O Que É Ciência, Afinal?

Alan Chalmers · Capítulo 10 de 17

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O Que É Ciência, Afinal?

7. Teorias como Estruturas I

Programas de Pesquisa

 

As Teorias devem ser Consideradas como um

todo Estruturado

 

O esboço da Revolução Copernicana apresentado no capítulo anterior sugere enfaticamente que os relatos indutivista e falsificacionista da ciência são por demais fragmentários. Ao se concentrarem nas relações entre as teorias e nas proposições de observações individuais ou de conjuntos, eles deixam de levar em conta as complexidades das principais teorias científicas. Nem a ênfase indutivista ingênua na derivação indutiva das teorias da observação, nem o esquema falsificacionista de conjecturas e falsificações são capazes de produzir uma caracterização adequada da gênese e crescimento de teorias realisticamente complexas. Quadros mais adequados envolvem a apresentação de teorias como espécies de todos estruturados.

Uma das razões pelas quais é necessário considerar as teorias como estruturas origina-se de um estudo da história da ciência. O estudo histórico revela que a evolução e o progresso das principais ciências mostram uma estrutura que não é captada pelos relatos indutivista e falsificacionista. O desenvolvimento programático da teoria copernicana durante mais de um século já nos forneceu um exemplo. Mais adiante nesse capítulo encontraremos outros. O argumento histórico não é, contudo, a única base para a afirmação de que as teorias constituem todos estruturais de algum tipo. Um outro argumento, mais filosófico, está intimamente ligado à dependência que a observação tem da teoria. No Capítulo III foi enfatizado que as proposições de observação devem ser formuladas na linguagem de alguma teoria. Consequentemente, as afirmações e os conceitos que nelas aparecem serão tão precisos e tão informativos quanto for precisa e informativa a linguagem em que forem expressos. Por exemplo, acho que se concordará que o conceito newtoniano de massa possui um sentido mais preciso que o conceito de democracia, digamos. Sugiro que o motivo para o sentido relativamente preciso do primeiro tem sua origem no fato de que o conceito desempenha um papel específico e bem definido em uma teoria precisa e estruturada, a mecânica newtoniana. Contrastando com isso, as teorias em que aparece o conceito “democracia” são notoriamente vagas e variadas. Caso seja válida esta ligação íntima sugerida entre a precisão de sentido de um termo ou afirmação e o papel desempenhado por aquele termo ou aquela afirmação numa teoria, então isso resulta de modo bastante direto na necessidade de teorias coerentemente estruturadas.

A dependência dos sentidos dos conceitos da estrutura da teoria em que ocorrem e a dependência da precisão dos primeiros da precisão e do grau de coerência desses últimos podem tornar-se mais plausíveis notando-se as limitações dos modos alternativos em que se pode pensar que um conceito adquira sentido. Uma tal alternativa é o ponto de vista de que os conceitos adquirem seu sentido por meio de uma definição. As definições devem ser rejeitadas como procedimento fundamental para o estabelecimento de sentidos. Os conceitos somente podem ser definidos em termos de outros conceitos, os sentidos dos quais são dados. Se os sentidos desses últimos conceitos forem eles mesmos estabelecidos por definições, fica claro que o resultado é um regresso infinito, a menos que os sentidos de alguns termos sejam conhecidos por algum outro meio. Um dicionário é inútil a menos que já se conheça o sentido de muitas palavras. Não era possível para Newton definir massa ou força em termos de conceitos pré-newtonianos. Foi necessário que ele transcendesse os termos do velho sistema conceitua) e desenvolvesse um novo. Uma segunda alternativa é a sugestão de que o sentido do conceito é estabelecido através da observação, por meio de uma definição ostensiva. Uma dificuldade central dessa sugestão foi já discutida a respeito do conceito de “vermelho” nas páginas 54-5. Não se chega ao conceito de “massa” somente através da observação, por mais atentamente que se observem bolas de bilhar colidindo, pesos pendurados de molas, planetas em órbita etc., nem é possível ensinar a terceiros o sentido de massa simplesmente indicando tais eventos. Não é irrelevante lembrar nesse ponto que, se tentarmos ensinar um cão por meio da definição ostensiva, ele reagirá invariavelmente cheirando o dedo que aponta.

A afirmação de que os conceitos obtêm seus sentidos ao menos em parte do papel que desempenham numa teoria é sustentada pelas seguintes reflexões históricas.

Contrariamente ao mito popular, Galileu parece ter realizado poucas experiências em mecânica. Muitas das “experiências” a que ele se refere ao articular sua teoria são experiências de pensamento. Isto constitui um fato paradoxal para aqueles empiristas que pensam que as novas teorias derivam de alguma forma dos fatos, mas é bastante compreensível quando se percebe que a experimentação precisa somente poderá ser levada a cabo se tivermos uma teoria precisa capaz de produzir previsões sob a forma de afirmações precisas. Galileu se encontrava no processo de fazer uma importante contribuição para a construção de uma nova mecânica, que provaria ser capaz de suportar uma experimentação detalhada num estágio posterior. Não é necessariamente surpreendente que seus esforços envolvessem experiências de pensamento, analogias e metáforas ilustrativas em vez de experimentação detalhada. Sugiro que a história típica de um conceito, seja ele “elemento químico”, “átomo”, “o inconsciente” ou qualquer outro, envolve uma aparição inicial do conceito como uma ideia vaga, seguido por seu esclarecimento gradual quando a teoria na qual ele desempenha um papel assume uma forma mais precisa e coerente. A emergência do conceito de campo elétrico nos dá um exemplo especialmente notável, embora um tanto técnico. Quando primeiro o conceito foi introduzido, por Faraday, na quarta década do século XIX, ele era muito vago, e era articulado com a ajuda de analogias mecânicas e um uso metafórico de termos como “tensão”, “poder” e “força”. O conceito de campo tornou-se cada vez mais bem definido quando foram ficando melhor especificadas as relações entre o campo elétrico e as outras quantidades eletromagnéticas. Quando Maxwell introduziu sua corrente de deslocamento, foi possível dar uma grande coerência à teoria sob a forma das equações de Maxwell, que estabeleceram claramente o inter-relacionamento entre todas as quantidades do campo eletromagnético. Foi a essa altura que o sentido de “campo elétrico” na teoria eletromagnética clássica alcançou alto grau de clareza e precisão. Foi também nesse ponto que se concedeu aos campos uma independência própria e dispensou-se o éter, que havia sido considerado necessário para dar aos campos uma base mecânica.

Mencionamos até agora dois motivos para que as teorias devam ser vistas como estruturas organizadas de alguma espécie: o fato do estudo histórico demonstrar que as teorias possuem essa característica e o fato de que é somente por meio de uma teoria coerentemente estruturada que os conceitos adquirem um sentido preciso. Um terceiro motivo tem origem na necessidade da ciência de crescer. Está claro que a ciência avançará mais eficientemente se as teorias forem estruturadas de maneira a conter em seu interior indícios e receitas bastante claros quanto a como elas devem ser desenvolvidas e estendidas. Elas devem ser estruturas abertas para que ofereçam um programa de pesquisa. A mecânica de Newton forneceu um programa para os físicos dos séculos XVIII e XIX, o programa para explicar todo o mundo físico em termos de sistemas mecânicos que envolvem várias forças e são governados pelas leis do movimento de Newton. Este programa coerente pode ser comparado à moderna sociologia, grande parte da qual está suficientemente preocupada com dados empíricos para satisfazer os critérios falsificacionistas da boa ciência, o que não ocorre com os indutivistas, e que, entretanto, fracassa miseravelmente ao emular o sucesso da física. Sugiro, seguindo Lakatos, que a diferença crucial se encontra na coerência relativa das duas teorias. As modernas teorias sociológicas não enunciam um programa coerente como guia para pesquisas futuras.

 

Os Programas de Pesquisa de Lakatos

 

O resto do capítulo será dedicado a um resumo de uma tentativa notável de analisar teorias enquanto estruturas organizadas, a “Metodologia dos Programas de Pesquisa Científica”, de Imre Lakatos. Lakatos desenvolveu sua descrição da ciência como uma tentativa de melhorar o falsificacionissmo popperiano e superar as objeções a ele.

Um programa de pesquisa lakatosiano é um estrutura que fornece orientação para a pesquisa futura de uma forma tanto negativa quanto positiva. A heurística negativa de um programa envolve a estipulação de que as suposições básicas subjacentes ao programa, seu núcleo irredutível, não devem ser rejeitadas ou modificadas. Ele está protegido da falsificação por um cinturão de hipóteses auxiliares, condições iniciais etc. A heurística positiva é composta de uma pauta geral que indica como pode ser desenvolvido o programa de pesquisa. Um tal desenvolvimento envolverá suplementar o núcleo irredutível com suposições adicionais numa tentativa de explicar fenômenos previamente conhecidos e prever fenômenos novos. Os programas de pesquisa serão progressivos ou degenerescentes, dependendo de sucesso ou fracasso persistente quando levam à descoberta de fenômenos novos. Para evitar que o leitor se desencoraje diante dessa barragem de termos novos, deixe-me apressar em explicá-los de forma bastante simples.

O núcleo irredutível de um programa é, mais que qualquer outra coisa, a característica que o define. Ele assume a forma de alguma hipótese teórica muito geral que constitui a base a partir da qual o programa deve se desenvolver. Aqui estão alguns exemplos. O núcleo irredutível da astronomia copernicana seriam as suposições que a Terra e os planetas orbitam um Sol estacionário e que a Terra gira em seu eixo uma vez por dia. O núcleo irredutível da física newtoniana é composto das leis do movimento de Newton mais a sua lei da atração gravitacional. O núcleo irredutível do materialismo histórico de Marx seria a suposição de que a mudança histórica deva ser explicada em termos de lutas de classes, a natureza das classes e os detalhes das lutas sendo determinados, em última análise, pela base econômica.

O núcleo irredutível de um programa é tornado infalsificável pela “decisão metodológica de seus protagonistas”. Qualquer inadequação na correspondência entre um programa de pesquisa articulado e os dados de observação deve ser atribuída não às suposições que constituem seu núcleo irredutível, mas a alguma outra parte da estrutura teórica. O labirinto de suposições que constituem esta outra parte da estrutura é aquilo a que Lakatos se refere como cinturão protetor. Ele consiste não somente nas hipóteses auxiliares explicitas que suplementam o núcleo irredutível, mas também em suposições subjacentes à descrição das condições iniciais e também em proposições de observação. Era necessário, por exemplo, que o núcleo irredutível do programa de pesquisa copernicano fosse aumentado pela adição de numerosos epiciclos às órbitas planetárias, inicialmente circulares, e era necessário também mudar a estimativa de distância das estrelas da Terra, previamente aceita. Caso o comportamento planetário observado diferisse do previsto pelo programa de pesquisa copernicano em algum ponto de seu desenvolvimento, então o núcleo irredutível poderia ser protegido com a modificação dos epiciclos ou a adição de novos epiciclos. Eventualmente outras suposições, inicialmente implícitas, seriam desenterradas e modificadas. O núcleo irredutível foi protegido mudando-se a teoria subjacente à linguagem de observação, de modo que informações telescópicas substituíram as observações a olho nu, por exemplo. As condições iniciais também vieram a ser eventualmente modificadas, com a adição de novos planetas.

A heurística negativa de um programa é a exigência de que, durante o desenvolvimento do programa, o núcleo irredutível deve permanecer intacto e sem modificações. Qualquer cientista que modifique este núcleo optou por sair deste programa de pesquisa especifico. Tycho Brahe escolheu sair do programa de pesquisa copernicano e iniciou um outro quando propôs que todos os planetas à exceção da Terra têm sua órbita ao redor do Sol, enquanto o Sol orbita uma Terra estacionária. A ênfase de Lakatos no elemento convencional ligado ao trabalho no interior de um programa de pesquisa, na necessidade de que os cientistas se decidam a aceitar seu núcleo, tem muito em comum com a posição de Popper no que diz respeito às proposições de observação, discutida na seção 2 do capítulo anterior. A principal diferença é que, enquanto em Popper as decisões têm a ver apenas com a aceitação de afirmações singulares, em Lakatos o expediente é aumentado de modo a ser aplicável às afirmações universais que compõem o núcleo. No que diz respeito à ênfase de Lakatos sobre as decisões explicitas dos cientistas individuais eu tenho reservas semelhantes às que mencionei em relação a Popper. A questão será mais extensamente discutida em capítulos posteriores.

A heurística positiva, aquele aspecto de um programa de pesquisa que indica aos cientistas o tipo de coisa que devem fazer, antes das que não devem fazer, é algo mais vago e difícil de caracterizar especificamente do que a heurística negativa. A heurística positiva indica como o núcleo deve ser suplementado para explicar e prever fenômenos reais. Nas palavras do próprio Lakatos, “A heurística positiva consiste em um conjunto de sugestões ou indícios parcialmente articulados de como mudar, desenvolver, as ‘variantes refutáveis’ de um programa de pesquisa, como modificar, sofisticar, o cinturão protetor ‘refutável’”. O desenvolvimento de um programa de pesquisa envolverá não somente a adição de hipóteses auxiliares adequadas, mas também o desenvolvimento de técnicas matemáticas e experimentais adequadas. Por exemplo, desde o começo do programa copernicano ficou claro que eram necessárias técnicas matemáticas adequadas para manipular os movimentos epicíclicos, técnicas melhoradas para observações astronômicas e teorias adequadas que governassem o uso de uma variedade de instrumentos para a elaboração e aplicação detalhada do programa.

Lakatos ilustrou a noção de heurística positiva com a história do início do desenvolvimento da teoria gravitacional de Newton. Newton chegou primeiro à lei da atração do inverso do quadrado considerando o movimento elíptico de um planeta como um ponto ao redor de um Sol como um ponto. Claro estava que, se a teoria gravitacional fosse colocada na prática ao movimento planetário, seria necessário que o programa se desenvolvesse desse modelo idealizado para um modelo mais realista. Mas este desenvolvimento envolvia a solução de problemas teóricos e não seria realizado sem um considerável trabalho teórico. O próprio Newton, enfrentando um programa definido, isto é, orientado por uma heurística positiva, progrediu de forma considerável. Primeiro, levou em consideração o fato de que um Sol, como um planeta, move-se sob a influência de sua atração mútua. Levou em consideração então o tamanho finito dos planetas e tratou-os como esferas. Depois de resolver o problema matemático apresentado por este passo, Newton prosseguiu e deu margem para outras complicações, como as que são introduzidas pela possibilidade de um planeta girar e o fato de que existem forças gravitacionais entre os planetas, bem como entre cada um deles e o Sol. Quando Newton tinha progredido até este ponto no programa, seguindo um caminho que se havia apresentado mais ou menos necessário desde o início, ele começou a se preocupar com a correspondência entre sua teoria e a observação. Quando esta correspondência deixou a desejar, ele foi capaz de prosseguir para planetas não esféricos, e assim por diante. Além de um programa teórico contido na heurística positiva, um programa experimental bastante definido foi sugerido. Aquele programa incluía o desenvolvimento de telescópios mais precisos, juntamente com teorias auxiliares necessárias para o seu uso na astronomia, como aquelas que fornecem os meios adequados para levar em conta a refração da luz na atmosfera terrestre. A formulação inicial do programa de Newton implicava também a vantagem de se construir aparatos sensíveis o suficiente para detectar a atração gravitacional numa escala de laboratório (a experiência de Cavendish).

O programa implícito na teoria gravitacional de Newton dava uma forte orientação heurística. Lakatos dá um relato bastante detalhado da teoria do átomo de Bohr como um outro exemplo convincente. Um traço importante destes exemplos de programas de pesquisa em desenvolvimento é o estágio comparativamente tardio em que o teste de observação torna-se importante. Isto está de acordo com meus comentários sobre a construção de Galileu das origens da mecânica na seção anterior. O início de trabalho num programa de pesquisa ocorre sem consideração da observação ou apesar das aparentes falsificações desta. Um programa de pesquisa deve ter uma chance de realizar seu pleno potencial. Um cinturão protetor adequado e apropriadamente sofisticado deve ser construído. Em nosso exemplo da Revolução Copernicana, isto incluía o desenvolvimento de uma mecânica e de uma ótica adequadas. Quando um programa foi desenvolvido até um estágio em que é apropriado submetê-lo a testes de observação, são as confirmações, mais que as falsificações, de especial importância, segundo Lakatos. Exige-se que um programa de pesquisa tenha sucesso, ao menos intermitentemente, em fazer previsões novas que sejam confirmadas. A noção de uma previsão “nova” foi discutida na seção 4 do Capítulo V. A teoria de Newton experimentou sucessos dramáticos deste tipo quando Galle observou o planeta Netuno e Cavendish detectou primeiro a atração gravitacional em escala de laboratório. Sucessos tais eram as marcas do caráter progressivo do programa. Em contraste, a astronomia ptolemaica tinha fracassado em prever fenômenos novos durante toda a Idade Média. Na época de Newton, a teoria ptolemaica era nitidamente uma teoria degenerescente.

Duas das maneiras em que o mérito de um programa de pesquisa deve ser avaliado surgiram do esboço que vimos. Em primeiro lugar, um programa de pesquisa deve possuir um grau de coerência que envolva o mapeamento de um programa definido para a pesquisa futura. Segundo, um programa de pesquisa deve levar à descoberta de fenômenos novos, ao menos ocasionalmente. Um programa de pesquisa deve satisfazer às duas condições para se qualificar como programa científico. Lakatos oferece tanto o marxismo quanto a psicologia freudiana como programas que satisfazem ao primeiro critério mas não ao segundo, e a sociologia moderna como um programa que satisfaz talvez ao segundo mas não ao primeiro.

 

Metodologia em um Programa de Pesquisa

 

`No interior do arcabouço de Lakatos deve-se discutir a metodologia científica a partir de dois pontos de vista: o primeiro relativo ao trabalho a ser feito dentro de um único programa de pesquisa, o outro relativo à comparação dos métodos de programas de pesquisa competitivos. O trabalho no interior de um único programa de pesquisa envolve a expansão e a modificação de seu cinturão protetor pela adição e articulação de várias hipóteses. Quais os tipos de adições e modificações que devem ser permitidos por uma boa metodologia científica e quais os tipos que devem ser excluídos como não-científicos? A resposta de Lakatos a esta pergunta é franca. Qualquer movimento é permitido, contanto que não seja ad hoc, no sentido discutido na seção 2 do Capítulo V. Modificações ao cinturão protetor de um programa de pesquisa devem ser capazes de serem testadas independentemente. Cientistas individuais ou grupos de cientistas são convidados a desenvolver o cinturão protetor de qualquer maneira que quiserem, contanto que seus passos ofereçam a oportunidade de novos testes e, portanto, a possibilidade de novas descobertas. Tomemos, como ilustração, um exemplo do desenvolvimento da teoria de Newton que consideramos várias vezes antes e consideremos a situação com que se confrontaram Leverrier e Adams quando se dedicaram à problemática órbita do planeta Urano. Esses cientistas escolheram modificar o cinturão protetor do programa propondo que as condições iniciais não eram adequadas. Sua proposta detalhada era científica porque era testável independentemente e, como sucedeu, levou à descoberta do planeta Netuno. Mas outras respostas possíveis ao problema seriam genuinamente científicas no relato de Lakatos. Um outro cientista poderia ter proposto uma modificação na teoria ótica que governava a operação dos telescópios usados na investigação. Esse movimento teria sido científico se, por exemplo, tivesse envolvido a previsão de um novo tipo de aberração, de tal forma que a existência da nova aberração pudesse ser testada por experiências óticas. Um outro passo poderia ter sido envolvido colocando em dúvida alguma suposição do cinturão protetor, tais como as relativas à refração da atmosfera terrestre. Um tal passo teria sido legítimo se tivesse oferecido a possibilidade de novos tipos de testes experimentais, conduzindo talvez à descoberta de alguma nova característica da atmosfera da Terra.

Dois tipos de movimentos são excluídos pela metodologia de Lakatos. Hipóteses ad hoc, e hipóteses não-independentemente testáveis são excluídas. Em nosso caso, por exemplo, não teria sido científico propor que o movimento importuno do planeta Urano era assim por ser o seu movimento natural. O outro tipo de passo excluído é aquele que viola o núcleo, conforme mencionamos. Um cientista que tentasse lidar com a órbita de Urano propondo que a força entre Urano e o Sol obedecia a algo mais que a lei do inverso do quadrado estaria escolhendo abandonar o programa de pesquisa newtoniano.

O fato de que qualquer parte de um labirinto teórico complexo possa ser responsável por uma falsificação aparente coloca um problema sério para o falsificacionista que confia num método incondicional de conjecturas e refutações. Para ele, a inabilidade em localizar a origem do problema resultou num caos não-metódico. O relato da ciência de Lakatos é suficientemente estruturado para evitar aquela consequência. A ordem é mantida pela inviolabilidade do núcleo irredutível de um programa e pela heurística positiva que o acompanha. A proliferação de conjecturas engenhosas dentro deste arcabouço levará ao progresso, com a condição de que algumas das previsões resultantes das conjecturas engenhosas provem ser ocasionalmente bem-sucedidas. As decisões de reter ou rejeitar uma hipótese são determinadas de forma bastante direta pelos resultados dos testes experimentais. Aquelas que sobrevivem aos testes experimentais são retidas provisoriamente e as que não sobrevivem são rejeitadas, embora algumas decisões estejam abertas à apelação, à luz de alguma hipótese engenhosa posterior, testável independentemente. A importância de uma observação para uma hipótese sendo testada não é tão problemática dentro de um programa de pesquisa, pois o núcleo irredutível e a heurística positiva servem para definir uma linguagem de observação bastante estável.

 

A Comparação de Programas de Pesquisa

 

Enquanto os méritos relativos de hipóteses competitivas dentro de um programa de pesquisa podem ser determinados de uma forma relativamente direta, a comparação de programas de pesquisa rivais é mais problemática. Grosso modo, devem-se julgar os méritos relativos de programas de pesquisa à medida que eles estejam progredindo ou degenerando. Um programa degenerescente cederá espaço para um rival mais progressista, como a astronomia ptolemaica que cedeu espaço para a teoria copernicana.

Uma das maiores dificuldades com esse critério para a aceitação ou rejeição de programas de pesquisa está associada ao fator tempo. Quanto tempo deve passar antes que se possa decidir que um programa degenerou seriamente, que ele é incapaz de levar à descoberta de fenômenos novos? A parábola de Lakatos, reproduzida nas páginas 96-7 indica a dificuldade. Neste desenvolvimento imaginário dentro da astronomia newtoniana, nunca foi possível estar certo de que um sucesso importante não se encontrava do outro lado da esquina. Para darmos um exemplo histórico genuíno, mais de setenta anos passaram-se antes que a previsão de Copérnico a respeito das fases de Vênus fosse confirmada como correta, e vários séculos antes que a previsão copernicana de que as estrelas fixas deviam mostrar paralaxe fosse confirmada. Por causa da incerteza do resultado de tentativas futuras de desenvolver e testar um programa de pesquisas, não se pode nunca dizer, de programa algum, que ele degenerou para além de toda a esperança. Sempre é possível que alguma modificação engenhosa de seu cinturão protetor conduza a alguma descoberta espetacular, que trará o programa de volta à vida e o colocará numa fase progressiva.

A história das teorias da eletricidade dá um exemplo das mudanças de sorte de programas de pesquisas rivais. Um programa, que chamarei de teoria de ação à distância, considerava a eletricidade como um fluido ou partículas de alguma espécie, residindo em corpos carregados eletricamente ou fluindo através de circuitos elétricos. Supunha-se que elementos separados da eletricidade agiam uns nos outros instantaneamente, à distância, através do espaço vazio, com uma força que dependia da separação e do movimento dos elementos. O outro programa era a teoria de campo iniciada por Faraday, segundo a qual os fenômenos elétricos podem ser explicados em termos de ações que acontecem no meio que cerca os corpos eletrificados e os circuitos elétricos, mais que em termos do comportamento de uma substância em seu interior. Antes dos sucessos de Faraday, a teoria da ação à distância é que era progressiva. Ela levou à descoberta da capacidade de uma garrafa de Leyden armazenar eletricidade e à descoberta de Cavendish da lei do inverso do quadrado da atração e da repulsão entre corpos; entretanto, superaria a abordagem da ação à distância com a descoberta de Faraday da indução eletromagnética e sua invenção do motor elétrico, do dínamo e do transformador na década de 1930. A teoria de campo progrediu de forma ainda mais dramática quando, umas poucas décadas mais tarde, Hertz apresentou as ondas de rádio previstas no programa. Entretanto, a teoria da ação à distância não havia sido concluída. Foi desse programa que surgiu a noção de elétron. Ele havia sido previsto de uma forma vaga pelo teórico da ação à distância W. Weber, na primeira metade do século XIX, e fora predito de maneira mais precisa por H. A. Lorentz, em 1892, e foi eventualmente detectado, experimentalmente, por J. J. Thompson e por outros mais tarde, na mesma década. O desenvolvimento da teoria eletromagnética clássica teria sido grandemente prejudicado se a abordagem da ação à distância houvesse sido abandonada mais no início do século por causa do progresso superior do programa de campo. Incidentalmente, a interação entre os dois programas e o fato de que a teoria eletromagnética clássica surgiu como uma reconciliação dos dois programas, herdando, de um lado, os campos e, do outro, os elétrons, sugerem que os programas de pesquisa não são tão autônomos quanto argumenta o relato de Lakatos.

Dentro desse relato, então, não se pode nunca fazer a afirmação sem as restrições de que um programa de pesquisa é “melhor” que um rival. O próprio Lakatos admite que os méritos relativos de dois programas somente podem ser decididos “olhando-se para trás”. Por ter deixado de oferecer um critério bem definido para a rejeição de qualquer programa de pesquisa coerente, ou para escolher entre programas de pesquisas rivais, poder-se-ia desejar dizer, com Feyerabend, que a metodologia de Lakatos é “um ornamento verbal, como um memorial de épocas mais felizes, quando era ainda possível administrar um negócio complexo e frequentemente catastrófico como a ciência, seguindo-se umas poucas regras simples e ‘racionais’”. A questão aqui levantada será discutida mais detalhadamente no Capítulo IX.

 

Outras Leituras

 

A fonte base é 1. Lakatos, “Falsification and the Methodology of Scientific Research Programmes”, em Criticism and the Growth of Knowledge, ed. I. Lakatos e A. Musgrave (Cambridge: Cambridge University Press, 1974), pp. 91-196. Alguns estudos históricos do ponto de vista de Lakatos são E. Zahar, “Why Did Einstein’s Programme Supersede Lorentz’s?”, British Journal for the Philosophy of Science 24 (1973): 95-123, 223-63; I. Lakatos e E. Zahar, “Why Did Copernicus Programme Supersede Ptolemy’s?”, em The Copernican Achievement, ed. R. Westman (Berkeley, Calif.: California University Press, 1975); e os estudos em Colin Howson, ed., Method and Appraisal in the Physical Sciences (Cambridge: Cambridge University Press,1976). A maioria dos trabalhos de Lakatos foi reunida e publicada em dois volumes por John Worrall e Gregory Currie (Cambridge: Cambridge University Press, 1978). O ponto em que os programas de pesquisa de Lakatos são auto-suficientes é criticado por Noretta Koertge, “Inter-theoretic Criticism and the Growth of Science”, em Boston Studies in Philosophy of Science, vol. 8, ed. R. C. Buck and R. S. Cohen (Dordrecht: Reidel Publishing, Co., 1971, pp. 160-73. As posições de Lakatos e Kuhn são comparadas e Kuhn defendido em D. Bloor, “Two Paradigms of Scientific Knowledge?”, Science Studies 1 (1971): 101-15. A noção de uma previsão nova é seguida por Alan E. Musgrave, “Logical Versus Historical Theories of Confirmation”, British Journal for the Philosophy of Science 25 (1974): 1-23.