om ento! Vitória, você precisa entender: antes de você houve apenas três outras Venadoras no últim o século de batalha contra Lilith. Duas delas tiveram m ortes horrendas pouco depois de serem introduzidas ao Legado e receberem seus vis bullae.

 

— E a terceira está sentada aqui. — Max inclinou sua cabeça em direção a Eustácia. — Não há ninguém que possa ou vá segurar um a vela para a signora, ou, se m e é perm itido dizê-lo, um a estaca. A senhora é verdadeiram ente a Escolhida que vai nos unir e nos liderar na derrocada de Lilith.

 

Vitória voltou-se para Eustácia, estarrecida.

 

— A senhora é um a caça-vam piro? Um a Venadora?

Max riu com desdém .

 

— Não, claro que não. Lilith, a Escura, tem e a sua tia porque ela fica sentada em casa e faz o cabelo diariam ente. É lógico que ela é um a Venadora!

 

Eustácia teve que dar crédito a Vitória; esta não deu a m enor indicação de que escutara o com entário cáustico de Max.

 

— Eu não tinha percebido tia. Pensei que a senhora fosse um a espécie de professora, de guia. Com o Kritanu. Não sabia que a senhora caçava vam piros.

 

— De fato. E você, m inha querida, é a prim eira de m inha linhagem que foi Escolhida. . E que aceitou o fardo.

 

— E essa — disse Max, erguendo-se — é a razão precisa pela qual Lilith, a Escura, tem estado tão determ inada a encontrar esse Livro de Anwarth depressa, antes que você term ine o seu treinam ento. — Seu tom sugeria que ele não entendia por que Lilith considerava Vitória um a grande am eaça. — Agora devo m e retirar, signora. As ruas enluaradas m e aguardam .

 

— Vou pegar m inha estaca — disse Vitória.

 

Max se alongou à sua im ponente altura e olhou para baixo de seu longo e estreito nariz. Ele era verdadeiram ente m agnífico, pensou Eustácia, carinhosam ente.

 

— Agradeço sua oferta de assistência, Srta. Grantworth, m as acredito que serei capaz de lidar com três vam piros sem fazê-la correr o risco de rasgar sua saia ou perder sua boina. E, ai de m im ! Não seria proveitoso se a senhorita por engano enfiasse a estaca em algum guarda noturno. — Ele colocou sua capa e de suas profundezas tirou um a estaca negra de aspecto assustador. — Quando tiver um pouquinho m ais de prática e tiver recebido seu am uleto vis, tenho certeza de que fará suas próprias patrulhas.

 

Dito isso, fez um a pequena saudação e saiu do aposento.

Eustácia estava quase com m edo de virar-se para a sobrinha, sabendo exatam ente o que veria em seu rosto e em sua postura. O que dera na cabeça de Max? Ele não costum ava m edir as palavras, é verdade, e pela expressão de seu rosto, não estava preocupado apenas com três vam piros ordinários. . E, no entanto fora m ais acerbo que o norm al com Vitória.

 

Era quase com o se ele quisesse desencoraj á-la a realizar seu trabalho.

 

Talvez fosse isso. Talvez ele não a achasse preparada para a tarefa.

 

Eustácia acariciou distraidam ente o cabelo negro e cintilante de Vitória. Sentiu a m esm a hesitação em expor sua am ada sobrinha aos m ales do m undo.. Mas a essa altura, ela j á não tinha escolha.

 

Vitória fora escolhida e aceitara seu destino.

 

Agora teriam que confiar que ela seria bem -sucedida.

 

* * *

 

Dois dias depois de Maxim iliano ter se retirado para com bater vam piros, Vitória inventou um a desculpa para substituir um a tarde fazendo visitas por um a visita à sua tia-avó.

 

Era um dia extrem am ente im portante: ela passara na prova enfiando um a estaca em seu prim eiro vam piro, e estava prestes a receber seu vis bulla.

 

Ela estava ali, pronta para dar seu últim o passo rum o a seu destino.

 

Vitória e sua tia estavam num quartinho no prim eiro andar da residência Gardella. As j anelas estavam ornadas com cortinas grossas e a m obília era escassa e sim ples, exceto por um arm ário alto num dos lados do côm odo. O

m óvel, que alcançava a testa de Vitória, ostentava entalhes ornam entais nas beiradas das duas portas que encerravam seu conteúdo.

 

Velas queim avam pelo quarto, e acim a do calor das cham as ervas e água ferviam em fogo brando dentro de pequenos caldeirões, liberando o arom a de verbena e m irra no ar. Um grande crucifixo pendia num a parede, sim ples, m as im ponente, feito de duas longas peças de m adeira encaixadas, sem qualquer ornam entação. Um a grande m esa continha velhos livros em pilhados a esm o, j unto com alguns j arros e potes de ervas, ungüentos e outros itens que Vitória não pôde identificar.

 

— O vis bulla é a ferram enta m ais im portante para o sucesso de um Venador — disse tia Eustácia, sentada em sua cadeira grande e alm ofadada, o único m óvel que parecia confortável. — Hoj e, aceitando o seu, você tam bém aceita o seu destino de pertencer ao Legado Gardella.

 

Você devota sua vida à tarefa de elim inar o m al dos m ortos-vivos desta terra, protegendo m ortais da persistente am eaça de Satanás e seus seguidores. Aceitando, Vitória, é preciso que você entenda: não há com o voltar atrás.

 

— O que aconteceria se eu decidisse não aceitar o vis bulla?

 

Eustácia ficou im óvel, fitando-a com olhos subitam ente penetrantes.

 

— E o que você desej a?

 

— Não, tia. Já tom ei m inha decisão. Aceitarei o Legado. Mas queria saber o que aconteceria.

 

A tia pareceu relaxar.

 

— Se você decidir não ir adiante, passará por um ritual em que todo o conhecim ento que recebeu até agora será apagado de sua m ente, assim com o toda e qualquer habilidade que você tenha para ser um a Venadora, habilidades com as quais você nasceu e que perm aneceram m eram ente inativas até que os sonhos vieram . Essas habilidades e sensações inerentes seriam dadas a outro.

— Alguém j á fez isso?

 

— De fato, sim . Muitas vezes, ao longo dos anos, um rapaz, e em alguns casos um a m oça, escolheram retornar a um a vida de ignorância.

 

— E eles não têm idéia disso? Nada que vissem ou escutassem provocaria suas m entes e faria com que se lem brassem ?

 

— Nada. É para proteger a eles tanto quanto a nós.

 

— Existe alguém . . Que eu conheça que foi escolhido, m as não aceitou o vis bulla?

 

— Sim , Vitória. Sua m ãe foi um a dessas pessoas. E por ter escolhido não aceitar o Legado, os poderes dela foram passados a você.

 

— Minha m ãe?

 

— Si — assentiu Eustácia. — Ela tinha conhecido seu pai e se apaixonado por ele durante sua estréia, quando os sonhos com eçaram a vir. Quando chegou a hora de fazer a escolha, ela escolheu o seu pai.

 

— Há algum tipo de. . Repercussões para alguém que é escolhido e não aceita o Legado?

 

Eustácia tom ou as m ãos de Vitória com suas m ãos frias e frágeis.

 

— A única conseqüência é o conhecim ento perdido, e o fato de que os poderes e instinto passarão para um descendente. E os poderes repassados serão m ultiplicados pelo núm ero de gerações que optarem por renegar o Legado. No seu caso, você é a terceira num a linhagem de pessoas que não aceitaram o Legado, portanto é provável que você tenha grande habilidade e instinto em você.

— A terceira geração? Minha m ãe e quem m ais? Quem ignorou o Legado e perm itiu que ele fosse passado à m am ãe?

 

— Meu irm ão. O pai de sua m ãe, Renald. Eu j á fora Escolhida quando Renald teve os sonhos. Foi bastante incom um duas pessoas com parentesco tão próxim o serem cham adas ao m esm o tem po. Mas m eu irm ão escolheu não aceitar a tarefa, e então sua m ãe fez o m esm o. E aqui estam os nós. Você e eu, Vitória. As únicas Gardella descendentes diretas da linhagem Gardella. Os restantes escolheram ser Venadores, sem terem sido convocados por ordem divina.

 

"Aqueles que não são escolhidos, m as escolhem , precisam realizar grandes e perigosas tarefas... e m esm o assim não há certeza de que serão capazes de aceitar um vis bulla. Mas um a vez que adquirem seu am uleto vis, são tão poderosos quanto nós. Isso não os faz m enos habilidosos que nós, m as j á que som os da linhagem original, carregam os o fardo m ais pesado."

 

— Nós som os os únicos Venadores?

 

— No m undo inteiro há, talvez, cem Venadores. E há m ilhares e m ilhares de m ortos-vivos, e esse núm ero aum enta a cada dia. Nunca podem os descansar desta batalha porque um a vez que relaxarm os nossa guarda, eles aum entarão sua força e poder. É por isso que cham ei Max de Veneza para cá, porque com Londres servindo de fortaleza para Lilith agora, eu sabia que precisaríam os de m ais apoio. O outro Venador que estava aqui na Inglaterra foi m orto há três m eses.

 

— Max é um Gardella? Ele é um Venador de verdade?

 

Eustácia varou-a com olhos tão penetrantes, que Vitória quase deu um passo para trás. Ela nunca vira um a expressão tão feroz no rosto de sua tia.

 

— Max é m ais Venador do que você, Vitória. Ele escolheu esta senda correndo grande risco, e ele é, neste m om ento, o m ais poderoso dos Venadores. . Depois de m im . Mas eu. . Minha artrite e m inha idade deixam -m e lenta. É apenas sua falta de sangue Gardella que o im pede de ser o Escolhido. —- Seu rosto am ansou. — Agora, m inha querida, se você j á saciou o bastante sua curiosidade, traga-m e o Livro que está no arm ário.

 

Seu dedo perpetuam ente retorcido, única parte de seu corpo que entregava a sua idade, apontou na direção do arm ário de m ogno encostado a um a parede em seu salão privativo.

 

Vitória foi até o m óvel polido e cuidadosam ente introduziu nele a pequena chave que sua tia trazia sem pre atada ao pescoço por um a forte corrente de ouro. Clic, clic, clunc.. A chave virou e o cadeado tom bou aberto.

 

Ela nunca fora sozinha até o arm ário antes; e certam ente nunca recebera a chave para destrancá-lo. Vitória se deu conta de que estava prendendo a respiração quando abriu as duas portas com o se fosse o m ordom o conduzindo um grupo de convidados através de portas francesas para a sala de j antar.

 

Dentro do arm ário, exposto de m aneira levem ente inclinada, j azia um velho livro. A Bíblia Sagrada.

 

Era pesado, com corte dourado que teim ava em brilhar a despeito de sua idade. As bordas de couro estavam enrugadas e deterioradas, m as a lom bada estava intacta e três m arcadores de seda desbotada pendiam sem vida.

 

Vitória levou-o para tia Eustácia e colocou-o em seu colo para que a anciã pudesse lê-lo.

 

— Se você cum prir o seu destino, Vitória, será vitoriosa por todos nós — disse ela, rindo suavem ente. — Seu nom e é bem adequado. Talvez sej a m ais um sinal!

 

Ela virou a capa e apontou as palavras escritas à tinta em vários tons de preto, m arrom e sépia.

 

— Estes são os nom es dos Gardella que aceitaram o Legado —

 

explicou ela, tracej ando as linhas com seus dedos retorcidos. — As páginas originais desta Bíblia foram dadas à fam ília durante a Idade Média.

Seiscentos anos atrás. — Ela levantou a vista, com os olhos escuros agudos. — Vej a bem , houve Venadores na fam ília Gardella desde que Judas Iscariotes se enforcou e foi trazido de volta a Terra por Satanás.

 

Mas nós não tínham os lugar para registrar nossa história, até que um m onge transcreveu este livro no século XII. As páginas têm sido encadernadas e encadernadas de novo, e tem os acrescentado m ais páginas no decorrer das décadas.

 

À m edida que sua tia virava as páginas am arronzadas e quebradiças, elas crepitavam com o um a discreta fogueira. Vitória viu im agens em algum as delas; em outras, textos que esm aeciam , linha trás linha.

 

Ilum inuras, ornam entos e ilustrações em cores desbotadas decoravam as prim eiras letras de cada livro da Bíblia.

 

— Este livro contém não apenas a palavra de Deus, m as tam bém os segredos da fam ília Gardella, incluindo as orações e encantam entos que darão poderes ao seu vis bulla. Então, m inha querida, está pronta para com eçar?

 

O coração de Vitória acelerou, m as ela assentiu sem hesitação.

 

— Ótim o — disse Eustácia. — Cham arei os outros. — Diante do olhar surpreso de Vitória, ela continuou: — O poder contido no seu vis não pode ser transm itido apenas por m im . Outros que estão por dentro do assunto e que, em bora não sej am Venadores, são, no entanto, habilidosos e instruídos, aguardam na antessala. Vitória, você precisa deitar-se naquele sofá. Já está traj ada de form a adequada. Venha, deite-se. Vou cham ar os outros.

 

Vitória obedeceu e recostou-se no longo sofá, cuj o apoio para as costas ficava em um ângulo baixo e perm itia que ela esticasse as pernas.

 

Olhou para o vestido de treinam ento que estava usando: era folgado e abotoado do pescoço ao tornozelo.

Depois disso, as coisas com eçaram a acontecer de m aneira ao m esm o tem po rápida e deploravelm ente lenta. Tia Eustácia m ovia-se pelo quarto, que se tornara de repente bem m ais escuro, ilum inado apenas pelas velas.

 

Os outros participantes ficaram nas som bras, m as Vitória reconheceu Kritanu e Maxim iliano, assim com o Briy ani, sobrinho de Kritanu, que tam bém perm aneceu dentro do perím etro. Algo adocicado queim ava no ar e Vitória sentiu-se relaxada e na expectativa.

 

— Com eçarem os agora relem brando o propósito pelo qual nos reunim os. — Eustácia com eçou a falar num idiom a que Vitória precisou de um m om ento para identificar: latim . Os outros se j untaram e o ritual prosseguiu. Os arom as no quarto se tornaram m ais fortes e Eustácia colocou-se ao lado de Vitória.

 

Seu estôm ago encolheu quando tocado pelas m ãos m ornas e retorcidas de Eustácia. Sobreveio em seguida um friozinho quando seu vestido com eçou a ser desabotoado. O seu ventre foi descoberto e, de seu ângulo, Vitória pôde ver a porção de pele que incluía parte de seu abdom e e expunha seu um bigo.

 

— Forj ada com prata na terra do m ais sagrado dos lugares — disse Eustácia —, este vis bulla vai provê-la de força e capacidade de cura incom uns, Vitória Gardella. Dar-lhe-á clareza e poder quando você m ais precisar, na luta contra as doutrinas do m al que am eaçam nosso m undo.

 

Vitória observou Kritanu em purrar um a m esinha para perto de Eustácia, de onde ela pegou um pequeno j arro cheio de um líquido claro.

 

Algo cintilava no fundo do j arro.

 

— Esta peça sagrada, guardada em água benta do Vaticano, extraída da Terra Santa, será sua força. — Mergulhando os dedos no j arro, ela retirou o pequeno obj eto de prata. O vis bulla.

 

Em bora a luz estivesse baixa, Vitória pôde ver facilm ente a pequena cruz de prata que balançava num a fina argola tam bém de prata. A argola era m enor que um anel que ela fosse usar no dedo m ínim o.

Observado por Vitória, Kritanu pegou um a fina varinha de prata, talvez do tam anho de um a palm a e estreita com o um alfinete, suavem ente recurvada em sem icírculo. As m ãos de Kritanu estavam m ornas no abdom e dela, e Vitória sentiu sua respiração acelerar. Com um m ovim ento rápido e preciso, ele pinçou a agulha gentil e agilm ente na pele superior do um bigo. Eustácia entregou-lhe o vis bulla e, com um a pinçada ligeira, ele o colocou no lugar.

 

A cruz prateada estava fria no seu um bigo, m as a dor da perfuração j á estava passando. Tia Eustácia fez o sinal da cruz sobre a barriga de Vitória e então abotoou seu vestido. Os outros participantes entoaram m ais um a oração, depois se retiraram do aposento em silêncio, deixando Eustácia e Vitória a sós.

 

— Pronto — disse a tia. — Este presente é dado a você com o recom pensa por um a vida de dedicação e pelos sacrifícios que você fará.

 

Enquanto este am uleto de força tocar sua pele, você será fisicam ente forte e terá um a cura rápida. Seus m ovim entos serão rápidos e poderosos, sua m ente será aguda e clara. Não tem efeito algum sobre qualquer outra pessoa. Não torna você invencível e nem im ortal.

 

Ela aj udou Vitória a sentar-se e aninhou-a em seus braços com surpreendente força.

 

— Use-o bem , Vitória, e vá com Deus ao realizar este trabalho.

 

3

 

A Srta. Grantworth calcula m al

 

— Nossa adorável debutante atraiu a atenção do solteiro m ais esquivo de Londres! — guinchou a duquesa Farnham num tom nada apropriado para seu título, enquanto m exia na bandej a de guloseim as do chá. — Rockley não conseguiu tirar os olhos dela a noite toda no j antar dos Roweford!

— Ele estava no cartão de dança dela para um a segunda vez, m as Vitória desapareceu por algum a razão ridícula e ele não pôde cobrar a dança — reclam ou Melisande. Ela pegou seu favorito, um bolinho de am ora, e passou crem e por cim a. — Ele parecia bastante desapontado. Não pude encontrá-la em lugar algum , e quando ela voltou, contou-m e um a história boba qualquer sobre haver aj udado um a das garotas a procurar sua capa. — Fazendo sinal de reprovação, deu um a requintada m ordida no bolinho, lim pando o crem e que ficou no canto de sua boca. — Lem brei a ela que sua única preocupação deve ser arranj ar um bom m arido.. E que essas outras m eninas não passam de concorrência!

 

— Não foi nessa noite que o Sr. Beresford-Gellingham desapareceu?

 

— perguntou Petronilha, olhando desconfiada para o prato de guloseim as, com o se um a delas fosse pular em suas m ãos e entrar à força em sua fina garganta. — Já é o terceiro incidente em m enos de um m ês!

 

Winifred, a duquesa, renunciara à tática de Melly de m ordiscar e adotara a do processo único; por isso estava com a boca cheia de biscoitos de lim ão e ela se lim itava a acenar cheia de convicção com a cabeça.

 

Quando ela engoliu e lavou a últim a m igalha seca garganta abaixo com chá, falou:

 

— Desapareceu e não se sabe dele desde então! Ninguém tem idéia para onde foi.

 

— E aquelas pessoas horrivelm ente desfiguradas com Xs no peito!

 

— exclam ou Melly com voz entrecortada. — Deixadas para m orrer perto do cais! Não consigo im aginar o que pode estar causando tal devastação.

 

Petronilha inclinou-se para frente, os olhos azuis faiscando e a voz grave:

 

— Só um a coisa pode causar esse tipo de destruição: vam piros!

Winnie pulou em sua poltrona e engasgou com os biscoitos que tinha na boca, o que a fez tossir. Seu queixo duplo e sua papada balançavam e trem iam enquanto ela observava, com os olhos esbugalhados, por cim a de sua xícara de chá.

 

— Não sej a ridícula, Nilly — disse Melly. — A despeito da m ania de m inha tia louca de carregar água benta e distribuir alho por aí, vam piros não existem . Você está lendo rom ances góticos dem ais.

 

— Decerto os policiais noturnos os teriam detido se fossem vam piros — falou Winnie, recom posta. — Talvez eu deva voltar a usar m eu crucifixo.

 

— Os policiais não conseguiriam detê-los — disse-lhe Petronilha, calm am ente. — Eles têm poderes sobre-hum anos. São m ais fortes que o m ais forte dos hom ens, e possuem um encantam ento ao qual não se pode resistir. — Ela sorriu com placente - m ente e sua expressão ficou sonhadora. — Segundo o livro de Polidori, e todos sabem que ele é um especialista em vam piros, um vam piro pode seduzir um a m ulher apenas com um olhar.

 

— Nilly, você andou bebendo xerez esta tarde? Vam piros não existem ! — exclam ou Melly. — Você está assustando Winnie, e os em pregados vão achar que você é doida se a ouvirem fantasiando sobre criaturas m alignas que nem sequer existem . Tem os coisas m uito m ais im portantes com que nos preocupar, tais com o dar um em purrão no interesse de Rockley por Vitória. Não espero que ele volte a pisar na casa de Alm ack, m as talvez o vej am os em outra ocasião esta sem ana.

 

Winifred aproveitou ansiosam ente a m udança de assunto:

 

— Ele estará no baile dos Dunstead am anhã à noite. Se vocês não foram convidadas, posso providenciar para que sej am .

 

— Fom os convidadas e pretendem os com parecer. E desta vez não tirarei os olhos de Vitória até que ela tenha dançado duas danças com o m arquês! — disse Melly, cheia de determ inação.

— Nós aj udarem os você — disse Winnie, bebericando seu chá sem açúcar. O açúcar tendia a acrescentar quilos indesej ados às coxas, se não se tom asse cuidado. — Se houver vam piros à espreita na escuridão, a últim a coisa que querem os é Vitória dando de cara com um !

 

* * *

 

— Srta. Grantworth... Finalm ente a oportunidade de cobrar m inha dança perdida. — Vitória virou-se ao som da voz cálida, suave, e viu-se face a face com o m arquês de Rockley. Ele tinha um sorriso gentilm ente sedutor e seus olhos azuis de pálpebras pesadas cintilavam de satisfação.

 

— Milorde — replicou ela, devolvendo o sorriso —, que gentileza a sua m e fazer lem brar do m eu com portam ento abom inável da outra noite.

 

Ele deve ter apreciado o senso de hum or dela, pois lhe ofereceu o braço e respondeu:

 

— De que outra form a eu a estim ularia a buscar o m eu perdão?

 

Além do m ais, retirar-se sim plesm ente porque sua tia idosa estava se sentindo indisposta. . Bem , pode-se pensar que essa foi apenas um a razão conveniente para abdicar de sua dança.

 

— Hum — disse Vitória, envolvendo o braço dele com seus dedos —

 

eu não percebi que m inhas desculpas eram tão óbvias. Talvez na próxim a vez eu sej a forçada a inventar um a doença fatal ou algo dessa natureza!

 

— É m inha esperança que a senhorita não inventará m ais desculpas para evitar um a dança com igo, pois lhe asseguro que não pretendo pisar nos seus pés, em bora os m eus sej am três vezes m aiores do que os seus.

 

— Ah, o senhor m e pegou! Foi exatam ente por essa razão que procurei não estar disponível quando chegasse o m om ento de sua dança.

 

Os rum ores de m arcas negras e azuis nos pés de outras debutantes... Bem , são m uito assustadores! Mas agora, ai de m im ! Terei que arriscar a m aciez de m eus artelhos, um a vez que o senhor m e pegou em flagrante.

 

Rindo, ela apertou o braço dele com os dedos, surpresa com a solidez e o calor que sentiu, m esm o por entre suas luvas e o excelente tecido do paletó dele. Observando-o, ela m ais um a vez sentiu um a ponta de fam iliaridade, com o se o tivesse conhecido em outra ocasião.

 

— Parece ser um a valsa, Srta. Grantworth... Lady Melisande, a senhora perm ite que sua filha dance um a valsa?

 

Ele olhava sobre o om bro dela. Vitória virou-se e viu sua m ãe e a duquesa Winnie, que assistiam à conversa dela com Rockley com sorrisos de com placência.

 

— Claro, lorde Rockley, claro! — respondeu, satisfeita, lady Melly.

 

— Espero que aprecie sua dança, m ilorde! — Seus olhos brilhavam .

 

— É lógico que espera — m urm urou Vitória, sendo levada por Rockley.

 

Ela topou levem ente contra ele quando se viraram , e ele a olhou do alto de sua elevada estatura com um sorriso de cum plicidade.

 

— É lógico que ela espera o quê, Srta. Grantworth?

 

— Espera que o senhor aprecie sua dança com igo; m as tenho certeza que o senhor não tem m ais problem as de audição do que eu. Deve ser difícil para o senhor, agora que o esquivo m arquês de Rockley anunciou estar à procura de um a noiva. Todas as m am ães casam enteiras devem estar fazendo fila, m atutando e tram ando para trazê-lo ao aprisco delas.

Eles pisaram na pista de dança da casa do duque e duquesa de Dunstead. Com um m ovim ento ensaiado e flexível, Rockley deslizou o braço no qual ela se apoiava e o colocou ao redor e por trás dela, virando-lhe o rosto para si.

 

— A senhorita não consegue se im aginar nessa situação? — Ele a agarrou pelos dedos e am bos entraram no ritm o da m úsica.

 

— Não, realm ente não consigo. — Ela ergueu o olhar para o dele, que se tornara inquisitivo.

 

— Mas não se encontra a senhorita na m esm íssim a posição? Sendo exposta a todos os m achos j ovens. . E aos não tão j ovens — acrescentou ele, com um sorriso pesaroso — que desej am se casar e gerar um herdeiro?

 

A senhorita decerto deve sentir as m esm as pressões que a sociedade exerce sobre todos nós, solteiros de posição privilegiada.

 

A incôm oda dorzinha no um bigo dela era um lem brete da m aior de todas as pressões. Ela j á executara dois vam piros desde que recebera seu vis bulla; um no baile dos Roweford (que a fizera perder a segunda dança com Rockley, para sua consternação) e outro durante um intervalo no teatro de Drury Lane. Am bas as execuções tinham sido ao m esm o tem po assustadoras e revigorantes. A parte m ais com plicada, no entanto, fora inventar um pretexto para sair de fininho e cum prir sua tarefa. Felizm ente, a tia Eustácia estivera presente nas duas ocasiões e pudera aj udá-la em suas escapadas.

 

Vitória devolveu o sorriso do m arquês.

 

— Posso até sentir as pressões, m as não pretendo sucum bir a elas.

 

Ele ficou perplexo.

 

— A senhorita não desej a se casar? Sua m ãe sabe disso?

 

— Não é que eu não queira m e casar; isso com certeza eu pretendo fazer — explicou ela sinceram ente enquanto ele a rodopiava pelo salão. —

 

É que não desej o ser apressada a tom ar um a decisão que vai m e afetar pelo resto da vida. — Especialm ente desde que ela decidira aceitar o Legado Gardella.

 

Mas isso era diferente.

 

Não era com o se algum a outra m ulher — ou hom em — presente ao baile naquela noite tivesse que fazer um a escolha sem elhante.

 

A surpresa no rosto dele se evaporou.

 

— Posso certam ente entender esse sentim ento, Srta. Grantworth.

 

Não sei ao certo se sua m ãe, que no m om ento nos observa com um olhar inequívoco de quem está tram ando algo, concordaria com a senhorita, m as sei exatam ente com o se sente.

 

Vitória sorriu para ele, um a irrupção de prazer apoderando-se dela ao ser gentilm ente rodada no salão por ninguém m enos que o m arquês de Rockley. Rockley era sem dúvida o solteiro m ais belo, charm oso e rico do baile. E ele a estava olhando com interesse bastante óbvio.

 

— Srta. Grantworth tenho um a confissão a fazer.

 

— Tem ? — perguntou ela, alçando as sobrancelhas delicadam ente.

 

Cada vez que olhava para ele sentia um a leve agitação no estôm ago, um a agitação agradável e repleta de expectativa.

 

— Nós nos encontram os um a vez, há m uito tem po... E não consegui esquecê-la.

— Tenho m esm o a sensação de que j á nos encontram os — replicou ela. — Tam bém tenho pensado nisso... Mas confesso que não m e recordo de quando nem onde foi.

 

— A sua franqueza m e dói, Srta. Grantworth, m as devo lhe contar a história. Talvez refresque a sua m em ória. Algum as das propriedades do m eu pai faziam divisa com Prewitt Shore, a propriedade de sua fam ília, creio. E em um verão, m uitos anos atrás (eu tinha talvez dezesseis anos), estava cavalgando um dos garanhões do estábulo. Um que eu evidentem ente não devia m ontar — acrescentou ele com um a ponta de orgulho — m as é claro, eu era tem erário e m ontei. Vinha eu em alta velocidade por um prado, sem perceber que m e desviara para as terras do vizinho e... Ah, a senhorita está se lem brando, não está?

 

O rosto de Vitória se ilum inou com um sorriso.

 

— Filipe! Eu só conhecia você com o Filipe; você não m e disse que era o filho do m arquês! — A im agem perm anecera com ela; soterrado nos recessos de sua m ente, aquele verão em que ela não tinha m ais de doze anos voltava agora com o se fosse ontem : um rapaz robusto, m oreno, voando pelos cam pos em um dia quente. — Você pulou a cerca e tanto você quanto sua m ontaria levaram um tom bo!

 

Ele riu m elancólico, o m axilar quadrado suavizado pelo m ovim ento.

 

— De fato, e eu paguei pelo m eu atrevim ento. Mas a conheci, a linda garota m orena que correu em m eu auxílio e providenciou para que eu fosse cuidado. E a senhorita ainda perseguiu Ranger, o garanhão, para que ele não voltasse ao estábulo sem m im e contasse a história do m eu infortúnio.

 

Se bem m e lem bro, ao constatar que eu não estava gravem ente ferido, a senhorita passou os dez m inutos seguintes m e repreendendo por m inha tolice. A im agem da senhorita m e olhando de cim a, segurando calm am ente as rédeas daquele grande anim al castanho e m e açoitando com sua língua, ficou com igo para sem pre.

 

Vitória desviou o olhar, tim idam ente.

— Devo ter sido m uito ousada para falar assim com um hom em que eu não conhecia.

 

— Realm ente, e foi essa ousadia, esse destem or, que m e intrigou. Eu não a esqueci Srta. Grantworth, porque a senhorita causou um a im pressão m uito duradoura naquele rapazote. E — acrescentou ele enquanto a m úsica chegava ao fim — ficou claro que a senhorita não perdeu nada de sua ousadia, nem de suas opiniões, nem de sua originalidade.. Pois tenho certeza que não há outra debutante neste salão, ou na alta sociedade em geral, tão pouco preocupada em conseguir um m arido quanto à senhorita.

 

— E eu nunca esqueci o rapaz que cavalgava com tão despreocupado abandono, de um m odo que eu apenas sonhava. Eu invej ava isso no senhor.

 

E m al posso com preender que o senhor sej a aquele garoto! O filho do m arquês... Eu nunca teria percebido.

 

Ele sorriu e o calor voltou ao rosto dela.

 

— Talvez algum dia cavalguem os j untos, Srta. Grantworth. E

 

poderá testar sua habilidade em pular cercas e correr pelos cam pos.

 

Prom eto não contar a ninguém .

 

— É um a prom essa que vou cobrar por sua palavra de cavalheiro.

 

Quando term inaram de dançar, lorde Rockley a devolveu à sua m ãe e lady Winnie.

 

— Estou com sede, talvez a senhorita tam bém estej a. Posso lhe trazer um a lim onada, Srta. Grantworth? E, é claro, lady Melisande e duquesa Farnham ?

 

— Oh, não se incom ode, lorde Rockley — gorj eou a m ãe de Vitória.

— Mas estou certa de que Vitória adoraria beber algo.

 

Vitória piscou furtivam ente para lorde Rockley, m as soltou-lhe o braço.

 

— Perdão, m ilorde, m as vej o que se aproxim a m eu próxim o parceiro de dança. Quem sabe estará com sede m ais tarde?

 

— Claro, m ilady. Estou seguro de que terei sede pelo resto da noite.

 

— Suas pálpebras voltaram a m eio-m astro e ele sorriu de m odo significativo enquanto levava a m ão enluvada de Vitória aos lábios.

 

Lorde Stackley era o par de Vitória para a quadrilha, e ele a conduziu pelos passos com entusiasm o, se não com habilidade. A despeito de ter pisado diretam ente nos pés dela com todo seu peso duas vezes, Vitória m al reparou. O vis bulla não era bom apenas para com bater vam piros... Era um a proteção contra cavalheiros desastrados!

 

Depois do lorde Stackley ela dançou com o barão Ledbetter. Outra quadrilha. E depois com o irm ão m ais velho de lady Gwendoly n, lorde Starcasset, visconde de Clay thorne.

 

Mas foi durante outra valsa, com o alto e esguio barão Truscott, que Vitória sentiu um fam iliar calafrio arrepiar-lhe os cabelos da nuca. Até aquele m om ento ela quase esquecera que havia coisas com que se preocupar além de saber se seus pés estariam intactos antes que a noite term inasse.

 

Enquanto Truscott a rodopiava, nem de longe com a elegância de Rockley, m as com algum a eficiência, Vitória exam inava os dançarinos e os dem ais no salão. Ela não com eteria o m esm o erro de antes, supondo que o predador fosse aquele com m ais aparência de vam piro: alto, m oreno e arrogante.

 

Após um m om ento, ela j á tinha quase certeza que o hom em com cabelo castanho-escuro e nariz um tanto adunco, ao lado de um a m oça que ela não reconheceu, era o vam piro cuj a presença sentira. Manteve um olho no casal à m edida que Truscott abria cam inho entre os outros dançarinos.

Continuar: parte 3 de 4