O Marquês de Pombal à Luz da Filosofia

Angelina Vidal · Capítulo 4 de 9

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O Marquês de Pombal à Luz da Filosofia

Capítulo III

 

Que borburinho é esse? O Porto anda revolto?

Que foi que se passou?

Como é que invade a praça o povo irado e solto,

Se tanto laborou

El-rei, por tel-o em bens e liberdade envolto?

Se ha tanto beneficio, exforços tão visiveis

Em prol da causa publica,

Como podem brotar reprovações sensiveis,

Como é que a ideia nublica

Não acha na Rasão um dique d'impossiveis?

«O povo é desgraçado,» affirma a humana Historia,

«Mataram-lhe o Direito,

«E forçara-n'o a seguir a negra sorte ingloria,

«Calado, contrafeito,

«Pagando sem gosar, tecendo a alheia gloria!»

Um dia, de repente, ergueu-se a reclamar;

A ignara populaça.

O monopolio rouba-a, era mister luctar!

E logo, a plebea raça

Reclama valorosa, em vez de supplicar.

Mas o ministro excelso havia já disposto

Das cousas do alto-Douro;

Vivesse embora a Patria em noute de desgosto.

Os cofres tinham ouro...

Que importa se a Rasão traz lagrimas no rosto?

Por isso se indignou o esteio da Realesa,

E os raios da vingança

Fabrica muito á pressa, e envia com prestesa

Á popular esp'rança

Fundada na intuição das leis da Naturesa.

E após, hórrido insulto á crença humanitaria!

Por um delicto falso

Estende-se no Porto a rede sanguinaria,

E o torpe cadafalso

Arranca friamente a vida ao triste paria!

Creanças sem vigor, rojadas sobre a rua,

Forçaram-se a seguir

O sacrificio immano, onde o valor recua,

E a ver a mãe subir

A via da amargura, e escarnecida e nua!

E um homem venerando, um martyr impolluto

Que a Consciencia chora,

O bom Juiz do Povo, um bravo resoluto,

Sereno como a aurora,

Lá foi tambem lançado á morte, ao chão do lucto!

O que ha que justifique o horror de taes supplicios?

Que espirito medonho,

Não treme ao ver a morte, açoutes, e os exicios?

Não julga quasi um sonho

Que um homem só, profunde infindos precipicios?

Quem ha que não palpite em plena indignação

Olhando um nobre velho

Manchado pela affronta, exposto á impia acção.

Pondo um lastro vermelho,

Na terra onde semeia a intima afflicção.

Quem ha que não suspire, ao ver a mulher casta,

Violada em seu pudor,

Pendida n'uma forca, e desnudada, e gasta

Nas ancias do terror,

Maldita pelo algoz, que á sepultura a arrasta?

Se o Homem fôra um monstro, um tigre em sangue absorto,

Comquanto fôra filho,

Havia de exprobar ao potentado morto

O mortuario trilho

Que abriu com turvo affan no coração de Porto!

Se a Mãe fosse mais fera ainda que a leôa,

Comquanto fosse Mãe,

Havia de olvidar o astro de Lisboa,

Para escutar além,

O brado perennal que pólo a pólo sôa!

Ahi tens, ó Povo Luso, o heroe que agora incensas;

Proclama-o democrata!

Mas pesa-lhe a injustiça, os odios, e as sentenças

E dize se arrebata

Um nome que traduz as mais crueis offensas! ............................................

E o titan que esmagava assim, rude e febril, Os braços da nação, os braços productores, Os ferros destruia ao escravo no Brasil,

E baixava ao commercio os olhos protectores!

Infando laborar! Contradicção tamanha,

Que põe n'um ser vidente um tumultuoso abysmo, E nos traz á memoria a flórida montanha

Que engendra no seu flanco o igneo paroxismo!

Homem! Dizes-te o ser Supremo do Universo Quando és synthese só das leis da creação! És tu quem dás a luz, e estás na sombra immerso, Proclamas o Progresso, e dás a Destruição!

Exhaures toda a força em busca da Verdade, Penetras com valor nos seculos remotos, E quando julgas ver a eterna claridade

Surge-te frente a frente um turbilhão d'ignotos!

Que vezes a inconsciencia ao Genio se avantaja! Que infrene marulhar na logica dos factos! E quando a Aspiração em nuvens de ouro viaja, Ha de chegar emfim aos desenganos latos.

Buscae por toda a esphera a perfeição preclara; O Sol vigora a planta, o Sol requeima o fructo; A chuva banha o solo, a chuva innunda a ceara, A Gloria cria a Fama, a Gloria tece o lucto!

A Ideia rasga a entranha á mãe commum, á Terra, E tira-lhe do ser, minerio, luz, sustento;

Mas rola sobre o campo o carro eril da Guerra, E põe um muro espesso em face ao Pensamento.

Os cyclos do passado, erguendo o reposteiro, Mostram em toda a linha o Bem e a Crueldade; E o Homem preso á rocha, é destructor e obreiro Que agora incensa á treva, e logo á Liberdade!

Nos dramas do Universo ha sempre imitações O fado é perennal, a fórma é transitoria;

Cada época produz idoneas mutações

E ha pontos de contacto a escurecer a Historia.

Se um dia a raça humana attinge os lisos portos De seus nobres ideaes, então, forte e sublime, Escalpellando á luz, heroes, fetiches mortos, Ver-lhe-ha nos corações crescer a flor do crime.

E então, em vez de honrar ministros, generaes, Em vez de pôr n'um templo os grandes assassinos,

Dará seu preito eterno ás leis universaes, E á Sciencia e Liberdade os mais sonoros hymnos!