O Que É Ciência, Afinal?

Alan Chalmers · Capítulo 13 de 17

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O Que É Ciência, Afinal?

10. Objetivismo

 

Da maneira como usarei o termo, objetivismo quanto ao conhecimento humano é um ponto de vista que enfatiza que itens do conhecimento, desde proposições simples até teorias complexas, possuem propriedades e características que transcendem as crenças e estados de consciência dos indivíduos que os projetam e contemplam. (Estaria de acordo com o ponto de vista objetivista observar que na própria posição objetivista que apresento neste capítulo pode haver contradições ou ela pode levar a consequências de que não estou consciente e que não me seriam bem-vindas.) O objetivismo é oposto à perspectiva a que me referirei como individualismo, segundo a qual o conhecimento é compreendido em termos das crenças dos indivíduos. Para esclarecer no que faz supor o objetivismo, seria proveitoso dizer algumas coisas primeiro a respeito do individualismo e contrastar, depois, o objetivismo com ele.

 

Individualismo

 

Do ponto de vista individualista o conhecimento é compreendido como um conjunto especial de crenças de indivíduos que reside em seus cérebros ou mentes. E um ponto de vista que certamente ganha sustentação no uso comum da língua. Se digo: “Eu conheço a data em que escrevi este parágrafo específico mas você não a conhece”, então estou me referindo a algo que está entre as minhas crenças e que num certo sentido reside em minha mente ou em meu cérebro, mas que não se encontra entre suas crenças e está ausente de sua mente ou cérebro. Se formulo a questão: “Você sabe ou não a primeira lei de movimento de Newton?” estou fazendo uma pergunta com a qual você, como indivíduo, está familiarizado. Claro está que o individualista que aceita esta forma de compreender o conhecimento em termos de crença não aceitará todas as crenças como constituindo conhecimento genuíno. Se eu acredito que a primeira lei de Newton diz: “As maçãs caem para baixo”, então estou simplesmente enganado e minha crença equivocada não constituirá conhecimento. Se uma crença deve ser considerada como conhecimento genuíno, deve ser possível então justificar a crença demonstrando-a como verdadeira, ou como provavelmente verdadeira, recorrendo-se às provas apropriadas. “O conhecimento, deste ponto de vista, é a crença verdadeira adequadamente provada, ou alguma fórmula semelhante.”

Se o conhecimento for visto da posição individualista não é difícil ver como surge um problema fundamental. É o chamado regresso infinito dos motivos que remonta, a Platão, no mínimo. Se alguma afirmação deve ser justificada, isto então será feito recorrendo-se a outras afirmações que constituem as provas para ela. Mas temos aqui o problema de como justificar as próprias afirmações que constituem as provas. Se as justificarmos por um recurso adicional a mais afirmações de provas, então o problema se repete e continuará a repetir-se até que se descubra uma maneira de deter o regresso infinito iminente. Para darmos um exemplo fácil, suponha que tenho o problema de justificar a primeira lei de Kepler, de que os planetas movem-se ao redor do Sol numa elipse. Se o fizer, demonstrando que sua validade aproximada se segue das leis de Newton, minha justificação estará incompleta, a menos que eu justifique as leis de Newton. Se eu tentar justificar as leis de Newton recorrendo às provas experimentais, surge então a questão da validade das provas experimentais e assim por diante. Para que se evite o problema do regresso infinito, parece que seria necessário um conjunto de afirmações que não necessitem de justificativas que recorram a outras afirmações, mas que sejam, de alguma forma, autojustificantes. Um tal conjunto de afirmações constituiria, então, os fundamentos do conhecimento e quaisquer crenças que devam adquirir o status de conhecimento deveriam ser justificadas rastreando-as de volta aos fundamentos.

Se o problema do conhecimento for interpretado desta forma, não é difícil ver como surgem duas tradições rivais na teoria do conhecimento: o racionalismo clássico e o empirismo. Falando de forma muito geral, podemos argumentar da maneira que se segue. Os seres humanos individuais têm duas maneiras de adquirir conhecimento a respeito do mundo: pensando e observando. Se dermos prioridade ao primeiro modo chegaremos numa teoria do conhecimento nacionalista clássica, ao passo que se dermos prioridade ao segundo chegaremos a uma teoria empiricista.

Segundo o nacionalista clássico, os verdadeiros fundamentos do conhecimento são acessíveis à mente pensante. As proposições que constituem aqueles fundamentos são reveladas como sendo claras, distintas e indiscutivelmente verdadeiras pela contemplação e raciocínio cuidadosos. A ilustração clássica da concepção nacionalista do conhecimento é a geometria euclidiana. Os fundamentos daquele corpo específico de conhecimentos são concebidos como axiomas, afirmações tais como “apenas uma linha reta pode ser traçada juntando dois pontos”. Pode-se dizer, de forma plausível, sobre tais axiomas, que eles são auto-evidentemente verdadeiros (embora do ponto de vista moderno alguns deles sejam falsos à luz da teoria geral da relatividade de Einstein). Uma vez que eles sejam estabelecidos como verdadeiros, todos os teoremas que se seguem deles dedutivamente serão, também, verdadeiros. Os axiomas auto-evidentes constituem os fundamentos seguros em relação aos quais o conhecimento geométrico é justificado, segundo o ideal nacionalista. O primeiro nacionalista clássico moderno, do tipo que esbocei aqui, foi René Descartes.

Para o empirista clássico, os verdadeiros fundamentos do conhecimento são acessíveis aos indivíduos através dos sentidos. Os empiristas supõem que os indivíduos possam estabelecer como verdadeiras algumas afirmações confrontando o mundo através de seus sentidos. As afirmações assim estabelecidas constituem os fundamentos sobre os quais é construído o conhecimento adicional por algum tipo de inferência indutiva. John Locke foi um dos primeiros empiristas modernos. O ponto de vista indutivista da ciência, esboçado no Capítulo I deste livro, representa um tipo de empirismo.

 

Objetivismo

 

Um indivíduo que nasce neste mundo, nasce num mundo em que há muito conhecimento. Alguém cujo objetivo seja tornar-se físico irá deparar com um corpo de conhecimentos que representa o estado atual do desenvolvimento da física, e precisará informar-se de grande parte dele se quiser fazer uma contribuição para o campo. O objetivista dá prioridade, em sua análise do conhecimento, às características dos itens ou corpos de conhecimento com que se confrontam os indivíduos, independentemente das atitudes, crenças ou outros estados subjetivos daqueles indivíduos. Falando de forma imprecisa, o conhecimento é tratado como algo exterior, antes que interior, às mentes ou cérebros dos indivíduos.

A ênfase objetivista pode ser ilustrada com referência a proposições muito simples. Dada uma linguagem, as proposições em seu interior terão propriedades, quer os indivíduos estejam delas cônscios ou não, nelas creiam ou não. Por exemplo, a proposição “meu gato e eu moramos numa casa em que não habitam animais” tem a propriedade de ser contraditória, enquanto as proposições “eu tenho um gato” e “hoje morreu uma cobaia” têm a propriedade de ser consequências da proposição “hoje meu gato branco matou a cobaia de alguém”. Nestes exemplos simples, o fato das proposições terem as propriedades que destaquei será bastante óbvio para qualquer pessoa que as contemple, mas não é necessário que assim seja. Um advogado num julgamento de um assassinato, por exemplo, pode, depois de uma análise cuidadosa, descobrir que o relatório de uma testemunha contradiz o de uma outra. Se este for realmente o caso, trata-se, então, de qual era a intenção das testemunhas e se elas estavam ou não cônscias ou se acreditavam nisso. Além do mais, se o advogado do nosso exemplo não houvesse descoberto a inconsistência, ela poderia não ter sido descoberta de modo que ninguém dela se aperceberia. No entanto, permaneceria o fato de que o relatório das duas testemunhas era inconsistente. As proposições podem ter, portanto, propriedades, independentemente de qualquer indivíduo estar cônscio delas. Elas possuem propriedades “objetivas”.

O labirinto de proposições que envolve um corpo de conhecimento em algum estágio de seu desenvolvimento terá, semelhantemente, propriedades que os próprios indivíduos que nele trabalham desconheçam. A estrutura teórica que constitui a física moderna é tão complexa que não pode ser identificada com as crenças de qualquer físico ou grupo de físicos. Muitos cientistas contribuem de maneiras separadas, com suas habilidades separadas, para o crescimento e articulação da física, do mesmo modo que muitos trabalhadores combinam seus esforços na construção de uma catedral. E da mesma forma que o alegre construtor de campanários pode estar misericordiosamente ignorante das implicações de alguma descoberta de mau agouro feita pelos que escavam próximo aos fundamentos da catedral, assim um teórico elevado pode estar ignorante da relevância de alguma descoberta experimental para a teoria em que trabalha. Em qualquer dos casos é possível que relações existam objetivamente entre as partes da estrutura independentemente da consciência que qualquer indivíduo tenha daquela relação.

Um ponto forte a favor da posição objetivista é que as teorias científicas podem ter consequências que os proponentes originais das mesmas não previam e que, até, ignoravam. Estas consequências, como a previsão de algum tipo novo de fenômeno ou um conflito inesperado com alguma outra área, existem como propriedades da nova teoria, que estão lá para serem descobertas pela prática científica adicional. Desta forma, Poisson foi capaz de descobrir e demonstrar que a teoria ondular da luz de Fresnel tinha como consequência que deveria haver um ponto brilhante no centro do lado de sombra de um disco iluminado, uma consequência que o próprio Fresnel havia ignorado. Conflitos vários entre a teoria de Fresnel e a teoria de partículas newtoniana que ela contestava foram também descobertos. Por exemplo, a primeira previa que a luz deveria andar mais depressa no ar que na água, ao passo que a segunda previa que a velocidade na água deveria ser maior. Episódios como esse fornecem provas persuasivas para o ponto de vista de que as teorias científicas têm uma estrutura objetiva externa à mente dos cientistas individuais e possui propriedades que podem ou não ser descobertas ou produzidas e que podem ou não ser compreendidas por cientistas individuais ou grupos de cientistas. Aqui está um exemplo um pouco mais detalhado, que deve servir para enfatizar este aspecto e também para conduzir para um outro aspecto relacionado.

Quando Clerk Maxwell desenvolveu sua teoria eletromagnética, na década de 1860, ele tinha em mente um certo número de objetivos explícitos. Um deles era desenvolver uma explicação mecânica dos fenômenos eletromagnéticos. O desejo de Maxwell era colocar a teoria de Faraday, que envolvia conceitos tais como “linhas de força” etc., sobre aquilo que considerava como fundamentos mais sólidos, reduzindo-a a uma teoria mecânica de um éter mecânico. No curso de seus esforços Maxwell achou conveniente introduzir um novo conceito, sua corrente de deslocamento. Uma das consequências atraentes desse passo foi que ele levou à possibilidade de uma explicação eletromagnética da natureza da luz, como Maxwell foi capaz de demonstrar. Os aspectos que desejo enfatizar no contexto atual são os seguintes: em primeiro lugar Maxwell ignorava uma das consequências mais dramáticas de sua própria teoria, a saber, que ela previa um novo tipo de fenômeno, as ondas de rádio que podem ser geradas por fontes elétricas oscilantes. Que a teoria de Maxwell tinha realmente esta consequência, apesar do fato de Maxwell não ter percebido, foi descoberto e demonstrado, depois de alguns inícios incorretos, por G. F. Fitzgerald em 1881, dois anos após a morte de Maxwell. A segunda coisa é que a formulação da teoria eletromagnética por Maxwell marcaria o primeiro passo na derrota do ponto de vista de que todo o mundo físico poderia ser explicado como um sistema material governado pelas leis de Newton, um ponto de vista que Maxwell e sua escola apoiavam avidamente. A relação objetiva entre as teorias de Newton e Maxwell é de tal natureza, que esta última não pode ser redigida à primeira, apesar disso não ter sido apreciado até as primeiras décadas do século XX. O programa de reduzir o eletromagnetismo à mecânica do éter, cuja desejabilidade era consensual na escola maxwelliana, era um programa condenado desde seu início.

Pode-se falar mais sobre este exemplo, que apoia a afirmação de que as situações problemáticas possuem existência objetiva. Enquanto maxwellianos como Oíiver Lodge e Joseph Larmor estavam tentando projetar modelos do éter, alguns físicos da Europa continental haviam discernido um outro programa que se originava da teoria da Maxwell. H. A. Lorentz, na Holanda, e H. Hertz, na Alemanha, vieram a saber que a teoria de Maxwell poderia ser estendida de maneira fecunda e aplicada a situações novas ignorando-se o éter mecânico que se alegava ser subjacente às quantidades de campo e, concentrando-se e investigando-se as propriedades dos campos tal como inter-relacionadas pelas equações de Maxwell. Este caminho provou ser muito fecundo e levou eventualmente à teoria especial de relatividade de Einstein. O que quero enfatizar aqui é que o programa que Lorentz, Hertz e outros seguiram já estava, na verdade, presente nos escritos de Maxwell sob a forma de uma oportunidade objetivamente existente, uma oportunidade que os maxwellianos não compreenderam plenamente mas que Lorentz compreendeu.

Popper traçou uma analogia entre situações problemáticas objetivamente existentes no interior da ciência e uma caixa para ninhos de pássaros em seu jardim. A caixa para ninhos representa uma situação problemática objetivamente existente e uma oportunidade para pássaros. Um dia algum pássaro poderá agarrar a oportunidade, resolver o problema e utilizar com sucesso a caixa para construir um ninho. O problema e a oportunidade existem para os pássaros quer eles reajam a elas ou não. De forma análoga, as situações problemáticas existem dentro da estrutura da ciência, quer sejam apreciadas e aproveitadas pelos cientistas ou não. O fato de que situações problemáticas fornecem oportunidades objetivas ajuda a explicar os exemplos de descobertas simultâneas na ciência, tal como a “descoberta” simultânea da lei da conservação de energia por vários trabalhadores independentes na década de 1840. Ao seguir questões relativas ao status de alguma teoria ou programa de pesquisa, o objetivista se concentrará nas características daquelas teorias ou programas, ao invés de ater-se às crenças, sentimentos de convicção ou outras atitudes dos indivíduos ou grupos que nelas trabalhem. Eles se preocuparão, por exemplo, com a relação entre a teoria de Newton e a de Galileu, e estarão especialmente interessados em mostrar em que sentido se pode dizer que a primeira constitui um avanço em relação à segunda. Não se preocuparão com questões acerca da atitude de Galileu ou de Newton para com suas teorias. Se Galileu acreditava, ou não, firmemente na verdade de suas teorias, não será de importância fundamental para uma compreensão da física e seu crescimento, embora importante, é claro, se o objetivo fosse compreender Galileu.

 

A Ciência como uma Prática Social

 

Delineei até este ponto uma posição objetivista que se concentra nas teorias tal como expressas explicitamente em proposições verbais ou matemáticas. Há na ciência mais que isso, contudo. Há também seu aspecto prático. Uma ciência, em algum estágio de seu desenvolvimento, envolverá um conjunto de técnicas para articular, aplicar e testar as teorias das quais é formada. O desenvolvimento de uma ciência ocorre de forma análoga à construção de uma catedral enquanto resultado do trabalho combinado de um certo número de indivíduos, cada qual aplicando suas habilidades especializadas. Como disse J. R. Ravetz, “o conhecimento científico é realizado por um esforço social complexo, e é obtido do trabalho de muitos artífices em sua interação muito especial com o mundo da natureza”. Uma caracterização completa da ciência incluiria a caracterização das habilidades e técnicas que ela implica.

Uma característica geral importante da física desde Galileu é o fato de que ela implica experiências. A experiência envolve uma interferência planejada na natureza, orientada pela teoria.

Uma situação artificial é construída para o propósito de explorar e testar a teoria. A prática experimental deste tipo estava ausente da física antes de Galileu. Uma consequência importante do fato da física envolver a experiência de forma fundamental será discutida nos Capítulos XIII e XIV.

Os detalhes das técnicas experimentais envolvidas na física mudaram, claro, na medida em que ela se desenvolveu. O experimentador individual, ao construir o seu aparato, ao julgar a confiabilidade de seu funcionamento e ao usá-lo para obter dados utilizará habilidades profissionais, que aprendeu em parte nos manuais, mas principalmente por tentativa e erro e pela convivência com colegas mais experientes. Qualquer que seja a confiança do experimentador individual na confiabilidade dos resultados que produz, esta confiança subjetiva não será suficiente para qualificar aqueles resultados como parte do conhecimento científico. Os resultados devem ser capazes de resistir a procedimentos de testes adicionais conduzidos, talvez, em primeiro lugar, pelos colegas do experimentador e depois, se a estrutura social da ciência for semelhante a da nossa, pelos árbitros dos periódicos. Se os resultados sobreviverem a tais testes e forem publicados, sua adequação estará aberta para ser testada numa frente mais ampla. Pode acontecer que os resultados publicados sejam descartados à luz de outros desenvolvimentos experimentais ou teóricos. Isso tudo sugere que uma descoberta experimental, quer se trate da existência de uma nova partícula fundamental, uma estimativa nova e mais precisa da velocidade da luz ou qualquer outra, é vista corretamente como o produto de uma atividade social complexa, mais que como a crença ou possessão de um indivíduo.

Uma outra característica geral da física moderna que a distingue da física de Galileu, e, de muitos outros corpos de conhecimento, é o fato de que suas teorias são expressas principalmente em termos matemáticos. Uma caracterização completa de uma ciência em algum estágio de seu desenvolvimento incluiria a caracterização das técnicas teóricas e matemáticas envolvidas. Um exemplo que já encontramos neste livro é o método, introduzido por Galileu, de dividir um setor em componentes e lidar com cada um separadamente. Um outro exemplo é a técnica de Fourier de tratar qualquer forma ondular como uma superposição de curvas de seno. Uma das diferenças cruciais entre as teorias da luz apresentadas por Young e por Fresnel foi a disponibilidade para esta última da matemática apropriada.

Uma caracterização objetivista da física em algum estágio de seu desenvolvimento incluirá, então, uma especificação das proposições teóricas disponíveis para os cientistas individuais e as técnicas experimentais e matemáticas disponíveis para seu trabalho.

 

O Objetivismo Apoiado por Popper, Lakatos

e Marx

 

O ponto de vista sobre o conhecimento que eu, seguindo Musgrave, me referi como objetivismo foi adotado, na realidade, defendido fortemente, por Popper e Lakatos. Um livro de ensaios de autoria de Popper tem por título, de forma significativa, Objective Knowledge. Assim diz uma passagem daquele livro:

Minha... tese envolve a existência de dois sentidos diferentes do

conhecimento ou do pensamento: (1) conhecimento ou pensaniento no sentido subjetivo, consistindo de um estado mental, ou da consciência ou de uma disposição a comportar-se ou a agir, e (2) conhecimento ou pensamento num sentido objetivo, consistindo em problemas, teorias e argumentos enquanto tal. O conhecimento nesse sentido objetivo é completamente independente da afirmação de qualquer pessoa de que sabe; é independente também da crença de qualquer um, ou da disposição de assentir; ou de afirmar, ou agir. O conhecimento no sentido objetivo é o conhecimento sem conhecedor; é o conhecimento sem um sujeito que sabe.

Lakatos apoiava plenamente o objetivismo de Popper e era sua intenção que a metodologia dos programas de pesquisa científica constituísse um relato objetivista da ciência. Ele falou da “separação entre o conhecimento e seu reflexo distorcido nas mentes individuais” e numa passagem mais longa observou,

...uma teoria pode ser pseudocientífica mesmo apesar de ser

eminentemente “plausível” e todo mundo crer nela, e ela pode ser cientificamente valiosa embora ninguém creia nela. Uma teoria pode ter um valor científico supremo ainda que ninguém a compreenda, ou nem mesmo crie nela.

O valor cognitivo de uma teoria nada tem a ver com sua

influência psicológica nas mentes das pessoas. Crenças, compromisso e compreensão são estados da mente humana... Mas o valor objetivo, científico de uma teoria... é independente da mente humana que a cria ou a compreende.

Lakatos insistiu que era essencial adotar uma posição objetivista ao escrever a história do desenvolvimento interno de uma ciência. “Um historiador interno popperiano não precisará ter interesse algum nas pessoas envolvidas, ou em suas crenças a respeito de suas próprias atividades.” Consequentemente a história do desenvolvimento interno de uma ciência será “a história da ciência descorporificada”.

Num certo sentido, o materialismo histórico, a teoria da sociedade e mudança social iniciada por Karl Marx é uma teoria objetivista na qual a abordagem objetivista que descrevi em relação ao conhecimento está, aplicada à sociedade como um todo. O objetivismo de Marx está evidente em seu conhecido comentário “não é a consciência dos hofens que determina o seu ser, mas, ao contrário, seu ser social é que determina a sua consciência”. Do ponto de vista materialista os indivíduos nascem em alguma parte de uma estrutura social preexistente que não escolhem e sua consciência é formada por aquilo que eles fazem e experimentam naquela estrutura. Embora os indivíduos possam vir a ter alguma compreensão da natureza da estrutura social em que vivem, haverá sempre uma “separação entre a estrutura e a operação da sociedade e seus reflexos distorcidos nas mentes individuais”. O resultado das ações sociais de um indivíduo será determinado pelos detalhes da situação e será tipicamente bem diferente daquilo que era a intenção do indivíduo. Da mesma forma que um físico que tenta contribuir para o desenvolvimento da física confronta-se com uma situação objetiva, que delimita as possibilidades de escolha e de ação e que influencia o resultado de tal ação, também, um indivíduo que espera contribuir para a mudança social se confronta com uma situação objetiva, que delimita as possibilidades de escolha e ação e que influencia o resultado de tal escolha e ação. Uma análise da situação objetiva é tão essencial para a compreensão da mudança social quanto o é para a mudança científica.

Tentarei, no próximo capítulo, dar um relato da mudança de teoria na física que é completamente objetivista.

Outras Leituras

 

As fontes principais para os escritos de Popper a respeito do objetivismo são Objective Knowledge (Oxford: Oxford University Press, 1972), especialmente os Capítulos 3 e 4, e também o Capítulo 14 de seu The Open Society and its Enemies, vol. 2 (Londres: Routledge and Kegan Paul, 1980). O objetivismo de Popper é resumido por A. Musgrave em seu “The Objectivism of Popper’s Epistemology”, em The Philosophy of Karl R. Popper, ed. P. A. Schilpp (La Salle, Illinois: Open Court, 1974), pp. 560-96. A posição de Popper é criticada por D. Bloor em “Popper’s Mystification of Objective Knowledge”, Science Studies 4 (1974): 65-76. A ciência enquanto atividade social é discutida de forma útil em J. R. Ravetz, Scientific Knowledge and its Social Problems (Oxford: Oxford University Press, 1971); J. Ziman, Public Knowledge (Cambridge: Cambridge University Press, 1968) e Leslie Sklair, Organized Knowledge (St. Albans: Paladin, 1973). Um relato mais popular, não preocupado basicamente com problemas epistemológicos, é o de Bernard Dixon, What is Science For? (Londres: Collins, 1973). Uma versão do marxismo que enfatiza o aspecto objetivista e que contém algumas indicações de um relato objetivista do conhecimento é a defendida pelo filósofo francês contemporâneo Louis Althusser. Suas obras mais relevantes são Reading Capital (Londres: New Left Books, 1970) e For Marx (Harmondsworth: Allen Lane, 1969). A este respeito, também é relevante Dominique Lecourt, Marxism and Epistemology (Londres: New Left Books, 1975).