O Marquês de Pombal à Luz da Filosofia

Angelina Vidal · Capítulo 7 de 9

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O Marquês de Pombal à Luz da Filosofia

Capítulo VI

O marquez de Pombal, producto do seu meio, Trazia na Consciencia o salutar anceio

Das santas cousas bellas.

Mas um facto mental, o facto do attavismo, Acorrentava-o sempre ao velho despotismo

Dos thronos e das cellas.

A corrente soprada além, da heroica França, Fazia-lhe pulsar a magestosa esp'rança

Das creações mais caras;

Porém n'esse combate imigo do Direito,

Cedia tristemente á voz do Preconceito,

E ás perversões ignaras.

Demonstra-o fartamente o proceder confuso Com que arrojava ao Povo um turbilhão diffuso

De mortes e afflicção,

Curando juntamente, e com visivel gloria, De lhe aplainar a rude e fria trajectoria,

Por meio da instrucção.

Affirma-o sem rodeio o manifesto empenho Com que guerreou Bocage, o sublimado engenho

Do seculo passado,

Por seus bellos ideaes, modernos e atheistas, Expostos com vigor, e com profundas vistas

De um espirito avançado.

Comprova-o a friesa usada com Fylinto

Que longe do seu ninho, o doce riso extincto,

Chorava, em lyra de ouro,

As ruinas da ventura, o azul do patrio lar, As aguas do Mondego, e as vibrações do luar

Entre os jasmins e o louro.

A ethopéa social dos seculos transactos, Reflecte-se e vigora em seus funestos actos. Fluctua sem cessar seu espirito viril,

Que ora se eleva ao bello, ora se entrega ao vil. Mas n'elle transparece uma tendencia rude

Que punge a leal Virtude!

A statica mental aperta-a pelos pulsos;

E a dynamica então imprime-lhe os impulsos

Da progressiva lida;

E assim n'este vaivém lhe corre toda a vida.

Porém quando abordou á estancia derradeira Deixava atraz de si a sanguinosa esteira, Onde o espectro do pobre, e justo, e velho, e creança

Reclamam com vigor criterio e segurança Ao tribunal da Historia, onde serão julgados Os sabios, os heroes, os reis e os scelerados. ..............................................

Tenho attacado o clero, aspiro á excelsa luz, Detesto o ignobil lenho, e sinto por Jesus O affecto que daria a irmão, se irmão tivera, Venero o positivo, e nunca a van chimera.

Meus filhos, castos soes, o meu thesouro immenso, Por quem me sinto grande, a quem adoro e incenso, As heras infantis que enleio na Consciencia, A força que me impelle á lucta da inclemencia Que aqui, n'este paiz de cousas pequeninas Odeia a quem cultiva as rosas christalinas

No coração do Bem, Progresso e Liberdade, Seguem a religião do Justo e da Verdade,

É a sua crença ideal,

Resume-se no amor do seu sentir filial.

Mas tendo a mente forte e despresando os idolos, E combatendo firme os monumentos frivolos,

Politico-sociaes,

Revoltam-me a Consciencia os actos tão brutaes

Da vida do marquez,

E vejo com tristesa o nome portuguez

Coberto pelo horror,

Quando podia ser um foco de explendor.

A queda do jesuita é justa, é rasoavel;

Expulsa essa barreira imiga insuperavel,

Podia a sociedade erguer-se da ignorancia, Dormir em paz a Mãe, sorrir a loura infancia Ao Pensamento novo, a santa aspiração!

É digno de louvor quebrar á inquisição

Os braços da vingança a ira da torpesa.

Mas cobrem-se de lucto as leis da Naturesa, Mas ouve-se um protesto, a palpitar fremente, Ao ver, cheio de affronta, um martyr impotente, Rojado pelo chão, manchado pela lama!

E pelas nações clama

A Ideia humanitaria, amena, e justiceira,

Vendo arrojar um ente á estupida fogueira!

E embora fosse um padre, embora um jesuita, Embora fosse irmão da raça atroz, precita,

A minha voz sentida

Protesta contra a morte imposta a Malagrida!

Protesto! E emquanto houver

Um coração de luz em peito de mulher,

Meu brado ha de correr nos angulos do mundo,

E em todo o mar fecundo!