O Marquês de Pombal à Luz da Filosofia

Angelina Vidal · Capítulo 5 de 9

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O Marquês de Pombal à Luz da Filosofia

Capítulo IV

Vem rompendo a manhã, dizem as aves

Seus canticos tranquillos e suaves.

As perolas da aurora, sobre as flôres,

Parecem lamentar ignotas dôres;

E a voz do pegureiro, nas collinas,

De envolta com as phrases purpurinas

Com que o espaço saúda a Humanidade, Tem um cunho supremo de saudade,

Tem um ecco de angustia tão sentida,

Como a corda de uma harpa, que, partida Expande pelo ether seus lamentos.

Vem rompendo a manhã, nos movimentos Dos multiplos anceios luminosos

Que agitam sem cessar a humana arteria, E transformam as lides da Materia,

Parecem destacar-se uns sons dolosos,

Que a Naturesa arranca das entranhas,

E que vibram no valle e nas montanhas.

E comtudo nos floridos caminhos

Balouçam brandamente os doces ninhos, E reflectem nas limpidas correntes

As nuvens azuladas, transparentes,

Como um espelho brilhante da Consciencia, E as varzeas em virente florescencia

Espalham pelo ambiente seus perfumes.

Mas escutam-se ao longe alguns queixumes, Mas um grande alvoroto se aproxima,

E parece que a aurora desanima,

Que os doces rouxinoes tremem de susto, E pende a Naturesa o roseo busto!

Quem é que vem então por essa estrada, Quando apenas desperta a madrugada?

Que significa pois tanto tropel,

Que quer dizer a angustia tão cruel

Que pulsa ahi no seio universal?

É talvez um factor do negro mal,

Algum gigante audaz, filho da noute,

Algum Attila ou Nero, rijo açoute

Das coleras divinas, e illusorias,

Que vem correndo as turvas trajectorias

Do vicio, do rancor, do odio insano,

Até rasgar o peito ao ser humano!

.................................

É um cortejo que segue... quem será!?

Já passam muito perto...

Que numerosos são! Que vejo!... Ah!

Com passo frouxo e incerto

Caminha uma mulher, em desalinho,

Mais pallida que arminho.

De um lado traz o padre, e de outro o algoz

De ventas dilatadas

E a estupida expressão de um ser feroz.

As brancas mãos ligadas,

Veem roxas das auras matutinas,

E das correntes finas.

Cinge-lhe o corpo esvelto a alva infamante

Dos tristes condemnados,

E ás vezes solta um ai tão lancinante,

Que tremem magoados

Os proprios corações mais rancorosos,

E os monstros mais odiosos.

Vem seguida dos filhos e do esposo,

Santissima cohorte

Que vae cahir tambem no seio iroso

Da vingativa morte,

Que o ministro do rei, fero e iracundo,

Arroja sobre o mundo.

Chegam junto do poste; ahi pára tudo.

O algoz, sem mais respeito

Bate no hombro á martyr; fica mudo

O feminino peito,

Varado pela intima agonia

Da infrene tyrannia.

«Levanta essa cabeça, infiel traidora!

Ordena-lhe o carrasco;

«Tu serás a primeira, que és senhora!

E com medonho chasco

Procura, um por um, os instrumentos

Que servem aos tormentos.

«Vê marqueza de Tavora--era a triste!

«Que esplendidas tenazes!

«Sabes quanta virtude aqui persiste?

«São para os teus rapazes.

«Applico-lh'as na cara, mesmo em braza,

«E faço--taboa raza!

«E as torquezes? São rijas de uma vez!

«Agarram como o brêo!

«Hão de arrancar os olhos ao marquez,

«Meu amo e senhor meu;

«E emquanto lhe correr o pranto amargo

Protesto que o não largo!

«Fidalga sem vergonha, olha os cutellos

«Com que eu lhe parto as pernas.

«Agarro-lhes depois pelos cabellos,

«E, lanço-os nas cisternas.

«Porém seu coração traidor, e infausto,

«Dos corvos será pasto.

«Vá! Morre descançada, morre em paz,

«Que eu mato os teus tambem!

«Vão todos para o monstro Satanaz!

«E tu, que és boa mãe,

«Deves nutrir os jubilos eternos

«Por vel-os nos infernos!

«Mas ouve, ouve mais; teu corpo amado,

«Sou eu que o amortalho

«Nos farrapos do opprobrio e do peccado,

«E em cinzas o retalho.

«E para mór despreso demonstrar

«Atiro-as logo ao mar.

«Recae-a em tua fronte todo mal,

«Infamia e maldição!

«Sepulte-se n'um torpe lodaçal

«Teu limpido brazão,

«E fique para sempre o nome teu

«Mais vil que o de um judeu!»

A martyr, com a vista erguida ao espaço

Soffria silenciosa.

Rodeia-lhe o pescoço o frio laço

E a victima formosa

E ao ver fugir da vida os aureos brilhos

Só diz «Filhos, meus filhos!...»

Ó mães! Que dôr suprema isto traduz!

Que turbida epopeia!

Ó povo soffredor, fóco de luz

De onde irradia a Ideia,

Medita; o que ha de mais cruento e féro

No coração de um Nero?!

Como é que desce tanto a raça humana?

Como é que um Povo culto

Supporta resignado a mão tyranna

Que lhe arremessa o insulto,

E deixa ir esmagando sob as lousas

As filhas, mães, e esposas?

....................................

Horas depois os martyres morriam

Ás mãos do indigno algoz;

Boatos na cidade percorriam

Porém a plebea voz

Produz-se eternamente no vazio...

Por isso... não se ouviu!

El-rei dava audiencia; ao seu ministro

Fel-o marquez e conde;

O premio era brilhante mas sinistro,

E a Historia ainda esconde

Os prantos que verteu, porque o terror

Suffoca os ais á Dôr!

Comtudo alguma cousa se levanta

A protestar com ancia;

Alguma aspiração sublime e santa,

Em firme reluctancia

Descobre ás gerações os negros rastros

Dos portentosos astros.

E chama-se Consciencia á eterna força,

Que os seculos correndo,

Sem que a linha traçada alguem contorça,

Pharoes vae accendendo

Nos angulos do turvo precipicio,

Onde faz ninho o vicio.

Em nome d'essa força que defende

O fraco, o pobre, a creança,

Gigante luminoso que se estende

Da morte á loura esp'rança,

É que eu reprovo a impia atrocidade

Da velha sociedade.

Sou democrata e mãe; procuro um norte

De Liberdade e Gloria;

Acceito essa revolta ardente e forte

Que faz tremer a Historia,

Porém condemno o immano desvario

Que mata a sangue frio!

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Que a lei arvóre o facho augusto do Direito, E vá depois cravar nos intimos do peito

As garras da Inclemencia,

Que a Lei fulmine a infamia e seja mais infame Que avilte e prostitua, e contra a ignavia clame,

Revolta a sã Consciencia!

Se o misero infeliz que pelas praças dorme Calcado pela dôr, medita o crime enorme

De procurar viver;

Se presa da afflicção divaga pelas ruas,

Sem casa nem familia, ao frio, as costas nuas,

E os prantos a correr;

Se a esposa que implorou á sociedade honesta Um meio de vencer a fome, e a sorte infesta,

Se encontra repellida;

E para alimentar um filho, irmão ou pae,

Arranca o seu diadema, e sobre as lamas vae

Manchar-se, prostituida.

Se o orphão que vegeta a par do vicio ignobil, Mais tarde é para o vicio o nauseabundo mobil,

Se rouba e prostitue,

Como ousa revoltar-se a sociedade vil,

Se é ella quem provoca, e desbragada e hostil,

Perverte e não instrue?

Que pensamento assiste aos monstruosos codigos? Se os papas, deuses, reis, no crime hão de ser prodigos,

Como é que a lei castiga

Um ser vidente e bom, que aclara a escuridão Com o facho viril da leal Revolução?

Como é que a Lei intriga?

Como é que ella protege o roubador agiota, E arrasta na enxovia o desgraçado illota

Que a fome fez baquear

Nos pelagos do mal? Ó sociedade absurda! Á voz da Naturesa, a lei ha de ser surda

E o odio ha de julgar!

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Matar uma mulher que é mãe, que é democrata, Assassinar sem dó a esposa aristocrata,

Junto dos filhos seus,

É por egual cruel, é por egual maldito!

E havia de fazer chorar todo o infinito,

Se acaso houvera um Deus!

Por mim, que offerto o culto ao que é sereno e puro, Que adoro o Bem sublime, e odeio quanto é duro,

Que não conheço a fé,

Protesto contra a morte infausta de Antonietta, De Sophia, Leonor, Rolland, gentil athleta,

De Tavora e Corday!

A mão que referenda o crime da injustiça, Quando podia erguer da deleteria liça

Um sol ou um jasmim,

Assigna, sem pensar, o perennal deslustre De um seculo, de um nome, ou de um paiz illustre,

Da Humanidade emfim!