O Que É Ciência, Afinal?
14. O Realismo Não-Representativo
A Relação entre as Teorias e suas Sucessoras
No capítulo anterior eu critiquei os relatos instrumentalistas da física e também aqueles relatos realistas que incorporam uma teoria da verdade da correspondência. Cabe, agora, sugerir uma alternativa viável. À guisa de preliminar a esta tarefa, direi, nesta seção, um pouco mais sobre a relação entre as teorias suplantadas e aquelas que as substituem como consequência de uma mudança revolucionária. Será conveniente concentrar a atenção, uma vez mais, na relação entre a teoria de Newton e a Einnstein, um exemplo favorito de Kulin e de Feyerabend para ilustrar aquilo que chamam de incomensurabilidade.
Como enfatizei anteriormente, a caracterização do mundo envolvida na teoria de Newton é muito diferente da envolvida na teoria de Einstein. À luz da teoria de Einstein, a de Newton não corresponde aos fatos. Isto posto, que relato deve dar o realista da relação entre a teoria de Newton e o inundo, e como deve explicar o fato dela ter tido o sucesso que teve? Encontramos, no capítulo anterior, um certo número de motivos para que o relato instrumentalista não sirva. Gostaria cie enfatizar a importância do argumento de Bhaskar a este respeito. Já que mais de dois séculos de desenvolvimento da física newtoniana envolveram a experimentação de forma essencial, não é possível tornar possível aquela física e seu sucesso parcial interpretando-a como uma tentativa de estabelecer correlações entre eventos, observáveis ou não. Consequentemente, não é aceitável para um realista explicar a relação entre a teoria de Newton e o mundo com o argumento de que, se a teoria de Einstein corresponde aos fatos, então uma série de observações estará em conformidade com a teoria de Newton interpretada instrumentalmente. Isto não faz justiça à teoria de Newton e não torna inteligível dois séculos de trabalho experimental nela.
Uma linha de raciocínio relacionada com essa exerce pressão numa direção semelhante, como se segue. Reconhecendo que o arcabouço conceitual da teoria de Einstein é suficiente mente diferente do de Newton para impedir que hajam relações estritamente lógicas entre elas, é possível argumentar, contudo, que, se a teoria de Einstein é aplicável ao mundo, então, em uma grande variedade de circunstâncias, a teoria de Newton é aplicável aproximativamente a ele. Por exemplo, pode-se mostrar, dentro da teoria de Einstein, que, se a velocidade de um sistema com relação a um conjunto de quadros de referência for pequena, o valor da massa do sistema será aproximadamente o mesmo, seja qual for o quadro de referência no conjunto usado para avaliá-la. Consequentemente, não erraremos muito se tratarmos a massa como se fosse uma propriedade e não uma relação. De forma semelhante, nas mesmas condições pode-se mostrar de dentro da teoria de Einstein que, se tratarmos a massa como uma propriedade dentro de um quadro de referência específico dentre o conjunto, a soma do produto da massa e da velocidade para cada parte do sistema permanecerá constante até um alto grau de aproximação. Isto é, do ponto de vista da teoria de Einstein, podemos demonstrar que a lei de conservação de momento será válida aproximadamente, contanto que as velocidades não sejam grandes demais.
Somos novamente forçados a concluir que a teoria de Newton não pode ser caracterizada adequadamente em termos instrumentalistas. Por outro lado, ela também não pode ser interpretada em termos tipicamente realistas, já que do ponto de vista da teoria de Einstein ela não corresponde aos fatos.
O Realismo Não-Representativo
O mundo físico é tal que a teoria newtoniana é aproximadamente aplicável a ele numa grande variedade de circunstâncias. A extensão em que isso se dá pode ser compreendida à luz da teoria de Einstein. A validade aproximada da teoria newtoniana deve ser testada sob condições experimentais, embora se o mundo for de tal forma que a teoria de Newton seja aplicável a ele, continuará sendo fora das condições experimentais. A teoria de Newton não pode ser interpretada como correspondendo aos fatos, mas sua aplicabilidade ao mundo deve ser compreendida num sentido mais forte que o captado pelo instrumentalismo. Sugiro que todos estes comentários sobre o status da teoria de Newton devem ser aceitos por um realista que endosse a teoria da verdade da correspondência. Isto posto, e dadas as dificuldades associadas com a teoria da verdade da correspondência discutidas na seção anterior, o caminho para a minha própria posição é bastante direto. Ela envolve tratar as teorias físicas de maneira que a discussão acima nos conduziu a tratar da teoria de Newton.
Do ponto de vista que desejo defender, o mundo físico é tal que nossas teorias físicas atuais são aplicáveis a ele em certo grau, e, em geral, num grau que excede suas predecessoras na maioria dos aspectos. O objetivo da física será estabelecer os limites da aplicabilidade das teorias atuais de desenvolver teorias que sejam aplicáveis ao mundo num grau maior de aproximação numa variedade mais ampla de circunstâncias. Darei a este ponto de vista o nome de realismo não-representativo.
O realismo não-representativo é realista em dois sentidos. Em primeiro lugar, envolve a suposição de que o mundo físico é como é independentemente de nosso conhecimento dele. O mundo é como é, seja lá o que for que indivíduos ou grupos de indivíduos pensem sobre o assunto. Em segundo lugar, ele é realista porque envolve a suposição de que, na medida em que as teorias são aplicáveis ao mundo, são aplicáveis dentro e fora das situações experimentais. As teorias físicas fazem mais que afirmações a respeito de correlações entre conjuntos de proposições de observação. O realismo não-representativo é não-representativo, pois não incorpora uma teoria da verdade da correspondência. O realista não-representativo não supõe que nossas teorias descrevam entidades do mundo, tais como as funções ondulares ou campos, da maneira que nossas ideias de senso comum entendem, que nossa linguagem descreve gatos e mesas. Podemos avaliar nossas teorias do ponto de vista da extensão em que lidam com sucesso-com algum aspecto do mundo, mas não podemos ir mais além e avalia-las do ponto de vista da extensão em que descrevem o mundo como ele realmente é, simplesmente porque não temos acesso ao mundo independentemente de nossas teorias, de maneira que nos capacite a avaliar a propriedade daquelas descrições. Isto colide com nossas noções de senso comum, segundo as quais nossas conversas sobre gatos e mesas incluem o que é tomado por descrições de tais coisas. Entretanto, gostaria de lembrar aos defensores da aplicabilidade da teoria da verdade da correspondência à física que eles também são obrigados a tornar inteligível a fala de Newton, parcialmente bem-sucedida, sobre as partículas de luz, e sobre a massa concebida como uma propriedade, a fala de Maxwell sobre o éter e a fala de Shrodinger a respeito das funções ondulares.
Por envolver a rejeição da verdade como correspondência com os fatos, o realismo não-representativo evita as dificuldades enfrentadas pelas posições tipicamente realistas. O fato de séries de teorias da física, tais como as teorias sucessivas da luz, não poderem ser interpretadas como descrições cada vez mais finas da realidade não é problema. Nem o fato de existirem formulações muito diferentes, possivelmente equivalentes da mesma teoria, envolvendo “representações” muito diferentes da realidade. O realismo não-representativo é também mais compatível que as visões realistas com o fato de nossas teorias serem produtos sociais sujeitos à mudança radical. Nossas teorias são um tipo especial de produto social, embora a extensão em que são capazes de lidar com o mundo físico, que não é um produto social, não seja determinada socialmente.
O realismo não-representativo não é suscetível às objeções-padrão ao instrumentalismo. Ele não envolve o uso questionável de uma distinção entre termos de observação e teóricos. Na verdade, na medida em que o realismo não-representativo incorpora o papel do experimento como parte integral, traz embutida uma forte percepção da maneira como que as provas empíricas que importam para as teorias dependem delas. Previsões novas bem-sucedidas, que colocam um problema para o instrumentalismo, são explicáveis do ponto de vista do realismo não-representativo. Se o mundo é tal que nossas teorias físicas são aplicáveis a ele, então faremos descobertas ao investigar sua aplicabilidade em novas áreas. Um outro argumento frequentemente levantado contra o instrumentalismo é que a atitude deste último para com a física é conservadora e inibe o progresso. Ele exclui especulações potencialmente produtivas sobre entidades teóricas. O realismo não-representativo não está aberto a este tipo de crítica. Segundo ele, é necessário determinar a extensão da aplicabilidade das teorias sujeitando-as a uma série completa de testes. Além do mais, ele reconhece que a extensão de aplicabilidade de uma teoria pode ser melhor verificada à luz de uma teoria sucessora que a explique em um nível mais profundo. Quanto a isto, ele é mais condutivo a um crescimento e desenvolvimento constantes que uma posição que veja a física como algo que objetiva um ponto finai chamado verdade. Do ponto de vista do realista não-representativo não há fim para o desenvolvimento da física. Por mais amplas que sejam nossas teorias, e por mais profundas que sejam suas investigações na estrutura do mundo, sempre permanece a possibilidade de desenvolvê-las a um nível mais profundo ou em frentes mais amplas ou mais novas.
O que é Ciência, Afinal?
Minha caracterização do realismo não-representativo em termos da aplicabilidade das teorias ao mundo, ou sua habilidade de lidar com o mundo, pode muito bem receber a objeção de ser por demais vaga. Parte de minha resposta à esta objeção é admitir que meu relato é vago, mas insisto que isto não é uma fraqueza mas um ponto forte da minha posição. As formas em que somos capazes de teorizar sobre o mundo com sucesso não são algo que possamos estabelecer de antemão por argumentos filosóficos. Galileu descobriu como era possível lidar com alguns aspectos do mundo físico por intermédio de uma teoria matemática do movimento. As teorias de Newton diferem das de Galileu em aspectos importantes, enquanto a mecânica quântica lida com o mundo de formas fundamentalmente diferentes as da física clássica, e quem sabe o que o futuro nos reserva? Certamente não são filósofos da ciência. Qualquer relato da relação entre as teorias no interior da física, e o mundo a respeito do qual se tenciona que estas teorias versem, não deve ser de natureza a excluir um possível desenvolvimento futuro. Consequentemente, um certo grau de imprecisão é essencial.
O meu próprio relato da relação entre as teorias físicas e o mundo baseia-se em duas características muito gerais da física desde Galileu. Uma é que a física envolve experimentação, o que me dá uma base para rejeitar o instrumentalismo. A outra é o fato da física ter experimentado mudanças revolucionárias, um fator que constitui parte da base para a minha crítica da aplicabilidade da teoria da verdade da correspondência à física. Podem-se acrescentar mais detalhes, certamente, se desejarmos caracterizar mais precisamente duzentos anos de física. Podemos dizer que a física envolve generalizações universais formuladas em termos matemáticos, que os sistemas de teorias formam algo semelhante aos programas de pesquisa lakatosianos e que seu desenvolvimento ocorreu em conformidade com o relato objetivista da mudança que foi apresentado no Capítulo XI. Desta maneira podemos formular uma resposta à pergunta “que coisa é esta chamada de física?”. Não podemos, no entanto, estar certos de que a física não sofrerá algumas mudanças drásticas no futuro. Foi já notado que a moderna mecânica quântica difere em aspectos fundamentais da física clássica e já se sugeriu também qual caráter da física possa estar mudando devido às mudanças sociais que acompanham o crescimento do capitalismo monopolista.
A estrutura de grande parte dos argumentos desse livro foi de desenvolver relatos do tipo de coisa que é a física e testá-los no confronto com a física real. Diante dessa consideração sugiro que a pergunta que constitui o título desse livro é enganosa e arrogante. Ela supõe que exista uma única categoria “ciência” e implica que várias áreas do conhecimento, a física, a biologia, a história, a sociologia e assim por diante se encaixam ou não nessa categoria. Não sei como se poderia estabelecer ou defender uma caracterização tão geral da ciência. Os filósofos não têm recursos que os habilitem a legislar a respeito dos critérios que precisam ser satisfeitos para que uma área do conhecimento seja considerada aceitável ou “científica”. Cada área do conhecimento pode ser analisada por aquilo que é. Ou seja, podemos investigar quais são seus objetivos – que podem ser diferentes daquilo que geralmente se consideram ser seus objetivos – ou representados como tais, e podemos investigar os meios usados para conseguir estes objetivos e o grau de sucesso conseguido. Não se segue disso que nenhuma área do conhecimento possa ser criticada. Podemos tentar qualquer área do conhecimento criticando seus objetivos, criticando a propriedade dos métodos usados para atingir esses objetivos, confrontando-a com meios alternativos e superiores de atingir os mesmos objetivos e assim por diante. Desse ponto de vista não precisamos de uma categoria geral “ciência”, em relação à qual alguma área do conhecimento pode ser aclamada como ciência ou difamada como não sendo ciência.
O Relativismo em Perspectiva
Alguns de meus comentários na seção anterior têm um sabor relativista. Discutirei nessa seção as formas em que minha posição tem um caráter relativista e as formas em que não o tem.
Se devemos falar das maneiras em que as teorias devem ser avaliadas ou julgadas, então a minha posição é relativista no sentido de que nego que exista algum critério absoluto em relação ao qual estes julgamentos devem ser feitos. Especificamente, não há uma categoria geral, “a ciência”, e nenhum conceito de verdade à altura da tarefa de caracterizar a ciência como uma busca da verdade. Cada área do conhecimento deve ser julgada pelos próprios méritos, pela investigação de seus objetivos, e, em que extensão é capaz de alcançá-los. Mais ainda, os próprios julgamentos relativos aos objetivos serão relativos à situação social. Os julgamentos sobre algum ramo obscuro da lógica matemática ou da filosofia analítica podem ter um peso considerável, em termos do prazer estético que proporciona aos seus participantes, para alguma classe privilegiada de uma sociedade rica, mas um peso pequeno para uma classe oprimida de um país do Terceiro Mundo. O objetivo do controle tecnológico sobre a natureza é de grande importância em uma sociedade em que problemas sociais extremamente urgentes necessitam um aumento do controle tecnológico, e deve ter importância menor em nossa sociedade, em que aparentemente os problemas sociais mais urgentes são antes exacerbados que aliviados por maiores avanços no controle tecnológico.
Esta conversa sobre os julgamentos a respeito das áreas de conhecimento decresce em importância à luz dos aspectos não-relativistas de minha posição. O alcance objetivista de minha postura enfatiza que os indivíduos em sociedade são confrontados por uma situação social com certas características, estejam ou não cônscios disso, e têm à sua disposição uma variedade de maneiras de mudar a situação, quer gostem ou não. Além disso qualquer ação executada para mudar a situação terá consequências que dependem do caráter objetivo da situação e que podem diferir notadamente das intenções do ator. De forma semelhante, na área do conhecimento, os indivíduos confrontam-se com uma situação objetiva e uma variedade de métodos e matérias-primas teóricas à sua disposição para contribuir para uma mudança na situação. Uma teoria pode, de fato, alcançar certos objetivos de maneira melhor que uma rival e os julgamentos dos indivíduos e dos grupos podem estar errados sobre o assunto.
Desse ponto de vista os julgamentos feitos pelos indivíduos quanto ao caráter e méritos das teorias são menos significativos do que geralmente se pensa. O meu relato objetivista da mudança de teoria foi projetado para mostrar como é que o desenvolvimento de duzentos anos da física pode ser explicado de uma forma que não depende crucialmente dos julgamentos metodológicos de indivíduos ou de grupos. Não é necessário analisar os objetivos em termos das aspirações dos indivíduos ou grupos. Tomemos, por exemplo, o objetivo de aumentar o controle tecnológico sobre a natureza. Este objetivo possui um significado maior nas sociedades capitalistas que nas sociedades feudais que elas substituíram. Dentro de uma economia capitalista o aumento de controle tecnológico é uma necessidade, na medida em que os capitalistas que não o conseguem serão forçados pelos que conseguem a sair do mercado e, consequentemente, falirão. A situação não era a mesma na sociedade feudal. As comunidades centradas ao redor das casas senhoriais vizinhas não eram obrigadas a competir dessa forma pela natureza do sistema econômico. Uma comunidade feudal que deixasse de equiparar os avanços tecnológicos de sua vizinha não abriria falência mas, simplesmente, experimentaria um padrão de vida mais baixo que a outra. Esta conversa sobre objetivos não trata dos julgamentos ou valores dos indivíduos envolvidos.
O precedente não tem a intenção de indicar que os julgamentos dos indivíduos não têm consequências, seja na área da mudança teórica ou da mudança social. Em qualquer dos casos, quaisquer mudanças somente ocorrerão como resultado das ações de indivíduos ou de grupos de indivíduos e as ações executadas por indivíduos serão claramente influenciadas pelos seus julgamentos sobre a situação que confrontam e pela sua própria compreensão de seus objetivos. Entretanto, aquilo que disse indica que as mudanças teóricas e sociais não devem ser compreendidas apenas, ou mesmo principalmente, ocorrendo como resultado de julgamentos humanos.
Porque as teorias dentro da física, em algum estado de seu desenvolvimento, são como são, e pelo mundo tísico ser como é, aquelas teorias são capazes de lidar com o mundo com algum grau de sucesso, os indivíduos e grupos julgando a situação corretamente ou não. O fato da física ter existido e sobrevivido na sociedade ocidental e ter, ao menos até recentemente, progredido do modo internalista descrito no meu relato objetivista da mudança de teoria, deve ser explicado em termos da relação entre a natureza objetivista da física e a natureza objetiva da sociedade ocidental. Parte da caracterização da sociedade ocidental envolverá uma elaboração de como as pessoas naquela sociedade se veem tipicamente a si mesmas e a sociedade, mais especificamente, envolverá uma caracterização das atitudes típicas com a física. Mas as considerações das atitudes típicas com a física não serão os únicos fatores a explicar a sobrevivência e o desenvolvimento da sociedade, nem é necessário que aquelas atitudes sejam tomadas como primitivas e não explicáveis com referência a causas sociais subjacentes.
A tendência objetivista de meus comentários contraria os tipos extremos de relativismo, segundo os quais uma teoria vale tanto quanto outra, isto é, que tudo é uma questão de opinião ou tudo uma questão de desejos subjetivos, como sugeriu Feyerabend em momentos de descuido. Do ponto de vista do realista, interpretado num sentido amplo, estas teorias tratam de tentar lidar com algum aspecto do mundo. Isto contrasta com o ponto de vista que parece estar implícito em alguns relatos relativistas, a saber, que o objetivo de se desenvolver teorias é provar aos outros que se tem razão.
Por que se Incomodar?
É apropriado, nessa seção final do livro, enfrentar a questão do que se trata. Para que nos incomodamos em executar investigações do tipo encontrado nas páginas precedentes? A importância da pergunta destaca-se uma vez admitindo-se, como fiz, que a filosofia ou metodologia da ciência nada adianta aos cientistas.
Sugiro, em retrospectiva, que a função mais importante da minha investigação seja combater aquilo que pode ser chamado de ideologia da ciência, tal como funciona em nossa sociedade. Essa ideologia envolve o uso do conceito dúbio de ciência e o conceito igualmente dúbio de verdade, frequentemente associado a ele, geralmente-na defesa de posições conservadoras. Por exemplo, encontramos o tipo de psicologia behaviorista que trata as pessoas como se fossem máquinas e o uso amplo de resultados de estudo de Q.I. em nosso sistema educacional defendidos em nome da ciência. Corpos de conhecimentos como esses são defendidos, afirmando-se ou implicando-se que foram adquiridos por meio do “método científico” e que devem, portanto, ser meritórios. Não é somente a direita política que utiliza as categorias da ciência e do método científico dessa forma. Encontra-se frequentemente marxista fazendo uso deles para defender a afirmação de que o materialismo histórico é uma ciência. As categorias gerais de ciência e de método científico são usadas também para excluir ou suprimir áreas de estudo. Por exemplo, Popper argumenta contra o marxismo e a psicologia adleriana, baseado no fato de que elas não se conformam com uma metodologia falsificacionista, enquanto Lakatos recorreu à metodologia dos programas de pesquisas científicas para argumentar contra o marxismo, a sociologia contemporânea e outras poluições intelectuais!
Como deverá estar claro, meu próprio ponto de vista é de que não existe um conceito universal e atemporal de ciência ou do método científico que possa servir aos propósitos exemplificados no parágrafo anterior. Não temos os recursos para chegar a tais noções e defendê-las. Não podemos defender ou rejeitar legitimamente itens de conhecimento por eles se conformarem ou não a algum critério pronto e acabado de cientificidade. Se, por exemplo, queremos tomar uma posição ilustrada sobre alguma visão do marxismo, devemos investigar quais são suas metas, os métodos empregados para alcançá-las, a extensão na qual essas metas foram alcançadas, e as forças ou fatores que determinam seu desenvolvimento. Estaríamos, então, em posição de avaliar a versão do marxismo em termos de desejabilidade do que ele quer, da extensão na qual seus métodos possibilitam que tais metas sejam alcançadas, e os interesses a que ele serve.
Embora um dos objetivos de meu livro seja acabar com o uso ilegítimo de concepções de ciência e método científico, eu espero também que ele faça algo para compensar as reações extremamente individualistas ou relativistas contra a ideologia da ciência. Não é o caso de que uma visão é tão boa quanto qualquer outra. Se uma situação deve ser mudada de uma forma controlada, quer a situação envolva o estado de desenvolvimento de algum ramo do conhecimento ou o estado de desenvolvimento de algum aspecto da sociedade, isto será mais bem conseguido por meio de um controle da situação e de um domínio dos meios disponíveis para mudá-la. Isto envolverá ação cooperativa. A política “vale-tudo”, interpretada num sentido mais geral daquele que Feyerabend provavelmente pretendeu, deve ser evitada devido à sua impotência. Para citar novamente John Krige, vale tudo... significa que na prática, tudo permanece.
Table of Contents
Prefácio à Primeira Edição
Prefácio à Segunda Edição
Introdução
1. Indutivismo
2. O Problema da Indução
3. A Dependência que a Observação tem da Teoria
4. Apresentando o Falsificacionismo
5. Falsificacionismo Sofisticado
6. As Limitações do Falsificacionismo
7. Teorias como Estruturas I
8. Teorias como Estruturas II
9. Racionalismo versus Relativismo
10. Objetivismo
11. Um Relato Objetivista das Mudanças Teóricas na Física
12. A Teoria Anarquista do Conhecimento de Feyerabend
13. Realismo, Instrumentalismo e Verdade
14. O Realismo Não-Representativo
Você terminou O Que É Ciência, Afinal?
Alan Chalmers