O Marquês de Pombal à Luz da Filosofia
Capítulo V
Como ha de pois a Historia olhar esse Gigante, Que tinha em si a morte, o Bem, a luz e o crime? Que ora se eleva a um mundo altivo e coruscante E logo gera um mal que a Gloria não redime? Elle era um diplomata, um patriota, um merito, Podia ser tambem um nobre benemerito
Levando o Povo Luso ás concepções do Justo, Se em vez de ser feroz, de ter um genio adusto Voltasse ao sentimento um coração suave.
Julgou que ser tyranno era o mister mais grave
Do ministro de um rei!
Fez um docel de sangue ao tribunal da Lei, Poz um manto de lucto aos hombros da Justiça, Pisou raivoso o clero, e foi ouvir-lhe a missa, E como affirmação da ideia monarchista
Dos nobres ao plebeu traçou a rubra lista.
Como ha de pois a Historia olhar o athleta ousado?
Pesando com criterio os factos do passado, Seguindo passo a passo o luminoso accesso
Da Sciencia e do Progresso.
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Ha muito que na Europa o sopro percorria Da clara discussão da sã philosophia.
Desde o seculo doze, a duvida christã,
Buscava escalpellar o craneo de Satan.
Pierre d'Abelard examinara a crença,
E via já na fé uma utopia immensa.
Breve, Thomaz d'Aquino, imigo da Rasão, Antepunha ao Progresso a fera inquisição. Mas Bacon, um titan, repelle a fé-cahotica,
E dando luz á Optica
Recebe uma intuição da Sciencia positiva. Então larga a rotina, e só na lide activa
Depoz a base firme á ideia demonstravel. Foi elle um ser vidente, e concebeu provavel, Toda a gloria vindoura; em seu nobre labor Meditava o progresso enorme do vapor;
Mas como em sua frente a infamia não assoma, Foi um martyr da Sciencia, e victima de Roma, A eterna desbragada, a eterna prostituta
Que as gerações enlucta.
Mas o germen vingou; surgiu em breve a imprensa, Excelso meteoro, a realidade immensa
Que faz de Guttemberg um centro luminoso! Ia baquear em terra um deus medonho e iroso; Ia a Ideia pulsar na mente e força do Homem!
E como as trevas somem
Os raios de um bom sol, assim o novo invento Abria par em par a estrada ao Pensamento!
O Genio eternisava em breve a Pomponace, E o forte Rabelais batia face a face
A escolastica, e a lei theocratica e politica, Bem como o abuso annexo á concepção juridica.
A Patria lusitana, a joia do Occidente
Á Europa mostra então o poeta Gil Vicente, Que açouta o clero hostil com látegos de risos, E nem sequer poupando os santos paraisos. Na praça era o judeu sujeito a atrocidades; Na côrte, D. Manuel escarnecia os frades.
Havia pois de um lado a força da rotina
E do outro a Ideia incuba a preparar a ruina.
Mas n'isto um sobresalto os cerebros sacode, Roma chega raivosa, e vê que nada póde. Copernico affirmava a terrea rotação,
Perdia o seu prestigio a santa religião! Forçoso era impedir a affronta d'essa Idéa! O sabio ponderou, que outr'ora na Chaldéa Se havia já mostrado o movimento á Terra; Porém a Curia segue em furibunda guerra,
E condemnou-lhe a obra.
Mas eis um luctador que a força audaz redobra,
E com coragem fria
Procura no infinito as leis da astronomia.
Inventa o telescopio e applica-o logo ao ceu.
E o mundo olha assombrado o insigne Galileu,
Que segue passo a passo
O trajecto eternal dos mundos pelo espaço.
Se ha nome que de Gloria esplenda no universo,
É o d'esse velho nobre
Que o clero punge e arrasta, em dôr, e pranto immerso,
Mas que ao Genio descobre
A esteira do futuro, a via dos heroes
Que põem no Progresso os rubidos pharoes!
A quéda do Oriente, estremecer convulso Havia dado á Ideia um vigoroso impulso,
Civilisando a mente e pondo em toda a parte O gosto da Poesia, e pelos brilhos da arte. Então o aureo paiz dos inclitos varões
Produz um sol gigante o esplendido CAMÕES, A synthese do Genio, um estro democrata Assombro dos Ideaes, talento que arrebata!
Que bella actividade! Um cyclo era uma escola
De sublimado intento!...
Porém vê-se descer o manto de Loyola
Por cima d'esse advento,
E logo a aurora cae nas garras do terror,
E logo a humana gloria exprime no estertor
Que a prostra um assassino!
Comtudo avança o Bem! Luthero, Huss e Calvino
Feriram mortalmente
O abuso, a tyrannia e o repugnante agente
Das penas infernaes,
Geradas no rancor das hyenas clericaes.
A lucta assim travada é turbulenta e audaz! De um lado impera altivo o monstro Satanaz. E do outro a aspiração das comprovadas cousas. A aurora veste lucto, a terra veste lousas, E o sangue corre a flux no precipicio escuro...
Mas elle fecundou os germens do Futuro! .......................................
Keppler, Newton, Brahé, tinham desfeito o mytho Da creação divina; os livros do infinito
Já tinham revelado, em phrases de planetas Da grande lei sidérea as deslumbrantes metas.
Descartes ampliára as lucidas conquistas E profundára o abysmo ás vãs ficções deistas; E como o jesuitismo erguesse um throno ao mal, Surgiu-lhe o valoroso e hostil Blaise Pascal, Com satyra cortante e lucido criterio,
Traçando-lhe no Tempo o eterno cemiterio.
Desfibrava-se a pouco a lenda theologica, E punha-se a attenção na historia geologica, Gognel, Jussieu, Buffon, tinham rasgado a entranha
No valle, e na montanha,
Á esphera onde se agita o Genio e o desatino. Seguiram-lhe o trajecto um Pallas e Arduino,
E todos, sem sentir,
Fizeram o passado esmorecer, ruir.
A antiga historia china oppunha-se á utopia Da lenda de Moysés; a sciencia cada dia Os cerebros levava á nova experiencia,
Que em breve provaria á forte intelligencia
A historia da Materia
No mar, na vida, e morte, e sons, e luz etherea. ................................................
Brotava na Consciencia a aspiração politica; Deixara a Inglaterra a fórmula mephitica,
E em todos os sentidos
Se pressentiam já os turbidos ruidos.
Voltaire e Diderot entravam no futuro.
Desmoronando o muro
Que ainda protegia a treva e o fanatismo. Ficou pois fulminada a crença e o mysticismo! Nenhum abrigo havia aos golpes do alvião Vibrados pela firme e rija Evolução.
Os reis, mesmo a sorrir abriam o jazigo,
Onde ia sepultar-se o clero, o seu amigo, Sem verem que aluida a base do edificio
Que tem por cima o odio, e em baixo o precipicio, Desaba fatalmente em multiplas bastilhas.
Tinham sulcado o oceano as portuguezas quilhas, E o genio dos heroes deixara esteiras certas Á bella exploração das ricas descobertas. No clima luxuriante, e terras do Equador
Eram a flóra e fauna os ninhos do esplendor, E o Homem que estudava, o Homem já sabia Que Deus era ignorante, e muito, em Geographia. ..............................................
N'este mar revoltoso é que se eleva o homem Que uns coroam de luz, outros na campa somem!