O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 1 de 4 · parte 4/4

Páginas do PDF

O Legado da Caça-Vampiro

Para Steve, Holli e Tammy

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Dez peças estavam listadas.

 

Dez.

 

Vitória abafou um gem ido. Ela apreciava Mozart e Bach com o todo m undo, m as ter que ouvir dez peças diferentes, cada um a com três m ovim entos, era dem ais. Ela deu um a olhada de relance aos outros presentes para ver se havia outras caras chocadas, m as não havia.

 

Ela sim plesm ente teria que agüentar aquilo.

 

No com eço, Vitória ouviu. Ela realm ente tentou ouvir. Sentou-se recatadam ente ao lado da m ãe e levou todo o tem po que pôde para aj eitar suas delicadas saias em pregas suaves sobre os j oelhos e a cadeira. Depois colocou as m ãos no colo, com a pequena bolsa debaixo dos dedos. Podia sentir o contorno de um frasquinho na pequena algibeira, que a fez lem brar da dor atroz no seu pescoço quando Max derram ara água benta salgada na m ordida. Verbena dera um j eito de arrum ar um a garrafinha cheia para que Vitória tivesse a sua própria.

 

A raiva pelos com entários arrogantes de Max e a dor que ele infligira nela sem aviso ocuparam a m ente de Vitória por apro-xim adam ente três m ovim entos de um dos quartetos de Mozart. Foi só ao perceber que, em sua irritação, não estava am assando apenas sua bolsa, m as tam bém sua saia de seda, que ela resolveu pensar em algo m enos enervante que Max.

 

Talvez houvesse um vam piro ali naquela noite, e ela teria um a desculpa para sair de fininho do salão. Vitória prendeu a respiração e se concentrou nas sensações de sua nuca.

 

Não sentiu frio algum nela.

 

Ou.. talvez outro cavalheiro devasso tentasse se aproveitar de um a das j ovens dam as, e Vitória poderia ir dar-lhe um a lição.

 

Ela tentou ouvir m ais um a vez, e conseguiu prestar atenção em cada um a das quatro filhas Straithwaite e à coleção de instrum entos que elas tocaram ao longo de um concerto para piano de Bach. Durante os três m ovim entos ela conseguiu acom panhar a m elodia e seus fluxos e refluxos...

 

e Vitória sentiu que aquilo era um grande feito.

 

Então olhou o program a e se deu conta de que o sarau não estava nem na m etade.

 

E sua nuca ainda estava m orna. Afogando um suspiro, com eçou a pensar em Rockley. Era um prazer delicioso relem brar com o eles deslizavam suavem ente pela pista de dança, seus braços fortes envolvendo-a no lim ite do apropriado, m as perto o bastante para que ela sentisse o seu calor e cheirasse o arom a levem ente defum ado de seu paletó. O m odo com o ele a olhava com aqueles olhos negros e sem icerrados fazia com que ela desej asse fechar os seus e subm ergir na lem brança.

 

Ela queria beij á-lo. Sabia que um beij o partilhado com o m arquês nada teria a ver com o que lhe fora forçado pelo visconde de Walligrove.

 

Fantasias sobre beij os podiam não ser pensam entos apropriados para um a j ovem dam a, m as até aí, a m aioria das j ovens dam as não usava penteados de estacas de freixo nem perseguia vam piros.

 

Nem possuía a habilidade e força para botar um hom em adulto de j oelhos num instante.

 

Era um poder que subia à cabeça.

 

O único pensam ento que estragava seu prazer em recordar a dança com Rockley era o m odo com o ele olhara para Max.

 

Tal pensam ento reacendeu o rancor dela contra o m estre m atador de vam piros, cuj a arrogância e língua afiada davam -lhe nos nervos. E o m odo com o ele a olhava quando ela m encionava um baile ou j antar, com o se ser um a Venadora e ter vida social fossem opções m utuam ente exclusivas!. . Os dedos dela am arfanharam as saias novam ente.

Ela sentiu um cotovelo pontudo no flanco, e virou-se para encarar sua m ãe, que olhava feio para as m ãos de Vitória. Esta sorriu para lady Melly, largou o pobre tecido e tentou de novo concentrar-se na m úsica.

 

A sétim a peça, de dez. Mais da m etade j á fora. Porém ... ela olhou a lista m ais de perto. Havia quatro m ovim entos em cada um a das três últim as seleções, em vez de três.

 

Vitória fechou seus olhos e os reabriu. Olhou para a lista, contou m ais um a vez e viu que não se equivocara.

 

Os vam piros pareciam estar freqüentando eventos sociais; por que um deles não podia ter com parecido ao sarau dos Straithwaite?

 

Não havia dúvida de que a m úsica era linda e elegantem ente executada. As m usicistas eram encantadoras de olhar, cada um a vestida em tons diferentes de azul: celeste, turquesa, ciano e safira. Mas não se consegue ouvir um piano, um violino, um a viola, um violoncelo por tanto tem po sem ter vontade de levantar e andar por aí. Ou enfiar um a estaca num vam piro.

 

A decepção fez com que ela olhasse m ais um a vez o program a, torcendo para que as irm ãs m usicais com eçassem logo a tocar o Concerto para Piano em Ré Menor de Mozart, a últim a peça da lista.

 

Naquele instante, Vitória sentiu um a corrente de ar na nuca. Era fria. Ela se em pertigou na cadeira, não m ais sonolenta ou entediada. Até que enfim ! Algo para ocupar sua m ente!

 

Ela tentou olhar ao redor sem ser notada. Percebeu, então, que o friozinho sum ira, e que a corrente de ar fora apenas um a brisa que havia entrado pela j anela que alguém tivera o abençoado bom senso de abrir.

 

Vitória ficou im óvel, esperando, respirando lenta e profundam ente para concentrar toda sua atenção no barôm etro que possuía na nuca.

Estava certa de ter sentido algo frio. Não era apenas um a brisa. Mas nada m udou. Quando as irm ãs Straithwaite finalm ente iniciaram a seleção final do program a, Vitória sentiu um a m udança atrás dela. Com o se alguém a estivesse olhando. Os cabelos de sua nuca com ichavam , provocando arrepios em um dos braços.

 

Não era um vam piro, não. Não foi o que ela sentiu. Não era um a sensação desconfortável. Era...

 

Vitória largou o program a e, ignorando o cenho franzido de sua m ãe, inclinou-se para pegá-lo, olhando para trás ao fazê-lo.

 

Era Rockley. Em pé no fundo do salão, ele chegara obviam ente m uito atrasado ao sarau. Vitória não sabia se ficava contrariada por ele não ter assistido à apresentação com pleta, ou se ficava encantada por ele estar lá. Claro que não havia razão para crer que ele viera por causa dela.

 

Vitória olhou para as três irm ãs solteiras Straithwaite com novos olhos. Estaria ele ali para cortej ar algum a delas? As três eram lindas, em bora a caçula, de dezessete anos, fosse nova dem ais para ser debutante.

 

E eram ricas, m uito m ais ricas que Vitória.

 

Agora ela não estava só entediada, estava irritada tam bém .

 

Então, o últim o m ovim ento do concerto term inou. As instru-m entistas de corda afastaram seus arcos dos instrum entos pela últim a vez.

 

A pianista afastou sua banqueta e ficou em pé para j untar-se a elas em um agradecim ento perfeitam ente coreografado.

 

Todos aplaudiram e se levantaram , finalm ente. Vitória supôs que era de alívio pela apresentação haver term inado. Mas quando foi se levantar, lady Melly agarrou-a pelo braço e puxou-a de volta à sua cadeira.

— Rockley está aqui — sibilou ela em seu ouvido.

 

— Sei disso, m ãe.

 

— Ele está vindo para cá, Vitória. Continue sentada. Tenho certeza de que ele vem falar conosco.

 

Mas e se não viesse? Então...

 

— Lady Grantworth — soou a voz suave por trás dela, calorosa e fam iliar, provocando-lhe adoráveis arrepios na espinha. — Com o está adorável esta noite! Apreciou o sarau?

 

E de repente ali estava ele, diante dela, em pé no pequeno espaço entre as filas de assentos. Vitória não ouviu a resposta de sua m ãe à pergunta dele, m as presum iu ter sido um a com o propósito de direcionar a atenção do m arquês diretam ente para sua filha.

 

— Srta. Grantworth — disse ele, com um a m esura e um sorriso delicioso. — Descobri que continuo com a m esm a sede que tinha ontem .

 

Gostaria de m e acom panhar para um a lim onada?

 

De sua cadeira de veludo verm elho, Vitória ergueu o olhar, e um sorriso de alívio e prazer relaxou seu rosto. Ele a fitava com o se fossem velhos am igos. . talvez m ais que isso. Ao oferecer-lhe a m ão, ela se levantou e ele a puxou para cim a. O tecido das luvas de am bos provocou um a vaga fricção, m as esse não foi decerto o único m otivo pelo qual sua m ão ficou m orna de repente.

 

— Estou m orrendo de sede — replicou ela, deslizando a m ão para dentro do braço dele com um a sensação de conforto, com o se aquele fosse seu lugar. — Adoraria um a lim onada, lorde Rockley.

 

Pedir licença para retirar-se era desnecessário, pois lady Melly quase os em purrou dali, depois se virou para conversar com um a conhecida.

Vitória, sentindo o rosto afogueado pelo constrangim ento, olhou para o m arquês e disse em voz baixa:

 

— Não é segredo com o m inha m ãe se sente em relação à sua sede.

 

Aliás, tem o que ela estej a disposta a m andá-lo para o deserto, a fim de assegurar que ela nunca sej a saciada.

 

— Realm ente. Tem i que ela m e arrastasse de m inha cadeira à de vocês se eu não chegasse lá bem rápido.

 

Seguindo aos outros para fora do salão, Vitória topou com seu braço enquanto ele a conduzia gentilm ente, e ergueu o rosto m ortificado para ele:

 

— Oh, Deus.. eu estava só brincando, m ilorde! Minha m ãe é m esm o um buldogue com dentes afiados. Vou dizer-lhe que pare im ediatam ente...

 

— Srta. Grantworth, eu é que estava brincando. Dá-m e grande prazer não apenas ter tido a sorte de vê-la por duas noites seguidas, m as, sobretudo ter conseguido atravessar a m ultidão até a senhorita e levá-la para longe antes que algum de seus outros pretendentes o fizesse.

 

Suas palavras eram leves, m as enquanto se dirigiam à sala de j antar, ela leu um a expressão diferente em seus olhos. Por baixo daquelas pálpebras pesadas, que em outro hom em o teriam feito parecer preguiçoso ou indiferente, Rockley a olhava com um a concentração que a fazia sentir-se inebriada, com a cabeça quase tão leve quanto a deixara o vam piro antes de m ordê-la, na noite anterior.

 

Ao pensar nisso, Vitória rapidam ente aj eitou sobre o om bro o cacho que ocultava as quatro m arcas verm elhas, prim eiro puxando-o com dedos nervosos, depois o deixando espiralar-se de volta em seu lugar.

 

Então percebeu que ele lhe fizera um a pergunta e aguardava um a resposta.

— Num erosos dem ais para contá-los, Srta. Grantworth? — Sua voz não se alterava, e m esm o com o barulho crescente dos convidados, ela podia captar sua inflexão diferente. — Talvez eu devesse ter visitado Grantworth House em vez de com parecer ao leilão de cavalos hoj e.

 

— Minha m ãe e eu lhe teríam os dado as m ais calorosas boas-vindas.

 

— Estou certo de que sua m ãe teria... m as tem o que a questão sej a m ais com plicada, Srta. Grantworth. A senhorita m e disse obj etivam ente que não tem pressa para se casar, e em bora eu considere isso revigorante e um pouco desalentador, gostaria de saber quanta dificuldade enfrentaria um cavalheiro determ inado a apressá-la por esse cam inho.

 

Haviam parado de andar e estavam agora perto de um a aglom eração de gente em volta das m esas de com es e bebes. Apesar disso, quando Vitória olhou para o lorde Rockley sentiu com o se estivessem sozinhos.

 

O braço de Rockley tinha prendido o pulso dela próxim o a seu corpo enquanto andavam , m as agora ele o soltou, virando-se para ela e dando as costas para o salão, com o um escudo a protegê-la da m ultidão.

 

Vitória sentiu um largo, lum inoso sorriso brotando-lhe de dentro.

 

— Lorde Rockley, eu teria ficado particularmente encantada se o senhor tivesse visitado Grantworth House hoj e.

 

A austeridade no rosto dele se am ainou. — Fico feliz em ouvir isso, Srta. Grantworth. — Ele pegou a m ão dela e a colocou em volta do seu braço. — Vam os buscar aquela lim onada que venho lhe prom etendo?

 

Enquanto esperavam na fila pela lim onada, Rockley cutucou-a gentilm ente com o cotovelo, com o se quisesse a atenção dela. Vitória o fitou subitam ente tom ada por um a sensação de conforto. Ali estava um hom em gentil e charm oso que parecia interessado nela com o esposa em potencial.. e a quem ela desej ava conhecer m elhor. Beij ar, até. Um hom em a quem sua m ãe aprovaria; não, a quem ela a entregaria num a bandej a! Um hom em que se lem brava dela havia nove anos.

 

— A senhorita parecia extasiada com a m úsica — disse ele com um sorriso carinhoso. — Devo adm itir que teria dificuldade em ficar sentado por tanto tem po apenas ouvindo Mozart e Bach.

 

— Ah! — Vitória sorriu-lhe de volta — Então essa é a explicação, m ilorde.

 

Ele entregou-lhe um a xícara branca cheia de lim onada.

 

— A explicação de quê?

 

Segurando-lhe o cotovelo, ele gentilm ente a conduziu para longe das m esas, em direção a duas cadeiras do outro lado do salão.

 

— O seu atraso no fam oso sarau dos Straithwaite. Tenho certeza de que as três irm ãs solteiras ficaram devastadas pelo senhor ter perdido a m aior parte da performance delas.

 

— Podem ter ficado, m as não é problem a m eu Srta. Grantworth.

 

Sabe, tenho um a boa desculpa para ter chegado aqui tão tarde.

 

Vitória bebericou a lim onada, agradavelm ente surpresa por ela estar perfeitam ente ácida e gelada o suficiente para ser refrescante. Olhou para ele por cim a da xícara e, quando seus olhos se encontraram , ela sentiu seus j oelhos fraquej arem .

 

—Para dizer a verdade, m ilorde, eu o invej o por ter um a desculpa; pois se eu tivesse um a, teria chegado tão atrasada quanto o senhor.

 

— Com o sem pre, Srta. Grantworth, a sua honestidade m e diverte e revigora... m as não desej a saber a razão do m eu atraso?

Vitória o analisou por um m om ento. Ele tinha um sorriso m uito agradável, especialm ente quando seus lábios se viravam para cim a daquele j eito, nos cantos, levem ente. Agora que ela refrescara sua m em ória, as lem branças vinham em cascatas, e ela se recordou dele sorrindo para ela daquele m esm o j eito um dia depois que se haviam conhecido, quando ele lhe trouxe um buquê de não-m e-esqueças com o agradecim ento pela aj uda em recuperar o seu cavalo. A prim eira vez que ela recebera flores de um hom em .

 

Vitória achava que talvez ainda guardasse o laço de cetim rosa com que ele as am arrara. Sorriu para ele, tanto pela lem brança quanto pela pergunta que ele acabara de fazer.

 

— É claro que estou interessada na razão de seu atraso, m ilorde, se quiser m e contar.

 

— A razão de eu ter chegado quase duas horas depois de o sarau com eçar é que foi esse o tem po que levei para descobrir onde é que um a certa j ovem dam a estaria hoj e à noite.

 

Vitória sentiu um a onda de calor invadi-la, colorindo sua pele clara.

 

— É m esm o?

 

— É sim . Posso visitá-la na quinta-feira, Srta. Grantworth?

 

— Gostaria m uito que o fizesse.

 

Aparentem ente o rapazote de anos antes não estava nem um pouco decepcionado com a m ulher que ela se tornara.

 

6

 

A Srta. Grantworth m antém sua posição

 

— Dançou com seu m arquês ontem à noite, Vitória?

Ela levantou os olhos da estaca cuj a ponta estava afiando até torná-

 

la letal. Sentado num a grande cadeira, Max bebia algo de cor topázio e estudava o que parecia ser um antigo m apa de túneis sobre um a m esa. Ele perguntou sem sequer olhá-la. Tia Eustácia e Kritanu haviam deixado a sala m om entos antes para buscar um livro e chá, respectivam ente.

 

— Se está se referindo ao lorde Rockley, tenho certeza de que você ficará radiante em saber que não dancei.

 

— Que pena!

 

Vitória olhou para a estaca por um breve e delicioso instante antes de colocá-la sobre a m esa. Possuía agora quatro novas estacas de freixo polidas, todas pintadas de cores diferentes para que pudessem com binar com seus vários vestidos. Verbena havia sugerido m arfim , rosa, verde-claro e azul, e propunha ainda que fossem decoradas com flores, plum as e contas.

 

— Não dancei com ele porque fom os a um sarau e não houve dança.

 

Mas ele pediu para m e visitar — disse ela, sem se im portar se soava com o um a criança petulante.

 

Pela prim eira vez Max a encarou. Sua expressão era agourenta.

 

— Você está brincando com o perigo, Vitória.

 

— Caçar vam piros é brincar com o perigo. Ser cortej ada por um hom em rico e charm oso, não. E em am bos os casos, sei cuidar de m im m esm a.

 

O olhar de Max recaiu ostensivam ente sobre o lado do pescoço dela em que os quatro vergões verm elhos com eçavam a cicatrizar.

— A sua habilidade em cuidar de si m esm a ainda está para ser provada de form a conclusiva, m as não foi isso o que eu quis dizer. Você está brincando perigosam ente com o m arquês e as atenções dele.

 

— Por que você se incom oda que eu desfrute a com panhia de um perfeito cavalheiro? — perguntou Vitória. Eles haviam com eçado a se tratar por "você" quase im ediatam ente após o incidente com os vam piros Guardiões. Era ridículo ser form al com alguém que caçava m ortos-vivos j unto com ela. — É por não freqüentar os círculos da sociedade que você m enospreza qualquer um que o faça?

 

Ele se recostou na cadeira e olhou para ela. O líquido dourado em seu copo fluía contra a luz, dançando à m edida que seu pulso levem ente descrevia pequenos m ovim entos circulares. Com o se estivesse pensando num a resposta.

 

— Vitória, você entendeu m inha m otivação de form a totalm ente equivocada. Não m e incom odo com coisa algum a. Se dependesse de m im , você não teria nada com que se preocupar a não ser o próxim o baile e quantas danças ceder ao m arquês num a noite. Mas com certeza você se dá conta de que não pode continuar assim .

 

— Não entendo o que quer dizer. — A atm osfera agora era outra, e o desconforto que sem pre surgia entre am bos havia agora degenerado em algo m ortalm ente sério.

 

— Estou vendo que não entende. — Ele parecia genuinam ente surpreso. — Vitória, você não pode pensar em se casar com o m arquês, então por que continua brincando com os sentim entos dele? É evidente que ele está encantado com você. Talvez não apaixonado, m as pelo m enos encantado.

 

— Não posso. . casar-m e com ele? Acho um tanto cedo para discutir essa possibilidade, m as se ela se concretizar, não vej o razão algum a para não aceitar a proposta dele. Im agino que, vindo da Itália, você não entende as engrenagens de nossa sociedade aqui na Inglaterra, m as. .

 

— Não tem nada a ver com sua posição na sociedade. — O tom am eno de sua voz havia desaparecido; agora ele soava sim plesm ente irritado. — Não sej a obtusa, Vitória! Você é um a Venadora. Não pode se casar. Não pode sequer ter um am ante!

 

Em bora m ais tarde tenha se repreendido por isso, Vitória não conseguiu reprim ir um sobressalto ao ouvir essas palavras. Um calor subia pelo seu pescoço até suas bochechas quando ela respondeu:

 

— Não precisa ser grosseiro!

 

— Grosseiro? Com o se ser m ordida por um vam piro não fosse a m aior form a de grosseria! Vitória, você é um a caçadora de criaturas violentas. Não pode se perm itir ficar dividida ou distraída por algo tão com ezinho quanto um m arido ou um a fam ília.

 

Vitória escutou passos retornando. Falou baixo e rápido:

 

— Se eu decidir am ar um hom em ou m e casar com ele, é o que farei.

 

E continuarei m atando vam piros ao m esm o tem po.

 

A porta se abriu e Kritanu entrou carregando um a grande bandej a.

 

Ele olhou para Vitória com curiosidade, e depois para Max, provavelm ente notando a tensão em seus rostos, m as não disse nada. Colocando a bandej a sobre um aparador perto de Max, ele apontou para a chaleira e as xícaras.

 

— Por favor, Srta. Vitória, pode se servir de chá e talvez de um biscoito, se quiser. — Na casa de tia Eustácia não se fazia cerim ônia, j á que todos eram tratados com o iguais na luta contra Lilith. — Eustácia voltará em um instante. Nossa convidada chegou.

 

— Convidada? — perguntou Vitória, olhando para Max. Sim , ele j á sabia, assim com o sabia o propósito daquela reunião, e ela não. Por que todo m undo parecia saber de tudo m enos ela?

Enquanto se servia de chá com um a colherinha de crem e, Vitória rum inava seu ressentim ento. Certo, ela era a Venadora m ais nova, porém tia Eustácia havia deixado claro que ela era parte fundam ental do grupo.

 

Por que, então, todos os outros falavam de coisas sobre as quais ela não tinha idéia? Por que escondiam inform ações dela?

 

Era o Max. Ele acabara de dizer que, se dependesse dele, ela não seria Venadora. Teria rej eitado a oportunidade de usar seu vis bulla e de aj udar a livrar o m undo dos vam piros. O que ele tinha contra ela? Apenas o fato de ser um a m ulher? E j ovem ?

 

Estariam testando-a? Sonegando-lhe inform ações até que provasse seu valor?

 

Todos os Venadores tinham as m esm as sensibilidades e habilidades natas para cum prir o Legado um a vez que recebiam seu vis bulla. Será que Max realm ente acreditava que ela não pensava em nada além de bailes, vestidos e pretendentes? Quando ela sabia que havia criaturas horrendas e m alignas querendo dom inar o m undo?

 

Verdade, m uitas j ovens de sua idade só pensavam em conseguir um m arido; afinal, isso fora m artelado dentro de suas cabeças desde a infância.

 

Porém Max tinha de ter percebido que ela não era um a sim ples debutante.

 

Ela havia nada m enos que cravado um a estaca num vam piro Guardião que a estava m ordendo!

 

A porta se abriu e Eustácia entrou, seguida de um a m ulher alta e esguia. Parecia m uitas décadas m ais m oça que Eustácia, porém ao m enos dez anos m ais velha que Max, e exalava um arom a incom um , de terra. Seu cabelo loiro claro, fino com o o m ais delicado fio de seda, estava preso num rabo-de-cavalo um tanto fora de m oda, que pendia até o m eio das suas costas. Traj ava um vestido de linho que parecia um roupão; chegava ao chão e caía direto dos om bros, m as m esm o assim exibia o contorno do seu corpo. Seus olhos de um azul pálido brilhavam inteligentes, no rosto pálido e sério, e os lábios eram de um rosa surpreendentem ente vibrante.

 

Parecia etérea e clarividente, com o se pudesse ver coisas que outros não viam .

 

— Você é Vitória?

 

— Sou, m as creio que você sabe m ais do que eu. — Vitória não soube se devia se levantar e fazer um a reverência ou continuar sentada com a xícara na m ão quando a m ulher se colocou diante dela. O arom a de terra, que não era desagradável, a seguia.

 

— Vitória, esta é Way ren. Ela não é Venadora, m as sua aj uda é inestim ável à nossa causa — explicou Eustácia. — Ela tem um conhecim ento profundo de culturas antigas, lendas e m isticism o, auferido de sua extensa biblioteca. Ela age com o nossa fonte de pesquisa quando precisam os de sua assistência.

 

— É um grande prazer conhecê-la — disse Vitória, com sinceridade.

 

— Olá, Max — disse Way ren, virando-se. Max levantou-se e, em bora ela fosse um a m ulher alta, ele ainda era quase um a cabeça m ais alto.

 

Pegou a m ão dela e levou-a ao rosto, esfregando-a gentilm ente contra a bochecha em vez dos lábios, depois soltou-a.

 

— Way ren, é m aravilhoso vê-la novam ente. Você está ótim a.

 

— Você tam bém , Max — replicou ela com um sorriso que ilum inou seu rosto de deleite e hum or. — Faz m ais de três anos desde a últim a vez que trabalham os j untos. Parece que o tem po não passa para você.

 

Max riu gentilm ente. Era a prim eira que Vitória o ouvia rir com verdadeiro prazer.

 

— Não m esm o. Enfim , você está aqui para nos contar sobre o Livro de Anwarth.

 

Tia Eustácia indicou um a cadeira e quando Way ren se sentou, Vitória percebeu que ela carregava um a grande m ochila bem pesada, que veio ao chão com um baque surdo.

 

— Sim , e tam bém para determ inar o que Lilith quer com ele.

 

Eustácia m e contatou assim que soube que ela estava tentando obter o Livro. A viagem dem orou alguns dias. — Way ren olhou para Vitória. —

 

Venho de m uito longe.

 

— Encontrou em sua biblioteca algo que possa nos aj udar? —

 

perguntou Eustácia ocupando a cadeira sem pre reservada para ela, ao lado da m esinha redonda.

 

Way ren debruçou-se sobre sua m ochila e, abrindo-a, puxou um m aço de papéis e um livro velho.

 

— Meu pai organizou sua biblioteca de m odo que é sim ples localizar quase tudo seguindo um sistem a num érico por tópicos. Encontrei várias m enções de algo cham ado Livro de Antwartha; Max é possível que você tenha entendido m al a palavra, e que sej a Antwartha em vez de Anwarth?

 

Max fez um gesto de aquiescência.

 

— Pode ser. Estava num a situação que não possibilitava um a audição perfeita.

 

— Não m e surpreende. — Way ren sorriu. — Isso facilita as coisas, j á que não consegui encontrar nada referente à "Anwarth".

Aparentem ente... — ela fez um a pausa e voltou a vasculhar a m ochila.

 

Quando se aprum ou, estava usando um par de óculos quadrados que deixavam seu rosto com pletam ente diferente. Mais austera e m enos sobrenatural, pensou Vitória. — A história por trás desse livro tem suas origens no Vale do Indo, no país dos seus ancestrais. — Disse isso olhando para Kritanu, que se sentara ao lado de Eustácia. — Você estava correto sobre haver um a conexão com a deusa Kali.

 

— Kali... sim , ela é conhecida na índia com o a Rainha dos Mortos.

 

Ela governa a m orte, m as não é um a deusa m aligna, j á que a m orte é um estado que todos tem os de encontrar. Diz à lenda que ela deu à luz um a criança que era m etade dem ônio e m etade deus. Essa criança ficou conhecida com o Antwartha. — O cabelo de Kritanu, preso em um pequeno coque na nuca, reluziu sua coloração negro-azulada quando ele acenou com a cabeça para Way ren, com o se devolvesse a história a ela para que a continuasse.

 

— É esta criança dem oníaca de Kali que, segundo a lenda, passou a seus prim eiros seguidores a cham ada sabedoria, no Livro de Antwartha. O

 

Livro contém rituais e ritos para a utilização do sangue dos vivos com o alim ento para os seguidores im ortais de Antwartha, conhecidos com o hantus, ou, na linguagem de vocês, "vam piros".

 

— Lilith acredita que esse livro antigo está em Londres; é por isso que ela está aqui, não é? — perguntou Vitória. — Com o esse m anuscrito antigo veio parar aqui? Vindo da índia?

 

— Provavelm ente em algum a transação com ercial entre a Inglaterra e sua colônia, a índia — replicou Max. — Navios indo e voltando de Londres a Calcutá poderiam facilm ente tê-lo trazido para cá.

 

— Sim , isso eu sei. Mas por que agora? Com o é que Lilith o descobriu agora?

 

Way ren balançou a cabeça.

— Não sei. Max, você sabe? — Ele franziu o cenho.

 

— Minha fonte não estava tão disposta a dar inform ações quanto eu estava para recebê-las, infelizm ente, e chegou um a hora em que tive que pôr um fim no seu sofrim ento. Tudo que ela m e disse foi o nom e do obj eto que Lilith estava procurando e nem ouvi direito. Ainda bem que Way ren foi capaz de traduzir essa m inha m ensagem truncada.

 

— Se o livro de fato estiver em Londres, nossa prim eira providência, enquanto Way ren continua a pesquisar, é encontrar o livro antes de Lilith ou dos Guardiões — disse Eustácia. Vitória reparou que Kritanu fechara os dedos sobre as m ãos dela em sinal de apoio.

 

— Isso é im perativo. — Way ren tirou seus óculos e olhou para cada um deles, incluindo Vitória. — De acordo com m inhas inform ações, o Livro de Antwartha contém feitiços poderosos e sortilégios utilizando um poder m alévolo. Se Lilith obtiver esse livro, terá a capacidade de conj urar legiões de dem ônios, à vontade. Não será possível contê-la, m esm o se con-vocarm os todos os Venadores. Ela sobrepuj ará todos os m ortais, e nós todos nos tornarem os seus escravos. . ou coisa pior!

 

7

 

O m arquês de Rockley faz a corte

 

— Olha só, a sinhora tá linda que nem um retrato! — exclam ou Verbena, inclinando-se para Vitória e aj ustando um cacho que caíra de seu penteado. — As plum a foram o toque especial!

 

Vitória teve que concordar. Sua em pregada era um gênio! Escondera a estaca azul-celeste dentro da parte m ais densa de seu cabelo, depois de afixar três plum as m acias na extrem idade não pontuda. Assim , de frente dava a im pressão de um a leve decoração branca flutuando na parte de trás de sua cabeça. A beleza do arranj o era que ela podia rem over a estaca do cabelo de m aneira fácil e rápida, sem estragar o penteado.

— Maravilhoso Verbena! Ficou lindo. — Rockley iria buscá-la para um passeio no parque, e ela gostou que seu penteado parecesse ao m esm o tem po recatado e insinuante.

 

— E agora que sua m urdida tá quase sarada, bom , esta echarpe ao redor do seu pescoço vai sê suficiente. Em bora eu saiba que a sinhora não vai precisa da estaca de dia, porque aquelas criatura só aparece de noite. —

 

Vitória voltou-se para ela.

 

— Não, não, Verbena, isso não é verdade. Alguns deles saem durante o dia, sim .

 

Os olhos de Verbena se transform aram em grandes círculos e ela caiu sentada na cam a, com o se os seus j oelhos tivessem bam beado.

 

— Não, milady! A sinhora tá de brincadeira!

 

Satisfeita por saber algo sobre vam piros que a em pregada não sabia, Vitória apressou-se em assegurá-la de que estava certa.

 

— É verdade. Existem alguns vam piros m uito poderosos, pouquíssim os, que estão vivos há séculos e ficaram m ais ou m enos acostum ados à luz do dia. Eles realm ente podem se m ovim entar sob o sol, contanto que estej am cobertos ou protegidos, em bora não possam ficar expostos à luz por m uito tem po, ou perm itir que a luz do sol os toque diretam ente. Se isso acontecer, eles queim am .

 

— Meu Jesus am ado! —As bochechas redondas de Verbena ficaram averm elhadas, e seu cabelo lanoso cor de pêssego parecia vibrar com a ansiedade. — O prim o Barth vai tê que com eça a carrega o crucifixo dele de dia tam bém ? Não sei cum e que ele vai consegui trabalha, tendo que andá com aquela coisa na frente dele o tem po todo, e dirigindo a carruagem , que é o que ele faz! Milady, a sinhora tem certeza disso?

— Foi a tia Eustácia quem m e contou, e dessas coisas ela entende!

 

— Um pensam ento lhe ocorreu. — Verbena, você disse que o Barth m ora em St. Giles? E ele vê vam piros por lá?

 

— Vê sim , milady, e m ais do que gostaria, com certeza. Mas eles não incom odam ele por causa do crucifixo e do alho que ele carrega no pescoço.

 

— Você pode m e levar até lá?

 

— Leva a sinhora lá? — Se Verbena j á estava horrorizada com a idéia de vam piros durante o dia, ficou traum atizada com o pedido. — St.

 

Giles não é lugar pra um a dam a, milady!

 

Vitória se levantou e sentiu as plum as balouçarem no ar.

 

— Verbena, eu não sou dam a nenhum a. Pelo m enos não sou tão dam a quanto sou Venadora. Precisam os encontrar o Livro de Antwartha antes de Lilith, e se há vam piros em St. Giles é possível que eles m e inform em algo a respeito. Tenho o m eu vis bulla, não se esqueça. Max não é o único Venador que pode caçar vam piros e fazê-los contar seus segredos.

 

Verbena abriu sua boca para dizer algo e Vitória se preparou para m ais um round de defesa, m as não foi necessário.

 

— Se a sinhora vai pra St. Giles, eu vou tam bém . E a sinhora não vai usá vestido, milady. Vai vestida que nem hom em .

 

— É claro. Obrigada e não se preocupe. Você estará segura com igo.

 

Não há tem po a perder, então vam os hoj e à noite.

 

— Hoj e? — Verbena esgazeou os olhos. — À noite? Ai, milady..

— Hoj e à noite, Verbena. E você disse que o seu prim o dirige um a carruagem ? É perfeito! Você pode conseguir que ele nos apanhe hoj e à m eia-noite?

 

— Meia-noite?

 

O pulso desenfreado de Vitória subia aos solavancos por sua garganta.

 

— Hoj e, à m eia-noite, Verbena.. quando os vam piros estão à espreita.

 

* * *

 

Filipe de Lacy, m arquês de Rockley, acom odou-se no assento ao lado de sua acom panhante.

 

— Srta. Grantworth, a senhorita está sim plesm ente encantadora —

 

disse, quando saíram rum o ao parque. Seu lacaio e a em pregada dela sentaram -se na parte de trás do cabriolé, deixando Filipe e Vitória na frente.

 

— Eu diria o m esm o sobre o senhor, lorde Rockley.

 

Ele a fitou novam ente, pelo sim ples prazer de olhá-la. A pele dela tinha um a leve coloração rosada que, esperava ele, fosse devida ao prazer da sua com panhia. E com o o pescoço esbelto dela suportava o peso de todo aquele cabelo escuro? Ele im aginava com o seria aquele cabelo se não estivesse am ontoado no topo da cabeça dela. Que tam anho teria? Do dia no prado, em que ela lhe dera um serm ão, ele se recordava de com o o cabelo dela se avolum ava e esvoaçava em um m onte de caracóis escuros ao redor dos om bros e braços.

 

— O dia está lindo. — A voz dela soava um pouco ofegante, insegura. Talvez fosse a prim eira vez que ela ficava sozinha, ou quase sozinha, com um hom em .

Ele sorriu ao pensar nisso, contente com a idéia, então olhou para o céu e riu.

 

— Um dia lindo Srta. Grantworth? Com aquelas nuvens inchadas e cinzentas, carregadas de chuva? Tive receio de que a senhorita declinasse m eu convite para passear com igo hoj e por m edo de que a chuva arruinasse o seu vestido.

 

Ela ergueu os olhos para ver o que ele vira: nuvens cinzentas e brancas no form ato de travesseiros preenchendo o céu, deixando-o incolor em vez de azul.

 

— Eu gosto de chuva — replicou ela com convicção, m as com um traço de sorriso. — Faz com que eu aprecie ainda m ais os dias ensolarados.

 

Filipe continuou a sorrir.

 

— Boa resposta, milady, e honesta com o sem pre. Cheguei a pensar por um instante que a senhorita cederia à convenção de conversar sobre o tem po em vez de outras coisas m ais interessantes. Sente o cheiro da um idade no ar?

 

— Não tinha reparado nele antes, lorde Rockley, m as a brisa de fato carrega um arom a que prenuncia tem poral.

 

— Não esqueci m inha prom essa de levá-la para um passeio pelos cam pos e prados... m as tem i que a chuva inundaria nossa cam inhada e sabia que um a carruagem a protegeria m ais.

 

— Lorde Rockley, é a m inha vez de fazer um a confissão. — Ele se voltou para ela com interesse, notando que ela olhava alternando para os dedos, para frente e depois para ele. Onde estava sua audaciosa dam a agora?

 

— Estou intrigado. Por favor, confesse o que quiser.

 

Então lhe ocorreu que talvez ele não fosse apreciar a confissão. E se ela sentisse a necessidade de contar-lhe o nom e de outro pretendente?

— Tenho certeza de que o senhor se recorda do dia seguinte à sua queda do cavalo, em que se encontrou com igo no m esm o prado. Eu tinha ido até lá com a esperança de vê-lo novam ente, m as sem saber se o senhor estaria lá, é claro.

 

Ele sorriu o alívio fazendo-o segurar as rédeas com m enos força.

 

— A senhorita decerto teria encontrado outro j eito de m e localizar para pedir desculpas por suas palavras tão duras, não é m esm o, Srta.

 

Grantworth?

 

Ela riu; e ele ficou contente por ela ter visto o hum or em suas palavras, e por lem brar-se que sequer pensara em se desculpar por tê-lo esfolado vivo. Ótim o. Isso era parte do que a tornava tão interessante para ele. Não era um a flor de estufa, esta Srta. Grantworth que ele recordava. .

 

ou a que ela havia se tornado. Ele estava m ais que satisfeito.

 

— No final não precisei ir atrás do senhor, ou pedir desculpas, segundo m e lem bro, lorde Rockley, pois o senhor se encontrou com igo naquele cam po, e o senhor é que teve um gesto de quem se desculpa. —

 

Olhou-o diretam ente nos olhos. — Foi a prim eira vez que recebi flores de um hom em ... e ainda guardo o laço rosa com o qual o senhor as am arrou.

 

— Com o prova, ela ergueu e arregaçou o punho da luva, m ostrando um pouco de seu pulso e um pequeno cordão rosa de cetim em torno dele.

 

— Sua confissão m e encantou, Vitória. — Para o inferno com o decoro; ele a cham ara pelo seu nom e de batism o por todo aquele verão.

 

Parecia ridículo ser form al enquanto reviviam aqueles m om entos.

 

Ele os conduzira desde a artéria principal do Parque Regents e fizera a curva para um a área m ais reclusa. Parando o cabriolé perto de um pequeno bosque de lilases e forsítias, ele gentilm ente enlaçou as rédeas num poste colocado lá com esse propósito.

 

Estendendo a m ão para a m ão enluvada dela, ele disse:

 

— Srta. Grantworth, eu apreciaria m uito se m e cham asse de Filipe, com o fazia antes. — Estava ciente de que sua voz se tornara m ais profunda, com o acontecia quando ficava sério, e ele se forçou a olhá-la com um a expressão de indiferença. Talvez fosse m uito fam iliar e rápido dem ais, m as, que se danasse! Ele provavelm ente se apaixonara por ela anos antes, pois nunca a esquecera. Não conseguia tirá-la da cabeça. Praticam ente fizera papel de bobo rastreando-a até o sarau dos Straithwaite na outra noite. Graças a Deus chegara atrasado e perdera aquela chatice.

 

E aparentem ente, um a vez refrescada a m em ória dela, Vitória tam pouco o esquecera.

 

— Filipe é um nom e tão forte — replicou Vitória, olhando não para ele, m as para o m odo com o os dedos dele se entrelaçavam aos dedos enluvados dela um por um . — Com bina com você. E, sim , cham e-m e de Vitória, com o fazia quando éram os m ais j ovens.

 

E então, com o se tais palavras fossem um a deixa de bastidores, as nuvens se abriram e a chuva desatou a cair torrencial-m ente. O grito de susto da criada de Vitória na traseira do cabriolé cham ou sua atenção, m as Filipe a acalm ou colocando sua m ão gentilm ente no rosto dela. Qualquer pretexto era válido para tocar aquela pele branca im pecável.

 

— Meu lacaio cuidará dela — disse ele. — E o m om ento de distração deles perm itirá que eu faça isto.

 

Ele se inclinou e tocou a boca dela com a sua. Ela cheirava a flores e algum tipo de especiaria, e seus lábios estavam quentes e úm idos de surpresa.

 

Ela não se sobressaltou e nem se afastou; em vez disso aproxim ou-se m ais, inclinando a cabeça para um lado a fim de que suas bocas encaixassem m elhor. Muito m elhor.

 

A chuva caía em volta deles, borrifando um a garoa fina na beirada do assento e nos sapatos de am bos. A ponta do nariz dela, fria pela um idade do ar, se esfregou na bochecha m orna dele enquanto seus lábios se m oviam j untos. Ele soltou-lhe a m ão e gentilm ente fechou os dedos ao redor dos braços dela, trazendo-a m ais para perto a fim de que os adoráveis seios se esfregassem contra o seu paletó. Poderia ser m ais perto, m as ele era paciente.

 

Ou talvez não fosse.