O Natal de Poirot

Agatha Christie · Capítulo 3 de 7 · parte 2/3

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O Natal de Poirot

Parte 3 - 24 de dezembro

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Vou deixar a linguagem científica para o júri! Não há complicação nenhuma. Garganta cortada como um porco. Ele sangrou até a morte em menos de um minuto. Não há sinal da arma.

Poirot atravessou o quarto até as janelas. Como o superintendente havia dito, uma estava trancada. A outra estava aberta em torno de quatro centímetros na parte de baixo. Uma tarraxa grossa, do tipo conhecido muitos anos atrás como uma tarraxa antiarrombamento, a prendia naquela posição.

Sugden disse:

– De acordo com o mordomo, esta janela nunca foi fechada, não importa se estivesse chovendo ou fazendo sol. Tem um capacho de linóleo embaixo dela caso a chuva bata no vidro, mas isto dificilmente ocorre, já que o telhado a protege.

Poirot assentiu.

Ele voltou para o corpo e olhou com atenção para o velho no chão. Os lábios estavam repuxados das gengivas sem sangue em algo que se assemelhava a um rosnado. Os dedos estavam curvados como garras.

Poirot disse:

– Ele não parece ter sido um homem forte, não.

O médico disse:

– Acredito que ele era um sujeito durão. Ele sobreviveu a uma série de doenças terríveis que teriam matado a maioria dos homens.

Poirot disse:

– Não era isso que eu queria dizer. Eu quis dizer que ele não era grande, não era um homem de físico forte.

– Não, ele era bem frágil.

Poirot deu as costas para o homem morto. Ele se agachou para examinar uma cadeira virada, uma cadeira grande de mogno. Ao lado dela havia uma mesa redonda de mogno e os fragmentos de uma luminária grande de porcelana. Duas outras cadeiras menores estavam caídas próximas, também os fragmentos quebrados de uma garrafa de licor e dois copos, um peso de papel grande intacto, alguns livros sobre diversos temas, um pesado vaso japonês aos pedaços, e uma estatueta de bronze de uma garota nua completava os escombros.

Poirot debruçou-se sobre todos os objetos, estudando-os seriamente, mas sem tocá-los. Ele franziu o cenho para si mesmo como se estivesse perplexo.

O chefe de polícia disse:

– Alguma coisa chamou sua atenção, Poirot?

Hercule Poirot suspirou e murmurou:

– Um velho tão frágil... e no entanto... tudo isso.

Johnson parecia confuso. Ele se virou e disse para o sargento que estava ocupado com seu trabalho:

– Alguma impressão digital?

– Muitas, senhor, por todo o quarto.

– E o cofre?

– Nada. As únicas impressões encontradas nele são do próprio velho.

Johnson voltou-se para o médico.

– E manchas de sangue? Por certo, quem quer que o tenha matado deve ter se manchado com sangue.

O médico disse, hesitante:

– Não necessariamente. O sangramento foi quase todo da veia jugular. Um ferimento assim não esguicharia como uma artéria.

– Não, não. Ainda assim, parece haver muito sangue por aí.

Poirot disse:

– Sim, há muito sangue. Isso chama a atenção. Um monte de sangue.

O superintendente Sugden perguntou de maneira respeitosa:

– O senhor... hum... isso sugere alguma coisa ao senhor?

Poirot olhou para ele e balançou a cabeça perplexo. Ele disse:

– Tem algo aqui, uma violência... – Ele parou um minuto, então seguiu em frente: – Sim, é isso, violência... E sangue, uma insistência no sangue... Tem... como eu colocaria a questão? Tem sangue demais. Sangue sobre as cadeiras, sobre as mesas, sobre o tapete... O ritual de sangue? Sangue sacrifical? É isso? Talvez. Um velho tão frágil, tão magro, tão mirrado, e, no entanto, na sua morte... tanto sangue...

Sua voz foi sumindo. O superintendente Sugden, encarando-o com olhos arregalados e surpresos, disse em um tom de voz estupefato:

– Engraçado, foi isso que ela disse... a senhora...

Poirot disse bruscamente:

– Que senhora? O que foi que ela disse?

Sugden respondeu:

– A sra. Lee... a sra. Alfred. Ficou parada ali junto à porta e meio que sussurrou aquilo. Não fez sentido para mim.

– O que ela disse?

– Algo sobre quem acreditaria que o velho cavalheiro teria tanto sangue nas veias...

Poirot disse com suavidade:

– Quem poderia adivinhar que o velho tinha tanto sangue dentro das veias? As palavras de Lady Macbeth. Ela disse isso... Ah, que interessante...

 

VIII

Alfred Lee e sua esposa entraram no pequeno gabinete onde Poirot, Sugden e o chefe de polícia estavam esperando. O coronel Johnson apresentou-se.

– Como vai, sr. Lee? Ainda não nos conhecemos pessoalmente, mas como o senhor deve saber, sou o chefe de polícia do condado. Johnson é meu nome. Não tenho palavras para exprimir o quanto lamento por esta situação.

Alfred, com seus olhos castanhos como os de um cão sofredor, disse em tom grave:

– Obrigado. É terrível... muito terrível. Eu... esta é minha esposa.

Lydia disse com sua voz tranquila:

– Foi um choque pavoroso para meu marido, para todos nós, mas sobretudo para ele.

Sua mão estava pousada sobre o ombro do marido.

O coronel Johnson disse:

– A senhora não gostaria de se sentar, sra. Lee? Deixem-me apresentar-lhes monsieur Hercule Poirot.

Hercule Poirot fez uma mesura. Seus olhos foram interessadamente do marido para a esposa.

As mãos de Lydia pressionaram o ombro de Alfred de forma carinhosa.

– Sente-se, Alfred.

Alfred se sentou. Ele murmurou:

– Hercule Poirot? Agora, quem... quem...

Ele passou a mão de maneira confusa sobre a testa.

Lydia Lee disse:

– O coronel Johnson vai querer lhe fazer uma série de perguntas, Alfred.

O chefe de polícia olhou para ela com aprovação. Ele se sentia agradecido por a sra. Alfred Lee ser uma mulher tão sensível e competente.

Alfred disse:

– É claro. É claro...

Johnson pensou consigo mesmo: “O choque parece tê-lo nocauteado completamente. Espero que ele se recupere um pouco”.

Em voz alta ele disse:

– Tenho aqui uma lista de todas as pessoas que estavam na casa hoje à noite. Talvez o senhor possa me dizer, sr. Lee, se ela está correta.

Ele fez um gesto quase imperceptível para Sugden, e este sacou seu bloco de anotações e mais uma vez recitou a lista de nomes.

O tom profissional da leitura pareceu restaurar um pouco a normalidade de Alfred Lee. Ele havia recuperado o autocontrole, seu olhar não parecia mais confuso e fixo em um ponto distante. Quando Sugden terminou, ele assentiu.

– Está correto – disse ele.

– O senhor se importaria em me contar um pouco mais sobre seus hóspedes? O sr. e a sra. George Lee e o sr. e a sra. David Lee são parentes, imagino eu.

– São meus dois irmãos mais novos e suas esposas.

– Eles estão apenas de visita?

– Sim, vieram passar o Natal conosco.

– O sr. Henry Lee é também um irmão?

– Sim.

– E seus dois outros hóspedes? A srta. Estravados e o sr. Farr?

– A srta. Estravados é minha sobrinha. O sr. Farr é filho do ex-sócio do meu pai na África do Sul.

– Ah, um velho amigo.

Lydia interveio.

– Não, na realidade nós nunca o tínhamos visto antes.

– Compreendo. Mas a senhora o convidou para passar o Natal aqui com vocês?

Alfred hesitou, então olhou na direção da sua esposa. Ela disse claramente:

– O sr. Farr apareceu ontem de maneira bastante inesperada. Por acaso estava na vizinhança e veio visitar meu sogro. Quando ele soube que era filho do seu velho amigo e sócio, insistiu para que o sr. Farr passasse o Natal conosco.

O coronel Johnson disse:

– Entendo. Isso dá conta dos convidados. Quanto aos criados, sra. Lee, a senhora os considera todos confiáveis?

Lydia considerou a pergunta por um momento, antes de responder. Por fim ela disse:

– Sim. Tenho certeza de que eles são de total confiança. A maioria está conosco há muitos anos. Tressilian, o mordomo, está aqui desde que meu marido era criança. Os únicos recém-chegados são a copeira, Joan, e o criado pessoal de meu sogro.

– O que a senhora sabe sobre eles?

– Joan é bobinha. É o pior que se pode dizer dela. Sei muito pouco sobre Horbury. Ele está aqui há pouco mais de um ano. Horbury era bastante competente no seu trabalho, e meu sogro parecia satisfeito com ele.

Poirot disse de maneira perspicaz:

– Mas a senhora, madame, não estava tão satisfeita?

Lydia deu de ombros ligeiramente.

– Essa questão não me dizia respeito.

– Mas a senhora era a patroa da casa, madame. Os empregados não lhe diziam respeito?

– Sim, é claro. Mas Horbury era o criado pessoal do meu sogro. Ele não estava na minha jurisdição.

– Compreendo.

O coronel Johnson disse:

– Nós chegamos agora aos eventos de hoje à noite. Creio que isto será doloroso para o senhor, mas eu gostaria do seu relato do que aconteceu, sr. Lee.

Alfred disse em voz baixa:

– É claro.

O coronel Johnson perguntou, estimulando-o:

– Quando, por exemplo, o senhor viu seu pai pela última vez?

Um ligeiro espasmo de dor trespassou o rosto de Alfred quando ele respondeu em voz baixa:

– Foi depois do chá. Eu estive com ele por um curto período de tempo. Finalmente eu disse boa noite para ele e o deixei... deixe-me ver... em torno de quinze para as seis.

Poirot observou:

– O senhor disse boa noite para ele? O senhor não esperava vê-lo de novo esta noite?

– Não. A ceia de meu pai, uma refeição leve, era sempre levada a ele às sete horas. Depois disso, às vezes ele ia para a cama cedo ou sentava-se em sua poltrona, mas não esperava ver outra vez nenhum membro da família, a não ser que mandasse chamar.

– Ele fazia isso com frequência?

– Às vezes. Quando tinha vontade.

– Mas não era o procedimento comum?

– Não.

– Prossiga, por favor, sr. Lee.

Alfred continuou:

– Jantamos às oito horas. O jantar terminou, e minha esposa e as outras senhoras foram para a sala de estar. – Sua voz falhou. Seu olhar tornou-se fixo outra vez. – Estávamos sentados ali... À mesa... de repente ouvimos um barulho estarrecedor vindo do andar de cima. Cadeiras sendo derrubadas, móveis quebrando-se, vidros e porcelanas espatifando-se, e então... ah, Deus... – Ele estremeceu. – Eu ainda consigo ouvir... meu pai gritou... um grito longo e terrível, o grito de um homem em agonia mortal...

Ele ergueu as mãos trêmulas para cobrir o rosto. Lydia estendeu a mão e tocou de leve o braço dele. O coronel Johnson perguntou com delicadeza:

– E então?

Alfred disse com a voz abatida:

– Acho que só por um momento estivemos em choque. Depois saímos correndo porta afora e escada acima até o quarto do meu pai. A porta estava trancada. Não conseguíamos entrar. Tivemos de arrombá-la. Enfim, quando conseguimos entrar, nós vimos...

Sua voz foi sumindo aos poucos. Johnson disse rapidamente:

– Não há necessidade de entrar nessa parte, sr. Lee. Vamos voltar um pouco, para o momento em que o senhor estava na sala de jantar. Quem estava lá com o senhor quando vocês ouviram o grito?

– Quem estava lá? Ora, todos nós... Não, deixe-me ver. Meu irmão estava lá, meu irmão Harry.

– Ninguém mais?

– Ninguém mais.

– Onde estavam os outros senhores?

Alfred suspirou e franziu o cenho em um esforço para se lembrar.

– Deixe-me ver... parece que faz tanto tempo... sim, como se fossem anos... o que aconteceu? Ah, é claro, George tinha ido telefonar. Então começamos a falar de questões familiares, e Stephen Farr disse algo sobre entender que tínhamos assuntos a discutir e retirou-se. Ele o fez de maneira muito educada e discreta.

– E seu irmão David?

Alfred franziu o cenho.

– David? Se ele estava lá? Não, é claro que não estava. Não tenho muita certeza de quando ele escapuliu.

Poirot disse com delicadeza:

– Vocês tinham questões familiares para discutir?

– Hum... sim.

– Quer dizer, o senhor tinha questões para discutir com um membro da sua família?

Lydia disse:

– O que o senhor quer dizer com isso, monsieur Poirot?

Ele se voltou rapidamente para ela.

– Madame, o seu marido disse que o sr. Farr os deixou porque viu que eles tinham questões familiares para discutir. Mas não era um conseil de famille, tendo em vista que nem monsieur David nem monsieur George estavam lá. Era, portanto, uma discussão entre dois membros da família somente.

Lydia disse:

– Meu cunhado Harry esteve por muitos anos no exterior. Era natural que ele e meu marido tivessem assuntos para tratar.

– Ah! Compreendo. Foi isso.

Ela lançou um rápido olhar para Poirot, então desviou os olhos. Johnson disse:

– Bem, isso me parece bastante claro. O senhor notou algo mais enquanto corria escada acima até o quarto do seu pai?

– Eu... de fato não sei. Mesmo. Nós todos viemos de direções diferentes. Mas temo que não tenha notado nada... eu estava tão assustado. Aquele grito terrível...

O coronel Johnson passou rapidamente para outro assunto.

– Obrigado, sr. Lee. Agora, há outro ponto. Presumo que seu pai tivesse alguns diamantes valiosos.

Alfred pareceu bastante surpreso.

– Sim – disse ele. – É isso mesmo.

– Onde ele os guardava?

– No cofre do quarto.

– O senhor seria capaz de descrevê-los?

– Eram diamantes brutos, isto é, pedras não lapidadas.

– Por que o seu pai os deixava lá?

– Era um capricho dele. Eram pedras que havia trazido da África do Sul. Ele nunca mandou lapidá-las. Apenas gostava de mantê-las consigo. Como eu disse, era um capricho dele.

– Compreendo – disse o chefe de polícia.

Pelo seu tom de voz ficara claro que não compreendera. Ele seguiu em frente:

– Elas valiam muito?

– Meu pai estimava seu valor em mais ou menos dez mil libras.

– Na realidade, eram pedras muito valiosas, estou certo?

– Sim.

– Parece uma ideia peculiar guardar pedras tão preciosas em um cofre no quarto.

Lydia interveio.

– Meu sogro, coronel Johnson, era um homem peculiar. Suas ideias não eram convencionais. Ele por certo tinha prazer em manusear aquelas pedras.

– Elas talvez o fizessem lembrar o passado – disse Poirot.

Lydia lançou-lhe um rápido olhar de compreensão.

– Sim – disse ela. – Acho que faziam.

– Elas estavam seguradas? – perguntou o chefe de polícia.

– Acho que não.

Johnson se inclinou para frente. Ele perguntou calmamente:

– O senhor sabia que essas pedras haviam sido roubadas, sr. Lee?

– O quê? – Alfred Lee encarou o chefe de polícia.

– Seu pai não lhe disse nada a respeito do desaparecimento delas?

– Nem uma palavra.

– O senhor não sabia que ele havia mandado chamar o superintendente Sugden e relatara-lhe a perda?

– Não fazia a menor ideia de tal coisa!

O coronel Johnson moveu o olhar.

– E a senhora?

Lydia balançou a cabeça.

– Eu não ouvi nada a respeito disso.

– Até onde a senhora sabia, as pedras ainda estavam no cofre?

– Sim.

Ela hesitou e por fim perguntou:

– É por isso que ele foi morto? Por causa dessas pedras?

O coronel Johnson disse:

– É isso que nós vamos descobrir! – E seguiu em frente: – A senhora faz alguma ideia de quem poderia ter planejado o roubo?

Ela balançou a cabeça.

– De fato, não. Estou certa de que os empregados são honestos. De qualquer maneira, seria muito difícil para eles ter acesso ao cofre. Meu sogro estava sempre em seu quarto. Ele nunca descia.

– Quem limpava o quarto?

– Horbury. Ele fazia a cama e tirava o pó. A outra criada limpava a grelha da lareira e acendia o fogo todas as manhãs. Horbury fazia todo o resto.

Poirot disse:

– Então Horbury seria a pessoa com a melhor oportunidade?

– Sim.

– A senhora acha que foi ele que roubou os diamantes, afinal?

– É possível. Acho que... ele tinha a melhor oportunidade. Ah! Não sei o que pensar.

O coronel Johnson disse:

– Seu marido nos deu o relato dele sobre esta noite. A senhora poderia fazer o mesmo, sra. Lee? Quando foi a última vez que a senhora viu o seu sogro?

– Estávamos todos lá em cima no quarto dele esta tarde, antes do chá. Foi a última vez que o vi.

– A senhora não o viu mais tarde, para desejar-lhe boa noite?

– Não.

Poirot disse:

– A senhora costumava desejar-lhe boa noite?

Lydia disse bruscamente:

– Não.

O chefe de polícia prosseguiu:

– Onde a senhora estava quando ocorreu o crime?

– Na sala de estar.

– A senhora ouviu o ruído da luta?

– Acho que ouvi algo pesado cair. É claro que o quarto do meu sogro fica em cima da sala de jantar, não da sala de estar, de maneira que eu não poderia ter ouvido muita coisa.

– Mas a senhora ouviu o grito?

Lydia estremeceu.

– Sim, ouvi... Foi horrível... como... como uma alma no inferno. Eu percebi de imediato que algo terrível havia acontecido. Saí correndo e segui meu marido e Harry escada acima.

– Quem mais estava na sala de estar no momento?

Lydia franziu o cenho.

– Não consigo me lembrar mesmo. David estava na porta ao lado, na sala de música, tocando Mendelssohn. Acho que Hilda tinha ido se juntar a ele.

– E as outras duas senhoras?

Lydia disse devagar:

– Magdalene estava no telefone. Não lembro se ela tinha voltado ou não. Não sei onde estava Pilar.

Poirot perguntou com delicadeza:

– Na realidade, a senhora talvez estivesse sozinha na sala de estar?

– Sim, sim, creio que estava, de fato.

O coronel Johnson disse:

– Tratemos dos diamantes. Acho que precisamos estar seguros de seu paradeiro. O senhor sabe a combinação do cofre de seu pai, sr. Lee? Vejo que é um modelo um pouco antigo.

– O senhor vai encontrá-la em um pequeno bloco de anotações que ele carregava no bolso de seu roupão.

– Ótimo. Logo verificaremos. Será melhor, talvez, se entrevistarmos primeiro os outros participantes da festa em família. É provável que as senhoras queiram ir para a cama.

Lydia levantou-se.

– Vamos, Alfred. – Ela dirigiu-se a eles. – Devo pedir a elas que entrem?

– Uma a uma, se a senhora não se importar, sra. Lee.

– Certamente.

Ela caminhou em direção à porta. Alfred a acompanhou. De súbito, no último instante, ele se voltou:

– É claro – disse ele. Alfred voltou rapidamente até onde estava Poirot. – O senhor é Hercule Poirot! Estive com a cabeça no ar. Deveria ter percebido logo.

Ele falou rápido, em voz baixa e animada:

– É uma dádiva o senhor estar aqui! O senhor tem de descobrir a verdade, monsieur Poirot. Não poupe gastos! Serei responsável por qualquer gasto. Mas descubra... Meu pobre pai... morto por alguém... morto da forma mais brutal possível! O senhor tem de descobrir, monsieur Poirot. Meu pai tem de ser vingado.

Poirot respondeu com calma:

– Posso assegurar-lhe, monsieur Lee, que estou pronto para fazer o meu máximo para ajudar o coronel Johnson e o superintendente Sugden.

Alfred Lee disse:

– Quero que o senhor trabalhe para mim. Meu pai tem de ser vingado.

Ele começou a tremer violentamente. Lydia teve de voltar. Ela foi até Alfred e enlaçou-lhe o braço.

– Vamos, Alfred – disse ela. – Temos de chamar os outros.

Seus olhos encontraram os de Poirot. Eram olhos que guardavam seus próprios segredos. Eles não hesitavam.

Poirot disse de forma terna:

– Quem poderia adivinhar que o velho...

Ela o interrompeu:

– Pare! Não diga isso!

Poirot murmurou:

– A senhora é que disse, madame.

Ela sussurrou baixo:

– Eu sei... eu lembro... foi tão horrível...

Ela deixou abruptamente a sala com o marido ao seu lado.

 

IX

George Lee estava solene e formal.

– Uma situação terrível – disse ele, balançando a cabeça. – Uma situação terrível, terrível. Só posso crer que tenha sido obra de um... er... lunático!

Cortês, o coronel Johnson disse:

– Essa é a sua teoria?

– Sim. Sim, é verdade. Um maníaco homicida. Foragido, talvez, de algum hospício nas imediações.

O superintendente Sugden interpôs:

– E como o senhor sugere que esse... lunático... tenha conseguido entrar na casa, sr. Lee? E como saiu dela?

George balançou a cabeça.

– Isso – disse ele com voz firme – cabe à polícia descobrir.

Sugden disse:

– Verificamos a casa assim que chegamos. Todas as janelas estavam trancadas. A porta lateral e a da frente também estavam trancadas. Ninguém poderia ter saído pela cozinha sem ter sido visto pelas cozinheiras.

George Lee exclamou:

– Mas isso é absurdo! Só falta agora o senhor dizer que meu pai não foi assassinado!

– Ele foi assassinado, sim – disse o superintendente Sugden. – Não há dúvida quanto a isso.

O chefe de polícia limpou a garganta e assumiu o interrogatório.

– Qual era sua exata localização no momento do crime, sr. Lee?

– Eu estava na sala de jantar. Foi um pouco depois do jantar. Não, acho que eu estava nesta sala. Eu havia dado um telefonema há pouco.

– O senhor estava telefonando?

– Sim. Eu havia ligado para o representante do partido Conservador em Westeringham, meu distrito eleitoral. Algumas questões urgentes.

– E foi depois disso que o senhor ouviu o grito?

George Lee teve um ligeiro calafrio.

– Sim, muito desagradável. Congelou-me a espinha. O grito morreu com uma espécie de engasgo ou som gutural.

Ele tirou um lenço e limpou a testa que começara a suar.

– Uma situação terrível – ele murmurou.

– E então o senhor subiu correndo as escadas?

– Sim.

– O senhor viu os seus irmãos, sr. Alfred e sr. Harry Lee?

– Não, acho que eles estavam um pouco à minha frente.

– Quando foi a última vez que o senhor viu seu pai, sr. Lee?

– Esta tarde. Nós estávamos todos lá em cima.

– O senhor não o viu mais depois disso?

– Não.

O chefe de polícia fez uma pausa e disse:

– O senhor sabia que seu pai guardava inúmeros e valiosos diamantes brutos no cofre do quarto?

George Lee assentiu.

– Um modo de proceder bastante insensato – disse ele pomposamente. – É o que eu costumava dizer-lhe. Ele poderia ser assassinado por causa deles, quero dizer, isto é...

O coronel Johnson o interrompeu:

– O senhor sabe que essas pedras desapareceram?

O queixo de George caiu. Seus olhos protuberantes estavam fixos.

– Então ele foi assassinado por causa delas?

O chefe de polícia disse devagar:

– Ele sabia do desaparecimento delas e o relatou para a polícia algumas horas antes da sua morte.

George disse:

– Mas... não entendo... eu...

Hercule Poirot disse carinhosamente:

– Nós também não entendemos...

 

X

Harry Lee entrou na sala com um andar arrogante. Por um momento Poirot o encarou, franzindo o cenho. Ele tinha a impressão de ter visto esse homem antes, em algum lugar. Ele notou os traços: o nariz adunco, a postura insolente da cabeça, a linha do queixo; e observou que, embora Harry fosse um homem grande, e a estatura de seu pai ter sido apenas média, havia uma grande semelhança entre os dois.

Ele notou algo mais também. Mesmo com toda sua arrogância, Harry Lee estava nervoso. Ele mantinha a compostura, mas a ansiedade subjacente era evidente.

– Bem, cavalheiros – disse ele. – O que eu posso lhes dizer?

O coronel Johnson disse:

– Nós ficaríamos satisfeitos com qualquer luz que o senhor pudesse jogar sobre os eventos desta noite.

Harry Lee balançou a cabeça.

– Eu não sei de nada mesmo. É tudo tão horrível e absolutamente inesperado.

Poirot disse:

– Creio que o senhor voltou há pouco do exterior, não é, sr. Lee?

Harry voltou-se para ele.

– Sim. Cheguei à Inglaterra uma semana atrás.

Poirot disse:

– O senhor esteve fora por um longo período?

Harry Lee ergueu o queixo e riu.

– É melhor vocês ouvirem isso de uma vez, pois em breve alguém irá contar-lhes! Sou o filho pródigo, cavalheiros! Já se passaram quase vinte anos desde que coloquei os pés nesta casa pela última vez.

– Mas o senhor retornou... agora. O senhor pode nos dizer por quê? – perguntou Poirot.

Com a mesma aparente franqueza, Harry respondeu de pronto.

– É a velha e boa parábola. Cansei da palha que os porcos comem, ou não comem, esqueci qual dos dois. Pensei comigo mesmo que o novilho cevado seria uma mudança interessante. Recebi uma carta de meu pai sugerindo que eu voltasse para casa. Obedeci ao chamado e vim. Isso é tudo.

Poirot disse:

– O senhor veio para uma visita curta ou longa?

Harry respondeu:

– Voltei para casa... para ficar!

– Seu pai concordava com isso?

– O velho estava adorando a ideia. – Ele riu de novo. Os cantos dos olhos se enrugaram de modo atraente. – Era muito enfadonho para o velho viver aqui com Alfred! Alfred é um sujeito sem graça, de muito valor e tudo mais, mas uma companhia entediante. Meu pai foi um tipo aventureiro na sua juventude. Ele ansiava por minha companhia.

– E seu irmão e a esposa dele estavam contentes de que você morasse aqui?

Poirot fez a pergunta com um ligeiro arquear de sobrancelhas.

– Alfred? Alfred estava lívido de raiva. Não sei quanto a Lydia. É provável que ela tenha ficado incomodada por causa de Alfred. Mas não tenho dúvida de que ela ficaria bastante contente depois. Gosto de Lydia. Ela é uma mulher encantadora. Lydia e eu nos teríamos entendido. Mas com Alfred é outra história. – Ele riu de novo. – Alfred sempre teve uma inveja terrível de mim. Sempre foi o bom filho obediente, que fica em casa e tem os pés no chão. E o que ele ganharia, no fim das contas? O que o bom garoto da família sempre ganha: um chute no traseiro. Acreditem-me, cavalheiros, a virtude não compensa. – Ele olhou de um para o outro.

“Espero que não estejam chocados com minha franqueza. Mas, afinal, vocês querem a verdade. Quando isso terminar, vocês terão exposto todos os podres da família. É melhor que eu revele os meus de uma vez. Não estou tão abalado com a morte do meu pai, afinal de contas, não via o velho diabo desde que eu era garoto, mas mesmo assim ele era meu pai e foi assassinado. – Ele acariciou o queixo, olhando para eles. – Somos dados à vingança, nesta família. Nenhum Lee esquece com facilidade. Quero ter certeza de que o assassino do meu pai seja capturado e enforcado.”

– Creio que o senhor pode confiar que faremos o melhor possível, sr. Lee – disse Sugden.

– Se vocês não o conseguirem, farei justiça com as minhas próprias mãos – disse Harry Lee.

O chefe de polícia disse de maneira brusca:

– O senhor faz alguma ideia quanto à identidade do assassino sr. Lee?

Harry balançou a cabeça.

– Não – respondeu ele lentamente. – Não... não faço. Foi um choque e tanto, sabe. Pois estive pensando a respeito e... não consigo imaginar como possa ter sido uma pessoa de fora...

– Ah – disse Sugden, assentindo com a cabeça.

– Nesse caso – disse Harry Lee –, alguém aqui de casa o matou... Mas quem seria o maldito que poderia ter feito isso? Não consigo suspeitar dos empregados. Tressilian está aqui desde o início. O criado idiota da cozinha? De jeito nenhum. Horbury? Bem, ele é um sujeito frio, mas Tressilian me disse que ele tinha ido ao cinema. Por fim, nos resta o quê? Deixando de lado Stephen Farr (e por que diabos Stephen Farr viria lá da África do Sul para matar um completo estranho?), resta somente a família. Não consigo ver nenhum de nós cometendo esse crime. Alfred? Ele adorava o pai. George? Não tem coragem. David? David está sempre no mundo da lua. Ele desmaiaria se visse seu próprio dedo sangrar. As esposas? Mulheres não vão e cortam o pescoço de um homem a sangue-frio. Então quem foi? Quem me dera eu soubesse. Mas isso é por demais perturbador.

O coronel Johnson pigarreou – um hábito profissional seu – e disse:

– Quando o senhor viu seu pai pela última vez, esta noite?

– Depois do chá. Ele acabara de discutir com Alfred, sobre este seu humilde servo. O velho era ranzinza até não poder mais. Ele sempre gostou de colocar lenha na fogueira. Em minha opinião, é por isso que ele manteve em segredo minha chegada. Queria ver o circo pegar fogo, quando eu chegasse de surpresa! E por isso ele falou em alterar o testamento também.

Poirot inquietou-se um pouco. Ele murmurou:

– Quer dizer que seu pai mencionou o testamento dele?

– Sim, na frente de todos nós, observando nossas reações, como um gato. Havia mandado aquele advogado vir até aqui depois do Natal, para tratarem do assunto.

Poirot perguntou:

– Que mudanças ele planejava fazer?

Harry Lee abriu um largo sorriso.

– Ele não nos contou! Ora, aquela raposa velha! Eu imaginava, ou melhor, tinha esperança de que a mudança favorecesse este seu humilde servo. Creio que eu havia sido cortado dos testamentos anteriores. Dessa vez, tive a impressão de que seria incluído de novo. Um golpe terrível para os outros. A Pilar também. Ele passou a ter certa afeição por ela. Acho que ela estava bem-encaminhada. Os senhores não a viram ainda? Minha sobrinha espanhola. É uma bela criatura, Pilar... com aquele calor adorável do sul... e sua crueldade. Pena que sou tio dela!

– O senhor disse que seu pai simpatizava com ela?

Harry anuiu.

– Ela sabia como lidar com o velho. Passava bastante tempo com ele, lá em cima. Aposto que ela sabia exatamente o que queria! Bem, ele está morto agora. Nenhum testamento pode ser alterado em favor de Pilar nem em meu favor, o que é pior.

Ele franziu o cenho, calou-se por um minuto e então continuou, com uma mudança de tom.

– Mas estou mudando de assunto. O senhor queria saber quando vi meu pai pela última vez? Como eu lhe disse, foi depois do chá... pouco depois das seis, talvez. O velho estava animado então, um pouco cansado, quem sabe. Saí e o deixei com Horbury. Não o vi outra vez.

– Onde o senhor estava no momento da morte dele?

– Na sala de jantar com meu irmão Alfred. Não foi uma reunião pós-jantar muito harmoniosa. Estávamos em meio a uma discussão bastante dura quando ouvimos o ruído no andar de cima. E então meu pobre pai gritou. Foi como matar um porco. O som paralisou Alfred. Ele ficou parado ali, de queixo caído. Eu o sacudi do torpor, e corremos escada acima. A porta estava trancada e tivemos de arrombá-la. O que levou algum tempo também. Como a maldita porta estava trancada é algo que não sei explicar! Não havia ninguém no quarto a não ser meu pai, e raios me partam se alguém conseguiu fugir pelas janelas.

O superintendente Sugden disse:

– A porta estava trancada pelo lado de fora.

– O quê? – Harry encarou o policial. – Mas juro que a chave estava do lado de dentro.

Poirot murmurou.

– E o senhor reparou nisso?

Harry Lee respondeu de pronto:

– Eu reparo as coisas. É um hábito meu.

Ele olhou bruscamente de um rosto para o outro.

– Tem algo mais que os senhores gostariam de saber, cavalheiros?

Johnson balançou a cabeça.

– Obrigado, sr. Lee, não por ora. O senhor poderia chamar o próximo membro da família para vir aqui?

– Com certeza.

Ele caminhou até a porta e saiu sem olhar para trás.

Os três homens olharam-se entre si. O coronel Johnson disse:

– O que você acha, Sugden?

O superintendente balançou a cabeça em dúvida. Ele disse:

– Ele está com medo de alguma coisa. Por que será?

 

XI

Magdalene Lee parou dramaticamente à porta. Uma mão longa e delgada tocou o brilho polido e platinado do seu cabelo. O vestido de veludo verde-folha que ela vestia aderia às linhas delicadas da sua figura. Ela parecia muito jovem e um pouco assustada.

Os três homens ficaram sem ação por um momento, olhando para ela. Os olhos de Johnson demonstraram uma súbita admiração. O superintendente Sugden não demonstrou animação alguma, apenas a impaciência de um homem ansioso em continuar seu trabalho. O olhar de Hercule Poirot mostrava profunda admiração (e ela o percebeu), mas a admiração não era por sua beleza, mas pelo uso eficiente dela. Magdalene não sabia que ele pensava consigo mesmo:

“Jolie manequin, la petite. Mais elle a les yeux durs.”[5]

O coronel Johnson estava pensando: “Que diabos de garota bonita. George Lee passará trabalho se não se cuidar. Ela sabe olhar para um homem”.

O superintendente Sugden estava pensando: “Que bela cabecinha vazia. Espero que nos livremos dela bem rápido”.

– A senhora poderia se sentar, sra. Lee? Deixe-me ver, a senhora é...

– Sra. George Lee.

Ela aceitou a cadeira com um sorriso caloroso de agradecimento. “No fim das contas”, o olhar parecia dizer, “apesar de ser homem e policial, você não é tão horroroso assim.”

A extremidade do sorriso incluía Poirot. Estrangeiros eram tão suscetíveis no que dizia respeito a mulheres. Quanto ao superintendente Sugden, ela não se importava.

Ela murmurou, torcendo as mãos unidas em um gesto de angústia encantador.

– É tão terrível. Estou tão assustada.

– Ora, vamos, sra. Lee – disse o coronel Johnson de maneira delicada, mas enérgica. – Foi um choque, eu sei, mas já passou. Queremos somente seu relato do que aconteceu esta noite.

Ela exclamou:

– Mas não sei nada sobre isso, nada mesmo.

Por um momento, os olhos do chefe de polícia estreitaram-se. Ele disse com polidez:

– Não, é claro que não.

– Nós só chegamos aqui ontem. George obrigou-me a vir para o Natal! Gostaria que não tivéssemos vindo. Tenho certeza de que nunca mais serei a mesma.

– É muito perturbador... sim.

– Veja bem, mal conheço a família de George. Vi o sr. Lee apenas uma ou duas vezes... em nosso casamento e outra vez, desde então. É claro que me encontrei com Alfred e Lydia com maior frequência, mas eles ainda são estranhos para mim.

Mais uma vez o olhar arregalado de criança assustada. Mais uma vez os olhos de Poirot a observaram com admiração, e mais uma vez ele pensou consigo mesmo:

“Elle joue très bien la comedie, cette petite...”[6]

– Sim, sim – disse o coronel Johnson. – Agora só nos conte sobre a última vez que a senhora viu seu sogro vivo, sra. Lee.

– Foi esta tarde. Foi terrível!

Johnson disse rapidamente:

– Terrível? Por quê?

– Eles estavam tão irritados!

– Quem estava irritado?

– Todos eles... Não me refiro ao George. O pai dele não disse nada para ele. Mas todos os outros.

– O que aconteceu exatamente?

– Bem, quando nós chegamos lá... ele nos chamou a todos... ele estava falando no telefone com os advogados sobre o seu testamento. E então ele disse para o Alfred que ele parecia muito abatido. Acho que era porque Harry estava voltando para casa para viver aqui. Creio que Alfred estava muito chateado com isso. Veja bem, Harry fez algo muito terrível. E enfim ele disse algo sobre sua esposa... ela morreu há muito tempo... mas ela tinha um cérebro de galinha, ele disse, e David deu um salto e parecia que iria matá-lo... Ah! – Ela parou subitamente, seus olhos alarmados. – Eu não quis dizer isso, não foi minha intenção mesmo!

O coronel Johnson disse de maneira tranquilizadora:

– Calma, calma... foi só uma figura de linguagem.

– Hilda, que é a esposa de David, o acalmou e... bem, acho que isso é tudo. O sr. Lee não queria mais ver ninguém aquela noite, portanto nós saímos todos.

– E essa foi a última vez que a senhora o viu?

– Sim. Até... até...

Ela teve um calafrio. O coronel Johnson disse:

– Sim, certamente. Agora, onde a senhora estava no momento do crime?

– Deixe-me ver... acho que eu estava na sala de estar.

– A senhora não tem certeza?

Os olhos de Magdalene pestanejaram um pouco, e suas pálpebras cerraram-se.

Ela disse:

– É claro! Que idiotice de minha parte... eu tinha ido telefonar. A gente se atrapalha tanto.

– A senhora disse que estava telefonando. Nesta sala?

– Sim, este é o único telefone. Exceto o telefone do andar de cima no quarto do meu sogro.

O superintendente Sugden disse:

– Havia mais alguém aqui com a senhora?

Ela arregalou os olhos.

– Ah, não, eu estava sozinha.

– A senhora ficou muito tempo aqui?

– Bem... um pouco. Leva um tempo para se conseguir fazer uma ligação à noite.

– Era uma ligação interurbana?

– Sim... para Westeringham.

– Compreendo.

– E então?

– E então houve um grito horrível... e todos correndo... e a porta trancada e tendo de ser arrombada. Foi como um pesadelo! Vou me lembrar disso para sempre!

– Não, não – o tom do coronel Johnson era de gentileza mecânica. Ele prosseguiu: – A senhora sabia que seu sogro tinha um grande número de diamantes valiosos no cofre dele?

– Não, é mesmo? – Seu tom era francamente entusiasmado. – Diamantes verdadeiros?

Hercule Poirot disse:

– Diamantes valendo em torno de dez mil libras.

– Ah! – Era um som arfante e suave, contendo nele a essência da cobiça feminina.

– Bem – disse o coronel Johnson –, acho que é tudo por hoje. Não vamos mais incomodá-la, sra. Lee.

– Ah, obrigada.

Ela pôs-se em pé, sorriu para Johnson e Poirot – o sorriso de uma garotinha agradecida –, e saiu com a cabeça altiva e as palmas das mãos ligeiramente voltadas para fora.

O coronel Johnson chamou:

– A senhora pediria para seu cunhado, sr. David Lee, vir aqui? – Fechando a porta depois dela, ele voltou para a mesa. – Bem – disse ele – o que os senhores acham? Estamos chegando a algum lugar agora! Os senhores notaram uma coisa: George Lee estava telefonando quando ouviu o grito! Sua esposa estava telefonando quando o ouviu! Isso não se encaixa, não faz sentido.

Ele acrescentou:

– O que você acha, Sugden?

O superintendente falou devagar:

– Não quero falar mal dessa senhora, mas eu diria que, apesar de ela ser do tipo que tomaria com muita eficiência o dinheiro de um homem, não acho que ela seja do tipo que cortaria a garganta de um homem. Não seria seu método.

– Ah, mas isso nunca se sabe, mon vieux – murmurou Poirot.

O chefe de polícia voltou-se para ele.

– E você, Poirot, o que você acha?

Hercule Poirot inclinou-se para frente. Endireitou o mata-borrão à sua frente e deu um piparote em um grão minúsculo de pó sobre um castiçal. Ele respondeu:

– Eu diria que o caráter do falecido sr. Simeon Lee começa a mostrar-se a nós. É aí, acredito, que se encontra toda a importância do caso... no caráter do morto.

O superintendente Sugden voltou-lhe um rosto estupefato.

– Não entendo muito bem o que diz, sr. Poirot – disse ele. – O que exatamente o caráter do falecido tem a ver com seu assassinato?

Poirot, cismado, disse:

– O caráter da vítima sempre tem algo a ver com seu assassinato. A mente franca e confiante de Desdêmona foi a causa direta de sua morte. Uma mulher mais desconfiada teria percebido as maquinações de Iago e as teria contornado muito mais cedo. A sujeira de Marat precipitou seu fim em uma banheira. Do temperamento de Mercúcio veio sua morte na ponta de uma espada.

O coronel Johnson puxou seu bigode.

– Onde exatamente você quer chegar, Poirot?

– Digo-lhe isso porque Simeon Lee era um certo tipo de homem, ele colocou em movimento determinadas forças, as quais, por fim, provocaram sua morte.

– Você acha que os diamantes não têm nada a ver com o assassinato?

Poirot sorriu da perplexidade honesta estampada no rosto de Johnson.

– Mon cher – disse ele. – Foi por causa do caráter peculiar de Simeon Lee que ele manteve dez mil libras em diamantes brutos em seu cofre! Não é uma atitude que a maioria dos homens tomaria.

– Isso é bem verdade, sr. Poirot – disse o superintendente Sugden, assentindo com o ar de um homem que finalmente entende o que o interlocutor quer dizer. – Era um sujeito esquisito, o sr. Lee. Guardava ali aquelas pedras para poder tirá-las, manuseá-las e sentir o passado de volta. Creiam-me, é por isso que nunca as mandou lapidar.

Poirot anuiu com energia.

– Exato... exato. Vejo que o senhor tem grande perspicácia, superintendente.

O superintendente pareceu um pouco em dúvida em relação ao elogio, mas o coronel Johnson interveio:

– Há algo mais, Poirot. Não sei se notou...

– Mais oui – disse Poirot. – Sei o que você quer dizer. A sra. George Lee, ela deu com a língua nos dentes, mais do que pretendia! Ela deu-nos uma bela impressão daquela última reunião familiar. Ela sugeriu, ah! Tão ingênua, que Alfred estava bravo com o pai e que David “parecia que iria matá-lo”. Creio que ambas as declarações sejam verdadeiras. Mas, a partir delas, podemos fazer nossa própria reconstituição. Qual era a intenção de Simeon Lee ao reunir a família? Por que eles chegariam a tempo de ouvi-lo falando ao telefone com seu

advogado? Parbleu[7], aquilo não foi um equívoco. Ele queria que eles o ouvissem! O pobre velho, sentado na sua cadeira sem as diversões dos seus dias de juventude. Dessa forma ele inventa uma nova diversão para si mesmo. Ele se diverte brincando com a cobiça e a ganância da natureza humana... sim, e com suas emoções e paixões também! Mas a partir daí surge uma nova dedução. Nesse jogo de fomentar a ganância e a emoção dos filhos, ele não esqueceria ninguém. Ele tinha, lógica e necessariamente, de aguilhoar o sr. George Lee, assim como os outros! Sua esposa teve o cuidado de silenciar sobre isso. Nela também, ele deve ter disparado uma ou duas flechas envenenadas. Acho que descobriremos pelos outros o que Simeon Lee tinha a dizer a George Lee e sua esposa...

Ele interrompeu-se. A porta se abriu e David Lee entrou.

 

XII

David Lee estava bastante controlado. Seus modos eram tranquilos, de forma quase antinatural. Ele aproximou-se, puxou uma cadeira e se sentou, dirigindo ao coronel Johnson um olhar sério e interrogativo.

A luz elétrica tocou o pequeno tufo de cabelos claros que crescia em sua testa e salientou o formato delicado de suas faces. Ele parecia jovem demais para ser filho daquele velho emaciado que jazia morto no andar de cima.

– Sim, cavalheiros – disse ele –, em que posso ajudá-los?

O coronel Johnson disse:

– Pelo que entendi, sr. Lee, houve uma espécie de reunião familiar hoje à tarde no quarto do seu pai, não é?

– Houve. Mas foi bastante informal. Quero dizer, não foi um conselho familiar ou nada desse tipo.

– O que ocorreu lá?

David Lee respondeu com calma:

– Meu pai estava de mau humor. Ele era um homem idoso e inválido, é claro, assim tínhamos de ser tolerantes com ele. Ele parecia ter-nos reunido ali a fim de... bem... desabafar seu rancor sobre nós.

– O senhor lembra-se do que ele disse?

David respondeu baixo:

– Foi tudo bastante absurdo. Ele disse que não valíamos nada, nenhum de nós, que não havia um único homem na família! Ele disse que Pilar (minha sobrinha espanhola) valia por dois de nós. Ele disse... – David parou.

Poirot disse:

– Por favor, sr. Lee, as palavras exatas, se o senhor puder.

David Lee disse com relutância:

– Ele falou de forma grosseira, disse que esperava que em algum lugar no mundo ele tivesse filhos melhores, mesmo que ilegítimos...

Seu rosto sensível demonstrou o desgosto pelas palavras que ele estava repetindo. O superintendente Sugden ergueu a cabeça, subitamente alerta. Inclinando-se para frente, ele disse:

– O seu pai disse algo em particular para seu irmão, sr. George Lee?

– Para George? Não lembro. Ah, sim, creio que ele disse para George que teria de cortar as despesas no futuro, que teria de cortar sua mesada. George ficou muito incomodado, vermelho como um peru. Ele alvoroçou-se e disse que não conseguiria viver com menos. Meu pai disse com muita frieza que ele não tinha alternativa. E disse que George faria bem em pedir à sua esposa ajuda para economizar. Foi um golpe baixo, George sempre foi o irmão mais regrado, poupa e regateia cada centavo. Creio que Magdalene é um pouco gastadora. Ela tem gostos extravagantes.

Poirot disse:

– Então ela também ficou incomodada?

– Sim. Além disso, meu pai expressou-se de modo bastante vulgar ao mencionar que ela teria vivido com um oficial da marinha. É claro que ele se referia ao pai dela, mas o comentário soou bastante dúbio. Magdalene ficou escarlate. Não a culpo.

Poirot disse:

– Seu pai mencionou a falecida esposa, sua mãe?

O sangue subiu em ondas ao rosto de David. Suas mãos fecharam-se como garras sobre a mesa à sua frente, tremendo ligeiramente.

Ele disse em voz baixa, abafada:

– Sim, ele a mencionou. Ele a insultou.

O coronel Johnson disse:

– O que ele disse?

David respondeu, rude:

– Não lembro. Alguma demonstração de desprezo.

Poirot disse delicadamente:

– Sua mãe já está morta há alguns anos, não é?

David respondeu de forma breve.

– Ela morreu quando eu era garoto.

– Talvez ela não fosse muito feliz aqui?

David deu uma risada zombeteira:

– Quem poderia ser feliz com um homem como meu pai? Minha mãe foi uma santa. E morreu com o coração partido.

Poirot prosseguiu:

– Seu pai talvez tenha ficado abalado com a morte dela. Não?

David respondeu:

– Não sei. Fui-me embora.

Ele fez uma pausa e disse:

– Talvez o senhor desconheça o fato de que, quando cheguei para esta visita, fazia vinte anos que não via meu pai. Então, o senhor compreende que não tenho como lhe contar muito sobre seus hábitos ou inimigos ou o que acontecia por aqui.

O coronel Johnson perguntou:

– O senhor sabia que seu pai tinha vários diamantes valiosos no cofre no quarto dele?

David disse, indiferente:

– Verdade? Parece algo insensato.

Johnson disse:

– O senhor poderia descrever em poucas palavras seus movimentos na noite passada?

– Meus? Deixei a mesa do jantar assim que pude. Aborrece-me ficar ali sentado com os outros, bebendo vinho do Porto. Além disso, vi que Alfred e Harry preparavam-se para brigar. Odeio discussões. Saí de fininho e fui à sala de música tocar piano.

Poirot perguntou:

– A sala de música fica ao lado da sala de estar, não é?

– Sim. Eu toquei por um tempo até... até a coisa acontecer.

– O que o senhor ouviu exatamente?

– Um ruído distante de móveis sendo derrubados em algum lugar no andar de cima. E então um grito horripilante. – Ele cerrou as mãos de novo. – Como uma alma no inferno. Meu Deus, foi terrível!

Continuar: parte 3 de 3