O Que É Ciência, Afinal?

Alan Chalmers · Capítulo 16 de 17

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O Que É Ciência, Afinal?

13. Realismo, Instrumentalismo e Verdade

 

Comentários Introdutórios

 

Neste capítulo e no seguinte tentarei lidar com algumas questões problemáticas que dizem respeito à relação entre as teorias científicas e o mundo em que se intenciona aplicá-las. Temos, de um lado, teorias científicas que são construções humanas e que estão sujeitas a mudanças e desenvolvimentos, talvez infindáveis. Por outro lado, temos o mundo em que se quer aplicar estas teorias e cujo modo de comportamento, ao menos no caso do mundo físico, não está sujeito a mudança. Qual é a relação entre as duas áreas?

Um tipo de resposta a esta pergunta é que as teorias descrevem, ou têm como objetivo descrever, como o mundo é realmente. Utilizarei o termo “realismo” para caracterizar as posições que adotam uma versão desta resposta. Do ponto de vista realista a teoria cinética dos gases descreve-os como realmente são. A teoria cinética é interpretada como afirmando que os gases são realmente feitos de moléculas em movimentos aleatórios colidindo uma com a outra e com as paredes do recipiente que os contém. Semelhantemente, de um ponto de vista realista, a teoria eletromagnética clássica é interpretada como afirmando que realmente existem campos elétricos e magnéticos no mundo, obedecendo às equações de Maxwell e partículas carregadas que obedecem à equação de força de Lorentz.

Segundo um ponto de vista alternativo, que chamarei de instrumentalista, o componente teórico da ciência não descreve a realidade. As teorias são compreendidas como instrumentos projetados para relacionar um conjunto de estado de coisas observáveis com outros. Para o instrumentalista as moléculas móveis a que se refere a teoria cinética dos gases constituem ficções convenientes que habilitam os cientistas a fazerem relações e previsões sobre manifestações observáveis das propriedades dos gases, enquanto os campos e cargas da teoria eletromagnética são ficções que capacitam o cientista a fazer o mesmo em relação aos magnetos, aos corpos eletrificados e aos circuitos que transportam correntes.

O realismo envolve tipicamente a noção de verdade. Para o realista a ciência visa descrições verdadeiras de como o mundo realmente é. Uma teoria que descreve corretamente algum aspecto do mundo e seu modo de comportamento é verdadeira, ao passo que uma teoria que descreve algum aspecto do mundo e seu modo de comportamento de forma incorreta é falsa. Segundo o realismo, tal como interpretado de maneira típica, o mundo existe independentemente de nós conhecedores, e é da forma que é independentemente de nosso conhecimento teórico. Teorias verdadeiras descrevem corretamente aquela realidade. Se uma teoria for verdadeira, ela é verdadeira por ser o mundo como é. O instrumentalismo envolve também uma noção de verdade, mas de forma mais restrita. As descrições do mundo observável serão verdadeiras ou falsas se descritas corretamente ou não. As elaborações teóricas, no entanto, são projetadas para nos dar um controle instrumental do mundo observável e não devem ser julgadas em termos de verdade ou falsidade, mas antes em termos de sua utilidade como instrumentos.

A ideia de que a ciência visa uma caracterização verdadeira da realidade é usada frequentemente como uma resposta ao relativismo. Popper, por exemplo, utiliza a verdade desta for ma. Segundo este uso, uma teoria pode ser verdadeira embora ninguém creia nela e pode ser falsa ainda que todos creiam nela. As teorias verdadeiras, se realmente o são, não são verdadeiras em relação às crenças de indivíduos ou de grupos. A verdade, compreendida como a caracterização correta da realidade, é a verdade para realistas como Popper.

Argumentarei, mais adiante neste capítulo, que a noção de verdade tipicamente incorporada no realismo é problemática.

Antes de fazê-lo olharei mais detalhadamente o instrumentalismo e mostrarei como, a julgar pelas aparências, o realismo parece possuir nítidas vantagens sobre ele.

 

Instrumentalismo

 

O instrumentalismo em sua forma extrema envolve uma distinção clara entre os conceitos aplicáveis a situações observáveis e os conceitos teóricos. O objetivo da ciência é produzir teorias que sejam esquemas ou instrumentos convenientes para ligar um conjunto de situações observáveis com um outro. As descrições do mundo que envolvam entidades observáveis descrevem realmente como o mundo é, mas as descrições de sistemas que envolvam conceitos teóricos não o fazem. Estes últimos devem ser entendidos como ficções úteis que facilitam nossos cálculos. Alguns exemplos simples ilustrarão a posição instrumentalista. O instrumentalista ingênuo admitirá que realmente existem bolas de bilhar no mundo e que elas podem rolar em várias velocidades, colidindo uma com a outra e com os lados da mesa de bilhar, que também existe realmente. Neste contexto a mecânica newtoniana deve ser considerada como um esquema de cálculo, habilitando as posições observáveis e as velocidades das bolas de bilhar em algum instante a serem deduzidas de suas posições observáveis e de suas velocidades em algum outro momento. As forças envolvidas nestes cálculos e em outros semelhantes (as forças impulsivas devidas ao impacto, as forças de fricção etc.) não devem ser tomadas por entidades com existência real. Elas são invenções do físico. De forma semelhante, os átomos e as moléculas envolvidas na teoria cinética dos gases são também consideradas por nosso instrumentalista como ficções teóricas convenientes. A introdução dessas entidades teóricas deve ser justificada pela sua utilidade em ligar um conjunto de observações de um sistema físico que envolve gases (a altura do mercúrio num manômetro, a leitura de um termômetro etc.) com um outro conjunto semelhante. As teorias científicas não são mais que conjuntos de regras para ligar um, conjunto de fenômenos observáveis com um outro. Amperímetros, limalha de ferro, planetas e raios de luz existem no mundo. Elétrons, campos magnéticos, epiciclos ptolemaicos e éter não existem.

Se há coisas que existem no mundo além das observáveis, que são talvez responsáveis pelo comportamento das coisas observáveis – elas não precisam preocupar o instrumentalista ingênuo. Qualquer que seja sua posição, para ele não é atividade da ciência estabelecer aquilo que possa existir para além do reino do observável. A ciência não dá qualquer meio seguro de transpor o fosso entre o observável e o não-observável.

As discussões das partes anteriores do livro fornecem um amplo material para a crítica dessa variedade ingênua de instrumentalismo. Talvez a crítica mais fundamental dele seja dirigida à forte distinção que o instrumentalista faz entre entidades observacionais e entidades teóricas. O fato de todos os termos observacionais estarem carregados de teoria foi extensivamente embasado do Capítulo III. Os planetas, os raios de luz, os metais e os gases são conceitos em algum grau teóricos, e adquirem seu sentido, ao menos em parte, a partir do entrelaçamento teórico em que aparecem. As velocidades que o instrumentalista ficou feliz em atribuir às bolas de bilhar em nosso exemplo acima são exemplos de um conceito teórico especialmente sofisticado envolvendo a ideia de um limite matemático, que para ser desenvolvido precisou de muito engenho e trabalho. Até mesmo o conceito de bola de bilhar implica propriedades teóricas tais como individualidade e rigidez. Na medida em que os instrumentalistas compartilham com os indutivistas uma atitude cautelosa que os encoraja a não afirmar nada além daquilo que pode ser extraído de uma base de observação segura, sua posição é solapada pelo fato de que todas as proposições de observações são dependentes de teoria e falíveis. A posição do instrumentalista ingênuo apoia-se numa distinção que não é adequada à tarefa que lhe pedem.

O fato das teorias poderem levar a predições novas é motivo de embaraço para os instrumentalistas. Deve parecer a eles um tipo estranho de acidente que as teorias, que se supõe serem meros esquemas para cálculo, possam levar à descoberta de novos tipos de fenômenos observáveis pelo intermédio de conceitos que são ficções teóricas. O desenvolvimento de teorias relativas à estrutura molecular dos compostos químicos orgânicos nos dá um bom exemplo. A ideia de que a estrutura molecular de alguns compostos, do benzeno por exemplo, deveria consistir de anéis fechados de átomos foi primeiro proposta por Kekulé. O próprio Kekulé tinha com a sua teoria uma atitude um tanto instrumentalista e considerava suas estruturas anulares ficções teóricas úteis. A respeito desse ponto de vista, deve ser considerada como uma coincidência notável que estas ficções téoricas possam ser vistas quase que “diretamente” no microscópio eletrônico. Da mesma forma, os defensores instrumentalistas da teoria cinética dos gases devem ter sido tomados de surpresa ao observar os resultados das colisões de suas ficções teóricas com partículas de fumaça no fenômeno do movimento browniano. Finalmente, o próprio Hertz relatou que havia sido capaz de produzir os campos da teoria eletromagnética de Maxwell numa “forma visível e quase tangível”. Episódios como esse solapam a afirmação instrumentalista ingênua de que as entidades teóricas possuem uma existência fictícia ou irreal numa forma que as entidades observáveis não tem. Dificuldades adicionais com o instrumentalismo virão à luz na seção 4.

Na medida em que estão preparados para conjecturar que as entidades teóricas de suas teorias correspondem àquilo que realmente existe no mundo, os realistas são mais especulativos e audazes e menos cautelosos na defensiva que os instrumentalistas. Visto isso, e a discussão da superioridade da visão falsificacionista da ciência sobre a indutivista nos Capítulos IV e V, poderíamos esperar que a atitude realista fosse mais produtiva que a instrumentalista. Sustentaremos com um exemplo histórico que este é realmente o caso.

Alguns contemporâneos de Copérnico e de Galileu assumiram uma atitude instrumentalista para com a teoria copernicana. Osiander, o autor do prefácio da obra principal de Copérnico, The Revolutions of the Heavenly Spheres, escreveu:

... é o dever de um astrônomo compor a história dos movimentos

celestes através de uma observação hábil e cuidadosa. Voltando-se então para as causas desses movimentos e hipóteses a respeito deles, ele deve conceber e arquitetar, já que não pode, de modo algum, chegar às causas verdadeiras, tais hipóteses que, sendo adotadas, habilitem os movimentos a serem calculados corretamente dos princípios da geometria, para o futuro, bem como para o passado. Este autor (Copérnico) desempenhou de forma excelente estes dois deveres. Pois não é preciso que estas hipóteses sejam verdadeiras ou mesmo prováveis; se fornecerem um cálculo consistente com as observações, isto só basta.

Isto é, a teoria copernicana não deve ser tomada como uma descrição de como o mundo é na realidade. Ela não afirma que a Terra realmente se move ao redor do Sol. É antes um artifício de cálculo que habilita que um conjunto de posições planetárias observáveis seja ligado a outros conjuntos. Os cálculos tornam-se mais fáceis se o sistema planetário for tratado como se o Sol estivesse no centro.

Em contraste com isso, Galileu era um realista. Quando ele se levantou depois de haver confessado, ajoelhado diante da inquisição romana, os “erros de suas atividades” em defender o sistema copernicano, alega-se que ele bateu de leve no solo e murmurou “e, entretanto, ela se move”. Para um defensor realista da teoria copernicana a Terra realmente se move ao redor do Sol.

Os partidários de Osiander tinham bons motivos para entrar em sua linha instrumentalista. Ao fazê-lo eles certamente evitaram as controvérsias que gravateavam ao redor do conflito entre a teoria copernicana por um lado e o cristianismo contemporâneo e a metafísica aristotélica por outro. Havia também argumentos físicos contra o sistema copernicano, tal como discutimos no Capítulo VI e uma interpretação instrumentalista da teoria a protegia daquelas dificuldades. Em contraste com isso, a posição realista defendida por Galileu colocava muitos problemas. Foram exatamente estes problemas que deram um grande incentivo para o desenvolvimento de uma ótica e lana mecânica mais adequada. Como nosso estudo anterior demonstrou, a atitude realista é que foi produtiva, pelo menos neste caso. Ainda que a teoria copernicana tivesse provado ser incapaz de vencer sua inadequabilidade, muito teria sido aprendido no processo a respeito de ótica e de mecânica. Deve-se preferir a atitude realista à instrumentalista ingênua porque abre mais oportunidades de desenvolvimento.

 

A Teoria da Correspondência da Verdade

 

Tal como indicado na seção 1, a posição realista típica incorpora uma noção de verdade de maneira tal que se pode dizer que as teorias verdadeiras dão uma descrição correta do mundo real. Investigarei, nesta seção, as tentativas que foram feitas para tornar mais precisa a noção de verdade que opera em relação a isso. Embora não vá argumentar sobre isso aqui, suponho que a chamada “teoria da verdade de correspondência” seja a única competidora viável para um relato da verdade que seja capaz de corresponder às exigências do realista, e me restringirei à discussão e à crítica daquela teoria.

A ideia geral da teoria da verdade da correspondência parece suficientemente simples e pode ser ilustrada com exemplos do discurso comum de forma a fazê-la parecer quase tri vial. Segundo a teoria da correspondência uma sentença e verdadeira se corresponde aos fatos. Assim, a sentença “o gato está na esteira” é verdadeira se corresponde aos fatos, isto é, se há realmente um gato na esteira, ao passo que é falsa se não houver um gato na esteira. Uma sentença é verdadeira se as coisas são como a sentença diz que são, e falsa se não o são.

Uma das dificuldades com a noção de verdade é a facilidade com que seu uso pode levar a paradoxos. O assim chamado paradoxo do mentiroso nos fornece um exemplo. Se eu digo “eu nunca falo a verdade” então, se o que eu disse é verdade, o que eu disse é falso. Um outro exemplo bem conhecido é o seguinte: imaginemos um cartão que tem escrito num dos lados “A sentença escrita no outro lado deste cartão é verdadeira”, enquanto no outro lado do cartão está escrito “A sentença escrita no outro lado deste cartão é falsa”. Não é difícil ver de que maneira, dada a situação, pode-se chegar à conclusão paradoxal de que qualquer das sentenças no cartão é tanto verdadeira quanto falsa.

O lógico Alfred Tarski demonstrou como podem ser evitados os paradoxos num sistema específico de linguagem. O passo crucial foi sua insistência em que, quando se está falando sobre a falsidade ou verdade das sentenças em algum sistema de linguagem, devem-se distinguir sistemática e cuidadosamente as sentenças no sistema de linguagem de que se fala, a “linguagem objeto”, das sentenças no sistema de linguagem em que se fala a respeito da linguagem objeto, a “metalinguagem”. Referindo-se ao paradoxo do cartão, se adotarmos a teoria de Tarski devemos então decidir se as sentenças no cartão estão dentro do sistema de linguagem de que se fala ou dentro do sistema de linguagem em que se está falando. Se as sentenças em ambos os lados do cartão devem ser tomadas na linguagem objeto, então elas não podem ser também entendidas como se referindo uma à outra. Caso se siga a regra de que cada uma das sentenças deva estar ou na linguagem objeto ou na metalinguagem mas não em ambas, de modo que nenhuma das sentenças possa se referir à outra, então é impossível o surgimento de paradoxos.

Uma ideia-chave da teoria de correspondência de Tarski é, então, que, se devemos falar sobre a verdade em relação às sentenças de uma linguagem específica, precisamos de uma linguagem mais geral, a metalinguagem, em que possamos nos referir tanto às sentenças da linguagem objeto e aos fatos com que se tenciona que aquelas sentenças da linguagem objeto correspondam. Era preciso que Tarski fosse capaz de mostrar como a noção de correspondência da verdade pode ser desenvolvida sistematicamente para todas as sentenças no interior da linguagem objeto de uma maneira a evitar os paradoxos. O motivo disso ser uma tarefa tecnicamente difícil é que para qualquer linguagem interessante há um número infinito de sentenças. Tarski realizou sua tarefa para linguagens que envolvem um número finito de predicados de lugar único, isto é, predicados tais como “é branco” ou “é uma mesa”. Sua técnica implicava tomar como dado o que significa para um predicado ser satisfeito por um objeto x. Os exemplos da linguagem cotidiana parecem triviais. Por exemplo, o predicado “é branco” é satisfeito pelo objeto x se, e apenas se, x for branco e o predicado “é uma mesa” é satisfeito por x se, e somente se, x for uma mesa. Dada essa noção de satisfação para todos os predicados de uma linguagem, Tarski mostrou como se pode construir a noção de verdade a partir desse ponto inicial, para todas as sentenças da linguagem. Para usar uma terminologia técnica, tomando-se a noção de satisfação primitiva tal como dada, Tarski definiu a verdade por uma operação repetida.

O resultado de Tarski foi certamente de grande importância técnica para a lógica matemática. Teve um significado fundamental para a teoria de modelos e teve também ramificações para a teoria das provas. Mostrou também por que as contradições podem ocorrer quando a verdade é discutida nas linguagens naturais e indicou como tais contradições podem ser evitadas. Tarski realizou mais que isso? Em especial, ele avançou na direção de uma explicação da noção de verdade de forma que possa ajudar-nos a compreender a afirmação de que a verdade é o objetivo da ciência? O próprio Tarski não era dessa opinião. Considerava o seu relato como “epistemologicamente neutro”. Outros não compartilharam de seu ponto de vista. Popper, por exemplo, escreve: “Tarski... reabilitou a teoria da correspondência da verdade ou objetiva, que havia-se tornado suspeita. Ele justificou o livre uso da ideia intuitiva de verdade como correspondência com os fatos”. Vejamos o uso que Popper faz de Tarski para ver se ele (Popper) é capaz de sustentar a afirmação de que faz sentido falar da verdade como o objetivo da ciência.

Aqui está uma tentativa de Popper para elucidar a ideia de “correspondência com os fatos”.

...consideraremos, em primeiro lugar, as duas formulações

seguintes, cada uma das quais declara de forma muito simples (numa metalinguagem) sob que condições uma certa afirmação (de uma linguagem objeto) corresponde aos fatos.

(1) A declaração, ou a afirmação, “a neve é branca” corresponde aos

fatos se, e somente se, a neve for de fato branca.

(2) A declaração, ou a afirmação, “a grama é vermelha” corresponde

aos fatos se, e somente se, a grama for de fato vermelha.

Isto é realmente tudo o que Popper tem a oferecer como tentativa de articular o que significa dizer de uma afirmação científica que ela é verdadeira ou que ela corresponde aos fatos. A julgar pelas aparências as formulações (1) e (2) de Popper são tão obviamente corretas que não chegam a ser mais que um pedantismo de filósofo.

Os exemplos que Popper oferece são tirados do discurso sensato do cotidiano. O tratamento da verdade de Popper consiste essencialmente do aparato de Tarski mais a noção de verdade do senso comum. Ora, é claro que a noção de verdade do senso comum possui algum tipo de sentido e de aplicabilidade, pois de outra forma não teríamos tal noção na linguagem e não seríamos capazes de fazer a distinção entre as verdades e as mentiras. É por termos uma concepção significativa cotidiana da verdade que as sentenças 1 e 2 de Popper, na citação acima, parecem óbvia e trivialmente corretas. A questão importante que se coloca aqui é “a noção de verdade do senso comum é adequada para entender a afirmação de que a verdade é o objetivo da ciência?”. Na próxima seção argumentarei que não o é.

 

Problemas com a Noção de Verdade do

Senso Comum

 

Antes de levantar problemas para a aplicação à ciência da noção de verdade do senso comum como correspondência com os fatos, gostaria de descartar uma objeção a ela que considero enganada. Se me perguntarem a que corresponde uma afirmação como “o gato está na esteira”, a menos que eu me recuse a responder, preciso oferecer alguma afirmação como resposta. Responderei que “o gato está na esteira” corresponde ao gato estar na esteira. Os partidários da objeção que tenho em mente responderiam a isso dizendo que ao dar a minha resposta eu não caracterizei uma relação entre uma afirmação e o mundo mas entre uma afirmação e outra. Que isso é uma objeção mal orientada pode ser ressaltado com uma analogia. Se eu tiver um mapa da Austrália e me perguntarem a que se refere o mapa, a resposta é então “Austrália”. Ao dar esta resposta não estou dizendo que o mapa se refere à palavra “Austrália”, mas se me perguntam a que se refere o mapa preciso dar uma resposta verbal. Nem no caso do gato, nem no do mapa pode-se dizer sensatamente que a resposta verbal me envolve na afirmação que, no primeiro caso a sentença “o gato está na esteira” e no segundo caso o mapa, se refere a algo verbal. Para mim, ao menos, a afirmação “o gato está na esteira” é perfeitamente inteligível enquanto se refere ao gato estar na esteira, e, ao menos de um ponto de vista de senso comum, correta.

Tendo descartado a objeção enganada à teoria da correspondência, gostaria de enfatizar um aspecto relacionado com isso. Dentro da teoria de correspondência da verdade é preciso que possamos nos referir, na metalinguagem, às sentenças de um sistema de linguagem ou teoria e aos fatos a que tais sentenças podem ou não corresponder. Entretanto, somente podemos falar dos fatos a que se tenciona que uma sentença se refira usando os mesmos conceitos que estão envolvidos na sentença. Ao dizer “o gato está na esteira” utilizamos duas vezes “gato” e “esteira”, uma vez na linguagem objeto e depois novamente na metalinguagem, para nos referirmos aos fatos. Os fatos a que a teoria se refere e a que se tenciona que ela corresponda somente podem ser falados usando-se os conceitos da própria teoria. Os fatos não nos são acessíveis, nem deles se pode falar, independentemente de nossas teorias.

Se a intenção é a de que as teorias no interior da física correspondam aos fatos, então as correspondências envolvidas são notavelmente diferentes daquelas aparentemente envolvi das em nossa conversa sobre gatos em esteiras. Que tal acontece fica claro a partir do argumento central do livro de Roy Bhaskar A Realist Theory of Science. A análise de Bhaskar mostra que as leis e teorias científicas não podem ser interpretadas como expressando relações entre conjuntos de eventos, como querem muitos empiristas. As leis da ciência não podem ser interpretadas de forma apropriada como interpretando conjunções de eventos da forma “eventos do tipo A são invariavelmente acompanhados ou seguidos por eventos do tipo B”. O argumento de Bhaskar baseia-se no fato de que a física envolve experimentos e no papel que os experimentos desempenham na física. Os experimentos são executados por agentes humanos. Os agentes humanos arquitetam e montam os aparatos experimentais que constituem os sistemas quase fechados apropriados para testar as leis e teorias científicas. Os eventos que ocorrem durante a execução de um experimento, as luzes nas telas, as posições dos ponteiros nas balanças e assim por diante são, em certo sentido, ocasionados por agentes humanos. Eles não ocorreriam se não fosse pela intervenção dos agentes humanos. Enquanto trata-se do caso que, nesse sentido, as conjunções de eventos relevantes ao teste de leis são ocasionados por seres humanos, as leis que os experimentos tornam possíveis testar não são ocasionadas por humanos. (É muito fácil perturbar o funcionamento de um experimento com alguma intervenção desajeitada, perturbando assim a conjunção de eventos buscada. Ao fazê-lo eu não perturbo as leis da natureza.) Deve haver, consequentemente, uma distinção entre as leis da física e as sequências de eventos tipicamente produzidos pela atividade experimental e que constituem as provas destas leis.

Se pensarmos na física como uma busca da verdade, as correspondências envolvidas são fundamentalmente diferentes daquelas expressas em afirmações a respeito de neve branca e gatos na esteira. Grosso modo, as leis da física escolhem certas propriedades ou características que podem ser atribuídas aos objetos ou sistemas no mundo (a massa, por exemplo) e expressam as maneiras pelas quais aqueles objetos e sistemas tendem a se comportar em virtude daquelas propriedades ou características (a lei da inércia, por exemplo). Em geral os sistemas do mundo possuem outras características além daquelas destacadas por uma lei específica e estarão sujeitos à operação simultânea das tendências comportamentais associadas com aquelas características adicionais. Por exemplo, uma folha que cai é ao mesmo tempo um sistema mecânico, hidromecânico, químico, biológico, ótico e térmico. As leis da natureza não se referem a relações entre eventos localizáveis, como gatos em esteiras, mas sim a algo que poderíamos chamar de tendências transfactuais.

Tomemos como exemplo a primeira lei do movimento de Newton, a lei que Alexandre Koyré descreveu como a explicação do real pelo impossível. Certamente corpo algum jamais se moveu de uma maneira que exemplificasse aquela lei de modo perfeito. E, no entanto, se a lei está correta, todos os corpos a obedecem, embora raramente tenham a oportunidade de mostrá-lo. Se as leis de Newton são “verdadeiras”, elas são “verdadeiras” sempre. Elas não são verdadeiras apenas sob condições experimentalmente controladas. Se as leis de Newton são verdadeiras, elas são sempre verdadeiras, mas geralmente acompanhadas pela ação simultânea de outras tendências. Se as leis de Newton correspondem a alguma coisa, correspondem a tendências transfactuais, que são coisas muito diferentes de estados de coisas localizados tais como gatos estarem em esteiras.

Até agora tenho me preocupado com os tipos de correspondências que possam estar envolvidos na física. Considerarei algum motivo para duvidar que a física possa ser interpretada como uma busca de verdade.

O tipo de problema que tenho em mente foi ressaltado por Kuhn. Tem a ver com a falta de convergência mostrada pela história da física em relação aos tipos de coisas que existem e as tendências que possuem. A história da ótica fornece um exemplo marcante. Na progressão da ótica de Newton até os dias de hoje vemos que um raio de luz é descrito, primeiro como uma corrente de partículas, depois como onda e mais tarde como algo que não é nem uma corrente de partículas nem uma onda. Como é possível que esta sequência de teorias seja interpretada como se aproximando cada vez mais de uma descrição verdadeira de como o mundo realmente é? Este tipo de problema surge, embora de maneira não tão nítida, sempre que há avanço revolucionário na física.

Um outro problema para a aplicação à física da teoria da correspondência da verdade envolve o fato de que existem com frequência formulações alternativas e de aparência muito diferente da mesma teoria. Um exemplo são as formulações alternativas da teoria eletromagnética clássica: uma formulação em termos de campos eletromagnéticos que ocupam o espaço todo e a outra em termos de cargas e correntes localizadas atuando à distância, as ações sendo expressas sob a forma de potenciais propagados à velocidade da luz. Outros exemplos são as várias formulações da mecânica clássica e a mecânica quântica. Parece haver uma forte possibilidade de que algumas dessas formulações alternativas são equivalentes, no sentido de que qualquer coisa que possa ser prevista ou explicada por uma pode ser prevista e explicada pela outra. Alternativas equivalentes deste tipo, se é que existem, constituem um embaraço para os defensores da teoria de correspondência. Aqueles defensores enfrentam a questão, por exemplo, de se o mundo realmente contém campos eletromagnéticos ou potenciais propagados, e ficam sem meios de responder a questão.

Uma terceira dificuldade para os defensores da teoria da correspondência origina-se no fato de que as teorias são produtos humanos sujeitos ao desenvolvimento e à mudança, ao passo que o modo de comportamento do mundo físico, que é objeto daquelas teorias, não o é. Uma versão forte do ponto de vista de que o objetivo da ciência é a verdade entra em conflito com esta observação simples. Do ponto de vista da teoria da verdade da correspondência, o ponto final ideal de algum ramo da ciência será a “verdade objetiva ou absoluta”. Será a descrição correta daquele aspecto do mundo sobre o qual versa aquele ramo da ciência. A não ser por alguns aspectos menores, tais palavras, usadas para denotar as características preexistentes do mundo, o ponto final de um ramo da ciência, a verdade, não será absolutamente um produto social. Está preordenado pela natureza do mundo antes que a ciência chegue mesmo a começar. A ciência, que é um produto social, para conseguir chegar ao seu ponto final, assim concebido, mudaria abruptamente de ser um produto social, humano para ser algo que, em um sentido forte, não é absolutamente um produto humano. Eu, por minha parte, acho isso, no mínimo, implausível.

 

Popper a Respeito da Aproximação da Verdade

 

Uma contribuição importante ao projeto de Popper de interpretar a ciência como uma busca da verdade foi o seu reconhecimento da importância da ideia da aproximação da verdade. Para Popper, o falibaista, teorias passadas que foram substituídas, como as mecânicas de Galileu ou de Newton, são falsas à luz de nossas teorias atuais, enquanto no que se refere às modernas teorias einsteinianas ou quânticas da física, não podemos saber se são verdadeiras. Na realidade, o mais provável é que sejam falsas e passíveis de serem substituídas no futuro por teorias superiores. Apesar dessa falsidade ou da provável falsidade de nossas teorias, os falsificacionistas como Popper desejam dizer que a ciência tem progredido cada vez mais para perto da verdade. Por exemplo, eles precisam ser capazes de dizer que a teoria de Newton está mais próxima da verdade que a de Galileu, ainda que as duas sejam falsas. Popper percebeu que era importante para ele fazer com que a ideia da aproximação da verdade fizesse sentido, de modo que, por exemplo, faça sentido dizer que a teoria de Newton é uma melhor aproximação da verdade que a de Galileu.

Popper tentou fazer com que a aproximação da verdade, ou verossimilhança, como ele a chamava, fizesse sentido em termos das consequências verdadeiras ou falsas de uma teoria.

Se chamarmos a classe de todas as consequências verdadeiras de uma teoria de seu conteúdo de verdade e a classe de todas as consequências falsas de uma teoria de seu conteúdo de falsidade, podemos então dizer, citando Popper.

supondo que o conteúdo de verdade e o conteúdo de falsidade de

duas teorias t1 e t2 são comparáveis, podemos dizer que t2 se assemelha mais de perto à verdade, ou corresponde melhor aos fatos que t1, se, e apenas se ou (a) o conteúdo de verdade mas não o conteúdo de falsidade de t2 exceda o de t1 (b) o conteúdo de falsidade de ti, mas não o seu conteúdo de verdade, exceda o de t2.

Caso formos mais além e supormos que é mensurável o tamanho das duas classes, uma suposição que Popper considera duvidosa, nós podemos dizer que a verossimilhança de uma teoria é algo semelhante à medida de seu conteúdo de verdade menos a medida de seu conteúdo de falsidade. A afirmação de que uma ciência aproxima-se da verdade pode ser reformulada agora “na medida em que progride a ciência, aumenta constantemente a verossimilhança de suas teorias.”

Não acho que este passo de Popper o habilita a superar as objeções à aplicação da teoria da correspondência à física discutidas na seção anterior. Acho ainda mais que pode ser demonstrado que a visão de progresso de Popper como uma aproximação sucessiva à verdade tem um caráter instrumentalista que não se coaduna com suas aspirações realistas.

Se considerarmos as mudanças revolucionárias no desenvolvimento da física, então, não somente a teoria que é substituída como resultado de uma revolução é inadequada à luz da teoria que a substitui, mas ela atribui ao mundo características que este não possuí. Por exemplo, a teoria de Newton atribui a propriedade “massa” a todos os sistemas ou partes de sistemas do mundo, enquanto do ponto de vista da teoria de Einstein tal propriedade não existe. A massa einsteiniana é uma relação entre um sistema físico e um quadro de referência. Como vimos, tanto Kuhn quanto Feyerabend enfatizaram a extensão em que o mundo mecânico descrito pela teoria de Newton é diferente do mundo descrito pela teoria de Einstein. Os antiquados e inadequados conceitos de massa, força, espaço e tempo utilizados na formulação da teoria newtoniana, são transmitidos para todas as suas consequências dedutivas. Portanto, afirmando rigorosamente, se estivermos falando em termos de verdade e falsidade, todas aquelas consequências dedutivas são falsas. O conteúdo de verdade da teoria de Newton é zero, como é o conteúdo de verdade de todas as teorias mecânicas anteriores a Einstein. O conteúdo de verdade da própria teoria de Einstein pode ser provado como zero depois de alguma revolução científica. Vista dessa forma, a tentativa de Popper de comparar teorias “falsas” comparando seus conteúdos de verdade e de falsidade, interpretando assim a ciência como se aproximando da verdade, fracassa.

Há uma maneira em que o conceito de Popper de aproximação da verdade pode ser tornada imune a este tipo de crítica. Isto implica interpretar as teorias instrumentalmente. Se, por exemplo, acrescentarmos às afirmações de Newton certos procedimentos práticos para testá-la, procedimentos definidos para medir massa, comprimento e tempo, podemos dizer que uma larga classe das previsões da teoria newtoniana, interpretada em termos de leituras de balanças e relógios e outras coisas, se revelarão corretas dentro dos limites da precisão experimental. Quando interpretadas dessa forma, o conteúdo de verdade da teoria de Newton e de outras teorias falsas não será zero e pode muito bem ser possível aplicar o conceito de Popper de aproximação da verdade a algumas séries de teorias dentro da física. Contudo, esta interpretação da teoria de verossimilhança de Popper introduz um elemento instrumentalista que vai de encontro às intenções realistas de Popper, expressas em outros lugares. Colide, por exemplo, com a afirmação de que “o que tentamos na ciência é descrever e (na medida do possível) explicar a realidade”. Darei no próximo capítulo um forte argumento para demonstrar que este recuo instrumentalista do realismo não é adequado.

 

Outras Leituras

 

O realismo e o instrumentalismo são discutidos em K. R. Popper, “Three Views Concerning Human Knowledge”, em Conjectures and Refutations (Londres: Routledge and Kegan Paul, 1%9), pp. 97-119; P. K. Feyerabend, “Realism and Instrumentalism”, em The Critical Approach to Science and Philosophy, ed. M. Bunge (Nova York: Free Press, 1964), pp. 280-308; e J. J. C. Smart, Between Science and Phílosophy (Nova York: Random House, 1968). A obra formal de Tarski a respeito da verdade está em seu “The Concept of Truth in Formalised Languages”, reimpresso em Logic, Semantics and Metamathematics (Londres: Oxford University Press,1956), pp. 152-278.