O Legado da Caça-Vampiro
Para Steve, Holli e Tammy
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Enquanto perm anecessem no salão, a j ovem estaria segura. Daria tem po a Vitória de se livrar de Truscott e descobrir um j eito de apanhar o vam piro a sós.
Ela não podia exatam ente enfiar-lhe um a estaca no m eio do baile.
Coisa curiosa. Aos vam piros não era perm itido entrar na casa de alguém que não os tivesse convidado, ou de alguém substituindo o dono da casa. Reuniões com o este baile na residência dos Dunstead ocorriam por m eio de convites, e apenas para os m em bros da alta sociedade, claro.
Então, com o um vam piro (ou vam pira) tinha conseguido infiltrar-se no baile?
Ela supôs que se devia às idas e vindas da criadagem , e à m ultidão de gente convidada para eventos com o este. Havia m uitas m aneiras de ser
"convidado" para entrar em um a casa... Para algo tão sim ples quanto entregar um buquê de flores ou a posta de carne a ser servida no j antar. E
um a vez oferecido, o convite era perm anente até que o dono da casa o revogasse.
Graças a Deus a dança term inou, m as Vitória ficou consternada quando Truscott deu um j eito de conduzir am bos fora da pista de dança para estar m ais perto da m esa cheia de bebidas e bolos... Exatam ente o lado contrário de onde se encontrava o vam piro, olhando.
Olhando para ela.
Vitória percebeu com um sobressalto que seus olhos frios a focalizavam . Sem piscar. Desafiando-a do outro lado do salão.
Ele então dobrou um dos cantos da boca num m eio sorriso, ainda fitando-a. Um pequeno aceno de cabeça. Em seguida envolveu com o braço a m ulher ao seu lado e com eçou a levá-la em bora.
Um desafio.
Se os cabelos da nuca de Vitória haviam ficado levem ente arrepiados pelo calafrio, agora estavam quase em pé.
— Lorde Truscott, preciso lhe pedir licença — disse Vitória rapidam ente, desvencilhando-se dele e ignorando o copo de lim onada que ele lhe oferecia. — Eu. . Eu acho que um dos laços do m eu vestido se soltou e eu preciso. . Arrum ar.
— Mas Srta. Grantworth...
— Por favor, m e perdoe. — Ela escapuliu tão apressadam ente quanto pôde sem cham ar atenção, em purrando as pessoas pela beira da pista de dança. Teria sido m ais rápido correr pelo m eio dos pares dançantes, m as isso causaria tum ulto. Deus perm itiu que sua m ãe ou as duas cupinchas dela não a vissem !
Ela ficou de olho na cabeça escura do vam piro, o que foi m ais difícil do que quando estivera espreitando Maxim iliano; pois este hom em tinha altura apenas m ediana e se m isturou aos outros convidados. O casal atravessou um a antessala, cam inhando sem pressa, e enveredou pelo que parecia ser um corredor.
As saias de Vitória se enredavam em seus tornozelos e se agitariam no ar se fossem feitas de qualquer coisa m ais pesada do que um chiffon leve. Agachando-se rapidam ente, ela deslizou a m ão para baixo da bainha de sua saia e puxou a estreita estaca de m adeira presa à sua panturrilha.
Ela sentia a estaca sólida e confortável em sua m ão. Esta era m ais fina que a outra usada para m atar o vam piro em sua própria festa de estréia, porém igualm ente poderosa, segundo Eustácia. O truque era, disse-lhe a tia, encontrar um a estaca leve o suficiente para carregar e esconder com facilidade, m as tam bém forte o bastante para não quebrar quando enterrada no esterno do vam piro.
Vitória apressava-se pelo corredor, ouvindo com seus ouvidos e com seus instintos. Ela não tinha certeza em qual quarto o casal desaparecera...
Mas quando o gelo em sua nuca se tornou quase doloroso em sua intensidade, ela parou do lado de fora de um a porta entreaberta.
Ele estaria esperando por ela; m as a dissim ulação não era tão im perativa quanto habilidade e astúcia. Será que ele podia senti-la assim com o ela o sentia? Provavelm ente, senão com o é que a teria conhecido?
Ela abriu a porta com o pé e aguardou. Do seu cam po de visão, no corredor, próxim a à parede, ela podia ver dentro do quarto. Parecia ser um gabinete. Havia um a lareira e diversos sofás grandes cercavam um tapete persa verm elho e laranj a. Um reflexo de m ovim ento cham ou sua atenção e ela observou enquanto a som bra quase invisível se m ovia.
Seria a som bra do vam piro? Ou da vítim a, usada com o isca?
O vam piro podia estar escondido atrás da porta, esperando Vitória.
Ela sabia com o resolver isso. Chutou a porta com força, e esta se abriu, batendo na parede de trás e deixando o quarto inteiro à vista.
— Ah, vej o que nos achou!
A m ulher estava sentada em um dos sofás e o vam piro encontrava-se am eaçadoram ente atrás dela. O coração de Vitória acelerou. Aqui estava ela, cara a cara com um m orto-vivo. Sem a vantagem da surpresa, com o problem a adicional de um a vítim a.
Ela então ouviu passos rápidos, vindos do corredor. E seu nom e, cham ado em voz baixa, m as com urgência:
— Srta. Grantworth? — Meu Deus! Rockley !
Ela pulou para dentro do quarto, bateu a porta, m antendo sua atenção no vam piro, e sua m ão se fechou ao redor da estaca. Respirando fundo, com o Kritanu lhe ensinara, colocou-se em posição de ataque e fitou o vam piro.
— Solte-a! — falou com um gesto de cabeça para a m ulher, que não m exeu um a palha, paralisada de m edo que estava.
— Acho que não — ronronou o hom em . Ele deu a volta no sofá e Vitória de repente entendeu m uito bem o que tia Eustácia quisera dizer ao m encionar a atração exercida pelo vam piro. Essa percepção crepitava pelo quarto, um a atração inexorável em direção a ele. Com o se ele segurasse as cordas dela em sua m ão e as puxasse levem ente.
— Inconscientem ente ela levou a m ão à barriga e tocou seu vis bulla através da textura das saias. A tontura dim inuiu. Seus dedos apertaram a estaca. Ele chegou m ais perto.
Os olhos dele, ainda norm ais, porém brilhantes com um a ferocidade que ela só vira um a vez — em um cachorro louco que tivera de ser sacrificado — nunca se afastavam dos dela. Um sorriso curvava-lhe a boca.
— Então é você. Um a Venadora.
— Você parece ter vantagem sobre m im — redargüiu ela friam ente.
— Mas você não ficará por aqui tem po suficiente para aproveitá-la.
Um a risada grave saiu da boca dele, e ela captou o cintilar de presas.
Os olhos dele se estreitaram , as pupilas se tornaram agulhas e a íris assum iu um a tonalidade entre rosa - pálido e verm elho-rubi.
— Nunca provei um a Venadora antes. Tenho certeza de que será bem gratificante. Totalm ente delicioso.
Sem aviso prévio, ele se atirou sobre ela, m ovendo-se com tal velocidade que parecia ter voado com o um suspiro, e suas m ãos fecharam -se sobre seus om bros, apanhando-a de surpresa. Ela deixou cair à estaca, e ele riu quando o instrum ento tocou suas botas. O seu aperto m achucava; as unhas afiadas cravavam -lhe as partes m acias dos om bros, enquanto ela lutava contra a agonia e o m edo.
Antes dela houve apenas três outras Venadoras no últim o século de batalha contra Lilith. Duas delas tiveram m ortes horrendas pouco depois de serem introduzidas ao Legado e receberem seu vis bulla. Ela preferia m orrer a dar a Max a satisfação de ser a terceira. Vitória inclinou um pouco a cabeça para trás e então golpeou com a testa a cara do vam piro, agradecendo m entalm ente a Kritanu por tê-la feito praticar esse golpe tantas vezes. Ela sentiu o nariz adunco dele sendo quebrado, e a reação dele à dor perm itiu que ela se libertasse. Arrem eteu ao chão e agarrou a estaca lisa de freixo, m as antes que ela pudesse erguer-se, ele se recuperou e j ogou-a no chão.
Saias espum osas cor-de-rosa envolviam -lhe as pernas enquanto ela rolava de costas, então ela encolheu os j oelhos até o peito e chutou com am bos os pés. Atingiu-o em cheio no peito quando ele se inclinava para ela, arrem essando-o contra um a m esinha, que Estava prestes a enterrá-la no peito dele quando algo lhe envolveu o pescoço por trás. Um braço m agro e forte, que term inava em um a luva branca. Saias azuis, um a cor que não com binava com o vestido de Vitória enrolado aos seus pés.
Enquanto o braço a puxava, Vitória atirou sua cabeça para trás, arrebentando a cara da m ulher. Mas o vam piro agarrou-lhe os om bros novam ente, puxando-a em direção a seus dentes arreganhados.
Ela com eçou a dar chutes para todos os lados, não da m aneira calculada que Kritanu lhe ensinara, e sentiu o pânico oprim ir-lhe o peito.
Dois vam piros! Ela fora enganada novam ente!
Vitória sentiu o hálito quente do vam piro no pescoço, sentiu a atração do seu cham ado; a prom essa de que se ela sim plesm ente relaxasse.. Se sim plesm ente se entregasse.. Não haveria dor, apenas prazer. Êxtase. Libertação.
Seu hálito a hipnotizava; seus olhos em brasa a penetravam , prom issores.
Ela sentiu vagam ente um m ovim ento por trás dela, e então o solavanco dele afastando alguém , rosnando de raiva. A m ulher pensou no fundo de sua m ente. Ele m e quer para si.
A m adeira lisa deslizou por entre seus dedos. Ele respirou novam ente, drenando-lhe as forças. A m ente dela enevoou-se.
Ela fechou os olhos.
4
A sede do m arquês perm anece insaciada
Maxim iliano passou trom bando pelo m ordom o, que o teria anunciado se tivesse recebido a chance, e desceu com pressa a vasta escadaria na residência dos Dunstead.
Dois vam piros Guardiões à solta e aqui estava ele, caçando um a Venadora novata, que estava m ais preocupada em preencher seu cartão de dança e alternar-se entre alm ofadinhas do que em m anej ar um a estaca.
Apenas a chance ínfim a de que os vam piros a encontrassem prim eiro convencera-o a alertar a Srta. Grantworth, localizando-a em um baile cretino.
Um a rápida olhada pelo salão abarrotado m ostrou-lhe que ela não estava participando daquela valsa ridícula. A sua nuca perm anecia neutra; nenhum vam piro nas proxim idades. Franzindo o cenho, Max passou em purrando um m agote de debutantes risonhas que o encaravam por trás de leques em todos os tons de rosa. Lançou-lhes um a carranca a fim de afastá-las, m as algum as delas o olharam fazendo bico, com prom essas nos olhos.
Malditas inglesas idiotas! Nada na cabeça a não ser o que um hom em tem em sua carteira ou nas calças. Ou am bos. Não adm irava que tantas delas fossem alvos de vam piros: eram fáceis de identificar.
Ele foi abrindo cam inho aos em purrões pelo salão. Tinha vontade de cair fora, voltar para a rua e rastrear os Guardiões, m as tam bém tinha que inform ar Eustácia de que fizera o possível para localizar Vitória. Ele percorreria todo o perím etro do salão, daria um a olhada no terraço, j á que não era im provável que a virginal Srta. Grantworth encontrasse um a desculpa para passear sob o luar. . e então iria em bora.
Fizera o circuito e nem sinal de sua presa; estava prestes a pisar no terraço quando sentiu um a leve brisa gelada na nuca. Max parou. O
calafrio era fraco, quase inexistente; m as com o não havia corrente de ar e sua nuca estava encoberta por um a saudável quantidade de cabelo, não havia com o equivocar-se. Ele olhou em volta, esquadrinhando o salão novam ente e depois o corredor que prosseguia após cinco degraus.
Ali!
Ele galgou os degraus e cruzou o corredor, que fazia um a curva depois de apenas três portas. Com os cabelos de sua nuca agora arrepiados, ao m enos ele sabia que estava no cam inho certo. O fato de Vitória não se encontrar no salão intensificava sua preocupação: ou ela estava com o vam piro — ou vam piros — ou lá fora beij ando um de seus pretendentes.
De um a form a ou de outra, Max teria que lidar com a situação.
Um a Venadora novata não era páreo para um vam piro Guardião; que Deus a protegesse se ela estivesse lutando contra dois!
Enquanto se precipitava pelo corredor, viu um dos alm ofadinhas por quem Vitória se derretera no baile dela.
— Srta. Grantworth? — cham ava o hom em , abrindo um a das portas.
Ou tinha um encontro m arcado com a garota ou a estava perseguindo num encontro dela. Não im portava, Max tinha que se livrar dele, pois era óbvio que Vitória estava por perto.
— Por acaso o senhor está procurando a Srta. Vitória Grantworth?
— perguntou Max polidam ente, disfarçando sua aflição. Sua nuca estava congelada.
O hom em , um tal m arquês de Rockford ou coisa que o valha, em pertigou-se com o se tivesse sido pego com a m ão no corpete de um a dam a.
— De fato, estou — respondeu, fitando-o com um a ponta de desafio nos olhos profundos.
— Acho que acabei de vê-la andando naquela direção.. parecia estar voltando à pista de dança — disse-lhe Max. A últim a coisa que precisavam era da introm issão de um suj eito m etido a herói, exatam ente o que aquele m arquês de Não Sei das Quantas parecia ser. — Ela estava com m uita pressa.
O m arquês m ediu-o de cim a a baixo e curvou levem ente a cabeça.
— Obrigado ao senhor.
Max m al esperou que o suj eito fosse em bora para seguir apressadam ente pelo corredor. Seus instintos o guiavam e ele soube quando encontrou a porta certa.
Escancarou-a e entrou correndo, puxando um a estaca do bolso.
Chegou bem a tem po de ver um vam piro se pulverizando no outro lado do quarto; m as não teve chance de assim ilar os detalhes, pois um segundo Guardião virou-se quando ele irrom peu porta adentro e voou para ele com espantosa velocidade. Max a deteve no pulo enterrando-lhe a estaca no peito, e a vam pira, com um puf, se foi.
Fechando a porta atrás de si, pois tudo acontecera tão rápido que ele a deixara escancarada, Max adentrou o quarto e inspecionou a cena.
Vitória estava num em aranhado de saias no chão, m as com eçava a se levantar quando ele se aproxim ou. Seu cabelo preto encaracolado ainda estava preso atrás de sua cabeça, entrelaçado com arrebiques que pareciam lam pej ar quando ela se m exia. Um grosso saca-rolha se desprendera e caíra sobre um om bro branco. O delicado tecido de suas saias estava irrem ediavelm ente am arfanhado, e sua bela pele inglesa apresentava um brilho m ais pálido que o norm al.
— Maxim iliano — disse ela procurando endireitar-se, apoiando-se no recosto de um sofá. Ele notou que a m ão dela trem ia um pouco ao afastar um a m echa de cabelo dos olhos. — Quão fortuito você chegar a tem po de ver m inha grande façanha. Ou — continuou ela, baixando o queixo e olhando-o por entre os cílios — você veio m e resgatar? Lorde Crava-Estacas salvando a donzela indefesa?
Ela estava branca. E o leve trem or de sua voz entregava sua tensão.
E..
— Porca m iséria! — Max estava a seu lado e rudem ente afastou os revoltos cachos negros que escondiam . . — Você foi m ordida!
— Aiiii! — Ela se retraiu ainda apoiada no sofá. — Estou perfeitam ente ciente disso. . e dói, portanto não m exa!
Maxim iliano ignorou a resposta e puxou-a para perto de um dos lam piões a gás a fim de ver m elhor.
— Ele não sugou m uito. — Max alisou levem ente a pele m orna de Vitória, sentindo a batida ritm ada de um a veia sob seus dedos ásperos.
Quando afastou a m ão, percebeu que um a m ancha rubra coloria seus dedos. — Maldição!
Enfiou a m ão no bolso e rem exeu lá dentro até puxar um frasco.
— Não se m exa Vitória! — disse ele com aspereza, girando a rolha da am pola. Em purrou-lhe a cabeça para o lado de m odo bem pouco gentil a fim de ver a ferida. Antes que ela pudesse reagir ele j á havia salpicado água nos quatro pequenos círculos verm elhos.
Vitória guinchou de dor e afastou-se de um pulo, apertando a m ão sobre a ferida.
— O que você está fazendo?
— Lavando a m ordida com água benta e sal, é claro. Sim , arde m esm o, m as é o único recurso a esta altura. Você vai ficar bem , m as preciso levar você até Eustácia im ediatam ente. Ela tem um ungüento. .
— É claro! Eu sei disso! — O olhar com que ela o fitou era m ortal.
Largou o sofá e chacoalhou as saias. — Meu vestido está arruinado! Não posso sair daqui e voltar à festa nestas condições! Todos vão pensar que. .
bom , vão pensar o pior!
Max fechou a boca. Quando falou, seu m axilar estava retesado.
— Vou pegar a sua capa..
— Não, você nunca conseguirá encontrá-la. Vou com você e nós poderem os cobrir o m eu vestido. Mas a m inha m ãe...
— Eustácia m andará a ela um bilhete explicando — replicou Max, conduzindo-a até a porta. — Venha, nós tem os tem po, m as não m uito. A água benta salgada vai apenas retardar o veneno do Guardião por um curto período de tem po. — Ele a em purrou para fora do quarto e seguiu o cam inho indicado por ela corredor abaixo, de volta ao salão.
Quando ela encontrou sua capa e deu um j eito de cobrir o vestido, ele aproveitou para aj ustar-lhe o aplique de cabelo, encaixando-o firm em ente na gola da capa para esconder a m ordida.
Mom entos depois, ele a conduzia pelo salão, desviando de qualquer um que parecesse ansioso para conversar, quando surgiu o m arquês de Rockford. Vitória congelou; Max pôde senti-lo por toda a extensão do braço que ele vinha usando para direcioná-la em m eio à m ultidão.
— Srta. Grantworth. E.. hã.. hum . — Ele encarou Max fixam ente.
— Eu a estava procurando.
— Lorde Rockley — disse Vitória, num tom gentil que Max j am ais escutara em qualquer conversa com ela —, peço desculpas por desaparecer, e lam ento ainda m ais que estej a sendo cham ada à cabeceira da m inha tia-avó. Ela está doente de novo.
Rockley — então esse era o nom e dele — olhou para Max novam ente, e de volta para Vitória.
— Entendo. Bem , milady, lam ento não ter conseguido m atar sua sede hoj e. Boa noite.
— Milorde, espere! — Vitória largou Max e agarrou o braço do m arquês. Ele parou e olhou para ela; e até m esm o para Max ele pareceu frio e distante, em bora certam ente um a das m ulheres m ais lindas do salão o estivesse puxando. — Perm ita lhe apresentar o secretário particular de m inha tia, e m eu primo — Max reparou que ela enfatizara a últim a palavra
— Maxim iliano Pesaro. Ele veio m e levar à presença dela. Urgentem ente.
Rockley m ediu Max de novo com o olhar e deu-lhe um aceno de cabeça quase im perceptível.
— Filipe de Lacy, m arquês de Rockley, às suas ordens. . hã. . senhor.
A paciência de Max se esgotara. Os rapapés da sociedade e o flerte entre um a debutante e um alm ofadinha com título de nobreza nada significavam no grande esquem a das coisas, a saber, que a adorada sobrinha de Eustácia Gardella carregava um a m ordida de vam piro no pescoço.
— Muito prazer. Vitória devo insistir para irm os em bora. Sua tia está em um estado desesperador.
Para a surpresa de Max, Vitória perm itiu que ele praticam ente a arrastasse; ela quase precisou correr para acom panhar-lhe os passos largos, m as o fez com um m ínim o de queixa.
— Você parece não ter noção de quão pouco tem po dispom os para rem ediar a situação em que você tão tolam ente se colocou — rosnou ele, enfiando-a na carruagem que os aguardava.
Vitória tropeçou na entrada e engatinhou até um canto afastado, recolhendo suas saias e capa. A despeito de sua em páfia ao vê-lo, ela estava horrorizada com a possível conseqüência de sua fraqueza. No entanto, recuperou-se bem rápido.
— Suponho que terá alguns com entários desagradáveis para fazer sobre o m eu infortúnio — disse ela quando a carruagem desatou a cam balear. — Sobre m eu fracasso com o Venadora. Mordida por um vam piro. Que grande piada para você!
Max a fitava de seu assento do outro lado da carruagem . Um a pequena lam parina pendurada no canto j ogava um a luz suave no interior, suficiente para que ela pudesse ver a boca dele fechada num a linha fina.
Ele hesitou apenas por um instante, e então arrancou seu lenço, que estava perfeitam ente aj eitado, j ogando-o com brutalidade para o lado.
Vitória observou, estarrecida, enquanto ele desabotoava o colarinho e o abria, exibindo seu pescoço. Ele virou para um lado, puxando o tecido, e quatro pequenas m arcas ficaram à m ostra.
Com um olhar im passível ele virou para a direção oposta e m ostrou o outro lado de seu pescoço, quase na j unção com o om bro. O lado que ainda não cicatrizara totalm ente.
— A razão pela qual carrego um frasco com água benta salgada.
Ele se recostou no assento e virou-se para a j anela. Vitória fechou a boca e não disse m ais um a palavra.
***
Ela não podia esquecer o quão facilm ente sucum bira à sedução do vam piro. Quando os lábios dele haviam tocado o seu pescoço, ela am olecera e se deixara dom inar. Os dentes dele, afiados com o agulhas, haviam brincado ali, arranhando gentilm ente sua pele, acariciando, espetando-lhe a veia enquanto ela j azia em seus braços, m aleável com o um punhado de cera.
E então, assim que ele afundou suas presas na pele dela... enquanto o doloroso prazer a invadia e a inundava.. ela reuniu os últim os traços de realidade que ainda adej avam na sua m ente e fechou dedos ao redor da estaca. Ele gem eu em êxtase, e ela golpeou.
Puf!
Ele estava m orto e, de repente, Maxim iliano estava lá. E agora ele a trouxera à casa de tia Eustácia.
— Os Guardiões a haviam encontrado quando cheguei — explicava Max enquanto em purrava Vitória para dentro do salão. O pescoço dela ainda latej ava, graças a m ais um a generosa aplicação da água benta salgada de Max durante o traj eto na carruagem , conduzida por Briy ani.
— Guardiões? — perguntou Vitória sendo levada a um a poltrona.
Afundou-se nela e ficou sentada placidam ente, enquanto Eustácia e Kritanu afobavam -se pela sala, preparando um a coisa com cheiro horrível que, segundo ela im aginava, seria espalhada sobre a m ordida. Ou, pior, que ela teria de beber.
— Vam piros Guardiões — falou Kritanu com sua entonação gentil.
— Ferozes e leais a Lilith, são sua guarda de elite. Ela própria converteu cada um deles; são seus criados particulares. Muitos deles são m ortos-vivos há séculos, ou m ais. Você pode distinguir um Guardião pela cor de seus olhos: não são tão verm elhos com o sangue, m as rosa - escuro. Vitória assentiu com a cabeça.
— Essa é a única coisa que os diferencia dos dem ais vam piros?
— Guardiões carregam um veneno em suas presas, diferente de outros vam piros e Im periais. Pode causar a m orte, m esm o num Venador.
É por isso que Max estava tão determ inado a trazer você de volta, sem delongas.
— Im periais? O que são eles? — perguntou Vitória. — Vocês não m e disseram que havia tipos diferentes de vam piros.
— Guardiões e Im periais não são com uns, e com o você tem tanto que aprender achei necessário concentrar seu tem po em ensiná-la a com batê-los, e deixar para ensinar outros aspectos dos m ortos-vivos com o tem po — confessou Eustácia. — Vej o que prestei um desserviço ao tentar não sobrecarregá-la, Vitória. Você poderia ter estado m ais bem preparada para reconhecê-los hoj e à noite.
— Im periais são os vam piros m ais velhos — explicou Kritanu com doçura. — Muitos deles têm séculos, até m ilênios de idade. Carregam espadas e podem voar, ou m over-se com tal velocidade que parecem voar.
Seus olhos são de um verm elho-escuro arroxeado, e em bora não tenham o veneno dos Guardiões, são os m ais tem íveis de todos os vam piros. E os m ais raros.
— E é por isso que não achei que você precisasse saber disso tão cedo. — Eustácia olhou para Max. — Não esperava que eles fossem tão ousados. Geralm ente os Guardiões perm anecem próxim os a Lilith; e Max não luta com um Im perial há dois anos.
— Era óbvio que estavam procurando Vitória; foram atrás dela no baile.
— Você os executou? — perguntou Eustácia ao inclinar-se para o pescoço de Vitória, aproxim ando tanto a lâm pada, que esquentou sua pele.
— Fez bem , Max — acrescentou ela, passando os dedos sobre a área inchada. — Graças a seu raciocínio rápido isto será bem m enos doloroso.
— Vitória enterrou a estaca no vam piro que a estava m ordendo. Eu m atei o outro. — Max parecia concentradíssim o na página de um livro aberto. A página fez barulho ao ser virada.
Eustácia olhou Max e depois Vitória.
— Você enterrou a estaca no Guardião que a m ordeu? Sorprendente!
Kritanu, o ungüento.
— Sim . . estavam am bos m e atacando, m as ele em purrou a m ulher para longe. Aí, quando ele.. — Ela olhou de relance para Max, aparentem ente tão desinteressado quanto se ela estivesse descrevendo um novo vestido. Não obstante, ela baixou a voz. Não queria que a profundidade de sua fraqueza fosse tão. . evidente. — Quando ele se inclinou para m e m order... eu o deixei! Ele.. m e hipnotizou, eu acho. Senti que ele m e puxava e.. aiii! — berrou, sem dar-se conta do som horrendo de seu grito. Aquele ungüento doía.
Ele não era apenas frio e com um fedor pútrido; tam bém ardia com o se escavasse dentro de sua pele. A queim ação era dez vezes pior que a água salgada de Max, e Vitória não pôde reprim ir as lágrim as de dor.
— Eu sei que é desconfortável, m inha querida, m as isto dim inuirá m uito a cicatriz e destruirá a m aior parte, senão todo o veneno do Guardião. Com sorte, ficará parecendo m anchinhas com uns de pele. E
j untando ao fato de que você executou o vam piro que fez isso, eu diria que não haverá efeitos nocivos.
Vitória resistiu ao ím peto de olhar para Max, que j á virará m ais três páginas. Ele havia abotoado de novo seu colarinho e am arrado de novo sua gravata. Mas ela se lem brou das cicatrizes em seu pescoço. Eram m uito m ais visíveis que um a pequena m ancha. O hom em tinha sorte de que colarinhos altos e engom ados estivessem na m oda.
Eustácia foi lavar as m ãos e Kritanu gentilm ente em balou o pescoço de Vitória com um pano, cobrindo a pasta que ainda doía com o se estivesse consum indo sua pele.
— Respire fundo e devagar, para dentro e para fora — disse ele em voz baixa. — Para dentro e para fora. Vai aj udar a dim inuir esse incôm odo.
Vitória fez o que ele sugeriu e, realm ente, a dor dim inuiu.
— Você deve dorm ir aqui, hoj e — disse-lhe Eustácia. — Já m andei um aviso à sua m ãe na casa dos Dunstead, para que ela não se preocupe.
Vou dizer-lhe que eu m andei a carruagem buscar você, pois se bem conheço Melly, ela vai ter um troço se souber que você andou de carruagem sozinha com Max.
Ela segurou as m ãos de Vitória.
— Você cravou a estaca num Guardião enquanto ele estava m ordendo você. Se eu tivesse qualquer tipo de reserva com relação à sua vocação de Venadora, Vitória Gardella Grantworth, ela não existiria m ais.
Na verdade, eu suspeitava desde o início que você era especial. Agora sei que você é. Se alguém pode deter Lilith, é você.
5
A Srta. Grantworth encontra um a aliada inesperada
— Milady! A sinhora foi m urdida por um vam piro! — Os olhos de Verbena se esbugalharam no espelho por cim a do om bro de Vitória. Com sua cara redonda e o abom inável cabelo crespo e ruivo, a em pregada parecia um bebê recém -desperto.
Antes que Vitória pudesse responder, ou m esm o com preender com o sua em pregada reconhecera a m ordida, Verbena se inclinou para olhar m ais de perto.
— Parece que vai cicatriza direitim — disse ela, com ar sábio. — A sinhora coloco água benta salgada nela, né?
— Verbena, com o é que. . — Vitória se recom pôs. — Você não está nem chocada!
— Não, milady, e por que estaria? Com toda essa bagunça de crucifixo e estaca por aí, e a cruz que a sinhora tem na barriga, que tipo de em pregada eu seria se não prestasse tenção nessas coisa? Eu tava esperando a sinhora m e pergunta cum e qui faz pra esconde alho nas suas luva!
— O cheiro não seria nada agradável — respondeu Vitória lentam ente. Queria chacoalhar a cabeça para pensar m elhor, m as não achou que isso aj udaria.
— E por que a sinhora não carrega sua própria água benta salgada, eu m e pergunto. E cum e que a sinhora acabou sendo m urdida? Eu achava que os Venadô num era m urdido!
— Com o você sabe que eu sou um a Venadora? — Cansada de olhar a criada pelo reflexo do espelho, Vitória virou seu banquinho e encarou-a.
Verbena cutucou seu abdom e com o dedo.
— A sinhora tem o sinal, uai!
— Mas com o você sabe dessas coisas todas? Vam piros e Venadores?
Verbena deu de om bros.
— Quem não sabe? Dos vam piro, quero dizê. Todo m undo sabe, só que prefere acredita que eles não existe. Eles acredita quando são m urdido, m as aí é tarde dem ais, na m aioria dos caso. Todo m undo sabe que tem que enterra um a estaca de m adeira no coração deles, e todo m undo sabe do crucifixo e da água benta. Eu sei que a m aioria das pessoa acha que os vam piro são gente feia e assustadora que enfiam as garra no peito dos outro, m as não é assim , não. Já vi um a m urdida antes, ô se vi! Meu prim o de segundo grau, Barth, ele sabe um m onte sobre vam piro, e ele m e conta um as história desde que eu era criança. E ele vê vam piro o tem po todo, nuns lugar que nem St. Giles. Ele carrega um crucifixo grandão, ô se carrega! Leva ele bem na frente quando anda na rua. Ele fica m uito engraçado andando assim , m as é m elhor andá seguro do que andá elegante.
Aparentem ente, quando Verbena com eçava a falar, não parava m ais.
— Bem , Verbena, devo dizer que é m uito bom você estar tão... hã..
acostum ada com a idéia, pois isso tornará as coisas m uito m ais fáceis para m im . É claro que lady Melly não pode saber nada sobre isto.
— Sim , milady— concordou Verbena, acenando com a cabeça. —
Sua m ãe teria um treco e despacharia a sinhora para o cam po de vez. E aí o que seria da gente? Não tem vam piro no cam po, que eu saiba. E eu j á andei pensando em outras m aneira de penteá o seu cabelo pra m ódi pode coloca um a estaca dentro dele, pra sinhora tirá ela com facilidade quando precisa.
"E acho que tem até j eito de coloca duas, porque vai que a sinhora perde um a, e aí faz o quê? A sinhora é sortuda de tê esse cabelão todo, dá pra fazê m uita coisa com ele. E até essa m urdida cicatriza, bom , milady, vai sê um desafio com essas roupa da m oda que m ostra o pescoço e os peito tudo, m as eu tenho um as idéia -e vam o dá um j eito na coisa. Pode deixa que eu cuido disso.
— Sim . — Vitória virou-se de volta para o espelho. Depois daquilo tudo, o que m ais ela poderia dizer?
* * *
— Aprecio a devoção dela pela tia, m as se Vitória continuar a desaparecer em m om entos inoportunos, vai perder todas as chances de conquistar o m arquês, ou qualquer outro contrato de casam ento vantaj oso!
— Lady Melisande andava de um lado Para outro na sala de estar de Grantworth House.
— Ora, Melly, não faça escândalo — instou Petronilha. —
Obviam ente o fato de a sua antessala e salas de estar se encontrarem repletas de flores indica que Vitória despertou interesse em m ais de um noivo em potencial!
— De fato, m as nenhum a delas veio do m arquês de Rockley ! Ele não a visitou hoj e, e tem o que ao deixar o baile cedo ontem à noite Vitória tenha esfriado o interesse dele.
Winifred pegou um biscoito de gengibre, e um grande crucifixo fez barulho contra seu peito quando ela se recostou de volta.
— Você disse que sua tia está doente?
— Não sei, m as ela m andou seu am igo Maxim iliano Pesaro buscar Vitória ontem à noite, alegando estar doente. Não quero interferir, pois m inha tia tem um a vasta fortuna que vai deixar para nós.. e. . bem , ela pode ser m eio assustadora. . m as o m om ento não podia ter sido m ais inoportuno para levar Vitória em bora!
— Maxim iliano Pesaro? Não creio que o conheça — com entou Winnie, olhando com interesse o glacê de lim ão na bandej a de biscoitos de chocolate. Ela tinha que selecionar com cuidado, por m edo de escolher um com m enos glacê. — Quem é ele?
— Era aquele hom em assustadoram ente alto que atravessou o salão depois do j antar com o se estivesse num a m issão im portante. Um tipo m oreno com um a expressão que quase fez m eu coração pular do peito! —
respondeu Petronilha, apertando o peito com o para m anter o órgão no lugar. — Ele parece terrivelm ente perigoso. Com o um pirata!
— Pelo m enos você não disse que ele parece um vam piro. — Melly sentou-se em sua espreguiçadeira favorita. — É um am igo pessoal da m inha tia, e chegou recentem ente da Itália. Talvez há uns seis m eses.
— Ele poderia ser um vam piro — considerou Petronilha, com os olhos brilhando. — Pergunto-m e se não será! Sua tia parece saber m uito sobre eles.
— Com ecei a carregar alho na m inha nécessaire, por recom endação da sogra da irm ã do m eu m ordom o — confessou a duquesa. — Não desej o ser um a vítim a daquelas criaturas!
— Um a duquesa carregando alho. Que ridículo! — riu Melly. —
Winnie, vam piros não existem . Inclusive, a últim a que m e foi contada por m eu prim o, lorde Jellington, é que os policiais acreditam que aquelas pessoas encontradas m ortas no cais foram atacadas por algum tipo de cachorro louco, e as garras deixaram aquelas m arcas que as pessoas pensam que são Xs. Eles m ataram um deles a tiros dois dias atrás, e não houve m ais ataques desde então.
— E as pessoas que desapareceram ? Beresford-Gellingham e Teldford?
Melly depôs sua xícara de chá de m aneira abrupta.
— E o que é que você acha que aconteceu com eles, Winnie? Que eles próprios viraram vam piros? Isso é um absurdo! Beresford-Gellingham provavelm ente se m andou para o continente para fugir dos credores, e Teldford é burro o suficiente para ter tropeçado e caído no Tâm isa para nunca m ais ser visto. Só porque desconhecem os o paradeiro de duas ou três pessoas, não significa que existam vam piros por aí!
— Minha em pregada m e contou que ouviu falar de um a m ulher que foi visitada por um vam piro no seu dorm itório — m urm urou Petronilha com a m ão trêm ula ao pescoço. — Ela disse que não foi nem um pouco assustador. . que ele era m uito gentil e... ardente.
— Gentil até chupar todo o sangue dela com suas presas! —
exclam ou Winnie, chocada. — Nilly, eu lhe garanto que não seria nenhum a festa que um a criatura chupasse o sangue do seu peito!
— Eu concordaria se acreditasse que eles sequer existem . Agora chega desse assunto ridículo! Digam -m e o que devo fazer para assegurar que Rockley recuperará seu interesse por Vitória — disse Melly, esquecendo seu hábito de petiscar. Ela enfiou um biscoito inteiro de gengibre na boca.
* * *
— Rockley foi tão atencioso ontem à noite, e a m aneira com o ele falou sobre pegar um a lim onada para você e ter sede a noite inteira. . bem , eu tinha certeza que ele convidaria você para um a segunda dança, Vitória.
Não consigo im aginar o que pode ter acontecido — disse lady Melly, enquanto se acom odavam na carruagem aquela noite.
— Eu tam bém não, m am ãe — m entiu Vitória.
— A m enos que aquela garota, Gwendoly n Starcasset, o tenha fisgado novam ente. Ele j á dançou com ela duas vezes no baile de lady Florina, há três sem anas. — Melly estreitou os olhos e franziu os lábios.
— Você tem que se esforçar m ais para atrair a atenção dele, Vitória. A m enos que algo o tenha desagradado, e não im agino o que possa ser você não terá problem as em ganhar de novo a atenção dele. Ele acha você m uito atraente; não tirava os olhos de você enquanto você dançava com aquele horroroso lorde Truscott, sobre quem eu j á a alertei.
— O lorde Truscott não era tão horroroso.
— Hum pf! Ele não tem nem o dinheiro nem a aparência de Rockley.
Realm ente espero que você sej a atenciosa com ele na próxim a vez que o verm os em algum evento. Acho que você não devia ter saído do baile tão cedo na noite passada.
Vitória assentiu. Um a vez que sua m ãe se m etia a tram ar algum a coisa, não havia com o dissuadi-la. E, aparentem ente, lady Melly estava determ inada a transform ar sua filha e o m arquês em um casal.
Para ser honesta, Vitória tinha de adm itir que a idéia lhe agradava.
Dançara com Rockley várias vezes, conversado com ele em outros eventos sociais, e não via defeitos no m arquês. Ele era gentil, charm oso, inteligente e am ável, assim com o fora naquele verão, tanto tem po atrás, quando ela o conhecera apenas com o um m oço despreocupado e coraj oso. Eles haviam se encontrado todos os dias durante um a quinzena, e ele nunca dera indicação algum a de ser m ais que um garoto do vilarej o. Ele a achava interessante, original e a havia procurado, com base nessa lem brança que guardara dela. Isso significava algo, não?
Ou talvez a lem brança que ele tinha dela era tão perfeita — em bora ela não percebesse o que havia de perfeito num a m enina dando-lhe broncas
— que a realidade do que ela era hoj e, um a j ovem dam a, não com binava com o que ele se lem brava. Talvez ela fosse um a decepção.
Pelo m enos ele não tinha tentado atraí-la para um quartinho isolado e enfiado sua língua na garganta dela, ou a m ão dentro do seu corpete, com o o visconde de Walligrove fizera no j antar dos Terner-Fordham , duas noites atrás. Vitória lidara m uito bem com aquele devasso de lábios inchados. Ele nem percebeu o que o havia atropelado quando ela utilizou alguns golpes de kalaripayattu ensinados por Kritanu. Com binadas com a força extra advinda do vis bulla, as técnicas de defesa de Vitória deixaram o visconde estatelado no chão com um olho roxo, o nariz quebrado e um tornozelo deslocado.
Talvez no futuro ele pensasse duas vezes antes de agarrar um a garota inocente.
— Terem os que procurar outra criada para você, Vitória —
continuou lady Melly, m udando com pletam ente de assunto. — Aquela garota, Verbena, é m uito descuidada em seu trabalho.
Olhe para você, seu cabelo j á está desm ontando, e nós ainda nem chegam os à casa dos Straithwaite!
Ela se inclinou para a filha, tentando pegar o grosso cacho sobre o om bro de Vitória.
— Mam ãe, por favor — disse Vitória, tentando esquivar-se, em bora isso significasse esprem er-se ainda m ais no canto do assento que dividia com a m ãe e am arfanhar suas saias. — Não tenho necessidade algum a de substituir Verbena. Ela arrum ou m eu cabelo assim de propósito; eu queria experim entar um novo estilo. Talvez lancem os um a nova m oda. — Ela sorriu, brincando com a ofensiva m echa de cabelo para assegurar que cobrisse as quatro m arcas verm elhas em seu pescoço.
— Hum pf! — Lady Melly recostou-se no assento. — Não posso dizer que gosto do estilo, m as até que é bom ser original. Se você precisa ser original para atrair a atenção de Rockley, então sej a. Suponho que o sarau dos Straithwaite sej a um dos m elhores lugares para se estrear um novo estilo, se é que existe tal lugar.
Vitória não podia discutir. Lorde Renald e lady Glória Straithwaite eram prim os distantes de lady Melly, e todo ano exibiam o considerável talento m usical de suas quatro filhas num a perform ance cuidadosam ente coreografada para m ostrar o m elhor delas. A m ais velha ficara noiva na últim a tem porada, e os Straithwaite claram ente pretendiam continuar nessa direção.
Com o as filhas Straithwaite eram triplam ente dotadas — com talento, fundos e curvas — o sarau era bem freqüentado pelos solteiros da alta sociedade em busca de casam ento.
Pouco depois de chegar a Stim m ons Hall, Vitória viu-se sentada no salão de baile. Naquela noite haveria m úsica, m as não dança. As filas de cadeiras e alguns sofás ao longo das paredes laterais deixavam claro que toda a atenção seria concentrada nas quatro irm ãs Straithwaite.
Ela não pôde evitar esticar o pescoço para ver se Rockley optara por com parecer, m as não viu sua cabeça escura em parte algum a. Vitória se acom odou em sua cadeira para ler o program a elegantem ente im presso que vinha enrolado e atado com um a fita rosa - claro. Quando o desenrolou, entendeu por quê. Até que alguém se sentasse e abrisse o program a, era tarde dem ais para inventar um a desculpa e sair.