O Marquês de Pombal à Luz da Filosofia
Capítulo II
Nove horas; a cidade acorda sob um ceu De christalino azul, de transparente veu;
Movimenta-se a pouco a gente nas viellas, Adornam-se com arte as donas e donzellas, E os sinos vão chamando os fervidos catholicos Aos festejos do templo, e aos canticos symbolicos.
Entoa o padre a missa, e os crentes, com respeito Se curvam brandamente; habita em cada peito A prece fervorosa, os orgãos gemem notas Que fazem palpitar as candidas devotas. Ha como que um sereno e doce mysticismo Que leva os corações, em nuvens de idealismo, Aos páramos do ignoto, aos vagos paradisicos, Onde a crença cultiva os lirios metaphisicos.
Nas praças, os peões, laboram tristemente, E n'uma gelosia um vulto sorridente
Espreita cuidadoso ao longo dos caminhos. Passa ás vezes um nobre envolto em bons arminhos,
E alinham-se na rua, á porta dos conventos, Os novos com preguiça, e os velhos sem proventos.
De repente porém, um intimo ruido
Se escuta assustador na entranha da cidade! Depressa lhe succede horrivel alarido,
E um turbido baquear, em toda a extensidade.
Oscilla cada predio, e cahem pelo sólo
Desfeitos como em pó os rijos edificios;
E a misera Lisboa, afflicta, pólo a pólo
Vomita o seu terror, por igneos orificios.
Fogem as mães tremendo, os filhos junto ao seio, E correm a acolher-se aos templos do Senhor; Mas eis que ao grande affan do seu materno anceio Ahi se expõe um quadro escuro e aterrador.
Abobadas cahindo em cima dos altares,
E o padre surpreendido em meio dos cantares, Sem voz, sem movimento, a par de uma madona Que ha muito se ostentava em seu painel de lona. Creanças a chorar, columnas em pedaços, Soluços do estertor, e aqui e além uns braços Sob as pedras surgindo e estrebuchando a custo!...
Nas ruas e jardins não é menor o susto.
Rodou rapidamente o nivel da desgraça!
Só resta enorme entulho onde era alegre praça, E os tectos ao cahir nos crepitantes lumes, Erguem linguas de fogo, em cálidos queixumes.
Estala o velho tronco ao cedro gigantesco, E paira em tudo o horror mortifero e dantesco. E para cumular o quadro de afflicções,
O Tejo, saccudindo os pardos turbilhões,
Devora febrilmente as ruinas rescaldantes, E lambe o morto, e o vivo, em saltos delirantes, E abrindo o coração, sedento de vingança, Abysma o forte, o fraco, o velho, a mãe, a creança!
E como se o terror gerasse a crueldade,
Para opprobrio veraz da crúa humanidade, No cahos tumulento anda essa immunda plebe Que rouba, que assassina, e apenas se apercebe, Sob as nuvens de fumo e pulsações do fogo.
E o rei e o seu ministro?
Accaso n'esse jogo
Da horrifica tormenta, o ceu de azul purissimo Ousaria esquecer um rei que é fidelissimo? Quem sabe se terão cahido do vaivem?
Salvou-o Jehovah--el-rei estava em Belem? ...........................................
Depressa chega ali a nova deploravel;
Aterra-se a nobresa; o facto lamentavel
Envolve em lucto e pranto innumeros varões. Entreolham-se a tremer, e logo as orações Se elevam para o ceu como espiraes de dôr. El-rei branco de susto, os filhos com pavor Percorrem os salões, idiotas e perplexos.
Mas fulgem n'um olhar uns vividos reflexos, E um vulto erecto e firme encara D. José; «Marquez, murmura el-rei, castigo de Deus é «O horrivel cataclysmo! E agora, que afflicção! «Que havemos de fazer em tal destruição? «Arde toda a cidade, e estão vasios os portos» --Salvemos quem viver, demos á terra os mortos.-- Responde friamente o imigo da utopia.
E longe de invocar a Deus ou a Maria,
Expede ordens de cunho e toma arduas medidas, Alenta sem delonga as perigadas vidas,
Corta os braços á chamma, e tolhe o passo á fome; Liberta o infeliz da angustia que o consome, E ahi onde o devasso um roubo perpetrava, Ahi a forca bruta á morte o condemnava. .........................................
Annos depois surgia a nova capital
N'um throno que assentava em bases de christal.