O Natal de Poirot

Agatha Christie · Capítulo 3 de 7 · parte 3/3

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O Natal de Poirot

Parte 3 - 24 de dezembro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Johnson disse:

– O senhor estava sozinho na sala de música?

– Hum? Não, minha esposa, Hilda, estava lá. Ela tinha vindo da sala de estar. Nós... nós subimos com os outros.

Ele acrescentou de maneira rápida e nervosa:

– O senhor não quer que eu descreva o que... o que vi lá?

O coronel Johnson disse:

– Não, não é necessário. Obrigado, sr. Lee, isso é tudo. Suponho que o senhor não imagine quem poderia querer assassinar o seu pai?

David Lee disse de modo precipitado:

– Creio que... muitas pessoas! Não sei de ninguém em particular.

Ele saiu rápido, fechando a porta atrás de si com uma batida sonora.

 

XIII

O coronel Johnson teve tempo somente para pigarrear até que a porta se abrisse de novo e Hilda Lee entrasse.

Hercule Poirot olhou para ela com interesse. Ele tinha de admitir que as mulheres com quem esses Lee haviam se casado eram objetos de estudo interessantes. A inteligência ágil e a elegância esbelta de Lydia, os ares e encantos vulgares de Magdalene e, agora, a força sólida e confiável de Hilda. Ele notou que ela era mais jovem do que a faziam parecer seu penteado um tanto desmazelado e suas roupas fora de moda. Seu cabelo castanho-claro não tinha fios grisalhos e seus olhos calmos cor de avelã brilhavam no rosto rechonchudo como faróis de bondade. Ela era, ele pensou, uma boa mulher.

O coronel Johnson estava falando no seu tom mais gentil:

– Uma provação terrível para todos vocês – ele estava dizendo. – Pelo que me disse seu marido, sra. Lee, esta é a primeira vez que a senhora vem à mansão Gorston?

Ela inclinou a cabeça em concordância.

– A senhora já havia sido apresentada ao seu sogro, sr. Lee?

Hilda respondeu na sua voz cordial:

– Não. Nós casamos logo após David ter saído de casa. Ele nunca quis manter relação alguma com sua família. Até este momento, nós não tínhamos visto nenhum deles.

– Mas como a sua visita veio a ocorrer?

– Meu sogro escreveu para David. Ele ressaltou a sua idade e o desejo de que todos os filhos estivessem com ele este Natal.

– E seu marido respondeu a esse apelo?

Hilda disse:

– Temo que ele tenha aceitado o convite somente por minha causa. Eu entendi mal a situação.

Poirot a interrompeu. Ele disse:

– A senhora faria a gentileza de se explicar de maneira um pouco mais clara, madame? Acho que a senhora pode ter algo de valioso para nos dizer.

Ela se virou para ele de pronto e disse:

– Até aquele momento, eu nunca tinha visto meu sogro. Eu não fazia ideia de qual seria o motivo real dele. Presumi que ele era velho e solitário e que queria realmente se reconciliar com todos os seus filhos.

– E, em sua opinião, madame, qual era o motivo real dele?

Hilda hesitou um momento e disse lentamente:

– Não tenho dúvida, nenhuma dúvida, de que meu sogro na verdade não queria promover a paz, mas instigar a discórdia.

– De que maneira?

Hilda disse em voz baixa:

– Ele divertia-se em provocar os piores instintos da natureza humana. Havia... como definir? Havia uma espécie de travessura diabólica nele. Ele queria colocar cada membro da família às turras com todos os demais.

Johnson questionou:

– E ele conseguiu?

– Ah, sim – disse Hilda Lee. – Ele conseguiu.

Poirot disse:

– Contaram-nos, madame, sobre uma cena que ocorreu esta tarde. Uma cena bastante violenta, ao que parece.

Ela inclinou a cabeça.

– A senhora poderia descrevê-la a nós da maneira mais precisa possível, por favor?

Ela refletiu por um minuto.

– Quando nós entramos, meu sogro estava telefonando.

– Para o advogado dele, não é?

– Sim, ele estava sugerindo que o senhor... seria Charlton? Não lembro bem o nome... viesse à mansão, pois ele, meu sogro, queria fazer um testamento novo. O testamento velho, disse ele, estava bastante defasado.

Poirot disse:

– Pense com cuidado, madame. Na sua opinião, o seu sogro procurou deliberadamente se assegurar de que vocês todos ouvissem essa conversa, ou foi apenas obra do acaso o fato de vocês a terem ouvido?

Hilda Lee disse:

– Tenho quase certeza de que ele queria que nós a ouvíssemos.

– Com o objetivo de fomentar dúvida e suspeitas entre vocês?

– Sim.

– Então na verdade talvez ele não tivesse intenção alguma de alterar o testamento?

Ela arguiu:

– Não, acho que essa parte era genuína. É provável que ele quisesse fazer um novo testamento, mas tinha prazer em salientar o fato.

– Madame – disse Poirot –, não estou aqui em caráter oficial e minhas perguntas, a senhora compreende, talvez não sejam aquelas que um policial inglês faria. Mas tenho um grande desejo de saber que forma a senhora acredita que o novo testamento tomaria. Peço-lhe, a senhora perceba, não seu conhecimento, mas apenas sua opinião. Les femmes, elas nunca são lentas para formar uma opinião, Dieu merci.

Hilda Lee sorriu um pouco.

– Não me importo em dizer o que penso. A irmã de meu marido, Jennifer, casou com um espanhol, Juan Estravados. Sua filha, Pilar, chegou há pouco aqui. Ela é uma garota adorável e, claro, a única neta na família. O velho sr. Lee estava encantado. Simpatizou demais com ela. Em minha opinião, ele queria deixar-lhe uma soma considerável, em seu novo testamento. É provável que, no testamento anterior, ele houvesse legado a ela uma pequena parte, ou mesmo nada.

– Você chegou a conhecer sua cunhada?

– Não, nunca a encontrei. Creio que seu marido espanhol morreu em circunstâncias trágicas, logo após o casamento. E Jennifer morreu há um ano. Pilar ficou órfã. Por isso o sr. Lee havia a convidado para viver com ele na Inglaterra.

– E os outros membros da família, eles a receberam bem?

Hilda respondeu com tranquilidade:

– Acho que todos gostaram dela. Era muito bom ter alguém jovem e cheio de vida na casa.

– E ela pareceu gostar de estar aqui?

Hilda disse lentamente:

– Não sei. Deve ser frio e estranho para uma garota criada no sul... na Espanha.

Johnson disse:

– Mas não deve ser muito agradável estar na Espanha no momento. Agora, sra. Lee, nós gostaríamos de ouvir seu relato da conversa ocorrida esta tarde.

Poirot murmurou:

– Peço desculpas. Eu desviei do assunto.

Hilda Lee disse:

– Após meu sogro terminar o telefonema, ele olhou-nos e riu, e disse que todos parecíamos muito abatidos. Então, disse que estava cansado e que iria para a cama cedo. Ninguém deveria subir para vê-lo esta noite. Ele disse que queria estar em boa forma para o dia de Natal. Algo assim.

“Então – ela franziu o cenho em um esforço de memória –, acho que ele disse algo sobre ser necessário fazer parte de uma grande família para dar o devido valor ao Natal e, em seguida, começou a falar de dinheiro. Ele disse que custaria mais para ele administrar esta casa, no futuro. Disse a George e Magdalene que eles deveriam economizar. Disse a ela que fizesse as próprias roupas. Temo que seja uma ideia bastante ultrapassada. Não me espanta que isso a tenha irritado. Ele disse que a própria esposa havia sido hábil com a agulha.”

Poirot disse cortesmente:

– Isso é tudo que ele disse sobre ela?

Hilda corou.

– Ele fez uma referência desdenhosa à inteligência dela. Meu marido era muito dedicado à mãe, e aquilo o perturbou muito. De repente, o sr. Lee começou a gritar conosco. Tornou-se cada vez mais inquieto. Posso entender, é claro, como ele se sentia...

Poirot a interrompeu com polidez:

– Como ele se sentia?

Ela voltou-lhe seus olhos serenos.

– Ele estava desapontado, é claro – disse ela. – Porque não há netos, quero dizer, garotos. Nenhum Lee para levar o nome adiante. Posso compreender que isso o incomodava havia muito tempo. De um momento para outro, ele não conseguiu mais conter sua ira e a lançou contra os filhos, dizendo que eles eram um bando de velhotas pusilânimes, ou algo neste sentido. Senti pena dele então, pois entendi o quanto seu orgulho estava ferido.

– E então?

– E então – disse Hilda devagar – nós todos fomos embora.

– Essa foi a última vez que a senhora o viu?

Ela fez uma mesura com a cabeça.

– Onde a senhora estava no momento em que o crime ocorreu?

– Eu estava com meu marido na sala de música. Ele estava tocando para mim.

– E então?

– Ouvimos mesas e cadeiras sendo derrubadas no andar de cima, e porcelanas sendo quebradas, uma luta terrível. E depois aquele grito pavoroso, quando a garganta dele foi cortada...

Poirot disse:

– Foi um grito tão terrível assim? Foi – Poirot fez uma pausa –, como uma alma no inferno?

Hilda Lee disse:

– Foi pior!

– O que a senhora quer dizer, madame?

– Foi como alguém que não tivesse alma... Foi desumano como uma fera.

Poirot disse de maneira grave:

– Então... a senhora já o havia condenado, madame?

Ela ergueu a mão, em súbita angústia. Seus olhos baixaram, e ela passou a olhar o chão.

 

XIV

Pilar entrou na sala com a cautela de um animal que suspeita de uma armadilha. Seus olhos moveram-se rápidos, de um lado para outro. Ela parecia menos temerosa do que profundamente desconfiada.

O coronel Johnson levantou-se e ofereceu uma cadeira para ela. Então ele disse:

– Imagino que a senhorita compreenda o inglês, estou correto, srta. Estravados?

Os olhos de Pilar se arregalaram. Ela disse:

– É claro. Minha mãe era inglesa. Sou, de fato, muito inglesa.

Um ligeiro sorriso veio aos lábios do coronel Johnson, quando seus olhos estudaram o brilho negro do cabelo dela, os olhos escuros orgulhosos e os lábios fartos. Muito inglesa! Um termo inadequado para se aplicar a Pilar Estravados.

Ele disse:

– O sr. Lee era seu avô. Ele mandou chamá-la na Espanha. E a senhorita chegou há alguns dias. Foi isso mesmo?

Pilar anuiu.

– Sim, foi. Eu passei... por uma série de aventuras para sair da Espanha... houve uma bomba que veio pelo ar e o chofer foi morto... onde a sua cabeça estava restou um monte de sangue. E eu não sabia dirigir, então tive de caminhar por uma longa distância... e não gosto de caminhar. Nunca caminho. Meus pés doíam... mas a dor...

O coronel Johnson sorriu e disse:

– De qualquer maneira, a senhorita chegou aqui. A sua mãe falava bastante no seu avô?

Pilar assentiu alegremente.

– Ah sim, ela disse que ele era um diabo velho.

Hercule Poirot sorriu. Ele disse:

– E o que a senhorita achou dele quando chegou, mademoiselle?

Pilar disse:

– É claro que ele era muito, muito velho. Ele tinha de ficar sentado, e seu rosto era todo enrugado. Mas eu gostei dele mesmo assim. Acho que, quando era jovem, devia ser bonito, muito bonito, como o senhor – disse Pilar ao superintendente Sugden. Seu olhar demorou-se com prazer ingênuo sobre o belo rosto, que ficara vermelho como um tomate com o elogio.

O coronel Johnson conteve uma risadinha. Essa fora uma das poucas ocasiões em que ele vira o imperturbável superintendente sobressaltado.

– Mas é claro – continuou Pilar com pesar –, ele jamais poderia ter sido tão alto quanto o senhor.

Hercule Poirot suspirou.

– Quer dizer que a señorita gosta de homens grandes?

Pilar concordou entusiasticamente.

– Ah, sim, eu gosto que um homem seja muito grande, alto, com os ombros largos e muito, muito forte.

O coronel Johnson disse de maneira brusca:

– A senhorita esteve bastante tempo com seu avô desde a sua chegada?

Pilar respondeu:

– Ah, sim. Eu ia ao quarto fazer-lhe companhia. Ele contava-me coisas... Que foi um homem muito mau, e todas as coisas que ele fez na África do Sul.

– Ele chegou a contar-lhe que tinha diamantes no cofre do seu quarto?

– Sim, ele me mostrou. Mas eles não eram como diamantes... eram iguais a seixos... muito feios, muito feios mesmo.

O superintendente Sugden disse sem rodeios:

– Então ele os mostrou para a senhorita, foi isso?

– Sim.

– Ele não lhe deu nenhum?

Pilar balançou a cabeça.

– Não, não deu. Achei que talvez um dia ele desse... Se eu fosse muito boa para ele e sempre lhe fizesse companhia. Porque velhos gostam muito de garotas.

O coronel Johnson disse:

– A senhorita sabia que esses diamantes foram roubados?

Pilar arregalou bem os olhos.

– Roubados?

– Sim, a senhorita não faz ideia de quem poderia ter sido?

Pilar assentiu com a cabeça.

– Ah, sim – disse ela. – Deve ter sido Horbury.

– Horbury? A senhorita quer dizer o criado pessoal?

– Sim.

– Por que a senhorita acha isso?

– Porque ele tem rosto de ladrão. Seus olhos vão assim, de um lado para o outro, ele caminha sem fazer barulho e ouve atrás das portas. Ele é como um gato. E todos os gatos são ladrões.

– Hum – disse o coronel Johnson. – Terminemos por aqui. Bem, fui informado de que toda a família havia subido ao quarto do seu avô esta tarde, e algumas... hum... palavras ásperas foram trocadas.

Pilar anuiu e sorriu.

– Sim – disse ela. – Foi muito divertido. O vovô os deixou tão irados!

– Ah, a senhorita se divertiu, é?

– Sim. Gosto de ver pessoas iradas. Gosto muito. Mas aqui na Inglaterra elas não ficam tão iradas como na Espanha. Na Espanha elas sacam suas facas, praguejam e gritam. Na Inglaterra não fazem nada, só ficam com o rosto muito vermelho e fecham bem a boca.

– A senhorita se lembra do que foi dito?

Pilar pareceu um pouco em dúvida.

– Não tenho tanta certeza. O vovô disse que eles não valiam nada, que eles não tinham filhos. Ele disse que eu era melhor do que qualquer um deles. Ele gostava de mim, gostava muito.

– Ele disse alguma coisa sobre dinheiro ou um testamento?

– Um testamento... não, acho que não. Não lembro.

– O que aconteceu?

– Eles todos foram embora, exceto Hilda, a gorda, esposa de David. Ela ficou para trás.

– Ah, ela ficou, é?

– Sim. David estava muito esquisito. Trêmulo e, ah, tão pálido. Ele parecia estar doente.

– E o que aconteceu então?

– Então eu saí e encontrei Stephen. Nós dançamos ao som do gramofone.

– Stephen Farr?

– Sim. Ele é da África do Sul. Ele é filho do sócio do vovô. Ele é muito bonito também. Muito moreno e grande, e tem belos olhos.

Johnson perguntou:

– Onde a senhorita estava quando o crime ocorreu?

– O senhor quer saber onde eu estava?

– Sim.

– Eu tinha ido à sala de estar com Lydia. E então subi para meu quarto e maquiei o rosto. Eu iria dançar com Stephen de novo. E então, ao longe, ouvi um grito e todos correram, então eu fui também. E eles tentaram derrubar a porta do vovô. Harry a arrombou com Stephen. Os dois são grandes e fortes.

– Sim?

– Depois, a porta foi derrubada com um estrondo e nós todos olhamos para dentro. Ah, que visão... tudo quebrado e derrubado, e vovô caído em meio a muito sangue, e sua garganta cortada assim – ela fez um gesto vívido e dramático no seu próprio pescoço – até a orelha.

Pilar fez uma pausa, obviamente satisfeita com sua narrativa.

Johnson disse:

– O sangue não a fez se sentir enjoada?

Ela o encarou.

– Não, por que o faria? Normalmente há sangue quando as pessoas são mortas. Havia... tanto sangue por toda parte!

Poirot disse:

– Alguém disse alguma coisa?

Pilar respondeu:

– David disse uma coisa engraçada... o que foi? Ah, sim. Os moinhos de Deus... foi o que ele disse – ela repetiu, enfatizando cada palavra – Os... moinhos... de... Deus... O que ele quis dizer? Moinhos são para fazer farinha, não?

O coronel Johnson disse:

– Bem, acho que não temos mais perguntas por ora, srta. Estravados.

Pilar levantou-se, obediente. Ela lançou um olhar rápido e encantador a cada um dos homens.

– Vou-me agora. – Ela saiu.

O coronel Johnson disse:

– Os moinhos de Deus moem devagar... E David Lee o disse!

XV

Quando a porta se abriu mais uma vez, o coronel Johnson olhou para frente. Por um momento ele achou que a figura que entrava era Harry Lee, mas, quando Stephen Farr avançou para dentro sala, ele percebeu seu erro.

– Sente-se, sr. Farr – disse ele.

Stephen sentou-se. Seu olhar calmo e inteligente alternou-se entre os três homens. Ele disse:

– Temo não ser de grande utilidade para os senhores. Mas, por favor, perguntem-me qualquer coisa que vocês acharem que possa ajudar. Talvez seja melhor explicar, para começo de conversa, quem sou eu. Meu pai, Ebenezer Farr, foi sócio de Simeon Lee na África do Sul nos velhos tempos. Falo de mais de quarenta anos atrás.

Ele fez uma pausa:

– Meu pai falava-me bastante de Simeon Lee, que personalidade ele era. Ele e o papai garimparam um bocado. Simeon Lee voltou para casa com uma fortuna, e meu pai também não se saiu mal. Meu pai sempre me dizia para procurar o sr. Lee quando eu viesse para cá. Eu disse que fazia muito tempo e que ele por certo não saberia quem eu era, mas meu pai riu da ideia. Ele disse: “Quando dois homens passaram juntos pelo que Simeon e eu passamos, eles não esquecem”. Bem, meu pai morreu há uns dois anos. Este ano, vim à Inglaterra pela primeira vez e achei que deveria seguir o conselho do meu pai e procurar o sr. Lee.

Com um ligeiro sorriso ele continuou:

– Eu estava só um pouco nervoso quando cheguei aqui, mas não precisava. O sr. Lee recebeu-me muito bem e insistiu absolutamente que eu ficasse com a família para passar o Natal. Eu temia estar me intrometendo, mas ele não quis saber de recusas.

Ele acrescentou de maneira um tanto tímida:

– Eles foram todos muito gentis comigo. O sr. e a sra. Alfred Lee não poderiam ter sido melhores. Lamento que tudo isso lhes tenha acontecido.

– Há quanto tempo o senhor está aqui, sr. Farr?

– Desde ontem.

Poirot disse:

– O senhor esteve com o sr. Lee em algum momento?

– Sim, conversamos um pouco esta manhã. Ele estava de bom humor e ansioso para ouvir sobre um monte de pessoas e lugares.

– Essa foi a última vez que o senhor o viu?

– Sim.

– Ele mencionou para o senhor que mantinha uma quantidade de diamantes não lapidados no seu cofre?

– Não.

Ele acrescentou antes que o outro pudesse falar:

– O senhor quer dizer que se trata de um caso de assassinato e roubo?

– Ainda não temos certeza – disse Johnson. – Agora, vamos aos eventos de hoje à noite. O senhor pode contar-nos, com suas próprias palavras, o que estava fazendo?

– Certamente. Após as senhoras terem deixado a sala de jantar, eu fiquei e bebi um cálice de vinho do Porto. Então vi que os Lee tinham questões familiares para discutir, e que minha presença ali os estava incomodando, por isso pedi licença e os deixei.

– E o que o senhor fez então?

Stephen Farr recostou-se na cadeira. Com o dedo indicador ele acariciou o queixo. E disse de maneira um tanto rígida:

– Eu... hum... entrei em uma sala grande com piso de parquê... uma espécie de salão de baile. Há um gramofone ali e discos para dançar. Eu coloquei alguns discos para tocar.

Poirot disse:

– Seria possível, talvez, que alguém se houvesse juntado ao senhor?

Um breve sorriso curvou os lábios de Stephen Farr. Ele respondeu:

– Seria possível, sim. A esperança é a última que morre.

E ele riu abertamente.

Poirot disse:

– A senõrita Estravados é muito bonita.

Stephen respondeu:

– Ela é, sem dúvida, a visão mais bonita que tive desde que cheguei à Inglaterra.

– A srta. Estravados juntou-se ao senhor? – perguntou o coronel Johnson.

Stephen balançou a cabeça.

– Eu ainda estava lá quando ouvi a confusão. Eu saí para a sala e corri como o diabo para ver o que era. Ajudei Harry Lee a arrombar a porta.

– E isso é tudo que o senhor tem para nos contar?

– Infelizmente, sim.

Hercule Poirot se inclinou para frente. E disse de forma delicada:

– Mas eu acho, monsieur Farr, que o senhor poderia nos contar bem mais se quisesse.

Farr retrucou:

– O que o senhor quer dizer com isso?

– O senhor conhece algo muito importante para esse caso: o caráter do sr. Lee. O senhor disse que seu pai falava muito sobre ele. Que tipo de homem seu pai descreveu ao senhor?

Stephen Farr disse devagar:

– Acho que entendi onde o senhor quer chegar. Como era Simeon Lee na juventude? Bem... suponho que o senhor queira que eu seja franco, não é?

– Por favor.

– Bem, para começar, não acho que Simeon Lee tenha sido um membro muito virtuoso da sociedade. Não digo que fosse um legítimo vigarista, mas passava bem perto. De qualquer maneira, sua moral não era algo de que se gabar. No entanto, era charmoso, e muito. E generoso ao extremo. Ninguém com uma história triste para contar jamais apelou a ele em vão. Ele bebia um pouco, mas não demais, era atraente para as mulheres e tinha senso de humor. Mesmo assim, ele tinha um traço vingativo peculiar em seu caráter. Fale do elefante que nunca esquece e estará falando de Simeon Lee. Meu pai contou-me vários casos em que Lee esperou por anos para se vingar de alguém que lhe tinha passado a perna.

O superintendente Sugden disse:

– Essa é uma faca de dois gumes. O senhor não tem conhecimento de alguém que tenha sido prejudicado por Simeon Lee na África do Sul, sr. Farr? Nada que tenha origem no passado e que pudesse explicar o crime cometido aqui esta noite?

Stephen Farr balançou a cabeça.

– Ele tinha inimigos, é claro, devia ter, sendo o homem que era. Mas não sei de nenhum caso específico. Além disso – seus olhos estreitaram-se –, pelo que sei (na realidade, andei perguntando a Tressilian), não havia estranhos nesta casa ou próximo dela esta noite.

Hercule Poirot disse:

– Exceto o senhor, monsieur Farr.

Stephen Farr se virou abruptamente para ele.

– Ah, mas é isso? Um suspeito desconhecido, dentro da propriedade! Bem, os senhores não descobrirão nada do gênero. Nenhuma história pregressa de Simeon Lee enganando Ebenezer Farr, e o filho de Eb voltando para vingar o pai! Não – ele balançou a cabeça. – Simeon e Ebenezer não tinham nada um contra o outro. Vim para cá, como já lhes contei, por pura curiosidade. E, além do mais, eu imagino que um gramofone seja um álibi tão bom quanto qualquer outro. Não parei em momento algum de colocar discos, alguém deve tê-los ouvido. Um disco não me daria tempo de correr até o andar de cima (e estes corredores têm um quilômetro de comprimento), cortar a garganta de um velho, limpar-me do sangue e voltar antes que os outros subissem correndo. Isso é ridículo!

O coronel Johnson disse:

– Não estamos fazendo quaisquer insinuações contra o senhor, sr. Farr.

Stephen Farr disse:

– Não gostei muito do tom usado pelo sr. Hercule Poirot.

– Que lamentável – disse Hercule Poirot.

Ele sorriu, sem maldade, para o outro. Stephen Farr olhou irado para ele. O coronel Johnson interveio rápido:

– Obrigado, sr. Farr. Isto é tudo por ora. O senhor não deve sair da casa, é claro.

Stephen Farr assentiu. Ele levantou-se e deixou a sala, com andar despreocupado.

Quando a porta fechou-se atrás dele, Johnson disse:

– Lá vai X, o fator desconhecido. A história dele é bem plausível. Mesmo assim, ele é o azarão. Talvez ele tenha surrupiado aqueles diamantes. Talvez tenha vindo para cá com uma história falsa, apenas para que o deixassem entrar na casa. É melhor você tomar as impressões digitais dele, Sugden, e ver se ele é conhecido.

– Eu já as tenho – disse o superintendente com um sorriso seco.

– Bom homem. Você não deixa passar muita coisa. Imagino que você esteja atento a todas as linhas de investigação mais óbvias, correto?

O superintendente Sugden conferiu nos dedos.

– Checar os telefonemas, horários etc. Checar Horbury. A hora em que saiu, quem o viu sair. Checar todas as entradas e saídas. Checar os empregados em geral. Checar a posição financeira dos membros da família. Entrar em contato com os advogados e checar o testamento. Fazer uma busca na casa pela arma e por manchas de sangue em roupas, e também por diamantes escondidos em algum lugar.

– Acho que isso cobre tudo – disse o coronel Johnson de maneira aprovadora.

– O senhor tem algo a sugerir, monsieur Poirot?

Poirot balançou a cabeça.

– Considero o superintendente um policial admiravelmente cuidadoso.

Sugden disse, sombrio:

– Não vai ser brincadeira procurar nesta casa pelos diamantes perdidos. Nunca vi tantos ornamentos e penduricalhos em minha vida.

– Os esconderijos são certamente muitos – concordou Poirot.

– Não há mesmo nada que você sugira, Poirot?

O chefe de polícia parecia um pouco desapontado, como um homem cujo cão se recusa a fazer um truque.

Poirot disse:

– Você permite que eu siga minha própria linha de investigação?

– Certamente, certamente – disse Johnson, ao mesmo tempo em que o superintendente Sugden perguntava, um pouco desconfiado:

– Que linha?

– Eu gostaria – disse Hercule Poirot – de conversar, reiteradamente, com os membros da família.

– Você quer interrogá-los mais uma vez? – perguntou o coronel, um pouco confuso.

– Não, não interrogar. Conversar!

– Por quê? – perguntou Sugden.

Hercule Poirot fez um gesto enfático com a mão.

– Em uma conversa surgem questões! Se um ser humano conversa muito, é impossível para ele evitar a verdade!

Sugden disse:

– O senhor acha que alguém está mentindo?

Poirot suspirou.

– Mon cher, todo mundo mente. É preciso separar o joio do trigo. É proveitoso separar as mentiras inofensivas das mentiras vitais.

O coronel Johnson replicou:

– Assim mesmo, é incrível, sabe. Aqui temos um assassinato particularmente grosseiro e brutal, e quem são os suspeitos? Alfred Lee e a sua esposa, ambos encantadores, bem-educados, tranquilos. George Lee, que é membro do parlamento e a essência da respeitabilidade. Sua esposa? Ela é apenas uma mulher de uma beleza moderna. David Lee parece ser um sujeito decente, e temos o testemunho do seu irmão Harry de que ele não suporta ver sangue. Sua esposa parece ser uma mulher boa e sensata, como tantas. Restam a sobrinha espanhola e o homem da África do Sul. Beldades espanholas têm temperamentos explosivos, mas não vejo aquela criatura atraente cortando o pescoço do velho a sangue-frio, já que, de acordo com o que sabemos agora, ela tinha todas as razões para mantê-lo vivo, pelo menos até ele assinar o novo testamento. Stephen Farr é uma possibilidade, isto é, ele pode ser um vigarista profissional e ter vindo atrás dos diamantes. O velho descobriu o sumiço, e Farr cortou-lhe a garganta para mantê-lo calado. Pode ter sido isso... Aquele álibi do gramofone não é muito bom.

Poirot balançou a cabeça.

– Meu caro amigo – disse ele. – Compare a compleição de monsieur Stephen Farr e do velho Simeon Lee. Se Farr decidisse matar o velho, ele poderia tê-lo feito em um minuto... Simeon Lee não teria como resistir. Dá para acreditar que aquele velho frágil e aquele magnífico exemplar de homem lutaram por alguns minutos, derrubando cadeiras e quebrando porcelanas? Imaginar tal coisa é absurdo!

Os olhos do coronel Johnson estreitaram-se.

– Você acha – disse ele – que um homem fraco matou Simeon Lee?

– Ou uma mulher! – disse o superintendente.

 

XVI

O coronel Johnson consultou seu relógio.

– Não há muito mais que eu possa fazer aqui. Você está com as coisas sob controle, Sugden. Ah, só uma coisa. Temos de ver o tal mordomo. Sei que você o interrogou, mas sabemos agora um pouco mais sobre os fatos. É importante confirmar com exatidão que todos estavam onde disseram estar no momento do assassinato.

Tressilian entrou devagar. O chefe de polícia disse a ele que se sentasse.

– Obrigado, senhor. Vou me sentar, se o senhor não se importa. Andei me sentindo estranho... muito estranho mesmo. Minhas pernas, senhor, e minha cabeça.

Poirot disse ternamente:

– Sim, você sofreu um choque.

O mordomo teve um calafrio.

– Uma... uma coisa tão violenta para acontecer. Nesta casa! Onde tudo sempre foi tão tranquilo.

Poirot disse:

– Era um lar, não era? Mas não feliz?

– Eu não gostaria de dizer isso, senhor.

– Nos velhos tempos, quando toda a família morava em casa, era um lugar feliz?

Tressilian disse devagar:

– Não era o que se chamaria de muito harmonioso, senhor.

– A falecida sra. Lee era quase uma inválida, não era?

– Sim, senhor, ela sofria muito.

– Os filhos gostavam dela?

– O sr. David era muito dedicado a ela. Como uma filha, mais do que como um filho. E depois que ela morreu, ele se foi, não suportava mais viver aqui.

Poirot disse:

– E o sr. Harry? Como ele era?

– Sempre foi um jovem bastante rebelde, senhor, mas de bom coração. Ah, ele deu-me um susto e tanto quando a campainha tocou e voltou a tocar, com tanta impaciência! Abri a porta e lá estava um homem estranho. A voz do sr. Harry disse: “Olá, Tressilian. Ainda aqui, hum?”. O mesmo de sempre.

Poirot disse, compreensivo:

– Deve ter sido um sentimento estranho, sim, de fato.

Tressilian disse, com um ligeiro rubor no rosto:

– Às vezes parece, senhor, que o passado não passou! Creio que há uma peça de teatro em Londres sobre algo parecido. E tem razão, senhor, de fato tem. Há um sentimento que toma conta de você, de já ter feito tudo aquilo antes. Parece-me que ainda agora a campainha tocou e, quando a atendo, lá está o sr. Harry, mesmo que seja o sr. Farr ou outra pessoa. E digo a mim mesmo: “Eu já fiz isso antes”.

Poirot disse:

– Isso é muito interessante... muito interessante.

Tressilian olhou para ele agradecido.

Johnson, de certa maneira impaciente, limpou a garganta e assumiu o rumo da conversa.

– Eu só gostaria de conferir alguns horários – disse ele. – Quando o ruído no andar de cima começou, pelo que entendi, somente o sr. Alfred Lee e o sr. Harry Lee estavam na sala de jantar. Estou correto?

– Eu de fato não saberia dizer, senhor. Todos os cavalheiros estavam lá quando servi café para eles, mas isso foi em torno de quinze minutos antes.

– O sr. George Lee estava telefonando. Você pode confirmar isso?

– Acho que alguém telefonou sim, senhor. A campainha toca na minha copa, e, quando alguém tira o fone do gancho para fazer uma ligação, há um ligeiro ruído na campainha. Lembro-me de tê-lo ouvido, mas não dei atenção.

– Você não sabe precisar exatamente quando isso ocorreu?

– Eu não saberia dizer, senhor. Foi depois de eu ter levado café para os cavalheiros. Isso é tudo que eu posso dizer.

– Você saberia dizer onde estava alguma das senhoras no momento que eu mencionei?

– A sra. Alfred estava na sala de estar, senhor, quando eu entrei no aposento com a bandeja de café. Isso foi apenas um minuto ou dois antes de ouvir o grito no andar de cima.

Poirot perguntou:

– O que ela estava fazendo?

– Ela estava parada junto à janela mais distante, senhor. Havia puxado um pouco a cortina e olhava para fora.

– E nenhuma das outras senhoras estava na sala?

– Não, senhor.

– Você sabe onde elas estavam?

– Não, de forma alguma, senhor.

– Você não sabe onde estavam os outros?

– Creio que o sr. David estava tocando piano na sala de música, ao lado da sala de estar.

– Você o ouviu tocar?

– Sim, senhor. – Mais uma vez, o velho estremeceu. – Foi como um sinal, senhor, senti-o depois. Ele tocava a Marcha dos mortos. Lembro que me causou arrepios, mesmo naquele momento.

– É curioso, sim – disse Poirot.

– Agora, a respeito desse sujeito, Horbury, o criado pessoal – disse o chefe de polícia. – Você juraria, sem nenhuma dúvida, que ele já havia saído às oito horas?

– Sim, senhor. Foi logo depois de o sr. Sugden chegar. Lembro-me disso com clareza, porque ele quebrou uma xícara de café.

Poirot disse:

– Horbury quebrou uma xícara de café?

– Sim, senhor, uma das antigas Worcester. Lavei-as por onze anos e nunca uma delas foi quebrada, até esta noite.

Poirot disse:

– O que Horbury fazia com xícaras de café?

– Bem, é claro que ele não deveria mexer nelas. Ele estava segurando uma, como se a estivesse admirando e, quando por acaso mencionei que o sr. Sugden estava aqui, ele deixou-a cair.

Poirot disse:

– Você disse “sr. Sugden” ou mencionou a palavra polícia?

Tressilian pareceu um pouco sobressaltado.

– Agora pensando melhor, senhor, mencionei que o superintendente de polícia havia chegado.

– E Horbury deixou cair a xícara de café – disse Poirot.

– Parece sugestivo – disse o chefe de polícia. – Horbury fez alguma pergunta sobre a visita do superintendente?

– Sim, senhor, ele perguntou o que o superintendente queria aqui. Eu disse que ele viera arrecadar fundos para o orfanato da polícia e subira para falar com o sr. Lee.

– Horbury pareceu aliviado quando você disse isso?

– Sabe, agora que o senhor mencionou, ele certamente pareceu aliviado. A postura dele mudou de imediato. Disse, de modo muito desrespeitoso, que o sr. Lee era um velho camarada e mão-aberta, e então saiu.

– Por onde?

– Pela porta do vestíbulo dos criados.

Sugden interveio:

– Não há problema, senhor. Ele passou pela cozinha, onde a cozinheira e a auxiliar o viram, e saiu pela porta dos fundos.

– Ouça, Tressilian, e pense com cuidado. Existe alguma maneira pela qual Horbury pudesse voltar à casa sem que ninguém o visse?

O velho balançou a cabeça.

– Não vejo como ele poderia ter feito isso, senhor. Todas as portas são trancadas por dentro.

– Supondo que ele tivesse uma chave?

– As portas também têm traves.

– Como ele faz para entrar quando chega?

– Ele tem uma chave para a porta dos fundos, senhor. Todos os empregados entram por ali.

– Ele poderia ter voltado por ali, afinal?

– Não sem passar pela cozinha, senhor. E a cozinha estaria ocupada até bem depois das nove e meia ou quinze para as dez.

O coronel Johnson disse:

– Isso parece conclusivo. Obrigado, Tressilian.

O velho se levantou e com uma mesura e deixou a sala. Ele voltou, entretanto, um minuto ou dois depois.

– Horbury chegou há pouco. O senhor gostaria de vê-lo agora?

– Sim, por favor. Mande-o imediatamente.

 

XVII

Sydney Horbury não apresentava uma aparência muito convidativa. Ele entrou na sala e parou, esfregando as mãos e lançando olhares rápidos de uma pessoa para outra. Seu comportamento era artificial.

Johnson disse:

– Você é Sydney Horbury?

– Sim, senhor.

– Criado pessoal do falecido sr. Lee?

– Sim, senhor. Que coisa terrível, não é? Fiquei estupefato quando Gladys deu-me a notícia. Pobre senhor...

Johnson o interrompeu.

– Apenas responda às minhas perguntas, por favor.

– Sim, senhor, como queira, senhor.

– A que horas você saiu hoje à noite e onde você esteve?

– Eu deixei a casa um pouco antes das oito horas, senhor. Fui ao cinema Superb, senhor, que fica a uns cinco minutos caminhando daqui. O filme era Amor na velha Sevilha, senhor.

– Alguém o viu lá?

– A jovem na bilheteria, senhor, ela me conhece. E o porteiro, ele me conhece também. E... hum... na realidade, eu estava acompanhado por uma jovem, senhor. Eu tinha um encontro com ela.

– Ah, você tinha, é? Qual o nome dela?

– Doris Buckle, senhor. Ela trabalha na Combined Dairies. Estrada Markham, 23, senhor.

– Bom. Nós vamos verificar isso. Você veio direto para casa?

– Eu levei a minha jovem acompanhante até em casa primeiro, senhor.

Então voltei direto para cá. O senhor verá que estou falando a verdade. Não tenho nada a ver com isso. Eu estava...

O coronel Johnson disse abruptamente:

– Ninguém o está acusando de envolvimento algum.

– Não, senhor, é claro que não, senhor. Mas não é muito agradável quando um assassinato acontece em uma casa.

– Ninguém disse que era. Há quanto tempo você trabalha para o sr. Lee?

– Há pouco mais de um ano, senhor.

– Você gostava do seu trabalho?

– Sim, senhor. Eu estava bastante satisfeito. O pagamento era bom. O sr. Lee era um pouco difícil às vezes, mas é claro que estou acostumado a atender inválidos.

– Você teve uma experiência anterior?

– Sim, senhor. Eu trabalhei para o major West e para o juiz Jasper Flinch...

– Você pode dar todos esses detalhes para o Sugden, mais tarde. O que eu quero saber é o seguinte: a que horas você viu o sr. Lee pela última vez, esta noite?

– Era em torno das sete e meia, senhor. Uma ceia leve era trazida ao sr. Lee todas as noites, às sete horas. Em seguida, eu o preparava para dormir. Após isso, ele sentava-se em frente ao fogo, vestido com seu roupão, até ter vontade de ir para a cama.

– A que horas isso ocorria normalmente?

– Variava, senhor. Às vezes, ele ia para cama muito cedo, pelas oito horas, isso quando estava cansado. Às vezes ele ficava acordado até as onze ou mais.

– O que ele fazia quando decidia ir para cama?

– Normalmente ele me chamava, senhor.

– E você o ajudava a ir para cama?

– Sim, senhor.

– Mas esta era a sua noite de folga. Você sempre teve as sextas-feiras livres?

– Sim, senhor. Sexta-feira era meu dia combinado.

– O que acontecia quando o sr. Lee decidia ir para cama?

– Ele tocava a sineta e era atendido por Tressilian ou Walter.

– Ele não era inválido? Ele conseguia mover-se?

– Sim, senhor, mas não com muita facilidade. Ele sofria de artrite reumatoide, senhor. Em alguns dias ele estava pior do que em outros.

– Ele nunca ia para outro aposento durante o dia?

– Não, senhor. Ele preferia ficar apenas naquele quarto. O sr. Lee não era extravagante nos seus gostos. Era um quarto espaçoso, bem-ventilado e iluminado.

– Você disse que o sr. Lee ceava às sete?

– Sim, senhor. Eu recolhia a bandeja e colocava o conhaque e dois copos sobre a escrivaninha.

– Por que você fazia isso?

– Ordens do sr. Lee.

– Isso era costumeiro?

– Às vezes. Era regra que ninguém da família fosse vê-lo à noite, a não ser que ele convidasse. Algumas noites ele gostava de ficar sozinho. Outras noites ele mandava chamar o sr. Alfred ou a sra. Alfred, ou os dois, para subir depois do jantar.

– Mas, até onde você sabe, essa não foi uma dessas ocasiões, não é? Isto é, ele não havia mandado nenhum recado a um membro da família pedindo sua presença.

– Não havia mandado nenhum recado por mim, senhor.

– Assim sendo, ele não estava esperando ninguém da família?

– Ele poderia, em pessoa, ter convidado alguém, senhor.

– É claro.

Horbury continuou:

– Eu vi que tudo estava em ordem, desejei boa noite ao sr. Lee e deixei o quarto.

Poirot perguntou:

– Você fez o fogo antes de deixar o quarto?

O criado hesitou.

– Não foi necessário, senhor. Ele estava bem preparado.

– O próprio sr. Lee pode ter feito isso?

– Ah, não, senhor. Imagino que o sr. Harry Lee tenha feito.

– O sr. Harry Lee estava com ele quando você subiu antes do jantar?

– Sim, senhor. Ele saiu quando eu entrei.

– Como estava a relação entre os dois, até onde você possa julgar?

– O sr. Harry Lee parecia estar de muito bom humor, senhor. Jogando a cabeça para trás e rindo bastante.

– E o sr. Lee?

– Ele estava calado e um tanto pensativo.

– Compreendo. Agora, tem algo mais que eu gostaria de saber, Horbury: o que você pode nos contar sobre os diamantes que o sr. Lee mantinha no cofre?

– Diamantes, senhor? Nunca vi nenhum diamante.

– O sr. Lee mantinha uma quantidade de pedras não lapidadas ali. Com certeza você já o tinha visto manuseando-as.

– Aquelas pedrinhas esquisitas, senhor? Sim, eu o vi com elas uma ou duas vezes. Mas eu não sabia que eram diamantes. Ele as estava mostrando para a jovem estrangeira ontem mesmo... ou teria sido anteontem?

O coronel Johnson disse abruptamente:

– Essas pedras foram roubadas.

Horbury exclamou:

– Espero que o senhor não esteja pensando que eu tenha algo a ver com isso!

– Não estou fazendo nenhuma acusação – disse Johnson. – Agora, há algo que você possa contar-nos, que tenha alguma importância neste caso?

– Sobre os diamantes, senhor? Ou sobre o assassinato?

– Ambos.

Horbury considerou a questão. Ele passou a língua sobre seus lábios pálidos. Por fim, encarou o policial com olhos um pouco furtivos.

– Acho que não há nada, senhor.

Poirot disse delicadamente:

– Nada que você tenha ouvido, digamos, durante o cumprimento de seus deveres, que poderia ser útil?

As pálpebras do criado tremeram um pouco.

– Não, acho que não, senhor. Havia um ligeiro constrangimento entre o sr. Lee e... e alguns membros da sua família.

– Quais membros?

– Deduzi que havia um pequeno problema com o retorno do sr. Harry. O sr. Alfred Lee ressentia-se disso. Pelo que sei, ele e o pai trocaram algumas palavras ásperas sobre o assunto, mas foi tudo. O sr. Lee não o acusou em momento algum de ter roubado os diamantes. E tenho certeza de que o sr. Alfred não faria algo assim.

Poirot perguntou:

– A conversa dele com o sr. Alfred foi depois do sr. Simeon Lee ter descoberto o sumiço dos diamantes, não é?

– Sim, senhor.

Poirot inclinou-se para frente.

– Eu pensei, Horbury – disse ele com calma –, que você não sabia do roubo dos diamantes até ser informado por nós, agora mesmo. Como, então, você sabe que o sr. Lee havia descoberto a perda deles antes de ter essa conversa com o filho?

Horbury ficou vermelho como um pimentão.

– Não vale a pena mentir. Vamos, quando você ficou sabendo? – disse Sugden.

Horbury disse taciturno:

– Eu o ouvi telefonando para alguém sobre isso.

– Você não estava no quarto?

– Não, do lado de fora da porta. Não consegui ouvir muito... só uma palavra ou duas.

– O que você ouviu exatamente? – perguntou Poirot com candura.

– Eu ouvi as palavras roubo e diamantes, e o ouvi dizer: “Não sei de quem suspeitar”... E o ouvi dizer algo sobre esta noite às oito horas.

O superintendente Sugden anuiu.

– Era comigo que ele estava falando, meu rapaz. Em torno das 17h10, não é?

– Isso mesmo, senhor.

– E depois, quando você entrou no quarto dele, ele parecia nervoso?

– Só um pouco, senhor. Parecia absorto e preocupado.

– Tanto que você aproveitou a deixa, não foi?

– Olhe aqui, sr. Sugden, não aceito que o senhor diga coisas assim. Nunca toquei em diamante algum, e o senhor não tem como prová-lo. Não sou um ladrão.

O superintendente Sugden, sem se deixar impressionar, disse:

– É o que veremos. – Ele lançou um rápido olhar de interrogação ao chefe de polícia, recebeu um meneio afirmativo e prosseguiu: – Já terminamos, meu rapaz. Não precisaremos de você outra vez, por hoje.

Horbury saiu, apressado e agradecido.

Sugden disse com admiração:

– Belo trabalho, monsieur Poirot. Que excelente armadilha o senhor preparou para ele. Ele pode ou não ser um ladrão, mas por certo é um mentiroso de primeira categoria!

– Uma pessoa ordinária – disse Poirot.

– Sujeitinho detestável – concordou Johnson. – A pergunta é: o que você acha do testemunho dele?

Sugden resumiu os fatos com precisão:

– Parece-me que há três possibilidades: (1) Horbury é ladrão e assassino. (2) Horbury é ladrão, mas não assassino. (3) Horbury é um homem inocente. Há certos indícios em prol da alternativa (1). Ele ouviu o telefonema e soube que o roubo havia sido descoberto. Deduziu pelo comportamento do velho que este suspeitava dele. Fez seus planos de acordo. Saiu de maneira ostensiva às oito horas e criou um álibi. Não é difícil sair de um cinema e retornar sem ser notado. Entretanto, ele teria de confiar bastante em que a garota não o entregasse. Verei o que posso tirar dela amanhã.

– Como, então, ele conseguiu entrar outra vez na casa? – perguntou Poirot.

– Isso é mais difícil – admitiu Sugden. – Mas pode haver maneiras. Digamos que uma das criadas tenha-lhe aberto uma porta lateral.

Poirot ergueu as sobrancelhas em dúvida.

– Ele colocou sua vida nas mãos de duas mulheres? Com uma mulher seria correr um grande risco; com duas... eh, bien, acho o risco extraordinário!

Sugden disse:

– Alguns criminosos acham que podem se safar de tudo!

Ele prosseguiu:

– Vamos à alternativa (2). Horbury surrupiou os diamantes. Ele os levou embora hoje à noite e, quem sabe, entregou-os a algum cúmplice. O que seria bastante fácil e muitíssimo provável. Agora vamos admitir que outra pessoa tenha escolhido esta noite para assassinar o sr. Lee. Essa pessoa não saberia nada do problema dos diamantes. É possível, é claro, mas seria uma coincidência um tanto demasiada.

“Possibilidade (3): Horbury é inocente. Outra pessoa roubou os diamantes e assassinou o velho senhor. Aí está. Cabe a nós chegarmos à verdade.”

O coronel Johnson bocejou. Ele olhou mais uma vez para o relógio e levantou-se.

– Bem – disse ele –, acho que daremos a noite por encerrada, hum? Será melhor dar apenas mais uma olhada no cofre, antes de irmos. Seria incrível se os malditos diamantes estivessem ali o tempo todo.

Mas os diamantes não estavam no cofre. Eles encontraram a combinação onde Alfred Lee dissera que ela estaria: na pequena agenda tirada do bolso do roupão do morto. No cofre eles encontraram uma bolsa de camurça vazia. Entre os papéis que o cofre continha, apenas um interessava.

Era um testamento datado de uns quinze anos antes. Após vários legados e doações, as cláusulas eram bastante simples. Metade da fortuna de Simeon Lee iria para Alfred Lee. A outra metade deveria ser dividida, em partes iguais, entre os filhos restantes: Harry, George, David e Jennifer.